A incansável necessidade de interpretar tudo

Henrietta Harris
Retrato desconstruído pela artista Henrietta Harris

Tenho uma tendência quase que automática de ficar interpretando o que os outros querem dizer com certas frases ou atitudes. Se uma amiga troca mensagens monossilábicas comigo pelo Whatsapp, logo presumo que ela esteja brava ou chateada; se minha mãe começa a dar conselhos sobre como criar o meu filho, suspeito que ela ache que eu não cuido dele direito e por aí a lista vai, com uma infinidade de situações que serviriam de exemplos para a minha necessidade de ler nas entrelinhas de tudo, o tempo todo, sem trégua. Assim, vou criando histórias e interpretações mirabolantes na cabeça, como uma forma de explicar aquilo que desconheço por completo e que é o que me angustia de fato: a motivação das outras pessoas para agir como agem.

Tal atitude só tem lados negativos: a ilusão de que você está enxergando uma situação por todos os ângulos, a ilusão de que você tem controle sobre os fatos e a ilusão de que você é a espertona da história, que captou tudo. Sim, você de fato captou…. você captou tudo errado. Sinto ter de admitir, mas ao interpretarmos as ações alheias, cometemos julgamentos, injustiças e ainda corremos o risco de reagir de acordo com esse mundo de equívocos e, assim, magoarmos nossos queridos de graça, sem a menor base na realidade.

Mas não quero que neste meu texto falte a empatia. Afinal, escrevo justamente por sofrer – e muito! – desse mal da interpretação ininterrupta. Existe dentro de nós – amantes da interpretação – uma ansiedade por entender o mundo, as pessoas… queremos solucionar o quebra-cabeça das relações humanas e, por isso, nos entregamos aos pensamentos equivocados, crendo que são reais. Vamos observando a realidade de perto… depois de mais perto… depois de mais perto ainda, até que ela vai se distorcendo e saindo de foco, perdendo a proporção. Seria uma tendência nossa de querer brincar de Deus? Pode ser. Como também pode ser uma vontade incontrolável de antever todas as possibilidades para se evitar uma grande dor.

A questão em tudo isso é que ser um amante da interpretação e enxergar em tudo um enigma a ser desvendado cansa. Desgasta. Passamos a não acreditar em mais nada e em mais ninguém e perdemos a graça existente na credulidade, na ingenuidade – o oásis do não-saber.  Às vezes vamos acabar nos dando mal por acreditar em alguém, é verdade. Por outro lado, vamos ganhar muito mais em intimidade, cumplicidade, confiança e alegria. Nos libertamos e libertamos os outros do fardo impossível da perfeição. É relaxar e deixar a cargo de Deus o que só Ele consegue fazer: conhecer a fundo os porquês do coração humano.

 

Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros!

Fernando Pessoa no Livro do Desassossego

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minúscula investigação sobre a felicidade

cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”

Não é de hoje, que o tema felicidade, permeia nossas vidas e a buscamos com dedicação.

Por vezes, essa busca torna-se obsessiva, e tal intensidade não nos é natural – analisando sob a perspectiva de quem deveríamos ser e não de quem nos tornamos, é claro.

Pós-queda, o vazio instalou-se em nós de forma intensa, devido a uma ruptura profunda, e vivemos tentando preencher esse vazio com coisas, pessoas, conquistas, conhecimentos, status, dinheiro, sexo, poder, etc – e a lista é infinita

a felicidade ontem

Com o surgimento da filosofia, perguntas sobre a vida, o universo ou o cotidiano, começaram a ser discutidas e estudadas “formalmente”.

Sócrates, por exemplo, acreditou que felicidade era levar uma vida virtuosa. Ou seja, ele não estava interessado em ganhar dinheiro, não procurava respostas ou explicações definitivas mas investigava a base dos conceitos como bom, ruim e justo. Ele acreditava que a virtude (areté em grego, que na época implicava excelência e concretização) era o ‘mais valioso dos bens’.1 Para ele, havia apenas uma coisa boa: conhecimento; e uma coisa má: ignorância’. O conhecimento, para ele, era indissociável da moralidade. E era a ‘única coisa boa’.2

Epicuro, acreditava que o prazer era o fim e o princípio de uma vida feliz, objetivo em direção ao qual todo o indivíduo deveria orientar a própria ação.3 E para isso, seria preciso distinguir entre prazer efêmero (felicidade, alegria) e prazer estável, definido pela negativa, como ausência de dor. Dado que somente o segundo tipo de prazer deveria ser perseguido pelo sábio.4

a felicidade hoje

Analisando tantas outras pessoas, e suas respectivas ideias, percebo que com o passar dos anos, muita coisa na verdade não mudou. Evoluímos científicamente, criamos roupas que não precisam passar, bebemos café gourmet, estamos conectados 24h por dia – 365 dias por ano, moramos em prédios que parecem mini-cidades, pagamos nossas contas on-line, mas continuamos sedentos, com as mesmas questões dentro de nós.

Nossa época, também conhecida como pós-modernidade, ou hipermodernidade, vive a máxima: compre o máximo que puder [eu mereço, eu trabalhei muito para isso] e descarte tão rápido que puder [moda é tendência e tendência é passageira]. Compramos roupas e descartamos pessoas. Trabalhamos para viver e vivemos para trabalhar. Nos sentimos solitários mas não dedicamos tempo em relacionamentos. Compramos o tão sonhado apartamento, do tamanho de uma caixa de fósforos: mas com duas vagas de garagem! Aos 30 anos, temos mestrado, doutorado, pós-doutorado mas somos analfabetos emocionalmente. Vivemos uma verdadeira corrida contra o tempo mas sem saber o por que [ou por quem] estamos correndo.

a felicidade verdadeira

No livro de Eclesiastes, Salomão5 descreve de forma brilhante, todo o processo de sua descoberta sobre o sentido da vida e, por que não dizer, sua busca pela verdadeira felicidade.

Logo no início, ele derrama em nós, leitores, um enorme balde de água fria: Vazio, tudo é um grande vazio! Nada vale a pena! Nada faz sentido!6 Enfatiza também, por diversas vezes, que tudo não passa de correr atrás do vento que tudo é vaidade de vaidades. E, por maior que seja seu desespero, toda essa busca e questionamento é tão autêntico e tão, por assim dizer, humano.

cena do filme "Advogado do Diabo"
cena do filme “Advogado do Diabo”

“Morrer antes de aprender a viver: esse sim é um pesadelo que se pode ter ao meio-dia, debaixo do sol. Não é preciso esperar a noite chegar, para então dormir e ter pesadelos. Não é preciso nada além de estar acordado e consciente de si mesmo. Geralmente, pensar na vida, no que tem ou não tem valor, porque isso ou qual a razão daquilo, implica uma dor quase insuportável.

Quem, em sã consciência, poderia dizer que realizou tudo o que queria na vida? Quem viajou para todos os lugares que queria, ou desfrutou do quanto quis do bom e do melhor? Quem ajuntou tanta riqueza que poderia sustentar três ou quatro gerações? Quem fez coisas grandiosas, belas e úteis? Quem adquiriu conhecimento sobre tudo o que há para ser conhecido? “Ah, eu não, nem cheguei perto”, provavelmente você e eu diríamos. Diríamos também: “Se eu tivesse feito tudo isso, e experimentado toda essas coisas, poderia morrer realizado, pois minha vida teria sentido”. Mas lembre-se de que é Salomão quem está fazendo todos esses questionamentos, e ele realizou todas essas coisas. Ele aprendeu a sabedoria e adquiriu conhecimento, construiu obras grandes e vistosas, foi o rei mais sábio e mais rico que já existiu, e desfrutou intensamente todos os prazeres. Mas ao final ainda tinha na mente a mesma pergunta: que é a vida, senão uma sucessão de fatos sem sentido?”

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz
Introdução: páginas 23-24 (e-book)

A cada capítulo, vamos junto com Salomão, fazendo uma investigação minuciosa sobre o verdadeiro bem-viver. Experimentando e testando hipóteses. Frustando-se e voltando a questionar-se novamente, e novamente, e novamente.

É… Talvez viver seja mais ou menos isso: nos questionar até o cansaço vir à tona, até perdermos todas as nossas forças, para então, nos voltarmos Àquele que É a resposta.

E o mais legal, é que o livro não termina com uma descoberta mirabolante, (…) uma declaração emblemática do tipo “o sentido da vida é…”. Não há resposta para o dilema a respeito do sentido da vida. A sugestão é que, em vez de se desgastar na busca da elucidação do enigma do sentido da vida, o melhor mesmo é correr atrás da própria vida. A filosofia se presta a ajudar a viver, mas viver é muito mais do que filosofar. Mais do que saber, é preciso viver. O que realmente interessa é a satisfação com a vida, a gratidão pelo privilégio de viver e a vontade de continuar vivendo. Saber coisas sobre a vida e não viver bem: isso sim é algo que não faz sentido.7

 

A PALAVRA FINAL
Aquele que está em busca também possuía sabedoria e transmitiu conhecimento a outros. Ele pesou, examinou e organizou muitos provérbios. Ele fez o melhor que pôde para encontrar as palavras certas e escrever a verdade como ela é.

As palavras dos sábios estimulam a viver bem.
São como pregos bem martelados que mantêm a vida unida.
São dadas por Deus, o único Pastor.

Mas, a respeito de qualquer outra coisa, meu amigo vá com calma. Não há limite para se produzir livros, e estudar demais deixa qualquer um esgotado. Para finalizar, a conclusão é a seguinte:

Tema a Deus.
E faça tudo que ele mandar. 

É isso. No devido tempo, Deus deixará às claras tudo o que fazemos e fará o julgamento. E ele conhece até mesmo as nossas intenções mais secretas, sejam elas boas ou más.

Eclesiastes 12.9-14 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea

 

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NOTAS:

1 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
2 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
3 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
4 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
5 A autoria do livro ser de Salomão é questionado por muitas pessoas
6 Eclesiastes 1.2 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea
7 Trecho extraído de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz, página 324 (e-book)

 


Carolina Selles é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Coragem não é ausência de medo

“Somente seja forte e muito corajoso!”

[Josué 1.7]

Esse mês temos duas versões para o wallpaper!

OPÇÃO 1:

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OPÇÃO 2:

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Carolina Selles é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Da casa na mãe à casa no Pai!

CasaIsabelle

Nossa primeira casa foi o útero da nossa mãe. Não temos lembranças conscientes, mas assimilamos as emoções associadas à nossa gestação. Se fomos esperados, celebrados, se chegamos no meio de uma crise, se houve tentativa de aborto, tudo isto já deixou marcas profundas. Esta casa foi se tornando apertada até que fomos expulsos dela de forma agressiva: passagem estreita ou intromissão invasiva. Fomos expostos à luz, esticados e nosso choro de dor e pavor acolhido com sorrisos, numa primeira experiência de total incompreensão!

Outra casa fundamental foi a casa da nossa infância, cheia de mistérios e encantos, já que o olhar da criança transforma pedras em carros, lençóis em fantasmas, sem falar nos amigos e monstros imaginários tão bem revelados nas tiras do Calvin. Tenho uma ternura profunda pela casa das férias no sul da França, que propiciou nossas únicas raízes já que moramos em vários países diferentes. É lá que reencontrava meus brinquedos da fase anterior, armários cheios de fantasias no sótão, a natureza generosa do verão com suas amoras colhidas no pé. Quando meus pais faleceram, este tesouro teve que ser vendido e suas entranhas distribuídas entre os irmãos. Voltando para lá recentemente, reencontrei o jardim e os muros, mas a alma da casa foi totalmente transformada pelos novos proprietários. Que alívio perceber que o encanto permanece em mim inalterado e imune às mudanças externas! Como frisa Mia Couto: O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra). Cabe a nós fazer com que alguns lugares permaneçam vivos dentro da gente.

Lembrei de uma sábia reflexão da Lia Luft no seu lindo livro Perdas e Ganhos: A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Em plena maturidade sinto em mim a menina assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim de muitas décadas atrás. Precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente eu armazenaria as ruins. É minha responsabilidade cultivar estas memórias estruturantes e soltar aquelas que me feriram. Neste processo de apego às expressões da Graça, sigo o conselho bíblico de considerar todas as coisas e reter o que é bom.

Se cada casa pela qual transitamos deixou alguma marca, a casa fundamental é a casa em mim onde Deus escolheu fazer morada. Esta casa é muitas vezes ignorada, negligenciada, desconhecida, já que tendemos a nos alienar do nosso mundo interior e ficar a mercê dos desafios e demandas do sistema no qual vivemos. Como diz Tereza de Avila, no Caminho da Perfeição: Se eu tivesse entendido, como entendo hoje, que neste minúsculo palácio da minha alma mora um tão grande Rei, eu não o teria deixado só tão frequentemente; eu teria permanecido de vez em quando perto dele, e teria feito o necessário para que o palácio seja menos sujo. Que admirável pensar que aquele cuja grandeza encheria mil mundos e muito mais, se tranque assim numa moradia tão pequena!

Sigamos a pista de Angelus Silésius: Algumas pessoas partem para peregrinações distantes. Elas fazem procissões em volta do templo, sem entrar no santuário. Eu vou em peregrinação, em direção ao Amigo que mora em mim. Como revela Anselm Grun, no livro O Céu Começa em Você: Cada um de nós carrega em si um lugar de silêncio… ali, onde Deus habita em nós, somos salvos e íntegros; ali ninguém pode nos atingir e é também ali que somos livres. É no silêncio que adentramos esta casa onde somos recebidos com um abraço e ouvimos a saudação do amado.

Fugimos deste caminho interior porque há muitos entulhos, medos, frustrações, preocupações, que preferimos ignorar e que nos perseguem, levando­-nos a um ativismo desenfreado. Quem não consegue parar, na realidade não consegue ficar consigo mesmo. Como diz Henri Nouwen: Muitas vozes chamam nossa atenção. Há uma voz que diz: “Prove que você é uma boa pessoa”. Outra censura: “Você deveria se envergonhar de si mesmo”. Há também uma voz que diz: “Ninguém realmente se importa com você”, e outra: “Tenha certeza de se tornar uma pessoa bem sucedida, popular e poderosa”. Mas sob todas essas vozes, que são quase sempre muito estridentes, há uma voz calma e discreta que diz: “Tu és meu amado, meus favores recaem sobre ti”. Essa é a voz que realmente precisamos ouvir. No entanto, é necessário um esforço especial para isso; ouvi­-la requer solitude, silêncio e uma forte determinação. Isso é a oração. É ouvir a voz que nos chama de “meus amados”.

Nesta casa interior, podemos derramar o nosso coração, nossas feridas são curadas, nossos pecados confessados e perdoados. Alí, nossa identidade de filhos ganha consistência e somos transformados à imagem de Cristo. Assim, podemos enfrentar o mundo, não para mendigar afeto, reconhecimento, afirmação, mas para ser luz e compartilhar o que recebemos. Sendo amigos da Trindade, somos chamados a ser amigos uns dos outros e sinalizar o fonte desta amizade. Lembrei então do lindo poema de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, cantado por Lenine e Zé Renato: Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre. Construímos cômodos para abrigar os amigos que moram em nosso coração. Esta hospitalidade expande nossas paredes e amplia nosso espaço interior, tornando­nos ricos de tudo o que doamos.

Assim, vamos ao encontro da nossa última morada que Cristo já nos preparou, onde não haverá mais choro, nem dolo, apenas celebração, banquete e comunhão. Cuidemos bem da nossa casa interior porque dela procedem as fontes da vida.

 


Isabelle Ludovico é francesa de nascimento e brasileira de coração, peregrina, aprendiz da Graça, companheira do Osmar, mãe, avó, amiga, psicóloga clínica sistêmica com especial atenção para adultos e casais.

Universo infinito e particular

Conheci o Sam Sund há alguns anos, quando participamos da mesma banda por dois meses. Lembro-me de seu cabelo comprido, de seu violão e da disposição que ele tinha para ensaiar à perfeição o repertório. Depois tivemos contatos esporádicos, via Facebook. Seu mural sempre foi recheado de imagens de astros e estrelas… não, não de Hollywood. Do Espaço Sideral mesmo. Sam é astrofísico, daqueles bem entendidos do assunto. Há pouco mais de um ano, descobriu que tem uma doença grave. Fez tratamentos, foi enviado para a Suíça para continuar se tratando e de lá mantém seus amigos informados sobre o que tem sentido e passado. São mensagens sempre muito profundas sobre vida, dor, morte, identidade, eternidade, finitude, fé e ciência.

A história do Sam tem me inspirado e me levado a perguntar a mim mesma, diariamente, se aquilo a que dou valor nesta vida é, de fato, importante. Tem sido enriquecedor acompanhar o Sam – mesmo que à distância – e aprender com ele. Aproveitando esse contato, eu o convidei a escrever para o nosso blog sobre o tema que quisesse e da forma como quisesse. Ele, numa demonstração de gentileza, aceitou o meu convite e o resultado você lê agora.

Luciana Mendes Kim


 

Confesso que aceitei com surpresa o convite da amiga Luciana Kim para contribuir com um post aqui. Receio de invadir com rudeza excessiva um espaço feminino de reflexão sobre a vida.

Há um tempo resolvi abrir minha situação de saúde em minha página do Facebook, normalmente alimentada de posts sobre Astronomia e Astrofísica. Muitos entendem que minha situação está deteriorando, chegando ao estágio limítrofe à vida (ou morte). Eu, todavia, me vejo evoluindo.

Recebo várias mensagens de apoio nos comentários dos meus posts. A maioria são citações de trechos bíblicos de fé, entrega e arrependimento… o que me toca mais é a urgência de alguns, de que, ao me mandar certos textos, eles supostamente possam me ajudar rápida e definitivamente a sair da situação em que me encontro. A preocupação deles me comove!

Mas eu tenho minhas próprias preocupações… ei-las:

 – A que Salmo o Rei Davi podia recorrer nos seus momentos de angústia, medo da morte e dor?  Entendo que os livros da Bíblia estão à nossa disposição para essas coisas e são sagrados e inspirados, mas Davi era também só um homem …O Livramento, a Presença vinham para ele não do proclamar textos …antes, do seu íntimo relacionamento com o Criador. A sua relação com Deus foi o que produziu os Salmos.

 – E, como citei, nessa situação em que vivo, a gente depende do que já conseguiu interiorizar de antemão. Não dá pra ir atrás de uma “fé dos outros” nessa hora. É como aquela situação em que a pessoa tentou fazer um milagre “em nome do Jesus que Paulo prega” (Atos 19.15) … Você e eu receberemos sempre a mesma resposta que a tal pessoa:  Conheço Paulo , e sei quem é Jesus… mas e você… Quem é? 

Q u e m  é  V o c ê ?? – é o que ouço a todo momento.

Um pouco irônico e terrificante de gelar é que, Naquele Dia, teremos sobre nós a mesma pergunta embutida :

Quem é você?  Nós nos conhecemos?

 

 

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Os dois pontinhos claros nessa imagem são a Terra e a Lua vistas de Saturno …1,4 bilhões de km distantes. A espécie humana enviou a espaçonave Cassini para a órbita desse planeta, que levou 7 anos viajando até chegar.

Talvez a maioria tenha uma sensação de quão pequenos e flutuantes somos no Universo ao abordar essa imagem. Eu me sinto único e especial.

 


Sam Sund é astrofísico, doutorando pela Max Planck Institute for Astrophysics , Munique, Alemanha.

 

Suspensa e incompleta – Pierre Teilhard de Chardin

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“Acima de tudo confie no lento trabalho de Deus. Nós somos naturalmente impacientes em tudo, para chegar no final, sem atraso. Gostamos de pular etapas intermediárias. Ficamos impacientes quando estamos indo em direção a algo desconhecido, algo novo. Ainda assim, é dessa maneira que todo o avanço é feito, passando através de alguns estágios de instabilidade – e eles podem durar muito tempo.

Creio que assim aconteça com você, suas ideias amadurecem gradualmente – deixe-as crescer, deixe-as tomar forma, sem pressa. Não tente forçá-las, procurando fazer com que você seja hoje o que o tempo (ou seja, a Graça e as circunstâncias agindo a seu favor) lhe tornarão amanhã.

Somente Deus pode dizer o que será este novo espírito que está se formando gradualmente. Dê ao nosso Deus o benefício da crença de que a mão Dele o está guiando. E aceite a ansiedade de sentir-se em suspenso e incompleto.”
— Pierre Teilhard de Chardin


Carolina Selles é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O outro nome da força

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Healing –Ilustração da artista Shira Sela

 

Sempre pensei na vulnerabilidade como sinônimo de insegurança, fraqueza, instabilidade. Uma pessoa vulnerável é aquela coitada, desprotegida, fraca, sempre olhada com desdém por quem está perto e provocando risadinhas e comentários maldosos naqueles que identificam suas vulnerabilidades. Já conheceu alguém assim? Eu já conheci várias pessoas assim, mas quero falar de uma específica. Li a sua história e ela está mudando totalmente a minha ideia de que a vulnerabilidade deve ser repelida a qualquer custo.

O nome da pessoa não é revelado, mas é uma mulher que descobriu onde Jesus ia jantar, entrou na casa da pessoa que o convidou, encontrou Jesus lá e ficou chorando aos pés dele. Ela chorou tanto, mas tanto, que os pés de Jesus ficaram molhados com as lágrimas dela. E sabe como ela fez para secá-los? Usou os cabelos. Depois, passou nos pés dele um perfume caro que ela guardava num frasco mais caro ainda e depois beijou os pés de Jesus. Essa história está na Bíblia, num livro chamado Lucas, no capítulo sete e o verso em que a história começa é o 36.

Agora me digam: querem uma cena de vulnerabilidade mais explícita do que essa?? Com essa atitude, a mulher da história está passando para nós algumas mensagens bem interessantes:

– De que ela é autêntica. Ela não fingiu ser o que não era para agradar os que estavam em volta, nem mesmo Jesus. O anfitrião que o convidou para jantar chegou até a pensar: “Se Jesus soubesse quem essa mulher é, ele nem deixaria que ela o tocasse” (verso 39). Claro que Jesus sabia quem ela era, porque não era bobo, porque era bem informado e porque era Deus.

– De que ela é real. O anfitrião a chamou de pecadora no pensamento dele (verso 39). Mas me respondam: quem não é pecador?? Nós passamos horas criando um perfil para convencer os outros de que somos lindos, cheirosos, inteligentes, bem-sucedidos, de que temos um amor à nossa disposição e que somos felizes o tempo todo, sem interrupção. Mas aí entra na sala a pessoa vulnerável e nos incomoda. Ela tem questões psicológicas, ainda não conseguiu se formar, não tem dinheiro para um happy hour todos os dias, tem um filho de um cara que não quis nada com ela e não consegue parar de fumar. Essa pessoa é tão real, que é quase um espelho de nós mesmos.

– De que ela é humana. A mulher não teve medo, nem vergonha de chorar. Se era por tristeza, arrependimento ou o que fosse, ela estava ali, mostrando que não podia mais guardar o que se passava dentro dela.

– De que ela é livre. A pessoa vulnerável não precisa mentir, nem se amoldar a um rótulo que se queira colocar nela. A mulher não tinha nada a esconder, as pessoas a conheciam como “pecadora”, mas ela não estava preocupada com isso. Ela queria alcançar a Graça e nada do que dissessem sobre ela poderia impedi-la de chegar até o seu objetivo.

– De que ela está aberta para a cura. Isso a gente descobre quando Jesus se dirige a ela e diz que todos os pecados dela estavam perdoados, de que a fé que ela tinha a salvara e que ela podia ir em paz (versos 48 e 50). É revigorante quando percebemos que não estamos sozinhos com os nossos vícios e as nossas angústias e, mais ainda, que não seremos julgados, mas curados. Um dia desses pratiquei a vulnerabilidade para sentir que gosto tinha. Uma amiga me perguntou pelo Whatsapp se estava tudo bem comigo e eu respondi que não, e contei para ela, da forma mais direta e transparente possível, o que se passava. Tivemos uma conversa ótima e, no final, eu saí consolada e leve. Foi libertador.

Sim, eu estava errada. Paradoxalmente, a vulnerabilidade tem muito mais a ver com força do que julgavam os meus dicionários internos. Quero me habituar a buscá-la, a tocar minhas próprias feridas, a aceitar que sou esta e não outra, que aqueles com quem convivo – e principalmente, as crianças a quem ensino – são eles e não outros. Quero que a vulnerabilidade me una a outros tão humanos quanto eu, que ela revele a mim quem eu sou de fato e que me aproxime de Jesus com o mesmo desprendimento que teve a mulher da história. Então serei livre de mim mesma, de minha própria hipocrisia, dos meus julgamentos, da minha autossuficiência, do meu orgulho, que são, no fim das contas, os meus mais profundos pecados e a minha verdadeira fraqueza.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

 

Levanto-me, neste dia que amanhece – Oração de São Patrício

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Oração de São Patrício

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade, pela afirmação da unidade
Do Criador da Criação.

Levanto-me neste dia que amanhece,
Pela força do nascimento de Cristo em Seu batismo,
Pela força da crucificação e do sepultamento,
Pela força da ressurreição e ascensão,
Pela força da descida para o Julgamento Final.

Levanto-me neste dia que amanhece, Pela força do céu:
Luz do sol, clarão da lua,
Esplendor do fogo, pressa do relâmpago,
Presteza do vento, profundeza dos mares,
Firmeza da terra, solidez da rocha.

Levanto-me neste dia que amanhece,
Pela força de Deus a me empurrar,
Pela força de Deus a me amparar,
Pela sabedoria de Deus a me guiar,
Pelo olhar de Deus a vigiar meu caminho,
Pelo ouvido de Deus a me escutar,

Pela palavra de Deus em mim falar,
Pela mão de Deus a me guardar,
Pelo caminho de Deus à minha frente,
Pelo escudo de Deus que me protege,
Pelo pão de Deus que me salva,

Das armadilhas do demônio, das tentações do vício,
De todos que me desejam mal, longe e perto de mim,
Agindo só ou em grupo.

Cristo guarde-me hoje,
Contra veneno, contra fogo,
Contra afogamento, contra ferimento,

Para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.
Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim,
Cristo em mim, Cristo embaixo de mim, Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar, Cristo ao me sentar,
Cristo ao me levantar, Cristo no coração de todos os que pensarem em mim,
Cristo na boca de todos que falarem em mim,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade, pela afirmação da Unidade,
Pelo Criador da Criação.


Carolina Selles é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A arte da autossabotagem

Michelle Kingdom - www.michellekingdom.com
Michelle Kingdom – michellekingdom.com

Um texto, dias atrás (Gente que tá atrás do relacionamento perfeito mas não se entrega a relacionamento algum – via Papo de Homem), me chamou a atenção.

A princípio, porque o texto foi escrito por um homem, e confesso, achei que ele escreveu sob um olhar atento e sensível para o tema (como se homens não fossem capaz de tal proeza. Sim, admito: meu pensamento foi pobre, limitado e enviesado, desculpa aê gente!). Mas, ao finalizar a leitura, percebi que era um post patrocinado, ou seja, o conteúdo, na realidade foi pensado e escrito para vender! A propaganda, ao meu ver, sugeria algo entre a “solução” para pessoas tímidas (óbvio! já que se referia a um app de relacionamento virtual) e uma “vantagem” para as mulheres, pois, o poder de “escolha” nesse app é colocado como sendo nosso, já que são as mulheres que “chegam” e “escolhem” os caras colocando os mais interessantes no seu “carrinho de compra”. Ok, críticas à sites de relacionamento a parte (quem sabe um dia eu não escrevo sobre isso?!), ler esse texto, sobretudo dias atrás, foi muito legal para mim. Justamente porque eu estava refletindo sobre o tema abordado no texto. Aliás, me arrisco a dizer, que foi o texto que jogou luz no que eu estava pensando e tentando compreender. Então, mesmo que ele tenha sido pensado para ser uma propaganda acabou me ajudando a dar nome a arte de dificultar (às vezes de impedir) alguma coisa para si mesmo: a autossabotagem.

O texto é escrito por um cara casado falando de seu amigo solteiro. O papo é informal: uma conversa de boteco – e entre risadas e cervejas, o cara casado observa que a cada história contada pelo seu amigo o que fica claro e evidente é sua autossabotagem. Sua busca pelo relacionamento perfeito e, consequentemente, pelas namoradas (ou candidatas) perfeitas, não o deixa viver e desenvolver qualquer relação em potencial. Mas, quem foi que disse que relacionamentos não são complicados? Porque pessoas são complicadas, logo, relacionamentos também o são. A grande questão é como eu lido com tudo isso, ou melhor, com toda essa idealização de relacionamentos e pessoas.

Infelizmente, vivemos em uma época que tudo é demasiadamente idealizado e uma das consequências é a supervalorização da perfeição (o selfie perfeito com o ângulo perfeito; a viagem perfeita com o clima perfeito no país perfeito; o trabalho perfeito com a carreira perfeita e o salário perfeito; o namoro perfeito para o projeto de casamento perfeito com filhos perfeitos). Tudo tem que ser tão “perfeito” que nada dura; muitas vezes sequer começa! Acredito que essa (auto)análise seja como uma via de mão dupla: reconhecer no outro suas falhas e imperfeições implica olhar para dentro de mim e também admitir que tenho inúmeras falhas e imperfeições. Mas, em tempos como os nossos, em que a imperfeição não é tolerada, o descarte é inevitável e acaba sendo a “única solução”.

Outra coisa que percebi com a autossabotagem é que além de não querer olhar para meus próprios defeitos, eu fico em uma zona de conforto extremamente cômoda, reclamando da vida (como se eu não fosse sujeito-ativo nela) desejando arduamente por mudança alheia, é claro! Porque convenhamos, é muito mais fácil achar que o problema está somente no outro, jamais em mim. Assim, seguimos vivendo e esperando que tudo e todos mudem, menos eu. Mas, viver não é também mudar? Crescer? Se transformar?

Pensando sobre isso, e sobre as minhas próprias idealizações, ao me deparar com o texto, percebi que muitas vezes eu também me autossaboto deixando de viver relações (nas esferas mais diferentes possíveis) que poderiam me ser tão enriquecedoras. Quem sabe?!

Então, eu oro. Oro para que Deus me ajude a ter coragem e que dia a dia eu me torne cada vez mais vulnerável. Mas, não essa vulnerabilidade que é sinônimo de fraqueza moral, mas, a vulnerabilidade que me coloca em contato com o mundo e com o outro. Que me abre e me conecta com experiências, que me faz sentir viva sendo simplesmente quem sou. Oro também para que, antes de enumerar as diversas falhas do outro Ele me ajude a enxergar a viga em meu próprio olho. E, assim, sigo tentando dia a dia me lembrar mas principalmente viver isso…

 


Carolina Selles é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Vinho, desperdício e inteligência

sangria
Sangria que fizemos em casa a partir de um vinho “ruim”

 

Algum tempo atrás recebemos amigos aqui em casa, que trouxeram uma garrafa de vinho. Ao prová-lo, meus amigos o acharam azedo e não só jogaram fora o vinho que estava na taça deles, como queriam jogar a garrafa inteira pelo ralo. Quando sugeriram isso, meu marido e eu trocamos olhares esbugalhados de espanto, como se nossos amigos tivessem proposto a coisa mais obscena do mundo. Foi uma reação automática, sem que a gente tivesse tido tempo de disfarçar. Para nós dois, que desenvolvemos juntos a cultura do não-desperdício, ouvir alguém dizer que vai jogar fora algo que não está estragado e que ainda nem acabou nos deixa, de fato, atordoados. O desperdício – não só de comida, mas de qualquer outro bem de consumo – se tornou uma das minhas maiores dores quando penso nas grandes questões sociais/globais/humanas/e-o-que-mais-couber-aqui.

Para começar de um ponto de vista bem capitalista, tudo o que você desperdiça representa dinheiro. Dinheiro que você pagou pelo vinho (você jogaria 30 ou 40 reais pelo ralo??) e que você conseguiu com o seu trabalho. Já pensou se o seu chefe “joga pelo ralo” uma hora do seu serviço e não te paga? Afinal, o correspondente em salário desse tempo vai pelo ralo em forma de vinho mesmo. Que diferença faz?

Em segundo lugar, existe a questão administrativa das coisas. Explico: se você administra seus compromissos, sua rotina, suas responsabilidades no trabalho, seu dinheiro e seus relacionamentos, por que não administrar o seu consumo e o excedente dele? Será que você realmente precisa comprar tanta carne no fim de semana, sabendo que você só estará em casa no sábado e no domingo e que, a partir de segunda-feira, você volta a comer perto do trabalho? E quando você vai a um restaurante, você come tudo o que está no seu prato? Se a resposta for não, por que não? Será que não conseguiu calcular corretamente o quanto seu estômago aguenta ou será que você já está intoxicado com a cultura da sobra, do lixo, do desperdício? Com isso, não estou sugerindo que você coma pouco e passe fome, claro que não. Mas convido você a fazer uma reflexão inteligente sobre o que é suficiente. Ah, essa palavrinha… tudo o que vem em porções suficientes na nossa vida nos satisfaz e não prejudica os outros.

Falando em outros… eu não poderia deixar de citar aqui o que o desperdício representa para as pessoas que você não conhece, mas que existem mesmo assim e que têm o mesmo direito que você àquilo tudo que você não só consome, mas joga fora. Eu poderia citar estatísticas, mas serei direta quanto à relação “você-desperdiça-na-sua-casa-e-uma-pessoa-na-Etiópia-passa-fome”:  jogar comida fora significa que você compra demais (mais do que precisa), o que acaba valorizando o que é produzido e permite que o produtor cobre mais caro pelo alimento que produz. Uma vez que o alimento está caro, nem todo mundo tem dinheiro para comprá-lo e, dessa forma, ele não chega até a mesa dos menos favorecidos. Simples e triste assim. Eu poderia falar de questões ambientais também, como o excesso de lixo orgânico, além da exploração nas relações de trabalho, trabalho escravo e um mundo de outras coisas, mas acho que você já entendeu o meu ponto.

Por fim, este parágrafo é para os cristãos: desperdício é pecado. É você desconsiderar o que a terra produz, é você administrar mal o que Deus te dá, é você não pensar no outro nem na Criação (afinal, está contribuindo para o acúmulo de lixo), é você querer mais do que precisa, é você mostrar ingratidão a Deus porque não está contente com o que Ele te dá, é você pensar só em você mesmo. Está bom ou quer mais?

Sim, a questão do desperdício é complexa, profunda, delicada e chata de ser abordada. Mas pode ter certeza que, quando você domina a arte do não-desperdício, você se sente livre, satisfeito e ainda tem um dinheirinho extra – fruto dos gastos controlados – para investir naquele sonho antigo seu. Para mim, o não-desperdício foi uma lição que aprendi aos poucos, depois de muito conviver com o David, meu marido, que, por ser filho de pais que viveram num contexto de guerra, aprendeu a reaproveitar tudo. Tudo mesmo.

Se você estiver sem ideias sobre como reaproveitar as coisas, aqui vão algumas sugestões que usamos aqui em casa (mas que são só isto mesmo: sugestões. O intuito é você adaptá-las de acordo com a sua realidade e disposição):

– O vinho ruim pode servir para receitas ou para uma refrescante sangria em dia quente (a foto lá do topo comprova que dá certo);

– Se você tem plantas em casa, as cascas de frutas e legumes podem virar adubo; além disso, fazemos também caldo de legumes com essas cascas (cozinhando tudo junto – até a casca da cebola – por algum tempo) e os talos dos brócolis, da couve, do espinafre e da couve-flor viram uma sopa-creme deliciosa em noites frias.

– Até 1 ano de idade, o nosso filho Álef usou fraldas laváveis. Ao contrário do que você pode pensar, essas fraldas são modernas e feitas para entrar sem dramas na máquina de lavar. Usando essas fraldas, produzimos menos lixo e economizamos um bom dinheiro (e não, não gastamos mais água por conta disso. Gastam-se muitos mais litros do que a nossa modesta máquina de lavar na produção de uma única fralda descartável).

– Sacolas plásticas de mercado só entram em casa por pessoas que vêm nos visitar.

– Fazemos os presentes de aniversário que damos (tenho certeza que alguma habilidade artística você também tem).

– Fazemos o nosso próprio pão, a nossa manteiga, a nossa geleia… dá mais vontade de comer até o fim.

– Temos espátulas de silicone de vários tamanhos diferentes. Elas permitem que a gente raspe fundinhos de copo de requeijão, panela, liquidificador e outros recipientes que acumulam restinhos que acabam sendo desperdiçados.

– Não enchemos muito a geladeira com sobras de comida, senão não damos conta de comer a tempo, antes que estraguem. E usamos sobras para fazer um novo prato: um arroz de forno, uma pizza de frango (sobrado) desfiado e por aí vai.

– Antes de irmos ao mercado, espiamos os armários e a geladeira e só compramos aquilo que irá repor o que já acabou. Ah, e também fazemos uma lista dos itens que vamos comprar antes de sair de casa. Isso nos ajuda a não cair na tentação de comprar mais do que precisamos.

– Só lavamos roupa quando temos roupas suficientes para encher a máquina. Senão, será desperdício de água e eletricidade na certa.

– Nem tudo o que passou da validade está estragado. A validade, na verdade, indica quando o produto está em sua melhor época para ser consumido, e não que ele estará estragado depois disso, necessariamente. Isso tanto é verdade, que em inglês a expressão para a validade das coisas é “best before” (“melhor antes de”) e não “spoiled after” (“estragado depois de”). Cheirar o alimento, observar o seu aspecto e colocar um pouquinho na boca para testar o gosto ainda são as melhores formas para detectar se ele ainda está bom para o consumo. E não raras vezes, ele ainda está bom.

– Compramos o mínimo de produtos industrializados. Isso economiza dinheiro, evita o descarte excessivo de embalagens, ativa a imaginação para cozinharmos nossa própria comida e tentarmos receitas diferentes (que podem ser simples) e ainda nos faz mais saudáveis.

– A água de lavagem de frutas e vegetais vai para uma bacia e depois é destinada para matar a sede das plantas.

– Repassamos roupas em bom estado para outras pessoas e ganhamos roupas também. Isso vale especialmente para o Álef, que ganha quase tudo dos primos e depois repassa o que usou para o filhinho do mecânico que cuida do nosso carro.

– Por último e mais chocante item de todos desta lista (preparado??): substituímos os passeios ao shopping por visitas a museus (!!). Essa troca representa economia de tempo, geralmente desperdiçado na procura de vagas em estacionamentos superlotados e filas eternas nos fast-foods, além de limpar a nossa cabeça do consumismo e recheá-la de novo com cultura. :)

Claro que somos bastante criticados por adotar essas medidas todas (e olha que sabemos de gente que economiza bem mais do que a gente). As pessoas tendem a achar que riqueza e fartura significam você poder comprar e jogar fora o que comprou e que economizar é o mesmo que ser mesquinho, avarento. Para nós, que somos mais do que felizes com tudo o que temos, o não-desperdício ganhou outros três nomes: consciência, autocontrole e  inteligência.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.