Desconstruindo o romantismo: a origem do amor romântico

 

Ophelia_
Ofélia (1851-2), pintura de John Everett Millais

 

Escrever este texto é como estar em trabalho de parto: leva tempo e dói. Faço uma busca de artigos que existem sobre o tema e o que leio neles é como o resultado de um exame que entregam nas nossas mãos: positivovocê é realmente uma romântica. Mais difícil do que aceitar o diagnóstico, porém, é a pergunta que não descola da mente: mas como isso foi acontecer? Onde foi que eu perdi as rédeas do meu próprio coração?

Para tentar responder essas perguntas, fui em busca das origens do discurso do amor romântico e como ele foi incutido na cultura ocidental, de modo a nos laçar pelas entranhas identitárias. Em um dos sites pesquisados, encontrei eco para a minha angústia:

O condicionamento cultural é muito forte. Chegamos à idade adulta sem saber se nossos desejos são nossos ou se aprendemos a desejá-los.
(Regina Navarro Lins, escritora e psicanalista, neste artigo)

 

O nascimento do amor romântico

Um homem é apaixonado por certa mulher, que também é apaixonada por ele. O problema é que essa mulher vive num contexto em que o casamento é arranjado e ela é obrigada a se casar com outra pessoa. Com a impossibilidade de concretizar sua paixão, que é o que move sua existência, o homem apaixonado se suicida.

Não, esse resumo tosco que fiz aí em cima não é o enredo da próxima novela da Globo. Na verdade, vem de uma obra literária pioneira – Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Goethe – no início de um movimento chamado Romantismo. Nesse movimento, que aconteceu a partir de meados do século 18 em diante, artistas visuais, escritores e músicos passaram a produzir obras saturadas de narrativas com teor romântico e erótico. Quem não se lembra de Quasímodo, o corcunda que se apaixona pela cigana Esmeralda, no livro Nossa Senhora de Paris, do francês Victor Hugo? Romantismo outra vez. Emma Bovary, burguesa que encontra nos casos extraconjugais o escape para sua frustração no casamento, também foi imaginada nessa mesma época, pelo francês Gustave Flaubert. Ao ser lançada, Madame Bovary virou febre na França.

Entretanto, engana-se quem acha que o amor romântico nasceu no Romantismo. Se assim fosse, como explicaríamos as redes de intrigas, em que os deuses do Olimpo se metiam, apenas para concretizar suas paixões com os mortais na rica mitologia grega?

Há quem diga também que até na Bíblia o amor romântico não existia, principalmente no casamento.  Esse argumento não encontra base, quando olhamos para a história de Jacó com Raquel (Gênesis 29) e de Elcana com Ana (1 Samuel 1), entre outras situações de romance.

Deus abençoou o matrimônio, entendido menos como um meio de procriação do que como uma associação afetuosa e estável do homem e da mulher.
(Comentário introdutório da Bíblia de Jerusalém ao livro Cântico dos Cânticos)

Dando uns bons saltos no tempo, alguns séculos antes do Romantismo, outros artistas fizeram do amor romântico o tema de suas obras. Luís Vaz de Camões, um dos principais poetas portugueses, nascido no século 16 (portanto, 200 anos antes do movimento oficialmente conhecido como romântico), foi o autor dos famosos versos:

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É um andar solitário entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É um cuidar que ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata, lealdade

Mas como causar pode em seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

E a gente achando que tinha sido o Renato Russo o autor dessa letra arrebatadora, né? Nada.

Shakespeare é outro, que viveu na mesma época de Camões, e escreveu nada menos do que as trágicas histórias de amor de Romeu e Julieta e de Desdêmona e seu ciumento marido Otelo.


Qual seria então o grande problema do Romantismo?

O grande problema do Romantismo não foi abordar o amor romântico que, como vimos brevemente, sempre existiu, mas sim difundi-lo como sendo o sentido último da existência. Foi a partir dos artistas românticos, exatamente na transição de uma visão teocêntrica da existência para uma visão antropocêntrica – o homem no centro –, que um novo deus foi coroado: o sentimento romântico. A paixão no relacionamento amoroso passou a ser a resposta para todas as angústias humanas.

O antropólogo norte-americano Ernest Becker (1924 – 1974), em sua obra A negação da morte, nos dá um quadro bem preciso do que estou dizendo:

Se ele [o homem] não mais tinha Deus, como ele faria? Uma das saídas que lhe ocorreram foi a “solução romântica”: ele depositou seu desejo por heroísmo cósmico sobre outra pessoa, na forma de objeto de amor. […] O parceiro romântico se torna um ideal divino, por meio de quem uma pessoa encontra completude. Todas as carências morais e espirituais agora passam a estar focadas em um indivíduo. A espiritualidade, que uma vez havia sido associada com outra dimensão das coisas, é agora trazida para a dimensão terrena e toma forma em um ser humano. A salvação não é mais associada a uma abstração, como Deus, mas é encontrada na “beatificação do outro” (tradução minha, feita a partir daqui).

Ainda seguindo o pensamento de Becker:

Quando procuramos o objeto humano “perfeito”, estamos procurando por alguém que nos permita expressar nossa vontade por completo, sem nenhuma frustração. Queremos um objeto que reflita a imagem ideal de nós mesmos. Mas nenhum objeto humano consegue fazer isso; humanos possuem suas próprias vontades e vacilações; eles podem ir contra nós de milhares de formas diferentes, e seus próprios desejos nos ofendem. […] Por mais que idealizemos e idolatremos alguém, ele inevitavelmente reflete a decadência e a imperfeição terrenas. E como ele é a nossa medida de valor, essa imperfeição recai sobre nós. Se seu parceiro é seu “tudo”, então qualquer limitação que vier dele se tornará uma grande ameaça para você (tradução minha, feita a partir daqui).

 

Que tapa na cara me deu esse Becker! Um tapa tão bem dado, que tem servido para me despertar do meu grande sonho romântico.

Ao ler esse texto dele, não pude evitar de pensar numa música que gosto bastante, cuja letra é um exemplo perfeito dessa visão divinizada do outro. Encerro o meu texto deixando com vocês essa música, para refletirem sobre ela e para se sentirem incomodadas mesmo. Afinal, é tocando o chão das nossas angústias, que nos sentiremos compelidas a encontrar a mola propulsora que nos trará de volta à superfície.

Semana que vem começaremos a demolição de tudo isso. Até!


Without You I’m Nothing
Placebo & David Bowie

Strange infatuation seems to grace the evening tide
Estranho fascínio que parece agraciar a maré noturna
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Such imagination seems to help the feeling slide
Tal imaginação parece ajudar o sentimento a deslizar
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Instant correlation sucks and breeds a pack of lies
Correlação instantânea é uma droga e gera uma pilha de mentiras
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Oversaturation curls the skin and tans the hide
Supersaturação enruga a pele e tinge o couro
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado

Tick tock
Tick tock
Tick tock
Tick tick
Tick
Tick
Tick tock

I’m unclean, a libertine
Eu sou sujo, um libertino
And every time you vent your spleen
E toda vez que você tem um acesso de raiva
I seem to lose the power of speech
Eu pareço perder o poder da palavra
You’re slipping slowly from my reach
Você está aos poucos deslizando do meu alcance
You grow me like an evergreen
Você me cultiva como uma planta perene
Y
ou’ve never seen the lonely me at all
Você nunca viu o meu lado solitário

I…
Eu…
Take the plan, spin it sideways
Pego o plano e o giro de lado

I…
Eu…
Fall
Caio

Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing at all
Sem você eu não sou absolutamente nada


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui o primeiro texto da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

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