Os meus cabelos brancos e a vulnerabilidade

Encontrei uma amiga numa conferência no último sábado e, depois de contar para ela algumas questões particulares que ando tendo com a escrita e a publicação dos meus textos aqui no blog, ela me perguntou: mas e os cabelos brancos você tingiu? (como estávamos num lugar escuro, não dava para enxergar direito o meu cabelo).

Pois é, faz tempo que não venho aqui falar dos meus cabelos brancos. Mas já adianto que eles continuam aqui e estão cada vez mais brancos. Confesso, porém, que tenho me sentido mais e mais tentada a tingi-los. Não só porque eles estão aparecendo muito, mas também porque sempre amei brincar com o meu cabelo, encontrando para ele cortes e cores diferentes. Por enquanto, porém, sigo firme no propósito de assumi-lo como ele está.

 

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Como ele está

Mas o que os meus cabelos brancos têm me feito pensar é sobre vulnerabilidade, assunto de grande interesse da pesquisadora norte-americana Brené Brown (a Carol já escreveu um post ótimo sobre o assunto, citando a Brené Brown, inclusive). Basicamente, a teoria dela considera a vulnerabilidade como uma força disponível aos seres humanos, para construir entre eles uma conexão verdadeira. Ou seja, quanto mais suas vulnerabilidades (aqui você pode substituir o termo por fraquezas) se tornam acessíveis, mais as pessoas irão se identificar com você e mais irão querer se aproximar de você, porque se sentirão acolhidas, uma vez que elas têm as mesmas vulnerabilidades ou vulnerabilidades semelhantes às suas. Como consequência, essa ligação entre as pessoas se torna um canal de cura.

Confesso que gosto muito dessa ideia, mesmo porque sinto falta de conexões verdadeiras com as pessoas. Me farto de fórmulas prontas, de máscaras, de pessoas lindas e cheirosas, que não têm defeito algum ou que estão sempre na fase “pós-defeito”, ou seja, aquilo que elas tinham de vulnerável já foi superado sempre quando você conversa com elas.

Ao mesmo tempo, fico me perguntando se entregar o ouro assim, a qualquer pessoa, de fato me fará livre. Meu medo se justifica justamente por minha vulnerabilidade mais superficial e visível: o branco dos meus cabelos. Outro dia eu estava comemorando o aniversário do meu filho com algumas pessoas e ouvi uma delas se referindo a uma outra, que nem estava lá, como “coitada”, justamente porque a pessoa estava começando a ter cabelos brancos. Fiquei espantada com o comentário e me indaguei se elas ignoravam por completo a minha presença ali – eu com os meus cabelos brancos – ou se falaram aquilo para que eu me tocasse e quem sabe resolvesse tingir os meus cabelos, me tornando, assim, menos coitada.

De uma forma ou de outra, concluí que as pessoas não estão assim tão prontas para acolher as vulnerabilidades umas das outras.  Ao assumir a vulnerabilidade da minha finitude por meio dos meus cabelos, eu automaticamente assinei a declaração de que sou uma perdedora para essas pessoas. Estou admitindo, para quem assim acredita, que me entreguei ao tempo, que estou me deixando envelhecer e ser ultrapassada por pessoas mais novas do que eu. Os cabelos brancos se tornam, portanto, uma bandeira pregada no alto da minha cabeça, anunciando para quem quiser a vulnerabilidade de todos nós, a fraqueza que ninguém quer assumir, o tabu dos tabus: eu estou mais perto da morte do que muitos outros.

Só por esse meu simples caso dos cabelos brancos, já dá para perceber a intolerância das pessoas frente às vulnerabilidades umas das outras. Mas e quando a vulnerabilidade de alguém não é tão simples assim? Como acolhê-la? É aí que eu acho que a teoria da Brené Brown pode ser insuficiente. Se não estivermos cercados de pessoas realmente interessadas em nosso bem, que se preocupem com o destino de nossas almas, que nos amem profundamente, abrir nossos quartos escuros pode ser o nosso fim, infelizmente. Expor para quem quiser ouvir que, muitas vezes, somos manipuladoras, que agimos de forma discriminatória com pessoas com determinadas características, que somos emocionalmente infiéis aos nossos cônjuges ou que somos viciadas em mentiras, aí o papo é outro. O público geral irá receber essas vulnerabilidades de braços abertos, sim, mas não para as acolher, mas para julgá-las, condená-las ou passá-las adiante em forma de gordas fofocas.

Até o momento, não tenho me importado de ser rotulada como coitada por ostentar uma cabeleira reluzente, mas não sei até quando. Também já fui mais fundo, deixando que quartos escuros em mim fossem escancarados ao público, o que me custou parte da minha saúde – por esses caminhos de superexposição não trilho mais. Onde encontrar, portanto, um refúgio para a nossa alma, onde ela descanse verdadeiramente, sem os sustos e a canseira de manter as aparências? Falo a partir da minha experiência: o meu descanso tem vindo do Senhor. Conto para Ele quais são as minhas vulnerabilidades mais recônditas e como não dou conta delas e, então, leio: Ele [o Senhor] te cobre com as suas penas e debaixo das suas asas encontras refúgio (Salmo 91.4). Ele me perdoa e me oferece a força Dele. Sigo em frente, pronta para encarar – e entregar a Ele – a próxima vulnerabilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

Fin.itude

“Somos constantemente lembrados da nossa finitude. A nossa miopia ou a dor de cabeça que às vezes nos assola são pequenos sinais disso“. Foi a frase que escutei de um grande amigo após o enterro da minha avó Martha, no dia 02 de novembro de 2017, em pleno feriado, Dia de Finados.

Pois é… Acho que eu acrescentaria também, outras dores e sintomas triviais como a cólica, a rinite incurável ou a sinusite crônica a esse comentário para trazê-lo ainda mais para o chão da vida.

Alguns dias atrás eu me assustei com a quantidade de cabelo branco que brotou em minha cabeça. Instantaneamente me bateu uma tristeza, infelizmente, não pude conte-la. Sim, estou ficando velha, pensei.

Mas por que a gente, geralmente, varre para debaixo do tapete assuntos inerentes a nossa existência, como a velhice ou a morte, por exemplo? Se falássemos mais sobre eles, talvez viveríamos uma vida mais consciente, mais intencional.

Com a despedida da minha avó e dias depois um até breve à mãe de uma grande amiga, constatei que eu negligencio e muitas vezes levo uma vida inerte a tais assuntos. É tanta demanda que eu mesma crio para mim que vou esquecendo do futuro que me reserva.

Diariamente, cada célula do meu corpo está morrendo e se regenerando de forma mais lenta. Percebo que a minha imunidade baixa mais rapidamente trazendo a gripe se eu não durmo o mínimo necessário ou me alimento bem. Ou o meu joelho esquerdo teima em doer no frio, e mais intensamente por subir diversas vezes a escada, me lembrando que eu preciso ficar mais atenta a minha saúde e aos sinais do meu corpo.

Confesso que, às vezes, mesmo não querendo, isso tudo me entristece. A velhice me lembra que estou partindo, morrendo, que sou finita. Mas, durante o velório e enterro da minha avó, pude refletir como a velhice e a morte também podem nos ensinar a viver melhor. Contraditório? Hum, talvez não. Como disse um outro amigo ao saber um pouco da história da minha avó: “Sua avó, com 96 anos e 13 filhos viveu uma vida plena”.

É isso… Vida plena. A velhice e a morte também podem ser belas mesmo que momentaneamente dolorosas. E a vida, velhice e morte dela (minha avó) me ensinou isso. Eu quero então viver uma vida plena, cheia de rugas e com a cabeça repleta de cabelo branco sim, mas uma vida completamente vivida até o meu último suspiro de vida.

“Almond Blossom” de Vincent van Gogh (1890)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2

Hoje, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante, a história que vamos contar é daquela que veio a torna-se conhecida por ter se casado com o ícone da Reforma, Martinho Lutero.

Mas a vida de Katharina von Bora é recheada de inspiração, liberdade, coragem e garra. Certamente que seu casamento com Lutero a transformou – dando a ela a oportunidade de estar diariamente ao lado daquele que veio a contribuir também para a mudança na vida de tantas outras pessoas ao redor do mundo. Mas sua determinação e coragem são marcas inegáveis que, já eram traços antes mesmo de seu casamento com Lutero e que a impulsionaram a dar um passo tão ousado: o de abandonar o mosteiro em que vivia e sua posição de freira.

Boa leitura e inspire-se!

 

KATHARINA VON BORA

Katharina foi uma mulher corajosa, ousou mudar completamente sua vida, ao fugir de um mosteiro e se lançar à uma vida ‘comum’. Tornou-se conhecida por ser a esposa de Lutero, a quem amava como esposo, companheiro e alguém que contribuiu para seu futuro de liberdade em Cristo e por Ele. Soube desempenhar seu papel de mãe juntamente com seu dom da hospitalidade, acolhendo a tantos! Mas também foi uma ótima empreendedora e administradora

Katharina nasceu em janeiro de 1499, na Alemanha – quanto ao local exato, há diferentes opiniões entre os historiadores, mas um dos possíveis locais de seu nascimento é Zülsdorf, próximo a Lippendorf. Seus pais eram nobres empobrecidos e que após seu nascimento precisaram vender sua propriedade.

Sabe-se que sua mãe morreu quando Katharina ainda era bem nova e com apenas 5 anos de idade foi levada por seu pai para o convento beneditino em Brehna. E depois de alguns anos, como sua família não conseguia prover o pagamento anual necessário, transferem-na para o mosteiro das monjas “Sistersinianas Trono de Maria”, em Nimbschen. Não só pelo motivo financeiro – pois, diferente do mosteiro anterior a contribuição nesta era espontânea – mas outros fatores também influenciaram tal decisão: a recém-eleita madre superiora do mosteiro era uma parenta de sua mãe e sua tia Magdalena von Bora morava há muitos anos neste mosteiro.

Vários nobres empobrecidos nesta época colocavam suas filhas em mosteiros pois além do estudo que forneceriam a suas filhas, a um preço acessível, achavam também que suas filhas não conseguiriam se casar, devido sua baixa condição financeira. Então se deixasse-as no mosteiro, garantiria a elas uma vida de estudo e cuidado pelo resto de suas vidas.

Em 1514, Katharina torna-se noviça e em 1515 é ordenada freira, ainda no mosteiro de Nimbschen.

Em 1517, Katharina tinha 18 anos e, apesar de viver atrás dos muros do convento, privada dos acontecimentos do mundo, era uma jovem autossuficiente e com sede de liberdade. Assim como outras freiras deste convento, que no fundo, desejavam uma outra vida, uma vida que extrapolasse os muros do convento, Katharina ficou entusiasmada com os escritos de Lutero.8

Especula-se que as freiras de Nimbschen tenham tomado conhecimento dos escritos de Lutero através de parentas do prior9 do mosteiro dos agostinianos (ordem religiosa de Lutero e que ficava na cidade de Grimmma, próximo a Nimbschen), neste mosteiro os escritos de Lutero tinham livre acesso e tais parentas tinham irmãs no mosteiro em que Katharina se encontrava. Outra hipótese também é que o comerciante Leonardo Koppe, que era amigo de Lutero, semanalmente ia ao mosteiro de Nimbschen e através desse contato as freiras obtiveram acesso aos escritos de Lutero.

Depois de ler o texto Da liberdade cristã de Lutero, Katharina e as demais freiras experimentaram uma libertação: a vida acética que levavam no convento já não fazia mais sentido. Chegaram a escrever para suas famílias manifestando a vontade de sair do mosteiro. No entanto, sair do mosteiro era um passo totalmente incomum para a época, por isso foram reprimidas por suas famílias em sua decisão. Lutero sentiu-se responsável por elas, pois, afinal de contas, foram os seus escritos e a sua teologia que fizeram com que tomassem tal decisão. Lutero lembrou-se de seu amigo comerciante, Leonardo Koppe, para bolar um plano de fuga para as freiras. Então, na Páscoa de 1523, Koppe retirou doze freiras entre barris de sardinha.10

Ao total 12 freiras fugiriam do convento e foram acolhidas por Lutero. Este conseguiu que 3 das 12 freiras fossem acolhidas por famílias em Torgau e para as demais continuou procurando um lar e empenhando-se em achar um esposo para cada uma delas.

Katharina von Bora, a princípio, foi acolhida pela família Reichenbach e foi nesta casa que provavelmente aprendeu a administrar um lar, nessa época as responsabilidades de uma dona de casa extrapolavam o zelo pela casa em si, mas também se referia a administração das terras, agricultura, criação de animais, a comercialização dos produtos cultivados além da coordenação de todos os empregados da casa.

Posteriormente, Katharina foi viver com a família de Lucas e Bárbara Cranach. Lucas era um grande pintor renascentista que trabalhou durante muitos anos para a corte dos Eleitores da Saxônica e é bem conhecido por ter pintado retratos tanto de príncipes como de líderes da Reforma – a imagem de Katharina, que ilustra esse post, é de sua autoria assim como uma das imagens mais conhecidas de Lutero e Melanchthon também são de sua autoria. E é neste lar que Katharina vive até seu casamento com Lutero.

Antes de se casar com Lutero, Katharina viveu algumas desventuras e tentativas frustradas da própria parte de Lutero em arranjar um par para ela – uma vez que ele achava que jamais viria a se casar indo contra à sua própria opinião que pastores e líderes deveriam unir-se em matrimônio.

Mas em 1525, em 13 de junho, Lutero chama um pequeno círculo de amigos e celebra seu casamento com Katharina von Bora – ele com 42 anos e ela com 26 anos de idade. E deste pequeno círculo de amigos, seu grande amigo Filipe Melanchthon não esteve presente pois não concordava com esta decisão. E após 14 dias dessa celebração a cerimônia aberta do casamento dos dois foi realizada, com amigos e parentes presentes.

A casa de Lutero e Katharina era o prédio onde anos atrás os monges agostinianos viviam (Schwarzer Kloster) e que a princípio havia sido liberado para que eles morassem pela Universidade de Wittenberg mas um tempo depois foi doado definitivamente pelo príncipe.

Em seu lar, não vivia apenas a família Luther. Muitos hóspedes passavam por lá, além de estudantes, freiras foragidas, crianças órfãs. Não é à toa que, apesar do bom ordenado de Lutero, somado à excelente administração dos bens e ao trabalho dedicado de Katharina, a família sempre tinha que lutar para que o orçamento não fosse extrapolado.11

Katharina reformou o mosteiro e o administrou com uma rotina bastante atarefada, além de sempre receberem alunos e hóspedes em sua casa ainda tinham uma horta, um orquidário, confeccionavam material para pescaria, e posteriormente adquiririam uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira.

Tiveram 6 filhos (3 filhas e 3 filhos), porém só 4 deles vieram a completar a idade adulta: um tornou-se advogado, outro médico, outro teólogo e a única mulher casou-se com um rico prussiano. Mas além de seus próprios filhos, cuidaram e criaram sobrinhos tanto da parte de Lutero como de Katharina, além também de outras crianças que eram órfãs.

Entre 1527 e 1535 a peste tomou Wittenberg e grande parte da população saiu da cidade. Katharina e Lutero, no entanto ficaram e hospedaram e cuidaram de doentes em sua casa. Nessa época era comum que mulheres, mesmo as de origem nobre, tivessem conhecimentos da medicina caseira. O que aparentemente Katharina veio a aprender com sua tia Magdalene von Bora enquanto esteve com ela no mosteiro de Nimbschen.

Lutero sempre temia por sua vida, achando que fosse morrer a qualquer momento vítima das perseguições que sofria. Então em 1542, faz um testamento indicando Katharina como sua herdeira universal – o que não era possível por lei na época já que sempre deveria haver um homem responsável pela viúva, pelos filhos e pelos bens. Mas ele recusa-se a nomear um homem como tutor de Katharina alegando que ninguém melhor do que ela mesma para cuidar de tudo, uma vez que fazia isso durante muitos anos. Só que ele não registrou em cartório o testamento dificultando ainda mais sua vida após sua morte. Mas depois de grande empenho de amigos e do príncipe João, conseguiram reconhecer o testamento, porém tiveram que nomear um tutor pelo cuidado dos filhos e depois de algumas brigas conseguiu ter o direito do próprio cuidado de seus filhos.

Lutero falece dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade onde nasceu, Eisleben, e foram os amigos mais íntimos de Lutero, Filipe Melanchthon e João Bugenhagen, que tiveram que dar essa difícil notícia a Katharina. Seu corpo foi enviado a Wittenberg e por onde passava os sinos soavam. Seu funeral foi realizado por Bugenhagen e Melanchthon fez a locução memorial em latim. Foi enterrado aos pés do púlpito da igreja de Wittenberg.

A morte de Lutero foi um baque para Katharina pois além de não estar presente quando ele se foi, sentiu a perda de seu esposo e companheiro, mas também de alguém que a influenciou e contribuiu para o real entendimento do Evangelho ajudando-a a tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar de ser freira e viver uma vida comum para a honra e glória de Cristo.

Simpática e querida irmã!

Que a senhora sofre comigo e com meus filhos, eu acredito de coração. Pois quem não estaria aflita e desconsolada por um homem tão caro, como o meu querido senhor o foi? Pois ele serviu não somente a uma cidade ou um país, mas a todo o mundo. Por isso, verdadeiramente, estou tão aflita que não consigo descrever para ninguém a dor que sinto em meu coração. E eu nem sei como estou mantendo meu juízo e ânimo. Não consigo comer nem beber, muito menos dormir. E se eu tivesse tido um principado e um reinado, não teria sido tão cruel se os tivesse perdido, como agora que o bondoso Senhor Deus tirou de mim, e não somente de mim, mas de todo o mundo, esse querido e caro homem. Quando penso nisso, não consigo, de tanto sofrimento e choro (o que Deus certamente sabe) nem falar nem mandar escrever.

Mas o que diz respeito a seu filho, meu querido sobrinho, eu vou gostar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mesmo se tudo tiver que ser investido nele, pois como eu entendo, ele vai continuar os estudos com muita dedicação e não irá desperdiçar sua nobre juventude. Mas, quando ele avançar um pouco mais em seus estudos e necessitar de outros e mais livros, pois ele irá estudar Direito, você mesma querida irmã, pode imaginar que eu não terei condições de comprá-los. Ele necessitará de alguma ajuda a mais para que venha a ter todo o material necessário. Para isso seria necessário que, assim como a senhora escreve para mim, conseguir um dinheiro anual como bolsa de estudos para seu filho, meu sobrinho. Pois assim ele poderia continuar seus estudos e cumprir suas obrigações com mais facilidade. Mas, sobretudo, o que eu puder fazer por ele, eu mandarei notícias com meu irmão Hans von Bora, assim que ele vier para cá.

Assim, fiquem com Deus. Wittenberg, 2 de abril de 1546.
Katharina, a viúva do Dr. Martinus Luther

Com a morte de Lutero também veio a luta pela sobrevivência, e Katharina continuou morando em sua casa, a Schwarzer Kloster, e a princípio continuou com o pensionato para estudantes e outros hóspedes. Mas não foi nada fácil pois não era comum um pensionato dirigido por uma viúva e os estudantes preferiam hospedar-se em casa de professores, e com a ausência de Lutero, sua casa não era mais uma prioridade de estadia. E por falta de dinheiro teve que escrever cartas para conhecidos, pedindo ajuda. E aconteceu que ela foi acusada de não saber se conformar com sua nova situação, de ser orgulhosa, briguenta e ‘cheia de razão’12.

Passou pela guerra de Esmalcada e teve que fugir de Wittenberg em 1546. Retornou no mesmo ano, mas em seguida precisou fugir novamente. Obteve ajuda financeira do rei da Dinamarca, Cristiano II, e decidiu retornar para casa já que o príncipe da Saxônia havia vencido. Mais tarde teve que fugir novamente e tinha a esperança de buscar abrigo na Dinamarca mas conseguiu ir somente até Gifhorn – teve que retornar devido ao perigo nas estradas. Eles estavam tão empobrecidos que conta-se que Katharina teve que rasgar as vestes do falecido Lutero para costurar roupas para seus filhos menores, pois os mais velhos haviam saído de casa para estudar.

E em 1552, a peste retorna em Wittenberg e Katharina resolve fugir para Torgau, em setembro deste ano. No caminho os cavalos tiveram um contratempo e ela teve que pular da carroça. Se machucou muito e chegou doente ficando acamada em Torgau. Foi cuidada pela filha e por amigos, mas seu estado piorava e quando percebeu que seu fim estava próximo pediu pela Santa Ceia. Katharina faleceu em 20 de dezembro de 1552, aos 53 anos de idade. Foi sepultada na igreja de St. Marien e a alocução foi feita por Filipe Melanchthon. Seus filhos mandaram gravar em sua sepultura: Ano 1552, dia 20 de dezembro, bem-aventuradamente adormeceu aqui em Torgau a deixada viúva do Dr. Martin Luther.

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8Trecho citado no livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

9Prior era o superior de um convento em algumas ordens religiosas

10Trecho do livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

11Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

12Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1

Para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante, resolvemos trazer a história de algumas mulheres que, assim como tantos homens, também contribuíram para o desenrolar da Reforma. Foram mulheres ativas, politicamente relevantes, de posicionamento forte e crítico. Muitas agiram nos bastidores, outras conseguiram expor seus manifestos e insatisfações publicamente.

É claro que não temos a pretensão em revelar todos os nomes de mulheres envolvidas em tal movimento, pois certamente há uma grande nuvem de testemunhas que sequer tiveram suas histórias ou contribuições divulgadas. Mas nossa intenção aqui é trazer inspiração. Contribuir para que você, assim como eu, ao ler essas histórias – em que muitas não tiveram um final feliz – possa sentir-se tocada e inspirada a fazer mais por seu bairro, país, escola, casa, trabalho, família, igreja. E quem sabe, contribuir para uma reforma necessária onde você estiver…

Boa leitura e inspire-se!

 

ARGULA VON GRUMBACH

Argula foi a primeira mulher que pronunciou-se publicamente a favor de questões referentes à teologia luterana e entra na história como a primeira escritora protestante

Argula nasceu no ano de 1492 em Beratzhausen, perto da cidade de Ingolstadt, na Baviera, Alemanha. Era filha do barão Bernhard von Stauff e de Katharina von Toerring zu Seefeld – ambos de descedência nobre, porém empobrecidos.

Quando tinha dez anos recebeu de seu pai uma Bíblia1 para que a estudasse com dedicação, isso mostra que seus pais valorizavam a educação de crianças e cuidaram para que também suas filhas mulheres tivessem uma boa formação crítica e intelectual.

Tornou-se dama de honra, por volta de 1508, da duquesa Kunigunde, que era irmã do imperador Maximiliano e esposa do duque Alberto IV. Convivendo com as três filhas do casal recebeu uma formação que somente filhos e filhas de famílias nobres e com boas condições financeiras poderiam ter.

Conhece seu futuro marido, Friedrich von Grumbach, na casa do duque Alberto IV e casam-se por volta de 1516. Esse já era um período histórico com muitos rumores e inquietações e mesmo casada não deixou de ler a Bíblia e se informar sobre os acontecimentos que agitavam a Europa.

Seu esposo, que havia recebido o cargo de administrador da cidade de Dietfurt, não era alguém com quem Argula poderia discutir questões teológicas, pois para ele a igreja como estava bastava, com isso, manteve contato com teólogos da Reforma. Trocou correspondência com Jorge Espalatino, que, na época era secretário e conselheiro do príncipe-eleitor de Saxônia e conde da Turíngia, amigo de Lutero e do príncipe João Frederico. E provavelmente através do contato com Espalatino, obteve a lista das obras de Lutero publicadas em língua alemã. Simpatizou-se com a teologia de Lutero, pois, sua argumentação teológica baseava-se no texto bíblico e torna-se leitora assídua de suas obras.

Argula foi uma grande admiradora de Lutero e trocou vasta correspondência com ele. No ano de 1522 Lutero publica um livro de orações e o dedica “à nobre mulher Argula von Stauffen zu Grumbach”. E em 1524 ele escreve para Johannes Briessmann mencionando sua admiração por ela:

A nobre mulher Argula von Stauffen trava uma árdua luta neste Estado, com um grande Espírito e cheio de palavras e entendimentos sobre Cristo. Ela merece que nós oremos por ela, para que Cristo venha a triunfar através dela. Ela atacou a Universidade de Ingolstadt com escritos, porque eles obrigaram o jovem chamado Arsácio a uma vergonhosa retratação.

Esse episódio com a Universidade de Ingolstadt se deu porque um jovem professor-adjunto chamado Arsácio Seehofer havia iniciado seus estudos nesta universidade, porém transferiu-se por um ou dois semestres para Wittenberg estudando com Melanchthon. Precisou retornar à Ingolstadt, por obediência a seus pais, e se graduou como mestre em teologia. Mas por ter estudado com Melanchthon, Arsácio se convence da doutrina sobre a justificação por graça e fé e com isto suas preleções e alguns artigos que escreveu não condiziam com a teologia de Ingolstadt que era completamente contrária a teologia reformada.

Sofre perseguição, é interrogado, tem sua casa vasculhada, é preso e a universidade abre um processo por heresia no qual seria julgado pelo tribunal dos bispos. Seu pai intervém e Arsácio é julgado internamente pelo reitor da universidade. E em 7 de setembro de 1523 sob ameaça de tortura, com a Bíblia em mãos e chorando de vergonha jura retificando todas as heresias que havia afirmado e agradecendo a enorme benevolência da universidade em minimizar sua pena. Sua condenação foi viver o resto de sua vida no mosteiro de Ettal. Mas pouco tempo depois conseguiu sair do mosteiro e se torna pregador luterano na Igreja Territorial de Wüttemberg.

Argula não se conformou com tudo o que aconteceu com Arsácio e escreve diversos textos que para sua própria surpresa têm enorme repercussão. Sua intenção inicial não era de publicá-los, mas de iniciar um diálogo com a reitoria da Universidade de Ingolstadt o qual se nega em responde-la.

Ao todo, Argula escreveu oito cartas que viraram Cartas Panfletárias2 sobre o caso de Arsácio e defendendo a teologia da Reforma, o que por si só na época já era extremamente polêmico pois os escritos de Lutero estavam proibidos em toda a Baviera e por ser mulher, agravou ainda mais o conflito, uma vez que não cabia as mulheres opinar sobre questões teológicas ou religiosas. E depois da publicação de suas cartas panfletárias não publica mais nenhum texto, porém mantém uma vasta correspondência.

Em 1529, seu esposo falece e ao que parece ele permaneceu fiel a Igreja Católica até a sua morte. Cerca de três anos depois casou-se novamente com o conde Burian von Schick zu Passau, que pertencia a uma família nobre e também era protestante, mas dois anos mais tarde fica viúva de novo.

Seus últimos anos de vida foram muito sofridos por causa da pobreza e dos lutos de seus filhos e outros membros de sua família. Não se sabe exatamente a data de sua morte, mas ao que parece faleceu em 1554 com 62 anos de idade.

Geralmente me chamam de luterana, mas eu não o sou. Eu sou batizada no nome de Cristo, a quem eu confesso, e não confesso Lutero. Mas eu confesso que ele, Martinus, também se confessa um fiel cristão. Que Deus ajude, para que nunca mais neguemos isso, nem por vergonha, desonra, cárcere ou torturas.

Argula em carta ao seu primo Adam von Törring, em 1523

 

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1Aproximadamente 20 anos antes de Lutero traduzir a Bíblia para a língua alemã já havia outras traduções: as mais conhecidas eram a Mentelin Bibel, de 1466, de Estrasburgo, e a Koberger Bibel, de 1483, de Nuremberg.

2O termo original alemão é Flugschrift. Foi uma forma de comunicação de massa que surgiu no século 15 e era uma forma de tornar público informações atuais, numa espécie de “jornal do dia”. Propaganda política, controvérsias religiosas e outras polêmicas eram publicadas e assim espalhadas para influenciar a opinião pública. Tais cartas foram fundamentais para espalhar as ideias da Reforma.

 

MARGARIDA DE NAVARRA

Margarida foi rainha, poeta e contista e de um jeito criativo e perspicaz anunciava valores cristãos e delatava padrões imorais de clérigos e da corte através de seus contos

Margarida nasceu em 1492 em Angoulême na França. Filha de Carlos d’Angoulême e Luisa de Savóia. Seu pai Carlos teve a educação assistida por Leão XI, que era rei da França e seu primo, porque seu pai havia morrido quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Sua mãe Luísa, quando se casou, tinha cerca de 12 anos de idade. Tal casamento foi arranjado e Carlos só permaneceu fiel a este arranjo pois com 18 anos de diferença de sua noiva pode levar sua amante para viver em sua corte juntamente com Luísa.

Casou-se em 1509, aos 17 anos, com o duque Carlos IV d’Alençon. Não foi consultada sobre o assunto e tudo foi arranjado por sua mãe, pelo rei Luiz XII e pela rainha Ana. O noivo era descrito como uma pessoa simples, insignificante na aparência, sem capacidade ou cultura e sem qualquer gosto para a intelectualidade. Era invejoso, tímido e antissocial. Porém, sua ambição o fazia aspirar a cargos para os quais era incompetente. E mesmo não o amando, Margarida foi uma esposa fiel. E exatamente no dia que completava 33 anos ficou viúva.

Casa-se novamente, em 1527, com Henrique d’Albert, um jovem príncipe que foi aprisionado na batalha de Pávia mas que fugiu do seu cativeiro. Foram viver em Navarra, um reino estranho e empobrecido cuja língua Margarida não conseguia entender. O lugar foi melhorando cada vez mais, com a administração sábia de Henrique e a ajuda de Margarida que fundou hospitais, orfanatos e bibliotecas. Foi no castelo de Nérac que Margarida acolheu vários eruditos e reformadores. Ela fez de sua corte um lugar de sábios, poetas e pensadores que fugiram da estaca de um mosteiro sombrio para desfrutar a proteção de uma mulher encantadora, boa, alegre e cortês e de um livre pensador como o rei3.

Ela exaltou o Senhor como o único e suficiente Salvador e intercessor. Ela comparou, como Lutero fez, a lei que busca, tenta e pune com o evangelho que perdoa ao pecador por causa de Cristo e da obra que ele completou na cruz. Ela olha para frente ávida e esperançosa por um mundo redimido e regenerado pelo evangelho de Jesus Cristo. Ela insiste na justificação pela fé, na impossibilidade de salvação pelas obras, na predestinação, no sentido de dependência absoluta de Deus como único recurso. Obras são obras, mas ninguém é salvo pelas obras, salvação vem pela graça e “é o Dom do Deus Altíssimo”. Ela chama a Virgem a mais abençoada entre as mulheres porque ela tinha sido escolhida para ser a mãe do Salvador Soberano, mas recusou para ela um alto lugar, e nas suas devocionais ela introduziu uma invocação ao Nosso Senhor, em vez de “Salve Rainha”.

T.M. Lindsay citada no livro Uma voz feminina na Reforma de Rute Salviano

Teve professores que a ajudaram crescer intelectual e espiritualmente. E por meio de algumas damas de sua corte, soube o que os reformadores estavam pregando. Ela foi influenciada tanto por Lutero quanto por Calvino.

Talvez ninguém represente melhor os sentimentos que inspiraram o começo do movimento da Reforma na França como Margarida, porque, além de afetuosa, era cheia de coragem e entusiasmo. Ela ouvia avidamente a pregação de Lefèvre e Roussel e desejava aprender o caminho da salvação e cooperar na divulgação das ideias da Reforma4.

Em Nérac, seu capelão Roussel pregava na língua do povo e não havia elevação da hóstia ou adoração das espécies e não era permitido adorar a virgem Maria e os santos. O sacerdote oficial não era obrigado ao celibato e podia usar vestes comuns, pegar um pão comum, comê-lo e em seguida dá-lo à congregação e finalizavam cantavam um salmo.

Seu reino, no sul da França, sempre foi hostil ao poder de Roma e havia milhares de protestantes em refúgio, pobres e oprimidos. E quando esse refúgio não era mais seguro, tratava de enviar seus hóspedes a lugares mais seguros. Foi o que aconteceu com João Calvino, que esteve em sua corte, em Nérac, e depois foi enviado à Genebra. Este geralmente se correspondia com ela e sua filha Jeanne d’Albret.

Um de seus poemas mais famosos o Espelho da Alma Pecadora lançado em 1531 na França (e que possuiu tradução para o inglês em 1548 pela futura rainha Elisabeth) foi incluído ao Index de obras proibidas à leitura5. Tal poema foi considerado pela Faculdade de Teologia de Paris (Sorbonne) herético porque não mencionava santos, purgatório, oração a Virgem Maria e a Salve-Rainha era parafraseada em honra a Jesus Cristo. Mas seu irmão, rei da França, Francisco I ordena que deixem sua irmã em paz e assim o reitor altera a condenação informando que seu poema foi colocado na lista por ter sido publicado sem a aprovação da Faculdade de Teologia de Paris, como era requerido pela lei.

Entre 1544 a 1548, Margarida escreve o Heptameron mas sua publicação só acontece 10 anos após sua morte. O valor real do Heptameron está na descrição da vida e dos costumes das cidades naquele período. Pela obra consegue-se formar uma boa ideia da posição das classes, da riqueza e do conforto, da quantidade de tempo dedicada à ociosidade e aos prazeres e outras incongruências que a França apresentava na época6. Ela o escreveu inspirada no Decameron de Bocaccio7 que era moda em sua corte e que endossava e estimulava um estilo de vida devasso e completamente entregue aos prazeres humanos. E em seus contos, no Heptameron, Margarida denuncia comportamentos imorais e expõe valores cristãos de maneira criativa e conforme as pessoas estavam acostumadas a consumir em sua época: através de contos.

Sua vida foi marcada por grande influência na política, por sua intelectualidade e por acreditar em seus ideais e lutar por eles. Mas como esposa e mãe foi omissa permitindo que seu irmão, o rei Francisco I que era emocionalmente instável, ditasse as regras. Assim, sua filha Jeanne d’Albret é separada de sua mãe com apenas 2 anos de idade indo morar em um castelo longe dela e com 12 anos é dada em casamento à um aliado do rei e com o consentimento de Margarida, mas contra a vontade de sua filha e de seu esposo.

Apesar dessa mancha no comportamento como esposa, sobretudo como mãe, sua filha Jeanne d’Albret (1528 – 1572), assim como Margarida, tornou-se grande defensora na luta a favor da Reforma e contra os excessos que a Igreja Católica exercia.

Margarida morre em 21 de dezembro de 1549, aos 57 anos. É enterrada na Catedral de Lescar e em seu funeral teve a presença de pobres de todos os estados de Béarn.

 

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3Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

4Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

5Index era uma relação de obras consideradas heréticas e que eram proibidas aos fiéis da Igreja

6Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

7Bocaccio foi um escritor italiano (1313 – 1375), considerado uma das maiores figuras do Renascentismo. Sua principal obra foi o Decameron, uma coleção de 100 contos que exaltam a beleza e o amor terrenos.

  

KATHARINA SCHÜTZ ZELL

Katharina foi escritora, diaconisa e a primeira pregadora protestante

Katharina nasceu no ano de 1497, em Estrasburgo. Filha de Elisabeth Gerster e Jakob Schütz, era de uma família bem situada e reconhecida em Estrasburgo. Sabe-se que recebeum uma boa formação e sabia ler e escrever muito bem em língua alemã. Interessava-se por literatura, pela Bíblia e artigos teológicos. Desde menina era engajada na igreja e quando as ideias da Reforma chegaram em Estrasburgo seu interesse foi grande.

Casou-se com o pastor Matthäus Zell em 3 de dezembro de 1523 e teve seu matrimônio celebrado por Martin Bucer, reformador também conhecido em Estrasburgo.

A prioridade do casal Zell era o desenvolvimento da igreja na teologia reformada, mas também na prática cotidiana. E o engajamento de Katharina foi de zelar pelos doentes, vulneráveis e fugitivos. Como Estrasburgo era uma cidade livre, em um conflito por questões teológicas na cidade de Kenzingen, cerca de 120 homens acompanharam o pastor local deposto e grande parte deles buscaram refúgio na casa de Matthäus e Katharina. E além de abriga-los, cuidando de sua acomodação e alimentação, Katharina também se preocupou com as mulheres desses refugiados, que agora precisavam organizar suas vidas sem a ajuda de seus maridos, e escreve a elas em forma de um tratado que demonstrava seu grande conhecimento teológico.

Katharina e Matthäus tiveram dois filhos, porém ambos faleceram ainda quando eram bebês. E apesar de ter sofrido muito com tais perdas, canalizou e buscou ocupar seu tempo exercendo atividades diaconais importantes além de buscar na escrita seu posicionamento teológico e intelectual.

Matthäus Zell falece em 1548 quando Katharina tinha 51 anos de idade. Martin Bucer é quem faz o pronunciamento no enterro de Matthäus e ao final Katharina pede a palavra e fala publicamente para toda a comunidade reunida. Tempos depois, publica um escrito de sua reflexão com alguns detalhes sobre os últimos momentos de vida de seu esposo.

Antes de falar, porém, peço que não me levem a mal nem que se aborreçam comigo, como se eu fosse querer me colocar agora no lugar do ministério do pregador e apóstolo; não, de forma alguma, porém somente como o amor agiu, sem preconceitos, nos pensamentos de Maria Madalena […] assim também agora eu.

Comentário de Katharina à comunidade sobre sua publicação posterior ao falecimento de seu esposo

Autora de 3 cartas panfletárias, de 6 livros e também de vários outros escritos, Katharina não só ficou conhecida escritora, mas também como pregadora. Pregando e celebrando também outros sepultamentos além de seu esposo, Matthäus – principalmente quando pastores se recusavam a fazê-lo.

E apesar de sua dor, lutos e incertezas seguiu sua luta pelo movimento da Reforma até o fim de seus dias, falecendo no dia 5 de setembro de 1562, aos 65 anos de idade. 

 

MARIE DENTIÈRE

Marie foi teóloga e uma ativa reformadora. Inspirava mulheres a estudarem e a interpretarem as Escrituras

Marie Dentière nasceu em 1495 em Tournai, na Bélgica. Passou boa parte de sua vida em um convento tornando-se abadessa no Convento Agostiniano da Abadia de Saint-Nicolas-des-près. Ainda no convento, por ter livre acesso a biblioteca, tem acesso aos escritos de Lutero e converte-se a reforma luterana em 1524.

Abandona o convento e foge para Estrasburgo. Marie acompanhava seu compatriota, Guilherme Farel, em diversas campanhas evangelizadoras e em 1528 casa-se com o ex-padre Simon Robert, que era famoso estudioso da língua grega e com quem teve duas filhas. Foram para Bex, e em seguida para Aigle onde Simon Robert foi pastor até o ano de sua morte, em 1532.

Marie casa-se novamente, com o pregador Antoniere Froment, e por volta de 1535 mudam-se para Genebra. Torna-se a primeira mulher teóloga da Reforma e ali sofre perseguição principalmente por parte das autoridades católicas – que impediam qualquer publicação escrita por uma mulher.

Mas Dentière sempre declarou seu desejo de encorajar as mulheres. Para ela a Bíblia era o único fundamento da verdade e encorajava, as pessoas, principalmente as mulheres a terem um espírito de ousadia e destemor.

Ao visitar o convento de Jussy, como parte de suas campanhas evangelísticas, declara aquela que seria uma de suas frases mais conhecidas: Passei muito tempo na escuridão da hipocrisia. Mas somente Deus foi capaz de fazer-me enxergar minha condição e conduzir-me à luz verdadeira.

Em 1536, publica “Guerra e Libertação de Genebra”, o que mostra sua sólida instrução teológica, intelectual e domínio da Bíblia.

Em uma das duas cartas abertas que escreveu à rainha Margarida de Navarra, esta intitulada “Em Defesa das Mulheres”, Marie Dentière faz um apelo à rainha: para que ela intercedesse junto a seu irmão, Francisco I que era o rei da França, para que se eliminasse a divisão entre homens e mulheres, pois elas também recebiam revelações que não podiam ficar escondidas. O que foi um escândalo para o seu tempo defender igual tratamento entre homens e mulheres na habilidade para ler e interpretar as escrituras.

Mesmo que não nos permitam pregar em assembleias ou lugares públicos, não nos proibiram de escrever ou de nos aconselhar mutuamente.

Trecho da carta pública de Marie Dentière para Margarida de Navarra

Em 1540, enquanto Froment era pastor em Massongy, o casal resolveu abrir um colégio interno para meninas em sua casa. Além de suas 3 filhas (duas filhas do 1º casamento de Marie e uma filha de seu casamento com Froment) outras meninas tiveram a oportunidade de uma educação completa além de aulas de grego e hebraico.

Marie Dentière faleceu em 1561, aos 66 anos. Em 2002 tem seu nome gravado no Monumento da Reforma, localizado em Genebra, em reconhecimento de sua vasta contribuição à história e ao movimento da Reforma.

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

E eu, que me considerava curada de todo aquele romantismo…

Numa noite dessas, tive um tempo a sós comigo mesma. Não tive dúvidas: tasquei uma taça de vinho e coloquei música alta. Como eu não devia nada a ninguém, fui selecionando no YouTube todas as músicas que eu estava a fim de ouvir, sem filtros. O resultado foi uma playlist melecada de hits românticos dos anos 80. Claro que isso não foi coincidência. Essa lista é o espelho da minha alma: sou romântica do começo ao fim de mim.

Quem acompanha o blog há algum tempo talvez se lembre dos posts, em que declaro haver encontrado cura para esse mal. Pois é, confesso que fui um pouco precipitada nessa declaração. Numa conversa bem franca com a Carol Selles, coautora do blog e amigona minha, cheguei a uma constatação difícil de encarar: pois é, Carol, certas questões da nossa vida não têm cura, só controle. Falei isso num tom bem, mas bem pessimista, depois de ter acabado de vivenciar uma crise sufocante de romantismo, dessas que nenhuma mulher dos tempos de hoje – forte, independente e segura – teria admitido em sua vida. Pois eu tenho dessas crises. De tempos em tempos. Com mais frequência do que eu gostaria.

A parte mais difícil de se lidar com uma questão indesejada na nossa vida é saber onde ela se encaixa: será que devemos insistir em curá-la? Ou talvez a solução seria trazê-la à tona em todo seu potencial? Essas duas saídas sempre foram as únicas possibilidades que enxerguei durante anos a fio. Assim, ou eu me consumia em repressão e culpa ou me entregava aos devaneios como se não houvesse amanhã. Nunca havia passado pela minha cabeça um caminho do meio, um equilíbrio… até essa noite em que fiquei sozinha e toquei as tais músicas dos anos 80. Parei e pensei: e se de repente eu puder obter algum benefício desse meu romantismo todo?

Parênteses: (para quem não vê nada de preocupante em alguém ser romântico ao extremo, dou um resumo contra o que eu luto: descontentamento, por não encontrar a paixão acesa no meu casamento o tempo todo; ilusão, ao fantasiar que existe uma realidade perfeita, em que o amor é um estado de êxtase constante; sofrimento, por nunca acreditar que sou suficientemente amada. Pois é, o romantismo exacerbado não tem nada de romântico. Ele é exigente e insaciável).

Mas voltando à ideia que cruzou minha mente: e se eu acolhesse o romantismo e tirasse vantagem dele?  Bom, essa não foi uma pergunta que eu respondi assim, num estalar de dedos. Na verdade, nem consigo concebê-la direito ainda, por soar ousada ou até mesmo imoral, num primeiro momento. Porém, tenho orado tanto, pedido tanto a Deus que me mude, que de repente me peguei pensando: “e se Deus nunca me mudar?”. Acredito muito que não escolhemos ter todas as características boas e ruins que temos em nós – muitas vieram incluídas no “pacote” ao nascermos – entretanto, acredito sim, que escolhemos o espaço que vamos dar a essas características em nossas atitudes. A escolha que fazemos a partir do material de que somos feitos é uma responsabilidade toda nossa. Sendo assim, eis algumas possibilidades para a minha questão:

1. Deixar o meu romantismo transparecer nos relacionamentos adequados

Abraçar as crianças da escola onde trabalho, beijar os meus pais, fazer cafuné no meu filho, assistir comédias românticas com o meu marido, enviar mensagens carinhosas à minha irmã… estão aí algumas das possibilidades para deixar meu romantismo fluir de um jeito saudável. Achar que romantismo se limita a conexões amorosas é reduzir seu alcance e seu potencial de construção de vínculos e de cura.

2. Ver o meu romantismo como uma das características da imagem de Deus em mim

No livro Em busca da alma feminina, o casal Stasi e John Eldredge trabalha com a ideia de que foi Deus quem colocou no coração feminino a busca por amor e relacionamento íntimo, ou seja, por romance, porque Ele próprio é amor. Por meio de vários versículos e imagens bíblicas (a noiva e o noivo do livro de Cantares, as mensagens que Ele envia pelos profetas no Antigo Testamento, a oração de Jesus em João 17, entre outras), os autores mostram como é intensa a busca de Deus por intimidade com o seu povo. O romantismo nessa perspectiva, portanto, não é algo a ser evitado, mas buscado.

O Cristianismo muda drasticamente quando descobrimos que ele também é um grande romance. Que Deus deseja compartilhar uma vida de beleza, intimidade e aventura conosco. “Eu a amei com amor eterno” (Jeremias 31.3). Todo este mundo foi criado para o romance – os rios e os vales, os prados e as praias. Flores, música, um beijo. Mas temos uma forma de nos esquecer de tudo isso, perdendo-nos no trabalho e nas preocupações. Eva – a mensagem de Deus para o mundo de uma forma feminina – convida-nos para o romance. Por meio dela, Deus faz do romance uma prioridade do universo (Stasi & John Elderedge, no livro Em busca da alma feminina). 

3. Deixar que meu romantismo me aproxime de Deus

Sempre penso no Apóstolo Paulo e seu “espinho na carne” (2 Coríntios 12.7, Bíblia). Claro que o espinho dele não era fútil como o meu, imagino. Certamente era algo mais profundo e espiritual, mas o objetivo da existência do meu romantismo é semelhante à do espinho dele: não me orgulhar. Meu romantismo me faz lembrar de que eu, sozinha, não sou capaz de salvar a mim mesma, mas quem me dá energia para vencer é Jesus. Lutar sozinha é extenuante.

4. Usar meu romantismo para aprender sobre o amor real

Claro que antes de quase todo amor concreto existe a fase da paixão. Mas achar que o amor se resume à paixão é um desperdício. Com esse meu romantismo todo, eu consigo analisar bem a paixão e, baseando-me nela, perceber o que o amor não é: imediatista, carente, ansioso, que se consome em si mesmo. O amor relaxa, confia, espera, compreende, perdoa e não tem fim (1 Coríntios 13, Bíblia).

……

Quando falei para a Carol que certas questões da vida talvez nunca tenham cura, não imaginei que esse diagnóstico pudesse abrir tantas possibilidades de crescimento.  Amo perceber o modo discreto, mas incrível, como o nosso caminho espiritual vai sendo formado: o passo seguinte sempre mais firme e mais maduro do que o anterior. Por isso me encanto e descanso ao ler as palavras do Apóstolo Paulo:

E disse-me [o Senhor]: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte (2 Coríntios 12. 9-10).

Não sei como vai ser encarar meu romantismo por esse novo ângulo. Serão necessárias densas doses de sabedoria e oração, para que eu não confunda esse acolhimento com sinal verde para pecar contra Deus. Ao mesmo tempo, vejo Deus me ensinando mais essa lição, me dando essa chance de exercer a liberdade com maturidade.

Ele, Deus, é quem deseja ser o principal alvo de todo o meu incurável romantismo.

Catrin Welz-Stein
Ilustração de Catrin Welz-Stein

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

E se no seu aniversário você pudesse querer qualquer coisa?

O que você quer do mundo? 

Essa era a pergunta que nós, crianças dos anos 80 moradoras do Jardim Cuiabá, ansiávamos por responder em uma das minhas brincadeiras preferidas de infância, chamada “Que mês?”. Dois participantes escolhiam secretamente um mês do ano para os demais acertarem e, quando alguém acertava, a dupla anunciava o vencedor dirigindo a ele a pergunta: o que você quer do mundo? Ah… que pergunta mais maravilhosa! Ela era a porta de entrada para os topos mais altos da nossa imaginação. Respondê-la significava que você podia tudo e qualquer coisa: um unicórnio, um carrinho de rolimã voador, uma passagem para visitar a zona abissal… tudo era fantasiosamente aceitável naqueles momentos.

Trinta anos depois, mais precisamente na semana passada, ouvi do meu marido uma pergunta que me remeteu como um raio à minha brincadeira de infância: o que você quer de aniversário? Instantaneamente, meus olhos brilharam de deslumbramento ao pensar nas possibilidades de resposta a uma pergunta tão ampla como o infinito. Como assim o que eu quero de aniversário?? Até dei risada na hora, porque quero tanta coisa que não ouso querer nada. Claro que uma pergunta mais precisa da parte dele seria: o que você quer de presente de aniversário, que seja de ordem material, que te agrade e que não seja muito caro?? Essa teria sido fácil de responder, mas eu estava tão envolvida na magia daquele voo, que decidi voar mais um pouquinho e pensar no que eu realmente quereria de aniversário – ou do mundo, num exercício de nostalgia -, se tudo me fosse possível.

1. Eu iria querer que as escolhas não fossem excludentes

Se escolho uma carreira específica, automaticamente, estou deixando de escolher todas as outras. Quando escolho uma pessoa com quem me casar, inevitavelmente, estou dizendo não a todas as outras. Se opto por morar em uma cidade, deixo de morar nas outras milhões que existem.

Por mais óbvias que sejam essas constatações, é isso que me pego desejando muitas vezes: que eu tenha mais do que é possível, razoável ou justo ter. Isso só denota o quanto preciso caminhar em termos de satisfação, gratidão e centramento em Deus. E quando forçamos para que certas escolhas coexistam, o que não é raro, passamos por cima dos sentimentos de outros, burlamos uma ordem necessária e anterior a nós ou nos desgastamos, na ilusão de que certos limites podem ser transpostos.

2. Eu iria querer voltar no tempo e mudar alguns caminhos

Esse  é um desejo que pode denotar crescimento da minha parte, pois inclui grandes erros que eu, se pudesse, teria evitado cometer. Entretanto, penso no quão ilusória é essa especulação, uma vez que qualquer caminho por onde formos não está isento de erros. Além disso, foram os erros dos caminhos efetivos que nos tornaram mais humanos, mais empáticos, mais conscientes de nosso enorme potencial de fazer mal aos outros. Logo, houve espaço para a humildade, o arrependimento, o preenchimento com Deus e seu perdão. Essas experiências nos treinaram para reconhecer e evitar novos erros…. ou os mesmos.

3.  Eu iria querer me separar do meu corpo de vez em quando

Essa soa bem bizarra em um primeiro momento, eu sei. Mas já imaginou se as suas ideias sobre Deus e sobre os outros pudessem extrapolar os limites da sua mente? Você conheceria as motivações das pessoas para agirem como agem, saberia explicar por que Jesus ainda não voltou e já exterminou de vez as tragédias do mundo e ainda se livraria do medo de morrer, porque concluiria que a morte nada mais é do que isso mesmo, o descolamento de você do seu corpo como você o conhece hoje. Acredito que exceder os limites do meu corpo me faria mais humilde, porque depois de uma volta pela imensidão do que existe, eu admitiria o meu tamanho real.

4. Eu iria querer eliminar o politicamente correto

Se tem uma praga que eu gostaria que desaparecesse da terra, certamente é essa. Nada me indigna mais do que um hipócrita que não se reconhece como tal. Todos somos, em maior ou menor grau, e negar isso é cortar qualquer possibilidade de contato com o resto da raça humana. É o ápice da arrogância e da superficialidade no conhecimento das próprias motivações.

Abaixo, o filósofo esloveno Slavoj Žižek explica com perfeição alguns dos perigos dessa peste.

 

5. Eu iria querer superar minhas inseguranças de uma vez por todas

Tenho certeza de que não estou sozinha nessa. Todos queremos superar nossas inseguranças, se ainda não conseguimos. Mas o que me frustra mais é ficar à procura de livros, fórmulas e pessoas que me mostrem o caminho para isso, quando na verdade a resposta esteve bem na minha frente por décadas: a obsessão por mim mesma, como se tudo girasse em torno de mim. Exemplo simples: uma resposta de uma mensagem via WhatsApp que demora para chegar. Pensamentos que costumam cruzar a  minha mente quando isso acontece: ah, mas a pessoa deve estar chateada comigo para demorar tanto assim para me responder/ Ah, mas ela não liga pra mim/ Ah, mas que desconsideração comigo, blábláblá… Então quer dizer que a pessoa do outro lado do WhatsApp tem sempre uma intenção a meu respeito, seja ela positiva ou negativa? A verdade, porém, na maioria das vezes, é que o espaço que ocupo no tempo do outro é ocupado também por outras centenas de coisas e pessoas, logo, não existe descaso algum, como tampouco existe favoritismo.

Me livrar dessa necessidade de me ver em tudo me impulsiona alguns passos rumo ao voo que eu queria tanto fazer fora do corpo no item 3. Consigo ver o papel dos outros nessa história toda que é a vida, me abro para interesses mais amplos, para um enredo mais entrelaçado, com mais nuances e menos monotonia. Passo a ocupar o lugar que foi demarcado para mim somente e não o lugar do mundo inteiro. Assim, me livro também da cobrança de ser perfeita (porque o mundo vai continuar girando se eu falhar), me livro da pressão de saber tudo e estar presente em tudo (o Facebook nem vai sentir falta dos meus comentários) e me livro da corrida rumo ao merecimento (tudo é Graça).

É por isso que Deus nos chama para uma história maior: a de viver para ele, em vez de vivermos para nós mesmos. Quando nós afastamos o foco de nós mesmos – nossos medos, nossa aparência, nosso sucesso, nossas dúvidas – e fixamos o nosso olhar em Cristo somente, encontramos a liberdade para a qual fomos criados. Nós finalmente aprendemos a ser livres do eu*.

 

Depois dessas viagens todas, retorno ao meu ponto de partida: eu, sentada à mesa da cozinha, com a mão apoiando o queixo, na típica posição de quem sonha acordada. Retomo a conversa com o meu marido:

 – O que eu quero de aniversário? Quero um par de botas pretas.  

 

– – – –

*  Trecho do post de Sharon Hodde Miller, num artigo publicado no site The Gospel Coalition; tradução minha e grifos meus.

** Este post foi atualizado em 25/10, com a inserção do link do filósofo Slavoj Žižek.


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Fazer o bem requer o que sou e o que tenho

Há pouco mais de um mês, alguns amigos queridos, meu marido e eu nos reunimos para preparar um jantar juntos, sob a temática Índia. Passamos horas conversando, aprendendo, nos alimentando fisica e emocionalmente. Para fechar a noite, um filme indiano, claro. Escolhemos Lion, já bastante divulgado por aí. Enquanto eu o assistia, pensava no quanto aquele sofá estava macio (eu estava bem cansada, depois de horas lavando folha por folha de um maço de espinafre infinito, ingrediente principal do palak paneer) e o quanto era boa a sensação de barriga cheia. Entretanto, quando o filme se aproximava do fim, uma informação na última tomada ruiu com toda a harmonia da qual eu desfrutava com tanta satisfação: 80 mil crianças indianas desaparecem anualmente. Subitamente, senti um indescritível mal-estar.

Demorei para dormir naquela noite: como estariam aquelas crianças todas? Teriam tido a mesma sorte do protagonista do filme e sido adotadas? Sofriam maus-tratos? Abuso? Fome? Chorei e orei muito por elas. Comecei a pedir a Deus que me mostrasse como ajudá-las… todas era impossível, mas uma pelo menos. Talvez a adoção? Meu marido e eu sempre fomos muito inclinados à adoção, só não fizemos isso ainda por estarmos em um momento financeiramente frágil da nossa vida. Mas e então? O que fazer para resgatar aquelas crianças? Passei a orar por elas todos os dias e pedir a Deus que me desse ideias.

Minha experiência com a consciência do sofrimento não é inédita, obviamente, menos ainda exclusiva. Cada um de nós conhece uma história, um grupo, um povo que sempre parece sofrer mais do que a gente. Sentimos nosso coração pesado por eles, impelido a fazer algo. Ao mesmo tempo, a sensação de incapacidade nos atinge como se alguém nos acordasse de um sonho com um tapa no nosso rosto: como eu, sozinho, posso mudar uma realidade que me supera em complexidade e idade? Anne M. Lindbergh, em seu livro Presente do Mar, compartilha do mesmo dilema: “Não consigo ajudar todas as pessoas que tocam meu coração. Não posso casar com todas elas, ou adotá-las como filhos, nem cuidar delas como faria com meus pais na velhice ou na doença”. “Quando o peso que carregamos é insuportável”, ela continua, “desencadeia-se um processo de fuga”. Então recorremos às distrações, para que a sensação de conforto volte o mais rápido possível. Afinal, não podemos resolver todos os problemas do mundo.

Sarah Sciarini, neste post publicado pela Relevant Magazine, percebe que uma realidade mais próxima, em torno de nós, também clama por atenção e ação:

Como cristãos, nós não fomos feitos para nos conformarmos em falta de esperança, tampouco fomos feitos para fechar os olhos diante da dor e do sofrimento de outros. Em vez disso, nós podemos empacotar a nossa esperança e carregá-la conosco para onde há pequenas rachaduras e lugares quebrados.

E Anne M. Lindbergh, ainda em Presente do Mar, complementa:

Seremos capazes de resolver os problemas do mundo se nem conseguimos resolver os nossos?

Assim, olhar ao redor de nós promete revelar-nos oportunidades diversas para agirmos em favor do bem-estar de quem sofre. Cozinhar uma refeição saborosa para um parente idoso; levar os filhos do vizinho à escola enquanto ele sai para uma consulta médica; ensinar alguém alguma atividade que irá melhorar as chances dessa pessoa de encontrar um bom emprego… e por aí se estendem as possibilidades.

Deus, que ama profundamente o pobre, a viúva e o órfão, promete recompensar-nos pelo bem que fizermos a eles:

Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição de seus inimigos. O Senhor o assiste no leito de enfermidade; na doença, tu lhes afofas a cama (Salmo 41. 1-3).

Fiquei imaginando Deus afofando a minha cama quando eu estivesse doente. Definitivamente, é uma imagem carregada de ternura, a ponto de deixar nossos olhos molhados.

Deus tem respondido à oração que fiz no dia em que assisti Lion e soube sobre as 80 mil crianças indianas desaparecidas. Não, não montarei uma ONG que vai procurar essas crianças e encaminhá-las de volta às suas famílias (aliás, a popularidade do próprio filme tem sido um meio de fazer isso acontecer), mas Ele tem plantado um novo sonho no meu coração, que envolve crianças e que envolve o cuidado com elas até seu nível mais profundo: o espiritual. Venho acalentando esse sonho e já dado pequenos passos em direção à sua realização. Hoje mesmo, terminei de assistir à inspiradora série de documentários Daughters of Destiny (obrigada, Fê Pinilha, pela dica preciosa!), do Netflix, que conta como uma escola na Índia (olha a Índia de novo) tem mudado a realidade de crianças da casta dos dalits, conhecidos como “os intocáveis”, que nascem e morrem sendo considerados menos do que humanos. A escola se torna a nova casa dessas crianças e, desde os quatro anos, elas são educadas e acompanhadas, até se formarem na faculdade e arrumarem um emprego – tudo custeado por essa escola, a Shanti Bhavan. É um trabalho árduo, mas transformador. Por meio desse documentário e de outras pistas que tenho caçado por onde passo, venho orando, pensando e me colocando nas mãos de Deus para que eu também contribua com o que sou e com o que tenho.

Deus fala por meio das menores vozes – mesmo por meio daquelas que não tenham as maiores plataformas ou o círculo de influência mais amplo. Todos nós temos a habilidade de nos levantar em favor daquilo que é certo e amar as pessoas que estão machucadas. Seria ingênuo para qualquer um de nós acreditar que podemos resolver os problemas do mundo. Seria um desperdício de esperança deixar que esses mesmos problemas nos paralisassem e nos impedissem de realizar qualquer bem. (Sarah Sciarini)

Quando começamos pelo nosso próprio centro, descobrimos algo essencial, que se estende até a periferia do círculo. Encontramos novamente um pouco de alegria no agora, um pouco de paz no aqui, um pouco de amor em mim e em você, que podem criar o reino do Céu aqui na terra. (Anne M. Lindbergh)

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Tudo começa na raiz

Eu: Vou parar de tingir o cabelo e assumir os meus cabelos brancos. Quero liberdade.
Minha mãe:  E eu quero a liberdade de continuar tingindo os meus.

A resposta brilhante da minha mãe era o desabafo de alguém que teve sua aparência controlada durante anos por terceiros, que baseavam seus argumentos em costumes religiosos. Curiosamente, a minha sentença também tinha a ver com o controle de terceiros, que apenas substituíram o argumento – a questão deixou de ser a aceitação de Deus para ser a aceitação dos outros, cuja mensagem implícita era: cabelo branco é sinal de velhice e mulher velha não é desejável. E, no momento dessa conversa com a minha mãe, eu já estava cansada de me submeter a essa ideia. Para mim, o preço (literal e figurado) de tingir o meu cabelo estava ficando alto demais. O cheiro das químicas, que pareciam derreter o meu couro cabeludo, os tufos de fios que se iam pelo ralo ao final do enxague e que depois ficavam visivelmente ausentes na minha cabeça… e eu, que sempre amei o meu cabelo e o modo como ele combina comigo, comecei a vê-lo minguado, em nome de uma juventude esticada.

Porém não foi a partir dessa conversa que, de fato, parei de tingir o meu cabelo. Na verdade, esse dia foi o marco do início de um processo de muitas etapas. Eu primeiro teria que compreender profundamente de que liberdade eu estava falando. Do que eu me veria livre? Apenas da tinta que esconde os meus brancos? Que outros benefícios eu colheria de uma atitude que, a princípio, parece tão banal, mas que poderia refletir diretamente no modo como as pessoas me tratam e me veem? Descobri, então, algumas liberdades que essa decisão pode trazer consigo:

1. Liberdade da necessidade de aprovação

A primeira verdade sobre a qual eu precisaria ponderar é que, ao parar de tingir o cabelo, eu estaria à mercê da reprovação (ou, no mais brando dos casos, da curiosidade) de outros – de quaisquer outros, desde a balconista da padaria até pessoas que importam para mim, como o meu pai, por exemplo. Aliás, muito da minha necessidade de aprovação vem da relação que eu tive com ele na infância e na adolescência, em que sempre tentei provar que eu era digna de seu amor. Assumir os brancos seria provocar nessas pessoas todas uma quebra de harmonia no que estavam acostumadas a ver. Se quisessem andar mais milhas comigo, teriam que cavar motivos além dos meus cabelos reluzentes ou, então, mudar sua própria relação com o branco e vê-lo com a mesma tranquilidade que eu começaria a vê-lo.

2. Liberdade para assumir quem eu sou

O que eu precisaria também para, de fato, assumir meus cabelos brancos era descobrir minha identidade. Tenho 35 anos, ou seja, sou alguém não tão velha, mas também não tão jovem. Teoricamente, tenho o tanto de futuro pela frente quanto tenho de passado, talvez um pouco mais. Assim, os meus cabelos brancos denotam que já passei pela angústia de romper um casamento e assumir as consequências, de quase perder um irmão por tentativa de suicídio, de ver todas as minhas economias indo pelo ralo ao investir em um negócio que faliu, de ter que recomeçar a vida profissional do zero diversas vezes.

Ao mesmo tempo, os meus fios brancos contam também que me casei de novo há alguns anos, que tenho um filho lindo de quase três anos, que possuo duas graduações e um mestrado e que tenho um avô de quase 100 anos.

É uma história bonita demais para ficar escondida debaixo de tantas camadas de tinta.

3. Liberdade para trocar a ordem das prioridades

Eu e os meus 35 anos (36 em outubro, aliás) também estamos revendo nossas prioridades. As palavras de Anne M. Lindbergh, em seu emocionante livro Presente do Mar, parecem compreender perfeitamente o que atualmente busco: certos ambientes, certas regras de conduta e certos estilos de vida contribuem mais para uma harmonia interna e externa que outros. Harmonia interna e externa … é isso! Ser por fora o que tenho me tornado por dentro. E por dentro ando mais serena, menos ansiosa, mais reflexiva, com certa sede por sabedoria. Lembro-me da imagem (estereotipada, sim, mas ainda terna) dos cabelos brancos associados à experiência, à sabedoria, à preocupação com questões mais existenciais e menos superficiais. Quero esses mergulhos.

Sexta-feira passada vi em um restaurante uma menina com seus 20 e poucos anos toda produzida, com roupas que correspondiam exatamente às tendências e ela, caminhando toda consciente de si e de como chamava atenção dos outros (inclusive a minha). Parecia um retrato de mim mesma quando jovem. Eu era tão consciente do trabalho que era me compor antes de sair, que todo o investimento tinha que valer a pena: eu precisava ser notada. Ao olhar para aquela moça tão arrumada, senti um alívio por possuir um novo poder: a tranquilidade de não precisar chamar a atenção o tempo todo (só de vez em quando, rs).

4. Liberdade para deixar o ego de lado

Neste ano, li livros de duas mulheres, cujo testemunho de fé me impactaram muito. Uma delas é a Madame Guyon, francesa mística do século 17, a outra é Basilea Schlink, alemã fundadora da Irmandade de Maria, que viveu no século 20. As histórias de conversão dessas duas são lindas, tocantes e transformadoras de perspectiva, mas uma das coisas que ambas trouxeram e que, num primeiro momento, mais me chocou do que me tocou foi a luta delas contra sua autoestima. É isso mesmo: c o n t r a  a sua autoestima. Fiquei horrorizada! Ainda mais eu, que nunca precisei ir contra a minha autoestima, porque sempre achei que não tivesse muita mesmo, rs. Mas eu estava errada. Descobri, por meio delas, que o meu amor próprio não só existe, como também se sobrepõe a tudo que me cerca. Eu me analisei direitinho e vi que o ego estava lá, todo cheio de mim mesma, flutuando por aí…. bastava olhar para o tamanho do meu egoísmo e do meu orgulho para comprovar as suspeitas. Entendi tudo. E vou contar mais uma coisa para vocês: essas duas mulheres me convidaram a aprofundar o relacionamento com um homem incrível, lindo, perfeito, capaz de satisfazer cada uma das minhas mil carências e por quem eu acabei me apaixonando perdidamente, Jesus. Pois é. Jesus pode deixar você bem satisfeita mesmo. Ele não se atrasa pra te encontrar, porque está sempre perto de você na oração; ele te respeita, te aceita como é e até te dá uma identidade, caso você esteja na dúvida –  a de filha amada de Deus; ele não te troca por outra, porque deu a própria vida por amor a você. Assim, amar a mim mesma acima de tudo é achar que mereço algo, quando tudo já me foi dado de graça, por amor puro e incondicional. É Graça e eu só dou graças, me aceitando como sou, inclusive com cabelos brancos.

Depois de todas essas constatações e questionamentos, finalmente decidi parar de tingir o cabelo. E como essa decisão tem me proporcionado temas dos mais variados para ponderar, achei que poderia ser rico compartilhar esse processo todo com vocês aqui no blog. Daí nasceu a ideia de lançar a série Fio de Prata.

O termo faz referência ao texto bíblico de Eclesiastes 12.6, em que a vida é referida como tal – um fio de prata, frágil –, além da associação mais óbvia que fiz com o processo dos fios da minha cabeça se tornando prateados. Aliás, essa é mais uma contribuição oferecida pelos novos cabelos brancos que terei: a lembrança constante da fragilidade da vida, logo, vivenciar todas as suas fases, inclusive a do amadurecimento e envelhecimento, é uma dádiva.

Não sei por quanto tempo vou postar aqui fotos e textos sobre o que esse novo momento da minha vida trará. Mas não temos pressa mesmo, afinal, cabelos demoram para crescer. Meu desejo é que você se sinta inspirada em nossos encontros por aqui. Comente, discorde, reflita e se abra para uma jornada que certamente convidará você também a se olhar no espelho com mais sinceridade e aceitação.

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Estou há um mês apenas sem usar tintura, ou seja, os brancos aparecem ainda de leve. Mas aguardem… eles chegarão :)

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.