Fui machucada pela Igreja… mas a história não acaba aí

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja. No meu caso, a igreja que eu frequentava era a minha segunda casa, para a qual eu segui, voluntária e feliz, todos os fins de semana, durante 20 anos. Ali eu fiz melhores amigas, aprendi a cantar em coral, a amar os idosos, a ajudar quem carecia de recursos, a respeitar pessoas diferentes de mim, a guardar segredos, a desenvolver minha concentração por longo tempo. E foi dentro das salas dessa mesma igreja que as raízes do Cristianismo se fincaram no solo fofo e fértil da minha alma.

Um dia, essa mesma igreja me golpeou duramente. Eu havia confessado a uma pessoa um pecado bastante grave, que a envolvia diretamente, e ela, desnorteada pela minha confissão e precisando de ajuda, contou ao pastor e a outras pessoas da igreja. Logo, a notícia se espalhou como piolho em cabeça de criança e eu comecei a receber e-mails e telefonemas em casa. Alguns, mais sensíveis, me perguntavam como poderiam me ajudar, enquanto outros foram duros e me ofenderam de formas diversas (houve até quem quisesse me bater). Perdi cabelo, passei a pesar 47 quilos e entrei em depressão. Minha situação se tornou assunto de assembleia (reuniões que todos os membros da igreja fazem, de tempos em tempos, para tomar decisões sobre questões que envolvem a igreja) e depois algumas amigas me contaram como foi pesado… alguns choraram por mim, outros quiseram apagar o meu nome da lista de membros. Por fim, o pastor sugeriu que meu nome permanecesse e assim foi por alguns meses. Em um contexto desconfortável assim, era natural que eu deixasse de frequentar aquela igreja.

Nunca me isentei da responsabilidade pelo pecado que cometi. Ao mesmo tempo, por anos seguidos, fiquei sentindo a ferida da humilhação sofrida naquela igreja sangrar em mim. Mas uma coisa que sempre esteve clara é que a atitude de muitos ali nada tinha a ver com o perdão e a graça de Jesus Cristo. É óbvio e esperado associar os cristãos a Cristo. Mas seria muito ingênuo achar que os cristãos possam ser menos falhos do que os demais seres humanos. Vivo na pele o fato de que nós, cristãos, temos dúvidas e, por uma ansiedade indescritível de amar e seguir a Jesus, nos confundimos ao tentar praticar seus ensinamentos. Alguns se apegam às leis como cachorro em osso, porque sabem que são as leis que vão mantê-los seguros dos desejos egoístas de seu coração. Outros acham que o sacrifício e a graça de Cristo valem o mesmo que banana na feira e saem por aí pecando como se não houvesse amanhã. E tem também aqueles maduros na fé (cujos sermões a gente ouve várias vezes e fica maravilhada com tanta coisa linda e profunda), que conseguem colocar Graça e Lei na mesma balança, de forma a equilibrar as duas e balizar sua vida nesse equilíbrio.

Não teve pecado e nem fofoca fortes o suficiente, que tenham feito eu desistir da Igreja. Depois que me recuperei da situação em que me envolvi, encontrei uma nova casa espiritual, uma nova igreja, onde fui recebida com carinho. Eu podia e queria começar de novo. Recebi de Deus novos melhores amigos, novas músicas, novos idosos para amar, novos necessitados para ajudar e pessoas ainda mais diferentes para lidar. É ali que meus irmãos na fé e eu insistimos em entender e aceitar a Graça e entender e aceitar a Lei. Entre acertos e erros, cuidamos uns dos outros, amamos uns aos outros. Porque Cristo sabe do que somos feitos e, ainda assim, fez de nós o seu próprio Corpo. A Igreja – distribuída em igrejas – não é um erro de Deus. É a chance que Ele nos dá de não nos conformarmos conosco mesmos – seja na rigidez de nosso julgamento ou na flacidez de nosso caráter. A Igreja é a nossa escola de fé, a nossa família imperfeita e amada, o nosso centro de treinamento da alma e é natural que, de um grupo de seres humanos que tentam acertar, saiam erros. Mas a Igreja é o nosso espelho. Ela e eu somos a mesma coisa. Suas imperfeições são as minhas imperfeições. Seus acertos são os meus acertos. É por ela que Cristo deu a sua vida e é nela que escolho investir os meus dias.

Sou mais uma dessas pessoas machucadas pela Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que já machucou a Igreja.

Sou mais uma dessas pessoas que pode curar e ser curada pela Igreja.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

3 comentários sobre “Fui machucada pela Igreja… mas a história não acaba aí

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