Quando os amigos não são tudo

Agata Wierzbicka
Arte da ilustradora polonesa Agata Wierzbicka

 

Desde a adolescência, minhas amizades sempre foram muito intensas. Eu estava disposta a oferecer para os meus amigos tudo o que eu tinha e, em troca, eu esperava tudo deles: lealdade, confiança, presença, disponibilidade, apoio e consolo eternos. Os amigos eram a família que escolhíamos, os irmãos por afinidade. Eram os laços que nunca se desfariam, quando todo o resto poderia se desmanchar no ar. Porque eles eram os amigos e isso era o mesmo que dizer que eles eram sólidos, fixos, estáveis… enfim, eles eram os meus amigos, não importasse em que circunstâncias. E uma coisa para a qual eu não dava a mínima era essa história de ser amigO ou amigA. Eu tinha a consciência leve como o ar de que amigos homens podiam, sim, continuar sendo meus amigos sem que existisse nisso alguma conotação amorosa (ainda penso assim, com ressalvas em determinadas situações… enfim, assunto para outro post).

Com essa concepção que eu tinha – de amizade profunda, que “tudo sofre e tudo crê” (porque qual é a base de uma amizade genuína, senão o amor?) –, eu comecei a buscar nos amigos as respostas para os  dilemas da minha vida: “Será que saio para dançar escondida dos meus pais?” (eles raramente me deixavam sair para dançar) ou… “Será que eu deveria deixar esse emprego no banco, que eu detesto mas que paga bem, para voltar a dar aulas de inglês, que eu gosto mas que paga mal?”, ou ainda: “Será que a [um nome qualquer] vai com a minha cara? Porque hoje ela me disse isso e isso e assim e assim… ”. E, desse jeito, minha visão sobre o mundo ia sendo construída a partir da visão dos meus amigos sobre o mundo e as demais infinitas possibilidades que explicassem a minha vida iam sendo trancadas dentro de uma caixinha. Eu dependia dos amigos não para que me aconselhassem apenas, mas para que me dissessem exatamente o que fazer.

Além dos problemas óbvios que se criam com essa tamanha dependência que desenvolvi por meus amigos, “me abrir” com eles em crises existenciais passou a ser também um hábito (natural?). Eu depositava neles o peso da minha angústia e esperava que suas palavras me oferecessem respostas. Não raras vezes, eles me olhavam, aflitos, sem saber o que dizer para amenizar minha dor. E eu os olhava de volta, ávida por uma palavra deles que resolvesse tudo. Eles me entendiam. Eles sabiam. Eles viam de fora. E, assim, meus amigos deixavam de ser amigos para desempenhar um papel impossível, quase divino, de oráculos, sábios, videntes, deuses. Com isso, não digo que desabafar com os amigos seja algo ruim. O problema é quando esperamos que eles não só nos ouçam, mas também nos ofereçam uma solução, o que nem sempre está ao alcance deles (e nem deveria estar).

Aprender que amigos são (e devem ser, por amor a eles) limitados tem sido uma lição dura para mim. Hoje, mais do que antes, as questões existenciais se apresentam com frequência, pedindo de mim que eu tire conclusões, que eu repense, ressignifique, volte atrás, dê um passo para frente, mude, transforme, me autodomine, me auto-responsabilize (ou ‘autorresponsabilize’ tudo junto?).
É o lindo, mas espinhoso caminho da autonomia emocional… eita, expressão difícil essa!

Semana passada passei por um momento de angústia das bravas. Queria chorar no ombro de alguém e pensei em duas grandes amigas para isso (uma delas minha irmã de sangue). Bastou que eu imaginasse a reação de uma delas – uma frustração profunda por não ter uma resposta pronta, uma solução rápida para o meu problema – para que eu desistisse de contar a elas. Não. Tem que ser diferente. Não posso depender delas para me erguer. Era preciso encontrar outra forma, contar com os meus próprios recursos e, na falta deles, recorrer a uma Pessoa muito, mas muito específica.

Há alguns anos já que venho confiando em um outro Amigo. Como não tenho dificuldade para amizades profundas (para amizades mais superficiais eu tenho uma meeega dificuldade!), fiz dessa Pessoa um confidente dos mais confiáveis. Chego para Ele em oração e não conto, me derramo. Choro e falo de frustrações, de raiva, dos medos, das maldades, dos sentimentos puros, de tudo, tudinho de tudo que vai aqui nesse coração sovado pela vida. E sempre, sem exceção, recebo alívio. É um alívio parecido com ar condicionado de carro, quando chove e a gente liga o ar e os vidros vão sendo desembaçados, sabe? É assim quando conto tudo para o meu Amigo. Ele desembaça o meu olhar. Me dá perspectiva e esperança. Me devolve os recursos para avaliar, escolher e seguir o caminho por mim mesma, sem que eu precise que os amigos me sirvam de muleta.

A essa altura, você deve estar se perguntando: e seus amigos de carne, osso e sinceridade? Onde ficam numa hora dessas? Meus amigos queridos – e que para sempre serão – ficam ao meu lado, me oferecendo sua presença apoiadora (às vezes até silenciosa), conscientes de que existe Alguém do lado de dentro de mim, trabalhando para que eu me fortaleça. Meus amigos queridos, então, são convidados à minha casa, para celebrarem comigo mais uma resposta não necessariamente encontrada, mas sim buscada no lugar certo: Nele, que é a verdadeira Fonte de toda vida, de todo conhecimento e conforto.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um comentário sobre “Quando os amigos não são tudo

  1. Meu anjo!!!! Acredito estar entre esses (essas) seus amigos,além de mãe, em quem você buscou apoio e respostas, sem resposta!! Como somos cegos e limitados!! Quantas vezes percebemos e não podemos ajudar; outras vezes quando poderíamos talvez ajudar, não percebemos! Outras vezes ainda (muitas vezes) percebemos, talvez possamos ajudar, mas não podemos ir além da privacidade e do direito de silêncio.Talvez na nossa oração possamos pedir tal sensibilidade a Deus, para que sejamos seus “anjos” que estejam na hora certa, no lugar certo. Te amo.Mamãe

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