A dor de quem gosta sozinho

 

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Ilustração de Crisalys

 

Quando eu tinha 16 anos, uma menina que eu conhecia havia muito tempo, mas que não era uma grande amiga minha, me abordou para dizer que gostava muito de mim e que queria se aproximar, mas que eu não dava muita abertura. Isso me chocou. Primeiro, porque eu também gostava muito dela e, segundo, porque eu nunca tinha percebido que ela havia tentado se aproximar. Fiquei um pouco sem graça e me desculpei, sem saber como justificar a minha falta de sensibilidade.

Na faculdade, outro caso parecido: uma querida da minha sala descobriu que morávamos no mesmo bairro e, por algum motivo que eu desconhecia, ela fazia questão de me esperar para irmos embora juntas. Ela também sempre achava um jeito de se aproximar durante as aulas e a determinação dela fez com que uma amizade muito preciosa nascesse entre nós. Somos grandes amigas até hoje.

Coleciono no currículo pessoas que admirei de longe e de quem quis me aproximar ou de quem me aproximei por um tempo, mas que partiram da minha vida em seguida. Lembro-me especialmente de uma pessoa que frequentava a igreja onde frequento, uma jornalista toda estilosa, cheia de personalidade e que cantava lindamente. Por muito tempo, eu a observei, pensando no quanto eu seria acrescida se me tornasse amiga dela. Um dia, criei coragem e me aproximei. Resultado: trabalhamos juntas por um tempo e eu pude aprender muito com ela.

A vida nos proporciona a oportunidade de colecionarmos casos assim. Pessoas de quem gostamos muito e com quem adoraríamos conviver, mas que são difíceis de acessar, ou porque estão longe geograficamente ou porque romperam conosco ou porque nem fazem ideia de que existimos. É a dor de quem gosta sozinho.

Hoje falei com Deus sobre essa dor. Num mundo ideal, onde a maldade não existisse, poderíamos todos nos aproximar uns dos outros sem medo, sem malícia, sem risco de rejeição e sem reservas. Exerceríamos a liberdade pura. Deus, então, me contou de novo que é uma realidade exatamente assim que Ele está preparando para nós; porém, por enquanto, neste nosso mundo quebrado, a dor de gostar sozinho pode acontecer a qualquer instante, não tem jeito. A diferença está na esperança de que um dia vamos dar um abraço gostoso em todos esses nossos queridos. E melhor do que isso ainda: eles irão nos abraçar de volta.

 

Mas era amar o nosso amor querer que alguém fosse feliz
somente
porque o amávamos.

Clarice Lispector

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Melancólica, sim, mas ganhando um novo olhar sobre a vida

Desde que me conheço por gente, sou guiada pela melancolia – a tendência de enxergar a metade vazia do copo, o lado pessimista das coisas e por aí vai. Nunca estou completamente satisfeita com as circunstâncias. Se por um lado a melancolia tem seu lado bom, pois abre portas para uma reflexão detida sobre questões existenciais, por outro, faz de mim uma pessoa difícil de agradar… e de conviver. Me identifico muito mais com a personagem Tristeza – linda e fofa e de óculos (eu também uso óculos) –,  do filme Divertidamente, do que com Alegria (sempre tão positiva sobre tudo o tempo todo, que chega a cansar a gente, rs). A boa notícia, porém, é que esse descontentamento que sempre matizou todos os aspectos da minha vida tem sido cada vez mais raro e devo isso ao processo de transformação espiritual, pelo qual venho passando há pouquíssimo tempo.

Tudo começou em janeiro deste ano, há um mísero mês somente, quando vi que minha única saída para não estragar meus relacionamentos, minhas escolhas e minha vida de modo geral seria abandonar alguns vícios, que por tempo mais do que suficiente vinham me acompanhando. Eu já havia feito quase tudo: já tinha sido paciente comigo mesma, aguardando aquela mudança lenta do tempo, do amadurecimento; já havia respeitado o meu ritmo; perdoado as muitas recaídas; mudado de casa, de cidade… e nada me curava de vez. Até que eu fiquei conhecendo os escritos de Catherine Marshall, uma escritora cristã que primeiro ficou famosa porque se casou com um pastor americano conhecido, lá atrás, nos anos 40, depois porque seus livros começaram a vender bastante. Numa conversa com a minha mãe, ela me contou que tinha uns livros da Catherine Marshall guardados numa caixa e eu fui correndo lá pescá-los, esbaforida de ansiedade, como alguém que escava exatamente o quadrado onde está escondido o tesouro. Encontrei ali dois livros dela e nem esperei chegar em casa para começar a leitura deles. Um é sobre a oração (por isso que meus posts andam tão “monotópicos” ultimamente, rs) e outro sobre o Espírito Santo. No livro sobre a oração, ela discorre sobre algumas orações que às vezes desejamos fazer, mas que não sabemos como, porque encontramos dificuldade em identificar a nossa real necessidade. Assim, ela vai delineando cada tipo de oração possível e a gente, à medida que avança na leitura, vai identificando qual espécie de oração expressa melhor para Deus aquilo de que tanto necessitamos (sim, Ele sabe tudo de que precisamos, mas a oração é uma prática que exercita nossa confiança em Deus, nossa intimidade com Ele e nosso conhecimento Dele).

Depois que terminei o livro sobre a oração da Catherine Marshall (o outro ainda estou lendo), parti para os escritos de outra mulher, a francesa Jeanne Guyon. Essa aí é uma das pérolas mais raras e incríveis de todas as galáxias juntas de todos os tempos de toda a história de tudo o que existe! Pois é, parece exagero, mas não é. Cristã vivida no século 17, Madame Guyon, como ficou conhecida, desenvolveu um relacionamento com Deus tão, mas tão profundo, que você chega a ficar com brilho nos olhos de pensar que, mesmo habitando um corpo limitado, é possível chegar tão perto assim de Deus e viver feliz da vida com Ele, mesmo passando por um monte de sofrimentos (como foi o caso dela). Li a autobiografia dela e agora estou lendo um guia de oração que ela escreveu, chamado Experiencing the Depths of Jesus Christ (Experimentando as profundezas de Jesus Cristo através da oração). Nesse livro, ela vai mostrando, passo a passo, como podemos encontrar Deus no centro de nosso ser, onde Ele habita.

O que tem me deixado tão maravilhada nessas duas autoras não se deve apenas ao fato de serem mulheres incríveis e espiritualmente fortes, mas principalmente ao fato de apontarem para a Fonte de toda a sua força, alegria e brilhantismo. Os textos delas – sempre apoiados nas Escrituras – deixam a gente com água na boca para chegar rasgando o coração na presença de Deus. Dá muita vontade de viver aquilo tudo e aí você acaba colocando em prática as orientações delas para essa experiência e vê que é tudo verdade! O nível de espiritualidade e intimidade com Deus da Madame Guyon, por exemplo, pode deixar a gente – meras iniciantes no assunto – um pouco desanimadas a princípio, mas resolvi que qualquer passo que eu der em direção a Jesus é lucro, mesmo que sejam passos de bebê. Assim, Madame Guyon se tornou para mim uma referência de onde é possível chegar nesta vida em termos de amizade e paixão por Jesus. Lindo demais!

Mesmo que eu ainda tenha a tendência de ver tudo cinza (afinal, essa sou eu), a experiência da oração tem me levado a conhecer melhor quem é Deus e isso tem sido, definitivamente, revigorante. Um exemplo disso aconteceu ontem mesmo, de madrugada, quando despertei do sono e fiquei rolando de um lado para o outro da cama, pensando em alguns gastos que terei logo mais, sem saber se teremos ou não recursos para isso. Claro que o pensamento vencedor foi: “Não vamos ter dinheiro! Não vamos ter dinheiro!”. Resultado: desatei a chorar. Mais tarde, quando fui falar com Deus sobre isso em oração, Ele me tranquilizou, respondendo que era na calma e na confiança que estariam a minha força e a minha salvação (Isaías 30.15, Bíblia). O fardo foi, então, retirado das minhas costas. Sorri.


Por isso, nunca ficamos desanimados. Mesmo que o nosso corpo vá se degastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia.
(2 Coríntios 4.16 )

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Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

No limbo eu sofri, mas dele tirei muitas lições

Ontem eu estava mexendo em um pendrive antigo, o primeiro pendrive que tive, aliás, quando encontrei entre as músicas gravadas lá dentro uma da Alanis Morissette, chamada Limbo No More. Ao colocá-la para tocar, me senti viajando no tempo, de volta ao ano de 2008, época em que essa música foi lançada e que, coincidentemente, minha vida se tornou um caos, para em seguida ser levada ao limbo, à suspensão total de tudo como até então eu conhecia.

Eu havia acabado de sair de um casamento, tinha perdido amigos, mudara de casa, tinha deixado a igreja da qual fiz parte desde criança e, um mês depois disso tudo, ainda perdi o emprego. Não restou quase nada a que me apegar. Senti o fundo úmido do poço contra o meu rosto. Eu não via nada à frente. Tudo ficou escuro e frio.

Minha casa, meu papel
Meus amigos, meu homem
Minha devoção a Deus
Tudo amorfo
Indefinido

Nada mais está claro
Nada mais se encaixa
Nada mais parece verdade
E eu nunca me entreguei por completo

Nada tem durado 
Nada mais é afirmativo
Nenhum lugar é lar 
E eu estou pronta para não mais ser limbo

Meu gosto, meus pares
Minha identidade, minha afiliação
Tudo amorfo
Indefinido*

(…)

Uma vez ouvi que a crise guarda em si um grande potencial para que algo novo surja, como uma semente. Lembro de minha psicoterapeuta dizendo algo parecido: Lu, a angústia é boa e saudável quando aponta para uma saída. E se naquele ano tudo tinha vindo abaixo, se nada do que havia sido um dia existia mais, então aquele era um momento crucial na minha vida. Porque era a partir daquele nada que tudo haveria de ser reconstruído. E de uma forma dolorosa e estranhamente prazerosa ao mesmo tempo, todas as escolhas se puseram à minha frente de novo, aguardando por mim. Eu estava pronta para me refazer.

E foi aos poucos e sentindo a mão de Deus pegar a minha e me erguer do chão, que fui fazendo novas escolhas. A primeira delas foi me inscrever no programa de mestrado em literatura. Depois, procurei novos amigos, a partir daqueles que haviam restado. Voltei a dar aulas de inglês e, um ano após a minha separação, encontrei uma nova comunidade de fé, à qual pertenço até hoje. Antes de encontrar essa igreja, porém, eu havia frequentado uma outra, formada de jovens universitários. Cheguei a ir a um acampamento com eles e me lembro de uma reunião que fizemos ali, em que eles oraram pela família que um dia formariam. Nem tive coragem de me unir a eles nessa oração. Sentada mais longe, falei para Deus muito rapidinho: Se eu pudesse… um dia… formar uma família…. eu ficaria muito… feliz. Depois de um ano dessa oração, conheci o David – o descendente de coreano, artista e talentoso, cujo trabalho todo mundo admirava -, que veio a se tornar meu querido marido e pai do nosso coreaninho loiro, o Álef.

Faz quase 9 anos que a Alanis Morissette lançou o seu álbum com a música Limbo No More nele. E faz esse mesmo tempo que a minha vida foi varrida pelo terremoto metafórico mais tenebroso que já experimentei. Ainda assim, chegou o dia em que eu pude dizer como ela: estou pronta para não mais ser limbo. Mas foi no limbo que eu aprendi. Foi no limbo que me humanizei, que estourei a bolha em que eu vivia e que, longe de me rebelar contra Deus, me vi mais dependente Dele e de suas segundas e terceiras chances. O limbo me ensinou a fazer escolhas responsáveis e mais do que isso ainda: foi no limbo que enxerguei o valor e os efeitos edificadores do arrependimento e da humildade. Finalmente, foi no limbo que eu aprendi a ter esperança.

Eu sento com quadros preenchidos e
Meus livros e meus cachorros aos meus pés
Meu amigos ao meu lado
Meu passado amontoado numa pilha

Joguei fora a maior parte das minhas coisas
E só mantive o que eu preciso 
Para aperfeiçoar algo consistente e notavelmente eu

Tatuagem na minha pele
Meus professores no coração
Minha casa é um lar
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Um senso de mim mesma
Meu propósito é claro
Minhas raízes no solo
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Algo alinhado
Com o qual finalmente me comprometer
Algum lugar ao qual eu pertenço
Porque estou pronta para não mais ser limbo

Minha sabedoria na prática
Um alicerce firme
Uma promessa a mim mesma
Porque estou pronta para não mais ser limbo*

 

*Tradução livre de Limbo No More, Alanis Morissette. Letra original aqui.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A identidade que vale mais do que o RG

identidade

– Quem sou eu? Sussurrei para mim dias atrás.
Como num lampejo divino, depois de certo tempo meditando na vida, na minha própria vida, em resposta veio quem eu não era.

Confesso: eu estava tentando adequar a mim algumas características alheias. E ter esse insight me fez pensar como Deus é paciente, misericordioso e extremamente didático comigo. Sempre… Não tenho dúvidas, que esse insight, só pode ter vindo Dele. Em amor (e por amor) Ele me explicou, pela enésima vez, coisas que eu havia, novamente, esquecido durante o caminhar.

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Em São Paulo (capital), ao nos apresentar à uma pessoa que não conhecemos, costumamos falar o nosso primeiro nome e a seguir, conforme a conversa se desenrola, falamos qual é a nossa profissão, onde trabalhamos e o que fazemos para “ganhar a vida”, no sentido financeiro, é claro.

Já em cidades bem menores, seus habitantes costumam identificar-se pela família a qual pertencem. Logo, se você for de uma família abastada e conhecida, com toda a certeza, será visto com “bons olhos”. Agora, se você “só” for a filha do João e da Maria que moram na Rua X que cruza a Rua Y, será, como dizem, “só mais uma na fila do pão”.

“Minha colega de trabalho e amiga Agnes Heller, com quem compartilho, em grande medida, os apuros da vida, uma vez se queixou de que, sendo mulher, húngara, judia, norte-americana e filósofa, estava sobrecarregada de identidades demais para uma só pessoa. Ora, seria fácil para ela ampliar a lista – mas os arcabouços de referência por ela citados já são suficientemente numerosos para demonstrar a impressionante complexidade da tarefa”

Zygmunt Bauman no livro Identidade

Apesar de haver grandes diferenças nas formas de identificação, ora focamos somente em nossos aspectos profissionais e/ou acadêmicos, ora é a nossa descendência que se encarrega de nos definir ao mundo.

Em meio a tais contrastes, todas essas formas de identificação, e por que não dizer de nos enxergar no mundo, na verdade, podem significar a mesma coisa, ou tomamos a responsabilidade por nos identificar ou escolhemos fragmentos de nós para definir quem somos.

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No final de 2014, decidi fazer a mudança mais radical e, aparentemente, mais “sem noção” de toda a minha vida. Finalmente eu havia percebido que, durante muito tempo, eu me definia apenas pelo fazer; criar e executar. Um prato cheio para me contentar em ter minha identidade primária firmada, e totalmente enraizada, na profissão que eu exercia.

Hoje, ao estar em contato com estrangeiros que estão em solo brasileiro, não por escolha, mas por refúgio – pois, foram obrigados a deixar seus lares devido a uma guerra, e com isso, talvez nunca mais retornem a seus lares de origem – começo também a observar, como tantas outras identidades, são transitórias; passageiras. E outras tantas podem ser acrescentadas a contragosto.

E em meio a renúncias optativas e identidades atribuídas, penso o quão mais simples nossa identidade, de fato, é. Esse é o convite de Jesus: “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.30).

“Sempre que os estereótipos ofuscam nossa percepção espiritual, corremos o risco de resistir ao que o Espírito Santo está tentando dizer-nos. Se permitimos que o mundo determine nossa identidade, estaremos nos perdendo no mundo, não nos achando em Cristo”

Karj Torjesen Malcolm no livro A Identidade
Feminina Segundo Jesus

 

“A velha vida de vocês está morta. A nova vida é a vida real – ainda que invisível aos espectadores – com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também. Enquanto isso, estejam contentes com a obscuridade, como Cristo”

Colossenses 3.2-4 – A Mensagem

A minha verdadeira identidade só pode ser achada em Cristo, e através de Cristo. O meu verdadeiro eu está escondido Nele. Portanto, estar Nele é me perceber “nova criatura”, repleta de novas possibilidades: “eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5.17), e é fascinante!

Já não busco mais assumir a responsabilidade para me auto definir: “Pouco importa o que vocês pensem ou digam a meu respeito. Eu não me avalio. Nesse caso, os rótulos são irrelevantes. (…) O Senhor é quem faz este julgamento” (1 Coríntios 4.3–4 – A Mensagem). Pois, sou convidada apenas a ser, e a ser uma com Ele. Nessa comunhão, por vezes, vivo como alguém em constante amnésia buscando a autonomia que tanto me adoece e me leva para longe de Deus, porém, meu consolo é que num futuro breve serei plenamente eu e totalmente restaurada Nele.

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Pra manter ou mudar

Móveis Coloniais de Acaju

Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém

Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu

Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém

Nada do que eu sou me diz o que sei
Nada do que eu sei de fato é meu

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem

Sempre a explicação me diz o que sei?
Sempre que eu sei, alguém me ensinou?

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio,
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente

Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém

Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.