Fui machucada pela Igreja… mas a história não acaba aí

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja. No meu caso, a igreja que eu frequentava era a minha segunda casa, para a qual eu segui, voluntária e feliz, todos os fins de semana, durante 20 anos. Ali eu fiz melhores amigas, aprendi a cantar em coral, a amar os idosos, a ajudar quem carecia de recursos, a respeitar pessoas diferentes de mim, a guardar segredos, a desenvolver minha concentração por longo tempo. E foi dentro das salas dessa mesma igreja que as raízes do Cristianismo se fincaram no solo fofo e fértil da minha alma.

Um dia, essa mesma igreja me golpeou duramente. Eu havia confessado a uma pessoa um pecado bastante grave, que a envolvia diretamente, e ela, desnorteada pela minha confissão e precisando de ajuda, contou ao pastor e a outras pessoas da igreja. Logo, a notícia se espalhou como piolho em cabeça de criança e eu comecei a receber e-mails e telefonemas em casa. Alguns, mais sensíveis, me perguntavam como poderiam me ajudar, enquanto outros foram duros e me ofenderam de formas diversas (houve até quem quisesse me bater). Perdi cabelo, passei a pesar 47 quilos e entrei em depressão. Minha situação se tornou assunto de assembleia (reuniões que todos os membros da igreja fazem, de tempos em tempos, para tomar decisões sobre questões que envolvem a igreja) e depois algumas amigas me contaram como foi pesado… alguns choraram por mim, outros quiseram apagar o meu nome da lista de membros. Por fim, o pastor sugeriu que meu nome permanecesse e assim foi por alguns meses. Em um contexto desconfortável assim, era natural que eu deixasse de frequentar aquela igreja.

Nunca me isentei da responsabilidade pelo pecado que cometi. Ao mesmo tempo, por anos seguidos, fiquei sentindo a ferida da humilhação sofrida naquela igreja sangrar em mim. Mas uma coisa que sempre esteve clara é que a atitude de muitos ali nada tinha a ver com o perdão e a graça de Jesus Cristo. É óbvio e esperado associar os cristãos a Cristo. Mas seria muito ingênuo achar que os cristãos possam ser menos falhos do que os demais seres humanos. Vivo na pele o fato de que nós, cristãos, temos dúvidas e, por uma ansiedade indescritível de amar e seguir a Jesus, nos confundimos ao tentar praticar seus ensinamentos. Alguns se apegam às leis como cachorro em osso, porque sabem que são as leis que vão mantê-los seguros dos desejos egoístas de seu coração. Outros acham que o sacrifício e a graça de Cristo valem o mesmo que banana na feira e saem por aí pecando como se não houvesse amanhã. E tem também aqueles maduros na fé (cujos sermões a gente ouve várias vezes e fica maravilhada com tanta coisa linda e profunda), que conseguem colocar Graça e Lei na mesma balança, de forma a equilibrar as duas e balizar sua vida nesse equilíbrio.

Não teve pecado e nem fofoca fortes o suficiente, que tenham feito eu desistir da Igreja. Depois que me recuperei da situação em que me envolvi, encontrei uma nova casa espiritual, uma nova igreja, onde fui recebida com carinho. Eu podia e queria começar de novo. Recebi de Deus novos melhores amigos, novas músicas, novos idosos para amar, novos necessitados para ajudar e pessoas ainda mais diferentes para lidar. É ali que meus irmãos na fé e eu insistimos em entender e aceitar a Graça e entender e aceitar a Lei. Entre acertos e erros, cuidamos uns dos outros, amamos uns aos outros. Porque Cristo sabe do que somos feitos e, ainda assim, fez de nós o seu próprio Corpo. A Igreja – distribuída em igrejas – não é um erro de Deus. É a chance que Ele nos dá de não nos conformarmos conosco mesmos – seja na rigidez de nosso julgamento ou na flacidez de nosso caráter. A Igreja é a nossa escola de fé, a nossa família imperfeita e amada, o nosso centro de treinamento da alma e é natural que, de um grupo de seres humanos que tentam acertar, saiam erros. Mas a Igreja é o nosso espelho. Ela e eu somos a mesma coisa. Suas imperfeições são as minhas imperfeições. Seus acertos são os meus acertos. É por ela que Cristo deu a sua vida e é nela que escolho investir os meus dias.

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que já machucou a Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que pode curar e ser curada pela Igreja.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O amor (diluído) em 5 dicas

 

dariapetrilli
Ilustração da italiana Daria Petrilli

No canal do Youtube de um museu dinamarquês tem um programa que se chama Advice to the Young. Toda vez, eles convidam um artista diferente, renomado já, para deixar um conselho para os que estão começando. Acho muito bom, porque além de eles falarem sobre o que passaram – e, assim, baseados na experiência que adquiriram, indicarem caminhos para os novatos –, eles também dão dicas muito diferentes uns dos outros, o que só nos enriquece.

Esses dias, tenho pensado que conselho eu daria às mulheres mais jovens do que eu… talvez eu poderia falar de carreira (já fui de tudo: secretária, repórter de viagem, vendedora, dona de loja e, agora, educadora por paixão)… talvez eu poderia falar de espiritualidade (a base do que sou)… mas acho que quero mesmo é falar sobre amor. Delícia de tema, não? Tenrinho, chuchu, mas tão difícil de acompanhá-lo na dança! Mesmo nos meus 35 anos e muitos quilômetros de vida rodados, ainda levo uma surra dele. Sempre com amor, claro, rs.

Bom, para as interessadas, aqui vão vislumbres de uma sabedoria do amor que estou longe de dominar, mas que venho recolhendo como conchas na praia:

 1. Não entre e nem saia da vida de alguém com a mesma facilidade com que você entra e sai de um supermercado

Quem já não fez ou sofreu disso? A vida fica num tédio tal, que qualquer pessoa serve para você se envolver. A questão é que qualquer pessoa não existe. Qualquer pessoa é um ser humano com sentimentos, é profundo (mesmo que a pessoa não usufrua de sua própria profundidade), tem histórico emocional, relacional e, muito provavelmente, expectativas diferentes das suas. Por isso, acredite: um pouco mais de respeito pelo outro na hora de se relacionar pode fazer maravilhas. Qualquer pessoa agradece.

2. Não canse quem te quer bem

Essa frase eu li uma vez num artigo bem interessante. Sabe aquelas pessoas que te amam aconteça o que acontecer? Pois é, o amor delas pode ser ilimitado, mas a paciência talvez não. Cultive o carinho que essas pessoas sentem por você com um pouco mais de bom humor, menos cobranças, mais leveza, mais alegria. Já perdi quem me quisesse bem e, na parte que me coube do fim da amizade, posso dizer que esses segredinhos teriam feito toda a diferença.

3. Não, as pessoas não são substituíveis

Penso muito nesse blábláblá, de que a gente pode substituir as pessoas. “Ah, para de chorar! Supera! Ninguém é insubstituível!” – já ouviu? Eu não caio nessa, não. Sim, a gente precisa superar as perdas (mesmo porque muitas delas acontecem contra a nossa vontade), concordo, mas achar que uma pessoa que nos marca vai ser deletada da nossa existência sem deixar rasuras é uma inocência. Coleciono algumas perdas e nunca consegui encaixar a amiga nova no mesmo molde da antiga, por exemplo. Não existe. Não dá. Era outra pessoa, outra época, outra intensidade, outras afinidades, outros mergulhos. Era único. E, ao mesmo tempo em que isso pode soar bonito e poético, é também um pouco triste. Ao escrever este parágrafo agora, por exemplo, consigo pensar em, pelo menos, três amigos, com os quais eu amaria conviver outra vez. São três queridos pra mim, aos quais o acesso eu perdi totalmente. Assim, meu conselho seria: prepare-se, sua folha em branco será, inevitavelmente, rasurada. Mas não se desespere: ainda assim e, justamente pelas rasuras, haverá beleza genuína na sua história.

4. Doe-se

Não tenha medo de ser brega. Beije, abrace, fale que gosta, do que gosta, sem medo de ser feliz. Algumas pessoas acham isso pegajoso, mas tem gente que se sente amada com gestos assim e eu, por exemplo, não me importo nem um pouco de ser esse meio de amor para as pessoas. Se gosto, demonstro. E se recebo de volta, melhor ainda. Porém, não é só de pegação que vive o amor. Amor também é doar os ouvidos e a atenção para o marido contar o sonho comprido que teve na noite anterior; é doar o seu tempo – e com boa vontade – para ir à festa junina da escola do filho; é ouvir a amiga desabafando pela 37ª vez na mesma semana sobre o crush que ela não supera; é não comer a última trufa que a sua colega de trabalho vendeu pra você e deixá-la para o seu namorado;  é assistir ao terceiro filme de uma saga que você não acompanha só para estar com seus amigos preferidos. Enfim… doar-se é escolher o outro quando você poderia muito bem pensar apenas em si mesma.

5. Ame-se

Não estou falando aqui de um amor narcisista, ofendidinho, arrogante. Estou falando de dignidade mesmo.  De conhecer os próprios limites e respeitá-los; de não ter vergonha de não querer ou de não saber; de gostar da barriguinha saliente, das sobrinhas nas laterais da cintura; de reconhecer os defeitos e também valorizar as qualidades; de pedir ajuda quando não der conta sozinha de uma situação; de não se maquiar todos os dias e gostar do que vê (ou de se maquiar e detestar o que vê); de não ter vergonha de chorar e, menos ainda, não ter vergonha de amar.

Obviamente, não tenho a menor pretensão de achar que essas cinco pílulas sobre o amor esgotam o assunto. É uma descoberta constante, infinda, misteriosa e incrível… e, por mais que cada um siga sua própria via nos meandros definidos pelo amor, é sempre possível (e justamente por acreditar nisso é que escrevo este post) encontrar maneiras mais práticas de vivê-lo.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Carta para Zigo

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Ilustração: Betusha Rapatusha

São Paulo, Setembro de 2016

Oi Zigo! Estou te escrevendo isso porque soube da sua existência há algumas semanas e, muitas coisas passaram pela minha cabeça, que eu gostaria que você soubesse algum dia. Como sou melhor com palavras escritas do que ditas, e, quando você tiver idade pra entender essas coisas todas eu corro o risco de esquecer o que quero dizer, escrevo aqui. É pra você, mas vou deixar quem quiser ler também ;).

Primeiro vou te explicar porque te chamo de Zigo. Quando eu soube de você, sua idade ainda era de três semanas, mais ou menos. Isso, em termos biológicos, não te torna um feto ainda, você é um Zigoto nessa idade. E como eu e o David, que é seu pai, somos meio excêntricos – você vai saber muito bem disso com o tempo – era muito esquisito te chamar de filho ou de bebê. Então, pra nos referir a você, falávamos “o Zigoto isso”, “o Zigoto aquilo”. Até que o David abreviou em algum momento e seu primeiro apelido surgiu. Não sabemos se você é o Zigo ou a Zigo, mas não importa, você é Zigo pra nós, carinhosamente.

Explicado seu apelido, quero dizer agora que até o momento está indo tudo bem, aparentemente. Pelas contas da obstetra você já tem nove semanas aqui dentro. Eu acredito nela, porque não entendo nada dessa coisa de semana gestacional, idade gestacional e nada gestacional rs. Ainda não te vi nem ouvi seu coração bater, então só posso confiar em Deus de que você esteja bem, crescendo numa boa e sendo um pequeno e querido hospedeiro dentro de mim! Esses dias eu estava assistindo um seriado, Bones, e uma personagem estava grávida e tomando café da manhã com seu parceiro de trabalho, um psicólogo chamado Sweets, e ele disse pra ela algo assim: “a gravidez é uma coisa incrível, tipo, enquanto eu estou aqui apenas e insignificantemente tomando um café, você está formando um pâncreas!”. Achei isso tão poético! E enquanto te escrevo, estou formando seu pâncreas. Tá, é poético, mas não tão romântico. Gravidez não é o mar de rosas que pintam por aí. Eu tenho mal estar 24h por dia, sinto fome e enjoo ao mesmo tempo, vertigens horrorosas, meu cérebro tá funcionando bem abaixo do normal e eu tenho várias dores rsrs. Eu sempre brinquei que a gravidez era como se a mulher tivesse sido tomada por um alien e, bem, parece que eu acertei. Mas, dia 22/9, daqui 13 dias, eu tenho uma nova consulta e aí vamos poder ver como estão as coisas, de fato. E só nesse dia eu vou terminar essa carta, pra poder incluir informações mais concretas e, também será só depois desse dia que vamos falar pras pessoas sobre você.

Não posso dizer que estou com medo, eu estou realmente confiando que Deus está cuidando de tudo lindamente. Deus é nosso Pai, nosso Criador. Você vai conhecê-Lo através de nós, mas acreditamos que Ele já te conhece muito bem. Enfim, não tenho medo, mas, também não estou neutra, eu estou assustada e o desconhecido e o novo me abalam, porque a gravidez foi um paradigma pra mim por um bom tempo. Um dia você vai ouvir essa história toda, também. Seja como for, entrei nessa de consciência presente e sabendo muito bem da minha responsabilidade com você e sabendo que maternidade não é brincadeira. Acho que por isso eu não estou frenética ou alucinada com a sua existência. Eu me sinto bem, feliz, empolgada e preparada. Mas não fui picada pelo bichinho que deixa mulheres grávidas orbitando por um mundo de unicórnios e arco íris. Não sei se isso vai mudar quando eu vir você no primeiro ultrassom, mas, me conhecendo bem como conheço, acho que não vai rolar. Bom, a primeira coisa que eu pensei quando vi as duas listras aparecendo no teste de gravidez que fiz semanas atrás foi: “oh, positivo! Legal! Hum, será que é de boa levar um bebê de um mês no sling pra trabalhar comigo?” E a segunda foi: “ai caramba, grávida não pode beber álcool, vou ficar 40 semanas sem tomar vinho, Deus me ajude!”. Eu disse Zigo, seus pais são excêntricos! Mas, somos muito legais também e ficamos muito felizes com a sua existência, acredite. É que somos muito realistas e faz mais sentido pra nós conversarmos sobre sua criação do que sobre floreios e firulas da maternidade e paternidade. Não julgo quem vive no país dos unicórnios, não é isso. Nem você deve julgar. Aliás, é uma das coisas que quero te ensinar enfaticamente: respeitar todas as pessoas sem exceção, por mais mala que ela seja. Eu só não curto seres míticos assustadores… Digo, fofinhos e coloridos. O David também está muito tranquilo. Adorando a ideia de ter você por aqui, já declarando que vai te ensinar Muay Thai e me preparando água gelada com limão espremido pra aliviar os enjoos, mas, muito tranquilo. De qualquer forma, melhor esperar o ultrassom pra ver como ficaremos mesmo!

O que eu sinto, hoje, é que você veio transbordar. Eu me tornei uma pessoa completa quando Cristo passou a fazer parte da minha vida. Eu me tornei uma pessoa feliz quando o David passou a fazer parte da minha vida. Eu me observo, me analiso, busco sempre o autoconhecimento e estou satisfeita comigo, nas minhas qualidades e nas minhas limitações. Eu amo meu trabalho, eu sou contente com minha vida. Tenho meus monstros pra cuidar, tenho meus desafios, minhas frustrações e tristezas à superar e a minha luta interna entre o bem e o mal vai durar até o dia que eu completar minha missão nessa Terra, minha busca pelo equilíbrio também, mas, tudo está no lugar, não falta nada. E você está transbordando aquilo que já estava completo. Eu sinto que o amor de Deus por mim é tão grande, que Ele te mandou pra transbordar amor, alegria, fé, esperança e Graça. E é só porque eu tenho fé de que Ele está comigo nessa aventura que eu tenho convicção de que será possível. Se fosse só por mim e minha (in)capacidade humana, eu não estaria te escrevendo agora. Eu não te colocaria no mundo, nunca. Criar um ser humano não é brincadeira, Zigo. Tem muita diversão no meio, sim, mas não é só um parque de diversões.

Não tenho grandes expectativas em relação a você, Zigo, porque criar expectativas em relação a qualquer pessoa ou coisa é uma grande furada, saiba disso. Mas eu tenho desejos. Sei que esses desejos podem se cumprir ou não, e ok. Não vou morrer de frustração se não se cumprirem, mas ficarei feliz se eles forem possíveis. Eu espero pelo melhor (esperança é diferente de expectativa, viu? Um dia vou te ensinar isso direitinho), faço minha parte e vamos ver no que dá! De qualquer forma, sou grata e contente por você estar aqui. Desejo que você tenha saúde, muita saúde. Desejo que eu possa nutrir você aqui dentro de mim em todas as suas necessidades. Que aqui dentro seja um período confortável pra você e que você se desenvolva muito bem. Estou treinando meu corpo e minha mente pra isso acontecer com tranquilidade. Eu desejo que você faça uma boa passagem aqui de dentro pra fora, do meu útero pra esse mundo maluco que a gente vive. Essa passagem se chama parto e eu desejo que você e eu possamos passar por esse rito com muito respeito e naturalidade. Também estou me preparando pra isso e já planejando algumas coisas. Se esse planejamento vai dar certo eu não sei, mas mesmo assim, planejar é uma coisa importante, Zigo, porque sem planejamento a gente fica sem rumo e aí qualquer coisa serve. E eu não quero qualquer coisa pra você nem pra mim, eu só quero o melhor pra nós, sempre. Se o planejamento falhar, ok. Damos um jeito, superamos e seguimos em frente! E aqui está outro ensinamento: planeje, se estruture, mas não se apegue e não seja inflexível, porque isso é porta larga de entrada pra raiva e frustrações.

Eu também desejo que você seja forte. É preciso ser forte pra viver onde vivemos. O mundo tem muita coisa ruim, muita gente má, muito sofrimento. E ser forte ajuda a gente a passar pela vida. Ser forte não é ser invulnerável, Zigo. Vulnerabilidade faz parte da vida e nos mostra nossa humanidade, ok? Quando eu falo que desejo que você seja forte, é que você saiba viver sua vulnerabilidade e percorrer um bom caminho, que seja equilibrado, inteligente, humilde e sábio. Que faça boas escolhas. Mas isso, creio eu, tem mais a ver com o modo como o David e eu vamos te criar do que com qualquer outra coisa. Sua criação é algo que falamos há muito tempo, mesmo sem ter certeza se você viria a existir um dia ou não. Planejamento, lembra? E o nosso desejo é te criar para a autonomia. Nosso desejo é te apoiar e dar suporte em todas as suas necessidades, te encher de amor, aceitação, carinho e respeito, te oferecer acolhimento, segurança e confiança e te conduzir por toda sua infância e adolescência pra que você se torne um adulto autêntico, livre, seguro, autoconfiante, independente, uma pessoa do bem, gente boa, que respeite a si e aos outros, que ame a si e aos outros, que tenha uma vida íntima com Deus, seja gentil, honesto, generoso e de bom coração. Que espere as pessoas saírem do metrô antes de entrar, que diga bom dia ao porteiro e aos vizinhos, que peça desculpas quando necessário, que desculpe quando necessário, que peça por favor quando quiser algo e agradeça sempre que receber o que pediu. Que cubra a boca ao tossir ou espirrar, que não ouça música no seu carro no último volume, que não seja fofoqueiro e respeite os limites das pessoas. Que seja grato pela vida e valorize sua existência. Isso tudo é o que esperamos. Só esperamos, porque não existe nenhuma garantia de que vai funcionar desse jeito. Pode sair tudo ao contrário, podemos não dar conta de nada disso, mas tudo bem. Talvez você seja a criança que só come batata frita e que se joga no chão do supermercado aos prantos só pra chamar atenção, ou que faça birras terríveis e bata nos colegas. Talvez a gente te esqueça dentro do carro debaixo do sol. Talvez você seja uma pessoa dura e intolerante. Talvez a gente perca a paciência com você e grite e perca o equilíbrio e os vizinhos achem que estamos te espancando. Talvez você seja o adolescente que use drogas e fuja de casa por não suportar os pais. Talvez a gente te dê chocolate pra parar de chorar ou deixe horas a fio na frente da TV porque tá de saco cheio. Talvez você se torne um adulto de coração ruim. Não sabemos nada. Só esperamos e desejamos pelo melhor. E esses são nossos desejos, nossas esperanças. Você também vai ter seus próprios desejos e esperanças e eles podem ser completamente diferentes dos nossos e você será quem quiser ser. Vamos nos esforçar pra ensinar um bom caminho, mas, no final das contas, um dia você é quem vai decidir por si mesmo.

E nós vamos errar, Zigo, pra caramba. Porque erramos, porque somos humanos. Porque desejamos fazer o bem, mas acabamos fazendo o mal, muitas vezes. Porque não somos perfeitos. Porque ninguém é. Porque você não será.

Queremos te ensinar tudo isso e oramos pra que Deus nos dê Sabedoria e recursos pra dar conta, pelo menos de um pouco. Se nada for como desejamos, tudo bem, nada está sob nosso controle e de uma forma ou de outra, ficaremos muito bem! Mas, os principais conselhos que deixo pra você, são: que você guarde seu coração e vigie seus pensamentos, porque sua vida depende deles, e, busque sempre a Sabedoria. Ame a Sabedoria, deseje a Sabedoria. Corra atrás dela.

Você vai nascer num lar muito harmonioso. Nós, David e eu, seus pais, prezamos o respeito na nossa relação acima de qualquer coisa. E isso tem dado muito certo, graças a Deus. Esperamos que você entre nessa dinâmica e que possa se adaptar a ela de forma muito saudável e feliz. Não posso te prometer nada, eu não tenho controle de nada, mas, o que eu posso dizer é que vamos nos esforçar, muito, muito e muito pra que você seja e se sinta respeitado, querido e seguro emocionalmente. Vamos nos esforçar pra não mentir pra você, pra te explicar as coisas e tirar suas dúvidas sobre a vida, pra te acolher, te ouvir, te dedicar tempo de qualidade, oferecer afeto, não ficar mexendo no celular nem dar mais atenção pra TV ou outras distrações enquanto estivermos com você. Vamos nos esforçar pra te manter saudável e em movimento, te dar banhos quentinhos e massagens relaxantes, te dar comidinhas gostosas (o David faz maravilhas na cozinha, você vai adorar! E ele já até pensou em umas ideias de papinhas pros seus primeiros meses de vida pós leite), te dar colo, direção, limite, apoio, orientação. Esperamos que você nos questione, nos supere, faça a gente quebrar a cabeça pra encontrar respostas inteligentes pra perguntas difíceis. Que você seja subversivo, criativo, imaginativo, desbravador e curioso. Queremos um dia te ver independente e autônomo. Em nós, você terá sempre um porto seguro, um pouso seguro, mas, desejamos te criar de modo que você voe seus próprios voos, viva sua própria vida e que ela seja cheia de liberdade, sentido e significado. Viver é difícil, Zigo, tem um monte de sofrimento no meio, eu já disse. Tem tragédias e decepções e vamos nos esforçar pra te ensinar a lidar com tudo isso, porque é preciso, mas, viver é muito bom. Como diz a música do O Rappa: “A vida é linda. Dura, sofrida, carente em qualquer continente, mas boa de se viver em qualquer lugar”. Desejamos te ensinar a perceber o quanto é bom viver, porque somos um sopro, Zigo, um instante. Tudo aqui é transitório e vamos nos esforçar pra te ensinar a dar valor ao que importa e não perder tempo com mesquinharias, a não ter uma vida medíocre.

Dia 22/9 eu faço o adendo dessa carta. Por enquanto, é isso. Pra terminar, quero te dizer que você é nosso sopro de esperança em Deus. Não se sinta responsável, não estou colocando nenhum peso nas suas costas, isso é entre nós e Deus. É que quando decidimos ter você, só a ideia da sua existência já desenvolveu nossa fé. E agora, você é a melhor notícia do nosso ano de 2016, que foi tão duro até aqui. Você é nossa bonança.

Volto daqui alguns dias!

ADENDO 1: Hoje é dia 22/9 e tive consulta, mas saí de lá frustrada, porque foi só pra obstetra ler os exames de sangue e solicitar o ultrassom, o exame que vai nos apresentar a você. Mas, tudo bem, paciência. A data do ultrassom é 29/9. Volto daqui a 7 dias :-).

ADENDO 2: Hoje é dia 29/9 e vimos você pela primeira vez! Confesso que eu achei que aconteceria comigo como aconteceu com a Rachel em Friends, quando ela e o Ross ficam grávidos e aí vão fazer o primeiro ultrassom e ela chora muito e, quando o Ross pergunta se ela está emocionada, ela diz que só não está conseguindo identificar o bebê, mesmo! rsrs Mas, não aconteceu assim. Vi você direitinho. Você existe. Estava lá. Está aqui. Cérebro, corpo, alma, coração batendo forte e, mesmo tão pequeno, já dá pra identificar até o nariz. Foi muito bom ver que você está bem. David e eu não passamos pela porta do mundo de unicórnios, mas, nosso coração transbordou de alegria e de gratidão a Deus por vermos você se mexendo dentro de mim, e, quando a médica disse: “está tudo perfeito”.

Bem vindo à nossa história, nossa casa e nossa existência. E já faço por você a oração que sempre ouvi minha mãe fazer por mim: Que Deus te guie, te guarde e te proteja.

Com carinho,

Talita (mas pode me chamar de Tata, mãe, ou mamãe, como preferir).


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.