O desapego mais difícil que existe

Meu notebook pifou. Era dia do vencimento de algumas contas e, como onde moro não existe agência bancária, faço tudo via bankline. Logo, computador pifado = contas atrasadas. Ao tentar ligar o computador e ele nem se mexer, me vi tomada por uma sensação de desespero. Depois de eu ter apertado o on/off vinte e três vezes, o deixado carregando e recarregando e carregando de novo, virado e sacudido, respirei fundo totalmente perdida, sem saber por onde começar a reorganizar a vida. Ainda não sei dizer se tem conserto pra ele, por isso existem grandes chances de eu ter perdido fotos queridas, trabalhos da faculdade e até textos para o blog.

Esse episódio me ensinou sobre a transitoriedade das coisas. Um dia as temos, no outro, elas se vão. E por mais batida que seja essa ideia, ela sempre nos pega desprevenidos. Uma vez, li em algum lugar que não devemos ter algo do qual não conseguiremos nos desapegar. Se isso de fato acontecesse, tudo o que temos caberia numa única mala. Difícil. Ainda assim, sinto profundo alívio quando penso nessa maneira de viver apenas em termos materiais. Afinal, vão-se os aneis, ficam os dedos. O grande desafio, porém, é quando esse chamado pede que nos desapeguemos de pessoas. Aí a dor é outra.

Há situações em que precisamos deixar alguém bem específico: um namorado ciumento, mas por quem se é apaixonada; uma amiga insegura, que precisa aprender a andar com as próprias pernas; uma irmã que mora no interior e com quem nos acostumamos depois de passar as férias inteiras com ela. E há ainda o caso mais radical de todos: quando Deus pede de nós que deixemos todas essas pessoas ao mesmo tempo, porque Ele quer nos levar para um lugar completamente novo, onde cumpriremos um propósito. Quando esse é o caso, um misto de senso de honra por atender um convite de Deus, ao mesmo tempo um frio na espinha pelo desconhecido, misturado ainda com o fato inevitável de que nossos queridos ficarão para trás faz a gente se sentir atordoado. Quantos loopings existenciais um desapego dessa amplitude gera!

Jesus declarou: em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, filhos ou terra por minha causa e por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguições; e, no mundo futuro, a vida eterna.
(Evangelho de Marcos, capítulo 10.29-30)

Mas mais importante do que quebrarmos a cabeça, imaginando se isso um dia irá acontecer com a gente, e mais importante do que sofrer por antecedência, especulando de quem teremos que nos desapegar nesta vida, e mais importante do que qualquer coisa que vá embora de um dia para o outro é a disposição do nosso coração. Porque pode ser que você nunca precise abrir mão do que julga mais precioso e que ótimo pra você se for assim! Mas a questão real é: você tem um coração disposto a deixar tudo?

Meu notebook talvez não tenha mais conserto. Minha fotos e meus textos talvez não tenham volta. Mas isso não importa mais. Respiro fundo de novo e, num ato de fé e de entrega total, eu suspiro para Deus: eis-me aqui*.

 


*Palavras de Isaías, depois de uma visão que ele teve e Deus o chamou para falar ao povo de Israel (Isaías 6.8).

 

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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