Eu já fui Marta

"Outgrowing the Comfort Zone" [Kathrin Honesta]
“Outgrowing the Comfort Zone” [Kathrin Honesta]
Sim, eu já fui Marta.
Ao nascer, recebi outro nome, o meu verdadeiro nome, mas já adulta fui me transformando.
Sem perceber, fui perdendo minha identidade, me descaracterizando, deixando de ser eu mesma. Buscava reconhecimento na realização de tarefas. Achava que minha identidade seria definida pelo fazer e não em ser. Ser autêntica. Ser eu mesma. Apenas Ser.

Me alienei no trabalho, no tal: ambiente “controlado” e “seguro”. Nada escapava do meu controle. Quando algo, começava a escorrer pelas minhas mãos, eu agarrava bem forte e fazia o impossível para mantê-lo sob a minha atenta e vigilante inspeção.

Eu trabalhava bastante. 44 horas semanais, muitas vezes, eram insuficientes. Afinal, o e-mail do fornecedor na China não podia esperar. Por isso, muitas vezes, depois de uma jornada de quase 10 horas em um escritório, eu chegava em casa e a primeira coisa a fazer era abrir meu e-mail corporativo e garantir que tudo fosse respondido e nada ficasse por fazer. Muitas vezes, era via celular mesmo, no trajeto trabalho-casa. Ficar offline, o que era isso?!

Reconheço que todo esse meu “profissionalismo” foi muito mais fuga, somado ao desejo de aceitação, do que qualquer outra coisa. Eu fugia da minha realidade, que não era nada controlável e sequer algum dia seria, para não encarar de frente meus anseios, faltas e expectativas. Eu me enganava e já não sabia ao certo quem eu era e porque fazia o que fazia. Até que compreendi o verdadeiro engano em que me meti.

Hoje, eu já não sou mais Marta!
Apesar de me inspirar em Maria1, sua irmã, já não quero ser ninguém além de mim mesma. Mas, como ela, também quero escolher a “melhor parte”, me deleitar aos pés de Cristo e escutar o que Ele tem a me dizer. Como é libertador ser eu mesma e tudo bem não saber, tampouco achar que é minha responsabilidade saber, o que é melhor para mim. Na real, é bom viver na própria pele que habita em mim.2

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Referências:
1Lucas 10:38-42
2Referência ao filme de Pedro AlmodóvarA Pele que Habito

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minha falta de personalidade

mini-q
Ilustração de Mini.Q

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

 

Lindo o poema de Leminski e lindos esses textos todos que louvam a autenticidade, que enaltecem esses que assumem a sua identidade, os que não deixam que outros lhes digam o que fazer ou como ser. Mas me angustio: não tenho a esperteza dessas pessoas. Confesso: eu não sei ser quem sou, porque eu não sei quem sou.

Penso que sou uma amálgama de expectativa alheia com experiências passadas, amores não materializados com amores de sangue. Sou a maquiagem com que me mascaro todos os dias. Se lavo o rosto, me reconheço pouco. Sou virtude e sou pecado. Uma parte de mim é feita de traumas de família e a outra parte, de esperança. Às vezes sei colocar a minha opinião, às vezes, não. Choro sem razão. Danço e pago mico. Sou o vinho sagrado de Joni Mitchell: doce e amargo.  Sou os dois extremos e todos os seus intervalos. Acordo bem, durmo mal.  Sou carente e introspectiva. Sou concha, desconfiada.

Tudo isso pra dizer que não sei ser eu mesma – aliás, o que é ser si mesmo? Porque escolher um traço meu é esconder todos os outros – “toda eu é que não podia”, já dizia a minha Clarice. Se me mostro inteira, não caibo, sobro. Há de se fazer ajustes. Só existe espaço para paradoxos, nunca para oxímoros. Mas sou uma oxímora, fazer o quê? E, se alguém diagnosticar minhas inconclusões como falta de personalidade, já não irei discutir – pedirei à pessoa que leia este texto.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência

 

O que você quer?

Escrever sobre o livro O que você quer?, da escritora norte-americana Jen Pollock Michel, lançamento da Ultimato aqui no Brasil, significou um mundo de coisas para mim. Primeiro, porque esta é a primeira resenha que escrevo aqui no blog; segundo, porque sou apaixonada por livros; e último, mas não menos importante, porque eu mesma quero me tornar uma escritora um dia. Assim, se apenas por comentar sobre a obra de outra pessoa já me dá um frio gostoso na barriga, imagina só a insônia que eu não vou sofrer quando eu escrever o meu próprio livro e ele for comentado por alguém. Vai ser incrível!

o-que-voce-quer
Nosso exemplar :)

A empatia que senti pela Jen, a escritora, desde o início, não diz respeito apenas à nossa paixão comum, a escrita. Logo nas primeiras páginas de seu livro, já percebi que tínhamos, pelo menos, mais duas afinidades: a tendência de escrever de maneira informal, como no blog, e a predileção pelas confissões. É reconfortante ler que outra pessoa também passa por perrengues emocionais e espirituais, bem semelhantes, aliás, aos meus. Dá uma sensação de irmandade, como se a autora fosse uma grande amiga minha e escrevesse para me mostrar que eu não estou sozinha.

Outro ponto empático entre nós duas aconteceu quando entendi qual seria o tema do livro: o desejo. Está aí um tema comum à raça humana inteirinha, mas que pouco é discutido nas igrejas. Segundo a autora, o desejo, no contexto eclesiástico, geralmente é visto como essencialmente mau, logo, deve ser suprimido do vocabulário e do imaginário dos membros como peste em plantação. O problema é que não adianta fingirmos que o desejo não existe, porque somos feitos dele. Desde bebês, somos guiados pelo que sentimos vontade e esse impulso tão primário tem muito a dizer sobre quem somos e quem nos tornamos. Se não o encaramos de forma honesta é porque o tememos. O grande desafio para nós todos – e que Jen enfrenta com profundidade – é encontrar o lugar do desejo dentro da proposta de Deus para a humanidade.

O que você quer? é um livro belamente tecido de forma a nos convencer de que o querer, em si, não é um problema, mas algo natural e bom: embora facilmente corrupto, o desejo é bom, correto e necessário. É uma força motora na nossa vida, um meio de transporte (p. 200).  E não só isso – a autora defende também que temos total liberdade de dizer a Deus o que queremos. A oração é o ato corajoso de colocar nossos desejos autênticos diante de Deus (p.116).

Mas se engana quem pensa que esse livro é uma apologia ao desejo desenfreado e inconsequente:  é-nos concedida a coragem de querer, mas também nos é concedido o entendimento de que obter o desejo do nosso coração, quando esse coração é idólatra, pode ser a nossa maior tragédia (p.200).

E é nesse equilíbrio entre as visões sobre o desejo, juntamente com um embasamento bíblico incrível, que Jen Pollock Michel fala diretamente ao nosso coração, nos confortando com a esperança de que não somos ETs dentro do Corpo de Cristo por assumir o que queremos, mas sim seres feitos por Deus para desejar.


*O básico do livro:
O que você quer?  – Desejo, ambição e fé cristã
Título original em inglês: Teach Us To Want
Autora: Jen Pollock Michel
Editora Ultimato
224 páginas

** As ilustrações deste post foram retiradas da página da Editora Ultimato no Facebook.
*** Agradecemos à Editora Ultimato pelo presente.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liberdade em amar

Drowning in Thoughts - Kathrin Honesta
Drowning in Thoughts – Kathrin Honesta

Semana passada, em uma quarta-feira a noite, pós-trabalho e num dia de chuva em São Paulo, tive o privilégio de me reunir com pessoas queridas, em um clima extremamente aconchegante, com comidas, risadas e bate-papos sobre a vida. De quebra, ouvimos também algumas canções, somente voz & violão, que comunicavam letras profundas em melodias sensíveis. E, entre uma música e outra, a história da canção nos era contada, revelando contextos, anseios e lutas daquele que se apresentava à uma roda de amigos tão diversificada.

O tempo foi passando e muitos pensamentos borbulhavam dentro de mim. Me senti extremamente grata por estar ali, escutando e refletindo sobre tanta coisa que, há tempos, venho colocando em xeque em minha vida. Dentre tantas reflexões, a que mais me marcou, me deixando pensativa durante o resto da semana, foi sobre a necessidade de ser (e sentir-se) amada. Estevão Queiroga, antes da canção O Preço do Amor, falou sobre essa expectativa, que constantemente nutrimos e geralmente depositamos nossa felicidade. Mas, por mais esforço e empenho que eu exerça, não tenho garantias que o outro irá me amar, não posso controlar tal ação.

 

“Ainda penso que, se nosso amor significa simplesmente um anseio de ser amados nosso estado é bastante lamentável”

Os quatro amores – C. S. Lewis

 

Assim, a inversão dessa lógica pode fazer mais sentido: em vez de buscar ser amada talvez seja melhor amar… É isso! Óbvio! Mas, muitas vezes, é tão negligenciado por mim o fato que sou chamada a amar.

  • Sou chamada a amar porque Ele me amou primeiro. 1 João 4.19
  • Sou chamada a amar porque Seu amor foi tão grande que Ele entregou-Se por mim. João 3.16
  • Sou chamada a amar porque Ele é Amor. 1 João 4.16

Com isso, não acredito, tampouco estou querendo dizer, que devo negar por completo tal desejo – o de ser amada. Mas, creio que, o que o Estevão quis dizer e o que Deus insistentemente nos mostra é que EU JÁ SOU AMADA Mateus 3.17. E amada de um jeito que ninguém, somente Ele, pode me amar. Portanto, não devo entrar numa busca frenética por aceitação. Não posso me contentar com tão pouco, quando Jesus me ensina que Ele tem TUDO para me oferecer, pois Ele É a fonte de vida, a verdadeira água viva que mata minha sede existencial. Também, não estou querendo dizer que, devo me abster e desejar o celibato para o resto da minha vida, não é isso! Mas preciso, constantemente, sondar meu coração para compreender minhas (reais) motivações e intenções em qualquer relacionamento. Pois, enquanto eu estiver buscando felicidade desta maneira, em relacionamentos diversos, conforme a história da mulher samaritana nos mostra, estarei buscando completude em poços que secarão e fatalmente voltarei a sentir sede.

PS: Obrigada Vila, Raquel, Eva & Mathias e Janssem pela hospitalidade e tempo de qualidade <3

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A incansável necessidade de interpretar tudo

Henrietta Harris
Retrato desconstruído pela artista Henrietta Harris

Tenho uma tendência quase que automática de ficar interpretando o que os outros querem dizer com certas frases ou atitudes. Se uma amiga troca mensagens monossilábicas comigo pelo Whatsapp, logo presumo que ela esteja brava ou chateada; se minha mãe começa a dar conselhos sobre como criar o meu filho, suspeito que ela ache que eu não cuido dele direito e por aí a lista vai, com uma infinidade de situações que serviriam de exemplos para a minha necessidade de ler nas entrelinhas de tudo, o tempo todo, sem trégua. Assim, vou criando histórias e interpretações mirabolantes na cabeça, como uma forma de explicar aquilo que desconheço por completo e que é o que me angustia de fato: a motivação das outras pessoas para agir como agem.

Tal atitude só tem lados negativos: a ilusão de que você está enxergando uma situação por todos os ângulos, a ilusão de que você tem controle sobre os fatos e a ilusão de que você é a espertona da história, que captou tudo. Sim, você de fato captou…. você captou tudo errado. Sinto ter de admitir, mas ao interpretarmos as ações alheias, cometemos julgamentos, injustiças e ainda corremos o risco de reagir de acordo com esse mundo de equívocos e, assim, magoarmos nossos queridos de graça, sem a menor base na realidade.

Mas não quero que neste meu texto falte a empatia. Afinal, escrevo justamente por sofrer – e muito! – desse mal da interpretação ininterrupta. Existe dentro de nós – amantes da interpretação – uma ansiedade por entender o mundo, as pessoas… queremos solucionar o quebra-cabeça das relações humanas e, por isso, nos entregamos aos pensamentos equivocados, crendo que são reais. Vamos observando a realidade de perto… depois de mais perto… depois de mais perto ainda, até que ela vai se distorcendo e saindo de foco, perdendo a proporção. Seria uma tendência nossa de querer brincar de Deus? Pode ser. Como também pode ser uma vontade incontrolável de antever todas as possibilidades para se evitar uma grande dor.

A questão em tudo isso é que ser um amante da interpretação e enxergar em tudo um enigma a ser desvendado cansa. Desgasta. Passamos a não acreditar em mais nada e em mais ninguém e perdemos a graça existente na credulidade, na ingenuidade – o oásis do não-saber.  Às vezes vamos acabar nos dando mal por acreditar em alguém, é verdade. Por outro lado, vamos ganhar muito mais em intimidade, cumplicidade, confiança e alegria. Nos libertamos e libertamos os outros do fardo impossível da perfeição. É relaxar e deixar a cargo de Deus o que só Ele consegue fazer: conhecer a fundo os porquês do coração humano.

 

Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros!

Fernando Pessoa no Livro do Desassossego

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minúscula investigação sobre a felicidade

cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”

Não é de hoje, que o tema felicidade, permeia nossas vidas e a buscamos com dedicação.

Por vezes, essa busca torna-se obsessiva, e tal intensidade não nos é natural – analisando sob a perspectiva de quem deveríamos ser e não de quem nos tornamos, é claro.

Pós-queda, o vazio instalou-se em nós de forma intensa, devido a uma ruptura profunda, e vivemos tentando preencher esse vazio com coisas, pessoas, conquistas, conhecimentos, status, dinheiro, sexo, poder, etc – e a lista é infinita

a felicidade ontem

Com o surgimento da filosofia, perguntas sobre a vida, o universo ou o cotidiano, começaram a ser discutidas e estudadas “formalmente”.

Sócrates, por exemplo, acreditou que felicidade era levar uma vida virtuosa. Ou seja, ele não estava interessado em ganhar dinheiro, não procurava respostas ou explicações definitivas mas investigava a base dos conceitos como bom, ruim e justo. Ele acreditava que a virtude (areté em grego, que na época implicava excelência e concretização) era o ‘mais valioso dos bens’.1 Para ele, havia apenas uma coisa boa: conhecimento; e uma coisa má: ignorância’. O conhecimento, para ele, era indissociável da moralidade. E era a ‘única coisa boa’.2

Epicuro, acreditava que o prazer era o fim e o princípio de uma vida feliz, objetivo em direção ao qual todo o indivíduo deveria orientar a própria ação.3 E para isso, seria preciso distinguir entre prazer efêmero (felicidade, alegria) e prazer estável, definido pela negativa, como ausência de dor. Dado que somente o segundo tipo de prazer deveria ser perseguido pelo sábio.4

a felicidade hoje

Analisando tantas outras pessoas, e suas respectivas ideias, percebo que com o passar dos anos, muita coisa na verdade não mudou. Evoluímos científicamente, criamos roupas que não precisam passar, bebemos café gourmet, estamos conectados 24h por dia – 365 dias por ano, moramos em prédios que parecem mini-cidades, pagamos nossas contas on-line, mas continuamos sedentos, com as mesmas questões dentro de nós.

Nossa época, também conhecida como pós-modernidade, ou hipermodernidade, vive a máxima: compre o máximo que puder [eu mereço, eu trabalhei muito para isso] e descarte tão rápido que puder [moda é tendência e tendência é passageira]. Compramos roupas e descartamos pessoas. Trabalhamos para viver e vivemos para trabalhar. Nos sentimos solitários mas não dedicamos tempo em relacionamentos. Compramos o tão sonhado apartamento, do tamanho de uma caixa de fósforos: mas com duas vagas de garagem! Aos 30 anos, temos mestrado, doutorado, pós-doutorado mas somos analfabetos emocionalmente. Vivemos uma verdadeira corrida contra o tempo mas sem saber o por que [ou por quem] estamos correndo.

a felicidade verdadeira

No livro de Eclesiastes, Salomão5 descreve de forma brilhante, todo o processo de sua descoberta sobre o sentido da vida e, por que não dizer, sua busca pela verdadeira felicidade.

Logo no início, ele derrama em nós, leitores, um enorme balde de água fria: Vazio, tudo é um grande vazio! Nada vale a pena! Nada faz sentido!6 Enfatiza também, por diversas vezes, que tudo não passa de correr atrás do vento que tudo é vaidade de vaidades. E, por maior que seja seu desespero, toda essa busca e questionamento é tão autêntico e tão, por assim dizer, humano.

cena do filme "Advogado do Diabo"
cena do filme “Advogado do Diabo”

“Morrer antes de aprender a viver: esse sim é um pesadelo que se pode ter ao meio-dia, debaixo do sol. Não é preciso esperar a noite chegar, para então dormir e ter pesadelos. Não é preciso nada além de estar acordado e consciente de si mesmo. Geralmente, pensar na vida, no que tem ou não tem valor, porque isso ou qual a razão daquilo, implica uma dor quase insuportável.

Quem, em sã consciência, poderia dizer que realizou tudo o que queria na vida? Quem viajou para todos os lugares que queria, ou desfrutou do quanto quis do bom e do melhor? Quem ajuntou tanta riqueza que poderia sustentar três ou quatro gerações? Quem fez coisas grandiosas, belas e úteis? Quem adquiriu conhecimento sobre tudo o que há para ser conhecido? “Ah, eu não, nem cheguei perto”, provavelmente você e eu diríamos. Diríamos também: “Se eu tivesse feito tudo isso, e experimentado toda essas coisas, poderia morrer realizado, pois minha vida teria sentido”. Mas lembre-se de que é Salomão quem está fazendo todos esses questionamentos, e ele realizou todas essas coisas. Ele aprendeu a sabedoria e adquiriu conhecimento, construiu obras grandes e vistosas, foi o rei mais sábio e mais rico que já existiu, e desfrutou intensamente todos os prazeres. Mas ao final ainda tinha na mente a mesma pergunta: que é a vida, senão uma sucessão de fatos sem sentido?”

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz
Introdução: páginas 23-24 (e-book)

A cada capítulo, vamos junto com Salomão, fazendo uma investigação minuciosa sobre o verdadeiro bem-viver. Experimentando e testando hipóteses. Frustando-se e voltando a questionar-se novamente, e novamente, e novamente.

É… Talvez viver seja mais ou menos isso: nos questionar até o cansaço vir à tona, até perdermos todas as nossas forças, para então, nos voltarmos Àquele que É a resposta.

E o mais legal, é que o livro não termina com uma descoberta mirabolante, (…) uma declaração emblemática do tipo “o sentido da vida é…”. Não há resposta para o dilema a respeito do sentido da vida. A sugestão é que, em vez de se desgastar na busca da elucidação do enigma do sentido da vida, o melhor mesmo é correr atrás da própria vida. A filosofia se presta a ajudar a viver, mas viver é muito mais do que filosofar. Mais do que saber, é preciso viver. O que realmente interessa é a satisfação com a vida, a gratidão pelo privilégio de viver e a vontade de continuar vivendo. Saber coisas sobre a vida e não viver bem: isso sim é algo que não faz sentido.7

 

A PALAVRA FINAL
Aquele que está em busca também possuía sabedoria e transmitiu conhecimento a outros. Ele pesou, examinou e organizou muitos provérbios. Ele fez o melhor que pôde para encontrar as palavras certas e escrever a verdade como ela é.

As palavras dos sábios estimulam a viver bem.
São como pregos bem martelados que mantêm a vida unida.
São dadas por Deus, o único Pastor.

Mas, a respeito de qualquer outra coisa, meu amigo vá com calma. Não há limite para se produzir livros, e estudar demais deixa qualquer um esgotado. Para finalizar, a conclusão é a seguinte:

Tema a Deus.
E faça tudo que ele mandar. 

É isso. No devido tempo, Deus deixará às claras tudo o que fazemos e fará o julgamento. E ele conhece até mesmo as nossas intenções mais secretas, sejam elas boas ou más.

Eclesiastes 12.9-14 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea

 

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NOTAS:

1 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
2 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
3 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
4 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
5 A autoria do livro ser de Salomão é questionado por muitas pessoas
6 Eclesiastes 1.2 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea
7 Trecho extraído de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz, página 324 (e-book)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Coragem não é ausência de medo

“Somente seja forte e muito corajoso!”

[Josué 1.7]

Esse mês temos duas versões para o wallpaper!

OPÇÃO 1:

SP_wpagostoA16_1680x1050
Escolha sua resolução: {1024px X 768px}   {1366px X 768px}   {1680px X 1050px}

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OPÇÃO 2:

SP_wpagosto16_1680x1050 Escolha sua resolução: {1024px X 768px}   {1366px X 768px}   {1680px X 1050px}

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Da casa na mãe à casa no Pai!

CasaIsabelle

Nossa primeira casa foi o útero da nossa mãe. Não temos lembranças conscientes, mas assimilamos as emoções associadas à nossa gestação. Se fomos esperados, celebrados, se chegamos no meio de uma crise, se houve tentativa de aborto, tudo isto já deixou marcas profundas. Esta casa foi se tornando apertada até que fomos expulsos dela de forma agressiva: passagem estreita ou intromissão invasiva. Fomos expostos à luz, esticados e nosso choro de dor e pavor acolhido com sorrisos, numa primeira experiência de total incompreensão!

Outra casa fundamental foi a casa da nossa infância, cheia de mistérios e encantos, já que o olhar da criança transforma pedras em carros, lençóis em fantasmas, sem falar nos amigos e monstros imaginários tão bem revelados nas tiras do Calvin. Tenho uma ternura profunda pela casa das férias no sul da França, que propiciou nossas únicas raízes já que moramos em vários países diferentes. É lá que reencontrava meus brinquedos da fase anterior, armários cheios de fantasias no sótão, a natureza generosa do verão com suas amoras colhidas no pé. Quando meus pais faleceram, este tesouro teve que ser vendido e suas entranhas distribuídas entre os irmãos. Voltando para lá recentemente, reencontrei o jardim e os muros, mas a alma da casa foi totalmente transformada pelos novos proprietários. Que alívio perceber que o encanto permanece em mim inalterado e imune às mudanças externas! Como frisa Mia Couto: O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra). Cabe a nós fazer com que alguns lugares permaneçam vivos dentro da gente.

Lembrei de uma sábia reflexão da Lia Luft no seu lindo livro Perdas e Ganhos: A infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossos dias. Em plena maturidade sinto em mim a menina assombrada com a beleza da chuva que chega sobre as árvores num jardim de muitas décadas atrás. Precisei abrir em mim um espaço onde abrigar as coisas positivas, e desejei que fosse maior do que o local onde inevitavelmente eu armazenaria as ruins. É minha responsabilidade cultivar estas memórias estruturantes e soltar aquelas que me feriram. Neste processo de apego às expressões da Graça, sigo o conselho bíblico de considerar todas as coisas e reter o que é bom.

Se cada casa pela qual transitamos deixou alguma marca, a casa fundamental é a casa em mim onde Deus escolheu fazer morada. Esta casa é muitas vezes ignorada, negligenciada, desconhecida, já que tendemos a nos alienar do nosso mundo interior e ficar a mercê dos desafios e demandas do sistema no qual vivemos. Como diz Tereza de Avila, no Caminho da Perfeição: Se eu tivesse entendido, como entendo hoje, que neste minúsculo palácio da minha alma mora um tão grande Rei, eu não o teria deixado só tão frequentemente; eu teria permanecido de vez em quando perto dele, e teria feito o necessário para que o palácio seja menos sujo. Que admirável pensar que aquele cuja grandeza encheria mil mundos e muito mais, se tranque assim numa moradia tão pequena!

Sigamos a pista de Angelus Silésius: Algumas pessoas partem para peregrinações distantes. Elas fazem procissões em volta do templo, sem entrar no santuário. Eu vou em peregrinação, em direção ao Amigo que mora em mim. Como revela Anselm Grun, no livro O Céu Começa em Você: Cada um de nós carrega em si um lugar de silêncio… ali, onde Deus habita em nós, somos salvos e íntegros; ali ninguém pode nos atingir e é também ali que somos livres. É no silêncio que adentramos esta casa onde somos recebidos com um abraço e ouvimos a saudação do amado.

Fugimos deste caminho interior porque há muitos entulhos, medos, frustrações, preocupações, que preferimos ignorar e que nos perseguem, levando­-nos a um ativismo desenfreado. Quem não consegue parar, na realidade não consegue ficar consigo mesmo. Como diz Henri Nouwen: Muitas vozes chamam nossa atenção. Há uma voz que diz: “Prove que você é uma boa pessoa”. Outra censura: “Você deveria se envergonhar de si mesmo”. Há também uma voz que diz: “Ninguém realmente se importa com você”, e outra: “Tenha certeza de se tornar uma pessoa bem sucedida, popular e poderosa”. Mas sob todas essas vozes, que são quase sempre muito estridentes, há uma voz calma e discreta que diz: “Tu és meu amado, meus favores recaem sobre ti”. Essa é a voz que realmente precisamos ouvir. No entanto, é necessário um esforço especial para isso; ouvi­-la requer solitude, silêncio e uma forte determinação. Isso é a oração. É ouvir a voz que nos chama de “meus amados”.

Nesta casa interior, podemos derramar o nosso coração, nossas feridas são curadas, nossos pecados confessados e perdoados. Alí, nossa identidade de filhos ganha consistência e somos transformados à imagem de Cristo. Assim, podemos enfrentar o mundo, não para mendigar afeto, reconhecimento, afirmação, mas para ser luz e compartilhar o que recebemos. Sendo amigos da Trindade, somos chamados a ser amigos uns dos outros e sinalizar o fonte desta amizade. Lembrei então do lindo poema de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, cantado por Lenine e Zé Renato: Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre. Construímos cômodos para abrigar os amigos que moram em nosso coração. Esta hospitalidade expande nossas paredes e amplia nosso espaço interior, tornando­nos ricos de tudo o que doamos.

Assim, vamos ao encontro da nossa última morada que Cristo já nos preparou, onde não haverá mais choro, nem dolo, apenas celebração, banquete e comunhão. Cuidemos bem da nossa casa interior porque dela procedem as fontes da vida.

 


Isabelle Ludovico é francesa de nascimento e brasileira de coração, peregrina, aprendiz da Graça, companheira do Osmar, mãe, avó, amiga, psicóloga clínica sistêmica com especial atenção para adultos e casais.

Universo infinito e particular

Conheci o Sam Sund há alguns anos, quando participamos da mesma banda por dois meses. Lembro-me de seu cabelo comprido, de seu violão e da disposição que ele tinha para ensaiar à perfeição o repertório. Depois tivemos contatos esporádicos, via Facebook. Seu mural sempre foi recheado de imagens de astros e estrelas… não, não de Hollywood. Do Espaço Sideral mesmo. Sam é astrofísico, daqueles bem entendidos do assunto. Há pouco mais de um ano, descobriu que tem uma doença grave. Fez tratamentos, foi enviado para a Suíça para continuar se tratando e de lá mantém seus amigos informados sobre o que tem sentido e passado. São mensagens sempre muito profundas sobre vida, dor, morte, identidade, eternidade, finitude, fé e ciência.

A história do Sam tem me inspirado e me levado a perguntar a mim mesma, diariamente, se aquilo a que dou valor nesta vida é, de fato, importante. Tem sido enriquecedor acompanhar o Sam – mesmo que à distância – e aprender com ele. Aproveitando esse contato, eu o convidei a escrever para o nosso blog sobre o tema que quisesse e da forma como quisesse. Ele, numa demonstração de gentileza, aceitou o meu convite e o resultado você lê agora.

Luciana Mendes Kim


 

Confesso que aceitei com surpresa o convite da amiga Luciana Kim para contribuir com um post aqui. Receio de invadir com rudeza excessiva um espaço feminino de reflexão sobre a vida.

Há um tempo resolvi abrir minha situação de saúde em minha página do Facebook, normalmente alimentada de posts sobre Astronomia e Astrofísica. Muitos entendem que minha situação está deteriorando, chegando ao estágio limítrofe à vida (ou morte). Eu, todavia, me vejo evoluindo.

Recebo várias mensagens de apoio nos comentários dos meus posts. A maioria são citações de trechos bíblicos de fé, entrega e arrependimento… o que me toca mais é a urgência de alguns, de que, ao me mandar certos textos, eles supostamente possam me ajudar rápida e definitivamente a sair da situação em que me encontro. A preocupação deles me comove!

Mas eu tenho minhas próprias preocupações… ei-las:

 – A que Salmo o Rei Davi podia recorrer nos seus momentos de angústia, medo da morte e dor?  Entendo que os livros da Bíblia estão à nossa disposição para essas coisas e são sagrados e inspirados, mas Davi era também só um homem …O Livramento, a Presença vinham para ele não do proclamar textos …antes, do seu íntimo relacionamento com o Criador. A sua relação com Deus foi o que produziu os Salmos.

 – E, como citei, nessa situação em que vivo, a gente depende do que já conseguiu interiorizar de antemão. Não dá pra ir atrás de uma “fé dos outros” nessa hora. É como aquela situação em que a pessoa tentou fazer um milagre “em nome do Jesus que Paulo prega” (Atos 19.15) … Você e eu receberemos sempre a mesma resposta que a tal pessoa:  Conheço Paulo , e sei quem é Jesus… mas e você… Quem é? 

Q u e m  é  V o c ê ?? – é o que ouço a todo momento.

Um pouco irônico e terrificante de gelar é que, Naquele Dia, teremos sobre nós a mesma pergunta embutida :

Quem é você?  Nós nos conhecemos?

 

 

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Os dois pontinhos claros nessa imagem são a Terra e a Lua vistas de Saturno …1,4 bilhões de km distantes. A espécie humana enviou a espaçonave Cassini para a órbita desse planeta, que levou 7 anos viajando até chegar.

Talvez a maioria tenha uma sensação de quão pequenos e flutuantes somos no Universo ao abordar essa imagem. Eu me sinto único e especial.

 


Sam Sund é astrofísico, doutorando pela Max Planck Institute for Astrophysics , Munique, Alemanha.