Sede

 

xuanlocxuan
Ilustração de Xuan loc Xuan.

 

– Estou indo até o poço pegar água.

– Uhm… – Ele murmurou, sem nem se mexer da cama.

Eram onze e dez e eu, como de costume, cobri minha cabeça, peguei a moringa que guardo embaixo da pia, ajeitei-a no ombro e lá fui pela estrada poeirenta. Aquela caminhada me fazia bem, porque eu me distraía da angústia que me dava por vê-lo dormir até tão tarde. Gostava de pensar sobre nós dois e sobre o rumo que as coisas estavam tomando. Queria que conversássemos mais, que fizéssemos planos de viajar pela Palestina e ele me contasse como era o Reino do Sul, que lugares visitou em Jerusalém, quem ele conheceu… esses detalhes que eu só sabia por ouvir algumas conversas dele, quando alguém o visitava e eu me escondia atrás da porta. Ele sempre tão interessante. Conhecia gente importante, tinha amigos, tinha uma caligrafia linda e falava certinho, sem erros de aramaico. Tudo bem que o fato dele ser notívago (aprendi essa palavra com ele) sempre me incomodou, mas é que ele gostava de estudar até tarde. Era assim que ele era e era assim que eu o queria.

E foi enquanto eu pensava nessas coisas todas, que percebi que eu estava chegando ao poço e, à beira dele, vi um homem sentado. Que estranho… um homem que não era mestiço como nós. Um homem judeu. Estremeci por dentro. Fingi que não havia reparado na presença dele e me apressei para tirar água e começar a viagem de volta para casa. Lancei o balde poço abaixo e ele desceu despencando, batendo contra as paredes do poço até atingir a água. Trêmula, fui puxando o balde de volta e quando finalmente ia despejar a água na moringa, eu ouvi:

– Você poderia me dar um pouco dessa água, por favor?

Senti minhas bochechas vermelhas de vergonha. Respondi:

– Desculpe, mas como o senhor está falando comigo e me pedindo água? Vocês, judeus, não gostam dos samaritanos… não entendo.

–  Se você conhecesse a generosidade de Deus e quem eu sou, você me pediria água e eu daria a você uma água diferente, viva.

– Mas com o que o senhor pegaria essa água? O senhor não trouxe balde, nem moringa.

– Você não entendeu. Qualquer pessoa que beber da água desse poço aí vai sentir sede de novo. Porém, a água que eu ofereço não deixa ninguém com sede de novo, nunca mais. A minha água vai brotar de uma fonte dentro de você e vai jorrar para sempre.

– Eu quero dessa água! Já pensou? Nunca mais vou precisar vir aqui no poço! Que incrível!

– Vai lá chamar o seu marido, então, e volte.

Na mesma hora, fiquei sem graça e baixei a cabeça.

– Eu não tenho marido não, senhor.

– É verdade, eu sei. Você já foi casada cinco vezes e agora tem um caso com um cara. Sei de tudo isso.

– Então o senhor é profeta…  – tratei logo de mudar de assunto – Sabe, tenho algumas dúvidas sobre onde devemos ir para adorar a Deus… não sei se aqui ou se em Jerusalém, fico confusa.

– Não se preocupe com isso. Está chegando o momento em que todos os que acreditarem adorarão a Deus dentro de si mesmos, de forma sincera.

– Hum… acho que entendo, mas não muito. Mas quando vier o Escolhido de Deus, Ele vai nos explicar tudo isso direitinho, não vai?

– Sou eu mesmo o Escolhido de Deus.

Ao ouvi-lo dizer isso, senti o aceleramento do meu coração. Em uma fração de tempo, a paisagem desértica ao redor foi ganhando aos meus olhos colorações e matizes, como se até aquele momento, uma membrana houvesse turvado minha visão. E, naquele instante, a membrana era rompida. Por ela escorreram rios… rios que lavavam as marcas dos abusos, da exploração, das frustrações pelos relacionamentos idealizados, do preconceito, da violência, das humilhações públicas, dos julgamentos, dos xingamentos, da condenação. Minha alma, já dada como estiada, sorvia o orvalho das palavras do Escolhido, e dela brotavam raízes e cresciam ramos cobertos de novos brotos e, dos brotos, flores, e das flores, alegria. Ondas quebravam em meus pés e se retraíam, tornando, em seguida, a quebrarem-se, levando em seu movimento o pó dos quilômetros que percorri sem rumo, das estradas ermas, dos corredores escuros e sem ar. Nas minhas costas, o impacto de torrentes despencando do alto, como uma cachoeira, purgando anos de culpa e vício. Nas minhas mãos, uma taça de água fresca e pura, que bebi com desespero, como alguém que já não negocia mais os segundos.

Quando um grupo de judeus se aproximou do Escolhido, fui me afastando aos poucos, sempre voltando o meu olhar para Ele com olhos de deslumbre, como uma criança que, de tanto desejar um brinquedo, não sabe como reagir quando finalmente o ganha. Sem conseguir disfarçar a minha alegria, comecei a abordar as pessoas na rua, chamando-as para ir até o poço e ver a pessoa que me conhecia por dentro e por fora. Ele era o Escolhido – Aquele por quem todos nós esperávamos – e Ele estava ali para qualquer um que tivesse sede.


*Texto ficcional criado a partir da narrativa bíblica de João 4.1-29.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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