Fazer o bem requer o que sou e o que tenho

Há pouco mais de um mês, alguns amigos queridos, meu marido e eu nos reunimos para preparar um jantar juntos, sob a temática Índia. Passamos horas conversando, aprendendo, nos alimentando fisica e emocionalmente. Para fechar a noite, um filme indiano, claro. Escolhemos Lion, já bastante divulgado por aí. Enquanto eu o assistia, pensava no quanto aquele sofá estava macio (eu estava bem cansada, depois de horas lavando folha por folha de um maço de espinafre infinito, ingrediente principal do palak paneer) e o quanto era boa a sensação de barriga cheia. Entretanto, quando o filme se aproximava do fim, uma informação na última tomada ruiu com toda a harmonia da qual eu desfrutava com tanta satisfação: 80 mil crianças indianas desaparecem anualmente. Subitamente, senti um indescritível mal-estar.

Demorei para dormir naquela noite: como estariam aquelas crianças todas? Teriam tido a mesma sorte do protagonista do filme e sido adotadas? Sofriam maus-tratos? Abuso? Fome? Chorei e orei muito por elas. Comecei a pedir a Deus que me mostrasse como ajudá-las… todas era impossível, mas uma pelo menos. Talvez a adoção? Meu marido e eu sempre fomos muito inclinados à adoção, só não fizemos isso ainda por estarmos em um momento financeiramente frágil da nossa vida. Mas e então? O que fazer para resgatar aquelas crianças? Passei a orar por elas todos os dias e pedir a Deus que me desse ideias.

Minha experiência com a consciência do sofrimento não é inédita, obviamente, menos ainda exclusiva. Cada um de nós conhece uma história, um grupo, um povo que sempre parece sofrer mais do que a gente. Sentimos nosso coração pesado por eles, impelido a fazer algo. Ao mesmo tempo, a sensação de incapacidade nos atinge como se alguém nos acordasse de um sonho com um tapa no nosso rosto: como eu, sozinho, posso mudar uma realidade que me supera em complexidade e idade? Anne M. Lindbergh, em seu livro Presente do Mar, compartilha do mesmo dilema: “Não consigo ajudar todas as pessoas que tocam meu coração. Não posso casar com todas elas, ou adotá-las como filhos, nem cuidar delas como faria com meus pais na velhice ou na doença”. “Quando o peso que carregamos é insuportável”, ela continua, “desencadeia-se um processo de fuga”. Então recorremos às distrações, para que a sensação de conforto volte o mais rápido possível. Afinal, não podemos resolver todos os problemas do mundo.

Sarah Sciarini, neste post publicado pela Relevant Magazine, percebe que uma realidade mais próxima, em torno de nós, também clama por atenção e ação:

Como cristãos, nós não fomos feitos para nos conformarmos em falta de esperança, tampouco fomos feitos para fechar os olhos diante da dor e do sofrimento de outros. Em vez disso, nós podemos empacotar a nossa esperança e carregá-la conosco para onde há pequenas rachaduras e lugares quebrados.

E Anne M. Lindbergh, ainda em Presente do Mar, complementa:

Seremos capazes de resolver os problemas do mundo se nem conseguimos resolver os nossos?

Assim, olhar ao redor de nós promete revelar-nos oportunidades diversas para agirmos em favor do bem-estar de quem sofre. Cozinhar uma refeição saborosa para um parente idoso; levar os filhos do vizinho à escola enquanto ele sai para uma consulta médica; ensinar alguém alguma atividade que irá melhorar as chances dessa pessoa de encontrar um bom emprego… e por aí se estendem as possibilidades.

Deus, que ama profundamente o pobre, a viúva e o órfão, promete recompensar-nos pelo bem que fizermos a eles:

Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição de seus inimigos. O Senhor o assiste no leito de enfermidade; na doença, tu lhes afofas a cama (Salmo 41. 1-3).

Fiquei imaginando Deus afofando a minha cama quando eu estivesse doente. Definitivamente, é uma imagem carregada de ternura, a ponto de deixar nossos olhos molhados.

Deus tem respondido à oração que fiz no dia em que assisti Lion e soube sobre as 80 mil crianças indianas desaparecidas. Não, não montarei uma ONG que vai procurar essas crianças e encaminhá-las de volta às suas famílias (aliás, a popularidade do próprio filme tem sido um meio de fazer isso acontecer), mas Ele tem plantado um novo sonho no meu coração, que envolve crianças e que envolve o cuidado com elas até seu nível mais profundo: o espiritual. Venho acalentando esse sonho e já dado pequenos passos em direção à sua realização. Hoje mesmo, terminei de assistir à inspiradora série de documentários Daughters of Destiny (obrigada, Fê Pinilha, pela dica preciosa!), do Netflix, que conta como uma escola na Índia (olha a Índia de novo) tem mudado a realidade de crianças da casta dos dalits, conhecidos como “os intocáveis”, que nascem e morrem sendo considerados menos do que humanos. A escola se torna a nova casa dessas crianças e, desde os quatro anos, elas são educadas e acompanhadas, até se formarem na faculdade e arrumarem um emprego – tudo custeado por essa escola, a Shanti Bhavan. É um trabalho árduo, mas transformador. Por meio desse documentário e de outras pistas que tenho caçado por onde passo, venho orando, pensando e me colocando nas mãos de Deus para que eu também contribua com o que sou e com o que tenho.

Deus fala por meio das menores vozes – mesmo por meio daquelas que não tenham as maiores plataformas ou o círculo de influência mais amplo. Todos nós temos a habilidade de nos levantar em favor daquilo que é certo e amar as pessoas que estão machucadas. Seria ingênuo para qualquer um de nós acreditar que podemos resolver os problemas do mundo. Seria um desperdício de esperança deixar que esses mesmos problemas nos paralisassem e nos impedissem de realizar qualquer bem. (Sarah Sciarini)

Quando começamos pelo nosso próprio centro, descobrimos algo essencial, que se estende até a periferia do círculo. Encontramos novamente um pouco de alegria no agora, um pouco de paz no aqui, um pouco de amor em mim e em você, que podem criar o reino do Céu aqui na terra. (Anne M. Lindbergh)

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Tudo começa na raiz

Eu: Vou parar de tingir o cabelo e assumir os meus cabelos brancos. Quero liberdade.
Minha mãe:  E eu quero a liberdade de continuar tingindo os meus.

A resposta brilhante da minha mãe era o desabafo de alguém que teve sua aparência controlada durante anos por terceiros, que baseavam seus argumentos em costumes religiosos. Curiosamente, a minha sentença também tinha a ver com o controle de terceiros, que apenas substituíram o argumento – a questão deixou de ser a aceitação de Deus para ser a aceitação dos outros, cuja mensagem implícita era: cabelo branco é sinal de velhice e mulher velha não é desejável. E, no momento dessa conversa com a minha mãe, eu já estava cansada de me submeter a essa ideia. Para mim, o preço (literal e figurado) de tingir o meu cabelo estava ficando alto demais. O cheiro das químicas, que pareciam derreter o meu couro cabeludo, os tufos de fios que se iam pelo ralo ao final do enxague e que depois ficavam visivelmente ausentes na minha cabeça… e eu, que sempre amei o meu cabelo e o modo como ele combina comigo, comecei a vê-lo minguado, em nome de uma juventude esticada.

Porém não foi a partir dessa conversa que, de fato, parei de tingir o meu cabelo. Na verdade, esse dia foi o marco do início de um processo de muitas etapas. Eu primeiro teria que compreender profundamente de que liberdade eu estava falando. Do que eu me veria livre? Apenas da tinta que esconde os meus brancos? Que outros benefícios eu colheria de uma atitude que, a princípio, parece tão banal, mas que poderia refletir diretamente no modo como as pessoas me tratam e me veem? Descobri, então, algumas liberdades que essa decisão pode trazer consigo:

1. Liberdade da necessidade de aprovação

A primeira verdade sobre a qual eu precisaria ponderar é que, ao parar de tingir o cabelo, eu estaria à mercê da reprovação (ou, no mais brando dos casos, da curiosidade) de outros – de quaisquer outros, desde a balconista da padaria até pessoas que importam para mim, como o meu pai, por exemplo. Aliás, muito da minha necessidade de aprovação vem da relação que eu tive com ele na infância e na adolescência, em que sempre tentei provar que eu era digna de seu amor. Assumir os brancos seria provocar nessas pessoas todas uma quebra de harmonia no que estavam acostumadas a ver. Se quisessem andar mais milhas comigo, teriam que cavar motivos além dos meus cabelos reluzentes ou, então, mudar sua própria relação com o branco e vê-lo com a mesma tranquilidade que eu começaria a vê-lo.

2. Liberdade para assumir quem eu sou

O que eu precisaria também para, de fato, assumir meus cabelos brancos era descobrir minha identidade. Tenho 35 anos, ou seja, sou alguém não tão velha, mas também não tão jovem. Teoricamente, tenho o tanto de futuro pela frente quanto tenho de passado, talvez um pouco mais. Assim, os meus cabelos brancos denotam que já passei pela angústia de romper um casamento e assumir as consequências, de quase perder um irmão por tentativa de suicídio, de ver todas as minhas economias indo pelo ralo ao investir em um negócio que faliu, de ter que recomeçar a vida profissional do zero diversas vezes.

Ao mesmo tempo, os meus fios brancos contam também que me casei de novo há alguns anos, que tenho um filho lindo de quase três anos, que possuo duas graduações e um mestrado e que tenho um avô de quase 100 anos.

É uma história bonita demais para ficar escondida debaixo de tantas camadas de tinta.

3. Liberdade para trocar a ordem das prioridades

Eu e os meus 35 anos (36 em outubro, aliás) também estamos revendo nossas prioridades. As palavras de Anne M. Lindbergh, em seu emocionante livro Presente do Mar, parecem compreender perfeitamente o que atualmente busco: certos ambientes, certas regras de conduta e certos estilos de vida contribuem mais para uma harmonia interna e externa que outros. Harmonia interna e externa … é isso! Ser por fora o que tenho me tornado por dentro. E por dentro ando mais serena, menos ansiosa, mais reflexiva, com certa sede por sabedoria. Lembro-me da imagem (estereotipada, sim, mas ainda terna) dos cabelos brancos associados à experiência, à sabedoria, à preocupação com questões mais existenciais e menos superficiais. Quero esses mergulhos.

Sexta-feira passada vi em um restaurante uma menina com seus 20 e poucos anos toda produzida, com roupas que correspondiam exatamente às tendências e ela, caminhando toda consciente de si e de como chamava atenção dos outros (inclusive a minha). Parecia um retrato de mim mesma quando jovem. Eu era tão consciente do trabalho que era me compor antes de sair, que todo o investimento tinha que valer a pena: eu precisava ser notada. Ao olhar para aquela moça tão arrumada, senti um alívio por possuir um novo poder: a tranquilidade de não precisar chamar a atenção o tempo todo (só de vez em quando, rs).

4. Liberdade para deixar o ego de lado

Neste ano, li livros de duas mulheres, cujo testemunho de fé me impactaram muito. Uma delas é a Madame Guyon, francesa mística do século 17, a outra é Basilea Schlink, alemã fundadora da Irmandade de Maria, que viveu no século 20. As histórias de conversão dessas duas são lindas, tocantes e transformadoras de perspectiva, mas uma das coisas que ambas trouxeram e que, num primeiro momento, mais me chocou do que me tocou foi a luta delas contra sua autoestima. É isso mesmo: c o n t r a  a sua autoestima. Fiquei horrorizada! Ainda mais eu, que nunca precisei ir contra a minha autoestima, porque sempre achei que não tivesse muita mesmo, rs. Mas eu estava errada. Descobri, por meio delas, que o meu amor próprio não só existe, como também se sobrepõe a tudo que me cerca. Eu me analisei direitinho e vi que o ego estava lá, todo cheio de mim mesma, flutuando por aí…. bastava olhar para o tamanho do meu egoísmo e do meu orgulho para comprovar as suspeitas. Entendi tudo. E vou contar mais uma coisa para vocês: essas duas mulheres me convidaram a aprofundar o relacionamento com um homem incrível, lindo, perfeito, capaz de satisfazer cada uma das minhas mil carências e por quem eu acabei me apaixonando perdidamente, Jesus. Pois é. Jesus pode deixar você bem satisfeita mesmo. Ele não se atrasa pra te encontrar, porque está sempre perto de você na oração; ele te respeita, te aceita como é e até te dá uma identidade, caso você esteja na dúvida –  a de filha amada de Deus; ele não te troca por outra, porque deu a própria vida por amor a você. Assim, amar a mim mesma acima de tudo é achar que mereço algo, quando tudo já me foi dado de graça, por amor puro e incondicional. É Graça e eu só dou graças, me aceitando como sou, inclusive com cabelos brancos.

Depois de todas essas constatações e questionamentos, finalmente decidi parar de tingir o cabelo. E como essa decisão tem me proporcionado temas dos mais variados para ponderar, achei que poderia ser rico compartilhar esse processo todo com vocês aqui no blog. Daí nasceu a ideia de lançar a série Fio de Prata.

O termo faz referência ao texto bíblico de Eclesiastes 12.6, em que a vida é referida como tal – um fio de prata, frágil –, além da associação mais óbvia que fiz com o processo dos fios da minha cabeça se tornando prateados. Aliás, essa é mais uma contribuição oferecida pelos novos cabelos brancos que terei: a lembrança constante da fragilidade da vida, logo, vivenciar todas as suas fases, inclusive a do amadurecimento e envelhecimento, é uma dádiva.

Não sei por quanto tempo vou postar aqui fotos e textos sobre o que esse novo momento da minha vida trará. Mas não temos pressa mesmo, afinal, cabelos demoram para crescer. Meu desejo é que você se sinta inspirada em nossos encontros por aqui. Comente, discorde, reflita e se abra para uma jornada que certamente convidará você também a se olhar no espelho com mais sinceridade e aceitação.

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Estou há um mês apenas sem usar tintura, ou seja, os brancos aparecem ainda de leve. Mas aguardem… eles chegarão :)

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Quando o nosso luto é por quem ainda está vivo

Estou há um tempo tentando começar este texto, mas apaguei esta primeira linha umas sete vezes já. Porque quero mexer num assunto delicado: o luto por pessoas que ainda vivem. Na minha caminhada, perdi poucas pessoas próximas por morte, mas quantas perdi porque se mudaram, porque romperam comigo, porque se afastaram, porque não sei. Meia-dúzia, talvez. Ou mais. Por elas, sofri longos lutos. Lembro-me de uma amizade rompida em 2002, pela qual lamentei por quatro anos, pelo menos. Foi alguém que conheceu minhas oscilações, minhas arrogâncias e ignorâncias e escolheu partir. Um golpe compreensível, porque eu era mesmo uma chata, mas demasiadamente duro, sem volta nem explicações. Em 2008, mais duas perdas: além do meu primeiro casamento que chegava ao fim, perdi junto uma das minhas melhores amigas, irmã por escolha e afeto extremo. E em setembro deste ano completará um ano de mais uma dessas perdas, sobre a qual pouco consigo falar.

Fico pensando: por quê? Por que rompemos com aqueles a quem queremos bem? Será que o perdão proposto por Jesus, de perdoarmos setenta vezes sete, não está sendo colocado em prática?  Ou então somos nós, que não sabemos ocupar o espaço que nos cabe, sem invadir o espaço do outro, e aí o outro se vê sufocado e decide se libertar? Ou talvez não sejamos tão importantes para essas pessoas como elas são para nós? Ou ainda: e se elas se foram só porque queriam ir mesmo e ponto?

Pode ser, pode ser e pode ser. Como pode ser ainda uma outra coisa, que desconhecemos. A verdade é que eu não me acostumo com as perdas.  Não consigo achar normal perder amigos que amo, mesmo que “a vida seja assim, fazer o quê? Melhor se acostumar”. Sonho com eles, faço menção de mandar mensagem, ameaço comprar presentinhos… aí caio em mim: Lu, você já tentou se reaproximar. Tem certeza que quer continuar insistindo?  – e, num suspiro, tento pensar em outra coisa. Peço diariamente a Deus que me ajude a deixar essas pessoas irem de dentro de mim. Algumas estão mais liberadas, outras menos. Oro por uns, penso em outros e mexo no Facebook de outros ainda, rs. Com frequência, me pego na expectativa de que eles voltem. Imagino a gente num sebo da Augusta procurando livros do Érico Veríssimo, ou ouvindo Porcelain do Moby em homenagem aos velhos tempos… outras vezes, concluo que encerrar a questão me ajudaria a seguir com a vida.

Lembro-me de um texto que a Vanessa Belmonte traduziu para o blog dela e que repostamos aqui, sobre as relações serem como as marés:

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

 

Quanta beleza e verdade nessas imagens!

Encerro este texto com lágrimas escorrendo pelo rosto. Lágrimas que materializam a profunda saudade e, ao mesmo tempo, simbolizam o fim de um ciclo de inúmeras voltas. Aqui dentro de mim, libero esses meus queridos do passado para que dancem, para que voem e para que vivam.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

À garota que desejava não ter feito: pureza sexual e recomeço

Numa manhã na época da faculdade, eu levantei, me vesti e fui até uma igreja comprar para mim um anel de pureza¹. Meu coração doía um pouco de pensar sobre isso, porque até mesmo naquele momento, a última palavra que eu usaria para me descrever seria pura. 

Talvez arrependida, envergonhada, suja, totalmente imerecedora da afeição de um homem digno?

Com certeza.
Mas, definitivamente, não “pura”.

Eis um pouco do meu passado:  eu havia firmado muitos compromissos para mudar drasticamente minha vida antes desse dia, mas minhas palavras vazias com frequência resultavam em nada. Eu continuava a viver minha vida do único jeito que sabia. Eu pulava de um relacionamento para outro porque eu era insegura e dependente. Quando sentia que uma dessas relações estava prestes a afundar, eu já me certificava se havia outra pessoa na fila. Triste, né?  Meu coração era um pedaço de pano todo rasgado e eu tentava remendá-lo com as coisas erradas.

Mas houve um dia específico, quando eu descobri que o cara com quem eu terminava e voltava havia três anos estava se relacionando com outra pessoa. Eu havia dado tudo pra ele e essa conexão emocional e física fez meu coração se partir em dobro. Me destruiu. Minha mente enlouqueceu e a dor durou meses.

Mas em vez de me curar de forma saudável, decidi cuidar do meu coração indo atrás de mais atenção. Eu bebia muito e tomava as piores decisões. Me forcei a sair com pessoas que nem combinavam comigo, tudo porque “eu só queria ser feliz”.

Porém em vez de me sentir feliz, essa situação só resultou no contrário. Eu frequentemente ia pra casa chorando, deprimida e em pedaços, depois de uma noite fora.  E me perguntava: por que eu insisto em voltar para esse tipo de vida se ela me faz tão infeliz?. Eu não conseguia responder. E ainda assim, eu continuava garantindo que houvesse sempre alguém disponível para me fazer companhia, no caso daquele sentimento de despedaçamento começar a voltar em mim. E sempre voltava. Sempre volta, não volta? Eu era uma bagunça, que não conseguia me firmar sobre os dois pés sem recorrer a um amor falso e um afeto vazio.

Mas Deus

Entreguei minha vida a Jesus quando eu tinha 19 anos. Eu o amei e falhei com Ele desde aquele dia, mas Ele ainda me ama infinitamente. Se eu for bem sincera, minha entrega a Ele foi, a princípio, mais um momento do tipo “já que nada mais está funcionando, então deixa eu tentar isso”. Mas Deus é bom e me deu graça, apesar do meu egoísmo. E depois de ter entregado tudo a Ele – a sujeira, o desespero, a solidão – eu sabia que algo estava prestes a mudar.

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Meus desejos eram diferentes. Deus estava mudando o meu presente. E mal sabia eu que Ele estava mudando o meu futuro drasticamente no momento em que me levou a comprar aquele anel.

Eu sabia que algo novo estava surgindo. Eu estava pronta e animada para destruir a vida que havia feito eu me sentir imerecedora e envergonhada e torná-la uma lembrança distante.

Depois de ter comprado o anel naquele dia, entrei no carro e fechei a porta. Assim que o coloquei no meu dedo, comecei a chorar. Disparei um soluço incontrolável, que me levou a um choro avassalador. Eu nunca conseguiria prever as lindas emoções que senti nem os pensamentos que cruzaram a minha mente. Não foi o anel em si que me mudou, mas a Pessoa por trás dele.

Eu fiquei ouvindo esse versículo: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo”  (2 Coríntios 5.17).

E naquele momento, eu senti muitas coisas.

Mas mais do que tudo, eu me senti livre.

Livre da obrigação de ser alguém que eu nunca quis realmente ser.

Livre de me permitir ser usada, só porque estava sozinha.

Livre de permitir que alguém que me ligasse só quando “sentia vontade” definisse cada grama do meu valor.

Livre de buscar atenção e elogios pelo meu visual ou pelo meu corpo.

Livre do desejo de abrir mão de mim mesma para qualquer um, especialmente alguém que não fosse capaz de andar um quilômetro por mim – o que dirá quinhentos.

Eu estava livre da vida que estava tão distante daquilo que foi planejado para mim.

E, queridas amigas, esse tipo de vida também está muito distante daquilo que foi planejado pra você.

Eu quero te encorajar hoje.

Não importa quão decepcionada, vazia, desencorajada ou sem valor você se sinta, quero lembrá-la de que você não é nada disso. Você é muito mais do que seus erros. Você é amada, preciosa e tem valor. Seja lá o que te torna dependente ou amarrada, Deus está oferecendo a você um novo começo.
Você talvez seja casada agora e enfrenta o peso da culpa de decisões passadas. Ou você está no meio de todos os erros hoje, buscando a saída sem nenhuma direção. Seja uma situação ou outra: você é amada. Você talvez não mereça uma segunda chance, mas uma segunda chance é oferecida a você. E hoje você tem a opção de escolher Deus – acima de você mesma – e recomeçar.

Sou casada com Jesse há cinco anos. Ele e eu lutamos muito para nos mantermos puros até estarmos finalmente casados. E valeu muito a pena. Algumas pessoas riam da gente, mas eu não me importava. Eu estava segura na crença de que Deus criou a intimidade para ser desfrutada com o meu marido e ele apenas. Eu estava satisfeita em esperar (mesmo quando essa espera ficava extremamente difícil).

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Jesse amava Deus o suficiente e me amava o suficiente para me mostrar que sua prioridade era o meu coração e não o meu corpo. Nunca haviam me oferecido esse tipo de respeito antes. E eu nunca havia tentado recebê-lo.

A proximidade em nosso relacionamento foi inigualável, porque passávamos tempo conversando e aprendendo um sobre o outro, no lugar de nos apoiarmos na intimidade como uma muleta.

Ele mostrou um amor incondicional por mim, que eu nunca havia recebido antes na minha vida. Ele me fez sentir verdadeiramente amada. Ele teria caminhado comigo quinhentos quilômetros sem pensar duas vezes.

E ele fez com que eu me sentisse uma pessoa por quem valia muito a pena esperar.

Em nossa lua-de-mel, tudo fez sentido. Foi uma das semanas mais bonitas da minha vida.

Minha história não era mais sobre vergonha, mas sobre redenção.

É uma história que migrou das cinzas à beleza devido ao perdão e ao amor. E eu compreendi, naquele momento, exatamente por que somos chamadas a esperar. Jesse era meu e eu era dele. Eu não precisava temer que ele fosse embora ou que não me procurasse no dia seguinte. Nós éramos um. Eu posso dar a ele cada parte da minha mente, do meu corpo e da minha alma porque ele é o meu protetor. Ele é o meu lugar seguro. E ele é o meu pra sempre, não o meu talvez pra sempre.

Deus se move em nós. Deus nos cura dia após dia de toda a ferida que nós causamos a nós mesmas. Ele nos preenche com um senso de completude que nós nem conseguimos imaginar sem Ele. E Ele te ama suficientemente para colocar você em um novo caminho.

Você está disposta a deixá-lo mudar a sua história hoje?

Com a graça de Deus,

Lindsey²

 


¹ O anel de pureza foi criado pelo grupo cristão True Love Waits (O Amor Verdadeiro Espera) em 1994, que defende a abstinência sexual até o casamento. Foi lançado no Brasil em 2008, num evento em Uberlândia com várias igrejas, e o grupo Eu Escolhi Esperar, criado em 2011, o distribui em seus eventos.

² Este texto foi publicado originalmente no blog Sparrows & Lily e traduzido pelo Santa Paciência com a permissão da autora.

A vida dentro da caverna

Esses dias meu filho brincava ao meu lado, sobre a minha cama, onde às vezes trabalho com o meu notebook. Como típica criança que ele é, uma de suas brincadeiras preferidas é se esconder debaixo das cobertas e a outra brincadeira é mexer nos objetos que deixamos em cima da mesa de cabeceira. Depois de se esconder nos cobertores algumas vezes, como era de se esperar, ele começou a mexer nos objetos, escondê-los, até que encontrou uma lanterna. Ficou frustrado e choroso, quando a acendeu e percebeu que ela não iluminava o quarto.

– Filho, a luz da lanterna não ilumina, porque a janela está aberta e o quarto já está iluminado. Precisamos encontrar um lugar escuro, – expliquei.

Foi aí que me ocorreu: mostrei para ele como seria legal fazer uma caverna com os cobertores, porque assim ficaria bem escuro e ele poderia usar a lanterna para iluminar lá dentro. Ideia acatada com sucesso: entusiasmado, ele escondia os objetos na “caverna” e os encontrava com a ajuda da luz da lanterna.

Essa brincadeira me levou a pensar no momento em que vivo. Tenho passado por um processo de questionamentos e medo e, como Elias (1 Reis 19.9), quero ficar escondida nas minhas versões da caverna: minha casa no meio do mato, meus dias de férias, meus pensamentos, minha solidão.

Ao mesmo tempo que permanecer dentro da caverna indica que reconheço e acolho a minha angústia, também significa que talvez eu não esteja fazendo muito para superá-la, que estou entregue. É ter dó de mim mesma e me considerar incapaz de enfrentar a situação. É ter uma desculpa para não me envolver com as pessoas e revelar a elas minhas vulnerabilidades, a fim de que nos identifiquemos e comunguemos das dores da vida.

Mas Deus sempre sabe lidar com os que se escondem em cavernas. Elias foi visitado duas vezes por Ele até resolver sair (1 Reis 19. 9-19). Temendo perder sua vida, Davi também se escondeu em cavernas, tempos antes de se tornar rei. Um dos salmos em que ele desabafa é o 142 e foi justamente esse que o lecionário que sigo indicou como estudo para esta semana. Davi não teve vergonha de assumir seu sofrimento e isso o tornou eternamente empático com todos os que necessitam de consolo:

 

Gritando a Iahweh, eu imploro!
Gritando a Iahweh, eu suplico!
Derramo à sua frente o meu lamento,
À sua frente exponho a minha angústia
,

(Salmo 142.1-3, Bíblia de Jerusalém)

E foi na caverna de cobertas, feita pelo meu filho, que Deus falou comigo. Quando eu disse ao pequeno que a luz da lanterna só brilharia onde estivesse escuro, compreendi a própria verdade daquilo que eu estava falando: Deus brilharia na escuridão em que eu me escondia e lá Ele seria visto e encontrado. Ainda mais: Ele seria não só a luz, mas o caminho que me guiaria para fora. Também ouvi Deus falar para mim que, quando saísse da caverna, eu veria as minhas maiores dificuldades transformadas por um novo jeito de olhar. E, para me comunicar isso, Ele usou uma música dos britânicos do Mumford & Sons, chamada, aliás, A Caverna (The Cave). A letra inteira é tocante e o vídeo – anexado ao final deste texto pra vocês – é um primor também, porém vou transcrever só a parte que mais falou comigo:

So come out of your cave walking on your hands
Então saia da sua caverna andando sobre suas mãos
And see the world hanging upside down
E veja o mundo de ponta cabeça
You can understand dependence
Você consegue entender a dependência
When you know the maker’s land
Quando conhece a terra do criador

Cada dia dou um passo para fora da caverna. Cada dia renovo a minha fé e a minha esperança. Às vezes desperto na escuridão e no silêncio da madrugada e me coloco a orar. A impressão que tenho é de que a intensidade das orações feitas nesses momentos é maior, não sei. Parece que tenho mais fé, rs. Nomeio os meus medos, um a um. Oro por outras pessoas. Quando termino, sinto que dei vários passos em direção à saída. Sinto-me mais feliz, mais leve e encontro forças para viver o dia seguinte.

Talvez o fim da caverna coincida com o fim da minha vida, quem pode saber? A questão é continuar, avançar, fitando o Farol, que nunca se apaga.

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Quando elas escrevem, eles não leem

Quando meu marido sugeriu o tema para este post, minha primeira reação foi perguntar a mim mesma: como eu não pensei nisso antes?? A ideia dele veio de duas novelas (romances curtos) lidas na última semana, ambas escritas por mulheres sob pseudônimos masculinos: A festa de Babette, de Karen Blixen, que publicava suas obras como Isak Dinesen, e O moinho à beira do Floss, de George Eliot, que era, na verdade, a inteligentíssima Mary Ann Ewans (essa mulher escreveu, sob seu pseudônimo masculino, uma das obras mais importantes da língua inglesa, Middlemarch: um estudo da vida provinciana). A partir disso, imaginamos que seria uma boa eu puxar o assunto dessa história de uma escritora ter que se disfarçar de homem para ter algum crédito na praça.

Pesquisei um pouco a respeito e entendi que isso foi algo relativamente comum no século 19 e início do 20, por dois motivos associados: 1) os assuntos sobre os quais essas autoras queriam escrever rompiam com o estereótipo da escrita considerada “de mulheres”, que não era levada a sério. Exemplos do que as autoras com pseudônimos masculinos queriam escrever: contos de suspense, ficção científica, ficção com temáticas políticas e sociais, críticas de literatura e arte; 2) quando usavam um nome de homem, essas autoras conseguiam ser mais lidas… especialmente, por homens. As irmãs Brontë e o “escritor” George Sand (na verdade, Amantine Lucile Aurore Dupin), que se vestia de homem e fumava em público – nunca a uma mulher isso seria permitido em sua época –, são os exemplos mais clássicos.

Mas quem pensa que essa prática ficou restrita ao passado, esquece-se do caso atual mais famoso de uma escritora que teve que se disfarçar para alcançar sucesso: J.K. Rowling. A criadora de Harry Potter se chama Joanne Rowling (o K da abreviação é inventado) e o motivo que a levou a abreviar o seu nome é o mesmo do das escritoras e seus pseudônimos dos séculos passados: pouca gente daria crédito para uma história de fantasia escrita por uma mulher. A não ser, claro, se ela escrevesse contos de fadas (os quais, aliás, foram escritos majoritariamente por homens, com exceção da autora de A Bela e a Fera e de Madame d’Aulnoy, baronesa escritora de contos desse gênero, que cunhou o termo). Harper Lee, autora do tocante O sol é para todos, também escondeu seu nome, Nelle, para que o gênero soasse ambíguo.

Achei toda essa história muito interessante e fiquei pensando se os homens, de forma geral, leem obras escritas por mulheres. Já prevendo o resultado (quanta pretensão), resolvi lançar a pergunta no meu Facebook:


Pesquisa para os homens: 

Vocês leem livros escritos por mulheres?
– Se sim, de quais autoras?
– Se não, por que não? (caso se sintam confortáveis para responder esta, rs)

O resultado foi muito diferente do que eu julgava. Dos 274 amigos homens que tenho em meu perfil, apenas doze responderam (todos afirmativamente), três deles citando autoras que eu nem sequer imaginava que existiam! Hannah Arendt foi a mais mencionada, mas nomes como Flannery O’Connor, Simone de Beauvoir e Virginia Woolf também apareceram. Um desses amigos lê mangás escritos por mulheres, quatro leem escritoras brasileiras, um não liga para o gênero quando escolhe o que vai ler, enquanto ainda outro amigo lê desde autoras indianas até chilenas.

Levando em consideração que, dos 274 amigos homens do total, muitos não leem meus posts, outros não leem livros, outros tantos não leem livros escritos por mulheres e não quiseram se expor, mais outros muitos não entendem português e mais um tanto lê meus posts, lê livros escritos por mulheres, entende português, mas não quis responder a minha pesquisa, até que doze respostas formam um resultado razoavelmente animador. Sem contar as curtidas (alguns curtiram, mas não comentaram). Assim, se os meus amigos de Facebook representassem uma amostra do tipo de público leitor que encontramos por aí no mundo, nossas queridas autoras poderiam todas sair do armário de sua identidade tranquilamente. Uma pena que a realidade abrangente não é assim.

Por último, considerei as autoras cristãs. Uma vez que o forte do nicho cristão é a não-ficção, de novo pensei que mulheres cristãs só escrevessem para mulheres cristãs. Sempre que vou a uma livraria especializada, encontro mulheres escrevendo para mulheres e o Max Lucado escrevendo para mulheres, rs. Na minha cabeça, apenas a Madame Guyon – no século 17! – e meia dúzia de pré-reformadoras e teólogas haviam conseguido a façanha de ter seus livros consolidados entre mulheres e homens. Ledo engano meu. Numa das respostas à pesquisa no Facebook, um homem (se vocês insistirem, eu conto que foi o pastor da minha igreja, rs) citou uma lista enorme de cristãs autoras que ele lê e leu na vida dele. Pesquisei uma por uma, achei algumas incríveis (confiram Mary Eberstadt, por favor!) e respirei aliviada por saber que as mulheres cristãs também querem falar sobre sociedade, ética, política, economia, e não apenas sobre ser uma esposa que edifica o lar (claro que isso é fundamental, mas vamos virar um pouco o disco??).

Ler sobre essas mulheres despertou em mim um orgulho gostoso, não do tipo competitivo – está vendo?? Mulher também sabe escrever coisa que presta! – aff!, mas de satisfação mesmo, de alegria por descobrir tantas mulheres abrindo novas sendas para a humanidade trilhar, mesmo que isso custe a algumas parte de sua identidade. O amor à verdade que escrevem clama mais alto que as condições impostas. Enfrentam. Seguem. Vencem.

Encerro o meu texto com ela, a autora que transcreve não a alma feminina ou a masculina, mas a humana:


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector

 

 

GeorgeSand2
Amantine Lucile Aurore Dupin, escritora francesa, famosa por escrever sob o pseudônimo George Sand e aparecer em público vestida de homem.

 

P.S. Este assunto me deixou tão pilhada, que me pergunto agora qual é a porcentagem de homens que lerá esta postagem. :)


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Gratidão em tudo e por tudo

polyvore
De polyvore.com

Quarta-feira passada, dia 5, levei meu filho para um dos passeios que mais gosto de fazer em São Paulo: visitar o zoológico. Como se não bastasse esse destino, o dia amanheceu lindo, a temperatura estava amena e ainda conseguimos levar mais uma tia e duas primas de última hora. Mas as alegrias não pararam aí. Minha irmã – que é também minha melhor amiga –, mesmo gripada, fez o grande sacrifício de aparecer por lá também. Não tinha como o nosso programa ficar mais perfeito. Quer dizer, tinha sim, porque ficou: a hora de comer não foi um picnic, mas um banquete. Frutas fresquinhas, sucos e probióticos, pão de queijo, barquinhas recheadas com palmito temperado e sanduíches com molho de mel e mostarda eram algumas das iguarias que compunham nosso almoço ali naquela mesa, à sombra gostosa das árvores, bem ao lado do espaço das zebras (um dos animais preferidos do meu filho). Resumindo: foi um dia completamente feliz.

Depois que esse dia terminou, me sentir grata foi a coisa mais fácil do mundo. Deus tinha sido escancaradamente gracioso comigo, me presenteando com muito mais do que eu havia imaginado. E é esse mesmo sentimento de gratidão que nos toma quando um feriado prolongado se aproxima (ou melhor ainda, quando as férias se aproximam), quando estamos no aeroporto, prestes a embarcar em uma viagem legal, quando o cartão de crédito vira, quando tomamos uma bebida gelada no sol de rachar, quando saímos com nossos melhores amigos, quando nossos pais superam alguma doença ou crise. Nesses momentos, perceber nosso coração feliz e agradecer é (ou deveria ser) uma atitude muito natural e simples.

O desafio, porém, tem sido perceber a graça de Deus e seus presentes quando os dias não são assim tão propícios. Quando o relógio desperta cedo, numa segunda-feira chuvosa, e você abre os olhos e a primeira coisa que se lembra é que não preparou as primeiras aulas do dia, ou que tem uma reunião com clientes cansativos bem no fim do expediente. Ou quando você vive de freelas e o seu ganho é como o maná que Deus enviava para os israelitas, só dá para aquele dia. Ou ainda quando você acorda e se lembra de alguém que não está mais com você, seja por morte ou relacionamento rompido. Aí, o agradecimento se torna como uma comida mal mastigada que você tenta engolir: fica entalado na garganta.

Por mais custoso que seja dar graças com sinceridade em momentos difíceis, não é assim tão árduo perceber o potencial pedagógico que existe nessas situações. Como explicita Vanessa Belmonte neste ótimo post, as possibilidades de aprendizagem são incontáveis:

 Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.
(negritos meus)

Os dias difíceis ou só entediantes são perfeitos para nos indicar duas coisas pelo menos:

  1. Que precisamos amadurecer

Se nossa vida fosse composta apenas de dias Disney, em que só sorrimos e acenamos para selfies infinitas, com certeza seríamos uns mimados-barulhentos-superficiais. A não ser que todos os habitantes da Terra estivessem na Disney com a gente, não teríamos o mínimo de empatia pela dor do outro. E se todos estivessem na Disney com a gente, banalizaríamos a Disney e não saberíamos o que é estar feliz, porque não teríamos a que contrastar a felicidade (como já ensinava a minha querida professora de Análise do Discurso, Norma Discini, o sentido de algo se constrói pelo seu oposto).

  1. Quem tem sido o responsável por nossa felicidade

Os dias difíceis apontam para as nossas grandes paixões na vida ou, em termos menos confortáveis, para quem são os nossos ídolos ou deuses. São momentos ótimos para nos perguntarmos: o que ou quem tem sido responsável por minha felicidade? No meu caso, aparência física, idade, férias e determinadas pessoas são a resposta para essa pergunta. São eles os meus deuses no momento e são eles que tenho tentado destronar. Afinal, um dia vou envelhecer, as férias vão acabar e as pessoas irão me decepcionar ou morrer. Assim, meus deuses estão, inevitavelmente, fadados ao fracasso. E quando isso acontecer (e já acontece), quero ver nisso uma oportunidade para encontrar o Imutável no meio disso tudo. Ainda nesta vida, quero me relacionar com Aquele que me oferece novidades todos os dias, sem fim. Diariamente, Ele prepara uma surpresa para mim. E não é uma surpresa que posso prever, porque senão não seria surpresa, rs. É sempre algo que eu nunca teria imaginado.

A grande verdade de tudo é que Deus está nos dias bons do zoológico e nos dias ruins das segundas-feiras chuvosas. Ele quer ser encontrado por nós. Se estivermos com o coração realmente aberto, nós o veremos em tudo. Ele falará, se mostrará e nos presenteará com o que precisarmos. E a gratidão é justamente essa porta que abrimos para Ele. Quando o reconhecemos em tudo, Ele se aproxima ainda mais e aí o reconhecemos ainda mais e, assim, forma-se um ciclo infinito e lindo.

A Terra repleta de Céu,
E cada arbusto comum incendiado com Deus,
Mas só aquele que vê tira os sapatos;
Os outros se sentam ao redor e colhem amoras
.

Elizabeth Barrett Browning

 

(aproveitando o assunto, quero agradecer ao meu filho Álef, de 2 anos, que ficou quietinho aqui em volta de mim, brincando, enquanto eu escrevia este post. Obrigada, filho! :) )


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência