Breve relato de uma romântica curável

Sou uma romântica nata. Dos meus 13 anos em diante, eu assistia a todas aquelas comédias românticas hollywoodianas, em que adultos agiam como adolescentes, e às séries de TV em que adolescentes agiam como adultos (alguém aí se lembra de Dawson’s Creek?). Em todos eles, o casal mais carismático da trama sempre acabava junto. Nos meus devaneios também, e o casal era sempre formado por mim, obviamente, e algum garoto inatingível, por quem eu nutria uma paixão platônica. Naqueles minutos eternos que se seguiam antes do sono, eu conseguia montar um enredo com começo, meio e fim, envolvendo algum encontro fortuito com o crush impossível e ele, de alguma forma “inesperada”, abria o coração para mim e confessava como seus dias eram miseráveis sem a minha presença neles.

Mas o que talvez viesse a ser algo natural da adolescência – e até saudável, se deixado lá – me acompanhou para a vida adulta, a ponto de eu chegar a fazer terapia para me livrar dessa segunda vida. Sem sucesso. A idealização era a minha sombra e, por conhecer a fundo as minhas fragilidades, acabou se tornando a minha maior inimiga. Não havia relacionamento em que eu entrasse, que a romantização não entrasse comigo para colocar tudo a perder. Eu exigia que o real fosse igual ao imaginário e aí então tudo se desfazia. Eu queria estar feliz o tempo todo, apaixonada o tempo todo, sem conflitos o tempo todo. O que eu obtinha disso? Insatisfação o tempo todo, ingratidão o tempo todo, frustração o tempo todo.

Demorou muitos anos, mas muitos anos mesmo, para eu entender o funcionamento da minha mente e onde, nela, teria espaço para o universo paralelo e perfeito, sem que ele prejudicasse as minhas escolhas de carne e osso. Mesmo compreendendo e admitindo a existência desse mundo imaginário, ainda assim minha tendência de ir até lá buscar nomes, rostos e situações perfeitas nos momentos de dor era quase irresistível. Assim, por não abraçar por completo as minhas escolhas reais, com todos os bônus – e ônus – que elas traziam consigo, deixei muitas vezes de falar nelas, escrever sobre elas, postar fotos delas… curti-las mesmo, sabe?, por receio de soar hipócrita para os que me conheciam. Quantas vezes invejei os retratos de casais juntinhos postados nas redes sociais! Não porque eu mesma não fosse feliz, mas porque eu não era perfeitamente feliz.

Este ano completo 5 anos de casada e ainda tendo a me entregar a idealizações distantes. Mas cheguei a um ponto de exaustão por essa vida dupla habitando dentro de uma Luciana só. É desgastante, ingrato. Por tempo demais, fiquei guardando o meu melhor amor, o meu melhor sorriso, o meu bom humor, o meu respeito. E tudo para quem? Para alguém que nunca esteve realmente aqui, um ser etéreo, uma imagem, um habitante de um planeta romântico paralelo, para onde eu viajava todas as vezes que as minhas escolhas ficavam reais demais. Cansei e entreguei os pontos… fiz uma oração definitiva, falei tudo para Deus e terminei a oração assim: Pronto, tá aqui. Tudo o que construí na minha mente está neste pacote, que deixo aos seus pés agora. Faça o que quiser com ele, mas por favor, nunca mais me deixe pegá-lo de volta (essa foi uma das orações mais difíceis que já fiz na vida).

E é aqui deste lado do mundo, mais precisamente ao meu lado, que está o homem que comprou a minha briga, que apostou em mim, mesmo depois de conhecer a minha história: meu marido David. Faz 5 anos que ele me escolhe diariamente. Ele é real e me traz junto para viver a realidade com ele. E o mais incrível de tudo é que ele é capaz de reproduzir uma beleza e uma leveza muito parecidas com as que criei nos meus devaneios românticos de menina, sem ele nem ter estado lá! E é no alto dessa beleza e dessa leveza que ele me coloca e me coroa como a rainha do mundo que estamos criando juntos. Eu escrevendo e ele ilustrando.

Semana passada postei uma foto de nós três juntos: ele, nosso filho de 2 anos e eu. E ao contrário do que uma foto linda numa rede social sugere (“olha como sou feliz demais!!”), postei nossa foto juntos porque sonhei com esse dia. Sonhei com o dia em que eu estaria inteira no meu casamento, inteira ao lado do meu marido, nutrindo e lutando pelas minhas escolhas e pelas escolhas que fizemos juntos. Minha foto com eles é minha oferta de gratidão e alegria por estar, finalmente, pisando em terra firme de novo e, mais inédito do que isso ainda, amando a realidade em que me encontro.

 

family
Nós.

Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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