Quando o nosso luto é por quem ainda está vivo

Estou há um tempo tentando começar este texto, mas apaguei esta primeira linha umas sete vezes já. Porque quero mexer num assunto delicado: o luto por pessoas que ainda vivem. Na minha caminhada, perdi poucas pessoas próximas por morte, mas quantas perdi porque se mudaram, porque romperam comigo, porque se afastaram, porque não sei. Meia-dúzia, talvez. Ou mais. Por elas, sofri longos lutos. Lembro-me de uma amizade rompida em 2002, pela qual lamentei por quatro anos, pelo menos. Foi alguém que conheceu minhas oscilações, minhas arrogâncias e ignorâncias e escolheu partir. Um golpe compreensível, porque eu era mesmo uma chata, mas demasiadamente duro, sem volta nem explicações. Em 2008, mais duas perdas: além do meu primeiro casamento que chegava ao fim, perdi junto uma das minhas melhores amigas, irmã por escolha e afeto extremo. E em setembro deste ano completará um ano de mais uma dessas perdas, sobre a qual pouco consigo falar.

Fico pensando: por quê? Por que rompemos com aqueles a quem queremos bem? Será que o perdão proposto por Jesus, de perdoarmos setenta vezes sete, não está sendo colocado em prática?  Ou então somos nós, que não sabemos ocupar o espaço que nos cabe, sem invadir o espaço do outro, e aí o outro se vê sufocado e decide se libertar? Ou talvez não sejamos tão importantes para essas pessoas como elas são para nós? Ou ainda: e se elas se foram só porque queriam ir mesmo e ponto?

Pode ser, pode ser e pode ser. Como pode ser ainda uma outra coisa, que desconhecemos. A verdade é que eu não me acostumo com as perdas.  Não consigo achar normal perder amigos que amo, mesmo que “a vida seja assim, fazer o quê? Melhor se acostumar”. Sonho com eles, faço menção de mandar mensagem, ameaço comprar presentinhos… aí caio em mim: Lu, você já tentou se reaproximar. Tem certeza que quer continuar insistindo?  – e, num suspiro, tento pensar em outra coisa. Peço diariamente a Deus que me ajude a deixar essas pessoas irem de dentro de mim. Algumas estão mais liberadas, outras menos. Oro por uns, penso em outros e mexo no Facebook de outros ainda, rs. Com frequência, me pego na expectativa de que eles voltem. Imagino a gente num sebo da Augusta procurando livros do Érico Veríssimo, ou ouvindo Porcelain do Moby em homenagem aos velhos tempos… outras vezes, concluo que encerrar a questão me ajudaria a seguir com a vida.

Lembro-me de um texto que a Vanessa Belmonte traduziu para o blog dela e que repostamos aqui, sobre as relações serem como as marés:

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

 

Quanta beleza e verdade nessas imagens!

Encerro este texto com lágrimas escorrendo pelo rosto. Lágrimas que materializam a profunda saudade e, ao mesmo tempo, simbolizam o fim de um ciclo de inúmeras voltas. Aqui dentro de mim, libero esses meus queridos do passado para que dancem, para que voem e para que vivam.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

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