Fazendo as pazes com a idade

Brazil_TerryGilliam
Cena do filme ‘Brazil’, de 1985 – uma distopia imaginada por Terry Gilliam

 

Com a proximidade dos meus 35 anos, também vêm chegando mais e mais pensamentos sobre o processo de envelhecimento. Mesmo que eu quisesse ignorar a realidade desse fenômeno, os sinais do meu corpo não me deixariam: já vejo alguns reflexos brancos nos meus cabelos e a minha pele mais marcada. Minha disposição para dançar, por exemplo, coisa que adoro, não é mais a mesma. Só de pensar no tempo que eu ficaria esperando na fila para entrar em alguma balada já me faz dar um suspiro profundo de cansaço. Abomino aglomerações e prezo mais do que nunca o silêncio. Resultado: me contento em dançar em casa mesmo, dentro das condições mais convenientes para mim (pois é, essa é a prova cabal de que estou, de fato, envelhecendo).

Mas o que poderia ser motivo para desespero está sendo trabalhado em minha mente para que se torne um aliado. Assim como quase todo ser humano desta geração, eu também não passei ilesa às influências do manual Disney-Hollywood para a vida: você só existe para o mundo se for jovem. Ou melhor, você pode até não ser jovem, mas sem dúvida alguma você precisa parecer jovem, mesmo que o preço para isso seja a sua identidade e você tenha que se transformar na Maga Patalógica (afinal, ela mesma é uma personagem Disney! Olha que ótima referência!).

Certa vez uma amiga me disse que nunca colocaria Botox ou nada que disfarçasse seu tempo de vida, porque aquelas eram as marcas de que ela tinha vivido. Achei isso tão sábio e… tão óbvio por ser um processo natural, não? De fato, viver deixa marcas, preenche os espaços vazios da nossa bagagem e escreve na pele da gente como hieróglifos de antigos egípcios nas paredes. É o corpo contando a nossa história: tombos levados na infância, artigos lidos com curiosidade de criança sobre rituais de tribos africanas, brincadeiras de professora com uma lousa caindo aos pedaços, a caixa d’água transformada em piscina (!) para duas amiguinhas em dia quente, o quase-afogamento numa piscina de verdade em Cuiabá; a paixão pelo inglês, a descoberta da literatura com Homero e Dostoiévski; os encontros dos adolescentes da igreja, os acampamentos, as experiências com Deus; o primeiro emprego no shopping, a viagem para Londres, os amigos que se foram e os amigos que chegaram; a faculdade de Letras, o mestrado, o casamento que não deu certo, a terapia que deu; a igreja maravilhosa que se tornou segunda família, o segundo casamento, o primeiro filho, o trabalho que finalmente faz sentido. Quanta riqueza!

Quando olho para o Álef, meu filho de 1 ano e 5 meses, penso no quanto a mochilinha de vida dele ainda é vazia. Se por um lado isso é promissor, claro que é, por outro, me causa um pouco de dó. Ele ainda não conhece tanta coisa bonita, profunda e gostosa como eu conheço… mal sabe ele o quanto a vida é incrível com suas dores e delícias. Vive na ignorância pura de uma existência ainda bebê.  Não consegue sentir o prazer de tomar grandes decisões por si mesmo, nem preparar uma comidinha saborosa na hora que quer. Não consegue ler Georges Bernanos, nem flutuar na suavidade da voz norueguesa do Kings of Convenience ou dançar ao som de Beirut (sou eu que proporciono esse prazer para ele, segurando-o no meu colo enquanto danço). Sua capacidade de apreender o mundo ainda é tão limitada! Que bom que nem sempre será assim para ele.

Por que então eu iria querer aparentar ter vivido pouco como o Álef ou como um adolescente? No que isso adiciona? Pelo contrário, subtrai! Recuso-me a ser uma pele repuxada para permanecer parecida com alguém que ainda não provou da vida. Não. O meu rosto é o distintivo da soma de todas as minhas experiências e quero me orgulhar dele, me sentir grata por tudo o que ele representa, por tudo o que de mim ele mostra para os outros. Que venham as rugas, os sulcos, as manchas, os cabelos brancos que um dia eu espero não tingir. Claro que me cuido e quero continuar me cuidando, mas se cuidar é bem diferente de se auto-enganar. Afinal de contas, assumir a vida é não temê-la, é entregar-se a ela toda até que, de tanto ter sido vida – em sua máxima capacidade – ela se esvaia de nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

5 comentários sobre “Fazendo as pazes com a idade

  1. Ao aceitar que o tempo passa, aprendemos a amar quem somos – imperfeitos, mutantes, errantes, seres em busca de respostas, em formação constante. Demasiadamente humanos, como Nietzcshe observou. A beleza, afinal, é exatamente essa: aceitar-se, ser mais gentil consigo mesmo. Lu, cresço com você, com suas reflexões. Pena que nem todos têm a oportunidade de conviver com você como convivo – te amo cada vez mais.

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    • Obrigada, minha linda, por seu comentário e, principalmente, por seu amor e investimento em mim. Afinal, a construção de quem tenho me tornado tem muito do que você me ensina. Sempre olhei para você como uma admirável referência. Também te amo. Sempre mais. Um beijo. Luciana.

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      • Filha querida!!! Você sabe que sou sua fã “de carteirinha” não é? Sabe, reflexões sobre esse tema nos ajudam muito na aceitação da chegada da velhice e suas manifestações em todo o nosso físico, o que não é nada fácil.
        Sim falo do físico, porque o nosso espírito não envelhece. Quantas vezes nos surpreendemos quando queremos muito fazer algo, com o mesmo entusiasmo de antes, e o nosso corpo não corresponde, não obedece. Outras vezes nos olhamos no espelho e constatamos que há muito ficaram para trás os nossos tempos de “gloria”.
        Então, vamos cultivar a jovialidade do nosso espírito e curtir o lado bom do envelhecimento.
        Bjs.
        C.Regina

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  2. Ao mesmo tempo que gosto de me sentir mais experiente e segura, dando ainda mais valor as pequenas conquistas do dia-a-dia, ainda me vejo como uma menina por dentro, guardando a ingenuidade de uma jovem que ainda tem muito a viver e aprender.

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  3. Parabéns, siga vendo a vida desta forma e ela te mostrará caminhos que nunca pensastes em imaginar! Esteja preparada para surpresas! A vida, às vezes, também nos prepara algumas sacanagens. Mas é só brincadeira!!!

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