Desistir ou persistir? O dilema que enfrentamos desde a infância

Duy Huynh
Ilustração de Duy Huynh

 

Eu tinha sete anos quando fiz a primeira grande desistência da minha vida: larguei o curso de piano. Ter de estudar solfejo e praticar as melodias representavam uma tortura chinesa para mim. Assim, pulei de alegria quando minha mãe – saturada do meu corpo-mole e das minhas reclamações – finalmente cancelou minhas aulas. Depois vieram outras tentativas… violino, bateria, canto, coral. Todos abandonados sem dó nem piedade. Quando decidi estudar inglês, meus pais ficaram na expectativa: e aí, quando será que ela vai desistir? Surpreendentemente, essa foi a primeira grande não-desistência da minha vida. Completei todo o curso e fui além. Viajei, me aprimorei, tirei certificados, fiz uma faculdade que incluía literatura e língua inglesas e me tornei professora.

Mas o inglês se tornou uma exceção numa existência – a minha – marcada muito mais pelas desistências do que pelas persistências. O francês ficou difícil? Desisto. O curso de escrita criativa é muito longe? Não vou mais. As aulas na academia acontecem muito cedo? Perco a hora. A prova prática da auto-escola é comprada? Deixa ela pra lá. Estou enfrentando problemas pessoais? Tranco minha matrícula na faculdade de teologia. Desistir se tornou para mim uma solução muito atrativa, porque era rápida e certeira, como um band-aid que sai do machucado de uma arrancada só.

Se pensarmos bem, desistir é, de fato, uma saída pronta para as questões da vida. Se algo não está bom, se não sai a contento, se não agrada, se enjoou, o descartamos. Nos habituamos tanto a desistir de tudo, que passamos a desistir em escalas cada vez maiores… desistimos de empregos, de sonhos, de pessoas e de relacionamentos. Alguém muito próximo a mim, aliás, tem tentado desistir até mesmo da própria vida. E assim, vamos abandonando pelo caminho possibilidades de uma “vida inteira que podia ter sido e não foi”, como escreveu Manuel Bandeira.

Esta semana eu estava prestes a desistir de novo. Estou cursando Pedagogia e neste semestre, que é o último, me vi no meio de um mundo de responsabilidades, horários, prazos, trabalho de conclusão, estágios, maternidade, trabalho normal – tudo junto, embolado. Perguntei a mim mesma se eu daria conta de equilibrar todos esses pratinhos sem deixar nenhum cair da vareta e a resposta foi não, eu não daria conta. Na hora, curti minha honestidade em admitir minha limitação – resultado de uma certa prática de autoconhecimento, não? – logo, só o que eu precisaria fazer era mandar um e-mail à faculdade, cancelando o curso. Ainda assim, no meio desse alívio de me liberar da responsabilidade com os estudos, algo me dizia que minha habilidade de me autoconhecer e me auto-sondar estava com algum defeitinho… lá no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que estava de novo recorrendo ao meu mais antigo vício na vida: a desistência. Então, me lembrei das vezes que desisti, das vezes que me arrependi (que não foram todas), das vezes que pude voltar atrás e das que não pude. Eu precisava romper com esse padrão, investigar em mim se existia alguma espécie de preguiça em algum ponto da minha personalidade que precisava despertar, crescer, amadurecer, se transformar! Sempre tem. Foi doloroso para mim decidir pelo caminho da persistência, como um parto em que nascemos de nós mesmos, parafraseando a minha Clarice. Entretanto, no momento em que reassumi os estudos do meu curso de Pedagogia, senti uma alegria indescritível. A desistência não deu a palavra final. Eu dei.

Essa experiência simples me proporcionou um mar de reflexões (cuja síntese é este post), principalmente no que diz respeito às pessoas. Algumas configurações de relacionamento se mostram tão complexas, que nos convidam à desistência. Buscamos fugir dos desafios que apresentam e de sua unicidade (ou seja, não há receita pronta que as resolva), mas talvez, ao optarmos por abrir mão desses vínculos, estejamos também a optar por um empobrecimento de vida. Afinal, as relações complexas, inexplicáveis, podem carregar em si o potencial de nos levar à superação de velhas preguiças e de nos tirar da órbita do nosso próprio umbigo para uma conexão verdadeira, profunda e insubstituível com o outro.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

3 comentários sobre “Desistir ou persistir? O dilema que enfrentamos desde a infância

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