E se no seu aniversário você pudesse querer qualquer coisa?

O que você quer do mundo? 

Essa era a pergunta que nós, crianças dos anos 80 moradoras do Jardim Cuiabá, ansiávamos por responder em uma das minhas brincadeiras preferidas de infância, chamada “Que mês?”. Dois participantes escolhiam secretamente um mês do ano para os demais acertarem e, quando alguém acertava, a dupla anunciava o vencedor dirigindo a ele a pergunta: o que você quer do mundo? Ah… que pergunta mais maravilhosa! Ela era a porta de entrada para os topos mais altos da nossa imaginação. Respondê-la significava que você podia tudo e qualquer coisa: um unicórnio, um carrinho de rolimã voador, uma passagem para visitar a zona abissal… tudo era fantasiosamente aceitável naqueles momentos.

Trinta anos depois, mais precisamente na semana passada, ouvi do meu marido uma pergunta que me remeteu como um raio à minha brincadeira de infância: o que você quer de aniversário? Instantaneamente, meus olhos brilharam de deslumbramento ao pensar nas possibilidades de resposta a uma pergunta tão ampla como o infinito. Como assim o que eu quero de aniversário?? Até dei risada na hora, porque quero tanta coisa que não ouso querer nada. Claro que uma pergunta mais precisa da parte dele seria: o que você quer de presente de aniversário, que seja de ordem material, que te agrade e que não seja muito caro?? Essa teria sido fácil de responder, mas eu estava tão envolvida na magia daquele voo, que decidi voar mais um pouquinho e pensar no que eu realmente quereria de aniversário – ou do mundo, num exercício de nostalgia -, se tudo me fosse possível.

1. Eu iria querer que as escolhas não fossem excludentes

Se escolho uma carreira específica, automaticamente, estou deixando de escolher todas as outras. Quando escolho uma pessoa com quem me casar, inevitavelmente, estou dizendo não a todas as outras. Se opto por morar em uma cidade, deixo de morar nas outras milhões que existem.

Por mais óbvias que sejam essas constatações, é isso que me pego desejando muitas vezes: que eu tenha mais do que é possível, razoável ou justo ter. Isso só denota o quanto preciso caminhar em termos de satisfação, gratidão e centramento em Deus. E quando forçamos para que certas escolhas coexistam, o que não é raro, passamos por cima dos sentimentos de outros, burlamos uma ordem necessária e anterior a nós ou nos desgastamos, na ilusão de que certos limites podem ser transpostos.

2. Eu iria querer voltar no tempo e mudar alguns caminhos

Esse  é um desejo que pode denotar crescimento da minha parte, pois inclui grandes erros que eu, se pudesse, teria evitado cometer. Entretanto, penso no quão ilusória é essa especulação, uma vez que qualquer caminho por onde formos não está isento de erros. Além disso, foram os erros dos caminhos efetivos que nos tornaram mais humanos, mais empáticos, mais conscientes de nosso enorme potencial de fazer mal aos outros. Logo, houve espaço para a humildade, o arrependimento, o preenchimento com Deus e seu perdão. Essas experiências nos treinaram para reconhecer e evitar novos erros…. ou os mesmos.

3.  Eu iria querer me separar do meu corpo de vez em quando

Essa soa bem bizarra em um primeiro momento, eu sei. Mas já imaginou se as suas ideias sobre Deus e sobre os outros pudessem extrapolar os limites da sua mente? Você conheceria as motivações das pessoas para agirem como agem, saberia explicar por que Jesus ainda não voltou e já exterminou de vez as tragédias do mundo e ainda se livraria do medo de morrer, porque concluiria que a morte nada mais é do que isso mesmo, o descolamento de você do seu corpo como você o conhece hoje. Acredito que exceder os limites do meu corpo me faria mais humilde, porque depois de uma volta pela imensidão do que existe, eu admitiria o meu tamanho real.

4. Eu iria querer eliminar o politicamente correto

Se tem uma praga que eu gostaria que desaparecesse da terra, certamente é essa. Nada me indigna mais do que um hipócrita que não se reconhece como tal. Todos somos, em maior ou menor grau, e negar isso é cortar qualquer possibilidade de contato com o resto da raça humana. É o ápice da arrogância e da superficialidade no conhecimento das próprias motivações.

5. Eu iria querer superar minhas inseguranças de uma vez por todas

Tenho certeza de que não estou sozinha nessa. Todos queremos superar nossas inseguranças, se ainda não conseguimos. Mas o que me frustra mais é ficar à procura de livros, fórmulas e pessoas que me mostrem o caminho para isso, quando na verdade a resposta esteve bem na minha frente por décadas: a obsessão por mim mesma, como se tudo girasse em torno de mim. Exemplo simples: uma resposta de uma mensagem via WhatsApp que demora para chegar. Pensamentos que costumam cruzar a  minha mente quando isso acontece: ah, mas a pessoa deve estar chateada comigo para demorar tanto assim para me responder/ Ah, mas ela não liga pra mim/ Ah, mas que desconsideração comigo, blábláblá… Então quer dizer que a pessoa do outro lado do WhatsApp tem sempre uma intenção a meu respeito, seja ela positiva ou negativa? A verdade, porém, na maioria das vezes, é que o espaço que ocupo no tempo do outro é ocupado também por outras centenas de coisas e pessoas, logo, não existe descaso algum, como tampouco existe favoritismo.

Me livrar dessa necessidade de me ver em tudo me impulsiona alguns passos rumo ao voo que eu queria tanto fazer fora do corpo no item 3. Consigo ver o papel dos outros nessa história toda que é a vida, me abro para interesses mais amplos, para um enredo mais entrelaçado, com mais nuances e menos monotonia. Passo a ocupar o lugar que foi demarcado para mim somente e não o lugar do mundo inteiro. Assim, me livro também da cobrança de ser perfeita (porque o mundo vai continuar girando se eu falhar), me livro da pressão de saber tudo e estar presente em tudo (o Facebook nem vai sentir falta dos meus comentários) e me livro da corrida rumo ao merecimento (tudo é Graça).

É por isso que Deus nos chama para uma história maior: a de viver para ele, em vez de vivermos para nós mesmos. Quando nós afastamos o foco de nós mesmos – nossos medos, nossa aparência, nosso sucesso, nossas dúvidas – e fixamos o nosso olhar em Cristo somente, encontramos a liberdade para a qual fomos criados. Nós finalmente aprendemos a ser livres do eu*.

 

Depois dessas viagens todas, retorno ao meu ponto de partida: eu, sentada à mesa da cozinha, com a mão apoiando o queixo, na típica posição de quem sonha acordada. Retomo a conversa com o meu marido:

 – O que eu quero de aniversário? Quero um par de botas pretas.  

 

– – – –

*  Trecho do post de Sharon Hodde Miller, num artigo publicado no site The Gospel Coalition; tradução minha e grifos meus.


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

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