O nosso jeito de amar

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Sempre achei que o amor acontecesse de um jeito só – duas pessoas trocando experiências profundas sobre a vida e expressando, por carinho ou palavras, o quanto apreciam uma a outra. Foi assim que sempre acreditei que se amava e foi assim que sempre alimentei minhas expectativas em relação ao amor.

O problema foi que essa definição de como se ama se mostrou limitada e fez com que eu só me sentisse amada por pessoas parecidas comigo, que gostavam de falar sobre seus sentimentos, enquanto outras, que talvez me amassem também, escaparam do meu radar. Meu pai é o melhor exemplo disso. Ele foi (e ainda é) aquele pai trabalhador, provedor, que saía de casa às 6 da manhã para trabalhar e voltava só às 9 da noite. Criou cinco filhos assim, garantindo a eles comida e educação de qualidade. Era o jeito dele de nos amar.

Nunca compreendi o jeito do meu pai de me amar. Sempre esperei que ele me amasse do jeito que eu amava as pessoas: passando tempo com elas, conversando sobre seus anseios e sonhos, olhando em seus olhos e tocando sua mão. Por anos a fio, fiquei matutando jeitos de conquistar o amor do meu pai. O que nunca havia passado pela minha cabeça ainda era que o amor dele por mim sempre esteve ali, na forma das roupas que eu vestia, da casa gostosa em que eu vivia, no lençol cheiroso sobre o qual eu dormia. Eu nunca havia traduzido corretamente os sinais do amor do meu pai por mim.

O mesmo pode acontecer num relacionamento amoroso. Muita gente já leu e comenta sobre o ótimo livro As cinco linguagens do amor, de Gary Chapman. Considero-o um tesouro quando o assunto é ampliar as possibilidades de comunicarmos o amor, mas mesmo dentro das categorias que ele identifica – tempo de qualidade, palavras de afirmação, presentes, toque físico e serviço – existem nuances.

Pense em duas pessoas que valorizam o tempo de qualidade, por exemplo. Pode ser que uma delas ache que a intimidade está em abrir o coração, enquanto a outra se empolgue quando fala do trabalho. Conheço um casal, em que ela gosta de conversar sobre questões profundas, enquanto ele aprecia o simples fato de estar ao lado dela, mesmo quando estão em silêncio. Ambos demonstram o amor um pelo outro através da dedicação de seu tempo, mas cada um usa esse tempo de jeito diferente. Continuar nutrindo expectativas quanto ao modo “certo” de sermos amados significa insistir em cutucar uma ferida que talvez nem precisasse existir.

Venho fazendo esse exercício de descobrir como as pessoas amam e como se sentem amadas há pouquíssimo tempo. Chegar à conclusão de que cada um tem seu jeito de demonstrar amor tem me proporcionado cura, como a história que contei sobre o jeito de amar do meu pai. Eu nunca soube ler o amor dele por mim e só agora, depois de 37 anos, é que venho sendo alfabetizada dentro da linguagem dele. Tem sido uma jornada fascinante e divertida, que talvez um dia me torne fluente na língua mais sublime do universo.


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

O meu corpo sou eu

Ele vem todo apaixonado, me fala o que quero ouvir de alguém

Me chama de canto e promete me amar aqui e além

Sem me avisar que promete o que não pode dar

Eu, que já vivi outros carnavais, desconfio

Mas como seria bom se fosse verdade

Curiosa e carente, eu entro no jogo

E me acho no controle da situação

Mas lentamente – de concessão em concessão,

Eu abro mão do não.

 

Então ele me ganha, me leva pra cama

Penetra o meu íntimo e é um com a minha alma

Depois se levanta, se veste e se vai

E eu me convenço de que estou satisfeita

De que não preciso dele

De que tive tudo o que quis

 

E os dias se passam e eu penso nele

Mando uma mensagem, ele não responde

Ele é casado, poliamor ou enrolado

Me dá um perdido, me deixa de lado

Mas quando está só, me procura de novo

E eu digo sim

Achando que é pão, quando me oferece migalha

 

Essa história de abuso e defraudação

É minha e sua

O meu corpo sou eu, eu sou o meu corpo

Não dá para fazer separação

 

O Amor que eu busco não é deste mundo

É incondicional e absoluto

Me fez para Ele e não negocia

Não dá desconto e não me compartilha

E eu, teimosa, insisto em fugir

Acho um escândalo um Amor altruísta assim

Porque na vida comi tanta migalha, que já não sei o que é um banquete.

 

meu corpo sou eu
“I was there with you, my child”, do meu marido David Kim

Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Meu quarto escuro

Há algum tempo, meu marido tem lamentado a falta de amigos próximos. Como nos mudamos há pouco meses, ainda não deu tempo para ele – homem tímido que é –  construir vínculos novos e fortes. Mas como eu disse a ele, as amizades virão a seu tempo.

Entretanto, enquanto eu refletia nessas coisas com ele, percebi que, mesmo que comigo esteja acontecendo o oposto – tenho feito ótimas amigas aqui -, existe um ponto cego nessas relações, um lugar onde o olhar das minhas amigas, por mais sincero e atento que seja, não alcança. E é exatamente nesse ponto cego que me encontro hoje.

Penso que podem ser inúmeras as questões que nos levam para esse lugar de solidão: um complexo antigo, um segredo indigno, uma angústia sufocante, uma dúvida perseguidora. Fazemos uma lista mental de pessoas que talvez tenham o potencial de nos ajudar, mas vamos eliminando uma a uma, quando imaginamos as possíveis reações. Então, vamos nos encolhendo de vergonha e medo, até percebermos que estamos num quarto escuro, sem porta ou janela alguma.

Ao chegar nesse ponto da conversa com o meu marido, concluí: David, você tem buscado amigos e eu tenho muitas amigas, porém carregamos questões tão profundas, que só Deus é capaz de compreendê-las por inteiro. E é essa realidade que nos torna iguais neste momento da nossa vida.   

Minha dor oculta tem me compelido a buscar mais a Deus. E essa medida tem sido como cavar um túnel secreto o qual, esperançosamente, me levará para fora da prisão de mim mesma. Neste túnel, Deus tem sido o ar, a luz e a direção. Ele tem sido o meu único guia, o Todo-Suficiente. Não há intermediários, nem distrações. Somos eu e Ele, a poucos palmos de distância um do outro. E em temor e tremor, sigo cavando o meu túnel e insistindo, num sussurro: Deus, não me deixe desistir aqui dentro. Permita, por tua misericórdia, que eu alcance o outro lado.      

 

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Luciana Mendes Kim

Mulheres Inspiradoras: Elisabeth Elliot – Dez/2018

Foi missionária no Equador, publicou 24 livros, comandou o programa de rádio ‘Gateway to Joy’ por mais de uma década, foi professora e palestrante ao redor do mundo.

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Elisabeth Howard nasceu no dia 21 de dezembro de 1926, em Bruxelas na Bélgica: lugar onde seus pais foram missionários. Porém com poucos meses de idade sua família retornou aos Estados Unidos da América, indo morar na Filadélfia, Pensilvânia.

Nossa família continuou morando na Filadélfia e depois em Nova Jersey até eu sair de casa para cursar o Wheaton College. Naquela época, a família tinha aumentado para quatro irmãos e uma irmã.1

Em Wheaton College foi onde ela estudou Grego Clássico acreditando ser uma importante ferramenta que a permitiria trabalhar na área de tradução do Novo Testamento para uma língua desconhecida. Após a faculdade, Elisabeth fez uma pós-graduação em Alberta, no Canadá, no Prairie Bible Institute.

Jim e Dave Howard, meu irmão, se formaram juntos no Wheaton College, em 1949. Embora eu também estudasse nessa faculdade, não conheci Jim até o Natal de 1947, quando Dave o trouxe para passar as festas conosco. Achei graça quando, mais tarde, fiquei sabendo que Jim havia escrito aos seus pais sobre “uma garota alta e magra, longe de ser bonita, mas de personalidade dinâmica desconcertante que me atrai.”2

Antes de se casarem, Elisabeth e Jim foram individualmente para o Equador, como parte de um treinamento missionário. E em 1953, casaram-se na cidade de Quito – iniciando sua jornada em direção a tribo indígena Auca (atualmente conhecidos como Waorani).

Mas foi em setembro de 1955 que a Operação Auca realmente teve início. Foi nesse mês que Deus começou a tecer cinco fios distintos em uma tela esplendorosa para sua própria glória.3

Jim Elliot, Pete Fleming, Ed McCully, Roger Youderian e Nate Saint eram apaixonados pelo povo Auca, mas sobretudo o estímulo deles tinha outra origem em outra fonte. Cada um dos homens havia feito um pacto pessoal com Deus, reconhecendo que pertencia ao Senhor, primeiro por direito de criação e, segundo, pela redenção oferecida na morte de seu Filho, Jesus Cristo. Este direito duplo sobre a vida de nossos maridos eliminava qualquer dúvida quanto à lealdade deles. Não era questão de lutar para seguir o exemplo de um grande Mestre. É impossível o ser humano moldar-se perfeitamente à vida de Jesus. Para nossos maridos, Jesus Cristo era Deus e, sem dúvida nenhuma, havia tomado a forma de homem para morrer e, com sua morte, oferecer não somente o escape da punição que os pecados mereciam, mas também, um novo tempo de vida, a eterna, tanto em extensão quanto em qualidade.4

E infelizmente, no início do ano de 1956, esses 5 missionários morreram depois de algumas tentativas de aproximação com a tribo Auca.

Certa noite, eu e as outras esposas conversamos sobre a possibilidade de ficarmos viúvas. O que faríamos? Deus tranquilizou nosso coração e nos deu certeza de que, independentemente dos acontecimentos, sua Palavra continuaria fiel. Sabíamos que “quando o Senhor manda o rebanho caminhar, ele vai à frente”. A liderança de Deus era evidente até aqui. Quando casamos com nossos maridos, sabíamos claramente quem teria, de modo inquestionável, o primeiro lugar na vida de cada um deles – Deus e sua obra. Essa era a condição do verdadeiro discipulado, o que se tornava devastadoramente significativo agora.5

Reconciliação

Nossa filha Valerie tinha 10 meses quando Jim foi morto. Continuei trabalhando com os índios Quichua quando, através de uma providência notável, conheci duas mulheres Auca que viveram comigo por um ano. Elas foram a peça-chave para eu ir morar com a tribo que matou os cinco missionários.6 

Quase três anos se passaram desde aquela tarde de domingo. Estou sentada em uma cabana de sapê no rio Tiwanu, poucos quilômetros ao sudoeste de “Palm Beach”. Em outra casa de sapê, apenas três metros distantes, estão dois dos sete homens que mataram meu marido. Gikita, um deles, acabou de ajudar Valerie, de três anos e meio, a assar uma banana. Dois de seus filhos embrenharam-se na floresta, empunhando zarabatanas, habilmente construídas, em busca de carne para alimentar os quinze ou vinte Aucas reunidos nesta clareira. 

Como isso aconteceu? Somente o Deus que fez um machado flutuar, o Sol parar, em cujas mãos se encontra o fôlego de todas as coisas vivas – somente esse Deus, que é o nosso Deus para todo o sempre, poderia ter feito uma coisa dessas.7

Depois de viver por 2 anos com a tribo Auca, Elisabeth retoma seu trabalho com a tribo Quichua e permanece com eles até 1963, quando ela e sua filha Valerie retornam aos Estados Unidos.

Com seu retorno aos Estados Unidos, iniciou sua vida de escritora e começou a falar publicamente sobre sua história. Em 1969, casou-se com Addison Leitch, um professor de Teologia no Seminário de Gordon-Conwell em Massachusetts, mas permaneceram casados por pouco tempo, pois ele veio a falecer em 1973.

No outono de 1974 ela tornou-se professora adjunta no mesmo seminário em que Addison lecionava, e por diversos anos lecionou em um curso chamado “Expressão Cristã”. Anos depois, em 1977, casou-se com Lars Gren.

Legado

Elisabeth, na década de 70, esteve no comitê de concepção da versão da Bíblia NVI – Nova Versão Internacional. Foi radialista, teve um programa semanal chamado “Gateway to Joy”, e por quase 13 anos ministrou palavras de sabedoria e encorajamento através das ondas do rádio.

Por 20 anos enviou newsletters por correio, publicadas 6 vezes ao ano, espalhando reflexões contemporâneas a época e pedidos de oração. Foi autora de 24 livros e viajou o mundo contando sua história, compartilhando seu conhecimento e experiência de relacionamento profundo com Deus.

Em seus últimos anos de vida, ela e o marido pararam de viajar, mas continuaram o contato com o público via seu site oficial: elisabethelliot.org. Até que no dia 15 de junho de 2015 veio a falecer, passando pelos portais do esplendor aos 88 anos de idade.

Como não se inspirar com uma mulher dessas? Quantas perdas e reconciliações? Quantas frustrações e possibilidades de recomeços? Quanto fruto gerado de sementes que se dispuseram a morrer voluntariamente?

Oro para que eu possa vir a ser, quem sabe 1/3 de quem Elisabeth foi. Oro para que mesmo em meio a dor e ao sofrimento, a frustração e a angústia eu possa frutificar como ela escolheu fazer.

Senhor, me ajude a não tornar-me amarga, gerando frutos que não provém de Sua Videira. (João 15.5)
Me ajude a compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade de Teu Amor.
(Efésios 3.18)
Me ajude a contentar-me em ser pequena, como um grão de mostarda, mas em Ti crescer para ser refúgio. (Marcos 4.31–32)
Me ajude a amar primeiramente a Ti, para que estando arraigada e alicerçada em Ti, por Ti e Contigo eu consiga amar meu próximo. (Efésios 3.17)
Amém.

 

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NOTAS:

1Trecho retirado do site oficial de Elisabeth Elliot e traduzido livremente: elisabethelliot.org/about.html.

2Trecho retirado do livro, Através dos Portais do Esplendor, escrito por Elisabeth Elliot, Capítulo 1 – Não ouso ficar em casa, p 18.

3Trecho retirado do livro, Através dos Portais do Esplendor, escrito por Elisabeth Elliot, Capítulo 9 – Setembro de 1955, p 125.

4Trecho retirado do livro, Através dos Portais do Esplendor, escrito por Elisabeth Elliot, Capítulo 15 – Por que os homens foram?, p 205.

5Trecho retirado do livro, Através dos Portais do Esplendor, escrito por Elisabeth Elliot, Capítulo 15 – Por que os homens foram?, p 204.

6Trecho retirado do site oficial de Elisabeth Elliot e traduzido livremente: elisabethelliot.org/about.html.

7Trecho retirado do livro, Através dos Portais do Esplendor, escrito por Elisabeth Elliot, Epílogo – Novembro de 1958, p 295.

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Aprendendo a viver com saudades

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Hoje faz sete meses que nos mudamos do Brasil. E cada dia que passa sinto mais saudade.

No início,  eu sentia falta do pastel com caldo de cana e das festas infantis lotadas de brigadeiro. Depois, foi a vez dos lugares… a feira, a praia, a igreja, o bairro da Mooca. Aí então, foi a vez do contato virtual com os amigos e com a família, que se tornou insuficiente, e logo a saudade deles se instalou também.

Agora, sinto saudades de tudo e qualquer coisa relacionada ao Brasil. Ontem, por exemplo, passávamos de carro sobre um viaduto aqui da cidade e eu comentei com o meu marido: “E a Radial Leste, hein? Que saudade dela!”. Como resposta, recebi um olhar indignado.

E por que não volta para o Brasil? – ouço uma de vocês pensando.

Porque tenho aprendido cada vez mais que a saudade não se mata, mas se doma.

Quanto mais vamos amadurecendo, mais vamos tendo de lidar com a saudade. Afinal, nem sempre teremos como voltar para os braços daquilo de que sentimos falta. Às vezes é de um tempo que já ficou para trás, às vezes é de uma pessoa que não vive mais e, outras vezes, é de uma pessoa que vive, mas que hoje percorre caminhos distantes dos nossos.

Penso que o ponto crucial dessa história é exatamente este, quando encaramos a saudade de frente, olhos nos olhos, e, com um suspiro de rendição, desviamos o olhar.  É aí que sabemos: a saudade vai sempre fazer parte de quem somos.

Lidar com essa realidade – a presença constante da saudade – é como ter uma visita em casa que não sabe a hora de ir embora. Você quer achar um jeito de ela perceber que já ficou demais, mas você não sabe como fazer isso e, assim, ela vai ficando, ficando, até a gente perceber que ela não tem intenção nenhuma de ir embora. Nunca.

David e eu não temos planos de retornar definitivamente ao Brasil. Pelo menos, não a curto prazo. Logo, temos diante de nós uma escolha a ser feita: acolher a saudade e incorporá-la à rotina, ou então deixar que ela nos distraia da vida que aqui estabelecemos e nos leve para o mundo paralelo de um retorno idealizado.

Gosto da empatia que encontro em artistas, quando o assunto é saudade. Aliás, vou postar no final uma música de uma dupla britânica que eu adoro e cuja letra descreve com perfeição o sentimento de falta de uma pessoa a quem amamos. Entretanto, me sinto no dever de ir além: a saudade é dor, mas não é dor.

A saudade constante também é sinal de que nossa perseverança em favor das decisões já tomadas está sendo treinada. Ela também nos torna mais gratos por momentos e pessoas. A saudade, além disso, nos molda e nos ensina a atribuir valor ao que antes nos parecia banal. A partir dela, vamos percebendo que somos mais dependentes das pessoas do que julgávamos ser e que não podemos ter tudo e todos ao mesmo tempo, tampouco estar em tudo e com todos ao mesmo tempo. Logo, ela nos ensina sobre limitação e nos devolve a humildade, há tanto perdida no excesso de ego.

A essa contraditória e intrusa hóspede, uma definição poética e precisa da minha brilhante Clarice Lispector:

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

 

 

 

*A imagem no topo da página é de Aaron Burden


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Enxergando Deus em tudo

Quando uma amiga pede que eu a ajude em oração por algo, costumo dizer: vamos orar, sim. E depois, não se esqueça de prestar atenção nos sinais de resposta de Deus. 

Quando digo isso, não estou dizendo a ela que espere por sinais sobrenaturais, como uma luz ofuscante invadindo o quarto, ou um anjo se aproximando dela para entregar um bilhetinho da parte de Deus com a resposta. É olhar em volta mesmo e ver como Deus quer agir, responder, se revelar ou até nos ensinar, a partir daquilo que pedimos a Ele.

Essa forma de oração – uma conversa de mão dupla, em que Deus é também participante e não somente ouvinte (o que também não seria nada ruim, nessa era em que todo mundo quer falar e quase ninguém quer ouvir) – transforma radicalmente o nosso olhar para a realidade. Começamos a prestar mais atenção na nossa rotina e enxergar elementos “divinos” nela – no sentido de reconhecê-los como interferências de Deus.

Quando estamos interessadas em conhecer quem é Deus e Sua vontade para nós, começamos a perceber traços Dele em cada detalhe da nossa vida.

Conseguimos enxergá-lo nas janelas com venezianas

Quando visitei a Polônia pela primeira vez, onde moro hoje, o meu filho de quatro anos estava com muita, mas muita dificuldade de dormir. Motivo? Era verão e aqui, no verão, o sol só vai embora às 10 da noite. Ou seja, enquanto estava claro, ele achava que era dia e não fechava os olhos de jeito nenhum!

Mas por que você não fechou a janela??

Pois é, a solução teria sido simples, se as janelas aqui tivessem venezianas. Mas a maioria não tem.

Antes de nos mudarmos para a Polônia, oramos bastante, inclusive por um lugar para morar. Fizemos uma boa busca em sites especializados em aluguel de imóveis e qual não foi a minha surpresa quando, no primeiríssimo apartamento que visitei, me deparei com o quê?? V.E.N.E.Z.I.A.N.A.S  nas janelas! Até a porta de vidro para a sacada tinha veneziana. Em outras palavras: quando as venezianas estão fechadas, o apartamento fica mergulhado num breu absoluto.

Saquei na hora o que estava acontecendo: era Deus nos mandando um recado muito amoroso, mostrando que aquele era o lugar preparado por Ele para nós. E cá estamos.

Conseguimos enxergá-lo na mãe de um amigo da escola do nosso filho

Ainda sou um bebê quando o assunto é a língua polonesa. Sei dizer meu nome, minha idade e palavras soltas.

Agora tente imaginar a minha situação numa reunião de pais na escola do meu filho. Uma hora e meia fazendo esta cara:  emoji. Difícil!

Na última reunião que tivemos, o jeito que achei de entender foi gravar tudo e, dias depois, pedir para uma alma polonesa bondosa traduzir pra mim.

Há umas três semanas, uma mãe da escola entrou em contato comigo do nada, se apresentou e começou a explicar como o conselho de pais funcionava e mais um monte de detalhes de tudo que eu não havia entendido até aquele momento. Descobri por ela que tem um dia em que as crianças levam um bicho de pelúcia, outro dia em que vai ter uma festa que os pais precisam ir também e outro dia ainda em que é preciso pagar pelos materiais de arte.

E se ela não tivesse aparecido na minha vida e me explicado tudo isso? Saquei pela segunda vez: era Deus de novo.

Conseguimos enxergá-lo no carro 

Não viemos para a Polônia “em busca de uma vida melhor”. Aliás, o motivo pelo qual estamos aqui não nos proporciona a facilidade de adquirirmos um carro.

O problema é que já estamos vivendo um clima de inverno (ontem à noite nevou) e quem tem criança não deseja exatamente ficar com ela parada no frio, esperando o ônibus para a escola. Porém, como já contávamos com isso, investimos em roupas quentinhas para nós todos.

Mas o que não esperávamos de jeito nenhum aconteceu mesmo assim: uma família brasileira que também mora aqui e de quem somos amigos foi viajar para o Brasil por três meses e entregou a chave do carro deles na nossa mão, para o usarmos até fevereiro de 2019!

Desta vez, nem oração eu tinha feito. Deus não fica esperando a nossa oração para agir com amor. Ele vem e cuida de nós assim mesmo, sem nem termos pedido nada.

Deus não é o gênio da lâmpada e nem sempre dá o que pedimos da forma como pedimos. Mas uma coisa é certa: Ele SEMPRE nos responde. E essa resposta pode vir de diversas maneiras, por isso precisamos estar atentas aos sinais.

Existe ainda um passo além a ser dado, que requer atenção aos detalhes, àquelas mínimas coisas, nas quais a nossa limitação ainda nem permitiu que pensássemos. Basta reparar nelas, que você vai encontrar Deus também ali.

 

Captura de Tela (104)

Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?
Salmo 116.12

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Mulheres Inspiradoras: Ethel Waters – Out/2018

Foi uma importante cantora de blues, jazz e atriz nos Estados Unidos. Foi também uma cantora ativa durante as cruzadas de Billy Graham.

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Ethel Waters nasceu dia 31 de outubro de 18961, em Chester, cidade localizada na Pensilvânia, Estados Unidos. Sua mãe, Louise Anderson, a teve com apenas 13 anos2 de idade, pois engravidou de Ethel sendo vítima de um estupro3. Sim, você leu certo: sua mãe foi vítima de um estupro e engravidou de Ethel neste contexto.

Após seu nascimento, sua mãe casou-se com Norman Howard, um trabalhador da estrada de ferro e Ethel usou seu sobrenome quando criança, mas já adulta adotou o nome de seu pai biológico.

Eu nunca fui uma criança

Ethel sempre se referiu a sua avó, Sarah, que morreu em 1914, como “Sally”. Durante a maior parte de sua infância, Ethel foi criada por Sally na Filadélfia: “Minha avó, sempre que podia, cuidava de mim porque minha mãe casou-se com o pai da minha irmã e minha avó, Sally Anderson, agarrou-se a mim. Ela trabalhou duro a vida toda. Ela trabalhava no serviço e tinha três meninas e um menino, e eles eram todos jovens e selvagens, e não havia ninguém para cuidar deles”.3

Ethel nasceu em um contexto de extrema pobreza e vulnerabilidade. Em sua autobiografia His Eye Is On The Sparrow: An Autobiography revela que raramente era mostrada a ela amor e afeição. Foi criada em um ambiente vicioso, e se descreve como uma verdadeira criança sem saída e líder de gangue. Para ganhar dinheiro quando criança, ela levava recados para cafetões e prostitutas – muitos dos pedidos eram para drogas. Ela também ganhou um dinheiro extra para vigiar a polícia.4

Seu pai, John Waters, nasceu em 1878, o que sugere que ele tinha mais ou menos a mesma idade que sua mãe, Louise, quando Ethel foi concebida. Ethel descreve-o como um playboy que trabalhou como pianista e foi assassinado (envenenado) em 1901 por uma amante ciumenta. Mas, uma de suas filhas deu uma versão diferente, para Deborah Montgomerie: “Ela diz que John foi assassinado, mas foi um erro trágico. John tocava piano em uma festa, em um bar ou clube, e alguém colocou uma bebida que continha veneno no piano para outra pessoa, mas John bebeu e morreu”.5

Aos 13 anos de idade, Ethel se casou com um homem abusivo e se divorciou dele no ano seguinte. Em seguida começou a trabalhar como camareira e a cantar em corais de igrejas e show de talentos, ganhando seu primeiro prêmio aos 15 anos de idade. Ela foi descoberta por dois produtores, em 1917, em um destes concursos. Passado dois anos, ela se tornou uma das primeiras cantoras afro-americanas a gravar no selo Black Swan Records. As gravações foram bem-sucedidas o que aumentou sua popularidade e fama.

Waters cantava em um estilo que a diferenciava de outros mestres do blues, como Bessie Smith e Ma Rainey. Sua abordagem era mais suave, sofisticada e lírica e, quando aplicava uma variedade de gêneros, do blues de Tin Pan Alley, envolvia um amplo espectro de públicos e aumentava sua popularidade. Ela antecipou certas técnicas de jazz, como “scat singing”, que se tornaria associada a mestres como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, e ela também influenciou cantoras como Billie Holiday, Sarah Vaughan e Sophie Tucker. Ela nunca aprendeu a ler uma partitura, mas lembrava-se de uma música depois de uma ou duas audiências; e sempre trouxe uma nova abordagem para cada performance.6

Até a década de 1930, Ethel gravou mais de 50 canções de sucesso e foi acompanhada por instrumentistas de jazz como Fletcher Henderson, Benny Carter e Coleman Hawkins. Gravando também com Jack Teagarden, Benny Goodman e Tommy Dorsey.

Essa mesma habilidade interpretativa permitiu que Waters mudasse de carreira, da música para o teatro musical. Apareceu em diversos musicais durante a década de 1920 e na década seguinte, principalmente no gênero ‘black music’. Waters tinha mais originalidade do que as características estereotipadas de canto e dança permitidos na época. E ela usaria sua fama e popularidade (tendo se tornado uma das artistas mais bem pagas nos EUA) para romper as restrições da forma musical e as presunções sobre os artistas afro-americanos.7

Em 1929, Ethel ganhava US $ 1.250 dólares por semana cantando e atuando no filme ‘On With the Show!’, da Warner Bros. Este sucesso de bilheteria foi filmado em cores e foi um dos primeiros ‘filmes falados’ – arrecadando US $ 2 milhões ao redor do mundo.8 Mais tarde, Ethel se tornou a segunda mulher negra indicada ao Oscar e a primeira atriz negra indicada ao Emmy.

Sua vida pessoal foi um grande emaranhado de relacionamentos. Foi casada por 3 vezes e se divorciou dos 3 casamentos. E sua falta de saúde trouxe a ela a aposentadoria profissional na década de 1960.

Em 1955, Ethel estava completamente endividada com impostos atrasados ​​e aproveitando somente dos royalties de seu trabalho. E um ponto de virada aconteceu quando ela participou de uma das cruzadas de Billy Graham, no Madison Square Garden, em Nova York, em 1957. Anos depois, ela deu este testemunho sobre aquela noite:

Em 1957, eu, Ethel Waters, era uma velha senhora decrépita de 380 libras e dediquei minha vida a Jesus Cristo. Eu te digo porque Ele vive; e porque meu precioso filho, Billy, me deu a oportunidade de ficar ali, posso agradecer a Deus pela chance de dizer a você que o olho dEle está em todos nós pardais* (referência ao nome da canção cantada por ela durante as cruzadas: His Eye Is On The Sparrow).9

Ela continuou em turnê com o evangelista Billy Graham até 1975 e veio a falecer na Califórnia em 1977, aos 81 anos de idade.

Quando eu estava na busca pelas mulheres para o calendário deste ano, 2018, o mês de outubro foi o último a ser preenchido. Foi difícil encontrar uma mulher nascida este mês – segundo o critério de nascimento que eu mesma havia colocado. Mas eu orava para que Deus me ajudasse a encontrar uma mulher para ser lembrada e homenageada por este projeto. E ao me deparar com a história de Ethel, não tive dúvidas: o calendário só estava me aguardando encontra-la.

Nestes dias escuros e tão complexos, no qual tentamos discutir e ‘estabelecer’ quando é que se inicia uma vida humana e qual delas ‘vale mais’, ao me deparar com a vida de Ethel me senti profundamente sensibilizada. Sua mãe foi uma vítima e uma sobrevivente dando à luz a uma menina em um contexto completamente vulnerável e aparentemente sem esperança. E conhecer sua história aumentou minha fé. Por mais que eu me esforce eu nunca saberei o quão difícil e dolorido foi para ela e sua mãe, assim como para tantas outras pessoas que nascem sob esta cruel, sofrida e estigmatizada circunstância. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Todos nós somos desejados e amados por Deus de um jeito maravilhosamente e assombrosamente inexplicável.

Tu criaste o íntimo do meu ser
e me teceste no ventre de minha mãe.
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.
Tuas obras são maravilhosas!
Digo isso com convicção.
Meus ossos não estavam escondidos de ti
quando em secreto fui formado
e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu embrião;
todos os dias determinados para mim
foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Como são preciosos para mim os teus pensamentos, ó Deus!
Como é grande a soma deles!

Salmo 139:13–17 [Versão NVI]

 

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NOTAS:
1Algumas fontes declaram que seu nascimento tenha sido em 1900, e não em 1896.

2Algumas fontes declaram que sua mãe seria um pouco mais velha do que 13 anos.

3Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 2 – tradução livre

4Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 3 – tradução livre

5Trecho retirado do livro Ethel Waters: Stormy Weather, escrito por Stephen Bourne, Capítulo 1 – I never was a child, p 2 – tradução livre

6Trecho retirado do site Black History Now – Black History Biographies from the Black Heritage Commemorative Society. Disponível em: <http://blackhistorynow.com/ethel-waters>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

7Trecho retirado do site Black History Now – Black History Biographies from the Black Heritage Commemorative Society. Disponível em: <http://blackhistorynow.com/ethel-waters>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

8Trecho retirado do site Christian Index – Ethel Waters: The Sparrow that Soared, escrito por Ron F. Hale. Disponível em: <https://christianindex.org/ethel-waters-sparrow-soared/#>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

9Trecho retirado do site Christian Index – Ethel Waters: The Sparrow that Soared, escrito por Ron F. Hale. Disponível em: <https://christianindex.org/ethel-waters-sparrow-soared/#>. Acessado em 27/09/2018 – tradução livre.

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Eunice Souza Gabbi Weave – Set/2018

Foi uma importante ativista pelo combate da hanseníase no Brasil.

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Eunice Souza Gabbi Weave nasceu em 19 de setembro de 1902, na pequena cidade de São Manuel, no interior de São Paulo. Sua família era uma família de fazendeiros de café. Seu pai, Henrique Gabbi, era carpinteiro e natural da Itália, já sua mãe, Leopoldina Gabbi, era natural da cidade de Piracicaba e de origem suíça.

Aos 3 anos de idade, Eunice e sua família, mudaram-se para Uruguaiana, no estado do Rio Grande do Sul, e lá ela completou seus estudos primários. Mas foi em São Paulo que Eunice formou-se em Educação Sanitária.

Além de sua mãe ser portadora da hanseníase outro importante acontecimento contribuiu para que Eunice posteriormente se engajasse por completo nesta causa:

Durante seus estudos, quando foi passar férias em casa, ocorreu um fato que mudou sua vida para sempre. Eunice presenciou um bando de esfarrapados, mendigos e doentes, que pegavam agasalhos e alimentos deixados à porta da fazenda. As crianças da Casa Grande foram levadas para dentro, às pressas; as cortinas e as portas fechadas. Então, uma mulher abandonou o grupo e se aproximou. Nela havia um ar aristocrático e restos de nobreza. O rosto estava escondido por um chapéu de palha, e ela falou com voz serena:

– Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei. Casei-me com aquele homem. Nessa vida de cigano é melhor ser um só.

Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos e cobiçada donzela que todos encantava, mas havia desaparecido. A moça tinha contraído lepra nos tempos do colégio. Nunca mais Eunice esqueceria os ‘olhos de Rosa’ e, a partir deste episódio, começava seu trabalho em benefício dos leprosos.1

Em 1927, Eunice reencontrou-se com Charles Anderson Weaver, ele havia sido seu professor de latim e, na época, era o diretor do colégio onde ela havia estudado. Neste reencontro Eunice ficou fascinada por sua cultura, inteligência, bondade e brilhantismo de ideias.2 Posteriormente casaram-se e foram morar em Juiz de Fora.

Depois de 1 ano de casados, seu esposo foi convidado pela Universidade de Nova Iorque a dirigir a Universidade Flutuante da América do Norte – que era um transatlântico, que faria uma viagem ao redor do mundo, para melhor formação de seus alunos.3

Eunice aproveitou sua estadia na universidade móvel para estudar Jornalismo, Sociologia, Serviço Social e Filosofia Oriental. Ao todo, ela visitou 42 países, e por todo lugar que passava buscava informações sobre o problema da hanseníase. Ela também aproveitou para estagiar em diversos lugares ao redor do mundo que acolhiam e tratavam pessoas diagnosticadas com hanseníase.

Já de volta ao Brasil, em 1934, seu esposo foi nomeado pastor da Igreja Metodista de São João, em Juiz de Fora e Eunice começou a fazer campanhas de assistência as pessoas com hanseníase. Até que, em 1935, Eunice tornou-se presidente da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros, fundada em 1932 por Alice Tibiriçá. 4

Em Minas Gerais, nessa época, o problema da lepra era terrível: o trem passava de madrugada com o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel. Eunice levava à estação roupas, cobertores e refeições .5

O próximo, e inevitável passo, foi o da conscientização da população para a prevenção da doença. Mais tarde, estes locais vieram a se tornar lugares que contribuíam para a inclusão de crianças, filhas e filhos de portadores da hanseníase, na sociedade. Fazendo-as participar e usufruir da vida em sociedade.

Em 1935, Eunice convenceu o então presidente da república, Getúlio Vargas, a contribuir oficialmente com a causa. Ele prometeu dar o dobro de dinheiro que ela conseguisse arrecadar junto a sociedade civil. Infelizmente, [a] classe política se esquivava do assunto, pois acreditavam que a assistência aos leprosos não daria frutos políticos.6 Ao todo, Eunice percorreu 146 cidades no Brasil divulgando e arrecadando fundos para a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa Contra a Lepra.

Seu trabalho foi amplo e diversificado pela causa. Participou diretamente da construção de educandários7 e suas implantações, bem como na elaboração de campanhas para conscientização da população da doença e representando o país em congressos internacionais para falar sobre o combate à doença no Brasil. Além de contribuir com os países Paraguai, Cuba, México, Guatemala, Costa Rica e Venezuela em ações de combate a doença.

Eunice não teve filhos biológicos, mas amou e cuidou dos filhos de seu esposo Charles, com o mesmo coração e temor. Além de dedicar seu amor e cuidado à cada pessoa excluída e marginalizada pela hanseníase em sua época.

Depois de muito tempo atuando contra a hanseníase e com a idade mais avançada, Eunice recebeu uma carta de um portador da doença que perguntava a ela o seguinte:

– Por que a senhora escolheu, na vida, este caminho tão duro, de cuidar dessa raça de gente inválida que todo mundo tem pavor?8

Mas [d]ona Eunice não respondeu. Sorriu. Sorriu recordando as outras cartas de engenheiros, aviadores, advogados, professores, todos filhos de leprosos e por ela encaminhados na vidam, durante esses trinta anos, narrando suas vitórias, as suas conquistas, os seus trabalhos, que deram às suas vidas as alegrias sadias dos que são construídos com AMOR.9

Eunice faleceu, aos 67 anos, em 9 de dezembro de 1969 em pleno exercício de seu chamado. Ela estava no Rio Grande do Sul, quando faleceu. Seu corpo foi transladado para o Rio de Janeiro, velado em uma igreja metodista e enterrado ao lado de seu esposo no Cemitério dos Ingleses.

ALGUNS RECONHECIMENTOS

  • O governo do Paraguai lhe concedeu a condecoração de Ordem ao Mérito
  • A Sociedade Internacional de Leprologia lhe conferiu o título de Full Member – que garantia a ela os mesmos direitos dos membros regulares e médicos leprogistas
  • O governo de Cuba a condecorou com a Ordem ao Mérito Carlos Finley
  • Em 1950 foi a primeira mulher no Brasil a receber a Ordem Nacional do Mérito
  • Em 1956 recebeu a Ordem do Mérito da Aeronáutica
  • Em 1960 recebeu o título de Cidadã Carioca – ao completar 25 anos na direção da Federação
  • Em 1965 foi honrada com o título de Cidadã Honorária de Juiz de Fora
  • É cidadã bemérita do Rio de Janeiro, Bahia e do Pará
  • Recebeu o diploma da Inconfidência pelo estado de Minas Gerais
  • Em 1967 foi para a ONU como delegada brasileira no 12º Congresso Mundial
  • Em 1973 foi emitido um selo pelos Correios com a imagem de Eunice Weaver, em uma campanha contra o mal de hanseníase

Ao conhecer a história de Eunice, inevitavelmente, me lembrei de tantas e tantas histórias narradas nos Evangelhos, sobre o contato direto de Jesus com os leprosos de sua época, fazendo exatamente o contrário da sociedade, que excluía, condenando-os à uma vida miserável e solitária.

Jesus tocou e curou essas pessoas. Mostrando que o ordinário, que a vida comum também importa. Curando essas pessoas, Ele permitiu que elas pudessem partilhar o pão novamente em comunhão com a comunidade.

Um leproso aproximou-se dele e suplicou-lhe de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me!” Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado!” Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi purificado.
[ Marcos 1:40–42 – NVI ]

Conhecer a trajetória e o trabalho de Eunice, me lembrou que, mesmo imperfeitos e pecadores, somos convocados a levar vida, pão e comunhão àqueles que estão a margem. Que Deus nos ajude a não reter o que Ele nos dá em abundância para que seja compartilhado e, assim, multiplicado.

“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, ele se assentará em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. ‘

[ Mateus 25:3140 – NVI ]

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VOCÊ SABIA QUE, DESDE 2016, EXISTE A CAMPANHA JANEIRO ROXO, NO BRASIL?

Pois é, a hanseníase coloca o Brasil em segundo lugar em número de casos, atrás apenas da Índia!10

Infelizmente, ainda precisamos combater seriamente a doença no Brasil, e ao contrário que muitos pensam, a doença não é hereditária e possui cura. Quanto mais cedo o paciente é diagnosticado e inicia o tratamento, menores são as agressões aos nervos e é possível evitar complicações. Além de não transmitir a doença a seus familiares, amigos, colegas de trabalho ou escola.

 

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NOTAS:

1Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

2Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

3Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

4Alice Tibiriçá fundou em São Paulo a Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra, tendo Eunice como sua vice-presidente. Em 1935, Eunice assumiu a presidência dessa entidade, que exerceu durante 30 anos. Dicionário Mulheres do Brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, p 301

5Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

6Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

7Educandários eram os espaços de acolhimento e educação, oferecidos pela fundação, para as crianças filhas dos portadores da doença

8 / 9 Trecho de Eunice Weaver: Uma vida para o bem, escrito por Vera Brant. Disponível em: <http://verabrant.com.br/1/cronicas/EUNICE%20WEAVER-artigo.htm>. Acessado em 21/08/2018

10Dado coletado em Sociedade Brasileira de Hansenologia. Disponível em: <http://www.sbhansenologia.org.br/campanha/janeiro-roxo>. Acessado em 21/08/2018

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


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Mulheres Inspiradoras: Katherine Coleman Goble Johnson – Ago/2018

Katherine teve um desempenho escolar acima da média. Concluiu o Ensino Médio antes da idade prevista e finalizou o Bacharelado em Matemática e Francês aos 18 anos. Foi uma das primeiras mulheres negras a se matricular em Matemática nos Estados Unidos. Aos 35 anos começou a trabalhar na NASA e contribui para missões espaciais históricas, como levar o primeiro norte americano à Lua!


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Katherine Coleman Goble Johnson nasceu em 26 de agosto de 1918, em White Sulphur Springs, West Virginia, Estados Unidos. Seu pai, Joshua, era fazendeiro e sua mãe, Joyllete, era professora. Ao todo, o casal teve 5 filhos, sendo Katherine a filha mais nova.

Desde muito cedo, Katherine tinha aptidão para a matemática e adorava cálculos:

Eu contava tudo. Contava os passos na rua, os passos até a igreja, o número de pratos e talheres que eu tinha lavado… qualquer coisa que pudesse ser contada1

Mesmo sem idade para frequentar a escola, tramou um jeito de começar a seguir seu irmão, quando ele ia para a escola. Um dia, ao se deparar com seu professor, foi convidada para assistir a aula. Impressionado ele permitiu que Katherine frequentasse as aulas naquele verão, pois ela já sabia ler e escrever.

Foi matriculada oficialmente com quase 6 anos de idade, porém foi colocada diretamente no 2o ano por seu desenvolvimento além do previsto para a sua faixa etária. Um pouco mais tarde, prestes a entrar na 5a série, avançou novamente mais um ano.

Aos 10 anos de idade ela já estava apta a iniciar o ensino médio, mas infelizmente a única escola de sua cidade, que permitia negros estudarem, não possuía o ensino médio disponível. Com isto, sua família precisou se mudar para Kanawha, para que Katherine e seus irmãos continuassem estudando.

Katherine se formou aos 14 anos no ensino médio e aos 15 anos iniciou seus estudos na universidade (naquela época, ela tinha sido uma das primeiras pessoas negras a se matricular em um curso de matemática nos Estados Unidos). Enquanto estava na universidade, diversos professores e tutores a guiaram e acompanharam suas escolhas com matérias, contribuindo para o direcionamento de seu curso. Aos 18 anos conseguiu concluir seu Bacharelado em Francês e Matemática na Universidade West Virginia State.

Depois de formada, seu primeiro trabalho foi em uma escola primária rural ensinando francês e matemática. Katherine acabou deixando o trabalho em 1939 para se casar com James Francis Noble. Em 1940, a Universidade West Virginia State a convidou para se matricular em uma pós-graduação em Matemática, o que faria dela uma das primeiras pessoas negras a cursarem um curso de pós-graduação em matemática nos Estados Unidos, porém seu esposo James ficou doente e ela foi forçada a abandonar os estudos para sustentar sua família.

Em 1952, Katherine descobriu que o Centro de Pesquisas de Langley – NACA2 estava recrutando mulheres negras com aptidão em matemática. E um ano depois ela estava empregada no centro de pesquisas, inicialmente em um grupo apenas com mulheres.

Duas semanas depois, ela foi convidada a se juntar a um grupo de engenheiros de vôo – no qual, todos eram somente do sexo masculino – para uma vaga temporária como assistente de dados. Seu grande conhecimento em geometria analítica a fez conquistar a vaga por definitivo. Obviamente que, além do forte machismo em meio a um ambiente dominado por homens, Katherine precisou também enfrentar, com grande coragem, um racismo vergonhoso.

Em 1956, seu esposo James faleceu, devido a um tumor inoperável no cérebro, e juntos eles tiveram 3 filhas; Constance, Joylette e Katherine.

Em 1959, o programa espacial avançou muito! Os Estados Unidos e a Rússia competiam entre si para marcarem história, levando o primeiro homem à Lua. Nesta época, a contribuição de Katherine esteve relacionada aos cálculos das trajetórias para um tempo preciso dos lançamentos espaciais. Neste mesmo ano, Katherine se casou com o tenente-coronel James A. Johnson.

Katherine realizou cálculos referentes ao tempo do lançamento da missão Mercury de Alan Shepard, em 1961 – primeiro norte americano no espaço. Fez cálculos altamente complexos para impulsionar as cápsulas espaciais em órbita ao redor da Lua. Traçou as cartas de navegação, guiando navios pelas estrelas em caso de falha eletrônica e, em 1962, verificou os primeiros cálculos computacionais da órbita de John Glenn ao redor da Terra. Ela também participou da autoria do primeiro livro didático sobre o espaço, após completar o trabalho em dinâmica de vôo em um programa secreto.

Em 1969, ela calculou a trajetória do vôo Apollo 11 até à Lua e seu trabalho posterior incluiu o programa Space Shuttle e planos para uma missão à Marte.

Eu encontrei o que eu estava procurando em Langley. Isso era o que uma matemática de pesquisa fazia. Eu fui trabalhar todos os dias, por 33 anos, feliz. Nunca me levantei e disse: “Eu não quero ir trabalhar”.3

Até 2008 ela ainda estava lecionando matemática para jovens. Em novembro de 2015, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, incluiu Katherine na lista dos 17 americanos a receberem a Medalha Presidencial da Liberdade e seu nome foi citado como exemplo pioneiro de mulheres negras na ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Em 2016, a nova Instalação Katherine G. Johnson de Pesquisa em Computação foi formalmente dedicada pela agência no Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia, no aniversário de 55 anos do vôo histórico de Alan Shepard em seu foguete, que Katherine contribuiu para que fosse possível.

Katherine foi membro da Igreja Presbiteriana Memorial Carver, em Newport News, por mais de cinquenta anos. Além de cantar no coral e servir em diversos cargos de liderança, contribuiu também com a organização e prestação de contas das finanças da igreja. Também foi membro da Alpha Kappa Alpha Sorority (organização criada em 1908 para promover a equidade dos negros através dos estudos, sobretudo das mulheres negras nos Estados Unidos).

RESUMO DE SEUS TRABALHOS

  • 1936 – 1952 – Professora rural na Virgínia e em West Virginia, nos ensinos infantil e médio
  • 1952 – 1953 – Professora substituta de matemática em escolas públicas em Newport News, Virgínia
  • 1953 – 1986 – NASA, Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia
  • 1953 – 1958 – Matemática Centro Langley de Pesquisa, em Hampton, Virginia, com a NACA
  • 1958 – 1986 – Técnica aeroespacial, NASA

EDUCAÇÃO

  • 1932 – West Virginia State High School, ensino médio
  • 1937 – West Virginia University, graduação em Matemática e Francês
  • 1940 – West Virginia University, graduação no programa de Matemática

PRÊMIOS E HONRARIAS

  • 2015 – Medalha Presidencial da Liberdade
  • 2010 – Doutorado honorário em ciência pela Old Dominion University, Norfolk, Virginia
  • 2006 – Doutorado honorário em ciência pelo Capitol College, Laurel, Maryland
  • 1999 – West Virginia State College – aluno excelente do ano
  • 1998 – Doutorado honorário em direito do SUNY Farmingdale
  • 1986 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1985 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1984 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1980 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Special Achievement award
  • 1971 – NASA – Centro Langley de Pesquisa – Center Special Achievement award
  • 1967 – Prêmio do Grupo Apollo, que inclui as 300 bandeiras que voaram junto da Apollo 11
  • 1967 – NASA – Prêmio em Equipe do Lunar Orbiter Spacecraft and Operations – por trabalho pioneiro na resolução de problemas de navegação de cinco espaçonaves que circundaram e mapearam a Lua na preparação para o Programa Apollo

Conheci Katherine através do filme Estrelas Além do Tempo (título original, em inglês, Hidden Figures), juntamente com as outras duas mulheres incríveis, que lutaram bravamente e intelectualmente para vencerem e transpor as diversas barreiras de preconceitos. Eu realmente acredito que trazer à tona história de mulheres reais que fizeram diferença no mundo tem grande poder! Saber que existiram, e existem, mulheres tão inspiradoras que mudaram o mundo, nos inspira também a mudar o mundo, nosso país, nossa cidade, nosso bairro, nossa casa.

Este ano Katherine completará 100 anos. Celebro e agradeço a Deus por sua vida e peço à Ele que ela tenha em seu coração a paz, que excede todo e qualquer entendimento e a satisfação por ter vivido uma boa, agradável e perfeita vida de acordo com os desígnios de Deus em Cristo Jesus.

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NOTAS:
1Frase traduzida livremente do site The Heroine Collective referente a sua biografia: Biography: Katherine Johnson, Space Scientist

2NACA – National Advisory Committee for Aeronautics. A NACA foi o comitê anterior a NASA – National Aeronautics and Space Administration

3Frase traduzida livremente do site The Heroine Collective referente a sua biografia: Biography: Katherine Johnson, Space Scientist

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


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Mulheres Inspiradoras: Archimínia de Meirelles Barreto – Jul/2018

A filha de padre Archiminia Barreto (1845-1930): convertida ao evangelho de Cristo, defendeu sua fé e escreveu contra a idolatria [1]

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Por todos os títulos a memória desta distinta irmã merece ser perpetuada entre nós. A sua rara fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo desde a sua conversão, já há muitos anos, diante dos constantes esforços do clero romano para induzi-la a voltar à fé abjurada, como também os seus relevantes serviços prestados à Causa, com sua pena burilada, jamais devem ser esquecidos pelos batistas brasileiros. [2]

Introdução
Archimínia de Meirelles Barreto nasceu em 12 de julho de 1845, em Inhambupe, Bahia. Era filha do padre Fernandes Pinto Meirelles Barreto e D. Leopoldina Theodolina de Castro. Ela recebeu esmerada educação de seu pai. Dominava o latim e falava bem o francês. Com trinta anos obteve nomeação para o exercício do magistério público. Foi a primeira professora pública na Bahia de 1875, ainda sob o Império.

Digno de destaque é o fato de que sua filiação nunca foi ocultada, seu pai padre teve seis filhos, por ele legitimados.

Archimínia casou-se com Joaquim Euthychio de Oliveira e teve duas filhas. Ela professou a fé em Cristo em 05 de fevereiro de 1893, juntamente com sua irmã Jacquelina, na Primeira Igreja Batista da Bahia e, no mesmo dia foram batizadas pelo missionário Zacarias Clay Taylor. [3]

Archimínia: mulher destemida e apologista intrépida
Após sua conversão, e por causa dela, foi abandonada pelo marido e por outros parentes. Foi morar, então, com sua irmã viúva Jacquelina, juntamente com suas duas filhas: Eunice e Evangelina.

Sofreu perseguição por se tornar protestante, sendo transferida diversas vezes sob a acusação de que “tinha parte com o diabo”. Os pais de seus alunos, ao saberem de sua fé, os retiravam da escola e um inspetor aconselhou-a a abdicar de sua fé. Mas, ela respondeu tão energicamente, repreendendo-o por invadir a seara de sua consciência, que ele se tornou seu melhor defensor.

Archimínia afirmou que: “Quem quer que se dê ao trabalho de estudar o que tem sido a religião de Jesus Cristo desde os seus primeiros tempos verá que toda a sua pureza vai desaparecendo à proporção que a Roma dos papas vai lhe adicionando inovações”. [4]

Bastante preocupada com essa impureza no cristianismo de sua época, Archimínia dedicou-se a escrever artigos nos quais refutava a idolatria, afirmando que: “O vosso culto sublime e santificador, a adoração da vossa boa e terna Mãe de Deus, é tanto idolatria como o era a adoração das deusas do paganismo: e os protestantes tão perversos e ímpios como o foram os cristãos, que nunca se prostraram diante de suas imagens tão prezadas. [5]

A escritora escrevia em periódicos e jornais seculares e, em todas as suas crônicas, não dava tréguas aos padres que tentavam de todos os meios impedir que os jornais da cidade publicassem seus escritos. [6]

Sua contribuição à literatura evangélica não se limitou, porém aos artigos polêmicos, pois escreveu também folhetos de edificação e evangelização. Ela também foi responsável pela Seção Feminina do Jornal Batista por mais de uma década, onde escreveu artigos endereçados às mulheres, destacando sua missão como mãe, esposa, filha e mestra.

Archimínia foi atuante também em sua igreja, sendo professora da Escola Dominical, evangelista, e tendo sido escolhida por algum tempo como diretora dos cultos da Igreja de Villa Nova, na ausência do pastor. Archiminia também pregava e “foi ela, pela sua pregação, que levou a Cristo o jovem Francisco José da Silva, a quem Taylor denominava ‘o apóstolo do Estado do Espírito Santo’”. [7]

Archimínia e seu livro “Mitologia Dupla”
Foi aconselhado à Archimínia pelo pastor Zacharias Taylor, pioneiro dos batistas na Bahia, que escrevesse uma obra sobre a idolatria. Como estrangeiro, o pastor tomava bastante cuidado para não ofender os brasileiros falando sobre o assunto. Com temor, ela aceitou o desafio, movida pela vontade de apresentar aos seus contemporâneos a mensagem do evangelho, tal como se encontrava na Bíblia:

Eu, porém, que suportei diretamente, por muitos anos, esta cegueira espiritual, desejei ardentemente iluminar a minha pátria, tão digna de melhor sorte, a fim de elevarmos o nosso espírito para o infinito, desprendendo-nos de objetos materiais. Bem sabia eu que uma idéia desconhecida é sempre mal recebida; mas, que importa? A verdade, cedo ou tarde, triunfará!

No desejo de fazer triunfar a verdade evangélica, a senhora baiana dedicou-se a escrever seu livro, com humildade e modéstia, afirmando uma nulidade literária, que não conduzia com sua capacidade bem demonstrada no texto que entregou ao público brasileiro.

Como filha de padre, Archimínia bem conhecia o catolicismo e na introdução de seu livro informou que: “filhos de católicos romanos, temos a desdita de receber em criança, sem prévio exame, esse presente de gregos à guisa de religião, e inconscientemente levamos esse cavalo de Tróia para o capitólio da nossa alma!”. [8]

Por esse trecho de seu livro percebe-se a intelectualidade de Archimínia. Ela comparou o presente dos gregos, o cavalo de Tróia, onde se abrigavam soldados inimigos, com as inovações abrigadas pela religiosidade brasileira, cheia de lendas, de cerimônias e de festas iguais às da antiga mitologia. Por isso intitulou sua obra de “Mitologia Dupla” e nela demonstrou as semelhanças da idolatria da religiosidade brasileira com a mitologia pagã.

Como exemplo do conteúdo do livro, segue-se uma comparação feita pela autora das divindades antigas e modernas:

TEXTO DA ÉPOCA:

[9] [10]

De comparação em comparação segue o livro de Archimínia, dividido em cinco partes: na primeira, ela comparou as divindades de Roma antiga e moderna; na segunda, discorreu sobre as invocações e cerimônias; na terceira, escreveu sobre as festas; na quarta tratou das superstições e na última parte apresentou Maria versus Maozim. [11]

Na conclusão de seu livro, a autora afirmou que:

De Jerusalém saiu o evangelho, e de Roma, a idolatria. Jesus é um rei eterno, e o Papa um homem negociante de almas. Sirvamos ao nosso Rei, a despeito dos mercadores de Roma. A Ele, o Deus de toda a Glória, Pai, Filho, e Espírito Santo, sejam todas as glórias para todo o sempre. Amém. [12]

Herança de Archimínia: intrepidez e ousadia
Archimínia foi a apologista da época, corajosa, intrépida e que não temia as perseguições. Com destemor escreveu seus artigos nos jornais, enfrentou as hostilidades de parentes e amigos e criou, sozinha, suas filhas. O seu objetivo com o estudo e apresentação do sincretismo, mistura de santos com deuses pagãos, era de que essa idolatria fosse enxergada e abolida da crença brasileira.

Muitos anos depois, alguns seguidores do candomblé baiano, herdeiros da religiosidade africana, perceberam e rejeitaram seu próprio sincretismo, que era a mistura dos santos com seus orixás.

Em uma reportagem da Revista Veja, de 01 de março de 2000, com o título de: “Abaixo os santos: expoentes do candomblé baiano não querem mais saber de sincretismo com os católicos”, o autor do artigo fez também uma comparação, parecida com a pioneira apologista batista, como pode ser verificado a seguir:

Na realidade, a mitologia não é somente dupla como escreveu Archimínia, mas é tripla ou até mais multifacetada, conforme as misturas que vão se incorporando, pouco a pouco, ao cristianismo brasileiro, que de tão descaracterizado nem devia mais receber essa denominação.

Ebenezer Cavalcanti, o escritor do esboço biográfico de Archimínia, reconhecendo seu valor, destacou que: “Sua obra completa deve ser reunida e publicada. Bem que seu nome merece ser perpetuado por algum setor pertinente da obra feminina batista no Brasil. Foi pioneira e heroína”. [13]

Após longa enfermidade, Archimínia morreu, aos oitenta e sete anos, em 20 de janeiro de 1930.  A Primeira Igreja Batista da Bahia registrou em ata alguns trabalhos de sua vida cristã, onde foi destacada como um modelo de mulher a ser seguido pela comunidade.

O Jornal Batista, em seu editorial de 20 de março de 1930, lamentou o seu falecimento e elogiou seu trabalho de “escriptora fecunda que, pelo seu zelo, energia e competência, escreveu em jornais e pamphletos”. Nesse necrológio, o redator não encontrando adjetivo apropriado para as qualificações de Archiminia, declarou que: “a veneranda irmã D. Archyminia Barreto, professora aposentada do estado tinha um caracter másculo e cristão”. [14]

Esse comentário refletiu bem a mentalidade de que a firmeza de caráter e a fidelidade em defender doutrinas só podiam ser privilégios da personalidade masculina. Mas, sabemos que todas nós, verdadeiras cristãs, somos capazes de defender a nossa fé e não nos deixarmos influenciar pela filosofia pós-moderna que tem causado tantos danos aos valores morais e espirituais.

Portanto, minhas queridas, inspiradas por Archimínia, preguemos o evangelho e, com ousadia confrontemos a filosofia da sociedade atual que prega o relativismo, a ausência de paradigmas e a permissividade. Amemos mais as pessoas, mais do que as respeitamos, pois, se ficarmos só no respeito ao que creem, não lhes apresentaremos Cristo, como verdadeiro caminho, verdade e vida.

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NOTAS:

[1] Resumo biográfico extraído das seguintes fontes:
BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 7; 9-11; 13-15;
CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 1/2/8.
CRABTREE, A. R. História dos Baptistas do Brasil até o anno de 1906. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Baptista, 1937, p. 159.
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de doutorado apresentado ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1998, p. 338-343.

[2] W. E. Entzminger na apresentação da 2ª edição do livro Mitologia dupla, em 01 de outubro de 1925.

[3] Curiosidade: na ata da igreja constam seus nomes antecedidos por S.S. D.D. (senhoras donas).

[4] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 13.

[5] BARRETO, Archiminia. “Cobrir os céos com os dedos ou a immaculada conceição de Maria”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1905, p. 3.

[6] MESQUITA, Antonio Neves de. História dos Batistas do Brasil. Vol. IIde 1907 até 1935. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1940, p. 68.

[7] PEREIRA, José dos Reis. História dos Batistas no Brasil: 1882-1982, p. 70.

[8] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 13-14.

[9] Caduceu: bastão com duas serpentes enroladas.

[10] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 29-30.

[11] Maozim: ídolo que Antíoco Epifânio, perseguidor dos judeus, quis que fosse cultuado nos anos de 164 a 174 a. C. Maozim era um novo deus introduzido no templo que desviava a adoração devida somente ao verdadeiro Deus de Israel. Archiminia alertava que a veneração à Maria desviava as almas da verdadeira rocha viva: Jesus, o Filho do Deus vivo.

[12] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 253. Obs: grifo da autora.

[13] CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 8.

[14] “Professora Archyminia Barreto”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 20 de março de 1930, p. 3, citado por SILVA, Elizete da. “Cidadãos de Outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia”, p. 342.

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Rute Salviano Almeida, pernambucana que sempre viveu em São Paulo. Apaixonada pelo ensino, foi professora por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas. É licenciada em Estudos Sociais, bacharel e Mestre em Teologia e pós graduada em História do Cristianismo. Escreve sobre a participação feminina na Igreja. Seus livros são : Uma voz feminina na Reforma, Uma voz feminina calada pela Inquisição, Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro e Vozes femininas no início do cristianismo. Todos publicados pela Editora Hagnos.