Quer saber a verdade?

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Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça.

Esse versículo, de Romanos 1.18, traz uma palavra-chave, polêmica para a nossa cultura ocidental: a verdade. O texto afirma também que os homens eliminaram a verdade para favorecer a injustiça. Mas qual é a relação direta existente entre verdade e injustiça? Proponho uma reflexão sobre essa pergunta, considerando a ótica líquida da nossa cultura, para quem a verdade é customizada (eu a construo como eu quiser) e intransferível (cada um tem a sua).

O homem hipermoderno suprimiu a ideia de uma verdade única, total, para, em lugar dela, adotar incontáveis verdades – uma para cada pessoa da terra (ou seja, são 7 bilhões de verdades no globo). Mas se tudo é verdade, o que não é verdade? Nada. Não existe a não-verdade, ou melhor, a mentira. E se cada um constrói a verdade como quer, por que a chamamos verdade e não de … jenga*, por exemplo? Podíamos riscar a palavra e todo o significado de verdade – logo, a autenticidade, o fato, a exatidão, a precisão – do nosso repertório de conhecimento das dinâmicas do mundo e das linguagens que as representam.

Quando o homem suprime a verdade única e a multiplica (ou a divide?) pelo número de habitantes da terra, ele a reduz ao tamanho e à abrangência da minha limitada percepção do mundo. Assim, cometer injustiças fica muito fácil: percebo e me conecto com o outro a partir do que eu acredito ser o certo, e o que é certo para mim é definido pelas minhas experiências, que, por sua vez, acontecem dentro de uma moldura social, econômica, etária, familiar, geográfica, educacional, cultural, relacional muito, mas muito específica e particular. Ou melhor, única. O outro, por sua vez, se conecta comigo a partir dos mesmos critérios, específicos do contexto dele. Impossível alguma injustiça não escapar da interação entre essas complexidades todas. Se formos ampliar essa percepção pelo número de conexões entre as pessoas, quantos atos de preconceito, intolerância, guerras, torturas, mortes, doenças e outros sofrimentos não são cometidos a cada momento?? Gosto de imaginar como seria a existência se a verdade fosse tomada como única – como ela é, de fato: a humanidade convergindo, inteira, para um único Ponto, de onde emana a justiça extrema, sem medidas, nem limites.

 

*jenga – jogo de blocos de madeira, com os quais se constrói uma torre. O objetivo desse jogo é ir removendo, aos poucos, os blocos da base da torre e colocá-los no topo sem que a torre caia.

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

#meuamigosecreto

 

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Original e muito propícia a iniciativa que mulheres tiveram nas redes sociais hoje, 25, Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. Usando a hashtag #meuamigosecreto para não identificar de quem falavam, essas mulheres denunciaram pessoas conhecidas delas, que praticam algum tipo de machismo – desde piadinhas ‘inofensivas’ até abusos – contra a mulher e que passam despercebidas. As declarações que li foram corajosas, tocantes. Impossível não se revoltar contra (e imaginar quem seriam) aqueles “amigos” secretos todos.

De modo geral, sou bastante desconfiada dessas campanhas em redes sociais, que costumam ser ineficientes quando o objeto contra ou a favor do qual elas se manifestam estão muito além da foto do perfil. Mas desta vez, a campanha foi ambiciosa na medida certa: alcançar os próprios contatos e, esperançosamente, atingir aquele cara, ele mesmo, o alvo da denúncia. Fiquei pensando o que eu escreveria se fosse denunciar o #meuamigosecreto. Descobri, com muito desconforto, que ele não leria o meu desabafo, porque há muitos anos me bloqueou de seu Facebook.

O exercício de pensar nessa pessoa e em tudo o que eu diria a respeito dela fez com que eu me deparasse com uma realidade: a ferida ainda sangra. E sangra tanto, que eu nem conseguiria usar palavras na minha denúncia para distinguir uma violação de outra; tudo que vem à minha mente são imagens, como um cinema mudo. E o mais triste é pensar que ele agiu dessa forma acreditando estar certo e – que absurdo! – bíblico.

Por anos pedi a Deus que me curasse da lembrança dos abusos que sofri. Por anos acreditei que havia sido curada – pelo menos, em parte (junto com o pedido da cura, eu sempre orei a Deus que esfregasse no nariz dessa pessoa todas as agressões emocionais que ele cometeu contra mim). Deus ainda não me atendeu completamente, mas acredito que seja por um propósito, por empatia, por outras mulheres, por sororidade. Não quero estar alheia às minhas irmãs. Não quero estar no patamar “deste-mal-eu-não-sofro”, ou ficar prescrevendo soluções rápidas, como se misoginia fosse fantasia de cabeça desocupada. Não! Quero ser curada sim, mas quero levar todas as mulheres comigo. E é por isso que oro. Oro por mim, por você, pela nossa ferida que sangra e que não sabemos até quando irá sangrar.

(a foto que ilustra este post foi clicada pelo artista Janssem Cardoso)


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.