Enxergando Deus em tudo

Quando uma amiga pede que eu a ajude em oração por algo, costumo dizer: vamos orar, sim. E depois, não se esqueça de prestar atenção nos sinais de resposta de Deus. 

Quando digo isso, não estou dizendo a ela que espere por sinais sobrenaturais, como uma luz ofuscante invadindo o quarto, ou um anjo se aproximando dela para entregar um bilhetinho da parte de Deus com a resposta. É olhar em volta mesmo e ver como Deus quer agir, responder, se revelar ou até nos ensinar, a partir daquilo que pedimos a Ele.

Essa forma de oração – uma conversa de mão dupla, em que Deus é também participante e não somente ouvinte (o que também não seria nada ruim, nessa era em que todo mundo quer falar e quase ninguém quer ouvir) – transforma radicalmente o nosso olhar para a realidade. Começamos a prestar mais atenção na nossa rotina e enxergar elementos “divinos” nela – no sentido de reconhecê-los como interferências de Deus.

Quando estamos interessadas em conhecer quem é Deus e Sua vontade para nós, começamos a perceber traços Dele em cada detalhe da nossa vida.

Conseguimos enxergá-lo nas janelas com venezianas

Quando visitei a Polônia pela primeira vez, onde moro hoje, o meu filho de quatro anos estava com muita, mas muita dificuldade de dormir. Motivo? Era verão e aqui, no verão, o sol só vai embora às 10 da noite. Ou seja, enquanto estava claro, ele achava que era dia e não fechava os olhos de jeito nenhum!

Mas por que você não fechou a janela??

Pois é, a solução teria sido simples, se as janelas aqui tivessem venezianas. Mas a maioria não tem.

Antes de nos mudarmos para a Polônia, oramos bastante, inclusive por um lugar para morar. Fizemos uma boa busca em sites especializados em aluguel de imóveis e qual não foi a minha surpresa quando, no primeiríssimo apartamento que visitei, me deparei com o quê?? V.E.N.E.Z.I.A.N.A.S  nas janelas! Até a porta de vidro para a sacada tinha veneziana. Em outras palavras: quando as venezianas estão fechadas, o apartamento fica mergulhado num breu absoluto.

Saquei na hora o que estava acontecendo: era Deus nos mandando um recado muito amoroso, mostrando que aquele era o lugar preparado por Ele para nós. E cá estamos.

Conseguimos enxergá-lo na mãe de um amigo da escola do nosso filho

Ainda sou um bebê quando o assunto é a língua polonesa. Sei dizer meu nome, minha idade e palavras soltas.

Agora tente imaginar a minha situação numa reunião de pais na escola do meu filho. Uma hora e meia fazendo esta cara:  emoji. Difícil!

Na última reunião que tivemos, o jeito que achei de entender foi gravar tudo e, dias depois, pedir para uma alma polonesa bondosa traduzir pra mim.

Há umas três semanas, uma mãe da escola entrou em contato comigo do nada, se apresentou e começou a explicar como o conselho de pais funcionava e mais um monte de detalhes de tudo que eu não havia entendido até aquele momento. Descobri por ela que tem um dia em que as crianças levam um bicho de pelúcia, outro dia em que vai ter uma festa que os pais precisam ir também e outro dia ainda em que é preciso pagar pelos materiais de arte.

E se ela não tivesse aparecido na minha vida e me explicado tudo isso? Saquei pela segunda vez: era Deus de novo.

Conseguimos enxergá-lo no carro 

Não viemos para a Polônia “em busca de uma vida melhor”. Aliás, o motivo pelo qual estamos aqui não nos proporciona a facilidade de adquirirmos um carro.

O problema é que já estamos vivendo um clima de inverno (ontem à noite nevou) e quem tem criança não deseja exatamente ficar com ela parada no frio, esperando o ônibus para a escola. Porém, como já contávamos com isso, investimos em roupas quentinhas para nós todos.

Mas o que não esperávamos de jeito nenhum aconteceu mesmo assim: uma família brasileira que também mora aqui e de quem somos amigos foi viajar para o Brasil por três meses e entregou a chave do carro deles na nossa mão, para o usarmos até fevereiro de 2019!

Desta vez, nem oração eu tinha feito. Deus não fica esperando a nossa oração para agir com amor. Ele vem e cuida de nós assim mesmo, sem nem termos pedido nada.

Deus não é o gênio da lâmpada e nem sempre dá o que pedimos da forma como pedimos. Mas uma coisa é certa: Ele SEMPRE nos responde. E essa resposta pode vir de diversas maneiras, por isso precisamos estar atentas aos sinais.

Existe ainda um passo além a ser dado, que requer atenção aos detalhes, àquelas mínimas coisas, nas quais a nossa limitação ainda nem permitiu que pensássemos. Basta reparar nelas, que você vai encontrar Deus também ali.

 

Captura de Tela (104)

Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?
Salmo 116.12

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Mulheres Inspiradoras: Ethel Waters – Out/2018

Foi uma importante cantora de blues, jazz e atriz nos Estados Unidos. Foi também uma cantora ativa durante as cruzadas de Billy Graham.

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Ethel Waters nasceu dia 31 de outubro de 18961, em Chester, cidade localizada na Pensilvânia, Estados Unidos. Sua mãe, Louise Anderson, a teve com apenas 13 anos2 de idade, pois engravidou de Ethel sendo vítima de um estupro3. Sim, você leu certo: sua mãe foi vítima de um estupro e engravidou de Ethel neste contexto.

Após seu nascimento, sua mãe casou-se com Norman Howard, um trabalhador da estrada de ferro e Ethel usou seu sobrenome quando criança, mas já adulta adotou o nome de seu pai biológico.

Eu nunca fui uma criança

Ethel sempre se referiu a sua avó, Sarah, que morreu em 1914, como “Sally”. Durante a maior parte de sua infância, Ethel foi criada por Sally na Filadélfia: “Minha avó, sempre que podia, cuidava de mim porque minha mãe casou-se com o pai da minha irmã e minha avó, Sally Anderson, agarrou-se a mim. Ela trabalhou duro a vida toda. Ela trabalhava no serviço e tinha três meninas e um menino, e eles eram todos jovens e selvagens, e não havia ninguém para cuidar deles”.3

Ethel nasceu em um contexto de extrema pobreza e vulnerabilidade. Em sua autobiografia His Eye Is On The Sparrow: An Autobiography revela que raramente era mostrada a ela amor e afeição. Foi criada em um ambiente vicioso, e se descreve como uma verdadeira criança sem saída e líder de gangue. Para ganhar dinheiro quando criança, ela levava recados para cafetões e prostitutas – muitos dos pedidos eram para drogas. Ela também ganhou um dinheiro extra para vigiar a polícia.4

Seu pai, John Waters, nasceu em 1878, o que sugere que ele tinha mais ou menos a mesma idade que sua mãe, Louise, quando Ethel foi concebida. Ethel descreve-o como um playboy que trabalhou como pianista e foi assassinado (envenenado) em 1901 por uma amante ciumenta. Mas, uma de suas filhas deu uma versão diferente, para Deborah Montgomerie: “Ela diz que John foi assassinado, mas foi um erro trágico. John tocava piano em uma festa, em um bar ou clube, e alguém colocou uma bebida que continha veneno no piano para outra pessoa, mas John bebeu e morreu”.5

Aos 13 anos de idade, Ethel se casou com um homem abusivo e se divorciou dele no ano seguinte. Em seguida começou a trabalhar como camareira e a cantar em corais de igrejas e show de talentos, ganhando seu primeiro prêmio aos 15 anos de idade. Ela foi descoberta por dois produtores, em 1917, em um destes concursos. Passado dois anos, ela se tornou uma das primeiras cantoras afro-americanas a gravar no selo Black Swan Records. As gravações foram bem-sucedidas o que aumentou sua popularidade e fama.

Waters cantava em um estilo que a diferenciava de outros mestres do blues, como Bessie Smith e Ma Rainey. Sua abordagem era mais suave, sofisticada e lírica e, quando aplicava uma variedade de gêneros, do blues de Tin Pan Alley, envolvia um amplo espectro de públicos e aumentava sua popularidade. Ela antecipou certas técnicas de jazz, como “scat singing”, que se tornaria associada a mestres como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, e ela também influenciou cantoras como Billie Holiday, Sarah Vaughan e Sophie Tucker. Ela nunca aprendeu a ler uma partitura, mas lembrava-se de uma música depois de uma ou duas audiências; e sempre trouxe uma nova abordagem para cada performance.6

Até a década de 1930, Ethel gravou mais de 50 canções de sucesso e foi acompanhada por instrumentistas de jazz como Fletcher Henderson, Benny Carter e Coleman Hawkins. Gravando também com Jack Teagarden, Benny Goodman e Tommy Dorsey.

Essa mesma habilidade interpretativa permitiu que Waters mudasse de carreira, da música para o teatro musical. Apareceu em diversos musicais durante a década de 1920 e na década seguinte, principalmente no gênero ‘black music’. Waters tinha mais originalidade do que as características estereotipadas de canto e dança permitidos na época. E ela usaria sua fama e popularidade (tendo se tornado uma das artistas mais bem pagas nos EUA) para romper as restrições da forma musical e as presunções sobre os artistas afro-americanos.7

Em 1929, Ethel ganhava US $ 1.250 dólares por semana cantando e atuando no filme ‘On With the Show!’, da Warner Bros. Este sucesso de bilheteria foi filmado em cores e foi um dos primeiros ‘filmes falados’ – arrecadando US $ 2 milhões ao redor do mundo.8 Mais tarde, Ethel se tornou a segunda mulher negra indicada ao Oscar e a primeira atriz negra indicada ao Emmy.

Sua vida pessoal foi um grande emaranhado de relacionamentos. Foi casada por 3 vezes e se divorciou dos 3 casamentos. E sua falta de saúde trouxe a ela a aposentadoria profissional na década de 1960.

Em 1955, Ethel estava completamente endividada com impostos atrasados ​​e aproveitando somente dos royalties de seu trabalho. E um ponto de virada aconteceu quando ela participou de uma das cruzadas de Billy Graham, no Madison Square Garden, em Nova York, em 1957. Anos depois, ela deu este testemunho sobre aquela noite:

Em 1957, eu, Ethel Waters, era uma velha senhora decrépita de 380 libras e dediquei minha vida a Jesus Cristo. Eu te digo porque Ele vive; e porque meu precioso filho, Billy, me deu a oportunidade de ficar ali, posso agradecer a Deus pela chance de dizer a você que o olho dEle está em todos nós pardais* (referência ao nome da canção cantada por ela durante as cruzadas: His Eye Is On The Sparrow).9

Ela continuou em turnê com o evangelista Billy Graham até 1975 e veio a falecer na Califórnia em 1977, aos 81 anos de idade.

Quando eu estava na busca pelas mulheres para o calendário deste ano, 2018, o mês de outubro foi o último a ser preenchido. Foi difícil encontrar uma mulher nascida este mês – segundo o critério de nascimento que eu mesma havia colocado. Mas eu orava para que Deus me ajudasse a encontrar uma mulher para ser lembrada e homenageada por este projeto. E ao me deparar com a história de Ethel, não tive dúvidas: o calendário só estava me aguardando encontra-la.

Nestes dias escuros e tão complexos, no qual tentamos discutir e ‘estabelecer’ quando é que se inicia uma vida humana e qual delas ‘vale mais’, ao me deparar com a vida de Ethel me senti profundamente sensibilizada. Sua mãe foi uma vítima e uma sobrevivente dando à luz a uma menina em um contexto completamente vulnerável e aparentemente sem esperança. E conhecer sua história aumentou minha fé. Por mais que eu me esforce eu nunca saberei o quão difícil e dolorido foi para ela e sua mãe, assim como para tantas outras pessoas que nascem sob esta cruel, sofrida e estigmatizada circunstância. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Todos nós somos desejados e amados por Deus de um jeito maravilhosamente e assombrosamente inexplicável.

Tu criaste o íntimo do meu ser
e me teceste no ventre de minha mãe.
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.
Tuas obras são maravilhosas!
Digo isso com convicção.
Meus ossos não estavam escondidos de ti
quando em secreto fui formado
e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu embrião;
todos os dias determinados para mim
foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Como são preciosos para mim os teus pensamentos, ó Deus!
Como é grande a soma deles!

Salmo 139:13–17 [Versão NVI]

 

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NOTAS:
1Algumas fontes declaram que seu nascimento tenha sido em 1900, e não em 1896.

2Algumas fontes declaram que sua mãe seria um pouco mais velha do que 13 anos.

3Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 2 – tradução livre

4Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 3 – tradução livre

5Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 2 – tradução livre

6Trecho retirado do site Black History Now – Black History Biographies from the Black Heritage Commemorative Society. Disponível em: <http://blackhistorynow.com/ethel-waters>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

7Trecho retirado do site Black History Now – Black History Biographies from the Black Heritage Commemorative Society. Disponível em: <http://blackhistorynow.com/ethel-waters>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

8Trecho retirado do site Christian Index – Ethel Waters: The Sparrow that Soared, escrito por Ron F. Hale. Disponível em: <https://christianindex.org/ethel-waters-sparrow-soared/#>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

9Trecho retirado do site Christian Index – Ethel Waters: The Sparrow that Soared, escrito por Ron F. Hale. Disponível em: <https://christianindex.org/ethel-waters-sparrow-soared/#>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Eunice Souza Gabbi Weave – Set/2018

Foi uma importante ativista pelo combate da hanseníase no Brasil.

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Eunice Souza Gabbi Weave nasceu em 19 de setembro de 1902, na pequena cidade de São Manuel, no interior de São Paulo. Sua família era uma família de fazendeiros de café. Seu pai, Henrique Gabbi, era carpinteiro e natural da Itália, já sua mãe, Leopoldina Gabbi, era natural da cidade de Piracicaba e de origem suíça.

Aos 3 anos de idade, Eunice e sua família, mudaram-se para Uruguaiana, no estado do Rio Grande do Sul, e lá ela completou seus estudos primários. Mas foi em São Paulo que Eunice formou-se em Educação Sanitária.

Além de sua mãe ser portadora da hanseníase outro importante acontecimento contribuiu para que Eunice posteriormente se engajasse por completo nesta causa:

Durante seus estudos, quando foi passar férias em casa, ocorreu um fato que mudou sua vida para sempre. Eunice presenciou um bando de esfarrapados, mendigos e doentes, que pegavam agasalhos e alimentos deixados à porta da fazenda. As crianças da Casa Grande foram levadas para dentro, às pressas; as cortinas e as portas fechadas. Então, uma mulher abandonou o grupo e se aproximou. Nela havia um ar aristocrático e restos de nobreza. O rosto estava escondido por um chapéu de palha, e ela falou com voz serena:

– Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei. Casei-me com aquele homem. Nessa vida de cigano é melhor ser um só.

Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos e cobiçada donzela que todos encantava, mas havia desaparecido. A moça tinha contraído lepra nos tempos do colégio. Nunca mais Eunice esqueceria os ‘olhos de Rosa’ e, a partir deste episódio, começava seu trabalho em benefício dos leprosos.1

Em 1927, Eunice reencontrou-se com Charles Anderson Weaver, ele havia sido seu professor de latim e, na época, era o diretor do colégio onde ela havia estudado. Neste reencontro Eunice ficou fascinada por sua cultura, inteligência, bondade e brilhantismo de ideias.2 Posteriormente casaram-se e foram morar em Juiz de Fora.

Depois de 1 ano de casados, seu esposo foi convidado pela Universidade de Nova Iorque a dirigir a Universidade Flutuante da América do Norte – que era um transatlântico, que faria uma viagem ao redor do mundo, para melhor formação de seus alunos.3

Eunice aproveitou sua estadia na universidade móvel para estudar Jornalismo, Sociologia, Serviço Social e Filosofia Oriental. Ao todo, ela visitou 42 países, e por todo lugar que passava buscava informações sobre o problema da hanseníase. Ela também aproveitou para estagiar em diversos lugares ao redor do mundo que acolhiam e tratavam pessoas diagnosticadas com hanseníase.

Já de volta ao Brasil, em 1934, seu esposo foi nomeado pastor da Igreja Metodista de São João, em Juiz de Fora e Eunice começou a fazer campanhas de assistência as pessoas com hanseníase. Até que, em 1935, Eunice tornou-se presidente da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros, fundada em 1932 por Alice Tibiriçá. 4

Em Minas Gerais, nessa época, o problema da lepra era terrível: o trem passava de madrugada com o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel. Eunice levava à estação roupas, cobertores e refeições .5

O próximo, e inevitável passo, foi o da conscientização da população para a prevenção da doença. Mais tarde, estes locais vieram a se tornar lugares que contribuíam para a inclusão de crianças, filhas e filhos de portadores da hanseníase, na sociedade. Fazendo-as participar e usufruir da vida em sociedade.

Em 1935, Eunice convenceu o então presidente da república, Getúlio Vargas, a contribuir oficialmente com a causa. Ele prometeu dar o dobro de dinheiro que ela conseguisse arrecadar junto a sociedade civil. Infelizmente, [a] classe política se esquivava do assunto, pois acreditavam que a assistência aos leprosos não daria frutos políticos.6 Ao todo, Eunice percorreu 146 cidades no Brasil divulgando e arrecadando fundos para a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa Contra a Lepra.

Seu trabalho foi amplo e diversificado pela causa. Participou diretamente da construção de educandários7 e suas implantações, bem como na elaboração de campanhas para conscientização da população da doença e representando o país em congressos internacionais para falar sobre o combate à doença no Brasil. Além de contribuir com os países Paraguai, Cuba, México, Guatemala, Costa Rica e Venezuela em ações de combate a doença.

Eunice não teve filhos biológicos, mas amou e cuidou dos filhos de seu esposo Charles, com o mesmo coração e temor. Além de dedicar seu amor e cuidado à cada pessoa excluída e marginalizada pela hanseníase em sua época.

Depois de muito tempo atuando contra a hanseníase e com a idade mais avançada, Eunice recebeu uma carta de um portador da doença que perguntava a ela o seguinte:

– Por que a senhora escolheu, na vida, este caminho tão duro, de cuidar dessa raça de gente inválida que todo mundo tem pavor?8

Mas [d]ona Eunice não respondeu. Sorriu. Sorriu recordando as outras cartas de engenheiros, aviadores, advogados, professores, todos filhos de leprosos e por ela encaminhados na vidam, durante esses trinta anos, narrando suas vitórias, as suas conquistas, os seus trabalhos, que deram às suas vidas as alegrias sadias dos que são construídos com AMOR.9

Eunice faleceu, aos 67 anos, em 9 de dezembro de 1969 em pleno exercício de seu chamado. Ela estava no Rio Grande do Sul, quando faleceu. Seu corpo foi transladado para o Rio de Janeiro, velado em uma igreja metodista e enterrado ao lado de seu esposo no Cemitério dos Ingleses.

ALGUNS RECONHECIMENTOS

  • O governo do Paraguai lhe concedeu a condecoração de Ordem ao Mérito
  • A Sociedade Internacional de Leprologia lhe conferiu o título de Full Member – que garantia a ela os mesmos direitos dos membros regulares e médicos leprogistas
  • O governo de Cuba a condecorou com a Ordem ao Mérito Carlos Finley
  • Em 1950 foi a primeira mulher no Brasil a receber a Ordem Nacional do Mérito
  • Em 1956 recebeu a Ordem do Mérito da Aeronáutica
  • Em 1960 recebeu o título de Cidadã Carioca – ao completar 25 anos na direção da Federação
  • Em 1965 foi honrada com o título de Cidadã Honorária de Juiz de Fora
  • É cidadã bemérita do Rio de Janeiro, Bahia e do Pará
  • Recebeu o diploma da Inconfidência pelo estado de Minas Gerais
  • Em 1967 foi para a ONU como delegada brasileira no 12º Congresso Mundial
  • Em 1973 foi emitido um selo pelos Correios com a imagem de Eunice Weaver, em uma campanha contra o mal de hanseníase

Ao conhecer a história de Eunice, inevitavelmente, me lembrei de tantas e tantas histórias narradas nos Evangelhos, sobre o contato direto de Jesus com os leprosos de sua época, fazendo exatamente o contrário da sociedade, que excluía, condenando-os à uma vida miserável e solitária.

Jesus tocou e curou essas pessoas. Mostrando que o ordinário, que a vida comum também importa. Curando essas pessoas, Ele permitiu que elas pudessem partilhar o pão novamente em comunhão com a comunidade.

Um leproso aproximou-se dele e suplicou-lhe de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me!” Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado!” Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi purificado.
[ Marcos 1:40–42 – NVI ]

Conhecer a trajetória e o trabalho de Eunice, me lembrou que, mesmo imperfeitos e pecadores, somos convocados a levar vida, pão e comunhão àqueles que estão a margem. Que Deus nos ajude a não reter o que Ele nos dá em abundância para que seja compartilhado e, assim, multiplicado.

“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, ele se assentará em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. ‘

[ Mateus 25:3140 – NVI ]

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VOCÊ SABIA QUE, DESDE 2016, EXISTE A CAMPANHA JANEIRO ROXO, NO BRASIL?

Pois é, a hanseníase coloca o Brasil em segundo lugar em número de casos, atrás apenas da Índia!10

Infelizmente, ainda precisamos combater seriamente a doença no Brasil, e ao contrário que muitos pensam, a doença não é hereditária e possui cura. Quanto mais cedo o paciente é diagnosticado e inicia o tratamento, menores são as agressões aos nervos e é possível evitar complicações. Além de não transmitir a doença a seus familiares, amigos, colegas de trabalho ou escola.

 

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NOTAS:

1Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

2Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

3Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

4Alice Tibiriçá fundou em São Paulo a Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra, tendo Eunice como sua vice-presidente. Em 1935, Eunice assumiu a presidência dessa entidade, que exerceu durante 30 anos. Dicionário Mulheres do Brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, p 301

5Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

6Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

7Educandários eram os espaços de acolhimento e educação, oferecidos pela fundação, para as crianças filhas dos portadores da doença

8 / 9 Trecho de Eunice Weaver: Uma vida para o bem, escrito por Vera Brant. Disponível em: <http://verabrant.com.br/1/cronicas/EUNICE%20WEAVER-artigo.htm>. Acessado em 21/08/2018

10Dado coletado em Sociedade Brasileira de Hansenologia. Disponível em: <http://www.sbhansenologia.org.br/campanha/janeiro-roxo>. Acessado em 21/08/2018

 

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Mulheres Inspiradoras: Katherine Coleman Goble Johnson – Ago/2018

Katherine teve um desempenho escolar acima da média. Concluiu o Ensino Médio antes da idade prevista e finalizou o Bacharelado em Matemática e Francês aos 18 anos. Foi uma das primeiras mulheres negras a se matricular em Matemática nos Estados Unidos. Aos 35 anos começou a trabalhar na NASA e contribui para missões espaciais históricas, como levar o primeiro norte americano à Lua!


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Katherine Coleman Goble Johnson nasceu em 26 de agosto de 1918, em White Sulphur Springs, West Virginia, Estados Unidos. Seu pai, Joshua, era fazendeiro e sua mãe, Joyllete, era professora. Ao todo, o casal teve 5 filhos, sendo Katherine a filha mais nova.

Desde muito cedo, Katherine tinha aptidão para a matemática e adorava cálculos:

Eu contava tudo. Contava os passos na rua, os passos até a igreja, o número de pratos e talheres que eu tinha lavado… qualquer coisa que pudesse ser contada1

Mesmo sem idade para frequentar a escola, tramou um jeito de começar a seguir seu irmão, quando ele ia para a escola. Um dia, ao se deparar com seu professor, foi convidada para assistir a aula. Impressionado ele permitiu que Katherine frequentasse as aulas naquele verão, pois ela já sabia ler e escrever.

Foi matriculada oficialmente com quase 6 anos de idade, porém foi colocada diretamente no 2o ano por seu desenvolvimento além do previsto para a sua faixa etária. Um pouco mais tarde, prestes a entrar na 5a série, avançou novamente mais um ano.

Aos 10 anos de idade ela já estava apta a iniciar o ensino médio, mas infelizmente a única escola de sua cidade, que permitia negros estudarem, não possuía o ensino médio disponível. Com isto, sua família precisou se mudar para Kanawha, para que Katherine e seus irmãos continuassem estudando.

Katherine se formou aos 14 anos no ensino médio e aos 15 anos iniciou seus estudos na universidade (naquela época, ela tinha sido uma das primeiras pessoas negras a se matricular em um curso de matemática nos Estados Unidos). Enquanto estava na universidade, diversos professores e tutores a guiaram e acompanharam suas escolhas com matérias, contribuindo para o direcionamento de seu curso. Aos 18 anos conseguiu concluir seu Bacharelado em Francês e Matemática na Universidade West Virginia State.

Depois de formada, seu primeiro trabalho foi em uma escola primária rural ensinando francês e matemática. Katherine acabou deixando o trabalho em 1939 para se casar com James Francis Noble. Em 1940, a Universidade West Virginia State a convidou para se matricular em uma pós-graduação em Matemática, o que faria dela uma das primeiras pessoas negras a cursarem um curso de pós-graduação em matemática nos Estados Unidos, porém seu esposo James ficou doente e ela foi forçada a abandonar os estudos para sustentar sua família.

Em 1952, Katherine descobriu que o Centro de Pesquisas de Langley – NACA2 estava recrutando mulheres negras com aptidão em matemática. E um ano depois ela estava empregada no centro de pesquisas, inicialmente em um grupo apenas com mulheres.

Duas semanas depois, ela foi convidada a se juntar a um grupo de engenheiros de vôo – no qual, todos eram somente do sexo masculino – para uma vaga temporária como assistente de dados. Seu grande conhecimento em geometria analítica a fez conquistar a vaga por definitivo. Obviamente que, além do forte machismo em meio a um ambiente dominado por homens, Katherine precisou também enfrentar, com grande coragem, um racismo vergonhoso.

Em 1956, seu esposo James faleceu, devido a um tumor inoperável no cérebro, e juntos eles tiveram 3 filhas; Constance, Joylette e Katherine.

Em 1959, o programa espacial avançou muito! Os Estados Unidos e a Rússia competiam entre si para marcarem história, levando o primeiro homem à Lua. Nesta época, a contribuição de Katherine esteve relacionada aos cálculos das trajetórias para um tempo preciso dos lançamentos espaciais. Neste mesmo ano, Katherine se casou com o tenente-coronel James A. Johnson.

Katherine realizou cálculos referentes ao tempo do lançamento da missão Mercury de Alan Shepard, em 1961 – primeiro norte americano no espaço. Fez cálculos altamente complexos para impulsionar as cápsulas espaciais em órbita ao redor da Lua. Traçou as cartas de navegação, guiando navios pelas estrelas em caso de falha eletrônica e, em 1962, verificou os primeiros cálculos computacionais da órbita de John Glenn ao redor da Terra. Ela também participou da autoria do primeiro livro didático sobre o espaço, após completar o trabalho em dinâmica de vôo em um programa secreto.

Em 1969, ela calculou a trajetória do vôo Apollo 11 até à Lua e seu trabalho posterior incluiu o programa Space Shuttle e planos para uma missão à Marte.

Eu encontrei o que eu estava procurando em Langley. Isso era o que uma matemática de pesquisa fazia. Eu fui trabalhar todos os dias, por 33 anos, feliz. Nunca me levantei e disse: “Eu não quero ir trabalhar”.3

Até 2008 ela ainda estava lecionando matemática para jovens. Em novembro de 2015, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, incluiu Katherine na lista dos 17 americanos a receberem a Medalha Presidencial da Liberdade e seu nome foi citado como exemplo pioneiro de mulheres negras na ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Em 2016, a nova Instalação Katherine G. Johnson de Pesquisa em Computação foi formalmente dedicada pela agência no Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia, no aniversário de 55 anos do vôo histórico de Alan Shepard em seu foguete, que Katherine contribuiu para que fosse possível.

Katherine foi membro da Igreja Presbiteriana Memorial Carver, em Newport News, por mais de cinquenta anos. Além de cantar no coral e servir em diversos cargos de liderança, contribuiu também com a organização e prestação de contas das finanças da igreja. Também foi membro da Alpha Kappa Alpha Sorority (organização criada em 1908 para promover a equidade dos negros através dos estudos, sobretudo das mulheres negras nos Estados Unidos).

RESUMO DE SEUS TRABALHOS

  • 1936 – 1952 – Professora rural na Virgínia e em West Virginia, nos ensinos infantil e médio
  • 1952 – 1953 – Professora substituta de matemática em escolas públicas em Newport News, Virgínia
  • 1953 – 1986 – NASA, Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia
  • 1953 – 1958 – Matemática Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia, com a NACA
  • 1958 – 1986 – Técnica aeroespacial, NASA

EDUCAÇÃO

  • 1932 – West Virginia State High School, ensino médio
  • 1937 – West Virginia University, graduação em Matemática e Francês
  • 1940 – West Virginia University, graduação no programa de Matemática

PRÊMIOS E HONRARIAS

  • 2015 – Medalha Presidencial da Liberdade
  • 2010 – Doutorado honorário em ciência pela Old Dominion University, Norfolk, Virginia
  • 2006 – Doutorado honorário em ciência pelo Capitol College, Laurel, Maryland
  • 1999 – West Virginia State College – aluno excelente do ano
  • 1998 – Doutorado honorário em direito do SUNY Farmingdale
  • 1986 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1985 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1984 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1980 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1971 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Center Special Achievement award
  • 1967 – Prêmio do Grupo Apollo, que inclui as 300 bandeiras que voaram junto da Apollo 11
  • 1967 – NASA – Prêmio em Equipe do Lunar Orbiter Spacecraft and Operations – por trabalho pioneiro na resolução de problemas de navegação de cinco espaçonaves que circundaram e mapearam a Lua na preparação para o Programa Apollo

Conheci Katherine através do filme Estrelas Além do Tempo (título original, em inglês, Hidden Figures), juntamente com as outras duas mulheres incríveis, que lutaram bravamente e intelectualmente para vencerem e transpor as diversas barreiras de preconceitos. Eu realmente acredito que trazer à tona história de mulheres reais que fizeram diferença no mundo tem grande poder! Saber que existiram, e existem, mulheres tão inspiradoras que mudaram o mundo, nos inspira também a mudar o mundo, nosso país, nossa cidade, nosso bairro, nossa casa.

Este ano Katherine completará 100 anos. Celebro e agradeço a Deus por sua vida e peço à Ele que ela tenha em seu coração a paz, que excede todo e qualquer entendimento e a satisfação por ter vivido uma boa, agradável e perfeita vida de acordo com os desígnios de Deus em Cristo Jesus.

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NOTAS:
1Frase traduzida livremente do site The Heroine Collective referente a sua biografia: Biography: Katherine Johnson, Space Scientist

2NACA – National Advisory Committee for Aeronautics. A NACA foi o comitê anterior a NASA – National Aeronautics and Space Administration

3Frase traduzida livremente do site The Heroine Collective referente a sua biografia: Biography: Katherine Johnson, Space Scientist

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Archimínia de Meirelles Barreto – Jul/2018

A filha de padre Archiminia Barreto (1845-1930): convertida ao evangelho de Cristo, defendeu sua fé e escreveu contra a idolatria [1]

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Por todos os títulos a memória desta distinta irmã merece ser perpetuada entre nós. A sua rara fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo desde a sua conversão, já há muitos anos, diante dos constantes esforços do clero romano para induzi-la a voltar à fé abjurada, como também os seus relevantes serviços prestados à Causa, com sua pena burilada, jamais devem ser esquecidos pelos batistas brasileiros. [2]

Introdução
Archimínia de Meirelles Barreto nasceu em 12 de julho de 1845, em Inhambupe, Bahia. Era filha do padre Fernandes Pinto Meirelles Barreto e D. Leopoldina Theodolina de Castro. Ela recebeu esmerada educação de seu pai. Dominava o latim e falava bem o francês. Com trinta anos obteve nomeação para o exercício do magistério público. Foi a primeira professora pública na Bahia de 1875, ainda sob o Império.

Digno de destaque é o fato de que sua filiação nunca foi ocultada, seu pai padre teve seis filhos, por ele legitimados.

Archimínia casou-se com Joaquim Euthychio de Oliveira e teve duas filhas. Ela professou a fé em Cristo em 05 de fevereiro de 1893, juntamente com sua irmã Jacquelina, na Primeira Igreja Batista da Bahia e, no mesmo dia foram batizadas pelo missionário Zacarias Clay Taylor. [3]

Archimínia: mulher destemida e apologista intrépida
Após sua conversão, e por causa dela, foi abandonada pelo marido e por outros parentes. Foi morar, então, com sua irmã viúva Jacquelina, juntamente com suas duas filhas: Eunice e Evangelina.

Sofreu perseguição por se tornar protestante, sendo transferida diversas vezes sob a acusação de que “tinha parte com o diabo”. Os pais de seus alunos, ao saberem de sua fé, os retiravam da escola e um inspetor aconselhou-a a abdicar de sua fé. Mas, ela respondeu tão energicamente, repreendendo-o por invadir a seara de sua consciência, que ele se tornou seu melhor defensor.

Archimínia afirmou que: “Quem quer que se dê ao trabalho de estudar o que tem sido a religião de Jesus Cristo desde os seus primeiros tempos verá que toda a sua pureza vai desaparecendo à proporção que a Roma dos papas vai lhe adicionando inovações”. [4]

Bastante preocupada com essa impureza no cristianismo de sua época, Archimínia dedicou-se a escrever artigos nos quais refutava a idolatria, afirmando que: “O vosso culto sublime e santificador, a adoração da vossa boa e terna Mãe de Deus, é tanto idolatria como o era a adoração das deusas do paganismo: e os protestantes tão perversos e ímpios como o foram os cristãos, que nunca se prostraram diante de suas imagens tão prezadas. [5]

A escritora escrevia em periódicos e jornais seculares e, em todas as suas crônicas, não dava tréguas aos padres que tentavam de todos os meios impedir que os jornais da cidade publicassem seus escritos. [6]

Sua contribuição à literatura evangélica não se limitou, porém aos artigos polêmicos, pois escreveu também folhetos de edificação e evangelização. Ela também foi responsável pela Seção Feminina do Jornal Batista por mais de uma década, onde escreveu artigos endereçados às mulheres, destacando sua missão como mãe, esposa, filha e mestra.

Archimínia foi atuante também em sua igreja, sendo professora da Escola Dominical, evangelista, e tendo sido escolhida por algum tempo como diretora dos cultos da Igreja de Villa Nova, na ausência do pastor. Archiminia também pregava e “foi ela, pela sua pregação, que levou a Cristo o jovem Francisco José da Silva, a quem Taylor denominava ‘o apóstolo do Estado do Espírito Santo’”. [7]

Archimínia e seu livro “Mitologia Dupla”
Foi aconselhado à Archimínia pelo pastor Zacharias Taylor, pioneiro dos batistas na Bahia, que escrevesse uma obra sobre a idolatria. Como estrangeiro, o pastor tomava bastante cuidado para não ofender os brasileiros falando sobre o assunto. Com temor, ela aceitou o desafio, movida pela vontade de apresentar aos seus contemporâneos a mensagem do evangelho, tal como se encontrava na Bíblia:

Eu, porém, que suportei diretamente, por muitos anos, esta cegueira espiritual, desejei ardentemente iluminar a minha pátria, tão digna de melhor sorte, a fim de elevarmos o nosso espírito para o infinito, desprendendo-nos de objetos materiais. Bem sabia eu que uma idéia desconhecida é sempre mal recebida; mas, que importa? A verdade, cedo ou tarde, triunfará!

No desejo de fazer triunfar a verdade evangélica, a senhora baiana dedicou-se a escrever seu livro, com humildade e modéstia, afirmando uma nulidade literária, que não conduzia com sua capacidade bem demonstrada no texto que entregou ao público brasileiro.

Como filha de padre, Archimínia bem conhecia o catolicismo e na introdução de seu livro informou que: “filhos de católicos romanos, temos a desdita de receber em criança, sem prévio exame, esse presente de gregos à guisa de religião, e inconscientemente levamos esse cavalo de Tróia para o capitólio da nossa alma!”. [8]

Por esse trecho de seu livro percebe-se a intelectualidade de Archimínia. Ela comparou o presente dos gregos, o cavalo de Tróia, onde se abrigavam soldados inimigos, com as inovações abrigadas pela religiosidade brasileira, cheia de lendas, de cerimônias e de festas iguais às da antiga mitologia. Por isso intitulou sua obra de “Mitologia Dupla” e nela demonstrou as semelhanças da idolatria da religiosidade brasileira com a mitologia pagã.

Como exemplo do conteúdo do livro, segue-se uma comparação feita pela autora das divindades antigas e modernas:

TEXTO DA ÉPOCA:

[9] [10]

De comparação em comparação segue o livro de Archimínia, dividido em cinco partes: na primeira, ela comparou as divindades de Roma antiga e moderna; na segunda, discorreu sobre as invocações e cerimônias; na terceira, escreveu sobre as festas; na quarta tratou das superstições e na última parte apresentou Maria versus Maozim. [11]

Na conclusão de seu livro, a autora afirmou que:

De Jerusalém saiu o evangelho, e de Roma, a idolatria. Jesus é um rei eterno, e o Papa um homem negociante de almas. Sirvamos ao nosso Rei, a despeito dos mercadores de Roma. A Ele, o Deus de toda a Glória, Pai, Filho, e Espírito Santo, sejam todas as glórias para todo o sempre. Amém. [12]

Herança de Archimínia: intrepidez e ousadia
Archimínia foi a apologista da época, corajosa, intrépida e que não temia as perseguições. Com destemor escreveu seus artigos nos jornais, enfrentou as hostilidades de parentes e amigos e criou, sozinha, suas filhas. O seu objetivo com o estudo e apresentação do sincretismo, mistura de santos com deuses pagãos, era de que essa idolatria fosse enxergada e abolida da crença brasileira.

Muitos anos depois, alguns seguidores do candomblé baiano, herdeiros da religiosidade africana, perceberam e rejeitaram seu próprio sincretismo, que era a mistura dos santos com seus orixás.

Em uma reportagem da Revista Veja, de 01 de março de 2000, com o título de: “Abaixo os santos: expoentes do candomblé baiano não querem mais saber de sincretismo com os católicos”, o autor do artigo fez também uma comparação, parecida com a pioneira apologista batista, como pode ser verificado a seguir:

Na realidade, a mitologia não é somente dupla como escreveu Archimínia, mas é tripla ou até mais multifacetada, conforme as misturas que vão se incorporando, pouco a pouco, ao cristianismo brasileiro, que de tão descaracterizado nem devia mais receber essa denominação.

Ebenezer Cavalcanti, o escritor do esboço biográfico de Archimínia, reconhecendo seu valor, destacou que: “Sua obra completa deve ser reunida e publicada. Bem que seu nome merece ser perpetuado por algum setor pertinente da obra feminina batista no Brasil. Foi pioneira e heroína”. [13]

Após longa enfermidade, Archimínia morreu, aos oitenta e sete anos, em 20 de janeiro de 1930.  A Primeira Igreja Batista da Bahia registrou em ata alguns trabalhos de sua vida cristã, onde foi destacada como um modelo de mulher a ser seguido pela comunidade.

O Jornal Batista, em seu editorial de 20 de março de 1930, lamentou o seu falecimento e elogiou seu trabalho de “escriptora fecunda que, pelo seu zelo, energia e competência, escreveu em jornais e pamphletos”. Nesse necrológio, o redator não encontrando adjetivo apropriado para as qualificações de Archiminia, declarou que: “a veneranda irmã D. Archyminia Barreto, professora aposentada do estado tinha um caracter másculo e cristão”. [14]

Esse comentário refletiu bem a mentalidade de que a firmeza de caráter e a fidelidade em defender doutrinas só podiam ser privilégios da personalidade masculina. Mas, sabemos que todas nós, verdadeiras cristãs, somos capazes de defender a nossa fé e não nos deixarmos influenciar pela filosofia pós-moderna que tem causado tantos danos aos valores morais e espirituais.

Portanto, minhas queridas, inspiradas por Archimínia, preguemos o evangelho e, com ousadia confrontemos a filosofia da sociedade atual que prega o relativismo, a ausência de paradigmas e a permissividade. Amemos mais as pessoas, mais do que as respeitamos, pois, se ficarmos só no respeito ao que creem, não lhes apresentaremos Cristo, como verdadeiro caminho, verdade e vida.

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NOTAS:

[1] Resumo biográfico extraído das seguintes fontes:
BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 7; 9-11; 13-15;
CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 1/2/8.
CRABTREE, A. R. História dos Baptistas do Brasil até o anno de 1906. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Baptista, 1937, p. 159.
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de doutorado apresentado ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1998, p. 338-343.

[2] W. E. Entzminger na apresentação da 2ª edição do livro Mitologia dupla, em 01 de outubro de 1925.

[3] Curiosidade: na ata da igreja constam seus nomes antecedidos por S.S. D.D. (senhoras donas).

[4] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 13.

[5] BARRETO, Archiminia. “Cobrir os céos com os dedos ou a immaculada conceição de Maria”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1905, p. 3.

[6] MESQUITA, Antonio Neves de. História dos Batistas do Brasil. Vol. IIde 1907 até 1935. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1940, p. 68.

[7] PEREIRA, José dos Reis. História dos Batistas no Brasil: 1882-1982, p. 70.

[8] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 13-14.

[9] Caduceu: bastão com duas serpentes enroladas.

[10] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 29-30.

[11] Maozim: ídolo que Antíoco Epifânio, perseguidor dos judeus, quis que fosse cultuado nos anos de 164 a 174 a. C. Maozim era um novo deus introduzido no templo que desviava a adoração devida somente ao verdadeiro Deus de Israel. Archiminia alertava que a veneração à Maria desviava as almas da verdadeira rocha viva: Jesus, o Filho do Deus vivo.

[12] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 253. Obs: grifo da autora.

[13] CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 8.

[14] “Professora Archyminia Barreto”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 20 de março de 1930, p. 3, citado por SILVA, Elizete da. “Cidadãos de Outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia”, p. 342.

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Rute Salviano Almeida, pernambucana que sempre viveu em São Paulo. Apaixonada pelo ensino, foi professora por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas. É licenciada em Estudos Sociais, bacharel e Mestre em Teologia e pós graduada em História do Cristianismo. Escreve sobre a participação feminina na Igreja. Seus livros são : Uma voz feminina na Reforma, Uma voz feminina calada pela Inquisição, Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro e Vozes femininas no início do cristianismo. Todos publicados pela Editora Hagnos.

RE-PENSE: Reparar suas roupas, mas também suas relações é um ato de amor

Com a celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente que tal pensar em suas ações, mas também em suas relações?

Hoje, dia 05 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A campanha deste ano é focada na drástica poluição plástica (já falamos um pouquinho sobre esse tópico neste post aqui).

Este ano, com o tema #AcabeComAPoluiçãoPlástica, a data soma esforços à campanha #MaresLimpos da ONU Meio Ambiente para combater o lixo marinho e mobilizar todos os setores da sociedade global no enfrentamento deste problema — que se não for solucionado, poderá resultar em mais plástico do que peixes nos oceanos até 2050.1

Derivado do petróleo, o plástico nunca se degrada por completo na natureza. O material apenas se quebra em pedaços cada vez menores, em um processo de decomposição que pode levar centenas de anos. Mesmo os plásticos chamados biodegradáveis não “desaparecem”; apenas se quebram mais rapidamente.2

A poluição plástica é bem mais ampla do que a sacola plástica que você recusa no supermercado

O plástico está presente em nosso dia a dia muito mais do que imaginamos – ultrapassa a sacola plástica do supermercado que por ano, são consumidas até 5 trilhões de sacolas plásticas em todo o planeta.3 Pois, ele está no canudinho que você usa para beber o suco na padaria. Na bucha para lavar louças da sua pia. No colchão da sua cama. No seu travesseiro. No sapato que você usa. Na roupa que você veste. Enfim, a lista é extensa, infelizmente.

Sei que muitas das invenções com tal material supriram necessidades diversas e algumas foram extremamente importantes. Porém, o problema foi não pensar na sustentabilidade do processo. O impacto que a médio e longo prazo tais invenções causariam no planeta, seja pelo consumo desenfreado ou pelo descarte inapropriado.

Por isso, repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar é tão importante!

Por ter trabalhado com moda esportiva por muitos anos, sempre me deparei com fibras têxteis derivadas do petróleo. Neste segmento, ao longo dos anos, as empresas de tecelagem e malharia foram criando fibras que pudessem suprir as necessidades do esportista, garantindo sua sobrevivência em climas hostis. Com isto, foi possível desbravar lugares incríveis sem morrer de frio, mas lamentavelmente as fibras criadas duram muito mais do que uma vida, elas resistem por diversas gerações.

Uma marca, do segmento esportivo, que eu admiro muito é a Patagonia (existe há mais de 40 anos e foi criada pelo escalador Yvon Chouinard). Pois vejo que ela tenta buscar soluções mais duradouras para seus produtos – seja na conservação ou no descarte deles.

Imagem retirada da matéria feita pela marca Patagonia: http://www.patagonia.com/blog/2015/11/repair-is-a-radical-act/

Há um tempo, eles criaram um site chamado Worn Wear, que estimula as pessoas a comprarem roupas usadas da própria marca. E para o brechó online funcionar, eles recebem as roupas do desapego em suas lojas físicas e em troca dão créditos que podem ser utilizados em suas próprias lojas.

A marca também ensina as pessoas a repararem suas roupas, disponibilizando guias de conserto e conservação em seu site. Além, de promover eventos de reparo com um ateliê móvel pelas cidades.

Esses dias eu precisei reparar uma calça minha e me veio a memória que, há 3 anos (no mínimo), eu não comprei nenhuma roupa nova. Basicamente meu guarda-roupa foi constituído pela doação de peças por uma irmã que tenho (e que possuía muita roupa) ou de peças que tenho há muitos anos e que ainda se encontram em perfeito estado para uso.

Esses dias, eu também percebi que, assim como roupas precisam de reparação, muitos de nossos relacionamentos também precisam. Replicamos nosso comportamento de consumo e descarte em nossas relações. E, por vezes, somos descartados ou descartamos pessoas.

Esses dias eu precisei ceder meus ouvidos para realmente ouvir. Olhar para dentro de mim e revisitar situações incômodas. Exercer a empatia e liberar vida e perdão. Percebi que reparar relacionamentos leva muito mais tempo do que uma agulha e linha podem costurar, e que apesar da dor (passada e momentânea) possibilita restauração de vidas e possibilidades de novos recomeços.

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NOTAS:
1Trecho retirado da matéria das Nações Unidas no Brasil, link aqui

2Trecho retirado da matéria da Época Negócios, link aqui

3Informação retirada da matéria das Nações Unidas no Brasil (mesmo link acima)

__________
RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Anne Morrow Lindbergh – Jun/2018

Foi a primeira mulher a tirar o brevê de piloto planador de primeira classe nos Estados Unidos.

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Anne Morrow Lindbergh nasceu em 22 de junho de 1906 (já falamos dela neste post aqui), em Englewood, Nova Jersey, Estados Unidos. Seu pai, Dwight Morrow, foi um empresário, diplomata e político nos Estados Unidos. Sua mãe, Elizabeth Cutter Morrow, foi uma poeta e professora ativa na educação para mulheres.

Por ser um lar que promovia a leitura, escrita e atividades públicas entre os filhos (Anne era a segunda filha de um total de 4 filhos), tal influência contribuiu, e muito, para que Anne pudesse desenvolver sua aptidão à escrita.

Ela graduou-se em língua inglesa no Smith College. Conheceu seu marido, Charles Lindbergh, na cidade do México e casaram-se em uma cerimônia privada em 1929. No ano seguinte, 1930, Anne se tornou a primeira mulher a obter o brevê de piloto planador de primeira classe, nos Estados Unidos. E assim, o casal iniciou a aventura de traçar novas rotas e explorar continentes juntos.

Ao total, Anne e Charles tiveram seis filhos – sendo que o primogênito, com apenas 20 meses, foi sequestrado e morto meses depois do sequestro. Posterior ao ocorrido, mudaram-se para Inglaterra e ao longo dos 45 anos de casamento, a família Lindbergh viveu em diversos lugares: Nova Jersey, Nova York, Inglaterra, França, Maine, Michigan, Connecticut, Suíça e Havaí.

Anne recebeu diversas premiações ao longo de sua vida em reconhecimento de sua contribuição para com a literatura e a aviação:

  • 1933: recebeu a cruz de honra da U.S. Flag Association por ter participado do levantamento de rotas aéreas transatlânticas
  • 1934: foi premiada com a Hubbard Medal pela National Geographic Society por ter completado 40.000 milhas (64.000km) de voos exploratórios com seu marido, levando-os aos 5 continentes
  • 1935: seu primeiro livro, North to Orient, ganhou o National Book Awards
  • 1938: seu segundo livro, Listen! The Wind, ganhou o National Book Awards
  • 1938: recebeu o Christopher Award por War Within and Without e partes de seus Diários Publicados

  • 1939: recebeu o Honoris Causa de Amherst College
  • 1939: recebeu o Honoris Causa de University of Rochester
  • 1976: recebeu o Honoris Causa de Middlebury College
  • 1979: entrou no National Aviation Hall of Fame
  • 1985: recebeu o Honoris Causa de Gustavus Adolphus College
  • 1993: em reconhecimento de suas conquistas e contribuições para o campo aeroespacial, recebeu de Women in Aerospace o Aerospace Explorer Award
  • 1996: entrou no National Women’s Hall of Fame
  • 1999: entrou no Aviation Hall of Fame of New Jersey
  • 1999: entrou no International Women in Aviation Pioneer Hall of Fame

Depois da morte de Charles, em 1974 na ilha Maui, no Havaí, Anne voltou para Connecticut. E em 1999 foi morar perto da filha Reeve, em Vermont, onde veio a falecer em 07 de fevereiro de 2001, aos 94 anos.

A trajetória de Anne na aviação, desbravando rotas, conhecendo novos lugares, se expondo ao novo – continuamente, não poderia ser celebrada em melhor mês. Estou com malas semi-prontas, com passagem marcada, parto daqui 1 mês e alguns dias.

Estarei indo para a Inglaterra, país que eu sempre sonhei visitar, mas que por decisões diversas eu não havia conseguido planar. Tal viagem veio como um presente: privilégio de celebrar o casório de amigos e que, graciosamente, se estendeu a diversas outras oportunidades de vivência para mim.

Agora que a viagem se aproxima, e que distrações foram dissipadas, começo a sentir aquele frio na barriga que vem em decorrência de toda, e qualquer, mudança.

O medo destrói a “vida de altos voos”. Mas como exorciza-lo? O medo só pode ser exorcizado pelo seu oposto – o amor. Não há lugar para o medo, para a dúvida, para a hesitação num coração cheio de amor.1

No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.2

Enquanto estou desenvolvendo este texto, pego o livro Presente do Mar, o folheio e releio alguns de seus capítulos. Me lembro da sensação que ele provocou em mim, quando o li pela primeira vez. Fico feliz por celebrar a vida de Anne no mês que eu também celebro a mudança que o Eterno tem me permitido viver…

Não importa em que página se abra Presente do Mar, as palavras da autora oferecem uma oportunidade de respirar, de viver com mais calma. O livro torna possível desacelerar e descansar no presente, sejam quais forem as circunstâncias. Lê-lo – um trecho ou todo o livro – é existir por um momento num tempo diferente e mais sereno.

Até mesmo a cadência e a fluidez da linguagem me parecem fazer referência aos movimentos suaves, inevitáveis do mar. Não sei se minha mãe usou esse estilo intencionalmente ou se foi o resultado natural de estar vivendo à beira da praia, dia após dia, enquanto escrevia o livro. Seja qual for a razão, após algumas poucas páginas eu sempre começo a relaxar de acordo com aquele movimento e a me sentir como algo que pertence à maré – apenas mais um pedaço dos destroços de um naufrágio, flutuando nos maravilhosos ritmos oceânicos do Universo. Isso, em si, é profundamente reconfortante.

No entanto, este livro proporciona mais do que paz, mais do que o vaivém ondulante apaziguador de uma vida tranquila e de palavras suaves. Nas entrelinhas de tudo isso há uma força imensa de sustentação. Sempre me surpreendo toda vez que me deparo com essa força a todo vapor em Presente do Mar.3

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NOTAS:
1Trecho retirado de Presente do Mar, escrito por Anne Morrow Lindbergh, p 90

21 João 4.18 – Nova Versão Internacional

3Trecho retirado de Presente do Mar, escrito na Introdução por Reeve Lindbergh (filha de Anne), em 2005, para a comemoração do 50o aniversário da publicação do livro, p 08-09

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Noêmia Falcão Campêlo – Mai/2018

Foi a primeira missionária entre os indígenas brasileiros.

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Noêmia Stella Falcão Campêlo nasceu em uma família cristã, em 10 de maio de 1906, em Recife, Pernambuco. Desde pequena, recebeu estímulo para os estudos, mas infelizmente não os concluiu, por recomendação médica, devido à sua fragilidade física.

Aos 15 anos fez sua pública profissão de fé e batismo. Aos 19 conheceu Zacarias Campêlo que foi pregar em sua igreja quando ainda era seminarista. Ambos foram marcados por uma saúde frágil, porém compartilharam de um coração devoto a Deus e um genuíno desejo em anunciar o Evangelho a povos não alcançados, mais especificamente, aos índios crâos.

A palavra kraô é composta de icrá (filho) e hô (folha), ou seja, filho das folhas ou das selvas. Crêem que foram feitos das folhas pelo deus Put (Sol). Daí a razão por que adoram o Sol, e não há força humana que os afaste da prática desse culto. 1

Os pais de Noêmia, a princípio, não ficaram muito confortáveis com essa ideia que foi anunciada quando eles noivaram:

– Minha filha – dizia-lhe o pai. Aqui também se pode pregar o evangelho. Aconselha o teu noivo a não ir para tão longe.

– Meu querido pai, se Zacharias não mais quisesse ir aos índios, eu perderia todo o interesse em unir a minha vida à sua.

– Mas, não sabes, Noêmia, que és a alegria de nossa velhice? Que há de ser de nós sem ti!

– Ah, papai, isto é o que me dói na alma, deixa-los assim. Mas a chamada de Deus é tão forte, que eu seria a criatura mais infeliz, se a ela não desse ouvidos.

– Pois que Deus te abençoe, minha filha, em tua resolução.

E grossas lágrimas corriam pelas faces do amoroso pai, as quais eram logo enxutas por Noêmia que, encostando o seu rosto ao dele, e com os braços ao redor do seu pescoço, chorava também e dizia-lhe:

– O mesmo Deus que me protege, há de protege-los também, queridos pais.2

1926 foi o ano que toda a jornada do casal começou:

  • Eles foram nomeados missionários pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira.
  • Casaram-se dia 8 de maio.
  • Dias depois do casamento Zacarias foi consagrado ao ministério pastoral.
  • Partiram para o campo missionário quase no final do mesmo mês, dia 21 de maio.

A forte convicção do casal em sua vocação missionária é inspiradora. Não houve saúde, distância ou, qualquer outra coisa, que os impediram de seguir aquilo que Deus havia colocado em seus corações. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13) vem ao meu coração quando penso em sua história. E Deus seguiu fortalecendo Noêmia…

Ao que conta Rute Salviano Almeida, em seu livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro3 o início de seu trabalho no campo não foi nada fácil! Afinal, o casal também estava aprendendo e se adaptando com toda a diferença e experiência transcultural.

Quem deu nome ao vilareijo, Craonópolis, foi Zacarias: “[o] missionário afirmou que os índios a pronunciavam como duas palavras, crâo e nópolis, e, quando se encontravam com os sertanejos diziam: Nossa aldêi tem nome boa, qui nosso indireitor botou. Por modéstia eles só davam a última parte. – É nópolis, chama nossa aldêi. Tem mais, mas num posso dizer, purque é nosso nome”.4

Quando as forças de Noêmia acabavam-se, sua saúde piorava5… E foi o que aconteceu durante suas gestações. Por estar enfraquecida, Noêmia foi para Carolina (MA), porque lá dispunha da ajuda da família de Zacarias. Em fevereiro de 1927, nasceu seu 1o filho, Saulo. Posterior a seu nascimento ela retornou à aldeia, dando continuidade a seu relacionamento com os índios crâos, principalmente com as mulheres.

Prestes a dar à luz a sua segunda filha, Noêmia partiu novamente para Carolina. Lá, no dia 1o de abril de 1928, nasceu Esmeralda, mas em decorrência de uma infecção puerperal, Noêmia infelizmente veio a falecer, aos 22 anos de idade.

Noêmia, durante doze dias, pertencera ao Clube dos Ex-Mortos ou dos redivivos. Teve síncope prolongada, e os presentes a tiveram por morta. Quando voltou à vida, contou que estivera no céu e que vira a Jesus. Uma coisa ficou provada: ela nunca mais chorou nem se queixou da ausência dos seus queridos, como ocorria antes. Pedia que se lhe mostrassem os filhos. Pediu à cunhada que ficasse com o menino, mandasse a menina à avó e deixasse livre o viuvinho. Tudo isso num espírito de bom humor, e de quem está de posse de algo mais importante. Dizia mesmo que suas lágrimas já se tinham esgotado. Sentia o gozo do céu, pelo que não mais se entristeceria. Foi o mais belo testemunho que já presenciei em toda a minha vida. Falar do invisível com segurança de quem já o provou. De quem já está na posse do futuro.6

Escreveu Zacarias Campêlo, esposo de Noêmia, em seu livro Minha vida e minha obra

Uma palavra que me veio à mente, ao pesquisar a vida de Noêmia, foi a palavra legado.

Mesmo que ela tenha falecido prematuramente, ficando tão pouco no campo missionário, com certeza deixou frutos que ainda colhemos e colheremos na Eternidade. Seja para com o povo que ela tanto amou, e dedicou seus últimos anos de vida, os índios crâos. Ou nós, cristãos brasileiros, que tivemos o caminho aberto à um campo fértil para a proclamação das boas-novas.

Mas, certamente, sua família pode se inspirar e beber diretamente da fonte, florescendo e frutificando através das gerações. Esmeralda Campêlo Vilela (sua filha) tornou-se pastora, fundou uma editora, uma comunidade evangélica e uma organização sem fins lucrativos. E para a minha surpresa, enquanto eu pesquisava, descobri que Guilherme de Carvalho, pastor, escritor, diretor do projeto Cristãos na Ciência e obreiro do L’Abri Brasil (ministério que eu tanto admiro e que ele toca junto com a Alessandra, sua esposa) é neto de Esmeralda, sendo bisneto de Noêmia. Pois é… acho que não poderia vir à minha mente palavra melhor. O legado de Noêmia continua reverberando através dos anos e de sua descendência. E que venham mais anos, mais histórias e mais inspirações! :)

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NOTAS:
1Trecho de O índio é assim, escrito por Zacarias Campêlo, p 17

2Trecho de A heroína de Craonópolis, escrito por Stela Câmara, p 48

3O livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino, de Rute Salviano Almeida é o livro precioso em que eu descobri Noêmia (todas as citações utilizadas aqui foram retiradas dele). Eu também descobri Henriqueta Rosa Fernandes Braga – que foi a nossa Mulher Inspiradora do Mês de Março. E para o semestre que vem, teremos mais mulheres garimpadas do livro! Obrigada, Rute, pelo incrível trabalho em dar voz a tantas mulheres caminhando por nossa história <3

4 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 395

5 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 396

6Trecho de Minha vida e minha obra, escrito por Zacarias Campêlo, p 165

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você se vê, transita e desfruta a cidade

Com a pressa que estressa e as demandas exageradas de trabalho será que estamos aproveitando o que a cidade tem nos ofertado?

Somos mais de 12 milhões de pessoas na cidade de São Paulo e, juntos, respiramos o mesmo gás carbônico que sai do escapamento de carros engarrafados e de velhos ônibus que nos levam, todos os dias, para nossos trabalhos, faculdades e lares.

Somos muitas e muitos, de fato! Moramos em lugares bem afastados do centro e nos deslocamos por quilômetros, diariamente. Somos da Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e de todos os seus desdobramentos.

Apressados, nos deslocamos por quilômetros e não prestamos atenção aos detalhes.

Como paulistanos caricatos (ou adeptos desta cultura que aqui se refugiam) gostamos de supervalorizar a falta do nosso tempo. E assim, desenvolvemos ansiedades diversas, pois estamos sempre com a sensação que temos “um mundo” de opções ao nosso dispor, mas não conseguimos aproveita-las, justamente pela falta de tempo que tanto supervalorizamos.

Para agravar (sim, é possível!), desenvolvemos um olhar distante e crítico para com a cidade que nos acolhe. Adotamos a postura que toda melhoria é de responsabilidade alheia e assumimos postos de meros consumidores, como se a cidade não fosse a soma entre eu e você = nós.

Por isso, não é difícil encontrar pessoas que, ao se estafarem por excesso de trabalho ou se sentirem lesadas pela falta que a “cidade grande” não saciou dentro delas, acreditam que o outro extremo seja a solução de seus problemas: – Viver uma vida bucólica, no campo, longe de buzinas frenéticas, asfalto demasiado e cartão de ponto não seria, então, a solução de todos os meus problemas existenciais?

Confesso que eu já fui uma dessas pessoas. Já quis fugir para as montanhas, acordar com o sol batendo através de uma linda e enorme janela de vidro, na qual eu poderia contemplar o nascer e o por do sol. E nesse lar aconchegante, com cheiro de mato, flores e aromas eu desenvolveria trabalhos manuais e artísticos sem pressa, leria um livro sem interrupções e viveria, então, uma vida alegre, feliz e completa, para sempre, não é mesmo?! Parece que não…

Pensar assim é replicar um olhar dicotômico, como se metrópoles fossem más e cidades no campo fossem boas. Em minha caminhada compreendi que quem corrompe, qualquer ambiente, somos nós; seres humanos. Exercemos um poder destruidor, mas acreditem, também podemos, felizmente, sonhar, gerar, desenvolver, construir e desfrutar de lugares e relacionamentos.

Tenho aprendido que, onde quer que eu esteja, minha missão é de promover vida: preparando a terra, semeando, regando ou colhendo. Talvez, em minha jornada pessoal, eu só consiga desenvolver uma ou outra etapa deste enorme processo, pois a História é bem maior do que minha existência individual. É o Eterno que continua se movendo livremente e apontando os rumos de um todo que tenho oportunidade de fazer parte.

Sim, é possível preparar a terra, semear, regar e colher mesmo em uma metrópole cercada por concreto. Envolta por injustiças, populações minorizadas e vulneráveis esquecidos. Aliás, será que não seria exatamente este o nosso chamado urbano: sermos jardineiras e jardineiros em plena cidade grande? Projetando e construindo jardins, em meio ao asfalto de fuligem e gerando vida verde e pulsante em meio ao cinza?

O Eterno me presenteou com árvores frutíferas próximas de onde eu moro – em pleno centro de São Paulo! Me sinto vivendo uma metáfora e, em demonstração de gratidão, recolho algumas mangas que caíram no asfalto depois de um vento muito forte. Levo para casa o máximo de mangas que minhas ecobags podem aguentar e ombros suportar e faço um delicioso chutneySe hoje posso colher é porque alguém investiu tempo plantando antes de mim.

Me sinto extremamente grata por ser parte de um todo bem maior que eu mesma. Desfruto do que cozinhei, como se fosse a comida mais saborosa que eu já experimentei em toda a minha vida! Realmente ela tinha um gosto especial… E como eu havia colhido frutas por demais, de um inusitado jardim, tenho a oportunidade de presentear algumas amigas com o chutney que fiz.1

CHUTNEY DE MANGA2

Ingredientes:

  • 2 mangas palmer
  • 1 maçã fuji
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • ½ pimentão vermelho
  • 1 ½ colher (sopa) de gengibre fresco ralado
  • ¼ de xícara (chá) uvas-passas brancas
  • ¼ de xícara (chá) de açúcar
  • 1 colher (chá) de sal
  • 1 canela em rama
  • ¼ de xícara (chá) de vinagre de vinho branco
  • ¼ de xícara (chá) de água

Modo de preparo:

  • Faça o pré-preparo: descasque e corte em cubos de 1 cm as mangas e a maçã; descasque e pique fino a cebola e o dente de alho; corte o pimentão, sem as sementes, em cubinhos; descasque e rale o gengibre fresco (se preferir, pique bem fininho).
  • Transfira todos os ingredientes para um panela, junte as uvas-passas, o açúcar, o sal, a canela, o vinagre e a água e misture. Leve para cozinhar em fogo médio.
  • Quando ferver, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar por 40 minutos, mexendo de vez em quando. Se começar a grudar no fundo da panela, regue com um pouco mais de água e misture – o chutney ainda deve ficar com um pouco de caldo, pois irá endurecer quando esfriar.
  • Passados os 40 minutos, desligue o fogo. Transfira o chutney para potes de vidro esterilizados, com fechamento hermético, e deixe esfriar em temperatura ambiente. Depois de frios, tampe e conserve na geladeira por até 3 semanas.

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NOTAS:
1O episódio (a colheita das mangas) aconteceu em março deste ano (2018), mas somente agora (maio), consegui elaborar em texto o que eu ansiava :)

2Receita retirada do blog Panelinha — link aqui

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Corrie Ten Boom – Abr/2018

Foi a primeira mulher licenciada ao ofício da relojoaria na Holanda e ficou conhecida por abrigar em seu lar diversos refugiados judeus além de membros da resistência nazista.

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Nascida em 15 de abril de 1892, na Holanda, Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom, mais conhecida como Corrie Ten Boom, cresceu em um lar cristão.

Seus pais, Casper Ten Boom e Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom-Luitingh, tiveram 4 filhos. Seu irmão Willem foi um teólogo, sua irmã caçula, Nollie, casou-se, enquanto Corrie e sua irmã mais velha, Elisabeth mais conhecida como Betsie, viveram juntas a missão de abrigar refugiados em seu lar, juntamente com seu pai, durante o Holocausto.

Corrie aprendeu o mesmo ofício de seu pai, o da relojoaria, estudando-o no período de 1920 a 1922 e ao formar-se, tornou-se a primeira mulher relojoeira licenciada em toda a Holanda.

Porém, sua grande e arriscada contribuição foi através do O Refúgio Secreto, nome dado ao seu lar, pelo acolhimento que exerceu à pessoas refugiadas durante o Holocausto. O lar dos Ten Boom foi um local que recebeu diversas pessoas e teve seu “pontapé oficial” em 1942, com a chegada de uma mulher muito bem vestida, portando apenas uma pasta à mão e pedindo asilo, pois ela tinha ouvido falar que eles já haviam abrigado alguns conhecidos judeus.

A família abrigou, socorreu e arriscou a própria vida por diversas pessoas até fevereiro de 1944, quando um informante holandês delatou toda a família as autoridades nazistas que levaram presos. Casper Ten Boom não resistiu e morreu 10 dias depois de sua prisão. Enquanto ela e sua irmã, Betsie, foram encaminhadas para o campo de concentração feminino em Ravensbrück, na Alemanha. Lá é Betsie que veio a falecer e, antes de ir a óbito, disse à Corrie a seguinte frase: “não há abismo tão profundo que o amor de Deus não seja ainda mais profundo”.

Corrie foi solta um dia após o Natal de 1944. Posteriormente, ela soube que sua soltura se deu por um erro burocrático porque uma semana depois de sua libertação todas as meninas de sua idade haviam sido assassinadas.

Com o fim da guerra, ela retornou à Holanda, posteriormente à Alemanha e depois viveu muitos anos ensinado e palestrando itinerante pelo mundo.

Em 1967 Corrie foi honrada pelo Estado de Israel com o Prêmio Justos entre as Nações1. Em 1971 ela escreveu seu mais famoso livro O Refúgio Secreto onde ela narra toda a saga de sua família – em 1975 o livro foi adaptado para o cinema. E também foi homenageada pela rainha da Holanda, em reconhecimento de seu trabalho, ganhando um museu na cidade de Haarleem.

Em 1977 ela mudou-se para Califórnia, nos Estados Unidos da América. E sua saúde, dia a dia, foi se deteriorando até que perdeu por completo sua comunicação e veio a falecer no dia de seu 91° aniversário, em 15 de abril de 1983.

Com Corrie eu aprendi a ter coragem. Coragem para fazer o que é certo, independente das circunstâncias, mesmo que custe a própria vida. Com ela, eu também aprendi que não existe nenhuma situação que não venha a ser de Ação de Graças à Deus. Em todo o momento Ele é bom! Mesmo nas circunstâncias mais adversas e difíceis que enfrentamos. Um exemplo é o que Catherine Marshall narra em seu livro Uma Fé Mais Profunda2, quando descreve uma situação que a própria Corrie contou a ela quando esteve hospedada em sua casa (e também está relatada em seu livro O Refúgio Secreto):

[Ela] continua a ser uma das hóspedes mais agradáveis que já honraram a nossa casa e regala-nos amiúde com anedotas da sua vida na prisão. Uma das minhas favoritas é a história das pulgas…

Em certo período da sua detenção, Corrie e Betsie foram transferidas de celas apinhadas (onde haviam vivido meses a fio separadas uma da outra) para as Barracas n° 28. Em menos de uma hora descobriram que os seus malcheirosos colchões de palha fervilhavam de pulgas.

– Como poderemos viver num lugar como este? – gemeu Corrie mansamente.

Sem responder, Betsie pôs-se incontinente a rezar.

– Mostre-nos, Senhor, mostre-nos como. – E, logo, em tom excitado: – Corrie, Ele nos deu a resposta! Eu a li na Bíblia hoje cedo. Aqui… leia de novo essa parte.

O trecho pertencia a I Tessalonicenses e dizia: “Regozijai-vos sempre, orai sem cessar, em tudo dai graças, porque está é a vontade de Deus em Cristo Jesus…”

– É isso mesmo, Corrie! Devemos agradecer a Ele por todas as coisas que digam respeito às novas barracas.

– Tais como?… – Corrie estava tentando olhar com olhos novos para o recinto escuro e fedido.

– Tais como estarmos aqui.

– Oh, sim.

– E termos conseguido até agora conservar a Bíblia.

– Sim… oh, sim. Obrigada, Senhor, por isso.

– E as pulgas.

– Betsie, não vejo maneira de poder agradecer a Deus pelas pulgas.

– Mas as pulgas fazem parte deste lugar, onde Deus nos colocou. “Em tudo dai graças”, diz a Bíblia. E não apenas nas circunstâncias agradáveis.

E as duas mulheres deram graças a Deus pelas pulgas.

A medida que os dias passavam, as prisioneiras das Barracas n° 28 acabaram descobrindo que havia nelas uma espantosa falta de supervisão ou interferência. Corrie e Betsie aproveitavam a liberdade sem precedentes para conversar com outras prisioneiras, ler-lhes a Bíblia e acudir-lhes de muitíssimas maneiras.

Depois, um dia, ficaram sabendo pela boca de uma supervisora a razão de tanta liberdade. Algumas mulheres a haviam chamado através da porta gradeada para vir decidir uma disputa surgida entre elas. A supervisora recusou-se e o mesmo fizeram os guardas.

– Este lugar está infestado de pulgas, – disse a supervisora. – Eu não passaria pela porta por nada neste mundo.

A mente de Corrie voltou, num relance, à primeira hora que haviam passada das barracas e à sua lamentável ação de graças pelas pulgas. Quando ela ergueu a cabeça, Betsie, com os olhos brilhantes, tentava reprimir o riso.

– Agora sabemos por que se espera que O louvemos até pelas pulgas. Até as pulgas tiveram de ser o Seu instrumento para o nosso bem.

Trecho do livro Uma Fé Mais Profunda, páginas 31 e 32, de Catherine Marshall

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NOTAS:
1Prêmio Justos entre as Nações é um prêmio instituído pelo Memorial do Holocausto como reconhecimento a todos os não judeus que durante a II Guerra Mundial salvaram vidas de judeus perseguidos pelo regime nazista.

2Uma Fé Mais Profunda, de 1974 (título original Something More).

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


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