Desconstruindo o mito #1: Tenho que ser fiel ao sentimento

 

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Foto por Will O

 

Era uma manhã de domingo e a Escola Dominical* tinha acabado de terminar. Minha amiga Priscila e eu, como de costume, começamos a brincar de pega-pega pelos intermináveis corredores da nossa igreja. Inconvenientes que éramos, passávamos entre as rodinhas de conversa das pessoas, esbarrávamos nas senhorinhas que, degrau por degrau, desciam lentamente as escadas, voávamos pelas rampas de acesso às salas. E foi no meio dessa correria doida, que ouvi alguém me chamar:

– Luciana! Luciana! Você pode vir aqui um pouquinho?  – era uma amiga nossa. – Então, sabe o meu primo? O… (ela falou o nome dele)? Ele gosta de você e me pediu para vir te falar isso.

Esbaforida ainda pela corrida, arregalei os olhos de espanto.

Naquele instante, alguma coisa mudou em mim. O corre-corre da brincadeira pelos corredores da igreja cessou imediatamente. E não cessou só por aquele dia. Cessou para sempre. Foi a primeira vez que tomei consciência de que meus atributos femininos chamavam a atenção de alguém. E aquilo se tornou para mim motivo suficiente para abandonar a minha vida de criança e assumir outra postura. Daquele dia em diante, me tornei uma adolescente. Eu tinha 12 anos.

Hoje, olhando para trás, percebo como foi simbólica a forma como me tornei adolescente. Sem ter consciência do que aquilo significava, fui totalmente obediente a uma emoção, que nem minha era a princípio. Por meio do anúncio sobre o sentimento do tal primo, uma carência gritou dentro de mim: eu precisava ser amada. E, para ser amada, abandonar quem eu havia sido até então não parecia ser um preço alto demais.

Não demorou muito para o tal primo começar a namorar alguém. Quem condenaria um coração de menino adolescente, não é mesmo? Hoje gosta, amanhã não gosta mais e a vida segue. Porém, de uma forma sutil como uma cobra se armando para o bote, a mensagem transmitida naquela situação para mim era que, se o sentimento era assim rotativo, logo, as pessoas com quem nos relacionamos também o eram.

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O exemplo do que aconteceu comigo é apenas um entre dezenas que poderíamos caçar para compreender as mensagens que são passadas para nós sem percebermos e que vão nos doutrinando, nos ensinando a como nos posicionar na vida. Aqui, a mensagem foi: seja fiel aos seus sentimentos. E essa não foi uma mensagem transmitida exclusivamente por esse rapaz, obviamente. Mais tarde e por outros meios – como pelo seriado Dawson’s Creek, por exemplo – fui aprendendo que era normal você trocar uma pessoa por outra, sempre que não estivesse mais a fim. Com exceção das pessoas que se casavam, que eu entendia ser um compromisso maior, indissolúvel, você era livre para trocar de relacionamento quantas vezes julgasse necessário.

 

E qual é o problema do discurso “seja fiel aos seus sentimentos”?

Vários:

Primeiro, porque a gente desenvolve um padrão de se relacionar com as pessoas que se baseia nos valores de consumo. Este namorado não serve mais? Troco por outro. Claro que a gente não admite um pensamento assim. A gente tenta, dá voltas, procura não magoar, mas se formos bem honestas, é assim que acabamos agindo com algumas pessoas com quem nos relacionamos. E isso vai frontalmente contra o segundo mais importante mandamento da Bíblia: amar ao próximo como a nós mesmos. Com isso, não digo que devemos nos casar com alguém que não queremos mais, mas considerações como: será que devo mesmo me envolver com essa pessoa? Sinto uma atração enorme por ela, mas não sei se posso confiar em meus sentimentos. Quem sabe se eu conviver com ela um pouco mais sem me envolver, eu consiga sondar melhor o que sinto? podem evitar dores desnecessárias.  

Essas considerações são do tempo da minha avó? São. Mas o que vale aqui é o princípio que elas passam: me importar com o outro e não só comigo mesma. Ah, mas o cara também está a fim. Ele sabe os riscos. Que bom que ele sabe os riscos. Mas isso não muda o fato de que tratar outra pessoa como um objeto não é legal, mesmo que a pessoa consinta. Claro que nem tudo a gente prevê. Tem sentimentos que realmente parecem ser pra valer. Entretanto, a gente logo sabe quando uma relação é descartável, servindo só para encobrir uma carência.

O segundo problema é que você acaba não amadurecendo. Você se acostuma a não se aprofundar em relação nenhuma e aí não consegue ir além com ninguém. Quando me casei, isso se mostrou um grande problema. Como eu não tinha experiência de um longo relacionamento, os problemas que apareceram me deixaram muito confusa, a ponto de eu duvidar da validade daquele vínculo. Demorou para eu perceber que pessoas imperfeitas constroem relacionamentos imperfeitos e tudo bem. É nesse ambiente de cumplicidade, que podemos aprender a tirar as nossas máscaras sem sermos menos amadas por isso.

O terceiro problema diz respeito a Deus, caso você acredite Nele, ou à humanidade inteira, caso você não acredite Nele.

Aquelas que creem em Deus sabem que Ele criou nós todos segundo a Sua imagem. Além disso, cometeu o ato de amor mais arrebatador da História: ofereceu a sua vida para se relacionar conosco. Ou seja, Jesus deixou-se ser assassinado para ter um relacionamento com você e também com a pessoa com quem você se relaciona, mesmo que essa pessoa rejeite essa oferta. Isso mostra que essa pessoa tem tanto valor quanto você, logo, você não tem o direito de tratá-la como uma qualquer, mesmo que ela aja como uma qualquer. Ela não é – fato. Deus atribuiu a nós um valor infinito, ao escolher se entregar para morrer em nosso lugar. Nosso valor está nesse ato e todos nós somos Dele. Por esse viés, você sair se relacionando por aí como se não houvesse amanhã, sem se importar quem são essas pessoas, é tratá-las por muito menos do que elas valem. E claro, ninguém na rua vai ficar jogando isso na sua cara. A treta é entre você e Deus mesmo.

Àquelas que não veem a questão como risco de pecado, porque não acreditam em pecado, um recado de Jean-Paul Sartre:

 

[…] o homem é responsável por aquilo que ele é. […] E, quando nós dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é responsável por sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. […] Quando afirmamos que o homem escolhe a si mesmo, entendemos que cada um de nós escolhe todos os homens. De fato, não há um só de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem tal como estimamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor daquilo que nós escolhemos, pois não podemos nunca escolher o mal; aquilo que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem sê-lo para todos (trecho de O Existencialismo é um Humanismo).

 

O que Sartre quer dizer com isso? Que, segundo a visão existencialista ateísta, se eu assumo a postura de obedecer aos meus sentimentos românticos, eu estou então transmitindo a mensagem de que todos os seres humanos da face da terra devem obedecer aos seus sentimentos românticos também, porque se isso é bom para mim, é bom para todos os demais seres humanos. Agora, se pensarmos nessa realidade realmente acontecendo por aí, o que vem à sua mente? À minha, vem o caos: pessoas ainda mais perdidas, feridas e fechadas em si mesmas, sem o menor senso de valor próprio.

 

 Quer dizer que eu tenho que ficar suportando um relacionamento ruim?

Depende do que queremos dizer com relacionamento ruim. É um relacionamento imaturo (o sentimento acabou) ou tóxico (a pessoa é abusiva)? Porque o que estamos falando aqui é de relações fluidas, que são trocadas por puro sentimento, não por razões mais profundas, como abuso físico ou psicológico.

Se você se vê numa relação em que você mesma não enxerga valor nela, certamente é hora de se perguntar o que te fez entrar nessa relação em primeiro lugar. Aliás, tudo é uma questão de nos perguntarmos, de questionarmos, de investigarmos nossas motivações. Porque o discurso está aí – tenho que ser fiel ao sentimento – e não há como fugir dele, a não ser implodindo seu poder de ação em nós.

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Romântica como sou, de tempos em tempos, enfrento a aridez para onde esse discurso de ser fiel aos sentimentos me transporta. É uma luta que começa na forma de uma ansiedade muito grande, que precisa ser obedecida com urgência. Se obedeço, como já aconteceu no passado, os resultados são sempre – sempre – dolorosos. Existe culpa, arrependimento, ressentimento, desilusão.  Se não obedeço, ela passa, mesmo que demore meses ou anos (dureza!). Às vezes vem como ondas, oscilam em intensidade, por isso esperar é fundamental. Esperar. Não só esperar no sentido de aguardar, mas aguardar em esperança.

Gosto do filme Closer – Perto demais. O elenco é incrível e o enredo bastante realista, pois transmite um quadro exato do que acontece quando obedecemos aos nossos sentimentos – no filme, mais colocado como desejo. Depois de viver um monte de experiências amorosas (que, no filme, acontecem entre pessoas lindas aliás, rs), você termina da mesma maneira como começou: vazio.

 


Nota:

*Escola Dominical – para que não está familiarizado com o termo, é assim que chamamos a escola de estudo da Bíblia, que acontece na igreja evangélica para todas as idades, geralmente, nas manhãs de domingo – por isso o “dominical”.

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui e aqui os primeiros textos da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

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