Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2

Hoje, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante, a história que vamos contar é daquela que veio a torna-se conhecida por ter se casado com o ícone da Reforma, Martinho Lutero.

Mas a vida de Katharina von Bora é recheada de inspiração, liberdade, coragem e garra. Certamente que seu casamento com Lutero a transformou – dando a ela a oportunidade de estar diariamente ao lado daquele que veio a contribuir também para a mudança na vida de tantas outras pessoas ao redor do mundo. Mas sua determinação e coragem são marcas inegáveis que, já eram traços antes mesmo de seu casamento com Lutero e que a impulsionaram a dar um passo tão ousado: o de abandonar o mosteiro em que vivia e sua posição de freira.

Boa leitura e inspire-se!

 

KATHARINA VON BORA

Katharina foi uma mulher corajosa, ousou mudar completamente sua vida, ao fugir de um mosteiro e se lançar à uma vida ‘comum’. Tornou-se conhecida por ser a esposa de Lutero, a quem amava como esposo, companheiro e alguém que contribuiu para seu futuro de liberdade em Cristo e por Ele. Soube desempenhar seu papel de mãe juntamente com seu dom da hospitalidade, acolhendo a tantos! Mas também foi uma ótima empreendedora e administradora

Katharina nasceu em janeiro de 1499, na Alemanha – quanto ao local exato, há diferentes opiniões entre os historiadores, mas um dos possíveis locais de seu nascimento é Zülsdorf, próximo a Lippendorf. Seus pais eram nobres empobrecidos e que após seu nascimento precisaram vender sua propriedade.

Sabe-se que sua mãe morreu quando Katharina ainda era bem nova e com apenas 5 anos de idade foi levada por seu pai para o convento beneditino em Brehna. E depois de alguns anos, como sua família não conseguia prover o pagamento anual necessário, transferem-na para o mosteiro das monjas “Sistersinianas Trono de Maria”, em Nimbschen. Não só pelo motivo financeiro – pois, diferente do mosteiro anterior a contribuição nesta era espontânea – mas outros fatores também influenciaram tal decisão: a recém-eleita madre superiora do mosteiro era uma parenta de sua mãe e sua tia Magdalena von Bora morava há muitos anos neste mosteiro.

Vários nobres empobrecidos nesta época colocavam suas filhas em mosteiros pois além do estudo que forneceriam a suas filhas, a um preço acessível, achavam também que suas filhas não conseguiriam se casar, devido sua baixa condição financeira. Então se deixasse-as no mosteiro, garantiria a elas uma vida de estudo e cuidado pelo resto de suas vidas.

Em 1514, Katharina torna-se noviça e em 1515 é ordenada freira, ainda no mosteiro de Nimbschen.

Em 1517, Katharina tinha 18 anos e, apesar de viver atrás dos muros do convento, privada dos acontecimentos do mundo, era uma jovem autossuficiente e com sede de liberdade. Assim como outras freiras deste convento, que no fundo, desejavam uma outra vida, uma vida que extrapolasse os muros do convento, Katharina ficou entusiasmada com os escritos de Lutero.8

Especula-se que as freiras de Nimbschen tenham tomado conhecimento dos escritos de Lutero através de parentas do prior9 do mosteiro dos agostinianos (ordem religiosa de Lutero e que ficava na cidade de Grimmma, próximo a Nimbschen), neste mosteiro os escritos de Lutero tinham livre acesso e tais parentas tinham irmãs no mosteiro em que Katharina se encontrava. Outra hipótese também é que o comerciante Leonardo Koppe, que era amigo de Lutero, semanalmente ia ao mosteiro de Nimbschen e através desse contato as freiras obtiveram acesso aos escritos de Lutero.

Depois de ler o texto Da liberdade cristã de Lutero, Katharina e as demais freiras experimentaram uma libertação: a vida acética que levavam no convento já não fazia mais sentido. Chegaram a escrever para suas famílias manifestando a vontade de sair do mosteiro. No entanto, sair do mosteiro era um passo totalmente incomum para a época, por isso foram reprimidas por suas famílias em sua decisão. Lutero sentiu-se responsável por elas, pois, afinal de contas, foram os seus escritos e a sua teologia que fizeram com que tomassem tal decisão. Lutero lembrou-se de seu amigo comerciante, Leonardo Koppe, para bolar um plano de fuga para as freiras. Então, na Páscoa de 1523, Koppe retirou doze freiras entre barris de sardinha.10

Ao total 12 freiras fugiriam do convento e foram acolhidas por Lutero. Este conseguiu que 3 das 12 freiras fossem acolhidas por famílias em Torgau e para as demais continuou procurando um lar e empenhando-se em achar um esposo para cada uma delas.

Katharina von Bora, a princípio, foi acolhida pela família Reichenbach e foi nesta casa que provavelmente aprendeu a administrar um lar, nessa época as responsabilidades de uma dona de casa extrapolavam o zelo pela casa em si, mas também se referia a administração das terras, agricultura, criação de animais, a comercialização dos produtos cultivados além da coordenação de todos os empregados da casa.

Posteriormente, Katharina foi viver com a família de Lucas e Bárbara Cranach. Lucas era um grande pintor renascentista que trabalhou durante muitos anos para a corte dos Eleitores da Saxônica e é bem conhecido por ter pintado retratos tanto de príncipes como de líderes da Reforma – a imagem de Katharina, que ilustra esse post, é de sua autoria assim como uma das imagens mais conhecidas de Lutero e Melanchthon também são de sua autoria. E é neste lar que Katharina vive até seu casamento com Lutero.

Antes de se casar com Lutero, Katharina viveu algumas desventuras e tentativas frustradas da própria parte de Lutero em arranjar um par para ela – uma vez que ele achava que jamais viria a se casar indo contra à sua própria opinião que pastores e líderes deveriam unir-se em matrimônio.

Mas em 1525, em 13 de junho, Lutero chama um pequeno círculo de amigos e celebra seu casamento com Katharina von Bora – ele com 42 anos e ela com 26 anos de idade. E deste pequeno círculo de amigos, seu grande amigo Filipe Melanchthon não esteve presente pois não concordava com esta decisão. E após 14 dias dessa celebração a cerimônia aberta do casamento dos dois foi realizada, com amigos e parentes presentes.

A casa de Lutero e Katharina era o prédio onde anos atrás os monges agostinianos viviam (Schwarzer Kloster) e que a princípio havia sido liberado para que eles morassem pela Universidade de Wittenberg mas um tempo depois foi doado definitivamente pelo príncipe.

Em seu lar, não vivia apenas a família Luther. Muitos hóspedes passavam por lá, além de estudantes, freiras foragidas, crianças órfãs. Não é à toa que, apesar do bom ordenado de Lutero, somado à excelente administração dos bens e ao trabalho dedicado de Katharina, a família sempre tinha que lutar para que o orçamento não fosse extrapolado.11

Katharina reformou o mosteiro e o administrou com uma rotina bastante atarefada, além de sempre receberem alunos e hóspedes em sua casa ainda tinham uma horta, um orquidário, confeccionavam material para pescaria, e posteriormente adquiririam uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira.

Tiveram 6 filhos (3 filhas e 3 filhos), porém só 4 deles vieram a completar a idade adulta: um tornou-se advogado, outro médico, outro teólogo e a única mulher casou-se com um rico prussiano. Mas além de seus próprios filhos, cuidaram e criaram sobrinhos tanto da parte de Lutero como de Katharina, além também de outras crianças que eram órfãs.

Entre 1527 e 1535 a peste tomou Wittenberg e grande parte da população saiu da cidade. Katharina e Lutero, no entanto ficaram e hospedaram e cuidaram de doentes em sua casa. Nessa época era comum que mulheres, mesmo as de origem nobre, tivessem conhecimentos da medicina caseira. O que aparentemente Katharina veio a aprender com sua tia Magdalene von Bora enquanto esteve com ela no mosteiro de Nimbschen.

Lutero sempre temia por sua vida, achando que fosse morrer a qualquer momento vítima das perseguições que sofria. Então em 1542, faz um testamento indicando Katharina como sua herdeira universal – o que não era possível por lei na época já que sempre deveria haver um homem responsável pela viúva, pelos filhos e pelos bens. Mas ele recusa-se a nomear um homem como tutor de Katharina alegando que ninguém melhor do que ela mesma para cuidar de tudo, uma vez que fazia isso durante muitos anos. Só que ele não registrou em cartório o testamento dificultando ainda mais sua vida após sua morte. Mas depois de grande empenho de amigos e do príncipe João, conseguiram reconhecer o testamento, porém tiveram que nomear um tutor pelo cuidado dos filhos e depois de algumas brigas conseguiu ter o direito do próprio cuidado de seus filhos.

Lutero falece dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade onde nasceu, Eisleben, e foram os amigos mais íntimos de Lutero, Filipe Melanchthon e João Bugenhagen, que tiveram que dar essa difícil notícia a Katharina. Seu corpo foi enviado a Wittenberg e por onde passava os sinos soavam. Seu funeral foi realizado por Bugenhagen e Melanchthon fez a locução memorial em latim. Foi enterrado aos pés do púlpito da igreja de Wittenberg.

A morte de Lutero foi um baque para Katharina pois além de não estar presente quando ele se foi, sentiu a perda de seu esposo e companheiro, mas também de alguém que a influenciou e contribuiu para o real entendimento do Evangelho ajudando-a a tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar de ser freira e viver uma vida comum para a honra e glória de Cristo.

Simpática e querida irmã!

Que a senhora sofre comigo e com meus filhos, eu acredito de coração. Pois quem não estaria aflita e desconsolada por um homem tão caro, como o meu querido senhor o foi? Pois ele serviu não somente a uma cidade ou um país, mas a todo o mundo. Por isso, verdadeiramente, estou tão aflita que não consigo descrever para ninguém a dor que sinto em meu coração. E eu nem sei como estou mantendo meu juízo e ânimo. Não consigo comer nem beber, muito menos dormir. E se eu tivesse tido um principado e um reinado, não teria sido tão cruel se os tivesse perdido, como agora que o bondoso Senhor Deus tirou de mim, e não somente de mim, mas de todo o mundo, esse querido e caro homem. Quando penso nisso, não consigo, de tanto sofrimento e choro (o que Deus certamente sabe) nem falar nem mandar escrever.

Mas o que diz respeito a seu filho, meu querido sobrinho, eu vou gostar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mesmo se tudo tiver que ser investido nele, pois como eu entendo, ele vai continuar os estudos com muita dedicação e não irá desperdiçar sua nobre juventude. Mas, quando ele avançar um pouco mais em seus estudos e necessitar de outros e mais livros, pois ele irá estudar Direito, você mesma querida irmã, pode imaginar que eu não terei condições de comprá-los. Ele necessitará de alguma ajuda a mais para que venha a ter todo o material necessário. Para isso seria necessário que, assim como a senhora escreve para mim, conseguir um dinheiro anual como bolsa de estudos para seu filho, meu sobrinho. Pois assim ele poderia continuar seus estudos e cumprir suas obrigações com mais facilidade. Mas, sobretudo, o que eu puder fazer por ele, eu mandarei notícias com meu irmão Hans von Bora, assim que ele vier para cá.

Assim, fiquem com Deus. Wittenberg, 2 de abril de 1546.
Katharina, a viúva do Dr. Martinus Luther

Com a morte de Lutero também veio a luta pela sobrevivência, e Katharina continuou morando em sua casa, a Schwarzer Kloster, e a princípio continuou com o pensionato para estudantes e outros hóspedes. Mas não foi nada fácil pois não era comum um pensionato dirigido por uma viúva e os estudantes preferiam hospedar-se em casa de professores, e com a ausência de Lutero, sua casa não era mais uma prioridade de estadia. E por falta de dinheiro teve que escrever cartas para conhecidos, pedindo ajuda. E aconteceu que ela foi acusada de não saber se conformar com sua nova situação, de ser orgulhosa, briguenta e ‘cheia de razão’12.

Passou pela guerra de Esmalcada e teve que fugir de Wittenberg em 1546. Retornou no mesmo ano, mas em seguida precisou fugir novamente. Obteve ajuda financeira do rei da Dinamarca, Cristiano II, e decidiu retornar para casa já que o príncipe da Saxônia havia vencido. Mais tarde teve que fugir novamente e tinha a esperança de buscar abrigo na Dinamarca mas conseguiu ir somente até Gifhorn – teve que retornar devido ao perigo nas estradas. Eles estavam tão empobrecidos que conta-se que Katharina teve que rasgar as vestes do falecido Lutero para costurar roupas para seus filhos menores, pois os mais velhos haviam saído de casa para estudar.

E em 1552, a peste retorna em Wittenberg e Katharina resolve fugir para Torgau, em setembro deste ano. No caminho os cavalos tiveram um contratempo e ela teve que pular da carroça. Se machucou muito e chegou doente ficando acamada em Torgau. Foi cuidada pela filha e por amigos, mas seu estado piorava e quando percebeu que seu fim estava próximo pediu pela Santa Ceia. Katharina faleceu em 20 de dezembro de 1552, aos 53 anos de idade. Foi sepultada na igreja de St. Marien e a alocução foi feita por Filipe Melanchthon. Seus filhos mandaram gravar em sua sepultura: Ano 1552, dia 20 de dezembro, bem-aventuradamente adormeceu aqui em Torgau a deixada viúva do Dr. Martin Luther.

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8Trecho citado no livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

9Prior era o superior de um convento em algumas ordens religiosas

10Trecho do livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

11Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

12Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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