A incansável necessidade de interpretar tudo

Henrietta Harris
Retrato desconstruído pela artista Henrietta Harris

Tenho uma tendência quase que automática de ficar interpretando o que os outros querem dizer com certas frases ou atitudes. Se uma amiga troca mensagens monossilábicas comigo pelo Whatsapp, logo presumo que ela esteja brava ou chateada; se minha mãe começa a dar conselhos sobre como criar o meu filho, suspeito que ela ache que eu não cuido dele direito e por aí a lista vai, com uma infinidade de situações que serviriam de exemplos para a minha necessidade de ler nas entrelinhas de tudo, o tempo todo, sem trégua. Assim, vou criando histórias e interpretações mirabolantes na cabeça, como uma forma de explicar aquilo que desconheço por completo e que é o que me angustia de fato: a motivação das outras pessoas para agir como agem.

Tal atitude só tem lados negativos: a ilusão de que você está enxergando uma situação por todos os ângulos, a ilusão de que você tem controle sobre os fatos e a ilusão de que você é a espertona da história, que captou tudo. Sim, você de fato captou…. você captou tudo errado. Sinto ter de admitir, mas ao interpretarmos as ações alheias, cometemos julgamentos, injustiças e ainda corremos o risco de reagir de acordo com esse mundo de equívocos e, assim, magoarmos nossos queridos de graça, sem a menor base na realidade.

Mas não quero que neste meu texto falte a empatia. Afinal, escrevo justamente por sofrer – e muito! – desse mal da interpretação ininterrupta. Existe dentro de nós – amantes da interpretação – uma ansiedade por entender o mundo, as pessoas… queremos solucionar o quebra-cabeça das relações humanas e, por isso, nos entregamos aos pensamentos equivocados, crendo que são reais. Vamos observando a realidade de perto… depois de mais perto… depois de mais perto ainda, até que ela vai se distorcendo e saindo de foco, perdendo a proporção. Seria uma tendência nossa de querer brincar de Deus? Pode ser. Como também pode ser uma vontade incontrolável de antever todas as possibilidades para se evitar uma grande dor.

A questão em tudo isso é que ser um amante da interpretação e enxergar em tudo um enigma a ser desvendado cansa. Desgasta. Passamos a não acreditar em mais nada e em mais ninguém e perdemos a graça existente na credulidade, na ingenuidade – o oásis do não-saber.  Às vezes vamos acabar nos dando mal por acreditar em alguém, é verdade. Por outro lado, vamos ganhar muito mais em intimidade, cumplicidade, confiança e alegria. Nos libertamos e libertamos os outros do fardo impossível da perfeição. É relaxar e deixar a cargo de Deus o que só Ele consegue fazer: conhecer a fundo os porquês do coração humano.

 

Ouvimo-nos e cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si. As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos outros!

Fernando Pessoa no Livro do Desassossego

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minúscula investigação sobre a felicidade

cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”

Não é de hoje, que o tema felicidade, permeia nossas vidas e a buscamos com dedicação.

Por vezes, essa busca torna-se obsessiva, e tal intensidade não nos é natural – analisando sob a perspectiva de quem deveríamos ser e não de quem nos tornamos, é claro.

Pós-queda, o vazio instalou-se em nós de forma intensa, devido a uma ruptura profunda, e vivemos tentando preencher esse vazio com coisas, pessoas, conquistas, conhecimentos, status, dinheiro, sexo, poder, etc – e a lista é infinita

a felicidade ontem

Com o surgimento da filosofia, perguntas sobre a vida, o universo ou o cotidiano, começaram a ser discutidas e estudadas “formalmente”.

Sócrates, por exemplo, acreditou que felicidade era levar uma vida virtuosa. Ou seja, ele não estava interessado em ganhar dinheiro, não procurava respostas ou explicações definitivas mas investigava a base dos conceitos como bom, ruim e justo. Ele acreditava que a virtude (areté em grego, que na época implicava excelência e concretização) era o ‘mais valioso dos bens’.1 Para ele, havia apenas uma coisa boa: conhecimento; e uma coisa má: ignorância’. O conhecimento, para ele, era indissociável da moralidade. E era a ‘única coisa boa’.2

Epicuro, acreditava que o prazer era o fim e o princípio de uma vida feliz, objetivo em direção ao qual todo o indivíduo deveria orientar a própria ação.3 E para isso, seria preciso distinguir entre prazer efêmero (felicidade, alegria) e prazer estável, definido pela negativa, como ausência de dor. Dado que somente o segundo tipo de prazer deveria ser perseguido pelo sábio.4

a felicidade hoje

Analisando tantas outras pessoas, e suas respectivas ideias, percebo que com o passar dos anos, muita coisa na verdade não mudou. Evoluímos científicamente, criamos roupas que não precisam passar, bebemos café gourmet, estamos conectados 24h por dia – 365 dias por ano, moramos em prédios que parecem mini-cidades, pagamos nossas contas on-line, mas continuamos sedentos, com as mesmas questões dentro de nós.

Nossa época, também conhecida como pós-modernidade, ou hipermodernidade, vive a máxima: compre o máximo que puder [eu mereço, eu trabalhei muito para isso] e descarte tão rápido que puder [moda é tendência e tendência é passageira]. Compramos roupas e descartamos pessoas. Trabalhamos para viver e vivemos para trabalhar. Nos sentimos solitários mas não dedicamos tempo em relacionamentos. Compramos o tão sonhado apartamento, do tamanho de uma caixa de fósforos: mas com duas vagas de garagem! Aos 30 anos, temos mestrado, doutorado, pós-doutorado mas somos analfabetos emocionalmente. Vivemos uma verdadeira corrida contra o tempo mas sem saber o por que [ou por quem] estamos correndo.

a felicidade verdadeira

No livro de Eclesiastes, Salomão5 descreve de forma brilhante, todo o processo de sua descoberta sobre o sentido da vida e, por que não dizer, sua busca pela verdadeira felicidade.

Logo no início, ele derrama em nós, leitores, um enorme balde de água fria: Vazio, tudo é um grande vazio! Nada vale a pena! Nada faz sentido!6 Enfatiza também, por diversas vezes, que tudo não passa de correr atrás do vento que tudo é vaidade de vaidades. E, por maior que seja seu desespero, toda essa busca e questionamento é tão autêntico e tão, por assim dizer, humano.

cena do filme "Advogado do Diabo"
cena do filme “Advogado do Diabo”

“Morrer antes de aprender a viver: esse sim é um pesadelo que se pode ter ao meio-dia, debaixo do sol. Não é preciso esperar a noite chegar, para então dormir e ter pesadelos. Não é preciso nada além de estar acordado e consciente de si mesmo. Geralmente, pensar na vida, no que tem ou não tem valor, porque isso ou qual a razão daquilo, implica uma dor quase insuportável.

Quem, em sã consciência, poderia dizer que realizou tudo o que queria na vida? Quem viajou para todos os lugares que queria, ou desfrutou do quanto quis do bom e do melhor? Quem ajuntou tanta riqueza que poderia sustentar três ou quatro gerações? Quem fez coisas grandiosas, belas e úteis? Quem adquiriu conhecimento sobre tudo o que há para ser conhecido? “Ah, eu não, nem cheguei perto”, provavelmente você e eu diríamos. Diríamos também: “Se eu tivesse feito tudo isso, e experimentado toda essas coisas, poderia morrer realizado, pois minha vida teria sentido”. Mas lembre-se de que é Salomão quem está fazendo todos esses questionamentos, e ele realizou todas essas coisas. Ele aprendeu a sabedoria e adquiriu conhecimento, construiu obras grandes e vistosas, foi o rei mais sábio e mais rico que já existiu, e desfrutou intensamente todos os prazeres. Mas ao final ainda tinha na mente a mesma pergunta: que é a vida, senão uma sucessão de fatos sem sentido?”

O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz
Introdução: páginas 23-24 (e-book)

A cada capítulo, vamos junto com Salomão, fazendo uma investigação minuciosa sobre o verdadeiro bem-viver. Experimentando e testando hipóteses. Frustando-se e voltando a questionar-se novamente, e novamente, e novamente.

É… Talvez viver seja mais ou menos isso: nos questionar até o cansaço vir à tona, até perdermos todas as nossas forças, para então, nos voltarmos Àquele que É a resposta.

E o mais legal, é que o livro não termina com uma descoberta mirabolante, (…) uma declaração emblemática do tipo “o sentido da vida é…”. Não há resposta para o dilema a respeito do sentido da vida. A sugestão é que, em vez de se desgastar na busca da elucidação do enigma do sentido da vida, o melhor mesmo é correr atrás da própria vida. A filosofia se presta a ajudar a viver, mas viver é muito mais do que filosofar. Mais do que saber, é preciso viver. O que realmente interessa é a satisfação com a vida, a gratidão pelo privilégio de viver e a vontade de continuar vivendo. Saber coisas sobre a vida e não viver bem: isso sim é algo que não faz sentido.7

 

A PALAVRA FINAL
Aquele que está em busca também possuía sabedoria e transmitiu conhecimento a outros. Ele pesou, examinou e organizou muitos provérbios. Ele fez o melhor que pôde para encontrar as palavras certas e escrever a verdade como ela é.

As palavras dos sábios estimulam a viver bem.
São como pregos bem martelados que mantêm a vida unida.
São dadas por Deus, o único Pastor.

Mas, a respeito de qualquer outra coisa, meu amigo vá com calma. Não há limite para se produzir livros, e estudar demais deixa qualquer um esgotado. Para finalizar, a conclusão é a seguinte:

Tema a Deus.
E faça tudo que ele mandar. 

É isso. No devido tempo, Deus deixará às claras tudo o que fazemos e fará o julgamento. E ele conhece até mesmo as nossas intenções mais secretas, sejam elas boas ou más.

Eclesiastes 12.9-14 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea

 

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NOTAS:

1 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
2 Trecho extraído de O Livro da Filosofia – As grandes ideias de todos os tempos, página 48
3 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
4 Trecho extraído de Antologia Ilustrada de Filosofia – Das origens à idade moderna, página 110
5 A autoria do livro ser de Salomão é questionado por muitas pessoas
6 Eclesiastes 1.2 – Versão: A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea
7 Trecho extraído de O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia – A acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes, Ed René Kivitz, página 324 (e-book)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Coragem não é ausência de medo

“Somente seja forte e muito corajoso!”

[Josué 1.7]

Esse mês temos duas versões para o wallpaper!

OPÇÃO 1:

SP_wpagostoA16_1680x1050
Escolha sua resolução: {1024px X 768px}   {1366px X 768px}   {1680px X 1050px}

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OPÇÃO 2:

SP_wpagosto16_1680x1050 Escolha sua resolução: {1024px X 768px}   {1366px X 768px}   {1680px X 1050px}

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.