A arma da alma

Imagine você, ao ler num jornal sobre o assassinato de uma criança em São Paulo, se ver tão chocado, mas tão chocado, que decide ir conhecer a quadrilha que fez isso para levar até eles uma mensagem diferente, de amor, para que eles se arrependam e mudem de atitude? Louco, não? Pois um norte-americano, chamado David Wilkerson, fez exatamente isso. Abalado com a notícia de um crime odioso cometido por gangues em Nova Iorque, ele se mudou para lá com seu carro velho e sem um tostão no bolso. Ali, começou um trabalho com essas gangues e, ao apresentar Jesus a elas, mudou o cenário de violência de muitas daquelas ruas. A arma mais potente usada por Wilkerson? O hábito da oração.

Quando ouvi essa história, sentada num banco da suntuosa Catedral Metodista de São Paulo, senti que eu estava passando pela vida sem provar de uma parte deliciosa e espetacular dela, que só a oração poderia proporcionar, uma vez que só a oração consegue construir a ponte entre aquilo que a gente vê e aquilo que a gente não vê. Percebi que eu estava vivendo apenas para aquilo que vejo e isso era pouco pra mim.

Ontem recebi nos meus e-mails uma reflexão escrita pelo monge holandês Henri Nouwen, que sugere uma mudança ousada, envolvendo a troca de nossos pensamentos constantes por oração constante. Olha só a proposta dele:


Nossa mente está sempre ativa. Nós analisamos, refletimos, sonhamos acordados ou simplesmente sonhamos. Não há nenhum momento, de dia ou de noite, em que não estejamos pensando. Dizemos que o nosso pensar é “incessante”. Às vezes o nosso desejo é parar de pensar um pouco; isso nos pouparia de muitas preocupações, sentimentos de culpa e medos. Nossa habilidade de pensar é um dos nossos maiores dons, mas também é a fonte de nossas maiores dores. Será que temos que nos tornar vítimas de nossos pensamentos incessantes? Não. Nós podemos converter nosso pensar constante em um orar constante, fazendo com que nosso monólogo interior se torne um contínuo diálogo com nosso Deus, que é a fonte de todo amor.
Vamos romper com nosso isolamento e perceber que Alguém, que mora no centro de nosso ser, quer ouvir com amor a tudo o que ocupa e preocupa a nossa mente
.

Essa proposta soa tão simples que nem parece real. Mas quando o assunto é Deus, por meio de Jesus, é tudo assim direto e reto mesmo. Se a nossa mente fosse só uma fábrica de ideias (boas), ela seria perfeita. O problema é que a nossa mente também julga as pessoas, distorce a verdade e interpreta erroneamente os fatos. Aí se estabelece o inferno. Como escreveu C.S. Lewis:

Durma. Afaste-se por algumas horas de todos os tormentos que forjou para si mesmo.

Imagino Henri Nouwen revisitando a citação de Lewis:

Ore. Afaste-se para sempre de todos os tormentos que forjou para si mesmo.

Libertador.

A partir do dia em que ouvi sobre a história de Wilkerson com aquelas gangues em Nova Iorque, comecei a orar mais vezes, por mais tempo, e até um livro que fala só sobre a oração eu comecei a ler. Descobri que a oração pode ser de vários tipos, tomar várias formas e alcançar todas – literalmente todas – as dimensões da nossa existência. Estou adorando me aventurar nos caminhos transformadores que a oração tem aberto à minha frente: sinto mais alegria no coração, relaxo mais, não tenho brigado com meu marido por picuinha (aliás, as picuinhas são completamente exterminadas da vida de quem se conecta à Fonte de todo amor por meio da oração), meus vícios se tornaram menos atrativos e ando mais satisfeita com o modo que Deus me criou, tanto por fora como por dentro. A oração é um estilo de vida, um hábito saudável e feliz ao mesmo tempo (como uma dieta com direito a doces), um hidratante para almas ressecadas.

 

É isto que precisamos redescobrir nesta era de perplexidades:

como recorrer ao Pai.

Catherine Marshall

 

 

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Retrato em aquarela, por meu marido David Kim

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Um comentário sobre “A arma da alma

  1. Que lindo, que lindo, que lindo!!! Eu já estou experimentando esse remédio há anos, mas sempre acho que faço pouco, pq nossa tendência é relaxar, e lá vamos nós, de novo, nos envolvendo com picuinhas destruidoras da paz, da comunhão, do amor!Bjs. querida! Obrigada por essa reflexão tão útil e verdadeira, que me incentiva a continuar nessa prática, substituindo os maus pensamentos por ligações com Deus.

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