A vida dentro da caverna

Esses dias meu filho brincava ao meu lado, sobre a minha cama, onde às vezes trabalho com o meu notebook. Como típica criança que ele é, uma de suas brincadeiras preferidas é se esconder debaixo das cobertas e a outra brincadeira é mexer nos objetos que deixamos em cima da mesa de cabeceira. Depois de se esconder nos cobertores algumas vezes, como era de se esperar, ele começou a mexer nos objetos, escondê-los, até que encontrou uma lanterna. Ficou frustrado e choroso, quando a acendeu e percebeu que ela não iluminava o quarto.

– Filho, a luz da lanterna não ilumina, porque a janela está aberta e o quarto já está iluminado. Precisamos encontrar um lugar escuro, – expliquei.

Foi aí que me ocorreu: mostrei para ele como seria legal fazer uma caverna com os cobertores, porque assim ficaria bem escuro e ele poderia usar a lanterna para iluminar lá dentro. Ideia acatada com sucesso: entusiasmado, ele escondia os objetos na “caverna” e os encontrava com a ajuda da luz da lanterna.

Essa brincadeira me levou a pensar no momento em que vivo. Tenho passado por um processo de questionamentos e medo e, como Elias (1 Reis 19.9), quero ficar escondida nas minhas versões da caverna: minha casa no meio do mato, meus dias de férias, meus pensamentos, minha solidão.

Ao mesmo tempo que permanecer dentro da caverna indica que reconheço e acolho a minha angústia, também significa que talvez eu não esteja fazendo muito para superá-la, que estou entregue. É ter dó de mim mesma e me considerar incapaz de enfrentar a situação. É ter uma desculpa para não me envolver com as pessoas e revelar a elas minhas vulnerabilidades, a fim de que nos identifiquemos e comunguemos das dores da vida.

Mas Deus sempre sabe lidar com os que se escondem em cavernas. Elias foi visitado duas vezes por Ele até resolver sair (1 Reis 19. 9-19). Temendo perder sua vida, Davi também se escondeu em cavernas, tempos antes de se tornar rei. Um dos salmos em que ele desabafa é o 142 e foi justamente esse que o lecionário que sigo indicou como estudo para esta semana. Davi não teve vergonha de assumir seu sofrimento e isso o tornou eternamente empático com todos os que necessitam de consolo:

 

Gritando a Iahweh, eu imploro!
Gritando a Iahweh, eu suplico!
Derramo à sua frente o meu lamento,
À sua frente exponho a minha angústia
,

(Salmo 142.1-3, Bíblia de Jerusalém)

E foi na caverna de cobertas, feita pelo meu filho, que Deus falou comigo. Quando eu disse ao pequeno que a luz da lanterna só brilharia onde estivesse escuro, compreendi a própria verdade daquilo que eu estava falando: Deus brilharia na escuridão em que eu me escondia e lá Ele seria visto e encontrado. Ainda mais: Ele seria não só a luz, mas o caminho que me guiaria para fora. Também ouvi Deus falar para mim que, quando saísse da caverna, eu veria as minhas maiores dificuldades transformadas por um novo jeito de olhar. E, para me comunicar isso, Ele usou uma música dos britânicos do Mumford & Sons, chamada, aliás, A Caverna (The Cave). A letra inteira é tocante e o vídeo – anexado ao final deste texto pra vocês – é um primor também, porém vou transcrever só a parte que mais falou comigo:

So come out of your cave walking on your hands
Então saia da sua caverna andando sobre suas mãos
And see the world hanging upside down
E veja o mundo de ponta cabeça
You can understand dependence
Você consegue entender a dependência
When you know the maker’s land
Quando conhece a terra do criador

Cada dia dou um passo para fora da caverna. Cada dia renovo a minha fé e a minha esperança. Às vezes desperto na escuridão e no silêncio da madrugada e me coloco a orar. A impressão que tenho é de que a intensidade das orações feitas nesses momentos é maior, não sei. Parece que tenho mais fé, rs. Nomeio os meus medos, um a um. Oro por outras pessoas. Quando termino, sinto que dei vários passos em direção à saída. Sinto-me mais feliz, mais leve e encontro forças para viver o dia seguinte.

Talvez o fim da caverna coincida com o fim da minha vida, quem pode saber? A questão é continuar, avançar, fitando o Farol, que nunca se apaga.

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Quando elas escrevem, eles não leem

Quando meu marido sugeriu o tema para este post, minha primeira reação foi perguntar a mim mesma: como eu não pensei nisso antes?? A ideia dele veio de duas novelas (romances curtos) lidas na última semana, ambas escritas por mulheres sob pseudônimos masculinos: A festa de Babette, de Karen Blixen, que publicava suas obras como Isak Dinesen, e O moinho à beira do Floss, de George Eliot, que era, na verdade, a inteligentíssima Mary Ann Ewans (essa mulher escreveu, sob seu pseudônimo masculino, uma das obras mais importantes da língua inglesa, Middlemarch: um estudo da vida provinciana). A partir disso, imaginamos que seria uma boa eu puxar o assunto dessa história de uma escritora ter que se disfarçar de homem para ter algum crédito na praça.

Pesquisei um pouco a respeito e entendi que isso foi algo relativamente comum no século 19 e início do 20, por dois motivos associados: 1) os assuntos sobre os quais essas autoras queriam escrever rompiam com o estereótipo da escrita considerada “de mulheres”, que não era levada a sério. Exemplos do que as autoras com pseudônimos masculinos queriam escrever: contos de suspense, ficção científica, ficção com temáticas políticas e sociais, críticas de literatura e arte; 2) quando usavam um nome de homem, essas autoras conseguiam ser mais lidas… especialmente, por homens. As irmãs Brontë e o “escritor” George Sand (na verdade, Amantine Lucile Aurore Dupin), que se vestia de homem e fumava em público – nunca a uma mulher isso seria permitido em sua época –, são os exemplos mais clássicos.

Mas quem pensa que essa prática ficou restrita ao passado, esquece-se do caso atual mais famoso de uma escritora que teve que se disfarçar para alcançar sucesso: J.K. Rowling. A criadora de Harry Potter se chama Joanne Rowling (o K da abreviação é inventado) e o motivo que a levou a abreviar o seu nome é o mesmo do das escritoras e seus pseudônimos dos séculos passados: pouca gente daria crédito para uma história de fantasia escrita por uma mulher. A não ser, claro, se ela escrevesse contos de fadas (os quais, aliás, foram escritos majoritariamente por homens, com exceção da autora de A Bela e a Fera e de Madame d’Aulnoy, baronesa escritora de contos desse gênero, que cunhou o termo). Harper Lee, autora do tocante O sol é para todos, também escondeu seu nome, Nelle, para que o gênero soasse ambíguo.

Achei toda essa história muito interessante e fiquei pensando se os homens, de forma geral, leem obras escritas por mulheres. Já prevendo o resultado (quanta pretensão), resolvi lançar a pergunta no meu Facebook:


Pesquisa para os homens: 

Vocês leem livros escritos por mulheres?
– Se sim, de quais autoras?
– Se não, por que não? (caso se sintam confortáveis para responder esta, rs)

O resultado foi muito diferente do que eu julgava. Dos 274 amigos homens que tenho em meu perfil, apenas doze responderam (todos afirmativamente), três deles citando autoras que eu nem sequer imaginava que existiam! Hannah Arendt foi a mais mencionada, mas nomes como Flannery O’Connor, Simone de Beauvoir e Virginia Woolf também apareceram. Um desses amigos lê mangás escritos por mulheres, quatro leem escritoras brasileiras, um não liga para o gênero quando escolhe o que vai ler, enquanto ainda outro amigo lê desde autoras indianas até chilenas.

Levando em consideração que, dos 274 amigos homens do total, muitos não leem meus posts, outros não leem livros, outros tantos não leem livros escritos por mulheres e não quiseram se expor, mais outros muitos não entendem português e mais um tanto lê meus posts, lê livros escritos por mulheres, entende português, mas não quis responder a minha pesquisa, até que doze respostas formam um resultado razoavelmente animador. Sem contar as curtidas (alguns curtiram, mas não comentaram). Assim, se os meus amigos de Facebook representassem uma amostra do tipo de público leitor que encontramos por aí no mundo, nossas queridas autoras poderiam todas sair do armário de sua identidade tranquilamente. Uma pena que a realidade abrangente não é assim.

Por último, considerei as autoras cristãs. Uma vez que o forte do nicho cristão é a não-ficção, de novo pensei que mulheres cristãs só escrevessem para mulheres cristãs. Sempre que vou a uma livraria especializada, encontro mulheres escrevendo para mulheres e o Max Lucado escrevendo para mulheres, rs. Na minha cabeça, apenas a Madame Guyon – no século 17! – e meia dúzia de pré-reformadoras e teólogas haviam conseguido a façanha de ter seus livros consolidados entre mulheres e homens. Ledo engano meu. Numa das respostas à pesquisa no Facebook, um homem (se vocês insistirem, eu conto que foi o pastor da minha igreja, rs) citou uma lista enorme de cristãs autoras que ele lê e leu na vida dele. Pesquisei uma por uma, achei algumas incríveis (confiram Mary Eberstadt, por favor!) e respirei aliviada por saber que as mulheres cristãs também querem falar sobre sociedade, ética, política, economia, e não apenas sobre ser uma esposa que edifica o lar (claro que isso é fundamental, mas vamos virar um pouco o disco??).

Ler sobre essas mulheres despertou em mim um orgulho gostoso, não do tipo competitivo – está vendo?? Mulher também sabe escrever coisa que presta! – aff!, mas de satisfação mesmo, de alegria por descobrir tantas mulheres abrindo novas sendas para a humanidade trilhar, mesmo que isso custe a algumas parte de sua identidade. O amor à verdade que escrevem clama mais alto que as condições impostas. Enfrentam. Seguem. Vencem.

Encerro o meu texto com ela, a autora que transcreve não a alma feminina ou a masculina, mas a humana:


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector

 

 

GeorgeSand2
Amantine Lucile Aurore Dupin, escritora francesa, famosa por escrever sob o pseudônimo George Sand e aparecer em público vestida de homem.

 

P.S. Este assunto me deixou tão pilhada, que me pergunto agora qual é a porcentagem de homens que lerá esta postagem. :)


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Gratidão em tudo e por tudo

polyvore
De polyvore.com

Quarta-feira passada, dia 5, levei meu filho para um dos passeios que mais gosto de fazer em São Paulo: visitar o zoológico. Como se não bastasse esse destino, o dia amanheceu lindo, a temperatura estava amena e ainda conseguimos levar mais uma tia e duas primas de última hora. Mas as alegrias não pararam aí. Minha irmã – que é também minha melhor amiga –, mesmo gripada, fez o grande sacrifício de aparecer por lá também. Não tinha como o nosso programa ficar mais perfeito. Quer dizer, tinha sim, porque ficou: a hora de comer não foi um picnic, mas um banquete. Frutas fresquinhas, sucos e probióticos, pão de queijo, barquinhas recheadas com palmito temperado e sanduíches com molho de mel e mostarda eram algumas das iguarias que compunham nosso almoço ali naquela mesa, à sombra gostosa das árvores, bem ao lado do espaço das zebras (um dos animais preferidos do meu filho). Resumindo: foi um dia completamente feliz.

Depois que esse dia terminou, me sentir grata foi a coisa mais fácil do mundo. Deus tinha sido escancaradamente gracioso comigo, me presenteando com muito mais do que eu havia imaginado. E é esse mesmo sentimento de gratidão que nos toma quando um feriado prolongado se aproxima (ou melhor ainda, quando as férias se aproximam), quando estamos no aeroporto, prestes a embarcar em uma viagem legal, quando o cartão de crédito vira, quando tomamos uma bebida gelada no sol de rachar, quando saímos com nossos melhores amigos, quando nossos pais superam alguma doença ou crise. Nesses momentos, perceber nosso coração feliz e agradecer é (ou deveria ser) uma atitude muito natural e simples.

O desafio, porém, tem sido perceber a graça de Deus e seus presentes quando os dias não são assim tão propícios. Quando o relógio desperta cedo, numa segunda-feira chuvosa, e você abre os olhos e a primeira coisa que se lembra é que não preparou as primeiras aulas do dia, ou que tem uma reunião com clientes cansativos bem no fim do expediente. Ou quando você vive de freelas e o seu ganho é como o maná que Deus enviava para os israelitas, só dá para aquele dia. Ou ainda quando você acorda e se lembra de alguém que não está mais com você, seja por morte ou relacionamento rompido. Aí, o agradecimento se torna como uma comida mal mastigada que você tenta engolir: fica entalado na garganta.

Por mais custoso que seja dar graças com sinceridade em momentos difíceis, não é assim tão árduo perceber o potencial pedagógico que existe nessas situações. Como explicita Vanessa Belmonte neste ótimo post, as possibilidades de aprendizagem são incontáveis:

 Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.
(negritos meus)

Os dias difíceis ou só entediantes são perfeitos para nos indicar duas coisas pelo menos:

  1. Que precisamos amadurecer

Se nossa vida fosse composta apenas de dias Disney, em que só sorrimos e acenamos para selfies infinitas, com certeza seríamos uns mimados-barulhentos-superficiais. A não ser que todos os habitantes da Terra estivessem na Disney com a gente, não teríamos o mínimo de empatia pela dor do outro. E se todos estivessem na Disney com a gente, banalizaríamos a Disney e não saberíamos o que é estar feliz, porque não teríamos a que contrastar a felicidade (como já ensinava a minha querida professora de Análise do Discurso, Norma Discini, o sentido de algo se constrói pelo seu oposto).

  1. Quem tem sido o responsável por nossa felicidade

Os dias difíceis apontam para as nossas grandes paixões na vida ou, em termos menos confortáveis, para quem são os nossos ídolos ou deuses. São momentos ótimos para nos perguntarmos: o que ou quem tem sido responsável por minha felicidade? No meu caso, aparência física, idade, férias e determinadas pessoas são a resposta para essa pergunta. São eles os meus deuses no momento e são eles que tenho tentado destronar. Afinal, um dia vou envelhecer, as férias vão acabar e as pessoas irão me decepcionar ou morrer. Assim, meus deuses estão, inevitavelmente, fadados ao fracasso. E quando isso acontecer (e já acontece), quero ver nisso uma oportunidade para encontrar o Imutável no meio disso tudo. Ainda nesta vida, quero me relacionar com Aquele que me oferece novidades todos os dias, sem fim. Diariamente, Ele prepara uma surpresa para mim. E não é uma surpresa que posso prever, porque senão não seria surpresa, rs. É sempre algo que eu nunca teria imaginado.

A grande verdade de tudo é que Deus está nos dias bons do zoológico e nos dias ruins das segundas-feiras chuvosas. Ele quer ser encontrado por nós. Se estivermos com o coração realmente aberto, nós o veremos em tudo. Ele falará, se mostrará e nos presenteará com o que precisarmos. E a gratidão é justamente essa porta que abrimos para Ele. Quando o reconhecemos em tudo, Ele se aproxima ainda mais e aí o reconhecemos ainda mais e, assim, forma-se um ciclo infinito e lindo.

A Terra repleta de Céu,
E cada arbusto comum incendiado com Deus,
Mas só aquele que vê tira os sapatos;
Os outros se sentam ao redor e colhem amoras
.

Elizabeth Barrett Browning

 

(aproveitando o assunto, quero agradecer ao meu filho Álef, de 2 anos, que ficou quietinho aqui em volta de mim, brincando, enquanto eu escrevia este post. Obrigada, filho! :) )


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

Era uma vez uma culpa…

Há algum tempo já que Deus tem se deixado conhecer por mim. Explico: venho configurando em minha vida uma rotina, que inclui duas disciplinas espirituais bem básicas: a oração e a leitura bíblica. Diariamente, antes de ir para a escola onde trabalho, me sento em frente à janela do meu quarto, que me oferta a vista das montanhas da Mantiqueira, e tenho o meu momento com Deus. Antes eu escolhia um livro aleatório da Bíblia para ler (o último que li foi Apocalipse, que me deu uma perspectiva incrível da enormidade de Deus), mas há quase 2 semanas adotei o lecionário – leituras bíblicas diárias associadas ao calendário cristão. Leio os três textos que eles indicam e, da associação entre eles, aprendo mais sobre quem é Deus. Daí leio um trecho de um outro livro cristão (desde o começo do ano tenho lido livros cristãos que falam só sobre a oração) e encerro o momento com uma oração. Em troca, Deus tem se voltado a mim de forma desproporcional ao que tenho oferecido. São respostas, carinho, cuidado, amigos e confirmações de dúvidas que apontam para muito além da existência de Deus: apontam para o Deus que se inclina para mim a ponto de me ouvir e se importar com os meus problemas. Desde que me firmei nessas práticas de forma regular, tenho desenvolvido um outro olhar sobre o mundo e sobre quem sou nele – mundo – e Nele – Deus.

Era sábado e nós estávamos na estrada, a caminho de São Paulo. David e eu começamos uma conversa sobre o nosso aniversário de casamento, que se aproxima, até que o rumo  do papo nos levou para o passado. Falamos de lugares, pessoas e situações que não nos fizeram bem e como, naquela época, nossa visão do quanto esses contextos nos afastavam de Deus era míope. Lembro-me que, no mesmo instante, desviei o meu olhar para fora da janela do carro e pensei: quem era a Luciana daquela época? Acho que era outra pessoa, não eu. Porém esta Luciana aqui mal sabia que, naquele mesmo sábado, voltaria a se encontrar com aquela do passado.

E foi chegando na casa dos meus pais e mexendo no Facebook, que me deparei com determinadas fotos, que atiraram a “verdade” na minha cara: Luciana, você se lembra do mal que fez contra essas pessoas? Faz muito tempo, é verdade, mas elas não se esqueceram ainda. Tudo me veio à lembrança e eu me senti derrotada. Era isso: aquela Luciana e eu estávamos cara a cara. E mais: éramos a mesma e uma só, o que significava que tudo poderia acontecer de novo. Tudo.

Não consegui retomar de pronto a vida cheia de sentido que eu vinha experimentando. No dia seguinte, domingo, fui à minha igreja e ouvi o sermão de um pastor de outro lugar. Ele falou coisas lindas e incríveis, que só me deixaram com saudades de Deus, mas eu não me sentia digna mais. Só que a mensagem que esse pastor trouxe me levou ao centro de uma das principais questões da fé cristã: se Jesus escolheu morrer para tirar a minha culpa, por que eu ainda me sinto culpada?? Se ainda carrego esse peso, é porque talvez o fato de Jesus ter sido torturado, massacrado, pisado e pendurado numa cruz como um pedaço de carne no açougue não deve valer muita coisa.   

De repente, caí em mim. O que eu estava fazendo, ao me sentir derrotada por erros já reconhecidos do passado, era desvalorizar a entrega de Cristo. Ele morreu não para eu me sentir derrotada, mas perdoada. Não devo nada, porque minha dívida foi paga não com cartão de crédito, mas com sangue, por amor a mim. Tudo o que eu precisava fazer era voltar ao aconchego das minhas orações e da minha leitura bíblica, como vinha sendo. A leveza de Deus me encontraria de novo.

De fato, a Luciana dos erros passados e aquela da estrada para São Paulo são a mesma. Não me tornei melhor, nem mais santa, nem superior àquela. Sou apenas uma transparência e, à medida que vou me aproximando do Justo pela leitura bíblica e oração, os reflexos Dele vão atravessando a minha existência e reverberando para além. Tenho mais Dele hoje do que eu tinha naquela época e essa é a única diferença, que faz toda a diferença.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.