O grande supermercado que a vida se tornou

Ilustração de Libby VanderPloeg

Faz um bom tempo que quero escrever sobre esse assunto. Mas devo confessar: escrever sobre essa manipulação “sutil” que tenho visto acontecer de forma crescente com amigas, amigas de amigas e na qual eu também já fui vítima, é triste. Porém, mais do que triste fico extremamente indignada! Porque tenho percebido como essa crise de masculinidade, somada ao egoísmo inato a todo ser humano, tem afetado inclusive o bom moço, que paga de espiritual, de líder de ministério, de bom filho e de cristão dedicado. Que senta do seu lado aos domingos no culto, e não falta a nenhum evento promovido por sua igreja local.

A obsolescência programada de vidas

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais 

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho 

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção
Garotos – Kid Abelha (1985)

Esse mesmo bom moço (com todas aquelas credenciais citadas acima), se aproxima de você. Despretensiosamente vocês desenvolvem conversas interessantes, ele se mostra extremamente solícito e gentil. Com o tempo, e a convivência, vocês trocam mensagens sobre a vida, têm conversas profundas, começam até a saírem sozinhos. O tempo passa e você se envolve emocionalmente, e inevitavelmente, claro! Afinal, ele é tão legal, sempre te elogia, te dá presentes, te leva para jantares, tudo está caminhando de um jeito que parece tão fluído.

Só que o tempo vai passando e você ficando cada vez mais envolvida, porém, sem avanço algum porque vocês nunca falam diretamente sobre onde pretendem chegar. Você se sente deslocada, e sem entender muito bem tudo o que está acontecendo porque ele continua te mantendo sempre por perto, mesmo que seja “só” virtualmente.

Você então começa a perceber que algo está muito estranho e, para agravar a situação, percebe que ele também tem flertado com outras, e pasmem: elas são suas próprias amigas ou frequentam a mesma roda de seu convívio social. Inevitavelmente você fica confusa: Será que isso tudo é da minha cabeça? Será que estou viajando? E para fechar com chave de ouro, quando estão na mesma roda de amigos ele te trata de um jeito totalmente diferente do que quando estão à sós. Por que vocês não conseguem ter o mesmo papo e a proximidade que têm quando estão com outras pessoas? Ele parece tão distante, tão irreconhecível.

A insegurança disfarçada de poder de escolha

Isso soa familiar para você?! Pois, é… Infelizmente, casos assim, são mais comuns do que podemos, ou gostaríamos de imaginar, e pior: dentro de nossas igrejas.

A cultura do descarte excessivo e do individualismo, tem se instalado profundamente em nosso meio e em nossas relações. E muitos homens têm sofrido da tal Síndrome do Peter Pan: O homem que nunca cresce (The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up – Dr. Dan Kiley: 1983).

A busca pelo padrão ideal (e irreal) no (e do) outro para que eu me sinta aceito e valorizado, é desonesto com a outra parte. Eu transfiro minhas próprias responsabilidades, meus medos, anseios e inseguranças para o outro e de uma forma extremamente cruel e sagaz: usando-o como um mero objeto e descartando-o quando acho que não me serve mais. E durante o processo, enquanto ainda estou na dúvida se o outro será bom o suficiente para mim, ou se vou ter alguma vantagem real, vou mantendo-o na geladeira para meu bel-prazer.

O grande supermercado que a vida se tornou

Somos massacradas pela cultura da estética ideal. Constantemente estimuladas a deixarmos de ser quem somos (como se isso fosse verdadeiramente possível) e a desejarmos ser quem não somos – tampouco nunca seremos.

Padrões são impostos à nós massivamente através das mídias, do entretenimento e das marcas. Compramos toda essa ideia sem refletir e sem nos questionar. E essa cobrança (e auto cobrança), nos custa caro, muito caro.

Negligenciamos nossa verdadeira identidade, deixamos que terceiros nos digam quem somos e pouco a pouco vamos nos tornando menos humanas, viramos uma coisa, e como produtos em uma prateleira de supermercado, ou pior, como um pedaço de carne em uma vitrine de um açougue, somos (e às vezes nos deixamos ser) colocadas a disposição. Como no mundo das marcas, nos colocamos a concorrência, onde se é adquirida aquela que melhor aparenta, ou aquela que possui melhor custo x benefício.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.

Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas, agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.

Colossenses 3.1–10

É óbvio que mulheres também sofrem dessa síndrome fazendo homens vítimas, eu mesmo tenho amigos que sofreram com essa mesma crueldade que eu e que tantas amigas já sofreram. Mas convenhamos, não há como comparar, o gênero masculino é maioria esmagadora quando se trata de provocar a defraudação. Pois, se aproveita que é minoria nesses contextos e rodas sociais, explorando e potencializando um conceito pelo qual, nós mulheres, somos expostas e precisamos lutar contra diariamente que é o da objetificação.

Mulheres, vamos nos unir e falar mais abertamente sobre esse problema que tem assolado nosso meio e que se não for exposto não poderá ser tratado? Vamos parar também de achar que somente quando estivermos em um relacionamento teremos algum valor? Nós NÃO precisamos que outros nos digam qual é o nosso valor porque a pessoa mais importante já fez isso por nós. E Ele pagou um alto preço morrendo por nós para que fossemos completas Nele!

E homens, que tal pararem de agir como se as mulheres fossem objetos para que supram suas crises de auto aceitação? Vamos parar de achar que a vida gira ao seu redor e que todas as minas piram em você só porque é malhado ou possui algum “status”? Que tal praticarem a empatia que Jesus nos ensinou? Brincar com a vida alheia é uma das coisas mais cruéis e desumanas que podemos fazer com o próximo. Se você se feriu, e a ferida ainda sangra, não saia por aí fazendo inocentes sangrarem e alimentando um ciclo vicioso.

Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.

João 13.34–35

Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: “Não adulterarás”, “Não matarás”, “Não furtarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei.

Romanos 13.8–10

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

GAROTOS
Kid Abelha
1985

Garotos gostam de iludir
Sorriso, planos
Promessas demais
Eles escondem
O que mais querem
Que eu seja a outra
Entre outras iguais

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

Garotos fazem tudo igual
E quase nunca chegam ao fim
Talvez você seja melhor
Que os outros
Talvez, quem sabe
Goste de mim

São sempre os mesmos sonhos
De quantidade e tamanho…

Garotos perdem tempo pensando
Em brinquedos e proteção
Romance de estação
Desejo sem paixão
Qualquer truque
Contra a emoção

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Desistir ou persistir? O dilema que enfrentamos desde a infância

Duy Huynh
Ilustração de Duy Huynh

 

Eu tinha sete anos quando fiz a primeira grande desistência da minha vida: larguei o curso de piano. Ter de estudar solfejo e praticar as melodias representavam uma tortura chinesa para mim. Assim, pulei de alegria quando minha mãe – saturada do meu corpo-mole e das minhas reclamações – finalmente cancelou minhas aulas. Depois vieram outras tentativas… violino, bateria, canto, coral. Todos abandonados sem dó nem piedade. Quando decidi estudar inglês, meus pais ficaram na expectativa: e aí, quando será que ela vai desistir? Surpreendentemente, essa foi a primeira grande não-desistência da minha vida. Completei todo o curso e fui além. Viajei, me aprimorei, tirei certificados, fiz uma faculdade que incluía literatura e língua inglesas e me tornei professora.

Mas o inglês se tornou uma exceção numa existência – a minha – marcada muito mais pelas desistências do que pelas persistências. O francês ficou difícil? Desisto. O curso de escrita criativa é muito longe? Não vou mais. As aulas na academia acontecem muito cedo? Perco a hora. A prova prática da auto-escola é comprada? Deixa ela pra lá. Estou enfrentando problemas pessoais? Tranco minha matrícula na faculdade de teologia. Desistir se tornou para mim uma solução muito atrativa, porque era rápida e certeira, como um band-aid que sai do machucado de uma arrancada só.

Se pensarmos bem, desistir é, de fato, uma saída pronta para as questões da vida. Se algo não está bom, se não sai a contento, se não agrada, se enjoou, o descartamos. Nos habituamos tanto a desistir de tudo, que passamos a desistir em escalas cada vez maiores… desistimos de empregos, de sonhos, de pessoas e de relacionamentos. Alguém muito próximo a mim, aliás, tem tentado desistir até mesmo da própria vida. E assim, vamos abandonando pelo caminho possibilidades de uma “vida inteira que podia ter sido e não foi”, como escreveu Manuel Bandeira.

Esta semana eu estava prestes a desistir de novo. Estou cursando Pedagogia e neste semestre, que é o último, me vi no meio de um mundo de responsabilidades, horários, prazos, trabalho de conclusão, estágios, maternidade, trabalho normal – tudo junto, embolado. Perguntei a mim mesma se eu daria conta de equilibrar todos esses pratinhos sem deixar nenhum cair da vareta e a resposta foi não, eu não daria conta. Na hora, curti minha honestidade em admitir minha limitação – resultado de uma certa prática de autoconhecimento, não? – logo, só o que eu precisaria fazer era mandar um e-mail à faculdade, cancelando o curso. Ainda assim, no meio desse alívio de me liberar da responsabilidade com os estudos, algo me dizia que minha habilidade de me autoconhecer e me auto-sondar estava com algum defeitinho… lá no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que estava de novo recorrendo ao meu mais antigo vício na vida: a desistência. Então, me lembrei das vezes que desisti, das vezes que me arrependi (que não foram todas), das vezes que pude voltar atrás e das que não pude. Eu precisava romper com esse padrão, investigar em mim se existia alguma espécie de preguiça em algum ponto da minha personalidade que precisava despertar, crescer, amadurecer, se transformar! Sempre tem. Foi doloroso para mim decidir pelo caminho da persistência, como um parto em que nascemos de nós mesmos, parafraseando a minha Clarice. Entretanto, no momento em que reassumi os estudos do meu curso de Pedagogia, senti uma alegria indescritível. A desistência não deu a palavra final. Eu dei.

Essa experiência simples me proporcionou um mar de reflexões (cuja síntese é este post), principalmente no que diz respeito às pessoas. Algumas configurações de relacionamento se mostram tão complexas, que nos convidam à desistência. Buscamos fugir dos desafios que apresentam e de sua unicidade (ou seja, não há receita pronta que as resolva), mas talvez, ao optarmos por abrir mão desses vínculos, estejamos também a optar por um empobrecimento de vida. Afinal, as relações complexas, inexplicáveis, podem carregar em si o potencial de nos levar à superação de velhas preguiças e de nos tirar da órbita do nosso próprio umbigo para uma conexão verdadeira, profunda e insubstituível com o outro.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quando ser antissocial depende do ponto de vista

 

Pascal Campion
Ilustração de Pascal Campion

 

Considero-me introspectiva. Reservada. Antissocial. De fato, acho um sacrifício ter de comparecer a eventos em que a gente vai, sorri, acena, tira selfies e volta pra casa. E para intensificar ainda mais o meu lado introspectivo, faz quase três anos que moro no interior. Ou seja, já me tornei a personificação do termo bicho do mato. Pago para não sair do meu chalé aos fins de semana e depois do trabalho.

Entretanto, por baixo dessa superfície durona, está a verdade: amo me relacionar. Neste exato momento em que escrevo, por exemplo, sinto meu coração se apertar de saudades da minha família, que hoje está reunida num churrasco para comemorar o aniversário da minha mãe (e eu aqui no mato, por circunstâncias além do meu controle). Sinto falta de conversar com os meus amigos da igreja até o pastor insistir para irmos embora, porque ele precisa trancar o portão; sinto falta das tardes inteiras no Sesc Belenzinho, colocando os assuntos em dia com as meninas do blog; sinto falta dos filmes do Wim Wenders assistidos com a Maria Clara e de comer mais vezes o brownie imbatível feito pela Dalila. Acho que não devo ser, exatamente, uma perfeita antissocial.

O problema está no que eu tomo como referência quanto ao sentido de socialização e ao que eu acho que os outros esperam de mim. E talvez eles esperem mesmo. E talvez eu perca muito toda vez que recuso um convite para uma festinha de aniversário de criança, em que não conheço muita gente. Isso me faz lembrar de um conto da minha Clarice Lispector, que começa assim: Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos (do conto A repartição dos pães). O ponto alto do conto, porém, é quando a pessoa que narra se surpreende com o que é oferecido como refeição nesse evento de sábado e aquilo se torna uma redenção da alma. Ou seja, supera em muito essa expectativa murcha apresentada no início. De repente, ao insistir tanto em estar apenas “com quem me interessa”, como canta o Lenine, eu esteja perdendo a chance de me surpreender (já me surpreendi muito nessas festinhas infantis, aliás). Mas confesso: na fase em que me encontro agora, não tenho energia nenhuma para oferecer. Careço profundamente de momentos plenos. Quero me afundar numa almofada de sofá e ficar lá mergulhada num papo gostoso com alguém que nem se lembre de boas maneiras, vocabulário apropriado, termos politicamente corretos e outras censuras do tipo. Quero só ser eu. Ouvir e ser ouvida com a leveza e a cumplicidade que existem apenas entre velhos conhecidos. Ninguém para julgar, ninguém para quem eu tenha que provar alguma coisa, ninguém para agradar ou a quem eu precise dar um sorriso amarelo.

Perdoem-me os que me acham uma perfeita antissocial.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Ela, o amor e o Amor

Nasceu antes do tempo
Invertendo, assim, as prioridades
Mudou a direção do vento
E inaugurou difíceis verdades

O amor, distante
Pressuposto constante
Ela se esforçava para merecer

Sem perceber, crescia insegura
E por mais que do amor estivesse sempre à procura
Tinha um oco escavado no ser

Foi por isso que custou a crer
Quando Amor lhe foi ofertado
Tão habituada estava a nada valer
Que achou em si um coração amputado

Mas o Amor era insistente
Irresistível, incondicional e profundo
Curou a secura latente
E criou também nela um amor pelo mundo

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sangue

Mark Demsteader
Ilustração de Mark Demsteader

 

Ana sentia-se fraca.  Há horas que tentava moer a cevada, mas seus braços já não suportavam girar aquela pedra maciça. Teria de se contentar em jantar só o pedaço de peixe sobrado da refeição da manhã, nada mais. Pão, só no dia seguinte, quando acordasse descansada para terminar de prepará-lo. Apoiou sua cabeça na parede e soltou um suspiro conformado: fazia doze anos que não concluía suas tarefas de uma vez só. Sempre precisava dividi-las em etapas, que se estendiam pela semana, por lhe faltar força. Assim, se percebia que o pão terminaria em dois dias, Ana se punha logo a debulhar a cevada para adiantar a próxima leva. Dessa vez, porém, o tratamento com as novas ervas medicinais prescritas a ocupou por completo, impedindo-a de preparar seu alimento a tempo. Naquela noite, comeu só o peixe. Engoliu-o quase sem mastigá-lo, na esperança de que ele, ao descer inteiro pela garganta, desfizesse o nó de autopiedade que ali se instalara desde sua última visita ao médico. Exatamente como nas vezes anteriores, o tratamento que ele receitou só fez o sangramento de Ana piorar.

Mas nem as tarefas de casa – paradas ali como avisos insistentes das limitações de seu corpo –, pesavam tanto para Ana como pesava-lhe a solidão em que vivia. Nunca havia tido um companheiro: a única relação que mantinha era com a eterna ausência, com alguém que, como um fantasma, nunca havia se materializado, mas que ainda assim deixava rastros nos seus anseios mais profundos de mulher. Ela conhecia tão bem esse vazio e ele a ela, que já eram íntimos. Filhos, então? O ápice de seus sonhos. Como gostaria de ter meia dúzia deles! Se os tivesse, todas aquelas tarefas que realizava para si mesma ganhariam um novo propósito, porque todas visariam o bem-estar de suas crianças: as roupinhas lavadas com cuidadinho no rio, a água do poço buscada para se tornar um chá anticólicas, o pão quentinho servido antes das aulas de Torá… choros e risadas se revezando e substituindo aquele silêncio velho e chato, que por tanto tempo teria sido hóspede em sua casa.

Só então Ana percebeu que o peixe já estava esturricando no fogo, tão mergulhada que estava em seus devaneios. Pescou-o da panela num gesto rápido, para não queimar as pontas dos dedos, e deu o toque final de sabor com o azeite que comprara no dia de seu aniversário. Aliás, lembrou-se que foi na volta da compra do azeite que ouviu as pessoas do vilarejo comentando sobre o profeta Jesus, que passaria por lá por aqueles dias. Ela estava decidida a vê-lo.

No dia previsto para a passagem de Jesus por ali, Ana escolheu a túnica que mais a escondia. Não queria que a reconhecessem, porque caso isso acontecesse, a mandariam de volta para casa, devido a sua impureza. Tinha que garantir que veria o Mestre. Assim, esperou que todos os seus vizinhos saíssem primeiro (todos estavam em polvorosa com a visita do famoso profeta) e ela, em seguida, deixou sua casa e seguiu por um caminho mais longo, menos óbvio. Toda vez que avistava gente se aproximando, esgueirava-se entre duas casas ou atrás de um tronco de figueira. E foi assim, de esconderijo em esconderijo, que Ana conseguiu chegar até a aglomeração sem ser notada.

Jesus ainda não tinha passado, mas o empurra-empurra e as cotoveladas indicavam que se aproximar dele seria uma prova de força. Ana, então, cerrou os punhos como um gesto de vontade e determinação. Ser impedida não era uma opção. Ela chegaria, nem que fosse para desmaiar de fraqueza aos pés de Jesus assim que o alcançasse. De suas costas e da testa o suor gotejava. Sentiu as pernas tremularem, os joelhos falsearem. Não sabia dizer se o ar que começava a lhe faltar e o coração acelerado seriam sintomas de sua constante anemia ou da ansiedade que sentia com a perspectiva de se encontrar com o Mestre. O calor era tão intenso, que Ana cambaleou de vertigem e, antes que perdesse o equilíbrio e desmaiasse, sentiu uma criança segurá-la pelos braços. Apoiou-se nela, agradeceu e aprumou-se. Respirou fundo. Ele não demoraria muito… mal terminara de formular esse pensamento, viu Jesus e seus companheiros abrindo caminho logo a sua frente, com um jeito apressado. Aquela era sua chance. Imediatamente, num movimento que durou menos de um segundo, Ana esticou o braço em direção a Jesus e, com agilidade, segurou e soltou a sua túnica quase que ao mesmo tempo. O que aconteceu em seguida foi como a freada brusca de cavalos que correm a toda velocidade. De repente, Ana sentiu estancar o sangue que vazava incessantemente de seu débil corpo. E foi nesse mesmo instante, que Jesus parou, olhou em volta e perguntou:

– Quem me tocou?

– Como assim, Mestre? Essas pessoas estão nos comprimindo por todos os lados, por que você pergunta quem o tocou?? – espantou-se um dos que o acompanhavam.

– Alguém me tocou de modo diferente, Pedro, porque senti que de mim saiu poder – Jesus respondeu, olhando ao redor, na tentativa de identificar quem havia sido.

Ana, então, começou a tremer, imaginando que seria desmascarada sem perdão. Também, como podia ter pensado que escaparia sem ser notada!? Ela, a mulher impura, banida do templo, das festas, das rodas de conversa, da família… Ana, banida da vida. Mesmo curada agora, viveria para sempre sob a sombra daquela vergonha de ter tocado o Mestre com sua impureza e sem a permissão dele. O que deveria fazer? Assumir que ela o tocara? Se não assumisse, poderia ser pior, porque Jesus descobriria de qualquer maneira. Ana deu um passo tímido em direção a Jesus:

– Fui eu, Senhor – confessou, ajoelhando-se e com lágrimas nos olhos.  – Faz doze anos que sofro de hemorragia e nenhum médico nunca, até hoje, conseguiu me curar. Gastei todas as minhas economias, mas os tratamentos só deixaram o meu problema pior. No meu aniversário fui comprar azeite e nisso fiquei sabendo que o Senhor passaria aqui pelo vilarejo. Me animei, porque eu sabia que alguma coisa iria acontecer e que eu sairia diferente. Aí eu vim aqui hoje, vi esse monte de gente esperando pelo Senhor e pensei que se eu conseguisse, pelo menos, tocar na sua túnica, eu ficaria curada. E foi isso mesmo que aconteceu, a hemorragia parou, parou totalmente!

– Filha, – Jesus declarou –, a sua fé salvou você. Levante-se, por favor, e siga tranquila.

Ana sorriu e se levantou. Foi abraçada por algumas mulheres da multidão que a cercava e nem conseguiu ver Jesus indo embora. Procurou abrigo tranquilo na sombra de um sicômoro e ali chorou. Chorou de espanto, de alegria, de gratidão, de alívio. Havia doze anos que, angustiada e impotente, sentia a vida se esvair de si. Doze anos, nos quais via escoar não apenas seu sangue, mas sua esperança e seus sonhos. Doze anos de isolamento, prisão, desprezo, fofocas, acusações e cansaço. Doze anos de total resignação. E aquele leve toque, na hora certa, na pessoa certa, lança Ana para fora de sua gasta realidade e a transporta para um modo de estar no mundo completamente novo. Os doze anos são, finalmente, encarcerados no passado.

Ao voltar para casa, Ana desembalou a única túnica branca que tinha e, vagarosamente, a vestiu.

*Texto ficcional baseado nas narrativas bíblicas de Mateus 9.19-22, Marcos 5.25-34 e Lucas 8. 43-48.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As Armadilhas do Coração – Parte 2: A inveja e a ingratidão

A comparação que torna-se cobiça

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

in·ve·ja

1. Sentimento de ódio, desgosto ou pesar que é provocado pelo bem-estar ou pela prosperidade ou felicidade de outrem.

2. Desejo muito forte de possuir ou desfrutar de algum bem possuído ou desfrutado por outra pessoa; avidez, cobiça, cupidez.

Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis

É um exercício grande não perder tempo me comparando com a vida alheia. Mais difícil ainda é não nutrir em meu coração essa comparação, que geralmente começa de forma sutil, e ao ser alimentada toma corpo e vira um monstro.

Mesmo com essa consciência, por vezes, caio nas armadilhas da inveja disfarçada. Camuflo meus reais desejos e finjo, para mim mesma, que são ambições honestas, genuínas. Doce engano… Doce não, amargo engano! Porque sorrateiramente vou vivendo de fragmentos, me contentando com migalhas de mim. Vou deixando de viver minha própria vida, de ser minha própria protagonista. Aos poucos vou deixando de ser quem eu sou e abandonando quem eu deveria estar me tornando.

O clímax dos Dez Mandamentos é o décimo mandamento em Êxodo 20.17: “Não cobiçaras a casa do teu próximo. Não cobiçaras a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”. O mandamento para não cobiçar é uma coisa totalmente interior. Cobiçar nunca é coisa exterior, pela própria natureza do caso. É fator intrigante observar ser esse o último mandamento que Deus nos dá nos Dez Mandamentos, e, portanto, o eixo do assunto todo. O resultado de tudo isso é que chegamos a uma situação interior e não a uma mera situação exterior. Na verdade, quebramos esse último mandamento, de não cobiçar, antes de quebrarmos qualquer um dos outros. Toda vez que quebramos um dos mandamentos de Deus, significa que já violamos esse mandamento de Deus, cobiçando.

Verdadeira Espiritualidade – Uma vida cheia de beleza, que edifica e inspira, Francis Schaeffer
Capítulo A Lei e a Lei do Amor (página 20)

Esse desejo, que de tão intenso, me leva a acreditar que só serei feliz se eu for diferente do que sou ou só serei feliz se eu tiver aquilo que não tenho, na realidade demonstra minha total ingratidão para com meu Criador.

E essa ingratidão, aos poucos, vai aprisionando minha alma, secando minhas entranhas e me deixando oca, ressequida. Como ferrugem ela corrói tudo o que é sadio e me aprisiona num ideal completamente irreal.

Em essência, a ingratidão, não me deixa desfrutar de minhas qualidades para que eu consiga transbordá-las abençoando aqueles que me cercam. Afinal de contas, nós não somos chamados para frutificar? E como frutas, que nascem num pomar, nos darmos como alimento aos nossos semelhantes?

Abençoados são vocês, que se contentam com o que são — nem mais, nem menos. Assim, vocês se verão como os orgulhosos donos de tudo que não pode ser comprado.

Mateus 5.5 – A Mensagem

Então eu oro, e peço a Deus tal contentamento. E como o maná, que ele me seja dado diariamente, em doses suficientes para meu bem viver. E que esse contentamento venha de Ti, que é a Fonte da Vida, para que assim, eu me recorde de Tua bondade e sequer ouse duvidar do Teu Santo, Puro e Misericordioso Amor.
Amém!

_ _ _ _ _ _ _ _

Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidão: http://bit.ly/2uxdQ4H

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

As Armadilhas do Coração – Parte 1: O tédio e a murmuração

Sobre o tédio nosso de cada dia

Ilustradora: Henn Kim — http://www.hennkim.tumblr.com

O tic-tac do relógio é ensurdecedor. O tempo parece não passar. Tudo está absolutamente igual, imóvel. Nenhuma previsão de mudança. Nenhum indício, por menor que seja, de qualquer alteração em minha vida. Nenhuma esperança.

É o tédio; de novo. Me atormentando e dizendo que a vida é sem graça, que não passa. Que não vale a pena e me levando a murmurar; de novo. E a duvidar; de novo.

Vazio, tudo é um grande vazio!
Nada vale a pena! Nada faz sentido!

O que resta de uma vida inteira de trabalho sofrido?

Uma geração passa e outra geração chega,
mas nada muda – é sempre a mesma coisa.

O sol nasce e se põe,
um dia após o outro – é sempre igual.

O vento sopra para o sul e depois para o norte.
Gira e dá muitas voltas
sopra aqui e acolá – e vai seguindo o mesmo rumo.

Todos os rios vão para o vasto oceano,
mas o oceano nunca transborda.

Os rios correm para o mar
e logo depois voltam a fazer o mesmo percurso.

É um tédio só! É uma mesmice sem tamanho!
Nada tem sentido!

Será que os olhos não cansam de ver
nem os ouvidos de ouvir?

O que foi será novamente,
o que aconteceu acontecerá de novo.

Não há nada novo neste mundo.
Ano após ano, é sempre a mesma coisa.

Se alguém grita: “Ei, isso é novo!”,
Não se anime – é a mesma velha história!

Ninguém se lembra do que aconteceu ontem.
E as coisas que vão acontecer amanhã?

Ninguém se lembrará delas também.
Você acha que será lembrado? Pode esquecer!

Eclesiastes 1.2–11 – A Mensagem

Salomão1 também enfrentou esse enorme e profundo tédio. Depois de uma vida inteira, de luxos, riquezas e vontades satisfeitas, olhou para trás e se questionou: – O que nessa vida vale a pena? O que de fato faz, e traz, sentido?

O tédio, então, me toma por completa. E inevitavelmente, a seguir, começo a reclamar, e muito. Murmuro constantemente. Em pensamentos audíveis me pergunto: Por que não tenho aquilo? Por que só acontece, ou não acontece, comigo? Por que não eu? Por que só eu? Por quês e mais por quês invadem meu ser. Roubam a minha alegria e me enchem de dúvidas. Posteriormente, e instintivamente, me encho de certezas: Ah, com toda a certeza, se eu tivesse aquilo eu estaria melhor! Se isso não estivesse acontecendo comigo eu estaria, e seria, diferente! Se eu pudesse fazer tal coisa, aí sim, eu estaria mais feliz!

“Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!”

O maná era como semente de coentro e tinha aparência de resina. O povo saía recolhendo o maná nas redondezas e o moía num moinho manual ou socava-o num pilão; depois cozinhava o maná e com ele fazia bolos. Tinha gosto de bolo amassado com azeite de oliva. Quando o orvalho caía sobre o acampamento à noite, também caía o maná.

Números 11.4–9 – A Mensagem

Acho que deixei de apreciar e agradecer o maná me ofertado diariamente. E o resultado foi uma fome insaciável. A gula me consumiu e a constante reclamação me cegou.

O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor dará carne a vocês, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que saia carne pelo nariz de vocês e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?’ ”

Números 11.18–20 – A Mensagem

 

Diferentemente dos animais, que parecem bem satisfeitos em ser apenas eles mesmos, nós, humanos, estamos sempre procurando meios de ser mais do que somos ou mesmo ser outra pessoa. Exploramos o país por instigação, examinamos nossa alma em busca de sentido, compramos o mundo pensando no prazer. Tentamos de tudo. As áreas comuns de esforço são: dinheiro, sexo, poder, aventura e conhecimento.

Nossas incursões sempre aparentam ser promissoras no início, mas nada parece nos satisfazer. Por isso, intensificamos nossos esforços, e quanto mais nos dedicamos a algo, menos extraímos dele. Algumas pessoas acordam cedo e empreendem em uma jornada tediosa e repetitiva. Outros parecem nunca aprender e se debatem por aí a vida inteira, tornando-se cada vez menos humanos com o passar dos anos, até que, ao morrer, não resta humanidade o bastante para compor um cadáver.

Eclesiastes, na verdade, não diz muito a cerca de Deus. (…) Sua tarefa é expor a total incapacidade humana de encontrar o sentido e a completude da vida por nós mesmos.

É nossa propensão desistir de nós mesmos, tentando ser humanos por meio de projetos e desejos próprios.

Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes na Bíblia A Mensagem

Eu não quero mais levar uma vida inteira sem sentido, rotineira e sem graça. Não quero chegar ao final da vida e perceber que eu poderia fazer, e ser, diferente.

Eu quero me livrar de todas minhas pseudo-garantias, e agora! Quero me alimentar do suficiente – que é dado por Deus, e em uma dose especial, que só Ele sabe medir para mim.

Quero me lavar de toda e qualquer rebeldia e ideia idólatra. Quero, e desejo, me purificar com a água que é a Fonte da Vida. Que sacia o coração, renova a alma, limpa o entendimento e regenera minha força [Marcos 12.30].

_ _ _ _ _ _ _ _

Acompanhe a Série As Armadilhas do Coração:

Parte 1 – O tédio e a murmuração: http://bit.ly/2tumlZn
Parte 2 – A inveja e a ingratidãohttp://bit.ly/2uxdQ4H

_ _ _ _ _ _ _ _

NOTAS:
1Sem dizer abertamente, o narrador dá a entender que é o rei Salomão. Fabulosamente rico, internacionalmente famoso, com centenas de mulheres em seu harém, ele agora é um senhor de idade que percebe como foi pequeno seu “sucesso”, quando vê a morte se aproximar. Após o imenso trabalho que teve para construir seu império, teria de deixá-lo para seu filho Roboão, um homem moralmente fraco. As dez tribos do norte de Israel não escondiam o fato de que não confiavam em Roboão. Não precisavam da inteligência de Salomão para ver que seu país logo entraria em colapso (e isso de fato ocorreu). [Eugene Peterson em trecho da Introdução do livro de Eclesiastes]

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.