Nó na garganta

DK_Dez_15
Perdão (grafite e digital), por David Kim

 

As devocionais que faço em casa funcionam assim: escolho um livro da Bíblia e começo a leitura, um trecho por dia. Leio aquele trecho quantas vezes forem necessárias para eu entender bem o contexto. Dentro do trecho escolhido, seleciono um versículo ou mais, uma expressão ou até mesmo uma palavra-chave e, a partir disso, construo – por escrito – uma pequena reflexão, que mais tem a ver com o que entendo do texto e com a maneira que posso aplicar aquela ideia à minha vida, do que com conhecimento teológico (isso explica a quantidade de especulações que recheiam as minhas devocionais). Por fim, escrevo uma oração, que expressa como me sinto e o que desejo a partir do que aprendi sobre a vontade de Deus. Na verdade, essa dinâmica devocional não fui eu que inventei, mas adaptei de um livro – que recomendo, aliás – chamado Mentores segundo o coração de Deus, do Wayne Cordeiro.  E, quando percebo que uma devocional se desenvolve de maneira mais interessante, venho aqui postá-la.

De forma geral, esses momentos a sós com Deus me dão forças e me oferecem esperança (mesmo quando a mensagem é mais confrontadora do que consoladora). Desta vez, porém, aconteceu algo raro, com o qual não estou sabendo exatamente como lidar: a devocional estabeleceu um conflito em mim, me perturbou e me colocou em uma posição esquisita, bem longe do ideal. Respiro fundo e tomo coragem para compartilhá-la com vocês:

Se, porém, Cristo está em vós, o corpo está morto, pelo pecado, mas o Espírito é vida, pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós. (Romanos 8.10 e 11)

Interessante o movimento que acontece a partir do momento em que estamos em Cristo: a princípio, nos encontramos mortos pelo pecado e pelos desejos da carne, mas não permanecemos assim. Por meio de Cristo, somos levados de volta à vida e podemos usufruir dela aqui mesmo, neste corpo mortal em que habitamos.

Incrível ler sobre o que o Espírito de Deus faz e, mais ainda, saber que essa realidade não depende do que sinto ou do que acredito para que exista. É verdade e ponto. O problema que se estabelece, então, é como tornar essa realidade atuante em mim. Porque o que eu mais vivencio na minha lida espiritual é justamente a carne querendo comandar. Pior e mais embaraçoso que isso ainda!: sinto-me triste quando não é ela que dá a palavra final nas minhas decisões e atitudes (e a carne só não dá as cartas por pura e linda misericórdia de Deus, que sabe quão trágico seria se assim fosse).  Repito: sei que a ação do Espírito não depende do que sinto e sim, que ela é um fato, por si mesmo existente e atuante, porém, me sinto frustrada por não a desejar com a mesma intensidade com que desejo as outras coisas que desejo. Por que, então, meu Deus, sinto falta do erro, do pecado, da ação da carne?? Por que não me satisfaço integralmente com a misericórdia divina, que me poupa diariamente de cair? Por que quero a morte do pecado no lugar da vida no Espírito? “Livra-me, Deus, de mim mesma, ainda que eu não queira que me livres” – suplico em minha oração. E, assim, com mais perguntas do que respostas, encerro a minha devocional.

Ainda longe de resolver meus conflitos e meu nó na garganta, encontro certo alívio na letra de uma música do Mumford & Sons: I was still/ I was under your spell/ When I was told by Jesus all was well/ So all must be well (eu estava imóvel/ eu estava sob o seu feitiço/ quando me foi dito por Jesus que tudo estava bem/ então tudo deve estar bem).


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um comentário sobre “Nó na garganta

  1. Ao ler seu texto e ver o grafite do David lembrei imediatamente do grito de Paulo: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Mas antes ele descreve toda a sua luta interior, sua angústia, seu nó na garganta em Rom 7.14-25. O cap 8 já é um hino de louvor e gratidão pelo que Deus fez em nós através de Jesus Cristo.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s