Lições que aprendi com a depressão

savasana

Gostaria de falar sobre depressão, não como uma especialista, nem receitar fórmulas mágicas, muito menos tratar de maneira simplista essa questão tão complexa. Quero compartilhar da minha experiência e o que ela me ensinou. Espero que, através dela, eu possa encorajar quem está passando pela noite escura da alma.

Quero me tornar vulnerável e me abrir aqui para que você saiba que não está sozinho:

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte;
Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.
Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar;
Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo.
E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça.
A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.”
1 Pedro 5:6-11

Quando tive minha primeira crise de depressão, senti vergonha e não acreditava que um cristão poderia passar por isso. Eu tinha acabado de voltar de uma escola de missões e estava servindo a Deus em período integral! O que estava fazendo de errado? Então, Deus falou muito ao meu coração através dessa passagem de Pedro. Saber que outros cristãos também passam por isso, que Deus iria trabalhar em minha vida através da crise e que ela iria passar me deu esperança em meio à escuridão. Também aprendi algumas coisas que quero compartilhar com vocês agora.

Aprendi que depressão não é motivo de vergonha ou fraqueza; é sinal de que somos seres humanos, e não super-heróis. Na verdade, penso que quanto mais tratarmos a depressão com naturalidade, mais fácil será lidar com ela. Temos que quebrar os tabus e parar de ver a depressão como um monstro terrível, ainda que seja isso que sentimos quando estamos no meio da crise.

Temos medo daquilo que nos é desconhecido, nossa mente nos prega peças o tempo todo e o nosso medo, no fim das contas, é fruto das fantasias em nossa mente.
Uma ilustração que gosto bastante é essa: “Entro em um quarto escuro, há uma corda pendurada, logo penso ser uma cobra e morro de medo, mas quando a luz se acende, vejo que não passava de uma corda pendurada”.

Aprendi que em momentos de crise, em que tudo parece tão escuro, medos e fantasias brotam em minha mente, mas quando os levo à luz, percebo que não passam de frutos da imaginação e, quando tomo consciência disso, eles se dissipam. Quanto mais faço esse exercício, mais os pensamentos perturbadores deixam de me atormentar.

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. João 8:32

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. Filipenses 4:8

Sempre que um pensamento atormentador tenta me assaltar, eu os exponho à Palavra, por meio das seguintes perguntas: Isso é verdadeiro? É real? É puro, justo, amável e de boa fama? Se não for, não permito que ocupe a minha mente.

Falando em luz e verdade, a terapia foi uma maneira incrível que Deus usou para trazer todos esses medos à tona. Por dois anos, frequentei as sessões de terapia, que me ajudaram a me conhecer e me confrontou em áreas que eu precisava mudar. Também me levou a encontrar a minha vocação na área do ensino e me mostrou que eu estava tentando calçar os sapatos do meu marido no ministério integral, vivendo o chamado dele e não o meu. Descobri, através da terapia, que uma das principais causas da minha depressão vinha de um ativismo ministerial, que me levou a acreditar que o meu valor estava no que eu FAZIA.

Consegui me libertar da obrigação do FAZER e aprendi que o fazer brota naturalmente do SER, na medida em que descubro minha verdadeira identidade em Cristo.

Aprendi também que preciso de válvulas de escape para liberar o estresse. É preciso parar e respirar. Ah… respirar! Minha ansiedade era tanta, que eu tinha muita falta de ar, foi então que comecei a praticar yoga.

A yoga me ofereceu ferramentas maravilhosas para administrar as crises de ansiedade, além de fazer um bem tremendo para o meu condicionamento físico. Também me ajudou entender melhor o que significa desapego, entrega, descanso.

“Jesus nos diz: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Mateus 11:28

“Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.” Salmos 23:2

Jesus está o tempo todo nos convidando a encontrar descanso nele.
No final de toda aula de yoga, fazemos uma postura que se chama savasana e que significa ‘a postura do cadáver’. Basicamente, ela é uma postura de relaxamento e entrega e é a minha favorita, pois enquanto a realizo, me imagino me entregando ao meu Deus, deitada sobre os verdes pastos, sendo guiada às águas tranquilas.

Nesse momento de relaxamento profundo, aquieto a minha mente, entrego todos os meus fardos a Jesus e me vejo como se realmente eu morresse para mim, meu ego, meus medos e para aqueles pensamentos, que parecem macaquinhos pulando em uma árvore. É preciso me retirar e deixar o Espírito Santo de Deus operar sua obra em mim. “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto”. João 12:24

Descobri o quanto eu preciso, e creio que todos nós precisamos, desse silêncio e descanso nesse mundo tão maluco em que vivemos. Muito da nossa perturbação interior vem justamente da falta de momentos assim.

Aprendi a ter a mesma atitude tranquila diante das crises, o que não significa que eu esteja me prostrando diante da dificuldade, mas antes de lutar com minhas próprias forças e me debater, fazendo, assim, com que a crise potencialize, eu a observo e me lembro de que ela vai passar. Como um surfista que precisa praticar apneia: se ele não consegue pegar uma onda, ele desce ao fundo e, calmamente, ele a espera passar para depois submergir. Se ele fosse de encontro com ela, as consequências poderiam ser graves.

“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus.” (Salmo 46:10)

Outra versão diz:

“Parem de lutar e saibam que sou Deus.”

Aprendi também que, se eu não posso fazer as ondas pararem, eu posso aprender a surfar nelas. Pode parecer jargão, mas é de verdade o que tem me dado força e ânimo para a caminhada.

Ah, e sim, também tenho aprendido (essa com mais dificuldade) que a medicação certa é uma ótima aliada na caminhada. É desafiador lidar com isso, mas é como um espinho na carne, que me lembra que sou fraca e dependo totalmente da Graça de Deus, que me lembra que não sou a Mulher Maravilha e tenho minhas limitações.

No fim do dia, quando olho para todas essas lições, posso considerar que a depressão, por mais difícil que tenha sido, foi uma benção em minha vida. Foi a maneira que Deus usou para me ensinar tanto.

Não posso deixar de dizer que não passei por tudo isso sozinha. O apoio, amor e orações do meu marido, dos meus amigos-irmãos e da minha igreja foram essenciais para que eu tivesse força e coragem para passar pela noite escura da alma.

E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela. Hebreus 12:11

Quando estamos passando pelo sofrimento, não conseguimos ver qual alegria poderá nos trazer, mas se permitirmos, ele poderá produzir em nós os frutos mais doces.

 


Fernanda Beloni Pinilha é casada com Caetano, mãe do Miguel de 1 ano e 8 meses, professora de inglês para crianças e adolescentes, discípula de Cristo, praticante de Yoga, e completamente apaixonada por tudo isso! <3

3 comentários sobre “Lições que aprendi com a depressão

  1. Muito obrigada Fernanda por ter tido a coragem de compartilhar conosco a sua experiência! Falar sobre momentos difíceis e de como os superamos ajuda muitos outras pessoas e dá a glória devida Àquele que nos ajuda nos momentos de dificuldade (Hb 4.16)Carmem

    Curtido por 1 pessoa

  2. Que delícia ler este texto.
    Me fez refletir sobre questões importantes e me relembrou que não sou Mulher Maravilha (não que eu me ache uma!) e que não estou sozinha, pois pessoas normais (como eu) passam por todas essas inseguranças.
    E como “boa” ansiosa que sou, vou voltar e reler seu texto porque acho que li rápido demais e preciso meditar um pouco mais nele. 😉

    Curtido por 1 pessoa

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