Amor 80% cacau

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Mas Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores. (Romanos 5.8)

Clarice Lispector, no conto Os desastres de Sofia (meu preferido, aliás), compreendeu exatamente (mesmo sem querer) o que Paulo quer dizer nesse versículo quando escreveu: Seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. Pois é. Fácil é sermos amadas quando estamos cheirosas, charmosas, bem-sucedidas, bem resolvidas, talentosas, bonitas, intelectuais, espirituais ou espirituosas. Mas e quando cansamos de sustentar esses rótulos todos e queremos ser só a gente? De repente chorar ou rir de alguma piada do Chaves ou ainda curtir as músicas românticas dos anos 80 (quem não se emocionava com Slave to Love?), sem receber uma risadinha mal-intencionada de alguém sentado na outra ponta do sofá?

Bom, exemplos pouco criativos à parte, só Deus teria coragem de amar o que é feio. E ele amou. E aquilo que era feio era o nosso interior, cheio de soberba e inveja. É nisto que consiste a perfeição do amor de Deus: chegou antes de termos tido a chance de maquiarmos nossa identidade e aparecido com um sorriso falso na selfie da nossa alma. E o que é o melhor de tudo é que Ele tem por mim e por você um amor sem medida, sem letras miúdas, sem condicionais. É puro, absoluto e incompreensível, por isso duvidamos tanto dele.

Estamos acostumadas a sofrer, a mendigar amor e, o que é ainda mais triste, a mendigar um amor de péssima qualidade: condicional, oscilante, falho, com data para terminar… ou seja, um amor humano. É como gostar de chocolate 80% cacau e se contentar com chocolate hidrogenado. Um horror! Com isso, entretanto, não sugiro que deixemos de amar ou esperar amor de outras pessoas, óbvio, mas sim que não nos limitemos a esse amor, apostando que ele trará sentido à nossa existência, nos preencherá e nos oferecerá esperança para aqui e além. Não dá para atribuirmos ao homem um tipo de amor que é divino somente. Fatalmente, sentiremos sede de novo.

O que nos resta, então? Proponho: nadar no amor profundo de Deus e senti-lo todo em torno e dentro de nós, inundando-nos e envolvendo-nos em um invólucro, desde a ponta dos dedos dos pés e das mãos até o âmago da alma. Não existirá nesta terra nada mais revigorante, eu garanto.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um comentário sobre “Amor 80% cacau

  1. Meu Deus!!! Que coisa linda!!!! Nunca compreendi tanto a lição de Jesus sobre “se beber da água que Eu te der, nunca mais terás sede…”Obrigada mil vezes.Te beija a mamãe.

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