Se eu quiser falar com Deus – Gilberto Gil

Sabe quando uma música fala muito com (e por) você que se transforma na sua oração?!

Então… essa música do Gilberto Gil Se eu quiser falar com Deus, me fisgou de uma forma inexplicável ontem à noite, que hoje pela manhã, inspirada por tão belos versos, fiz esse rabisco colorido :)

PS: E aproveitando a inspiração, mensalmente, iremos disponibilizar papéis de parede do Santa Paciência! Assim, aproveitamos o rabisco acima para ilustrar o mês de abril – e você pode baixá-lo aqui ou clicando na imagem abaixo.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quando os amigos não são tudo

Agata Wierzbicka
Arte da ilustradora polonesa Agata Wierzbicka

 

Desde a adolescência, minhas amizades sempre foram muito intensas. Eu estava disposta a oferecer para os meus amigos tudo o que eu tinha e, em troca, eu esperava tudo deles: lealdade, confiança, presença, disponibilidade, apoio e consolo eternos. Os amigos eram a família que escolhíamos, os irmãos por afinidade. Eram os laços que nunca se desfariam, quando todo o resto poderia se desmanchar no ar. Porque eles eram os amigos e isso era o mesmo que dizer que eles eram sólidos, fixos, estáveis… enfim, eles eram os meus amigos, não importasse em que circunstâncias. E uma coisa para a qual eu não dava a mínima era essa história de ser amigO ou amigA. Eu tinha a consciência leve como o ar de que amigos homens podiam, sim, continuar sendo meus amigos sem que existisse nisso alguma conotação amorosa (ainda penso assim, com ressalvas em determinadas situações… enfim, assunto para outro post).

Com essa concepção que eu tinha – de amizade profunda, que “tudo sofre e tudo crê” (porque qual é a base de uma amizade genuína, senão o amor?) –, eu comecei a buscar nos amigos as respostas para os  dilemas da minha vida: “Será que saio para dançar escondida dos meus pais?” (eles raramente me deixavam sair para dançar) ou… “Será que eu deveria deixar esse emprego no banco, que eu detesto mas que paga bem, para voltar a dar aulas de inglês, que eu gosto mas que paga mal?”, ou ainda: “Será que a [um nome qualquer] vai com a minha cara? Porque hoje ela me disse isso e isso e assim e assim… ”. E, desse jeito, minha visão sobre o mundo ia sendo construída a partir da visão dos meus amigos sobre o mundo e as demais infinitas possibilidades que explicassem a minha vida iam sendo trancadas dentro de uma caixinha. Eu dependia dos amigos não para que me aconselhassem apenas, mas para que me dissessem exatamente o que fazer.

Além dos problemas óbvios que se criam com essa tamanha dependência que desenvolvi por meus amigos, “me abrir” com eles em crises existenciais passou a ser também um hábito (natural?). Eu depositava neles o peso da minha angústia e esperava que suas palavras me oferecessem respostas. Não raras vezes, eles me olhavam, aflitos, sem saber o que dizer para amenizar minha dor. E eu os olhava de volta, ávida por uma palavra deles que resolvesse tudo. Eles me entendiam. Eles sabiam. Eles viam de fora. E, assim, meus amigos deixavam de ser amigos para desempenhar um papel impossível, quase divino, de oráculos, sábios, videntes, deuses. Com isso, não digo que desabafar com os amigos seja algo ruim. O problema é quando esperamos que eles não só nos ouçam, mas também nos ofereçam uma solução, o que nem sempre está ao alcance deles (e nem deveria estar).

Aprender que amigos são (e devem ser, por amor a eles) limitados tem sido uma lição dura para mim. Hoje, mais do que antes, as questões existenciais se apresentam com frequência, pedindo de mim que eu tire conclusões, que eu repense, ressignifique, volte atrás, dê um passo para frente, mude, transforme, me autodomine, me auto-responsabilize (ou ‘autorresponsabilize’ tudo junto?).
É o lindo, mas espinhoso caminho da autonomia emocional… eita, expressão difícil essa!

Semana passada passei por um momento de angústia das bravas. Queria chorar no ombro de alguém e pensei em duas grandes amigas para isso (uma delas minha irmã de sangue). Bastou que eu imaginasse a reação de uma delas – uma frustração profunda por não ter uma resposta pronta, uma solução rápida para o meu problema – para que eu desistisse de contar a elas. Não. Tem que ser diferente. Não posso depender delas para me erguer. Era preciso encontrar outra forma, contar com os meus próprios recursos e, na falta deles, recorrer a uma Pessoa muito, mas muito específica.

Há alguns anos já que venho confiando em um outro Amigo. Como não tenho dificuldade para amizades profundas (para amizades mais superficiais eu tenho uma meeega dificuldade!), fiz dessa Pessoa um confidente dos mais confiáveis. Chego para Ele em oração e não conto, me derramo. Choro e falo de frustrações, de raiva, dos medos, das maldades, dos sentimentos puros, de tudo, tudinho de tudo que vai aqui nesse coração sovado pela vida. E sempre, sem exceção, recebo alívio. É um alívio parecido com ar condicionado de carro, quando chove e a gente liga o ar e os vidros vão sendo desembaçados, sabe? É assim quando conto tudo para o meu Amigo. Ele desembaça o meu olhar. Me dá perspectiva e esperança. Me devolve os recursos para avaliar, escolher e seguir o caminho por mim mesma, sem que eu precise que os amigos me sirvam de muleta.

A essa altura, você deve estar se perguntando: e seus amigos de carne, osso e sinceridade? Onde ficam numa hora dessas? Meus amigos queridos – e que para sempre serão – ficam ao meu lado, me oferecendo sua presença apoiadora (às vezes até silenciosa), conscientes de que existe Alguém do lado de dentro de mim, trabalhando para que eu me fortaleça. Meus amigos queridos, então, são convidados à minha casa, para celebrarem comigo mais uma resposta não necessariamente encontrada, mas sim buscada no lugar certo: Nele, que é a verdadeira Fonte de toda vida, de todo conhecimento e conforto.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A Dança da Vida

The Essence of Ballet - La Bayadére - Edition 7 @ 2014 - ingridbugge.com
The Essence of Ballet – La Bayadére – Edition 7 @ 2014 – ingridbugge.com

– Vamos dançar? – a Vida me convidou.
E, assim, começou minha grande aventura,
marcada para esse tempo e espaço.

O tempo, passando foi.
E deixei o ritmo acelerado desse tal tempo ditar o rumo.
– Acho que algo está fora de compasso, fora do prumo – senti.

– É… Acho que entendi.
   É que, durante a dança, esqueci que tenho par e
   sozinha continuei a dançar.

– Vida, onde te deixei? – cansei de sozinha dançar.
– Você cansou porque esqueceu que Eu sou o seu par!
    Me permite te (re)conduzir? – sussurrou a Vida para mim.

E eu, cansada de sozinha dançar,
me entreguei novamente à dança,
mas, agora com a Vida feito par.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Feliz Luta Internacional da Mulher

mulher e o lobo 2
Imagem daqui.

Hoje é dia Internacional da mulher e, entre tantas mensagens nas redes sociais, notícias e falatórios, lojas oferecendo rosas às mulheres nas ruas, empresas fingindo que valorizam suas funcionárias e presenteando com “coisas de mulherzinha”, me pergunto se as pessoas realmente sabem o motivo dessa data ter sido instituída e a importância que essa luta (sim, luta, não é comemoração) tem pra toda a sociedade. Se você não sabe o motivo do dia 08 de Março ser estipulado como Dia Internacional da Mulher, vá atrás de saber. Não, eu não vou dar o caminho das pedras, vá ao Google, vá pesquisar. Se você que está lendo isso é uma mulher, digo isso porque faz parte do empoderamento feminino ir atrás daquilo que se quer, tornar-se protagonista das próprias decisões e escolhas, estudar, pesquisar, ir além. Se você que está lendo isso é um homem, faz parte da sua humanidade entender porque é que o dia 08 de Março é um dia de luta e não de entregar flores ou bombons às mulheres.

Pensar no Dia Internacional da Mulher, é, pra mim, angustiante, porque ser-mulher é uma das coisas mais difíceis que existem.

Eu não quero, no dia de hoje, receber flores, mensagens fofas ou declarações de quanto as mulheres são lindas ou poderosas porque “fazem tudo que o homem faz, de salto alto”. Não quero brindes comerciais que só servem pra fomentar a produção capitalista massificante ou enobrecer empregadores que no resto do ano não fazem porcaria nenhuma por suas funcionárias e/ou clientes mulheres. Não quero um jantar chique num restaurante, não quero que seja o dia de “folga dos afazeres domésticos”, o dia que os papais “ajudam” as mamães olhando as crianças pra elas irem tomar um café com as amigas. Não quero ser ressaltada e elogiada por minha fragilidade (hein?), minha capacidade de cuidar de marido e filho (oi?), minha competência de fazer jornada dupla – trabalho e casa (hahaha).

O que eu quero é que meu direito de ir e vir, garantido por Lei, seja respeitado. Eu, como muitas mulheres, sinto medo de ir ao mercadinho perto de casa a pé, porque no meio do caminho tem uma praça que está sempre cheia de homens desocupados que me tratam como objeto e ficam fazendo caras e bocas que me dão vontade de vomitar e de esfaquear cada um deles, fazendo-os sentir muita dor. Eles dizem coisas que tenho vergonha de reproduzir em voz alta. Eles torcem os pescoços pra ver minhas pernas, minha bunda e meus peitos e eu queria que os pescoços torcessem de vez e quebrassem ali mesmo, no meio da praça.

mulher e o lobo
Re-significando a natureza selvagem da mulher. Foto daqui.

O que eu quero é meu direito de existir sozinha. Alguns anos atrás eu saí do meu antigo consultório, às 22h30m, sozinha, depois de trabalhar muito o dia todo. Era semi final da Libertadores e o Corinthians estava num momento histórico. Meu marido foi assistir ao jogo com amigos e eu preferi ir pra casa, mas, antes resolvi passar no mercado e comprar o jantar. No estacionamento, quando terminei de colocar a última sacola no porta malas, um homem e uma mulher (sim, existem mulheres ladras e más) me abordaram, avisando que aquilo era um assalto e me fizeram ir dirigindo até a agência bancária mais próxima. Limparam minha conta, apontaram uma arma pra mim, riram de mim, me humilharam, me xingaram, depois me fizeram dirigir até um beco, vazio e desconhecido por mim, saíram do carro levando a chave e me ameaçaram ao dizer que eu não devia procurar ajuda pra sair dali. Sabem o que eu ouvi da minha mãe, da minha sogra, de muitas amigas? “Nossa Talita, mas por que é que você foi ao mercado essa hora da noite sozinha?!” Também ouvi: você devia ter ido assistir ao jogo com seu marido, se estivesse ao lado dele, nada teria acontecido com você. E também ouvi: a culpa é do seu marido, se ele não tivesse deixado (isso mesmo, deixado, como se ele mandasse em mim) você ir ao mercado sozinha, isso não teria te acontecido; você devia ter ido com ele, outro dia, não nesse (sim, porque o marido deixar de assistir o futebol pra ir ao mercado não pode, entendeu?). Eu tinha sofrido um sequestro relâmpago, mas a culpa não era da violência, a culpa não era dos assaltantes, a culpa era minha por ser mulher e ter ido ao mercado sozinha.

O que eu quero é poder realizar as minhas atividades diárias e até passar por imprevistos na rua, sem medo de ser estuprada. Meu carro está com problemas no reservatório de água. Como eu trabalho demais e uso o carro pra trabalhar, ainda não tive tempo de deixá-lo no conserto. Ontem à noite (pois é, eu não aprendo sociedade, eu continuo indo trabalhar a noite, sozinha) estava indo pro trabalho e já tinha vazado, ao longo do dia, toda a água. Não tinha posto de gasolina no caminho (e mesmo que tivesse, eu não pararia, porque uma mulher sozinha não pode ir em paz ao posto de gasolina, os frentistas acham que podem ficar mexendo com a gente no ambiente deles, “masculino”) e então, fui com o carro fervendo até um dos Shoppings onde atendo, e, só lá, no estacionamento, peguei a garrafa de água que já deixei no carro e enchi o reservatório. E ainda tive que me preocupar em estacionar numa vaga próximo à porta de entrada, onde tem guarda e mais movimento. Sim, isso tudo porque sou mulher. Não é o máximo? E aí, no dia 08 de Março vêm me entregar flores? Ah vá.

O que eu quero é que ao invés de brindes como creme hidratante, batom, perfume, rosas, cartinhas coloridas, as mulheres ganhem no dia 08 de Março, de seus empregadores e outras empresas, DVD’s de filmes de grandes cineastas mulheres, como a Sofia Coppola, ou livros de grandes autoras, como a Clarice Lispector ou a Doris Lessing. Por que sempre tem que ser presentinho fofinho que incentiva a beleza física da mulher, e não sua inteligência, sua intelectualidade, seu brilho interno? Por que sempre os produtos de beleza são mais valorizados ou vêm em primeiro lugar, antes de algo que valorize a sabedoria feminina? E aqui eu indico a leitura desse texto, bacanérrimo, que a Ana Lucie – querida leitora do Santa Paciência – me enviou hoje, sobre a Jenny Beavan, ganhadora do Oscar 2016 de Melhor Figurino por Mad Max: Fury Road (história de uma outra super mulher!). Jenny já foi indicada ao Oscar DEZ vezes na categoria Melhor Figurino, já levou a estatueta em duas premiações (por Mad Max, já citado, e por A Room With a View), e recebeu olhares julgadores e tortuosos pura e simplesmente por ter escolhido ir vestida confortavelmente à entrega do prêmio, muito diferente das mulheres exageradamente arrumadas no tapete vermelho mais famoso do mundo. Sério, eu quero muito mais Jennys no mundo!

Beaven
Jenny Beavan, winner for Best Costume Design for “Mad Max: Fury Road”, poses during the 88th Academy Awards in Hollywood, California February 28, 2016. REUTERS/Mike Blake – RTS8H6D

O que eu quero é que os produtores de cerveja parem de usar a mulher como objeto sexual pra atrair mais consumidores homens e se lembrem que as mulheres também são suas clientes, também bebem cerveja.

O que eu quero é que parem de usar mulheres quase nuas como ring girls em eventos de lutas, como o UFC, só pra atrair Ibope pros canais televisivos e pro “show” em si. E quero que mais mulheres lutadoras tenham espaço no esporte de lutas e artes marciais. Quero que homens pensem quinze vezes antes de dizer que alguém mais fraco ou menos habilidoso “luta igual uma menininha”. Quero que entendam que mulher também gosta de esportes, inclusive de MMA, porque esporte é esporte e ponto, não existe esporte de homem ou esporte de mulher.

O que eu quero é que as mulheres tenham direito à educação, direito à voz. Eu já escutei uma moça dizendo que se ela tivesse oportunidade de colocar só um dos filhos em escola particular, seria o menino, porque ele se tornaria o líder da família quando adulto, o provedor, então precisaria ter melhor educação. A filha não, tudo bem estudar na escola pública, mesmo. Não te dá vontade de chorar de tristeza? A mim, dá.

O que eu quero é que meninas em idade escolar não se sintam mal por não serem as populares, as preferidas pelos garotos por alcançarem um padrão ridículo de beleza. Quero que meninas parem de sentir que precisam ser as preferidas dos garotos pra se perceberem como seres humanos importantes. Quero que meninas tenham a oportunidade de crescerem seguras, aceitas, queridas, antes de tudo, por si mesmas.

O que eu quero é que deixe de existir esse acúmulo terrível de notícias sobre feminicídio, sobre homens e mulheres que matam suas parceiras por ciúme e possessividade, que espancam suas esposas porque se sentem poderosos e superiores, que violentam física e emocionalmente meninas, tirando delas a liberdade de crescer em uma vida em paz.

O que eu quero é valorização no trabalho. Não é mais destaque, não é mais firula, é reconhecimento daquilo que as mulheres já fazem o tempo todo. Quero que as mulheres não sejam mais assediadas sexual ou moralmente por seus chefes (homens ou mulheres). Quero que tenham salários baseados em suas competências, não no que tem (ou não tem) no meio das pernas. Quero que mulheres não sejam fantoches de homens.

O que eu quero é respeito, entendeu? Quero que as mulheres sejam tratadas com dignidade. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres com educação e gentileza, com presteza, com afeto. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres como seres humanos que são, co-existentes no mundo. De forma justa. Quero mais mulheres empoderadas, quero menos homens babacas.

Quero mais mulheres como a descrita em Provérbios 31. Essa mulher hardcore, como eu disse aqui uns dias atrás.

Se você pegar a Bíblia e ler decentemente o que está escrito em Provérbios capítulo 31, do versículo 10 até o 31, vai entender que a mulher que Salomão (um homem, sim, um homem, um rei, descrevendo características de uma mulher “de valor”; baixa a guarda e presta atenção) descreveu como virtuosa não é uma cafona, bobalhona, amélia, domesticada (no sentido ínfimo de cada palavra). Ele já começa dizendo que a bendita é difícil de achar. Ou seja, se é difícil de achar, também é difícil ser, certo? Certo. Depois ele fala que essa mulher vale mais que diamantes. Que ela é confiável, tem temperamento equilibrado, é inteligente, não é do tipo que é passada pra trás, é esperta. É analítica, de mente organizada, planeja, não tem medo de trabalhar pesado e sente alegria e prazer no trabalho. Não tem pressa de dar o dia por encerrado e compreende o valor do que faz, compreende o valor que tem. Ela se cuida, se preocupa com si mesmo e também não demora em ajudar quem precisa dela, sendo que sempre tem o que oferecer, porque é prevenida e habilidosa. Faz as coisas com zelo, é criativa, intuitiva e sabe bem o que faz e o que diz. É atenta, sabe dar orientações eficazes e conselhos sábios. Torna quem está ao seu redor produtivo e sempre encara o dia de amanhã com um sorriso. É humilde e vive no temor do Eterno, seu Deus.

lucia e aslan
Aaah, Aslan! (Cena do filme As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian)

Percebe que essa descrição bíblica combina com o conceito de uma mulher forte e de atitude? Pois é, combina. Percebe que é o conceito de mulher que não é obrigada a casar e ser mãe pra ser feliz, que trabalha e garante seu sustento, que vai atrás do que quer, que não fica à sombra dos homens? Percebe que é uma mulher que brilha? Isso é o que eu quero pra mim e pra você, querida mulher, hoje e todos os dias.

Feliz Luta Internacional da Mulher.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Não nos deem os parabéns

Dia das mulheres_2016
‘Mirror’, por Tigran Tsitoghdzyan, óleo sobre tela

 

Não gosto de receber ‘parabéns’ pelo dia das mulheres, nem flores, menos ainda um poema breguinha. E explico por quê:  minha indisposição para sorrisinhos e congratulações não se devem à data em si, que é, na verdade, um marco na história feminina e deve sim continuar no calendário como um memorial de que, um dia, mulheres se recusaram a ser exploradas no trabalho e lutaram por seus direitos como… seres humanos que são. Entretanto, com o passar do tempo, a força dessa data começou a ser diluída e, no lugar, passamos a receber gracejos e elogios por nossa fragilidade (!!), quase como uma declaração do tipo: “sinto por você ter nascido mais fraca, mas veja pelo lado bom, você é bonita!”. Aff!

Quando leio Provérbios 31.10 em diante, respiro aliviada: Salomão entendeu do que somos feitas e, acima de tudo, fez uso da palavra que resume todas as coisas, que atinge o cerne da questão feminina e que responde a pergunta sobre o que eu quero receber no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano e da vida: DIGNIDADE (verso 25).

Pronto! Se fosse dignidade o que regesse nossas relações todos os dias do ano, a mulher não serviria de objeto sexual, não veria seu direito à educação negada em países regidos pelo Talibã, não teria medo de ser estuprada na rua quando seu carro quebrasse no meio da noite (pois é, isso aconteceu ontem mesmo), não seria alvo de piadas, nem de agressão física, nem de preconceitos de diversas naturezas.

A passagem da mulher virtuosa de Provérbios não é apenas uma homenagem (aí sim, genuína e linda e recebo-a no dia de hoje com o coração aberto e feliz) para as mulheres, mas sim uma lição para a humanidade sobre dignidade, respeito e justiça. Se fossem esses os princípios que regessem as nossas relações de fato, os poemas, os ‘parabéns’ ou qualquer outro gesto atencioso não teria esse gosto de coisa forçada, artificial, hipócrita, do tipo você-finge-que-me-respeita-e-eu-finjo-que-acredito. Se aprendêssemos com Provérbios 31, este momento seria mais um dia de celebração natural do amor e da graça de Deus, espelhados através de todos nós sobre todos nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a tal mulher virtuosa

A Bíblia, ao contrário do que muitos pensam, não é um livro (ou um conjunto de livros) retrógrado, desatualizado e completamente fora de contexto. Creio realmente que até aqueles que não acreditam em sua veracidade, e como nós, a têm como Palavra de Deus, poderiam se beneficiar (e muito!) de seus conselhos. Porque se tem uma coisa que o homem está fadado é repetir, e repetir, e repetir os mesmos erros. Indiferente de época, civilização ou cultura. É isso: somos previsíveis!

Linda ilustração de Lady Desidia (ladydesidiashop.bigcartel.com)

Mas, hoje, meu intuito não é esse, aproveitando a data comemorativa, o Dia Internacional das Mulheres, gostaria de discorrer um pouquinho sobre a tal mulher virtuosa que Salomão fala em Provérbios 31 e que também tece tão belos elogios.

O que me chama a atenção logo no início do texto é a cumplicidade que esse casal tem. Ele fala que Seu marido tem plena confiança nela 11 e ao meu ver, confiança, é um dos itens de necessidade básica para qualquer relacionamento, quem dirá em um casamento! Como ser-casal sem ter confiança? Como ser-casal sem ser unidade? Como se relacionar sem confiar? Então, item básico exposto, prossigamos a análise…

Posteriormente, Salomão fala sobre várias atividades domésticas, de administração de negócios (eu disse negócios!), de virtudes altruístas, de habilidades manuais, de não ter medo (e muito menos preguiça!) de trabalhar, de ser acolhedora, do dom da educação, enfim, quando leio dos versículos 12 ao 28, na verdade, eu penso em muitas mulheres! E, com isso, eu não creio que ele esteja falando que uma única mulher, para ser virtuosa, tenha que saber, e fazer, item por item tudo aquilo que ele descreveu, como numa espécie de check-list. Por quê? Porque, para mim, é simples: primeiro que um único dia não seria suficiente para fazer tudo isso, a não ser que essa mulher não dormisse, porém, muito mais do que isso, penso que somos únicas, criadas com tanta criatividade e exclusividade que seria muito chato se fossemos todas idênticas umas às outras tentando ser aquilo que não somos e tentando calçar os sapatos que não são nossos (como já disse a Fernanda em um post tempos atrás).

Por isso, penso que Salomão foi extremamente sábio (e quando criança eu desejei tanto a sabedoria dele!) em discorrer em poucos versículos, as várias mulheres que existem, tomando o cuidado para não excluir a diferença. E, é exatamente aí, que eu vejo a graça desse epílogo: ele fala de mim, mas, fala de você também! Ele não exclui a diferença, mas exalta as qualidades que todas nós temos. Por isso, esse texto é tão belo, porque se há apenas algum item do qual devemos ser idênticas, é o que ele expõe no versículo 30, que devemos temer ao Senhor. Pois, temendo a Deus, acima de todas as coisas, seremos verdadeiramente recompensadas.

Um Feliz Dia das Mulheres para mim e para você!

Gif de Monica Crema: www.monicacrema.com.br
Gif de Monica Crema: http://www.monicacrema.com.br

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Nasci Menina, me pari mulher

O Santa Paciência chegou à minha vida em um momento de re-significações. E aí eu me propus a escrever um texto sobre feminilidade, mas, entendi que, então, eu preciso escrever sobre a mulher que eu quero ser. Como eu vou escrever sobre feminilidade, se eu não entendo bem a minha feminilidade? E esse texto será, na verdade, um parto daquilo que vem sendo gerado há exatos 29 anos na Terra, já que hoje completo minha vigésima nona volta ao redor do sol e entro no meu ano trinta, mais os 9 meses no ventre da dona Nena.

Fiquei pensando nessa mulher que quero ser e aí, me auto boicotei usando uma ferramenta conhecida: racionalizei. Eu racionalizo tudo, tenho resposta pra tudo e dessa vez a resposta foi: Talita, sua tola, você é existencialista, é ser-de-infinitas-possibilidades, nunca deverá se fechar num tipo só, você é o que quiser ser, não fique pensando nisso. Pois bem, de fato eu existo no mundo de formas diversas, mas, eu sinto a necessidade de me apropriar de mim mesmo, ser autêntica, e isso inclui pensar na minha feminilidade.

“Então chegou o dia em que o risco necessário de permanecer apertada em um botão era mais doloroso que o risco necessário para florir”.
(Anaïs Nin)

Sempre tive interesse no tema, provavelmente pelo fato de ter ouvido incontáveis vezes, desde pequena, que eu deveria ser mais feminina. Aliás, creio que escutei demais que eu deveria muitas coisas. Talvez, por isso, cresci me cobrando a perfeição e sendo tão intolerante às minhas falhas humanas e tendo contratura muscular durante a meditação no yoga. Meu Deus, quem é que tem contratura muscular em plena meditação?! Eu tenho. Eu tinha. Eu tive, não quero ter mais.

Nunca tive o perfil de mocinha. Eu gostava de brinquedos, brincadeiras, roupas e várias outras coisas consideradas de menina, mas, eu também gostava disso tudo quando era considerado de menino e eu era, já na infância, segundo meus pais, afiada nas respostas, teimosa, brava, arisca. Não combinava com a delicadeza que era esperada por parte das garotas. Contrariava, impunha minha opinião e não baixava a cabeça pros meninos. Incomum. Meio estranha. Dizem por aí que é porque sou de Peixes, mas eu não entendo muito bem de signos.

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Crédito na imagem

Sei que a cada dia que passa me descubro, me revelo e me desvelo, na tentativa de encontrar meu caminho próprio. Sim, o meu caminho, onde só se encaixam os meus pés, o meu corpo e o meu ritmo. Onde sou apropriada de mim. E ser menininha parece que nunca me foi próprio, embora traga isso em meu nome, nome próprio. Não é engraçado, aquilo que chamamos de próprio não foi escolhido por nós? Nosso nome.  Meu nome é Talita (sem h, pelo amor de Jesus Cristo nosso Senhor amém), uma palavra aramaica, cuja tradução em português é nada menos que menina. Sou-Menina. Nasci Menina. E embora cor de rosa, ballet e frufrus não combinem comigo, tem uma história sobre meu nome próprio que eu adoro, está registrada na Bíblia, em Marcos, capítulo 5. Tá, a história não é sobre meu nome, vai, mas nessa história Jesus falou meu nome num contexto que eu interpreto como fazendo parte de quem eu sou e do que eu tenho entendido como sendo próprio de mim.

Jesus estava passando por vários lugares, curando pessoas, fazendo milagres e mostrando sinais. Então, à beira mar, um cara chamado Jairo, que era um dos líderes da igreja dali da região, implorou que Jesus fosse ver sua filha, que estava morrendo. Jesus foi. No meio do caminho, algumas pessoas cruzaram com eles, vindas da casa do Jairo e falaram pra ele parar de incomodar Jesus, porque a filha dele já tinha morrido. Pessoas agradabilíssimas deviam ser. Jesus virou pro Jairo e disse: não liga pra eles, simplesmente confie em mim (olha, eu já perdi as contas de quantas vezes Jesus me disse isso também). Quando chegaram à casa do Jairo, um bando de gente inconveniente e intrometida ficou no meio do caminho. Jesus deu um fora neles (Ele devia ter umas tiradas sensacionais) e falou pra pararem com o falatório, porque a menina estava apenas dormindo. Aí Ele entrou no quarto da menina, segurou a mão dela e disse: “Talita cumi!”, que traduzindo do aramaico significa: menina, levante!

E é aqui que tudo começa a fazer sentido pra mim e que eu entendo como sendo a história da minha construção, da minha feminilidade e da minha forma de existir-no-mundo. Talvez você se familiarize, talvez ache uma completa bobagem ou talvez se identifique. Seja como for, a questão é gerar a reflexão de que nós, mulheres, não temos um padrão exato em que devemos nos encaixar e plastificar (Já assistiram ao filme Mulheres Perfeitas? E o filme Garota Exemplar? Assistam!). Somos um movimento, uma construção.

 “Seu lugar está entre as flores silvestres
Seu lugar está em um barco em alto mar
Seu lugar está com seu amor em seus braços
Seu lugar está em algum lugar onde você se sinta livre”.
(Tom Petty)

E a sociedade, o machismo, a mídia, as igrejas, as religiões, as novelas, os livros, Hollywood, a Disney, o feminismo, nossos pais e mães, nossos companheiros e companheiras, a líder do nosso grupo pequeno ou do ministério de mulheres, nossos professores, nossos terapeutas, nossos filhos, nossos amigos e amigas, não são os designers, arquitetos, engenheiros, mestres de obra e pedreiros do nosso próprio projeto de existência.

Temos um Criador. E quem trabalha junto dEle somos nós, nessa tarefa árdua e sublime de construção do eu. Conexão direta, pá-pum. Essa galera toda pode e vai atuar como colaboradores terceirizados, mas a responsabilidade de ser e existir autenticamente é nossa, doa o quanto doer e custe o quanto custar. E dói. E custa.

Sim, eu sei de tudo isso desde sempre, mas, nesse contexto sexista em que vivo, fui patinho feio em muitas turmas ao me afirmar uma feminina fora do padrão imposto. Principalmente no meio cristão, porque, veja bem, a chamada mulher virtuosa te parece combinar com o conceito de uma mulher independente, forte e de atitude? Eu aprendi que não. Não a mulher virtuosa da Bíblia, mas o conceito torto que fizeram do que aparece na Bíblia. A mulher virtuosa da Bíblia é hardcore, depois falo dela aqui, também!

Muitas vezes precisamos nos desconstruir e reconstruir a partir daquilo que é verdadeiramente nosso, e não dos nossos pais (o que é feito na nossa criação, nosso desenvolvimento), da sociedade e desses outros agentes que já falei aí em cima. E eu acredito que pra mulher esse trabalho pode ser mais puxado, porque a cobrança em cima de nós é devastadora.

“Deus pôs em seu íntimo uma feminilidade que é poderosa e terna, impetuosa e fascinante. Não há dúvida de que ela tem sido mal compreendida. Certamente, tem sido agredida. Mas está ali, seu verdadeiro coração, e vale a pena recuperá-lo”.
(Stasi Eldredge no livro Em Busca da Alma Feminina)

Já ouvi absurdos de vários tipos (cito aqui só as coisas mais básicas, ok?), como pessoas dizendo que eu ficaria mais bonita se usasse maquiagem, que salto alto valorizaria minhas pernas, que se eu emagrecesse uns 5 quilinhos ia ficar melhor apresentável, que eu deveria ser mais meiga porque boas moças não são enérgicas, que eu tenho muita atitude e isso assusta, que eu tenho um jeitinho determinado que intimidaria os rapazes, que não posso ser muito independente porque homem gosta de cuidar, que não posso ser forte porque homem gosta de proteger, que não posso ser muito segura porque homem se sente inferiorizado, que meu cabelo enrolado e volumoso chama muita atenção e eu deveria alisá-lo. E talvez eu chame tudo isso de absurdos porque se trata justamente do que eu não quero ser como mulher. Eu não quero ser bonita segundo o padrão das revistas de moda, eu não quero ser maternal com os homens, eu não quero ser dependente do meu marido, eu não quero ser o sexo frágil. Também não quero ser caracterizada como masculina por não ser melindrosa, não ser fofa, não ser delicada, por ter firmeza e atitude. O sexismo me dá preguiça, eu só quero ser eu.

E percebo que pra construir minha identidade, não adianta ficar tentando encontrar uma mulher referência. Minha autenticidade está no construir e re-significar, está na minha relação com o Deus que acredito, está na história da filha do Jairo. Isso é o que eu tenho escutado do meu Criador a respeito do modo como minha feminilidade se mostrará própria. A forma como aos poucos me desconstruirei, me livrarei da domesticação a qual fui submetida e poderei me identificar com a mulher saudável que a Clarissa cita no livro Mulheres que Correm com os Lobos, que eu vivo indicando aqui no Santa Paciência:

“Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas pra ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez”.

E quando eu leio isso, eu percebo o quão feminina eu sou, justamente por estar fora do padrão imposto que dita o que é a feminilidade. E lembro da história da filha de Jairo, quando Jesus diz meu nome e ordena: levante! Meu, essa é a mulher que eu quero ser! Que levanta! Que se movimenta como um lobo saudável. E eu fico ainda mais feliz com meu nome, porque mesmo eu não sendo mais uma menina em idade, Deus me olha como uma menina, assim como um pai sempre vê sua filha como uma garotinha, e Ele me diz: levanta! Ele me move pra cima, pra frente, me tira do tédio e me mostra a natureza selvagem dentro de mim que vem dEle, Ele alimenta minha fé.

Lembro de uma frase da Katniss Everdeen no livro Jogos Vorazes (sim, esse livro de novo!):

“(…) Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis”.

Jesus pega minha mão e diz: Talita, levanta!

Mesmo assim, sei que não serei completa até minha passagem da Terra. E isso é ótimo! Eu quero ser ser-em-movimento o tempo todo. Aprender, mudar, re-significar.

 “Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer”.
(Ana Jacomo)

TalitaBirthdaySP


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.