Nasci Menina, me pari mulher

O Santa Paciência chegou à minha vida em um momento de re-significações. E aí eu me propus a escrever um texto sobre feminilidade, mas, entendi que, então, eu preciso escrever sobre a mulher que eu quero ser. Como eu vou escrever sobre feminilidade, se eu não entendo bem a minha feminilidade? E esse texto será, na verdade, um parto daquilo que vem sendo gerado há exatos 29 anos na Terra, já que hoje completo minha vigésima nona volta ao redor do sol e entro no meu ano trinta, mais os 9 meses no ventre da dona Nena.

Fiquei pensando nessa mulher que quero ser e aí, me auto boicotei usando uma ferramenta conhecida: racionalizei. Eu racionalizo tudo, tenho resposta pra tudo e dessa vez a resposta foi: Talita, sua tola, você é existencialista, é ser-de-infinitas-possibilidades, nunca deverá se fechar num tipo só, você é o que quiser ser, não fique pensando nisso. Pois bem, de fato eu existo no mundo de formas diversas, mas, eu sinto a necessidade de me apropriar de mim mesmo, ser autêntica, e isso inclui pensar na minha feminilidade.

“Então chegou o dia em que o risco necessário de permanecer apertada em um botão era mais doloroso que o risco necessário para florir”.
(Anaïs Nin)

Sempre tive interesse no tema, provavelmente pelo fato de ter ouvido incontáveis vezes, desde pequena, que eu deveria ser mais feminina. Aliás, creio que escutei demais que eu deveria muitas coisas. Talvez, por isso, cresci me cobrando a perfeição e sendo tão intolerante às minhas falhas humanas e tendo contratura muscular durante a meditação no yoga. Meu Deus, quem é que tem contratura muscular em plena meditação?! Eu tenho. Eu tinha. Eu tive, não quero ter mais.

Nunca tive o perfil de mocinha. Eu gostava de brinquedos, brincadeiras, roupas e várias outras coisas consideradas de menina, mas, eu também gostava disso tudo quando era considerado de menino e eu era, já na infância, segundo meus pais, afiada nas respostas, teimosa, brava, arisca. Não combinava com a delicadeza que era esperada por parte das garotas. Contrariava, impunha minha opinião e não baixava a cabeça pros meninos. Incomum. Meio estranha. Dizem por aí que é porque sou de Peixes, mas eu não entendo muito bem de signos.

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Crédito na imagem

Sei que a cada dia que passa me descubro, me revelo e me desvelo, na tentativa de encontrar meu caminho próprio. Sim, o meu caminho, onde só se encaixam os meus pés, o meu corpo e o meu ritmo. Onde sou apropriada de mim. E ser menininha parece que nunca me foi próprio, embora traga isso em meu nome, nome próprio. Não é engraçado, aquilo que chamamos de próprio não foi escolhido por nós? Nosso nome.  Meu nome é Talita (sem h, pelo amor de Jesus Cristo nosso Senhor amém), uma palavra aramaica, cuja tradução em português é nada menos que menina. Sou-Menina. Nasci Menina. E embora cor de rosa, ballet e frufrus não combinem comigo, tem uma história sobre meu nome próprio que eu adoro, está registrada na Bíblia, em Marcos, capítulo 5. Tá, a história não é sobre meu nome, vai, mas nessa história Jesus falou meu nome num contexto que eu interpreto como fazendo parte de quem eu sou e do que eu tenho entendido como sendo próprio de mim.

Jesus estava passando por vários lugares, curando pessoas, fazendo milagres e mostrando sinais. Então, à beira mar, um cara chamado Jairo, que era um dos líderes da igreja dali da região, implorou que Jesus fosse ver sua filha, que estava morrendo. Jesus foi. No meio do caminho, algumas pessoas cruzaram com eles, vindas da casa do Jairo e falaram pra ele parar de incomodar Jesus, porque a filha dele já tinha morrido. Pessoas agradabilíssimas deviam ser. Jesus virou pro Jairo e disse: não liga pra eles, simplesmente confie em mim (olha, eu já perdi as contas de quantas vezes Jesus me disse isso também). Quando chegaram à casa do Jairo, um bando de gente inconveniente e intrometida ficou no meio do caminho. Jesus deu um fora neles (Ele devia ter umas tiradas sensacionais) e falou pra pararem com o falatório, porque a menina estava apenas dormindo. Aí Ele entrou no quarto da menina, segurou a mão dela e disse: “Talita cumi!”, que traduzindo do aramaico significa: menina, levante!

E é aqui que tudo começa a fazer sentido pra mim e que eu entendo como sendo a história da minha construção, da minha feminilidade e da minha forma de existir-no-mundo. Talvez você se familiarize, talvez ache uma completa bobagem ou talvez se identifique. Seja como for, a questão é gerar a reflexão de que nós, mulheres, não temos um padrão exato em que devemos nos encaixar e plastificar (Já assistiram ao filme Mulheres Perfeitas? E o filme Garota Exemplar? Assistam!). Somos um movimento, uma construção.

 “Seu lugar está entre as flores silvestres
Seu lugar está em um barco em alto mar
Seu lugar está com seu amor em seus braços
Seu lugar está em algum lugar onde você se sinta livre”.
(Tom Petty)

E a sociedade, o machismo, a mídia, as igrejas, as religiões, as novelas, os livros, Hollywood, a Disney, o feminismo, nossos pais e mães, nossos companheiros e companheiras, a líder do nosso grupo pequeno ou do ministério de mulheres, nossos professores, nossos terapeutas, nossos filhos, nossos amigos e amigas, não são os designers, arquitetos, engenheiros, mestres de obra e pedreiros do nosso próprio projeto de existência.

Temos um Criador. E quem trabalha junto dEle somos nós, nessa tarefa árdua e sublime de construção do eu. Conexão direta, pá-pum. Essa galera toda pode e vai atuar como colaboradores terceirizados, mas a responsabilidade de ser e existir autenticamente é nossa, doa o quanto doer e custe o quanto custar. E dói. E custa.

Sim, eu sei de tudo isso desde sempre, mas, nesse contexto sexista em que vivo, fui patinho feio em muitas turmas ao me afirmar uma feminina fora do padrão imposto. Principalmente no meio cristão, porque, veja bem, a chamada mulher virtuosa te parece combinar com o conceito de uma mulher independente, forte e de atitude? Eu aprendi que não. Não a mulher virtuosa da Bíblia, mas o conceito torto que fizeram do que aparece na Bíblia. A mulher virtuosa da Bíblia é hardcore, depois falo dela aqui, também!

Muitas vezes precisamos nos desconstruir e reconstruir a partir daquilo que é verdadeiramente nosso, e não dos nossos pais (o que é feito na nossa criação, nosso desenvolvimento), da sociedade e desses outros agentes que já falei aí em cima. E eu acredito que pra mulher esse trabalho pode ser mais puxado, porque a cobrança em cima de nós é devastadora.

“Deus pôs em seu íntimo uma feminilidade que é poderosa e terna, impetuosa e fascinante. Não há dúvida de que ela tem sido mal compreendida. Certamente, tem sido agredida. Mas está ali, seu verdadeiro coração, e vale a pena recuperá-lo”.
(Stasi Eldredge no livro Em Busca da Alma Feminina)

Já ouvi absurdos de vários tipos (cito aqui só as coisas mais básicas, ok?), como pessoas dizendo que eu ficaria mais bonita se usasse maquiagem, que salto alto valorizaria minhas pernas, que se eu emagrecesse uns 5 quilinhos ia ficar melhor apresentável, que eu deveria ser mais meiga porque boas moças não são enérgicas, que eu tenho muita atitude e isso assusta, que eu tenho um jeitinho determinado que intimidaria os rapazes, que não posso ser muito independente porque homem gosta de cuidar, que não posso ser forte porque homem gosta de proteger, que não posso ser muito segura porque homem se sente inferiorizado, que meu cabelo enrolado e volumoso chama muita atenção e eu deveria alisá-lo. E talvez eu chame tudo isso de absurdos porque se trata justamente do que eu não quero ser como mulher. Eu não quero ser bonita segundo o padrão das revistas de moda, eu não quero ser maternal com os homens, eu não quero ser dependente do meu marido, eu não quero ser o sexo frágil. Também não quero ser caracterizada como masculina por não ser melindrosa, não ser fofa, não ser delicada, por ter firmeza e atitude. O sexismo me dá preguiça, eu só quero ser eu.

E percebo que pra construir minha identidade, não adianta ficar tentando encontrar uma mulher referência. Minha autenticidade está no construir e re-significar, está na minha relação com o Deus que acredito, está na história da filha do Jairo. Isso é o que eu tenho escutado do meu Criador a respeito do modo como minha feminilidade se mostrará própria. A forma como aos poucos me desconstruirei, me livrarei da domesticação a qual fui submetida e poderei me identificar com a mulher saudável que a Clarissa cita no livro Mulheres que Correm com os Lobos, que eu vivo indicando aqui no Santa Paciência:

“Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas pra ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez”.

E quando eu leio isso, eu percebo o quão feminina eu sou, justamente por estar fora do padrão imposto que dita o que é a feminilidade. E lembro da história da filha de Jairo, quando Jesus diz meu nome e ordena: levante! Meu, essa é a mulher que eu quero ser! Que levanta! Que se movimenta como um lobo saudável. E eu fico ainda mais feliz com meu nome, porque mesmo eu não sendo mais uma menina em idade, Deus me olha como uma menina, assim como um pai sempre vê sua filha como uma garotinha, e Ele me diz: levanta! Ele me move pra cima, pra frente, me tira do tédio e me mostra a natureza selvagem dentro de mim que vem dEle, Ele alimenta minha fé.

Lembro de uma frase da Katniss Everdeen no livro Jogos Vorazes (sim, esse livro de novo!):

“(…) Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis”.

Jesus pega minha mão e diz: Talita, levanta!

Mesmo assim, sei que não serei completa até minha passagem da Terra. E isso é ótimo! Eu quero ser ser-em-movimento o tempo todo. Aprender, mudar, re-significar.

 “Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer”.
(Ana Jacomo)

TalitaBirthdaySP


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

3 comentários sobre “Nasci Menina, me pari mulher

  1. Amei seu texto.Essa reflexão é inspiradora mas também traz uma sensação de tempo perdido para mulheres já idosas,como eu, que desde pequenas fomos formadas (colocadas numa forma) para nos adaptarmos às exigências da sociedade em que vivemos, se quiséssemos sobreviver no meio. No entanto me parece que só pessoas mais jovens têm toda essa força para eclodir como uma mulher selvática, e devem fazê-lo. Necessitamos de muita coragem e determinação para “virar a própria mesa”.Obrigada,Carmem

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