Desconstruindo o romantismo: a proposta

 

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Foto de Rakicevic Nenad

 

Há alguns anos, descobri em mim uma romântica crônica (esse assunto, aliás, já se desdobrou em alguns textos no blog, que você pode ler aqui, aqui e aqui). Ao descobrir e me definir como uma romântica nível hard, percebi também que ser romântica era menos romântico e fofinho do que parecia. Não era apenas uma questão de ficar ouvindo músicas melosas dos anos 80 o dia inteiro ou assistir Mensagem pra você uma vez a cada seis meses, mas era uma característica que influenciava diretamente as minhas decisões e a minha rotina diária. Ao me entregar aos devaneios românticos, eu me atrasava para atender as solicitações do meu filho pequeno, deixava o leite ferver até derramar e não ouvia o que meu marido estava tentando me contar. Ou seja, eu não estava presente na minha vida real.

 

Como acontece um devaneio romântico?

Não é muito diferente da sensação de se estar apaixonado. Você passa o dia inteiro pensando em alguém que você acha que também pensa em você, mesmo que isso não seja verdade e que você nem tenha muito contato com a outra pessoa. Para um romântico, enquanto houver indícios – mesmo que forjados, mas que na cabeça dele são totalmente reais –, de que ele é correspondido, ele não desiste de pensar nessa pessoa. E você pode ter certeza: o romântico vai ver coisa onde não existe (e onde existe também). Partir para a concretização de seus devaneios é o maior desejo de um romântico, ao mesmo tempo que essa concretização pode representar o fim do principal alimento de seu vício: a idealização.

A partir do momento em que a paixão é vivenciada no plano da realidade, ela não dá conta de cobrir as frustrações e as decepções naturais de um relacionamento entre duas pessoas imperfeitas. Para fugir dessa constatação, que é muito dura para o romântico, ele tende a escapar por meio de novos devaneios. E, assim, o ciclo idealização-concretização-frustração recomeça. Nem sempre, porém, há a fase da concretização. Quando ela não acontece, o romântico pode passar anos a fio idealizando uma mesma pessoa.

Eu poderia contar aqui algumas histórias que já desencadearam pensamentos românticos em mim, entretanto, para uma viciada ou viciado em idealizações, a pessoa que idealizamos não é a questão mais séria. O que o romântico gosta mesmo é de estar apaixonado, da sensação de novidade e de fuga que a paixão proporciona, por isso, é comum alguns românticos experimentarem certa rotatividade nas pessoas as quais ele idealiza. Só que o romântico, quando imerso em uma “crise romântica”, não tem uma consciência clara disso. Ele acredita piamente em seus sentimentos pela pessoa da vez e, a partir daí, deixa-se envolver em um regime de escravidão emocional: passa a escutar sempre as mesmas músicas, com letras que estimulam o romance; fecha-se em seu mundo e não quer contato com outras pessoas que possam tirá-lo de seus pensamentos; entra nas redes sociais onde possa encontrar a pessoa por quem está encantado e seguir tudo o que ela faz e daí por diante.

 

 Mas e aí, o romantismo exagerado tem cura?

Essa pergunta tem me perseguido pelos últimos anos. Eu acredito firmemente que sim, senão eu não estaria buscando essa cura com tanto afinco por tanto tempo.

O primeiro passo para encontrá-la, segundo o que tenho vivido, é admitir que ser romântico tem um limite. Uma coisa é você expressar seus sentimentos a alguém que te interessa ou com quem você se relaciona com atenção, afeto e presentes. Outra coisa é você buscar isso desenfreadamente, não importa se você já tenha um compromisso com outra pessoa ou não. E isso se mostra naturalmente, porque com os anos, você percebe um padrão no seu próprio comportamento. Quando eu era solteira, por exemplo, o que geralmente me alertava para o romantismo doentio era o fato de eu não conseguir namorar alguém por muito tempo, porque o “amor” simplesmente acabava (geralmente, o namoro durava alguns meses só). Aí eu rompia aquele relacionamento e procurava por outro que me preenchesse com mais romance. Se eu já estivesse envolvida com alguém, o que me fazia me apaixonar por outra pessoa (pois é, você leu certo: duas pessoas ao mesmo tempo – uma real e a outra, ideal) era reconhecer características nela que eu admirava e desconfiar que a pessoa me admirava de volta. Pronto! Só isso já rendia muito pano para manga nas histórias tecidas em meus pensamentos.

O segundo passo que dei, visando a cura, foi a psicoterapia. Algumas psicoterapeutas me ajudaram mais, enquanto outras me ajudaram nada ou bem pouco. A primeira delas, que me diagnosticou como romântica exagerada, fez isso com um largo sorriso no rosto e me tratou como se eu fosse uma adolescente ingênua, que só precisava amadurecer (e olha que nem adolescente eu era mais!). De fato, amadurecer é uma palavra-chave no processo de cura, mas enquanto o amadurecimento não se completa, como a gente vive? Não se pode, de forma nenhuma, subestimar o potencial destrutivo de um romantismo doentio – mesmo que quem o esteja vivendo seja “apenas” uma adolescente. Já com outra psicoterapeuta, me senti muito amparada. Aos poucos, ela me levou a acreditar que eu era muito mais capaz de buscar a cura do que pensava ser.

Finalmente, recorri também a Deus. A princípio, minhas orações consistiam num eterno pedido de perdão. Humilhar-se diante de Deus e reconhecer-se incapaz de mudar uma situação contando apenas consigo mesma é uma ampla porta que se abre diante de nós. O que eu não sabia, porém, é que essa porta me levaria a inúmeras outras, que precisariam ser abertas uma por uma, em seu devido tempo.

 

Anos depois…

Hoje, além da leitura da Bíblia e da oração, a minha busca pelo Deus da cura tem sido ampliada em várias frentes, por meio das pregações que ouço, dos vídeos que assisto e dos textos que leio. Há algum tempo, adquiri um livro que tem me ajudado de uma forma inédita. O nome dele é Você é aquilo que ama, de James K. A. Smith, editora Vida Nova. Nem preciso dizer que eu o escolhi por causa do título, né? Comprei-o na sede por uma resposta para a minha grande questão na vida.

 

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Para a minha felicidade, esse livro tem sido um meio de Deus falar muito comigo. O autor aborda uma visão que eu sempre desconfiei de leve, mas a qual nunca tinha encarado a fundo: a cultura em que estamos inseridos é determinante na definição de nossas paixões. O que ele quer dizer com isso? Que o mundo que nos cerca – aproveitando-se de nosso vazio decorrente da Queda (claro que eles não se apoiam nessa explicação) – define para nós, sem percebermos, quais serão as nossas carências e os nossos desejos.

Para ilustrar sua teoria, o autor do livro usa o exemplo de um shopping center e estuda toda a mensagem implícita nele e como ela forma uma pessoa para uma mentalidade consumista, em que o ter é a chave para ser feliz. Ainda assim, o princípio que o livro traz pode ser aplicado a qualquer valor arraigado na gente e que represente mais um câncer na nossa vida do que uma coisa boa.

O que o livro propõe é uma forma radical de mudança, que consiste basicamente no seguinte: se a cultura – por meio de todo o imaginário social, traduzido em filmes, músicas, propagandas, novelas, jornais, internet e onde mais couber discurso – foi quem formou as suas paixões, desejos e carências, logo, é preciso EXPLODI-LA em você, para que no lugar você construa um discurso radicalmente diferente, que leve você a amar o que te proporciona vida e não o que te priva dela. Uma proposta maluca e incrível.

 

Desconstruindo o romantismo – a série

Como eu sempre tive uma queda pelo subversivo e pela contracultura, já me voluntariei na hora para colocar em prática a proposta do livro Você é aquilo que ama: desconstruir o discurso que me leva a acreditar na idealização romântica como um modo autêntico de ser no mundo. A ideia é encontrar todas as falhas desse discurso, a ponto de reduzi-lo a pó. Só assim estarei pronta para um processo de reconstrução, em que a minha identidade genuína seja (re)descoberta.

Foi a partir desse desafio que veio a ideia de fazer a série Desconstruindo o romantismo aqui no blog: listei alguns pontos que a cultura impregna na nossa mente desde a infância sobre relacionamentos românticos e, ao longo dos textos da série, vamos desconstruindo cada ponto desse discurso.

No final de todos esses textos, percorreremos o caminho contrário: a construção de um novo hábito, um novo jeito de ser no mundo, que substitua o velho e escravizante discurso incutido pela cultura, por meio de um discurso mais antigo e digno de muito mais confiança.

A proposta é ousada, eu sei, mas mesmo que toda a transformação não se complete dentro dos âmbitos limitados das postagens (e não irá se completar mesmo, porque estamos falando de todo um redirecionamento daquilo que nos move na vida), o mínimo que pode acontecer nessa iniciativa é descobrirmos que, dentro da porta da desconstrução e reconstrução, há ainda outras portas, para as quais Deus nos encaminhará no tempo certo, a fim de encontrarmos a cura que tanto temos buscado. Só por esse motivo, a série já terá cumprido o seu objetivo.

Os textos serão postados uma vez por semana.

Vamos juntas?

 

Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.

Filipenses 1.6

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

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