Os frutos atemporais de Árvore da vida

Demorei para assistir ao filme A Árvore da Vida, do cineasta americano Terrence Malick.

O filme foi lançado em 2011 e, como vocês podem perceber, levei apenas alguns anos para assisti-lo (rs).

É que às vezes gosto de esperar a poeira baixar, gosto de descobrir por mim mesma, ter minhas próprias impressões. Sei que estou “atrasada” e que este já não é o assunto discutido nas timelines da vida, mas depois que eu o assisti, percebi que, para cada fase da vida, determinado filme (ou livro) faz muito mais sentido, fala mais diretamente à alma da gente. E assim, fiquei muito feliz de tê-lo assistido só agora, porque percebi que não haveria melhor momento do que este, no qual me encontro. Assim, acredito que o assisti no tempo certo. No meu tempo certo.

Onde você estava quando lancei os alicerces da terra?
Responda-me, se é que você sabe tanto.
Quem marcou os limites das suas dimensões? Talvez você saiba!
E quem estendeu sobre ela a linha de medir?
E os seus fundamentos, sobre o que foram postos?
E quem colocou sua pedra de esquina,
enquanto as estrelas matutinas juntas cantavam
e todos os anjos se regozijavam?
Jó 38:4-7 (NVI)

São esses os versículos que abrem o filme. Meu coração palpitou, meus olhos umedeceram e ainda não havia aparecido qualquer outra imagem, senão esse trecho do livro de Jó. Nesse instante, percebi que, desde o primeiro frame, o filme já tinha me capturado, me levando ao início de uma contemplação e reflexão, que eu sequer havia imaginado que o filme poderia me levar.

As freiras nos ensinaram que existem dois caminhos na vida. O caminho da Natureza e o caminho da Graça. Você precisa escolher qual deles irá seguir. A Graça não procura satisfazer a si própria, ela aceita que a desprezem, que a esqueçam, que não gostem dela. Ela aceita ser insultada e ser ferida. A Natureza só quer satisfazer a si mesmo, e fazer com que os outros a satisfaçam. Ela gosta de ser livre e que façam a sua vontade. Ela procura razões para ser infeliz quando o mundo todo está feliz ao seu redor e o Amor está sorrindo através de todas as coisas. As freiras nos ensinaram que quem ama o caminho da Graça jamais têm um fim triste. Eu serei leal à Você aconteça o que acontecer.
(trecho posterior ao frame dos versículos citados acima)

Confesso que me faltam palavras para descrever tudo o que vi, ou melhor, o que eu senti ao ver A Árvore da vida. Mesmo porque algumas pessoas já teceram ótimos comentários sobre o filme e deram explicações que estão longe do meu humilde repertório. Essas contribuições, aliás, me ajudaram a compreender algumas partes mais complexas (que foi o caso do Guilherme de Carvalho, por exemplo. A propósito, seus comentários sempre me ajudam a compreender melhor a filosofia, a teologia e, agora, por que não dizer as artes? Você pode ler seu artigo sobre o filme aqui). Já outros escreveram sobre como o filme mudou suas percepções sobre a fé (como foi o caso do Zeca Camargo e você pode ler o blog dele aqui). Mas se eu pudesse me arriscar, humildemente eu diria que, para mim, o filme funcionou como uma luz e, por ser tão belo, acabou iluminando não a si próprio, mas a Deus. Sim, Deus é o foco, não tem como negar. Fiquei tão extasiada em ver uma obra de arte como essa, com imagens maravilhosas, trilha sonora perfeita, lindos enquadramentos, metáforas imagéticas*, narrações que poderiam facilmente ser pensamentos meus, tudo em conjunto glorificando a Deus, e o que é melhor: sem cair no clichê.

É confortante ver artistas como Malick – conhecidos da grande mídia e pertencentes a um circuito tão restrito – não abrindo mão de uma obra autoral e fazendo do cinema um verdadeiro suporte artístico. Seu filme nos leva à contemplação e à reflexão sobre a fé de um jeito que os filmes cristãos, com suas historinhas bobinhas e irreais, não poderiam fazer.

Obrigada, Malick, por nos levar à profundidade. E obrigada também a tantos outros “Malicks”, não conhecidos da grande mídia, mas que fazem a diferença em seu meio, nos presenteando com belas obras de arte, no cinema, na música, nas artes plásticas, no grafite, na poesia, no design, no artesanato, na gastronomia, na moda, enfim. Saibam que vocês nos inspiram, e que a arte é, sim, um meio de glorificar a Deus e também de trazer mais beleza e leveza à nossa vida.

E o que mais dizer sobre o filme?

Bem, eu diria para você: simplesmente o assista e se delicie com cada minuto dele. Acredito que, assim como eu, você também ficará com a sensação de que qualquer palavra, frase ou conceito que tente definir o que é ou o porquê do filme possa soar como mera especulação.

Trailer aqui:

A Árvore da vida [The tree of life], EUA, 2011
Diretor: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Fiona Shaw, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Kari Matchett, Dalip Singh, Joanna Going, Jackson Hurst, Brenna Roth, Jennifer Sipes, Crystal Mantecon, Lisa Marie Newmyer
Produção: Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, Brad Pitt, Bill Pohlad
Roteiro: Terrence Malick
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Duração: 138min.
Distribuidora:
 Imagem Filmes
Estúdio: Cottonwood Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment / Brace Cove Productions

 

metáforas imagéticas* = eu não sei se existe essa expressão. Na verdade, pensei em dizer que há metáforas através de imagens no filme (o que pra mim fez total sentido essa expressão, hehe)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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