Mulheres Inspiradoras: Noêmia Falcão Campêlo – Mai/2018

Foi a primeira missionária entre os indígenas brasileiros.

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Noêmia Stella Falcão Campêlo nasceu em uma família cristã, em 10 de maio de 1906, em Recife, Pernambuco. Desde pequena, recebeu estímulo para os estudos, mas infelizmente não os concluiu, por recomendação médica, devido à sua fragilidade física.

Aos 15 anos fez sua pública profissão de fé e batismo. Aos 19 conheceu Zacarias Campêlo que foi pregar em sua igreja quando ainda era seminarista. Ambos foram marcados por uma saúde frágil, porém compartilharam de um coração devoto a Deus e um genuíno desejo em anunciar o Evangelho a povos não alcançados, mais especificamente, aos índios crâos.

A palavra kraô é composta de icrá (filho) e hô (folha), ou seja, filho das folhas ou das selvas. Crêem que foram feitos das folhas pelo deus Put (Sol). Daí a razão por que adoram o Sol, e não há força humana que os afaste da prática desse culto. 1

Os pais de Noêmia, a princípio, não ficaram muito confortáveis com essa ideia que foi anunciada quando eles noivaram:

– Minha filha – dizia-lhe o pai. Aqui também se pode pregar o evangelho. Aconselha o teu noivo a não ir para tão longe.

– Meu querido pai, se Zacharias não mais quisesse ir aos índios, eu perderia todo o interesse em unir a minha vida à sua.

– Mas, não sabes, Noêmia, que és a alegria de nossa velhice? Que há de ser de nós sem ti!

– Ah, papai, isto é o que me dói na alma, deixa-los assim. Mas a chamada de Deus é tão forte, que eu seria a criatura mais infeliz, se a ela não desse ouvidos.

– Pois que Deus te abençoe, minha filha, em tua resolução.

E grossas lágrimas corriam pelas faces do amoroso pai, as quais eram logo enxutas por Noêmia que, encostando o seu rosto ao dele, e com os braços ao redor do seu pescoço, chorava também e dizia-lhe:

– O mesmo Deus que me protege, há de protege-los também, queridos pais.2

1926 foi o ano que toda a jornada do casal começou:

  • Eles foram nomeados missionários pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira.
  • Casaram-se dia 8 de maio.
  • Dias depois do casamento Zacarias foi consagrado ao ministério pastoral.
  • Partiram para o campo missionário quase no final do mesmo mês, dia 21 de maio.

A forte convicção do casal em sua vocação missionária é inspiradora. Não houve saúde, distância ou, qualquer outra coisa, que os impediram de seguir aquilo que Deus havia colocado em seus corações. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13) vem ao meu coração quando penso em sua história. E Deus seguiu fortalecendo Noêmia…

Ao que conta Rute Salviano Almeida, em seu livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro3 o início de seu trabalho no campo não foi nada fácil! Afinal, o casal também estava aprendendo e se adaptando com toda a diferença e experiência transcultural.

Quem deu nome ao vilareijo, Craonópolis, foi Zacarias: “[o] missionário afirmou que os índios a pronunciavam como duas palavras, crâo e nópolis, e, quando se encontravam com os sertanejos diziam: Nossa aldêi tem nome boa, qui nosso indireitor botou. Por modéstia eles só davam a última parte. – É nópolis, chama nossa aldêi. Tem mais, mas num posso dizer, purque é nosso nome”.4

Quando as forças de Noêmia acabavam-se, sua saúde piorava5… E foi o que aconteceu durante suas gestações. Por estar enfraquecida, Noêmia foi para Carolina (MA), porque lá dispunha da ajuda da família de Zacarias. Em fevereiro de 1927, nasceu seu 1o filho, Saulo. Posterior a seu nascimento ela retornou à aldeia, dando continuidade a seu relacionamento com os índios crâos, principalmente com as mulheres.

Prestes a dar à luz a sua segunda filha, Noêmia partiu novamente para Carolina. Lá, no dia 1o de abril de 1928, nasceu Esmeralda, mas em decorrência de uma infecção puerperal, Noêmia infelizmente veio a falecer, aos 22 anos de idade.

Noêmia, durante doze dias, pertencera ao Clube dos Ex-Mortos ou dos redivivos. Teve síncope prolongada, e os presentes a tiveram por morta. Quando voltou à vida, contou que estivera no céu e que vira a Jesus. Uma coisa ficou provada: ela nunca mais chorou nem se queixou da ausência dos seus queridos, como ocorria antes. Pedia que se lhe mostrassem os filhos. Pediu à cunhada que ficasse com o menino, mandasse a menina à avó e deixasse livre o viuvinho. Tudo isso num espírito de bom humor, e de quem está de posse de algo mais importante. Dizia mesmo que suas lágrimas já se tinham esgotado. Sentia o gozo do céu, pelo que não mais se entristeceria. Foi o mais belo testemunho que já presenciei em toda a minha vida. Falar do invisível com segurança de quem já o provou. De quem já está na posse do futuro.6

Escreveu Zacarias Campêlo, esposo de Noêmia, em seu livro Minha vida e minha obra

Uma palavra que me veio à mente, ao pesquisar a vida de Noêmia, foi a palavra legado.

Mesmo que ela tenha falecido prematuramente, ficando tão pouco no campo missionário, com certeza deixou frutos que ainda colhemos e colheremos na Eternidade. Seja para com o povo que ela tanto amou, e dedicou seus últimos anos de vida, os índios crâos. Ou nós, cristãos brasileiros, que tivemos o caminho aberto à um campo fértil para a proclamação das boas-novas.

Mas, certamente, sua família pode se inspirar e beber diretamente da fonte, florescendo e frutificando através das gerações. Esmeralda Campêlo Vilela (sua filha) tornou-se pastora, fundou uma editora, uma comunidade evangélica e uma organização sem fins lucrativos. E para a minha surpresa, enquanto eu pesquisava, descobri que Guilherme de Carvalho, pastor, escritor, diretor do projeto Cristãos na Ciência e obreiro do L’Abri Brasil (ministério que eu tanto admiro e que ele toca junto com a Alessandra, sua esposa) é neto de Esmeralda, sendo bisneto de Noêmia. Pois é… acho que não poderia vir à minha mente palavra melhor. O legado de Noêmia continua reverberando através dos anos e de sua descendência. E que venham mais anos, mais histórias e mais inspirações! :)

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NOTAS:
1Trecho de O índio é assim, escrito por Zacarias Campêlo, p 17

2Trecho de A heroína de Craonópolis, escrito por Stela Câmara, p 48

3O livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino, de Rute Salviano Almeida é o livro precioso em que eu descobri Noêmia (todas as citações utilizadas aqui foram retiradas dele). Eu também descobri Henriqueta Rosa Fernandes Braga – que foi a nossa Mulher Inspiradora do Mês de Março. E para o semestre que vem, teremos mais mulheres garimpadas do livro! Obrigada, Rute, pelo incrível trabalho em dar voz a tantas mulheres caminhando por nossa história <3

4 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 395

5 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 396

6Trecho de Minha vida e minha obra, escrito por Zacarias Campêlo, p 165

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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