E a romantização continua…

Um dos meus temas preferidos na escrita e na vida é o amor. Assim, estou sempre ligada no que é postado sobre o tema. Há duas semanas, voltou a rodar por aí um artigo do filósofo Alain de Botton, ranqueado como o texto mais lido do NY Times em 2016.  Para quem não o leu, um resumo: o filósofo acredita que essa história de encontrarmos alguém que nos faça total, substancial e paradisiacamente feliz em um casamento é lenda (assunto do nosso último post aqui do blog, aliás). Para ele, a felicidade completa em uma união seria irrealizável pelas seguintes razões:

  1. Devido à profunda intimidade que um casamento pressupõe, com o tempo, acabamos descobrindo as esquisitices mais bombásticas do nosso parceiro (e ele, descobrindo as nossas);
  2. O que nos move na escolha de um parceiro é um padrão de desajuste que vivenciamos em episódios da nossa infância, logo, tendemos para uma escolha “errada”, mesmo que puramente guiados pelos sentimentos (isso eu entendi mais ou menos, rs);
  3. Temos horror à solidão e por isso fugimos dela;
  4. Queremos engarrafar um sentimento gostoso e eternizá-lo por meio do casamento.

Segundo Botton, tudo isso nos direciona para um casamento frustrante. Mas ele não encerra o texto nesse tom pessimista:

A boa notícia é que não importa se nós achamos que nos casamos com a pessoa errada. Não precisamos abandoná-la, mas sim abandonar a ideia romântica, sobre a qual o Ocidente tem sustentado a compreensão do que é o casamento pelos últimos 250 anos: que um ser perfeito existe e pode suprir todas as nossas necessidades e satisfazer cada carência nossa.

A partir desse ponto, Alain de Botton propõe que a gente substitua essas expectativas tão sonhadoras do romantismo por algo mais pé no chão, que leve em conta que nenhum ser humano pode nos salvar de nós mesmos. Para ele, a pessoa que mais combina com a gente é aquela que lida com as diferenças do casal com gentileza e sabe negociá-las. E conclui: compatibilidade é uma conquista do amor, não seu pré-requisito.

Assim que terminei de ler esse texto, pensei: ainda bem que esse texto existe!

De fato, alguém tão influente como ele ter escrito um texto tão sincero provocou em mim uma esperança pelas pessoas que estão nesse dilema e por aquelas que ainda virão a se relacionar. Se eu tivesse lido um texto assim e realmente acreditado nele 15 ou 20 anos atrás, talvez eu tivesse sido poupada e poupado outras pessoas de muita dor. Conforme contei no post da semana passada, eu fui, pela maior parte da minha vida, uma viciada em romantizações. E meu caso parecia perdido.

Mas se engana quem pensa que a romantização não serve para nada. Ela tem uma função bastante importante, que é a de atrair duas pessoas uma à outra. Porque se fosse verdade apenas o que Alain de Botton defende, então poderíamos nos relacionar com a primeira pessoa parada no ponto de ônibus, que tudo bem, iria dar certo de qualquer jeito, concordam? E por que não é assim?

A história de Jacó, encontrada na Bíblia, é um ótimo exemplo da influência da paixão muito antes do movimento romântico que deu o tom nos séculos 18 e 19 (e 20, 21…). Naqueles tempos remotos, as pessoas que viriam a formar o povo judeu se casavam com outros da mesma família, para que a linhagem não se misturasse e se perdesse. O pai de Jacó, observando esse procedimento, o mandou viajar até a casa do tio para lá encontrar uma noiva e Jacó foi. Ao chegar lá, ele viu a sua prima mais nova, Raquel, e se apaixonou por ela (Gênesis 29.18). Quando ele encontrou o tio, o tio lhe ofereceu trabalho e perguntou o que Jacó queria como pagamento. Jacó respondeu: Eu te servirei sete anos por Raquel, tua filha mais nova (29.18) – e o tio aceitou a proposta. Jacó serviu, então, por Raquel, durante sete anos, que lhe pareceram alguns dias, de tal modo ele a amava (29.20).

Jacó trabalhou por sete anos, sonhando em se casar com Raquel. A questão é que Raquel tinha uma irmã mais velha, Lia, que também era solteira. E, segundo o costume deles, era a mais velha que deveria se casar primeiro, depois a mais nova. Então, quando os sete anos de trabalho de Jacó terminaram, o tio dele trapaceou e fez com que ele passasse a noite com Lia no lugar de Raquel. E, assim, seu casamento com Lia foi consumado. Jacó ficou muito bravo e pediu explicações ao tio, que mencionou o costume de que era a filha mais velha que devia se casar primeiro. Como a poligamia era aceita naqueles tempos, o tio de Jacó prometeu que daria também Raquel a ele em casamento, o que ele de fato fez na semana seguinte, mas Jacó teve que trabalhar mais sete anos para “pagar” por sua amada. Jacó uniu-se também a Raquel e amou Raquel mais do que a Lia (29.30).

Essa história nos mostra claramente que existe, sim, uma diferença clara entre uma pessoa com quem nos relacionamos movidos por paixão e uma pessoa com quem só nos relacionamos. A paixão nos impulsiona a nos unir a alguém, a querer nos aprofundar no conhecimento e na intimidade com esse alguém, a construir alguma coisa ao lado desse alguém. É o imã, o tempo gostoso de construção de um vínculo, uma fase que define se vamos ou não continuar a caminhada juntos. É o frio na barriga, a espera ansiosa, os sorrisos gratuitos, a cabeça nas nuvens.

Mas e quando essas sensações todas passam, seria a hora de encerrar e partir para outra?

É exatamente nesse ponto que considero a reflexão de Alain de Botton de grande utilidade pública. Porque é justamente nessa metamorfose da pura paixão para algo que não é mais pura paixão que muitos desistem, por acharem que o amor acabou. E é nesse momento que cabe a nós nos perguntar: o que será que existe do outro lado da margem da paixão? O que nos espera depois da crise, da dúvida e da decisão de permanecermos juntos?

Demorei quase dois anos para responder essa pergunta e transpor esse rio. Lembro-me das longas sessões de terapia, em que eu repetia insistentemente à psicóloga que eu não via a hora de passar para o “nível 2” da minha relação com o meu marido. E lembro-me das palavras dela, me dizendo como eu experimentaria uma conexão profunda com ele ao chegar lá. Não seria um sentimento desesperado e ansioso como a paixão. Seria algo diferente. Seria um amor doce e consistente, como uma fruta madura.

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

(Soneto 29. Luís de Camões, poeta português, 1524-1580)

 

rafael-jacob-rachel
Encontro de Jacó com Raquel (1518-1519), do pintor renascentista italiano Rafael.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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