A arte de qualidade e a arte… feita por cristãos

AsasdoDesejo
“O que eu sei agora nenhum anjo sabe” (Asas do Desejo, Wim Wenders)

 

Em março de 2015, o cineasta alemão Wim Wenders gravou uma entrevista para o canal do MoMA no YouTube. Estavam ele e o Peter Handke, que escreve os roteiros juntamente com Wenders. Em uma das perguntas, o entrevistador sugeriu que ele, Wenders, enfatizava um aspecto mais espiritualizado em suas histórias e quis saber se isso tinha a ver com a sua migração do catolicismo para o protestantismo. Ao responder, Wenders não pendeu para a questão de sua vertente religiosa, mas comentou que “havia sido encontrado” enquanto gravava Asas do desejo. E foi além. Contou como a produção do filme aconteceu em bases milagrosas, visto que ele não tinha nenhuma ideia para o roteiro e Peter Handke, naquela época, estava ocupadíssimo escrevendo um livro. Enquanto filmava a esmo, Wenders recebeu uma carta de Handke, em que ele havia escrito – em nome da amizade que tinham – um poema que pudesse, quem sabe, inspirá-lo ao longo das gravações. Wim Wenders não só usou o poema (Canção da Infância), como seus versos acabaram se tornando o cerne da beleza da história. Mas não parou por aí. Toda semana, Wenders recebia novas cartas de Peter Handke, que se encaixavam perfeitamente no que Wim Wenders estava criando como enredo. Detalhe: Peter Handke não fazia a menor ideia do que seu amigo estava filmando, porque não podia participar das gravações. Assim, Asas do desejo não só foi finalizado com excelência, como venceu o Festival de Cannes com o prêmio de melhor diretor em 1987.

De toda a entrevista – que foi riquíssima, aliás –, a parte em que o entrevistador posicionou Wim Wenders como protestante foi a que provocou em mim uma secreta e estridente alegria, que acabou redundando em um alívio totalmente inesperado, algo como: ufa! Tá vendo? Os cristãos também podem produzir arte de qualidade!

Esse meu alívio espontâneo, que tomou forma com a constatação de que cristãos também podem produzir arte de qualidade, pressupõe pelo menos três realidades: 1) o cristão não produz arte de qualidade; 2) embora não o faça, o cristão é capaz de produzir arte de qualidade; 3) a imagem dos cristãos como detentores de talento e criatividade está um tanto denegrida. Em outras palavras: arte feita por cristãos não é arte, é piada.

Se você acha que estou sendo preconceituosa ou herética quando penso na arte dos cristãos em geral, dê um google em um “artista” norte-americano cristão chamado Thomas Kinkade. Kinkade – também pretensiosamente chamado de The Painter of Light (o pintor da luz) – foi uma figura contemporânea simpática, que ficou podre de rico ao pintar um quadro à lá Disney, em que retrata um bosque todo brumoso com uma cabaninha romântica no meio, de cujas janelas emana uma luz quente, como se todos os cômodos estivessem ocupados com gente feliz. Se a história terminasse aí, a arte de Kinkade não seria de toda medíocre, por possuir relativa originalidade. Entretanto, a mediocridade, no caso dele, começa a ficar evidente quando a primeira versão da cabaninha no bosque brumoso, ao agradar um grande número de cristãos, passou a ser reproduzida em larga escala e Kinkade, em vez de ter outras ideias, que levassem as pessoas a reflexões e mergulhos mais profundos, resolveu só mudar a cabaninha de lugar e a posição da luz externa. Pronto! Lá estava um novo quadro! E, assim, foi criando uma série de quadros – uns parecidíssimos com os outros – e vendendo horrores. Mas não, a mediocridade artística de Kinkade não se encerra aí. Quem acha que o pintor norte-americano ia lá pessoalmente rabiscar e preencher cada espaço de suas bucólicas cenas se engana. O artista contratava pessoas que trabalhavam para ele como numa linha de produção: cada funcionário recebia um pincelzinho para dar uma pincelada em um ponto específico dos quadros, para que assim a produção fosse massiva e nenhuma senhorinha protestante norte-americana ficasse sem o seu exemplar na parede.  E a mediocridade finalmente termina: como Kinkade foi declaradamente cristão e como sua arte é considerada uma piada entre os artistas norte-americanos, logo, a arte cristã – cuja bandeira Kinkade levantou com orgulho e foi o que caracterizou seu trabalho – é considerada também uma piada.

É importante deixar claro que o que critico aqui não é Kinkade como cristão ou como pessoa. Não o conheci e nunca poderia julgar o seu caráter. O que trato aqui é de Kinkade como artista, ou mais especificamente, como artista cristão. Olhar os quadros dele e questionar sua falta de profundidade, sua falta de originalidade e sua alta capacidade de reproduzir uma fórmula e fazer dinheiro com ela é uma obrigação de qualquer ser humano pensante. Mais uma ressalva: produzir arte medíocre não é privilégio de cristãos. Qualquer artista corre esse risco. A questão é a enorme quantidade de arte medíocre feita por cristãos. Tristemente, pouca coisa é relevante e se salva.

Mas voltemos ao Wim Wenders e encerremos com ele:

Recentemente, assisti a Asas do desejo pela segunda vez. A primeira foi no colégio, por empréstimo de uma amiga cinéfila, que o tinha em VHS (!). Ainda eu, naquela época, não sabia que adentrava terreno sublime. São imagens do invisível, do subjacente, do não-dito, do inexprimível em palavras. É o Belo em sua forma primeira, imaculada.  O transcendente tangível. A poesia. Ao final do filme, senti que fui agraciada.

Quando um artista, seja do cinema, das artes plásticas, da literatura ou da música, tem um compromisso com a arte – e se tratando de um artista cristão, esse compromisso é também com Deus – ele oferece aos demais a possibilidade de olharem além da superfície. É como um convite para se voar mais alto. É a representação do que é eterno no máximo da capacidade humana de o representar. Não há proselitismos, nem obviedades. Só há arte. E há Ele. O Belo e Único está lá.

Na mais pura e profunda arte, não há como deixar de experimentar o que Wim Wenders experimentou. Ele foi encontrado. E conosco ocorrerá o mesmo. Basta deixarmo-nos ser encontrados.


Abaixo, uma lista com alguns dos filmes do Wim Winders para você degustar e ser agraciado:

Asas do desejo, 1987

Paris, Texas, 1984

Buena Vista Social Club, 1999

Pina, 2011

O céu de Lisboa, 1994

O sal da terra (este é sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado), 2014


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A morte e a Poesia Infinita

 

Depois que cruzei a linha dos 30 anos, a morte passou a ser um tema mais recorrente em minhas reflexões. E eis que já escuto gente aí pensando: “Nossa, mas que exagero! Tanto pra viver ainda e fica pensando nisso!”. Bom, se pensarmos no curso natural da vida, sim, é verdade, ainda me faltam anos, senão décadas, para viver. Mas uma realidade com menos maquiagem nos leva a uma constatação levemente diferente: não temos a menor ideia de quando será a nossa hora. E é dessa morte que falo: a real, que nos pega sempre desprevenidos e que deixa nos que ficam a sensação amarga e perdida de que ela lhes puxou o tapete mais uma vez. Essa é a morte, cuja existência (não é esse o termo exato) tenho procurado não ignorar. Claro que não acho fácil pensar sobre isso. Assim como você e todo o mundo (pelo menos, o mundo ocidental), a ideia de morrer começa como um pequeno desespero, como a chama de um fósforo, que já o consumiu por inteiro e que então começa a queimar o nosso dedo. Não raras vezes, interrompo os pensamentos para não me deixar desesperar demais.

Eu poderia dizer aqui que o que me inspirou a escrever sobre este assunto foi a morte do David Bowie, ocorrida hoje de manhã. De fato, me entristeci por ele ter ido, me emocionei com as lindas homenagens que o Lenny Kravitz, o Bono e outros artistas fizeram para ele, mas foi numa experiência mais particular que senti o que vou explicar.

Há algumas horas, em um momento de busca pelo silêncio, fui a um morrinho que existe atrás da minha casa, onde não há nada, só mato, bancos para sentar e a vista escancarada do horizonte.  Para mim, apenas esses elementos são mais do que suficientes. O lento anoitecer estava cinzento, nublado e um vento mais frio insistia para que eu vestisse o capuz do meu casaco, mas recusei. Eu queria sentir a fria vida me atingindo até os ossos. Olhando para o céu, comecei a falar com Deus (pois é, o silêncio é às vezes uma desculpa que uso para ficar papeando com Deus em pensamento) e fui percebendo o movimento daquelas nuvens enormes, carregadas, se desenrolando todas ligeiras para a mesma direção, como se estivessem indo atrás de alguém com quem estivessem bravas. Senti-me pequena. Ou melhor, minúscula. Agachei-me e orei: “Não entendo como Você pode ter tanta paciência com a gente, sendo assim tão imenso, maduro e assistindo à mesma história – a humana – se repetindo e se repetindo”. Foi aí que me bateu uma vontade maior do que o meu coração de ir para Deus. Não de me matar, mas de vencer o que me limita, passar para o outro lado daquelas nuvens grandiosas e estar com Deus em sua maneira eterna de ver as coisas. Foi bonito e intenso.

 

Morrinho
Vista que o morro atrás de casa me dá

Quando cheguei de volta em casa, recebi de minha irmã a sugestão de uma música (logo abaixo) sensível e que – coincidentemente ou não – trata a morte de forma melancólica e bela. Ao ouvir essa música e relembrar a experiência que vivi no morrinho, concluo que a morte não precisa ser sinônimo de desespero. Ela é um tunel apenas. Um tunel que liga esta terra à Poesia Infinita.

Time (Alan Parsons Project)

Time, flowing like a river
O tempo, fluindo como um rio
Time, beckoning me
O tempo, me chamando
Who knows when we shall meet again
Quem é que sabe quando nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river
Continua fluindo como um rio
To the sea
Para o mar

Goodbye my love,
Adeus meu amor
Maybe for forever
Talvez para sempre
Goodbye my love,
Adeus meu amor
The tide waits for me
A maré espera por mim
Who knows when we shall meet again
Quem é que sabe quando nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river (on and on)
Continua fluindo como um rio (continuamente)
To the sea, to the sea
Para o mar, para o mar

Till it’s gone forever
Até que tenha ido para sempre
Gone forever
Ido para sempre
Gone forevermore
Ido para sempre e sempre

Goodbye my friends,
Adeus meus amigos
Maybe for forever
Talvez para sempre
Goodbye my friends,
Adeus meus amigos
The stars wait for me
As estrelas esperam por mim
Who knows where we shall meet again
Quem é que sabe onde nos encontraremos de novo
If ever
Se nos encontraremos
But time
Mas o tempo
Keeps flowing like a river (on and on)
Continua fluindo como um rio (continuamente)
To the sea, to the sea
Para o mar, para o mar

Till it’s gone forever
Até que tenha ido para sempre
Gone forever
Ido para sempre
Gone forevermore
Ido para sempre e sempre

 

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Os frutos atemporais de Árvore da vida

Demorei para assistir ao filme A Árvore da Vida, do cineasta americano Terrence Malick.

O filme foi lançado em 2011 e, como vocês podem perceber, levei apenas alguns anos para assisti-lo (rs).

É que às vezes gosto de esperar a poeira baixar, gosto de descobrir por mim mesma, ter minhas próprias impressões. Sei que estou “atrasada” e que este já não é o assunto discutido nas timelines da vida, mas depois que eu o assisti, percebi que, para cada fase da vida, determinado filme (ou livro) faz muito mais sentido, fala mais diretamente à alma da gente. E assim, fiquei muito feliz de tê-lo assistido só agora, porque percebi que não haveria melhor momento do que este, no qual me encontro. Assim, acredito que o assisti no tempo certo. No meu tempo certo.

Onde você estava quando lancei os alicerces da terra?
Responda-me, se é que você sabe tanto.
Quem marcou os limites das suas dimensões? Talvez você saiba!
E quem estendeu sobre ela a linha de medir?
E os seus fundamentos, sobre o que foram postos?
E quem colocou sua pedra de esquina,
enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam
e todos os anjos se regozijavam?
Jó 38:4-7 (NVI)

São esses os versículos que abrem o filme. Meu coração palpitou, meus olhos umedeceram e ainda não havia aparecido qualquer outra imagem, senão esse trecho do livro de Jó. Nesse instante, percebi que, desde o primeiro frame, o filme já tinha me capturado, me levando ao início de uma contemplação e reflexão, que eu sequer havia imaginado que o filme poderia me levar.

As freiras nos ensinaram que existem dois caminhos na vida. O caminho da Natureza e o caminho da Graça. Você precisa escolher qual deles irá seguir. A Graça não procura satisfazer a si própria, ela aceita que a desprezem, que a esqueçam, que não gostem dela. Ela aceita ser insultada e ser ferida. A Natureza só quer satisfazer a si mesmo, e fazer com que os outros a satisfaçam. Ela gosta de ser livre e que façam a sua vontade. Ela procura razões para ser infeliz quando o mundo todo está feliz ao seu redor e o Amor está sorrindo através de todas as coisas. As freiras nos ensinaram que quem ama o caminho da Graça jamais têm um fim triste. Eu serei leal à Você aconteça o que acontecer.
(trecho posterior ao frame dos versículos citados acima)

Confesso que me faltam palavras para descrever tudo o que vi, ou melhor, o que eu senti ao ver A Árvore da vida. Mesmo porque algumas pessoas já teceram ótimos comentários sobre o filme e deram explicações que estão longe do meu humilde repertório. Essas contribuições, aliás, me ajudaram a compreender algumas partes mais complexas (que foi o caso do Guilherme de Carvalho, por exemplo. A propósito, seus comentários sempre me ajudam a compreender melhor a filosofia, a teologia e, agora, por que não dizer as artes? Você pode ler seu artigo sobre o filme aqui). Já outros escreveram sobre como o filme mudou suas percepções sobre a fé (como foi o caso do Zeca Camargo e você pode ler o blog dele aqui). Mas se eu pudesse me arriscar, humildemente eu diria que, para mim, o filme funcionou como uma luz e, por ser tão belo, acabou iluminando não a si próprio, mas a Deus. Sim, Deus é o foco, não tem como negar. Fiquei tão extasiada em ver uma obra de arte como essa, com imagens maravilhosas, trilha sonora perfeita, lindos enquadramentos, metáforas imagéticas*, narrações que poderiam facilmente ser pensamentos meus, tudo em conjunto glorificando a Deus, e o que é melhor: sem cair no clichê.

É confortante ver artistas como Malick – conhecidos da grande mídia e pertencentes a um circuito tão restrito – não abrindo mão de uma obra autoral e fazendo do cinema um verdadeiro suporte artístico. Seu filme nos leva à contemplação e à reflexão sobre a fé de um jeito que os filmes cristãos, com suas historinhas bobinhas e irreais, não poderiam fazer.

Obrigada, Malick, por nos levar à profundidade. E obrigada também a tantos outros “Malicks”, não conhecidos da grande mídia, mas que fazem a diferença em seu meio, nos presenteando com belas obras de arte, no cinema, na música, nas artes plásticas, no grafite, na poesia, no design, no artesanato, na gastronomia, na moda, enfim. Saibam que vocês nos inspiram, e que a arte é, sim, um meio de glorificar a Deus e também de trazer mais beleza e leveza à nossa vida.

E o que mais dizer sobre o filme?

Bem, eu diria para você: simplesmente o assista e se delicie com cada minuto dele. Acredito que, assim como eu, você também ficará com a sensação de que qualquer palavra, frase ou conceito que tente definir o que é ou o porquê do filme possa soar como mera especulação.

Trailer aqui:

A Árvore da vida [The tree of life], EUA, 2011
Diretor: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Fiona Shaw, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Kari Matchett, Dalip Singh, Joanna Going, Jackson Hurst, Brenna Roth, Jennifer Sipes, Crystal Mantecon, Lisa Marie Newmyer
Produção: Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, Brad Pitt, Bill Pohlad
Roteiro: Terrence Malick
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Duração: 138min.
Distribuidora:
 Imagem Filmes
Estúdio: Cottonwood Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment / Brace Cove Productions

 

metáforas imagéticas* = eu não sei se existe essa expressão. Na verdade, pensei em dizer que há metáforas através de imagens no filme (o que pra mim fez total sentido essa expressão, hehe)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.