Desconstruindo o mito #2: Meus problemas acabaram, encontrei O cara!

Quem nunca assistiu a um filme romântico na vida, que não tenha se emocionado? Difícil. Irresistivelmente alienantes, os filmes românticos retratam encontros e desencontros que já vivemos em algum momento da vida ou que seria a glória vivê-los. Bem que aquela história entre a francesa inteligente e o americano aventureiro de Antes do Amanhecer podia acontecer com você durante um mochilão pela Europa, não acha? E Simplesmente Amor, então? Tirando a história do Primeiro Ministro da Inglaterra, todas as outras ali são nossas… a gente chora, torce, sente com os personagens e respira aliviada no final, quando tudo acaba bem.

E é esta exatamente a questão: tudo acaba bem.

Antes-do-amanhecer
Julie Delpy e Ethan Hawke em Antes do Amanhecer, 1995. Imagem tirada daqui

 

Quando assistimos a filmes, séries ou novelas, lemos livros, revistas, jornais de qualquer gênero que sejam, estamos sendo doutrinados por suas mensagens, mesmo que não percebamos isso. Aos poucos, o que recebemos vai construindo na nossa cabeça uma moldura, por onde enxergamos os relacionamentos, o amor, a vida. Com os filmes românticos não é diferente, quer ver?

O que acontece no final de um filme romântico, que acaba bem? O casal fica junto, claro. Depois de um monte de obstáculos e contratempos, o casal finalmente supera as dificuldades e se entende. E aí o que acontece? O filme termina. Se assistimos a filmes (ou séries) assim durante alguns anos – digamos… durante três anos (mas sabemos que já faz uma vida que assistimos coisas assim) –, isso já é tempo suficiente para começarmos a olhar em volta e a entender que os relacionamentos românticos são complexos mesmo. Quando finalmente parece termos nos acertado com alguém e tudo parece como no filme, a gente percebe que o filme não nos contou o que acontece depois que o casal fica junto. Mas isso não importa tanto, já que os filmes deixam implícito que a felicidade que o casal experimentou ao ficar junto continuou e continuou e continuou… sem fim.

De fato, essa sensação deliciosa de felicidade sem fim nos acompanha por um tempo mesmo. Mas daí um dia, você acorda se sentindo sozinha de novo. E aí, vê que anda gastando mais do que ganha para fazer os programas legais com o seu parceiro. E aí, você sente ciúme de uma antiga namorada dele. E aí, vocês brigam por causa dela e ele te dá um gelo no Whatsapp. Finalmente, quando tudo buga dentro da sua cabeça, você conclui: encontrar um cara legal não resolve o problema da felicidade, só o torna ainda mais desafiador. E isso o filme não tinha nos contado.

Sem uma referência anterior, sobre a qual basearmos nossas vivências, nos sentimos perdidas. É tentar, contando com nossos próprios recursos, ou desistir e partir para um novo cara. É muito fácil chegar nessa fase e achar que estamos com a pessoa errada. Falo isso por experiência própria. Problemas de relacionamento, para mim, representavam um grande sinal vermelho, como se eles fossem o prenúncio de uma tragédia que eu deveria evitar. Demorou muito tempo para eu aprender que pessoas imperfeitas se relacionam de forma imperfeita, invariavelmente.

Passei também pela fase da cobrança. Minha e dos outros. E aí, você está com alguém?  – era uma pergunta típica de amigas que não se viam havia algum tempo ou de parentes mais enxeridos. Responder não uma ou duas vezes era até aceitável… a terceira, já era demais para mim. Porém, me deixar envolver por essa mentalidade só me levava a um jogo ainda mais perverso: eu acabava me relacionando com “qualquer” pessoa, só para não ter que me encarar sozinha. Horrível, mas real. Felicidade, definitivamente, era um estado que eu queria alcançar, mas que residia sempre no outro. Era o outro que me faria feliz. Se não houvesse o outro, a felicidade se tornava, então, irrealizável.

A questão da felicidade residir no outro, entretanto, não é absurda. Os seres humanos são relacionáveis, ou seja, buscam completude fora de si mesmos. Se não temos um parceiro romântico, vamos buscar a realização nos amigos, nas celebridades que admiramos, nos nossos bichos de estimação, nas redes sociais, na comida (aliás, buscamos realização em mais de uma dessas fontes ao mesmo tempo). De uma forma ou de outra, iremos sempre procurar num outro essa complementação.

Mas é aí que reside a crueza da realidade: esse outro a quem buscamos está inexoravelmente fadado à insuficiência – ou ele nos decepciona, ou nos adoece ou morre. Em mais tempo ou menos tempo, ele deixará de ser o agente da nossa felicidade e, então, voltaremos à estaca zero da nossa busca. Ou ainda, prevenidas como somos, já encomendaremos logo um substituto, para garantirmos que a bolha da nossa felicidade permaneça intocada.

Não sei quanto a vocês, mas eu vou confessar uma coisa: essa busca incessante me cansa. Chego a duvidar se é a felicidade mesmo que devo ter como alvo nesta vida. Talvez não seja, já considerou? E se for, como vivê-la, de modo que não seja dependente de um – tão frágil – amor romântico?

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui, aqui e aqui os três textos da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

RE-PENSE: Reparar suas roupas, mas também suas relações é um ato de amor

Com a celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente que tal pensar em suas ações, mas também em suas relações?

Hoje, dia 05 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A campanha deste ano é focada na drástica poluição plástica (já falamos um pouquinho sobre esse tópico neste post aqui).

Este ano, com o tema #AcabeComAPoluiçãoPlástica, a data soma esforços à campanha #MaresLimpos da ONU Meio Ambiente para combater o lixo marinho e mobilizar todos os setores da sociedade global no enfrentamento deste problema — que se não for solucionado, poderá resultar em mais plástico do que peixes nos oceanos até 2050.1

Derivado do petróleo, o plástico nunca se degrada por completo na natureza. O material apenas se quebra em pedaços cada vez menores, em um processo de decomposição que pode levar centenas de anos. Mesmo os plásticos chamados biodegradáveis não “desaparecem”; apenas se quebram mais rapidamente.2

A poluição plástica é bem mais ampla do que a sacola plástica que você recusa no supermercado

O plástico está presente em nosso dia a dia muito mais do que imaginamos – ultrapassa a sacola plástica do supermercado que por ano, são consumidas até 5 trilhões de sacolas plásticas em todo o planeta.3 Pois, ele está no canudinho que você usa para beber o suco na padaria. Na bucha para lavar louças da sua pia. No colchão da sua cama. No seu travesseiro. No sapato que você usa. Na roupa que você veste. Enfim, a lista é extensa, infelizmente.

Sei que muitas das invenções com tal material supriram necessidades diversas e algumas foram extremamente importantes. Porém, o problema foi não pensar na sustentabilidade do processo. O impacto que a médio e longo prazo tais invenções causariam no planeta, seja pelo consumo desenfreado ou pelo descarte inapropriado.

Por isso, repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar é tão importante!

Por ter trabalhado com moda esportiva por muitos anos, sempre me deparei com fibras têxteis derivadas do petróleo. Neste segmento, ao longo dos anos, as empresas de tecelagem e malharia foram criando fibras que pudessem suprir as necessidades do esportista, garantindo sua sobrevivência em climas hostis. Com isto, foi possível desbravar lugares incríveis sem morrer de frio, mas lamentavelmente as fibras criadas duram muito mais do que uma vida, elas resistem por diversas gerações.

Uma marca, do segmento esportivo, que eu admiro muito é a Patagonia (existe há mais de 40 anos e foi criada pelo escalador Yvon Chouinard). Pois vejo que ela tenta buscar soluções mais duradouras para seus produtos – seja na conservação ou no descarte deles.

Imagem retirada da matéria feita pela marca Patagonia: http://www.patagonia.com/blog/2015/11/repair-is-a-radical-act/

Há um tempo, eles criaram um site chamado Worn Wear, que estimula as pessoas a comprarem roupas usadas da própria marca. E para o brechó online funcionar, eles recebem as roupas do desapego em suas lojas físicas e em troca dão créditos que podem ser utilizados em suas próprias lojas.

A marca também ensina as pessoas a repararem suas roupas, disponibilizando guias de conserto e conservação em seu site. Além, de promover eventos de reparo com um ateliê móvel pelas cidades.

Esses dias eu precisei reparar uma calça minha e me veio a memória que, há 3 anos (no mínimo), eu não comprei nenhuma roupa nova. Basicamente meu guarda-roupa foi constituído pela doação de peças por uma irmã que tenho (e que possuía muita roupa) ou de peças que tenho há muitos anos e que ainda se encontram em perfeito estado para uso.

Esses dias, eu também percebi que, assim como roupas precisam de reparação, muitos de nossos relacionamentos também precisam. Replicamos nosso comportamento de consumo e descarte em nossas relações. E, por vezes, somos descartados ou descartamos pessoas.

Esses dias eu precisei ceder meus ouvidos para realmente ouvir. Olhar para dentro de mim e revisitar situações incômodas. Exercer a empatia e liberar vida e perdão. Percebi que reparar relacionamentos leva muito mais tempo do que uma agulha e linha podem costurar, e que apesar da dor (passada e momentânea) possibilita restauração de vidas e possibilidades de novos recomeços.

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NOTAS:
1Trecho retirado da matéria das Nações Unidas no Brasil, link aqui

2Trecho retirado da matéria da Época Negócios, link aqui

3Informação retirada da matéria das Nações Unidas no Brasil (mesmo link acima)

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Anne Morrow Lindbergh – Jun/2018

Foi a primeira mulher a tirar o brevê de piloto planador de primeira classe nos Estados Unidos.

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Anne Morrow Lindbergh nasceu em 22 de junho de 1906 (já falamos dela neste post aqui), em Englewood, Nova Jersey, Estados Unidos. Seu pai, Dwight Morrow, foi um empresário, diplomata e político nos Estados Unidos. Sua mãe, Elizabeth Cutter Morrow, foi uma poeta e professora ativa na educação para mulheres.

Por ser um lar que promovia a leitura, escrita e atividades públicas entre os filhos (Anne era a segunda filha de um total de 4 filhos), tal influência contribuiu, e muito, para que Anne pudesse desenvolver sua aptidão à escrita.

Ela graduou-se em língua inglesa no Smith College. Conheceu seu marido, Charles Lindbergh, na cidade do México e casaram-se em uma cerimônia privada em 1929. No ano seguinte, 1930, Anne se tornou a primeira mulher a obter o brevê de piloto planador de primeira classe, nos Estados Unidos. E assim, o casal iniciou a aventura de traçar novas rotas e explorar continentes juntos.

Ao total, Anne e Charles tiveram seis filhos – sendo que o primogênito, com apenas 20 meses, foi sequestrado e morto meses depois do sequestro. Posterior ao ocorrido, mudaram-se para Inglaterra e ao longo dos 45 anos de casamento, a família Lindbergh viveu em diversos lugares: Nova Jersey, Nova York, Inglaterra, França, Maine, Michigan, Connecticut, Suíça e Havaí.

Anne recebeu diversas premiações ao longo de sua vida em reconhecimento de sua contribuição para com a literatura e a aviação:

  • 1933: recebeu a cruz de honra da U.S. Flag Association por ter participado do levantamento de rotas aéreas transatlânticas
  • 1934: foi premiada com a Hubbard Medal pela National Geographic Society por ter completado 40.000 milhas (64.000km) de voos exploratórios com seu marido, levando-os aos 5 continentes
  • 1935: seu primeiro livro, North to Orient, ganhou o National Book Awards
  • 1938: seu segundo livro, Listen! The Wind, ganhou o National Book Awards
  • 1938: recebeu o Christopher Award por War Within and Without e partes de seus Diários Publicados

  • 1939: recebeu o Honoris Causa de Amherst College
  • 1939: recebeu o Honoris Causa de University of Rochester
  • 1976: recebeu o Honoris Causa de Middlebury College
  • 1979: entrou no National Aviation Hall of Fame
  • 1985: recebeu o Honoris Causa de Gustavus Adolphus College
  • 1993: em reconhecimento de suas conquistas e contribuições para o campo aeroespacial, recebeu de Women in Aerospace o Aerospace Explorer Award
  • 1996: entrou no National Women’s Hall of Fame
  • 1999: entrou no Aviation Hall of Fame of New Jersey
  • 1999: entrou no International Women in Aviation Pioneer Hall of Fame

Depois da morte de Charles, em 1974 na ilha Maui, no Havaí, Anne voltou para Connecticut. E em 1999 foi morar perto da filha Reeve, em Vermont, onde veio a falecer em 07 de fevereiro de 2001, aos 94 anos.

A trajetória de Anne na aviação, desbravando rotas, conhecendo novos lugares, se expondo ao novo – continuamente, não poderia ser celebrada em melhor mês. Estou com malas semi-prontas, com passagem marcada, parto daqui 1 mês e alguns dias.

Estarei indo para a Inglaterra, país que eu sempre sonhei visitar, mas que por decisões diversas eu não havia conseguido planar. Tal viagem veio como um presente: privilégio de celebrar o casório de amigos e que, graciosamente, se estendeu a diversas outras oportunidades de vivência para mim.

Agora que a viagem se aproxima, e que distrações foram dissipadas, começo a sentir aquele frio na barriga que vem em decorrência de toda, e qualquer, mudança.

O medo destrói a “vida de altos voos”. Mas como exorciza-lo? O medo só pode ser exorcizado pelo seu oposto – o amor. Não há lugar para o medo, para a dúvida, para a hesitação num coração cheio de amor.1

No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.2

Enquanto estou desenvolvendo este texto, pego o livro Presente do Mar, o folheio e releio alguns de seus capítulos. Me lembro da sensação que ele provocou em mim, quando o li pela primeira vez. Fico feliz por celebrar a vida de Anne no mês que eu também celebro a mudança que o Eterno tem me permitido viver…

Não importa em que página se abra Presente do Mar, as palavras da autora oferecem uma oportunidade de respirar, de viver com mais calma. O livro torna possível desacelerar e descansar no presente, sejam quais forem as circunstâncias. Lê-lo – um trecho ou todo o livro – é existir por um momento num tempo diferente e mais sereno.

Até mesmo a cadência e a fluidez da linguagem me parecem fazer referência aos movimentos suaves, inevitáveis do mar. Não sei se minha mãe usou esse estilo intencionalmente ou se foi o resultado natural de estar vivendo à beira da praia, dia após dia, enquanto escrevia o livro. Seja qual for a razão, após algumas poucas páginas eu sempre começo a relaxar de acordo com aquele movimento e a me sentir como algo que pertence à maré – apenas mais um pedaço dos destroços de um naufrágio, flutuando nos maravilhosos ritmos oceânicos do Universo. Isso, em si, é profundamente reconfortante.

No entanto, este livro proporciona mais do que paz, mais do que o vaivém ondulante apaziguador de uma vida tranquila e de palavras suaves. Nas entrelinhas de tudo isso há uma força imensa de sustentação. Sempre me surpreendo toda vez que me deparo com essa força a todo vapor em Presente do Mar.3

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NOTAS:
1Trecho retirado de Presente do Mar, escrito por Anne Morrow Lindbergh, p 90

21 João 4.18 – Nova Versão Internacional

3Trecho retirado de Presente do Mar, escrito na Introdução por Reeve Lindbergh (filha de Anne), em 2005, para a comemoração do 50o aniversário da publicação do livro, p 08-09

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Noêmia Falcão Campêlo – Mai/2018

Foi a primeira missionária entre os indígenas brasileiros.

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Noêmia Stella Falcão Campêlo nasceu em uma família cristã, em 10 de maio de 1906, em Recife, Pernambuco. Desde pequena, recebeu estímulo para os estudos, mas infelizmente não os concluiu, por recomendação médica, devido à sua fragilidade física.

Aos 15 anos fez sua pública profissão de fé e batismo. Aos 19 conheceu Zacarias Campêlo que foi pregar em sua igreja quando ainda era seminarista. Ambos foram marcados por uma saúde frágil, porém compartilharam de um coração devoto a Deus e um genuíno desejo em anunciar o Evangelho a povos não alcançados, mais especificamente, aos índios crâos.

A palavra kraô é composta de icrá (filho) e hô (folha), ou seja, filho das folhas ou das selvas. Crêem que foram feitos das folhas pelo deus Put (Sol). Daí a razão por que adoram o Sol, e não há força humana que os afaste da prática desse culto. 1

Os pais de Noêmia, a princípio, não ficaram muito confortáveis com essa ideia que foi anunciada quando eles noivaram:

– Minha filha – dizia-lhe o pai. Aqui também se pode pregar o evangelho. Aconselha o teu noivo a não ir para tão longe.

– Meu querido pai, se Zacharias não mais quisesse ir aos índios, eu perderia todo o interesse em unir a minha vida à sua.

– Mas, não sabes, Noêmia, que és a alegria de nossa velhice? Que há de ser de nós sem ti!

– Ah, papai, isto é o que me dói na alma, deixa-los assim. Mas a chamada de Deus é tão forte, que eu seria a criatura mais infeliz, se a ela não desse ouvidos.

– Pois que Deus te abençoe, minha filha, em tua resolução.

E grossas lágrimas corriam pelas faces do amoroso pai, as quais eram logo enxutas por Noêmia que, encostando o seu rosto ao dele, e com os braços ao redor do seu pescoço, chorava também e dizia-lhe:

– O mesmo Deus que me protege, há de protege-los também, queridos pais.2

1926 foi o ano que toda a jornada do casal começou:

  • Eles foram nomeados missionários pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira.
  • Casaram-se dia 8 de maio.
  • Dias depois do casamento Zacarias foi consagrado ao ministério pastoral.
  • Partiram para o campo missionário quase no final do mesmo mês, dia 21 de maio.

A forte convicção do casal em sua vocação missionária é inspiradora. Não houve saúde, distância ou, qualquer outra coisa, que os impediram de seguir aquilo que Deus havia colocado em seus corações. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13) vem ao meu coração quando penso em sua história. E Deus seguiu fortalecendo Noêmia…

Ao que conta Rute Salviano Almeida, em seu livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro3 o início de seu trabalho no campo não foi nada fácil! Afinal, o casal também estava aprendendo e se adaptando com toda a diferença e experiência transcultural.

Quem deu nome ao vilareijo, Craonópolis, foi Zacarias: “[o] missionário afirmou que os índios a pronunciavam como duas palavras, crâo e nópolis, e, quando se encontravam com os sertanejos diziam: Nossa aldêi tem nome boa, qui nosso indireitor botou. Por modéstia eles só davam a última parte. – É nópolis, chama nossa aldêi. Tem mais, mas num posso dizer, purque é nosso nome”.4

Quando as forças de Noêmia acabavam-se, sua saúde piorava5… E foi o que aconteceu durante suas gestações. Por estar enfraquecida, Noêmia foi para Carolina (MA), porque lá dispunha da ajuda da família de Zacarias. Em fevereiro de 1927, nasceu seu 1o filho, Saulo. Posterior a seu nascimento ela retornou à aldeia, dando continuidade a seu relacionamento com os índios crâos, principalmente com as mulheres.

Prestes a dar à luz a sua segunda filha, Noêmia partiu novamente para Carolina. Lá, no dia 1o de abril de 1928, nasceu Esmeralda, mas em decorrência de uma infecção puerperal, Noêmia infelizmente veio a falecer, aos 22 anos de idade.

Noêmia, durante doze dias, pertencera ao Clube dos Ex-Mortos ou dos redivivos. Teve síncope prolongada, e os presentes a tiveram por morta. Quando voltou à vida, contou que estivera no céu e que vira a Jesus. Uma coisa ficou provada: ela nunca mais chorou nem se queixou da ausência dos seus queridos, como ocorria antes. Pedia que se lhe mostrassem os filhos. Pediu à cunhada que ficasse com o menino, mandasse a menina à avó e deixasse livre o viuvinho. Tudo isso num espírito de bom humor, e de quem está de posse de algo mais importante. Dizia mesmo que suas lágrimas já se tinham esgotado. Sentia o gozo do céu, pelo que não mais se entristeceria. Foi o mais belo testemunho que já presenciei em toda a minha vida. Falar do invisível com segurança de quem já o provou. De quem já está na posse do futuro.6

Escreveu Zacarias Campêlo, esposo de Noêmia, em seu livro Minha vida e minha obra

Uma palavra que me veio à mente, ao pesquisar a vida de Noêmia, foi a palavra legado.

Mesmo que ela tenha falecido prematuramente, ficando tão pouco no campo missionário, com certeza deixou frutos que ainda colhemos e colheremos na Eternidade. Seja para com o povo que ela tanto amou, e dedicou seus últimos anos de vida, os índios crâos. Ou nós, cristãos brasileiros, que tivemos o caminho aberto à um campo fértil para a proclamação das boas-novas.

Mas, certamente, sua família pode se inspirar e beber diretamente da fonte, florescendo e frutificando através das gerações. Esmeralda Campêlo Vilela (sua filha) tornou-se pastora, fundou uma editora, uma comunidade evangélica e uma organização sem fins lucrativos. E para a minha surpresa, enquanto eu pesquisava, descobri que Guilherme de Carvalho, pastor, escritor, diretor do projeto Cristãos na Ciência e obreiro do L’Abri Brasil (ministério que eu tanto admiro e que ele toca junto com a Alessandra, sua esposa) é neto de Esmeralda, sendo bisneto de Noêmia. Pois é… acho que não poderia vir à minha mente palavra melhor. O legado de Noêmia continua reverberando através dos anos e de sua descendência. E que venham mais anos, mais histórias e mais inspirações! :)

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NOTAS:
1Trecho de O índio é assim, escrito por Zacarias Campêlo, p 17

2Trecho de A heroína de Craonópolis, escrito por Stela Câmara, p 48

3O livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino, de Rute Salviano Almeida é o livro precioso em que eu descobri Noêmia (todas as citações utilizadas aqui foram retiradas dele). Eu também descobri Henriqueta Rosa Fernandes Braga – que foi a nossa Mulher Inspiradora do Mês de Março. E para o semestre que vem, teremos mais mulheres garimpadas do livro! Obrigada, Rute, pelo incrível trabalho em dar voz a tantas mulheres caminhando por nossa história <3

4 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 395

5 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 396

6Trecho de Minha vida e minha obra, escrito por Zacarias Campêlo, p 165

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você se vê, transita e desfruta a cidade

Com a pressa que estressa e as demandas exageradas de trabalho será que estamos aproveitando o que a cidade tem nos ofertado?

Somos mais de 12 milhões de pessoas na cidade de São Paulo e, juntos, respiramos o mesmo gás carbônico que sai do escapamento de carros engarrafados e de velhos ônibus que nos levam, todos os dias, para nossos trabalhos, faculdades e lares.

Somos muitas e muitos, de fato! Moramos em lugares bem afastados do centro e nos deslocamos por quilômetros, diariamente. Somos da Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e de todos os seus desdobramentos.

Apressados, nos deslocamos por quilômetros e não prestamos atenção aos detalhes.

Como paulistanos caricatos (ou adeptos desta cultura que aqui se refugiam) gostamos de supervalorizar a falta do nosso tempo. E assim, desenvolvemos ansiedades diversas, pois estamos sempre com a sensação que temos “um mundo” de opções ao nosso dispor, mas não conseguimos aproveita-las, justamente pela falta de tempo que tanto supervalorizamos.

Para agravar (sim, é possível!), desenvolvemos um olhar distante e crítico para com a cidade que nos acolhe. Adotamos a postura que toda melhoria é de responsabilidade alheia e assumimos postos de meros consumidores, como se a cidade não fosse a soma entre eu e você = nós.

Por isso, não é difícil encontrar pessoas que, ao se estafarem por excesso de trabalho ou se sentirem lesadas pela falta que a “cidade grande” não saciou dentro delas, acreditam que o outro extremo seja a solução de seus problemas: – Viver uma vida bucólica, no campo, longe de buzinas frenéticas, asfalto demasiado e cartão de ponto não seria, então, a solução de todos os meus problemas existenciais?

Confesso que eu já fui uma dessas pessoas. Já quis fugir para as montanhas, acordar com o sol batendo através de uma linda e enorme janela de vidro, na qual eu poderia contemplar o nascer e o por do sol. E nesse lar aconchegante, com cheiro de mato, flores e aromas eu desenvolveria trabalhos manuais e artísticos sem pressa, leria um livro sem interrupções e viveria, então, uma vida alegre, feliz e completa, para sempre, não é mesmo?! Parece que não…

Pensar assim é replicar um olhar dicotômico, como se metrópoles fossem más e cidades no campo fossem boas. Em minha caminhada compreendi que quem corrompe, qualquer ambiente, somos nós; seres humanos. Exercemos um poder destruidor, mas acreditem, também podemos, felizmente, sonhar, gerar, desenvolver, construir e desfrutar de lugares e relacionamentos.

Tenho aprendido que, onde quer que eu esteja, minha missão é de promover vida: preparando a terra, semeando, regando ou colhendo. Talvez, em minha jornada pessoal, eu só consiga desenvolver uma ou outra etapa deste enorme processo, pois a História é bem maior do que minha existência individual. É o Eterno que continua se movendo livremente e apontando os rumos de um todo que tenho oportunidade de fazer parte.

Sim, é possível preparar a terra, semear, regar e colher mesmo em uma metrópole cercada por concreto. Envolta por injustiças, populações minorizadas e vulneráveis esquecidos. Aliás, será que não seria exatamente este o nosso chamado urbano: sermos jardineiras e jardineiros em plena cidade grande? Projetando e construindo jardins, em meio ao asfalto de fuligem e gerando vida verde e pulsante em meio ao cinza?

O Eterno me presenteou com árvores frutíferas próximas de onde eu moro – em pleno centro de São Paulo! Me sinto vivendo uma metáfora e, em demonstração de gratidão, recolho algumas mangas que caíram no asfalto depois de um vento muito forte. Levo para casa o máximo de mangas que minhas ecobags podem aguentar e ombros suportar e faço um delicioso chutneySe hoje posso colher é porque alguém investiu tempo plantando antes de mim.

Me sinto extremamente grata por ser parte de um todo bem maior que eu mesma. Desfruto do que cozinhei, como se fosse a comida mais saborosa que eu já experimentei em toda a minha vida! Realmente ela tinha um gosto especial… E como eu havia colhido frutas por demais, de um inusitado jardim, tenho a oportunidade de presentear algumas amigas com o chutney que fiz.1

CHUTNEY DE MANGA2

Ingredientes:

  • 2 mangas palmer
  • 1 maçã fuji
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • ½ pimentão vermelho
  • 1 ½ colher (sopa) de gengibre fresco ralado
  • ¼ de xícara (chá) uvas-passas brancas
  • ¼ de xícara (chá) de açúcar
  • 1 colher (chá) de sal
  • 1 canela em rama
  • ¼ de xícara (chá) de vinagre de vinho branco
  • ¼ de xícara (chá) de água

Modo de preparo:

  • Faça o pré-preparo: descasque e corte em cubos de 1 cm as mangas e a maçã; descasque e pique fino a cebola e o dente de alho; corte o pimentão, sem as sementes, em cubinhos; descasque e rale o gengibre fresco (se preferir, pique bem fininho).
  • Transfira todos os ingredientes para um panela, junte as uvas-passas, o açúcar, o sal, a canela, o vinagre e a água e misture. Leve para cozinhar em fogo médio.
  • Quando ferver, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar por 40 minutos, mexendo de vez em quando. Se começar a grudar no fundo da panela, regue com um pouco mais de água e misture – o chutney ainda deve ficar com um pouco de caldo, pois irá endurecer quando esfriar.
  • Passados os 40 minutos, desligue o fogo. Transfira o chutney para potes de vidro esterilizados, com fechamento hermético, e deixe esfriar em temperatura ambiente. Depois de frios, tampe e conserve na geladeira por até 3 semanas.

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NOTAS:
1O episódio (a colheita das mangas) aconteceu em março deste ano (2018), mas somente agora (maio), consegui elaborar em texto o que eu ansiava :)

2Receita retirada do blog Panelinha — link aqui

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Mulheres Inspiradoras: Corrie Ten Boom – Abr/2018

Foi a primeira mulher licenciada ao ofício da relojoaria na Holanda e ficou conhecida por abrigar em seu lar diversos refugiados judeus além de membros da resistência nazista.

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Nascida em 15 de abril de 1892, na Holanda, Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom, mais conhecida como Corrie Ten Boom, cresceu em um lar cristão.

Seus pais, Casper Ten Boom e Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom-Luitingh, tiveram 4 filhos. Seu irmão Willem foi um teólogo, sua irmã caçula, Nollie, casou-se, enquanto Corrie e sua irmã mais velha, Elisabeth mais conhecida como Betsie, viveram juntas a missão de abrigar refugiados em seu lar, juntamente com seu pai, durante o Holocausto.

Corrie aprendeu o mesmo ofício de seu pai, o da relojoaria, estudando-o no período de 1920 a 1922 e ao formar-se, tornou-se a primeira mulher relojoeira licenciada em toda a Holanda.

Porém, sua grande e arriscada contribuição foi através do O Refúgio Secreto, nome dado ao seu lar, pelo acolhimento que exerceu à pessoas refugiadas durante o Holocausto. O lar dos Ten Boom foi um local que recebeu diversas pessoas e teve seu “pontapé oficial” em 1942, com a chegada de uma mulher muito bem vestida, portando apenas uma pasta à mão e pedindo asilo, pois ela tinha ouvido falar que eles já haviam abrigado alguns conhecidos judeus.

A família abrigou, socorreu e arriscou a própria vida por diversas pessoas até fevereiro de 1944, quando um informante holandês delatou toda a família as autoridades nazistas que levaram presos. Casper Ten Boom não resistiu e morreu 10 dias depois de sua prisão. Enquanto ela e sua irmã, Betsie, foram encaminhadas para o campo de concentração feminino em Ravensbrück, na Alemanha. Lá é Betsie que veio a falecer e, antes de ir a óbito, disse à Corrie a seguinte frase: “não há abismo tão profundo que o amor de Deus não seja ainda mais profundo”.

Corrie foi solta um dia após o Natal de 1944. Posteriormente, ela soube que sua soltura se deu por um erro burocrático porque uma semana depois de sua libertação todas as meninas de sua idade haviam sido assassinadas.

Com o fim da guerra, ela retornou à Holanda, posteriormente à Alemanha e depois viveu muitos anos ensinado e palestrando itinerante pelo mundo.

Em 1967 Corrie foi honrada pelo Estado de Israel com o Prêmio Justos entre as Nações1. Em 1971 ela escreveu seu mais famoso livro O Refúgio Secreto onde ela narra toda a saga de sua família – em 1975 o livro foi adaptado para o cinema. E também foi homenageada pela rainha da Holanda, em reconhecimento de seu trabalho, ganhando um museu na cidade de Haarleem.

Em 1977 ela mudou-se para Califórnia, nos Estados Unidos da América. E sua saúde, dia a dia, foi se deteriorando até que perdeu por completo sua comunicação e veio a falecer no dia de seu 91° aniversário, em 15 de abril de 1983.

Com Corrie eu aprendi a ter coragem. Coragem para fazer o que é certo, independente das circunstâncias, mesmo que custe a própria vida. Com ela, eu também aprendi que não existe nenhuma situação que não venha a ser de Ação de Graças à Deus. Em todo o momento Ele é bom! Mesmo nas circunstâncias mais adversas e difíceis que enfrentamos. Um exemplo é o que Catherine Marshall narra em seu livro Uma Fé Mais Profunda2, quando descreve uma situação que a própria Corrie contou a ela quando esteve hospedada em sua casa (e também está relatada em seu livro O Refúgio Secreto):

[Ela] continua a ser uma das hóspedes mais agradáveis que já honraram a nossa casa e regala-nos amiúde com anedotas da sua vida na prisão. Uma das minhas favoritas é a história das pulgas…

Em certo período da sua detenção, Corrie e Betsie foram transferidas de celas apinhadas (onde haviam vivido meses a fio separadas uma da outra) para as Barracas n° 28. Em menos de uma hora descobriram que os seus malcheirosos colchões de palha fervilhavam de pulgas.

– Como poderemos viver num lugar como este? – gemeu Corrie mansamente.

Sem responder, Betsie pôs-se incontinente a rezar.

– Mostre-nos, Senhor, mostre-nos como. – E, logo, em tom excitado: – Corrie, Ele nos deu a resposta! Eu a li na Bíblia hoje cedo. Aqui… leia de novo essa parte.

O trecho pertencia a I Tessalonicenses e dizia: “Regozijai-vos sempre, orai sem cessar, em tudo dai graças, porque está é a vontade de Deus em Cristo Jesus…”

– É isso mesmo, Corrie! Devemos agradecer a Ele por todas as coisas que digam respeito às novas barracas.

– Tais como?… – Corrie estava tentando olhar com olhos novos para o recinto escuro e fedido.

– Tais como estarmos aqui.

– Oh, sim.

– E termos conseguido até agora conservar a Bíblia.

– Sim… oh, sim. Obrigada, Senhor, por isso.

– E as pulgas.

– Betsie, não vejo maneira de poder agradecer a Deus pelas pulgas.

– Mas as pulgas fazem parte deste lugar, onde Deus nos colocou. “Em tudo dai graças”, diz a Bíblia. E não apenas nas circunstâncias agradáveis.

E as duas mulheres deram graças a Deus pelas pulgas.

A medida que os dias passavam, as prisioneiras das Barracas n° 28 acabaram descobrindo que havia nelas uma espantosa falta de supervisão ou interferência. Corrie e Betsie aproveitavam a liberdade sem precedentes para conversar com outras prisioneiras, ler-lhes a Bíblia e acudir-lhes de muitíssimas maneiras.

Depois, um dia, ficaram sabendo pela boca de uma supervisora a razão de tanta liberdade. Algumas mulheres a haviam chamado através da porta gradeada para vir decidir uma disputa surgida entre elas. A supervisora recusou-se e o mesmo fizeram os guardas.

– Este lugar está infestado de pulgas, – disse a supervisora. – Eu não passaria pela porta por nada neste mundo.

A mente de Corrie voltou, num relance, à primeira hora que haviam passada das barracas e à sua lamentável ação de graças pelas pulgas. Quando ela ergueu a cabeça, Betsie, com os olhos brilhantes, tentava reprimir o riso.

– Agora sabemos por que se espera que O louvemos até pelas pulgas. Até as pulgas tiveram de ser o Seu instrumento para o nosso bem.

Trecho do livro Uma Fé Mais Profunda, páginas 31 e 32, de Catherine Marshall

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NOTAS:
1Prêmio Justos entre as Nações é um prêmio instituído pelo Memorial do Holocausto como reconhecimento a todos os não judeus que durante a II Guerra Mundial salvaram vidas de judeus perseguidos pelo regime nazista.

2Uma Fé Mais Profunda, de 1974 (título original Something More).

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Desconstruindo o mito #1: Tenho que ser fiel ao sentimento

 

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Foto por Will O

 

Era uma manhã de domingo e a Escola Dominical* tinha acabado de terminar. Minha amiga Priscila e eu, como de costume, começamos a brincar de pega-pega pelos intermináveis corredores da nossa igreja. Inconvenientes que éramos, passávamos entre as rodinhas de conversa das pessoas, esbarrávamos nas senhorinhas que, degrau por degrau, desciam lentamente as escadas, voávamos pelas rampas de acesso às salas. E foi no meio dessa correria doida, que ouvi alguém me chamar:

– Luciana! Luciana! Você pode vir aqui um pouquinho?  – era uma amiga nossa. – Então, sabe o meu primo? O… (ela falou o nome dele)? Ele gosta de você e me pediu para vir te falar isso.

Esbaforida ainda pela corrida, arregalei os olhos de espanto.

Naquele instante, alguma coisa mudou em mim. O corre-corre da brincadeira pelos corredores da igreja cessou imediatamente. E não cessou só por aquele dia. Cessou para sempre. Foi a primeira vez que tomei consciência de que meus atributos femininos chamavam a atenção de alguém. E aquilo se tornou para mim motivo suficiente para abandonar a minha vida de criança e assumir outra postura. Daquele dia em diante, me tornei uma adolescente. Eu tinha 12 anos.

Hoje, olhando para trás, percebo como foi simbólica a forma como me tornei adolescente. Sem ter consciência do que aquilo significava, fui totalmente obediente a uma emoção, que nem minha era a princípio. Por meio do anúncio sobre o sentimento do tal primo, uma carência gritou dentro de mim: eu precisava ser amada. E, para ser amada, abandonar quem eu havia sido até então não parecia ser um preço alto demais.

Não demorou muito para o tal primo começar a namorar alguém. Quem condenaria um coração de menino adolescente, não é mesmo? Hoje gosta, amanhã não gosta mais e a vida segue. Porém, de uma forma sutil como uma cobra se armando para o bote, a mensagem transmitida naquela situação para mim era que, se o sentimento era assim rotativo, logo, as pessoas com quem nos relacionamos também o eram.

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O exemplo do que aconteceu comigo é apenas um entre dezenas que poderíamos caçar para compreender as mensagens que são passadas para nós sem percebermos e que vão nos doutrinando, nos ensinando a como nos posicionar na vida. Aqui, a mensagem foi: seja fiel aos seus sentimentos. E essa não foi uma mensagem transmitida exclusivamente por esse rapaz, obviamente. Mais tarde e por outros meios – como pelo seriado Dawson’s Creek, por exemplo – fui aprendendo que era normal você trocar uma pessoa por outra, sempre que não estivesse mais a fim. Com exceção das pessoas que se casavam, que eu entendia ser um compromisso maior, indissolúvel, você era livre para trocar de relacionamento quantas vezes julgasse necessário.

 

E qual é o problema do discurso “seja fiel aos seus sentimentos”?

Vários:

Primeiro, porque a gente desenvolve um padrão de se relacionar com as pessoas que se baseia nos valores de consumo. Este namorado não serve mais? Troco por outro. Claro que a gente não admite um pensamento assim. A gente tenta, dá voltas, procura não magoar, mas se formos bem honestas, é assim que acabamos agindo com algumas pessoas com quem nos relacionamos. E isso vai frontalmente contra o segundo mais importante mandamento da Bíblia: amar ao próximo como a nós mesmos. Com isso, não digo que devemos nos casar com alguém que não queremos mais, mas considerações como: será que devo mesmo me envolver com essa pessoa? Sinto uma atração enorme por ela, mas não sei se posso confiar em meus sentimentos. Quem sabe se eu conviver com ela um pouco mais sem me envolver, eu consiga sondar melhor o que sinto? podem evitar dores desnecessárias.  

Essas considerações são do tempo da minha avó? São. Mas o que vale aqui é o princípio que elas passam: me importar com o outro e não só comigo mesma. Ah, mas o cara também está a fim. Ele sabe os riscos. Que bom que ele sabe os riscos. Mas isso não muda o fato de que tratar outra pessoa como um objeto não é legal, mesmo que a pessoa consinta. Claro que nem tudo a gente prevê. Tem sentimentos que realmente parecem ser pra valer. Entretanto, a gente logo sabe quando uma relação é descartável, servindo só para encobrir uma carência.

O segundo problema é que você acaba não amadurecendo. Você se acostuma a não se aprofundar em relação nenhuma e aí não consegue ir além com ninguém. Quando me casei, isso se mostrou um grande problema. Como eu não tinha experiência de um longo relacionamento, os problemas que apareceram me deixaram muito confusa, a ponto de eu duvidar da validade daquele vínculo. Demorou para eu perceber que pessoas imperfeitas constroem relacionamentos imperfeitos e tudo bem. É nesse ambiente de cumplicidade, que podemos aprender a tirar as nossas máscaras sem sermos menos amadas por isso.

O terceiro problema diz respeito a Deus, caso você acredite Nele, ou à humanidade inteira, caso você não acredite Nele.

Aquelas que creem em Deus sabem que Ele criou nós todos segundo a Sua imagem. Além disso, cometeu o ato de amor mais arrebatador da História: ofereceu a sua vida para se relacionar conosco. Ou seja, Jesus deixou-se ser assassinado para ter um relacionamento com você e também com a pessoa com quem você se relaciona, mesmo que essa pessoa rejeite essa oferta. Isso mostra que essa pessoa tem tanto valor quanto você, logo, você não tem o direito de tratá-la como uma qualquer, mesmo que ela aja como uma qualquer. Ela não é – fato. Deus atribuiu a nós um valor infinito, ao escolher se entregar para morrer em nosso lugar. Nosso valor está nesse ato e todos nós somos Dele. Por esse viés, você sair se relacionando por aí como se não houvesse amanhã, sem se importar quem são essas pessoas, é tratá-las por muito menos do que elas valem. E claro, ninguém na rua vai ficar jogando isso na sua cara. A treta é entre você e Deus mesmo.

Àquelas que não veem a questão como risco de pecado, porque não acreditam em pecado, um recado de Jean-Paul Sartre:

 

[…] o homem é responsável por aquilo que ele é. […] E, quando nós dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é responsável por sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. […] Quando afirmamos que o homem escolhe a si mesmo, entendemos que cada um de nós escolhe todos os homens. De fato, não há um só de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem tal como estimamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor daquilo que nós escolhemos, pois não podemos nunca escolher o mal; aquilo que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem sê-lo para todos (trecho de O Existencialismo é um Humanismo).

 

O que Sartre quer dizer com isso? Que, segundo a visão existencialista ateísta, se eu assumo a postura de obedecer aos meus sentimentos românticos, eu estou então transmitindo a mensagem de que todos os seres humanos da face da terra devem obedecer aos seus sentimentos românticos também, porque se isso é bom para mim, é bom para todos os demais seres humanos. Agora, se pensarmos nessa realidade realmente acontecendo por aí, o que vem à sua mente? À minha, vem o caos: pessoas ainda mais perdidas, feridas e fechadas em si mesmas, sem o menor senso de valor próprio.

 

 Quer dizer que eu tenho que ficar suportando um relacionamento ruim?

Depende do que queremos dizer com relacionamento ruim. É um relacionamento imaturo (o sentimento acabou) ou tóxico (a pessoa é abusiva)? Porque o que estamos falando aqui é de relações fluidas, que são trocadas por puro sentimento, não por razões mais profundas, como abuso físico ou psicológico.

Se você se vê numa relação em que você mesma não enxerga valor nela, certamente é hora de se perguntar o que te fez entrar nessa relação em primeiro lugar. Aliás, tudo é uma questão de nos perguntarmos, de questionarmos, de investigarmos nossas motivações. Porque o discurso está aí – tenho que ser fiel ao sentimento – e não há como fugir dele, a não ser implodindo seu poder de ação em nós.

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Romântica como sou, de tempos em tempos, enfrento a aridez para onde esse discurso de ser fiel aos sentimentos me transporta. É uma luta que começa na forma de uma ansiedade muito grande, que precisa ser obedecida com urgência. Se obedeço, como já aconteceu no passado, os resultados são sempre – sempre – dolorosos. Existe culpa, arrependimento, ressentimento, desilusão.  Se não obedeço, ela passa, mesmo que demore meses ou anos (dureza!). Às vezes vem como ondas, oscilam em intensidade, por isso esperar é fundamental. Esperar. Não só esperar no sentido de aguardar, mas aguardar em esperança.

Gosto do filme Closer – Perto demais. O elenco é incrível e o enredo bastante realista, pois transmite um quadro exato do que acontece quando obedecemos aos nossos sentimentos – no filme, mais colocado como desejo. Depois de viver um monte de experiências amorosas (que, no filme, acontecem entre pessoas lindas aliás, rs), você termina da mesma maneira como começou: vazio.

 


Nota:

*Escola Dominical – para que não está familiarizado com o termo, é assim que chamamos a escola de estudo da Bíblia, que acontece na igreja evangélica para todas as idades, geralmente, nas manhãs de domingo – por isso o “dominical”.

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui e aqui os primeiros textos da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Desconstruindo o romantismo: a origem do amor romântico

 

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Ofélia (1851-2), pintura de John Everett Millais

 

Escrever este texto é como estar em trabalho de parto: leva tempo e dói. Faço uma busca de artigos que existem sobre o tema e o que leio neles é como o resultado de um exame que entregam nas nossas mãos: positivovocê é realmente uma romântica. Mais difícil do que aceitar o diagnóstico, porém, é a pergunta que não descola da mente: mas como isso foi acontecer? Onde foi que eu perdi as rédeas do meu próprio coração?

Para tentar responder essas perguntas, fui em busca das origens do discurso do amor romântico e como ele foi incutido na cultura ocidental, de modo a nos laçar pelas entranhas identitárias. Em um dos sites pesquisados, encontrei eco para a minha angústia:

O condicionamento cultural é muito forte. Chegamos à idade adulta sem saber se nossos desejos são nossos ou se aprendemos a desejá-los.
(Regina Navarro Lins, escritora e psicanalista, neste artigo)

 

O nascimento do amor romântico

Um homem é apaixonado por certa mulher, que também é apaixonada por ele. O problema é que essa mulher vive num contexto em que o casamento é arranjado e ela é obrigada a se casar com outra pessoa. Com a impossibilidade de concretizar sua paixão, que é o que move sua existência, o homem apaixonado se suicida.

Não, esse resumo tosco que fiz aí em cima não é o enredo da próxima novela da Globo. Na verdade, vem de uma obra literária pioneira – Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Goethe – no início de um movimento chamado Romantismo. Nesse movimento, que aconteceu a partir de meados do século 18 em diante, artistas visuais, escritores e músicos passaram a produzir obras saturadas de narrativas com teor romântico e erótico. Quem não se lembra de Quasímodo, o corcunda que se apaixona pela cigana Esmeralda, no livro Nossa Senhora de Paris, do francês Victor Hugo? Romantismo outra vez. Emma Bovary, burguesa que encontra nos casos extraconjugais o escape para sua frustração no casamento, também foi imaginada nessa mesma época, pelo francês Gustave Flaubert. Ao ser lançada, Madame Bovary virou febre na França.

Entretanto, engana-se quem acha que o amor romântico nasceu no Romantismo. Se assim fosse, como explicaríamos as redes de intrigas, em que os deuses do Olimpo se metiam, apenas para concretizar suas paixões com os mortais na rica mitologia grega?

Há quem diga também que até na Bíblia o amor romântico não existia, principalmente no casamento.  Esse argumento não encontra base, quando olhamos para a história de Jacó com Raquel (Gênesis 29) e de Elcana com Ana (1 Samuel 1), entre outras situações de romance.

Deus abençoou o matrimônio, entendido menos como um meio de procriação do que como uma associação afetuosa e estável do homem e da mulher.
(Comentário introdutório da Bíblia de Jerusalém ao livro Cântico dos Cânticos)

Dando uns bons saltos no tempo, alguns séculos antes do Romantismo, outros artistas fizeram do amor romântico o tema de suas obras. Luís Vaz de Camões, um dos principais poetas portugueses, nascido no século 16 (portanto, 200 anos antes do movimento oficialmente conhecido como romântico), foi o autor dos famosos versos:

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É um andar solitário entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É um cuidar que ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata, lealdade

Mas como causar pode em seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

E a gente achando que tinha sido o Renato Russo o autor dessa letra arrebatadora, né? Nada.

Shakespeare é outro, que viveu na mesma época de Camões, e escreveu nada menos do que as trágicas histórias de amor de Romeu e Julieta e de Desdêmona e seu ciumento marido Otelo.


Qual seria então o grande problema do Romantismo?

O grande problema do Romantismo não foi abordar o amor romântico que, como vimos brevemente, sempre existiu, mas sim difundi-lo como sendo o sentido último da existência. Foi a partir dos artistas românticos, exatamente na transição de uma visão teocêntrica da existência para uma visão antropocêntrica – o homem no centro –, que um novo deus foi coroado: o sentimento romântico. A paixão no relacionamento amoroso passou a ser a resposta para todas as angústias humanas.

O antropólogo norte-americano Ernest Becker (1924 – 1974), em sua obra A negação da morte, nos dá um quadro bem preciso do que estou dizendo:

Se ele [o homem] não mais tinha Deus, como ele faria? Uma das saídas que lhe ocorreram foi a “solução romântica”: ele depositou seu desejo por heroísmo cósmico sobre outra pessoa, na forma de objeto de amor. […] O parceiro romântico se torna um ideal divino, por meio de quem uma pessoa encontra completude. Todas as carências morais e espirituais agora passam a estar focadas em um indivíduo. A espiritualidade, que uma vez havia sido associada com outra dimensão das coisas, é agora trazida para a dimensão terrena e toma forma em um ser humano. A salvação não é mais associada a uma abstração, como Deus, mas é encontrada na “beatificação do outro” (tradução minha, feita a partir daqui).

Ainda seguindo o pensamento de Becker:

Quando procuramos o objeto humano “perfeito”, estamos procurando por alguém que nos permita expressar nossa vontade por completo, sem nenhuma frustração. Queremos um objeto que reflita a imagem ideal de nós mesmos. Mas nenhum objeto humano consegue fazer isso; humanos possuem suas próprias vontades e vacilações; eles podem ir contra nós de milhares de formas diferentes, e seus próprios desejos nos ofendem. […] Por mais que idealizemos e idolatremos alguém, ele inevitavelmente reflete a decadência e a imperfeição terrenas. E como ele é a nossa medida de valor, essa imperfeição recai sobre nós. Se seu parceiro é seu “tudo”, então qualquer limitação que vier dele se tornará uma grande ameaça para você (tradução minha, feita a partir daqui).

 

Que tapa na cara me deu esse Becker! Um tapa tão bem dado, que tem servido para me despertar do meu grande sonho romântico.

Ao ler esse texto dele, não pude evitar de pensar numa música que gosto bastante, cuja letra é um exemplo perfeito dessa visão divinizada do outro. Encerro o meu texto deixando com vocês essa música, para refletirem sobre ela e para se sentirem incomodadas mesmo. Afinal, é tocando o chão das nossas angústias, que nos sentiremos compelidas a encontrar a mola propulsora que nos trará de volta à superfície.

Semana que vem começaremos a demolição de tudo isso. Até!


Without You I’m Nothing
Placebo & David Bowie

Strange infatuation seems to grace the evening tide
Estranho fascínio que parece agraciar a maré noturna
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Such imagination seems to help the feeling slide
Tal imaginação parece ajudar o sentimento a deslizar
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Instant correlation sucks and breeds a pack of lies
Correlação instantânea é uma droga e gera uma pilha de mentiras
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Oversaturation curls the skin and tans the hide
Supersaturação enruga a pele e tinge o couro
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado

Tick tock
Tick tock
Tick tock
Tick tick
Tick
Tick
Tick tock

I’m unclean, a libertine
Eu sou sujo, um libertino
And every time you vent your spleen
E toda vez que você tem um acesso de raiva
I seem to lose the power of speech
Eu pareço perder o poder da palavra
You’re slipping slowly from my reach
Você está aos poucos deslizando do meu alcance
You grow me like an evergreen
Você me cultiva como uma planta perene
Y
ou’ve never seen the lonely me at all
Você nunca viu o meu lado solitário

I…
Eu…
Take the plan, spin it sideways
Pego o plano e o giro de lado

I…
Eu…
Fall
Caio

Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing at all
Sem você eu não sou absolutamente nada


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui o primeiro texto da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Desconstruindo o romantismo: a proposta

 

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Foto de Rakicevic Nenad

 

Há alguns anos, descobri em mim uma romântica crônica (esse assunto, aliás, já se desdobrou em alguns textos no blog, que você pode ler aqui, aqui e aqui). Ao descobrir e me definir como uma romântica nível hard, percebi também que ser romântica era menos romântico e fofinho do que parecia. Não era apenas uma questão de ficar ouvindo músicas melosas dos anos 80 o dia inteiro ou assistir Mensagem pra você uma vez a cada seis meses, mas era uma característica que influenciava diretamente as minhas decisões e a minha rotina diária. Ao me entregar aos devaneios românticos, eu me atrasava para atender as solicitações do meu filho pequeno, deixava o leite ferver até derramar e não ouvia o que meu marido estava tentando me contar. Ou seja, eu não estava presente na minha vida real.

 

Como acontece um devaneio romântico?

Não é muito diferente da sensação de se estar apaixonado. Você passa o dia inteiro pensando em alguém que você acha que também pensa em você, mesmo que isso não seja verdade e que você nem tenha muito contato com a outra pessoa. Para um romântico, enquanto houver indícios – mesmo que forjados, mas que na cabeça dele são totalmente reais –, de que ele é correspondido, ele não desiste de pensar nessa pessoa. E você pode ter certeza: o romântico vai ver coisa onde não existe (e onde existe também). Partir para a concretização de seus devaneios é o maior desejo de um romântico, ao mesmo tempo que essa concretização pode representar o fim do principal alimento de seu vício: a idealização.

A partir do momento em que a paixão é vivenciada no plano da realidade, ela não dá conta de cobrir as frustrações e as decepções naturais de um relacionamento entre duas pessoas imperfeitas. Para fugir dessa constatação, que é muito dura para o romântico, ele tende a escapar por meio de novos devaneios. E, assim, o ciclo idealização-concretização-frustração recomeça. Nem sempre, porém, há a fase da concretização. Quando ela não acontece, o romântico pode passar anos a fio idealizando uma mesma pessoa.

Eu poderia contar aqui algumas histórias que já desencadearam pensamentos românticos em mim, entretanto, para uma viciada ou viciado em idealizações, a pessoa que idealizamos não é a questão mais séria. O que o romântico gosta mesmo é de estar apaixonado, da sensação de novidade e de fuga que a paixão proporciona, por isso, é comum alguns românticos experimentarem certa rotatividade nas pessoas as quais ele idealiza. Só que o romântico, quando imerso em uma “crise romântica”, não tem uma consciência clara disso. Ele acredita piamente em seus sentimentos pela pessoa da vez e, a partir daí, deixa-se envolver em um regime de escravidão emocional: passa a escutar sempre as mesmas músicas, com letras que estimulam o romance; fecha-se em seu mundo e não quer contato com outras pessoas que possam tirá-lo de seus pensamentos; entra nas redes sociais onde possa encontrar a pessoa por quem está encantado e seguir tudo o que ela faz e daí por diante.

 

 Mas e aí, o romantismo exagerado tem cura?

Essa pergunta tem me perseguido pelos últimos anos. Eu acredito firmemente que sim, senão eu não estaria buscando essa cura com tanto afinco por tanto tempo.

O primeiro passo para encontrá-la, segundo o que tenho vivido, é admitir que ser romântico tem um limite. Uma coisa é você expressar seus sentimentos a alguém que te interessa ou com quem você se relaciona com atenção, afeto e presentes. Outra coisa é você buscar isso desenfreadamente, não importa se você já tenha um compromisso com outra pessoa ou não. E isso se mostra naturalmente, porque com os anos, você percebe um padrão no seu próprio comportamento. Quando eu era solteira, por exemplo, o que geralmente me alertava para o romantismo doentio era o fato de eu não conseguir namorar alguém por muito tempo, porque o “amor” simplesmente acabava (geralmente, o namoro durava alguns meses só). Aí eu rompia aquele relacionamento e procurava por outro que me preenchesse com mais romance. Se eu já estivesse envolvida com alguém, o que me fazia me apaixonar por outra pessoa (pois é, você leu certo: duas pessoas ao mesmo tempo – uma real e a outra, ideal) era reconhecer características nela que eu admirava e desconfiar que a pessoa me admirava de volta. Pronto! Só isso já rendia muito pano para manga nas histórias tecidas em meus pensamentos.

O segundo passo que dei, visando a cura, foi a psicoterapia. Algumas psicoterapeutas me ajudaram mais, enquanto outras me ajudaram nada ou bem pouco. A primeira delas, que me diagnosticou como romântica exagerada, fez isso com um largo sorriso no rosto e me tratou como se eu fosse uma adolescente ingênua, que só precisava amadurecer (e olha que nem adolescente eu era mais!). De fato, amadurecer é uma palavra-chave no processo de cura, mas enquanto o amadurecimento não se completa, como a gente vive? Não se pode, de forma nenhuma, subestimar o potencial destrutivo de um romantismo doentio – mesmo que quem o esteja vivendo seja “apenas” uma adolescente. Já com outra psicoterapeuta, me senti muito amparada. Aos poucos, ela me levou a acreditar que eu era muito mais capaz de buscar a cura do que pensava ser.

Finalmente, recorri também a Deus. A princípio, minhas orações consistiam num eterno pedido de perdão. Humilhar-se diante de Deus e reconhecer-se incapaz de mudar uma situação contando apenas consigo mesma é uma ampla porta que se abre diante de nós. O que eu não sabia, porém, é que essa porta me levaria a inúmeras outras, que precisariam ser abertas uma por uma, em seu devido tempo.

 

Anos depois…

Hoje, além da leitura da Bíblia e da oração, a minha busca pelo Deus da cura tem sido ampliada em várias frentes, por meio das pregações que ouço, dos vídeos que assisto e dos textos que leio. Há algum tempo, adquiri um livro que tem me ajudado de uma forma inédita. O nome dele é Você é aquilo que ama, de James K. A. Smith, editora Vida Nova. Nem preciso dizer que eu o escolhi por causa do título, né? Comprei-o na sede por uma resposta para a minha grande questão na vida.

 

voce-e-aquilo-que-ama

 

Para a minha felicidade, esse livro tem sido um meio de Deus falar muito comigo. O autor aborda uma visão que eu sempre desconfiei de leve, mas a qual nunca tinha encarado a fundo: a cultura em que estamos inseridos é determinante na definição de nossas paixões. O que ele quer dizer com isso? Que o mundo que nos cerca – aproveitando-se de nosso vazio decorrente da Queda (claro que eles não se apoiam nessa explicação) – define para nós, sem percebermos, quais serão as nossas carências e os nossos desejos.

Para ilustrar sua teoria, o autor do livro usa o exemplo de um shopping center e estuda toda a mensagem implícita nele e como ela forma uma pessoa para uma mentalidade consumista, em que o ter é a chave para ser feliz. Ainda assim, o princípio que o livro traz pode ser aplicado a qualquer valor arraigado na gente e que represente mais um câncer na nossa vida do que uma coisa boa.

O que o livro propõe é uma forma radical de mudança, que consiste basicamente no seguinte: se a cultura – por meio de todo o imaginário social, traduzido em filmes, músicas, propagandas, novelas, jornais, internet e onde mais couber discurso – foi quem formou as suas paixões, desejos e carências, logo, é preciso EXPLODI-LA em você, para que no lugar você construa um discurso radicalmente diferente, que leve você a amar o que te proporciona vida e não o que te priva dela. Uma proposta maluca e incrível.

 

Desconstruindo o romantismo – a série

Como eu sempre tive uma queda pelo subversivo e pela contracultura, já me voluntariei na hora para colocar em prática a proposta do livro Você é aquilo que ama: desconstruir o discurso que me leva a acreditar na idealização romântica como um modo autêntico de ser no mundo. A ideia é encontrar todas as falhas desse discurso, a ponto de reduzi-lo a pó. Só assim estarei pronta para um processo de reconstrução, em que a minha identidade genuína seja (re)descoberta.

Foi a partir desse desafio que veio a ideia de fazer a série Desconstruindo o romantismo aqui no blog: listei alguns pontos que a cultura impregna na nossa mente desde a infância sobre relacionamentos românticos e, ao longo dos textos da série, vamos desconstruindo cada ponto desse discurso.

No final de todos esses textos, percorreremos o caminho contrário: a construção de um novo hábito, um novo jeito de ser no mundo, que substitua o velho e escravizante discurso incutido pela cultura, por meio de um discurso mais antigo e digno de muito mais confiança.

A proposta é ousada, eu sei, mas mesmo que toda a transformação não se complete dentro dos âmbitos limitados das postagens (e não irá se completar mesmo, porque estamos falando de todo um redirecionamento daquilo que nos move na vida), o mínimo que pode acontecer nessa iniciativa é descobrirmos que, dentro da porta da desconstrução e reconstrução, há ainda outras portas, para as quais Deus nos encaminhará no tempo certo, a fim de encontrarmos a cura que tanto temos buscado. Só por esse motivo, a série já terá cumprido o seu objetivo.

Os textos serão postados uma vez por semana.

Vamos juntas?

 

Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.

Filipenses 1.6

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Henriqueta Rosa Fernandes Braga – Mar/2018

Formada em piano, composição e regência pelo Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, Henriqueta obteve os títulos de professora, maestrina e doutora em música, tendo sido a primeira pessoa a receber um diploma universitário de Música conferido no Brasil. 1

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Nascida em 12 de março de 1909, na cidade do Rio de Janeiro, Henriqueta Rosa de Fernandes Braga é uma daquelas mulheres que eu gostaria de ter conhecido pessoalmente. Como será que suas ideias floresciam? Como conseguia dar conta de tanta criatividade que pulsava dentro de si? Obviamente a música foi a maneira como Deus concedeu a ela vasão para essa criatividade contagiante, mas fico pensando que além de seu legado musical sua vida deve ter sido repleta de nuances e, usando de licença poética, fico imaginando como sua vida deve ter sido usada por Deus de maneira ímpar nas sutilezas da existência, nas conversas de corredor, nas orações partilhadas ou na mesa compartilhada.

Sua família era extremamente ativa na Igreja Evangélica Fluminense – igreja que foi fundada pelo médico missionário Robert Reid Kalley e sua esposa musicista missionária Sarah Poulton Kalley sendo a primeira congregação protestante no Brasil a cultuar os cultos em português.

A música no lar exerceu uma grande influência em sua vida. Era muito comum sentar, com os seus irmãos, ao redor do piano para ouvir a mãe tocar as Sonatas de Mozart, ou mesmo escutar as gravações (inclusive de música sacra) que constituíam, desde cedo, a organizada e escolhida discoteca da família. Seus pais, cultos e estudiosos, acompanhavam sempre, com desvelo, os seus estudos, capacitando-os para uma melhor técnica de aprendizagem e desenvolvimento. À noite, em seu lar, podia-se ver, curvados sobre os livros, pai, mãe e filhos, num admirável exemplo de diligência intelectual. Talvez, mais importante que tudo, fosse o culto doméstico que coroava o dia de trabalho e no qual eram apresentados ao Pai Celeste os agradecimentos pelos benefícios recebidos, e expostas as dificuldades, implorando a sua constante direção para a vida de cada um. E, em paz e tranquilidade, despedia-se a família para o repouso noturno. 2Henriqueta ficou conhecida por seu pioneirismo. Foi precursora na participação musical de programas de rádios evangélicos, na gravação de hinos sacros, na pesquisa da música sacra no Brasil, dentre tantas outras atividades.

Aposentou-se em 1979, mas continuou ativa fazendo palestras e pesquisas sobre música. Faleceu em 21 de junho de 1983, aos 74 anos e deixou 4 obras por acabar: Corais de J. S. Bach, Cancioneiro folclórico infantil brasileiro, História da música e Manual para Salmos e Hinos.

Hoje, comemoramos o Dia Internacional da Mulher e poder escrever sobre mulheres tão inspiradoras me traz renovo, ânimo mas sobretudo alegria. Como houveram mulheres fantásticas! Muitas sequer foram mencionadas nos livros de história.

Porém, reconhecer que há mulheres contemporâneas a mim e a você igualmente inspiradoras é tão fantástico quanto! Que dedicam a vida ao outro – escolhendo a melhor parte. Que se inclinam a Deus com reverência e certas que serão ouvidas e atendidas, não por serem quem são, mas por crerem em um Deus misericordioso e amoroso. Mulheres que levantam de madrugada para trabalhar e que atravessam a cidade para cuidar de um lar que não é o seu, mas o tratam como assim o fossem. Mulheres que são amigas, confidentes leais e que cedem seu ombro para que choremos nossas dores. Mulheres que são mães de primeira viagem e que aprendem as dores e as alegrias que a maternidade traz. Mulheres que são excelentes profissionais e ofertam o melhor de si em prol de um mundo melhor. Mulheres que transitam em nossas vidas com fluidez e leveza e que nos ensinam a enxergar o melhor de nós e a extrair o melhor do outro.

Mulheres mães. Mulheres filhas. Mulheres esposas. Mulheres irmãs. Mulheres amigas. Mulheres sobrinhas. Mulheres cunhadas. Mulheres tias. Mulheres primas. Mulheres… A todas vocês o nosso:

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

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NOTAS:
1Trecho retirado do livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino de Rute Salviano Almeida, página 435

2Trecho retirado do site Hinologia e que se encontra neste link: http://www.hinologia.org/henriqueta-rosa-fernandes-braga/

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.