Mais paciência, por favor

46m

Constantemente, preciso cuidar para que a ansiedade não se instale em meu coração.
Não é fácil: às vezes o processo é um pouco cansativo, e às vezes um pouco dolorido também, mas tal cuidado é necessário.

Vivemos em uma sociedade do tempo real, da conectividade, da facilidade, da praticidade, da globalização. E é claro que essa facilidade toda pode ser boa e, de fato, ela é, na maioria das vezes. Afinal, quem não gosta de se comunicar sem precisar pagar por uma ligação? Ou conseguir comprar um livro sem precisar sair de casa? Mas, em excesso, essa conectividade pode nos levar a comparações desnecessárias e anseios que não devem ser cultivados ou sequer experimentados.

Diariamente, somos bombardeadas pela mídia com instruções como: 10 coisas que você precisa fazer, 7 itens que você precisa ter ou 9 dicas de como você deve ser. E como se não bastasse, a sua timeline também está recheada de pessoas “reais” felizes, realizadas e sem problemas. E então, o que geralmente fazemos? Nós juntamos todos esses ingredientes e acrescentamos a nossa capacidade feminina de fantasiar, acumular emoções e criar enredos ilusórios, e aí sim toda a mistura fica pronta: e tomamos para nós todas essas instruções como “verdades” e esses padrões como referências para as nossas vidas.

Refletindo sobre isso, percebo que o mundo como um todo também clama por mais calma, mais paciência, e também por mais alma. A linda e sempre pedida canção Paciência do Lenine, traduz um pouco desse sentimento que por vezes experimentamos: (…) E o mundo vai girando cada vez mais veloz/ A gente espera do mundo e o mundo espera de nós/ Um pouco mais de paciência/ Será que é tempo que lhe falta pra perceber?/ Será que temos esse tempo pra perder?/ E quem quer saber?/ A vida é tão rara/ Tão rara/ Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/ Até quando o corpo pede um pouco mais de alma/ Eu sei, a vida não para (…).

Escutando esse clamor e também me questionando e aprendendo a silenciar as várias vozes que teimam em me alienar, percebo que sim: eu tenho a solução para ser preenchida com mais alma. Para ter essa paciência que não provém de mim, mas que pode estar em mim. Então, eu compreendo que preciso fazer algumas coisas para ter essa quietude emocional, para ser preenchida e direcionada.

Buscar a Deus em primeiro lugar

Buscar a Deus em primeiro lugar é dispor de tempo para me relacionar com Ele.

Não conseguimos criar vínculos sem gastar tempo em relacionamentos, e com Deus não é  diferente. Como poderei criar intimidade com meu Criador, se não dedico parte do meu tempo para conhecê-lo, para entender o que Ele tem a me dizer e ouvir a Sua voz? Então, devo priorizar em minha agenda esse tempo de qualidade com Deus.

Buscar a Deus em primeiro lugar também é amá-lo, e amá-lo de verdade! Com todo o meu coração, com toda a minha alma, com todo o meu entendimento e força1.  Pois, amando-o, eu estarei aberta a entender Suas vontades e desejos.

Assim, buscar a Deus em primeiro lugar também é desejar que Sua vontade se sobreponha à minha vontade, mesmo que isso doa e aparente ser impossível. Mas conforme eu vou criando intimidade com Deus e o amando profundamente, consigo compreender que Seus caminhos são melhores do que o meus, porque são perfeitos. Simples assim! Se Ele me criou e sabe realmente quem sou, é Ele quem tem os melhores planos para mim.

Deus me conhece melhor do que eu mesma

Sim! Essa é a mais pura verdade. Antes de ter sido formada e gerada, Deus sabia da minha existência. Aliás, de forma maravilhosa e misteriosa, Ele acompanhou toda a minha formação, me viu crescer e me acompanha até hoje2.

E por me conhecer tão bem, tão melhor do que eu mesma, é Ele quem sabe o que é melhor para mim. Ele tem planos para mim, planos que sequer posso imaginar, tamanha a minha pequenez e limitação. Porém, se eu pedir orientação e buscar a Sua voz, Ele me apresentará e me deixará conhecer aquilo que Ele deseja que eu faça3.

Ser grata por tudo o que eu tenho (às vezes ser grata por aquilo que eu não tenho também)

Ser grata não é ser feliz o tempo todo. Aliás, essa felicidade de comercial de margarina não existe – isso foi inventado para vender margarinas, e é tudo culpa do marketing! rs

Mas ser agradecida é entender que o que você tem é precioso. E isso não quer dizer que, por vezes, você não se sentirá triste, desiludida ou querendo algo que não tenha. Mas se eu amo a Deus, sei que Ele me conhece melhor do que eu mesma, sei que Ele me ouve4, então, não consigo não ser agradecida pelas coisas que tenho e por Sua presença em minha vida.

Descansar e esperar em Deus

Se eu costumo perder noites de sono pensando em minhas angústias e problemas, o que provavelmente irá acontecer comigo, além de ficar com muito sono no dia seguinte?

Me atrevo a “adivinhar” que o que vai acontecer comigo é que eu ficarei mais ansiosa ainda. Porque com o corpo e mente cansados, eu não resolverei meus anseios e muito menos conseguirei escutar o que Deus tem para me dizer e me ensinar.

Acredito que o fato de descansar nEle é um ato tão amoroso da parte de Deus, algo como: “- Você pode aumentar alguma hora de sua vida se preocupando? Não! Então por que você está se preocupando assim? Por que está perdendo sua noite de sono? Por que está deixando seu corpo padecer com todas essas neuras?5 Deixa, porque sou Eu quem devo me preocupar com isso, sou Eu quem sabe o que é melhor para você! E quanto a você, contente-se em me amar, me buscar e esperar em mim, porque no momento certo Eu a irei  instruir e a ajudarei a fazer aquilo que você tem que fazer6.”

Ok, concordo, não é tão fácil assim. Mas a cada passo dado e caminho trilhado, vamos percebendo que descansar em Deus é a coisa mais sábia a se fazer, é o verdadeiro antídoto anti-stress.

 

Notas – passagens bíblicas:

1Marcos 12:29
2Salmos 139:13–16
3Jeremias 29:11–14
4Filipenses 4:4–8
5Lucas 12:25–29
6Salmos 32:8


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a desobrigação da mulher na cozinha

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Eu sou mulher, eu sou feminina, mas eu não sei cozinhar.

Não sei cozinhar um ovo (ele sempre estoura), não sei fazer arroz (ou queima ou vira papa), não sei temperar salada (exagero ou abrando os temperos). Isso pra falar das coisas simples. Das complexas, amigos, eu passo longe.

Quando eu era solteira, minha mãe sempre cozinhou pra todos e não tinha 10 segundos de paciência pra ensinar alguém cozinhar. Não morei sozinha antes de me casar, nunca faltou comida feita na casa dos meus pais, em qualquer lugar que eu fosse e precisasse levar um prato, eu comprava pronto ou pedia à minha mãe que fizesse. Ou seja, eu não fui apresentada à arte culinária. E a detesto.

Por um período, isso foi uma inquietação pra mim, porque quando estava a todo vapor nos preparativos do meu casamento, ganhei livros de receitas, paninhos, toalhinhas, bate mão (que raios é isso??, me perguntava! Descobri que era aquele pano pendurado na cozinha pra enxugar as mãos após lavá-las), aventaizinhos e uma infinidade de coisas fofas pra cozinha.

Casei com um homem que cresceu numa família machista, como eu. Ele também não sabia cozinhar nada e não foi apresentado à arte culinária. Mas gostava dela.

A primeira refeição em casa, casados, preparamos juntos. Arroz, filé de frango, cenoura, couve refogada e salada de alface (sim, eu me lembro!). Ficou delicioso, mas poderíamos ter colocado menos água no arroz, grelhado mais o frango, cozinhado mais a cenoura, colocado menos sal na couve e menos tempero na salada.

Sabem aquelas lasanhas prontas, congeladas? Comida rápida? A gente esquentava no forno do fogão! Oi microondas, pra que você existe?! 40 minutos depois estava pronta nossa comida rápida congelada. Era uma aventura. O David procurava receitas na internet, eu jogava quilos de arroz queimado no lixo. Eu já queimei macarrão instantâneo, porque esqueci que estava no fogo e fui cuidar de outras coisas em casa…

Sou menos mulher por isso? Não, não sou. Escutei centenas de bobagens por não saber cozinhar, sendo a mulher, a dona de casa, a futura mãe, a ajudadora do lar? Sim, escutei.

E escutei mais ainda quando assumimos que o cozinheiro da casa era o homem, não a mulher.

O David gosta de cozinhar. Tem paciência, tem vontade. Inventa receitas, faz as compras do supermercado, sabe escolher frutas, faz bolo, pão, torta, lasanha, tudo. Ele é menos homem por isso? Não, não é. Aliás, e se ele morasse sozinho? Se não fosse casado? Teria que ter empregada, ou mãe ou qualquer outra mulher fazendo sua comida? Teria que fazer as refeições fora de casa, ou viver de congelados?

E aí, eu questiono: em pleno 2015, ainda tem gente que acha que lugar da mulher é na cozinha? Ainda tem gente que olha estranho quando uma mulher diz que não sabe ou não gosta de cozinhar? Ainda tem gente que acha que o marido está fazendo um favor pra esposa ao fazer a comida? Ainda tem gente que acha a esposa folgada por ser o homem o responsável pela cozinha? E tudo isso, por quê? Qual o sentido?

Nossa geração está sendo marcada pelas mudanças de comportamentos antes estereotipados. Mas às vezes eu ainda vejo certa hipocrisia ou, pelo menos, umas pontas soltas em alguns assuntos.

Então, está ok a mulher ser independente, ter carreira, trabalhar 10 horas por dia? Sim, desde que o jantar esteja pronto na hora da fome. Oi?!

Acreditem se quiser, mas eu já escutei homem falando bem parecido. E já escutei mulheres reclamando bravamente que, mesmo depois de trabalharem o dia inteiro, ainda tinham a segunda jornada pra enfrentar, no fogão (como um dever absoluto). E já escutei mulheres muito, muito cansadas, depois de um dia exaustivo, dizendo que “fazer o quê, ser mulher é assim mesmo, tem que fazer tudo”.

Não quero julgar a ação, mas quero alertar que esse padrão de pensamento pode ser muito prejudicial. Compreender a contemporaneidade é preciso e importante.

Sabemos que segundo a teoria da evolução (falando muito superficialmente), o homem caçava (trabalhava) e protegia o lar, enquanto a mulher cuidava da prole e preparava os alimentos. Na Bíblia, muitos textos falam sobre o mesmo comportamento, da mulher que era responsável pelos afazeres domésticos e do homem que sustentava a casa.

Em ambos os casos temos uma coisa em comum: a cultura das duas épocas ditava esse comportamento. Atualmente, nossa cultura sofreu alterações que precisam ser acompanhadas com um novo olhar. Mulher na cozinha é valor imutável? É princípio absoluto?

De novo, eu não vou julgar ação, mas quero refletir sobre comportamento humano, que é algo que está em constante mudança, que pode ser diferente sempre. E dentro disso, pensar nos dogmas que são criados e tão difíceis de quebrar, que geram angústias e inquietações completamente desnecessárias. Como as minhas, que me fizeram, por certo tempo, me achar a péssima esposa que não era capaz de fazer um jantar elaborado “para o” marido.  O comportamento (cozinhar) se sobrepunha à ação (o jantar) e me fazia sentir mal.

Gosto de comemorar datas especiais com refeições gostosas. Mas não saber e não gostar de cozinhar uma lasanha “para o” meu marido no nosso aniversário de casamento me deixava triste, a ponto de não considerar a data em si. E a resolução do problema era simples: encomendar uma lasanha pronta. E a alternativa, igualmente simples: ele mesmo, o marido, preparar a lasanha.

Ou seja, não estou dizendo que é errado cozinhar para alguém, para o marido ou que a mulher que gosta de cozinhar deveria deixar de cozinhar. Pode ser demonstração de afeto, de respeito, de admiração, de amor. Mas só é tudo isso se não for estressante, se não gerar sofrimento, se não for um pesar, uma mera formalidade cristalizada em nosso pensamento: um dos papéis da mulher é cozinhar para a família e ponto. E que papéis são esses, afinal? E quem é que diz qual é o papel de uma determinada mulher em uma determinada família? Somos todas iguais?

A desobrigação na cozinha me fez uma esposa muito melhor. E o fato de eu estar desobrigada não obrigou meu marido também. Afinal, ele gosta de cozinhar e se sente bem com essa tarefa. Se nós dois não gostássemos de cozinhar, encontraríamos, ainda, outra saída. E a desobrigação me tornou menos preocupada, pois a tensão em cozinhar pratos mirabolantes e perfeitos, “como uma boa esposa o faz”, foi embora. E o pré-conceito de ver estranheza em estar sentada mexendo nas redes sociais, enquanto o marido está com a barriga no fogão, também foi.

O que quero dizer com isso tudo é que cozinhar não é tarefa da esposa ou do marido. Um casal, uma família, é um time, joga junto. É um encaixe, é uma harmonia. É preciso respeitar as características de cada um e encontrar maneiras de construir um lar saudável, de bom ânimo, confortável para todos.

Mulher não “tem que” ter jornada dupla por ter carreira e cuidar da casa. Nem tripla, por ter carreira, cuidar da casa e dos filhos. Mulher faz parte da família, o time que joga junto, um membro que co-existe com o marido, ou com o marido e os filhos, que é ser-com e não somente ser-para.

Mudanças simples podem acontecer, como por exemplo: quem chegar primeiro do trabalho adianta o jantar e depois terminam juntos. Quando nenhum está com vontade de cozinhar, pedem uma pizza ou jantam fora. Quando um estiver com dificuldade, o outro ajuda e apoia. Harmonia, time. Responsabilidades divididas.

Aqui em casa, graças a Deus, o assunto está bem resolvido! E eu, muito bem servida ;).

Por falar em bem servida, compartilho aqui uma receita dele, o marido, que é deliciosa e foi eleita por ele mesmo para estar aqui! Qual? Berinjela Recheada!

Ingredientes:

2 berinjelas (médias ou grandes).
300g de frango cozido desfiado.
Azeitonas.
Palmito em cubos.
Milho.
Ervilha.
Sal.
Champignon fatiado.
Salsinha.
Cebolinha.
Azeite.
Cebola.

Modo de preparo:

Corte as berinjelas ao meio e cozinhe na água pra tirar a acidez.
A berinjela tende a encharcar. Se isso acontecer, basta deixar escorrer ou tirar o excesso de água com um pano de prato limpo.
Tire o miolo deixando as partes em formato de canoa.
Reserve.

Recheio:

Numa panela, refogue no azeite a cebola. Em seguida, inclua o miolo da berinjela, misture os 300g de frango desfiado e todos os outros ingredientes à gosto. Mexa bem, refogando todos os ingredientes.

Finalização:

Recheie as canoas de berinjelas e deixe meia hora no forno pré aquecido a 180°.

Está pronto!

Dicas:

Use a criatividade e varie os recheios. Você pode usar atum, pimentão, alcaparras, tomate, alho poró e uma infinidade de possibilidades!
Prefira temperos frescos e naturais aos industrializados.
Se optar por usar azeitonas ou outros ingredientes que naturalmente são salgados, tome cuidado com a quantidade de sal.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Parem o mundo que eu quero descompressurizar

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Criar, educar e amar um filho (não necessariamente nessa  ordem) têm sido uma tarefa tão desafiadora para mim, que me  deixa, por vezes, exausta. Não disponho mais das mesmas horas  de sono, nem do mesmo tempo livre – que, quando existe, é  dedicado a uma brincadeira ou um passeio mais longo com o bebê  –, nem do mesmo pique para frequentar festas ou eventos cheios  de gente. Minha vida nunca foi tão corrida e dependente da minha  atuação como agora.

Mas existe algo que tem o poder de me desgastar ainda mais do que os cuidados inerentes à maternidade: a realidade do mundo. Pessoas impondo sua visão sobre as outras, sob o argumento de que discordar é intolerar ou discriminar, polêmicas estéreis infindas sobre partidos políticos, teologias, o chef de cozinha que falou mal do brigadeiro, o cantor que pediu mais respeito em seus shows. Greves, guerrilhas, tragédias, desemprego, deseducação, carências, melindres, preconceitos sufocados pela ditadura do politicamente correto (e os politicamente corretos jurando que estão vencendo o preconceito, como se ele fosse um problema fácil assim, de superfície, quando o buraco é bem mais embaixo, onde poucos têm acesso).

Obviamente que, globalizados como estamos, esses e outros problemas não são exclusividade do Brasil, mas reverberam em maior ou menor grau por todos os continentes. A questão não é brasileira, mas humana. E é aí que me bate um cansaço, uma preocupação, uma tensão nos ombros: o que será de nós??

O convite de Jesus, então, aparece como um alívio, uma esguichada de água em dia quente, uma coca gelada com limão para acompanhar a feijoada: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28). Sério mesmo, Jesus? Sério que posso chegar até você e ter todo o peso do mundo retirado dos meus ombros: pressão, prazos, polêmicas, mimimis e todo o resto??

E, assim, numa oração, sou descompressurizada.

O convite de Jesus ao descanso é autenticamente democrático. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, pode aceitá-lo e usufruir de seus efeitos. É revigorante e, de quebra, nos torna bem preparados e ativos para retornar ao cenário do caos.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A imagem veio daqui

Sobre a coisificação da mulher e o filho que quero ter

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Sabem, um dia eu quero ter um filho. Um menino. Que será um garoto, um rapaz e um homem.

E eu farei o meu possível pra ele ser um cara do bem, de caráter adequado e, entre outras coisas, que respeite as mulheres.

Que ele não torça o pescoço pra olhá-las. Que não diga palavras ou frases obscenas quando elas passarem. Que não as encare com olhar psicopata como se estivesse tirando suas roupas em pensamento. Que não as assuste com gracinhas indiscretas (nem discretas, aliás, se é que tem isso). Que não as olhe como se fossem vitrines, só porque lhe chamaram atenção. Que não seja grosseiro, não buzine, não assobie, não as trate como coisas.
Estou cansada de ser desrespeitada na rua, por homens tão otários.

Minha raiva e os elogios do meu professor de muay thai me estimulam a socar suas caras e dar uma joelhada em suas genitálias. Meu medo bambeia minhas pernas e me estimula a andar mais rápido e sair logo de perto. Meu nojo me causa engulho. Meus pensamentos se concentram em apenas pedir proteção a meu Deus.

Falando em Deus, que também é Jesus, fico pensando no quanto esse Jesus é julgado de retrógrado e até machista, mas que, na realidade, tratou as mulheres de um jeito que esses homens babacas deviam aprender a tratar. Como quando uma vez, numa viagem, no meio do caminho, ele encontrou uma mulher samaritana¹ – com quem ele, como judeu, não poderia conversar – tirando água de um poço. As mulheres já eram subjugadas nessa época e tratadas de forma inferior. Jesus poderia ter sido grosseiro com ela, como tantos homens são, mas não foi. Ele estava com sede e pediu “por favor” por um pouco de água. Ele conversou com ela, escutou o que ela tinha a dizer, foi educado, gentil, prestativo, não deu em cima dela. E ainda falou de algo bom que ele tinha e poderia compartilhar com ela, se ela quisesse: uma vida que fazia sentido.

O mundo está abarrotado de homens idiotas.
Tive a benção de não me casar com um e tenho fé de que não serei mãe de algum.

E a você, mulher, que se sente valorizada quando um desgraçado mexe com você na rua: meus lamentos.

¹Referência bibliográfica: João 4:7-41 – Bíblia.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Paz nas decisões

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Tomar decisões é sempre um parto. Passamos dias pesando prós e contras e, mesmo assim, o medo do desconhecido que acompanha a decisão não deixa a gente dormir ou comer direito. Ou o contrário: dormimos e comemos demais, por pura ansiedade sobre o que será. Então, finalmente, nos decidimos. Mas ainda assim, seguimos adiante com um pé atrás, sem ter muita certeza, procurando com rabo de olho algum flash lá trás que sinalize para nós que ainda podemos mudar de decisão, caso nos arrependamos.

E todo esse processo penoso não é privilégio de pessoas inseguras. Quando a decisão é séria, todo mundo pasta para tomá-la. Principalmente, se ela envolve alguma questão moral suculenta, daquelas que atingem em cheio o nosso ponto mais fraco.

Por muito tempo, tive dificuldade para entender o que Paulo queria dizer exatamente com o termo ‘árbitro’, quando escreveu: Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração (Colossenses 3.15, primeira parte). Porém um dia, enquanto assistia ao filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, captei finalmente o sentido desse versículo, numa cena sensacional. Quando Joel (Jim Carrey) chama Clementine (Kate Winslet) para sair, sendo ele quase casado com outra pessoa, ela recusa e responde: eu sou só uma garota cheia de problemas, procurando minha paz de espírito. Não me torne responsável por sua paz de espírito também.  Pronto! O elemento-chave estava aí: paz. Devo sempre buscar por ela, em todas as minhas decisões. Na verdade, em termos simples, nem preciso me dar ao trabalho de escolher, porque é a paz que fará a escolha por mim. Ela aponta o caminho e eu sigo por ele. Claro que outros elementos vão tentar trabalhar contra esse fluxo, mas aí é ligar o modo automático em Deus e seguir em frente, sem muitas conjecturas – ouso propor. Afinal de contas, desde quando os fantasmas não fazem parte do pacote da existência pós-queda? A graça de tudo isso, porém, está justamente em dependermos da Graça.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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Uma voz feminina calada na Inquisição

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“A história não nos interessa simplesmente por causa da curiosidade pela antiguidade. A história nos interessa porque, mesmo quando nos esquecemos, ela continua vivendo em nós. […] E quanto mais sabemos de nossa história, melhor compreendemos a própria vida”.

frase acima de Justo L. González, retirada do Prefácio do livro Uma voz feminina calada na Inquisição

Ao ler essa frase, compreendi (ainda mais) que dar a voz e ser também a voz em nossa época é de extrema importância. O que sou hoje, além das escolhas que fiz, é também fruto do trabalho de pessoas que vieram antes de mim, que lutaram por direitos que hoje tenho como básicos, que levantaram bandeiras por igualdade social, de gênero ou raça, ou que morreram defendendo e compartilhando a sua fé.

No livro Uma voz feminina calada pela Inquisição, Rute Salviano Almeida relata a vida da primeira mulher levada à fogueira pela Inquisição na França, Margarida Porete.

Margarida nasceu por volta de 1250 e pertenceu ao movimento das beguinas – católicas praticantes do asceticismo e da caridade, que não precisavam viver enclausuradas ou sob os votos de castidade e de pobreza. Com pouca informação sobre sua vida, especula-se que tenha sido uma beguina solitária, além de ter sido uma mulher culta, de nascimento nobre e com elevada educação1.

Em 1296, Margarida escreveu um livro chamado O espelho das almas simples e, com grande audácia, viajou pregando e disseminando seu conteúdo. Também o enviou a autoridades da Igreja, sendo aprovado por alguns como foi o caso do frei João Quaregon, que chegou a afirmar que sua obra tinha sido inspirada pelo Espírio Santo, mas, que temia que poucos pudessem exergar isso, porque “todos os clérigos do mundo” não poderiam entendê-la, a não ser que tivessem um grande discernimento espiritual2. Mas foi acusada de promover a heresia do espírito livre, ficando presa durante 18 meses até o dia de sua condenação em 1310 – queimada viva em praça pública em Paris.

Apesar de hoje entendermos que o desenvolvimento de seu raciocínio sobre a salvação foi equivocado, como se houvesse dois tipos de salvação: “almas que alcançavam a salvação pela graça de Cristo, mas permaneciam escravas da prática das boas obras (virtudes) e do exemplo de Cristo em seus sofrimentos corporais (penitência, flagelos), as quais seriam salvas, mas nunca alcançariam a plenitude espiritual, ou a posição espiritual mais elevada reservada àquelas que abandonavam a vontade e atingiam a aniquilação.”3 ou “em louvor à alma aniquilada, chegou a afirmar que, em completa aniquilação e em união perfeita com seu Criador e Senhor, tal alma recebe mais saber do que o contido nas Escrituras, mais compreensão do que a que está ao alcance da capacidade ou do trabalho humano de alguma criatura.”4, sua obra trouxe reflexões muito interessantes sobre a importância de se realizar a vontade de Deus, em vez de seu próprio desejo, além de alertar as pessoas sobre a inutilidade de sacramentos, obras e intermediários na comunhão com Deus.5

Acredito que a caminhada com Deus deve se dar conforme a jornada que Margarida Porete trilhou, e não estou colocando aqui alguns de seus pontos teológicos – os quais, ao meu ver e devido a todo o contexto histórico/cultural em que surgiu, é compreensível –, mas a tenho como referência por sua extrema vontade em anular seus próprios desejos para que a vontade de Deus pudesse imperar em sua vida.

Rute Salviano Almeida, autora do livro que conta a vida de Margarida, essa voz feminina calada na Inquisição, gentilmente respondeu algumas perguntas para nós e, abaixo, você pode conferir todo o bate-papo. Espero que, este livro bem como todo o trabalho que a Rute vem desenvolvendo, possa inspirá-las(os).

1) Como foi a ideia em dar voz às mulheres que também contribuíram e fizeram grande diferença em períodos tão marcantes do Cristianismo – mas que infelizmente em tais épocas e movimentos somente homens e seus feitos são lembrados?

Eu lecionei por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas e, quando dava aulas de História do Cristianismo, achava falta das personagens femininas. Como tinha certeza de que as mulheres, a exemplo das citadas no Novo Testamento, sempre participaram da história cristã, resolvi pesquisar a respeito. Minha ideia era escrever sobre a participação feminina na história do Cristianismo de uma forma diferente, com mais imagens, sempre trazendo o contexto da época, destacando detalhes tais como moda, sentimentos femininos, mulher no lar, espiritualidade etc. O ponto de partida foi a minha dissertação de mestrado, onde escrevi sobre a mulher na Reforma e dela surgiu meu primeiro livro “Uma voz feminina na Reforma”.

2) Neste livro você aborda muito bem o último período da Idade Média – que compreendia os séculos XII, XIII e XIV – nos ajudando a entender o contexto, no qual Margarida Porete cresceu e desenvolveu sua missão. Você poderia sintetizar essa época, ajudando quem nos lê a compreender um pouco o panorama, no qual nossa personagem viveu?

Foi um período de decadência do feudalismo, porque muitos nobres morreram ou voltaram empobrecidos das Cruzadas; de crescimento da autoridade dos reis; de embates entre papas e soberanos; de bulas que declaravam que fora da Igreja não havia salvação, para confirmar a superioridade pontifícia sobre a temporal. Enfim, uma época de ganância dos poderosos e de credulidade do povo simples. O povo europeu cria em Deus, sem dúvida alguma; mas era um Deus de quem se tinha medo, era o causador das epidemias, inundações, pestes etc. O Deus de amor, o Deus que enviou Jesus para salvação pela fé não era conhecido. O fiel era analfabeto e só sabia sobre Deus e religião o que via nas imagens das catedrais. A missa era celebrada em latim, uma língua desconhecida, portanto, era grande a superstição e a falta de fé verdadeira.

3) Gilberto Tournai, frade franciscano da época, falou sobre as beguinas: “Existem, entre nós, mulheres que não sabemos como chamá-las, mulheres comuns ou freiras, porque elas não vivem no mundo nem fora dele” (trecho extraído do livro Uma Voz Feminina Calada na Insquisição, página 131), achei muito bela essa definição, pois ao meu ver, caracterizava liberdade e aceitação entre elas por seus estilos de vida, além também da busca delas em viver pelas “coisas do alto”, vivendo ainda neste mundo. E para você, Rute, qual foi a maior contribuição que as beguinas trouxeram para nós mulheres cristãs de hoje?

Acredito que nos inspiram por sua união, comunhão uma com as outras, ajuda mútua, desejo de entender mais a fé cristã e, principalmente, compaixão. Elas viviam para ajudar o próximo, foram pioneiras em sua época na ação social, socorrendo enfermos, cuidando de leprosos, aconselhando e abrigando prostitutas e até mesmo chegaram a construir escolas para meninas, em uma clara demonstração de valorização da educação.

4) Além de Margarida Porete ser mulher, escritora e pregar em público e na língua do povo, o que você acha que mais incomodou seus inquisidores em seu livro O espelho das almas simples?

Acredito que foi sua crítica à igreja instituída, a qual chamava de Santa Igreja Pequena e afirmava que era subordinada à razão. Ela escreveu que a real Igreja Santa era constituída de almas livres e simples que julgariam a pequena Igreja. Para ela, Deus iria castigar toda a hierarquia eclesiástica que havia falhado.

5) Vendo essas e outras mulheres em contextos tão opressores, mas que buscavam formas de servir e contribuir utilizando seus dons e talentos para uma sociedade mais justa, em sua opinião, quais seriam os pontos ou contribuições que quase não avançamos desde então, e que ainda precisamos refletir e ter coragem e ousadia para mudar?

As mulheres, na atualidade, são eleitas para todos os cargos públicos, trabalham em quase todas as profissões e têm ocupado espaços antes inatingíveis. Em minha opinião, não têm se preocupado (a maioria delas) em exercer seus dons espirituais em suas igrejas locais, independentemente das funções para isso exigidas. Estão acomodadas e exercendo o que para elas é suficiente: ensino para crianças, trabalho com mulheres, ação social etc. Mas, se Deus as capacitar com dons mais específicos como liderança ou pregação, não os exercem porque lhes falta liberdade em suas igrejas ou porque elas próprias acreditam que não são dignas de tais tarefas.

6) E há previsão de alguma nova publicação? Pode nos contar um pouquinho sobre? E muito obrigada por seu extenso trabalho de pesquisa e divulgação de todas essas vozes femininas, Rute. Seu trabalho me cativou profundamente e fico muito feliz em tomar conhecimento de iniciativas como a sua. Nós, mulheres, agradecemos, além de nos tornarmos mais fortes no caminhar conhecendo tantas outras mulheres inspiradoras.

Em primeiro lugar, sou eu que agradeço o interesse pelo meu trabalho. Fico muito feliz e honrada em saber que, aos poucos, vou conquistando leitoras que se interessam na divulgação dessas histórias edificantes de cristãs comprometidas com o Reino de Deus. Deus a abençoe e a todas que lerem essa entrevista.

O meu 4º livro, Vozes femininas no início do Cristianismo, será publicado no próximo ano. Ele apresentará a Roma dos primeiros séculos, a igreja primitiva, as mártires, diaconisas, monjas e mulheres relacionadas aos Pais da Igreja. No momento, pesquiso sobre os movimentos de avivamentos dos séculos XVIII e XIX e pretendo escrever Vozes femininas nos movimentos de avivamentos, encerrando então a série de Vozes femininas na história do Cristianismo.

Em uma ordem cronológica, segue a série, com 5 livros:
– Vozes femininas no início do Cristianismo: sobre a igreja primitiva (Idade Antiga) – será publicado em 2016;
– Uma voz feminina calada pela Inquisição (Idade Média), publicado em 2012;
– Uma voz feminina na Reforma (Idade Moderna), publicado em 2010;
– Vozes femininas nos movimentos de avivamento (Inglaterra e Estados Unidos – séculos XVIII e XIX – Idade contemporânea): ainda em fase de pesquisa e escrita.
– Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro (Brasil – séculos XIX/XX), publicado em 2014;

Espero em Deus a capacitação para conclusão dessa série e agradeço a Editora Hagnos pela confiança em mim depositada para publicação dos meus livros.

Notas – informações retiradas do livro Uma voz feminina calada na Inquisição:
Iinformações extraídas da página 152
Citação extraída da página 153
Citação extraída das páginas 168 e169
Citação extraída da página 171
Informações extraídas da página 170

Imagem de Fernando Moleres e foi retirada desse site


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.