O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

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1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liturgia do ordinário

Encontrando o Sagrado na rotina comum da vida diária e entendendo o tempo.

Foto de Wil Stewart

A nossa rotina, as coisas que fazemos e como as fazemos, a forma como gastamos o nosso tempo, as demandas que nos ocupam, o jeito que vivemos cada dia ordinário de 24 horas… importam grandemente e são o substrato onde Deus nos encontra, nos transforma, nos ensina a amá-lo e a amar os outros.

A divisão entre secular e sagrado é tão natural em nossa mente que normalmente separamos Deus das coisas ordinárias da vida, associando-o com situações mais ‘santas’ como um momento de oração, uma reunião da igreja, o culto, etc.

Afinal, o que há de sagrado em acordar e escovar os dentes, arrumar a casa, responder uma lista infinita de emails e mensagens de WhatsApp, ficar parada no trânsito, comer, lavar a louça, tomar banho, lavar roupa, trabalhar, encontrar com as pessoas, participar de reuniões, conversar ao telefone, consertar coisas que estragam, perder e (às vezes) encontrar coisas perdidas, dormir? (E mais um monte de outras coisas muito ordinárias que acontecem entre essas atividades em um dia comum).

Talvez, inconscientemente, nós acreditamos que a santificação acontece naqueles momentos especiais de adoração e revelação, geralmente durante um momento de louvor. Como se o processo de transformação que Deus está operando em nós fosse desconectado das atividades ordinárias da vida comum.

O curioso é que são essas atividades ordinárias que ocupam a maior parte do nosso tempo. Tempo. Nosso tempo. Corremos para lá e para cá, executando um monte de atividades, de acordo com nossas agendas. Agimos como se controlássemos o ‘nosso’ tempo e o que acontece dentro dele. E deixamos apenas algumas horas para Deus nesse ‘nosso’ tempo cada vez mais escasso, onde lemos a Bíblia, meditamos, oramos ou fazemos algum estudo bíblico.

Esse ‘nosso’ tempo é guiado por diferentes calendários, de acordo com o que é prioridade no momento: o calendário escolar, depois o calendário acadêmico, depois o calendário do trabalho… eles é que nos dizem quando é hora de trabalhar e de descansar, quando é hora de celebrar e de fazer uma prova. E todas as demais atividades são espremidas no tempo que sobra.

Mas, e se o tempo não fosse apenas algo que nos limita? E se o tempo (e cada coisa ordinária que fazemos dentro dele) fosse sagrado? E se houvesse um tempo marcado por um calendário que desse forma à nossa vida? Um tempo não arbitrário, não definido pelo mercado de trabalho. Um calendário que contasse uma história, que tivesse uma liturgia própria que trouxesse sentido a cada atividade ordinária, que nos moldasse e nos ensinasse a viver cada dia debaixo do sol?

Descobrir o calendário litúrgico foi como descobrir o tempo real. — Tish Harrison Warren

Sim, existe um outro tipo de calendário conhecido como Calendário Litúrgico ou Calendário Cristão, também chamado de Ano Litúrgico ou Cristão. Um calendário elaborado em tempos antigos e utilizado ao longo da história da igreja. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa.

A cada semana nós participamos do trabalho criativo de Deus e descansamos. A cada ano nós recontamos a história de Jesus. Advento, Natal, Epifania: a história do povo de Deus esperando pelo Messias, o nascimento de Jesus, sua revelação como Rei. Quaresma, Páscoa, Pentecostes: a história da tentação de Jesus, a vida em um mundo caído, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão, a vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja. Nós vivemos esta história a cada ano, semana a semana, vivendo o que confessamos nos credos no modo como nomeamos os nossos dias. — Tish Harrison Warren

O Calendário Cristão é organizado diante da narrativa da revelação de Deus através de Jesus, de sua ação no mundo e em nossas vidas. O ritmo ensinado nesse calendário nos ajuda a abraçar as tensões de nossa realidade e a enxergá-las sob a perspectiva desta grande narrativa. A trabalhar já por um novo reino e a esperar porque ele ainda não está completo. Nós aprendemos a celebrar e a chorar. A nos apropriar da vida de Jesus que nos é oferecida a cada dia. A trabalhar e a multiplicar os talentos que nos foram dados. A amar cada um que encontramos da forma mais prática que esse amor pode assumir. E a descansar, porque Ele já completou o seu trabalho e tem cuidado de nós.

Aprendemos que o tempo não pertence a nós. Que nosso valor não está na quantidade de tarefas realizadas, na eficiência no controle do tempo.

Eu preciso da igreja para me lembrar da realidade: o tempo não é uma mercadoria que eu controlo, administro ou consumo. A prática do tempo litúrgico me ensina, dia a dia, que o tempo não é meu. Ele não gira ao redor de mim. O tempo gira ao redor de Deus — o que ele fez, o que está fazendo e o que vai fazer. — Tish Harrison Warren

É como se estivéssemos em treinamento. Aprendendo a viver em uma outra realidade, a seguir um outro ritmo, a responder a um outro tempo. E cada dia de 24 horas nos oferece um tempo sagrado, no qual surgem as oportunidades para esse aprendizado, para essa transformação, através das atividades mais ordinárias.

Quando eu acordo, por exemplo, me lembro de quem sou: amada, escolhida, aceita. E antes de mergulhar nas redes sociais com os olhos semiabertos, ou afundar na lista de atividades como um zumbi, eu faço uma oração, converso com meu Senhor que me concede mais um dia de vida.

Somos marcados desde o primeiro momento em que acordamos por uma identidade que nos é dada pela graça: uma identidade mais profunda e mais real do que qualquer outra identidade que podemos usar ao longo do nosso dia.— Tish Harrison Warren

Então escovamos os dentes, cuidamos do corpo, nos alimentamos. Um ritmo que demonstra nossa finitude, a necessidade de alimento diário, de cuidado diário. Reflete o próprio ritmo da fé: de dependência, de cuidado, de obediência diários, momento a momento. Nossos corações e nossos amores são moldados pelo que fazemos diariamente.

Arrumamos a cama, lavamos a louça, cuidamos da casa, da roupa. Trabalhamos, respondemos emails, encontramos pessoas, participamos de reuniões. Através das tarefas mais cotidianas a transformação de Deus espalha suas raízes e cresce. Exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, organizamos, criamos, cuidamos, somos cuidados.

Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.

Foto de Poppy Barach

Preparamos refeições, comemos sozinhos, comemos com os amigos e com a família, rimos e conversamos, abraçamos, dormimos e descansamos. Experimentamos prazeres ordinários, de alegria, encanto, satisfação e divertimento. Ação de graças, reconhecimento da bondade, adoração, entrega.

Esses são apenas alguns exemplos de situações ordinárias que vivemos todos os dias. Deus nos chama para vivermos uma vida de alegria e contentamento no meio de circunstâncias bem concretas como essas, situações que experimentamos diariamente. Situações que são cheias de encanto, de aprendizado, de revelação, de confronto, de crescimento, de beleza, de vida.

Em um mundo sempre ocupado e com pressa, desenvolvemos hábitos de falta de atenção e perdemos a manifestação de sentido nas pequenas coisas. Caminhamos como mortos vivos e não como pessoas cheias de vida. A vida que nos é oferecida na história contada pelo tempo é tão exuberante que nos transforma, nos cura, nos faz inteiros e completamente vivos.

Eu preciso aprender a encontrar a alegria e a rejeitar o desespero no momento em que eu estou vivendo agora. Em meio às pequenas pressões e ansiedades, preciso aprender a confiar em Deus, a olhar para a cruz e a me apropriar do que Ele já fez por mim. A depender dele, a esperar com fé e a agir não baseada em minha própria força ou entendimento.

O calendário cristão traz luz para minha rotina diária ao me lembrar que eu faço parte de um povo que vive em uma história diferente. Que junto com esse povo, com a igreja, eu estou inserida nessa história e ela também se torna a minha, a nossa, história. Deus está redimindo todas as coisas, incluindo cada um de nós. Nossas vidas — e nossos dias — são parte dessa redenção. Nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido.

Então, o meu dia de hoje se torna transparente e eu vejo vislumbres de algo maior por trás dos inúmeros pequenos cuidados diários. E eu posso ter uma atitude diferente de simplesmente me entregar a uma rotina sem vida, ao cumprimento automático de atividades sem sentido, ao tédio, à pressa.

O que Ele fez e está fazendo têm reflexos na forma como eu vivo o meu dia. Nada do que vivo ou faço, minhas escolhas e sonhos, foge do Senhorio dele em minha vida. Além disso, o que experimento no culto aos domingos — a adoração, a leitura da Palavra, a oração, a confissão de pecados, o perdão, o pão e o vinho, a oferta, a comunhão, o abraço do meu irmão, a bênção… — molda a minha experiência diária em cada um dos outros seis dias.

Deus está nos formando em um novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos do hoje. — Tish Harrison Warren

Ele está nos formando quando vivemos o tempo sagrado que nos é dado, por graça, e fazemos o que precisa ser feito nas rotinas mais ordinárias do nosso dia. Cada dia, por mais comum, é carregado de sentido e parte da vida abundante que Deus tem para nós. Como vivemos cada dia ordinário é como estamos vivendo nossa vida inteira.

Precisamos ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia. Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura. Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

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Essa reflexão foi baseada no livro de Tish Harrison Warren: Liturgy of the ordinary, sacred practices in everyday life, de onde tirei as citações apresentadas ao longo do texto (em tradução livre). Aprendi tanto que estou pensando em escrever uma reflexão para alguns capítulos dele.

Também estão alinhadas com as discussões que fazemos no L’Abri, em especial, o sacramento do momento presente.

Além disso, tenho usado o Calendário Cristão há alguns anos e o Lecionário mais recentemente. Minha sensação também é a de que descobri o tempo real e meus dias têm sido mais ricos com a ajuda desses recursos, com o entendimento dessa narrativa.

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Texto publicado originalmente em Lecionáriohttps://lecionario.com/a-liturgia-do-ordinário

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Um desabafo e um apelo às feministas cristãs

Esta semana chegaram em minha timeline dois ou três artigos falando sobre o crescente número de evangélicas que têm aderido ao feminismo. Se por um lado essa notícia é de animar, uma vez que esse tabu finalmente tem sido quebrado no meio cristão (demorou, não?), por outro, existe um discurso rançoso e insistente nas entrelinhas de algumas entrevistas que tratam desse assunto, que é o seguinte: a Bíblia é ultrapassada e não pode ser levada a sério. Tudo ali deve ser relativizado. Agora me respondam vocês, companheiras na causa e na fé: por que precisamos colocar em xeque o caráter sagrado das Escrituras para validar o nosso discurso? Por quê???? (perdoem-me pelo excesso de interrogações, mas preciso deixar bem expresso aqui o grau da minha indignação).

A não ser que eu seja muito ignorante mesmo, essa necessidade de estabelecer uma dicotomia entre a Bíblia como verdade e o feminismo, a fim de justificar a aderência das cristãs ao movimento, não entra na minha cabeça de forma alguma. Eis algumas considerações e textos retirados da Bíblia, que explicam o tamanho do meu espanto:

  • Pelo que eu entendo do feminismo, trata-se, essencialmente, de um movimento que luta por respeito e direitos iguais entre os gêneros. Sei que existe uma vertente mais radical, que preconiza a superioridade do gênero feminino sobre o masculino, mas imagino (e me corrijam se eu estiver errada), que não é isso que o feminismo como um movimento mais abrangente defende, uma vez que o que o move é o ideal de justiça. E olha só o que diz a Bíblia: Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gálatas 3.28, negrito meu).
  • Só o texto bíblico acima já daria conta de justificar a causa feminista mais abrangente. Mas aí virão algumas dizer sobre o versículo famoso de Paulo sobre o casamento, que propõe a submissão da mulher em relação ao marido (Efésios 5.22). Vou repetir o que muitos já disseram: continue lendo que você verá que o marido, em troca, deve amar tanto a mulher, que deve estar disposto a dar a própria vida por ela (são vááários versículos sucessivos que reforçam isso, a partir do 5.25). É como minha amiga Fernanda Pinilha falou: relação de submissão é diferente de relação de opressão. Uma relação movida por um amor puro como o descrito nesse texto do apóstolo Paulo certamente cria um ambiente propício para ambos encontrarem seu espaço. Submissão, neste texto, definitivamente significa respeito (só ver o resumo de tudo no verso 33) e respeito é a cola básica de qualquer união.
  • Podíamos passar parágrafos e mais parágrafos citando exemplos do protagonismo de certas mulheres em diversas narrativas bíblicas (as próprias reportagens sobre o feminismo entre as evangélicas já citam alguns exemplos, como as mulheres que divulgaram a ressurreição de Jesus), mas é fato que o machismo é presente na maioria das histórias que compõem as Escrituras, principalmente o Antigo Testamento. Mas companheiras queridas, vamos ser bastante lógicas neste momento: estamos falando de sociedades ancestrais, cujas organização familiar e mentalidade não podem, de maneira alguma, ser analisadas tendo como referência, base, teoria ou o que quer que seja a mentalidade da cultura ocidental atual. Isso seria como querer tratar uma doença típica daquela época, como a hanseníase (vulgo lepra), com uma medicação desenvolvida nos dias de hoje – ou seja, impossível! Simplesmente a igualdade entre os gêneros não existia como possibilidade de problematização para as pessoas daquela época. Cada sociedade tratava a mulher da forma como entendia ser o certo e ninguém questionava isso, fazer o quê? Isso não quer dizer que a Bíblia endosse esse comportamento específico. Ela apenas o retrata, com as virtudes e as mazelas típicas da história de qualquer povo.
  • Agora que já passamos pela questão da Bíblia e vimos que – ufa! – ela não está dissociada da causa feminista abrangente, vamos à questão que, aí sim, é de um machismo evidente: a participação das mulheres na igreja. Aí o nosso olhar não está mais sobre o que Deus acha disso, mas como as pessoas dentro de uma igreja lidam com isso. Como não sou homem, não sei explicar tamanha resistência em abrir espaço para as mulheres ocuparem (a não ser no ministério infantil, claro): seria medo de elas falarem besteira? De se destacarem? Ou então falarem demais? Sensualizarem enquanto lideram? Não serem suficientemente inteligentes? Algumas amigas e eu já especulamos um pouco o assunto e chegamos a pensar que todo esse medo denota uma insegurança do homem frente a uma mulher, em termos de sexualidade mesmo. Bom, como eu falei, são só especulações e não afirmações. Apenas os homens podem analisar suas motivações para barrarem tanto a contribuição feminina em postos de destaque na igreja. Só espero que eles não continuem recorrendo à Bíblia para justificar um preconceito ou uma dificuldade que está dentro deles próprios e não em outro lugar.

Mulheres cristãs feministas, que bom que vocês existem! E que papel importante estão desempenhando dentro de uma realidade que deveria ser, por essência, igualitária, justa e graciosa! Não deixem a causa. Nem a fé. Porque a causa sem a fé pode gerar extremismos e distorções e a fé sem a causa deixa tudo como está dentro das igrejas: um monte de mentes femininas brilhantes e cheias do Espírito sendo desperdiçadas por preconceito injustificável.

Que a fé no Autor das Escrituras nos leve à oração e à união para que continuemos a influenciar nosso contexto.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

 

Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O que queremos é ter a nossa dor validada

A redoma de vidro_Sylvia Plath
Ilustração de Sylvia Plath

Carregamos dores dentro de nós o tempo todo. Se pudessem ser medidas com régua, variariam de tamanho, sim, mas nem por isso deixariam de ser dores. Ontem, por exemplo, meu filho tinha acabado de chegar ao espaço de brincar do Sesc, quando avisaram que a área seria fechada para limpeza. Ele, totalmente imerso dentro de um cubo de madeira gigante, nem sonhava que a brincadeira teria de ser interrompida. E lá fui eu, fazer o serviço sujo: Filho, precisamos ir embora agora, eles vão limpar aqui. Como resposta, recebi um conjunto vazio. Álef, sai do cubo, por favor. Precisamos ir…  Cri cri cri … Não tive outra alternativa, senão entrar no tal cubo e pegá-lo. Ele chorou e ficou tentando se soltar do meu colo, todo protestante: quero ficar! Quero ficar! Até que eu respondi: querido, eu entendo como é chato ter que ir embora. Sei que quer ficar. Mas não podemos. Na mesma hora, ele parou de resistir e aceitou.

Essa mudança brusca na reação do meu filho me fez pensar sobre um ato muito simples, mas que, quando genuíno, tem efeito curativo: a validação da dor do outro. Ao amadurecermos, vamos chegando à difícil conclusão e ao fim da ilusão de que outros seres humanos têm o poder de curar nossas feridas internas. Não, eles não são Deus, não são perfeitos, são limitados e até carregam em si grande potencial para intensificar ainda mais nosso sofrimento. Entretanto, nada impede que essas mesmas pessoas tragam na bagagem de sua vida o antídoto da empatia. Ah, essa palavrinha… tão em voga em tudo agora. Mas faça o teste de memória: quantas vezes, na sua adolescência, tudo o que você queria era apenas ser ouvida por sua melhor amiga, mas ela, na tentativa de fazer você se sentir melhor, insistia em martelar na sua cabeça, que aquele garoto que te deu um fora não te merecia? E as notas vermelhas na escola, então? Um dos temas de sermão favoritos dos pais.

Claro que, com isso, não estou propondo o fim da orientação, do conselho ou da correção. Mas será que nossos conselhos ou opiniões são tão imprescindíveis assim, que precisam mesmo vir antes de tudo? De repente, um toque no ombro primeiro, uma palavra solidária, uma tentativa sincera de se colocar no lugar do outro e compreender sua frustração podem abrir um mundo de possibilidades para a cura entrar. Eu mesma, quando estou triste, não gosto que tentem me animar. Porque é artificial. Não quero fórmulas mágicas, nem sorrisos forçados, menos ainda a cobrança de que tenho que me sentir feliz o tempo todo. Às vezes, tudo de que preciso é alguém que se sente ao meu lado e, em silêncio, tome um chá de hortelã comigo.

Deleito-me ao ler sobre a estratégia que o próprio Deus (referido neste texto como Senhor dos Exércitos, ou seja, intrinsicamente guerreiro), diz que usaria para ajudar um líder de Judá a conduzir os judeus de volta à sua terra:


Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.
(Zacarias 4.6)

Deus é mesmo um gentleman. E, certamente nós mesmos, que nos inspiramos em tão grande amor e procuramos o outro com interesse genuíno, sem a ansiedade de empurrar soluções goela abaixo, encontraremos um terreno aberto, fértil e sedento aguardando por nós.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.