Desconstruindo o mito #2: Meus problemas acabaram, encontrei O cara!

Quem nunca assistiu a um filme romântico na vida, que não tenha se emocionado? Difícil. Irresistivelmente alienantes, os filmes românticos retratam encontros e desencontros que já vivemos em algum momento da vida ou que seria a glória vivê-los. Bem que aquela história entre a francesa inteligente e o americano aventureiro de Antes do Amanhecer podia acontecer com você durante um mochilão pela Europa, não acha? E Simplesmente Amor, então? Tirando a história do Primeiro Ministro da Inglaterra, todas as outras ali são nossas… a gente chora, torce, sente com os personagens e respira aliviada no final, quando tudo acaba bem.

E é esta exatamente a questão: tudo acaba bem.

Antes-do-amanhecer
Julie Delpy e Ethan Hawke em Antes do Amanhecer, 1995. Imagem tirada daqui

 

Quando assistimos a filmes, séries ou novelas, lemos livros, revistas, jornais de qualquer gênero que sejam, estamos sendo doutrinados por suas mensagens, mesmo que não percebamos isso. Aos poucos, o que recebemos vai construindo na nossa cabeça uma moldura, por onde enxergamos os relacionamentos, o amor, a vida. Com os filmes românticos não é diferente, quer ver?

O que acontece no final de um filme romântico, que acaba bem? O casal fica junto, claro. Depois de um monte de obstáculos e contratempos, o casal finalmente supera as dificuldades e se entende. E aí o que acontece? O filme termina. Se assistimos a filmes (ou séries) assim durante alguns anos – digamos… durante três anos (mas sabemos que já faz uma vida que assistimos coisas assim) –, isso já é tempo suficiente para começarmos a olhar em volta e a entender que os relacionamentos românticos são complexos mesmo. Quando finalmente parece termos nos acertado com alguém e tudo parece como no filme, a gente percebe que o filme não nos contou o que acontece depois que o casal fica junto. Mas isso não importa tanto, já que os filmes deixam implícito que a felicidade que o casal experimentou ao ficar junto continuou e continuou e continuou… sem fim.

De fato, essa sensação deliciosa de felicidade sem fim nos acompanha por um tempo mesmo. Mas daí um dia, você acorda se sentindo sozinha de novo. E aí, vê que anda gastando mais do que ganha para fazer os programas legais com o seu parceiro. E aí, você sente ciúme de uma antiga namorada dele. E aí, vocês brigam por causa dela e ele te dá um gelo no Whatsapp. Finalmente, quando tudo buga dentro da sua cabeça, você conclui: encontrar um cara legal não resolve o problema da felicidade, só o torna ainda mais desafiador. E isso o filme não tinha nos contado.

Sem uma referência anterior, sobre a qual basearmos nossas vivências, nos sentimos perdidas. É tentar, contando com nossos próprios recursos, ou desistir e partir para um novo cara. É muito fácil chegar nessa fase e achar que estamos com a pessoa errada. Falo isso por experiência própria. Problemas de relacionamento, para mim, representavam um grande sinal vermelho, como se eles fossem o prenúncio de uma tragédia que eu deveria evitar. Demorou muito tempo para eu aprender que pessoas imperfeitas se relacionam de forma imperfeita, invariavelmente.

Passei também pela fase da cobrança. Minha e dos outros. E aí, você está com alguém?  – era uma pergunta típica de amigas que não se viam havia algum tempo ou de parentes mais enxeridos. Responder não uma ou duas vezes era até aceitável… a terceira, já era demais para mim. Porém, me deixar envolver por essa mentalidade só me levava a um jogo ainda mais perverso: eu acabava me relacionando com “qualquer” pessoa, só para não ter que me encarar sozinha. Horrível, mas real. Felicidade, definitivamente, era um estado que eu queria alcançar, mas que residia sempre no outro. Era o outro que me faria feliz. Se não houvesse o outro, a felicidade se tornava, então, irrealizável.

A questão da felicidade residir no outro, entretanto, não é absurda. Os seres humanos são relacionáveis, ou seja, buscam completude fora de si mesmos. Se não temos um parceiro romântico, vamos buscar a realização nos amigos, nas celebridades que admiramos, nos nossos bichos de estimação, nas redes sociais, na comida (aliás, buscamos realização em mais de uma dessas fontes ao mesmo tempo). De uma forma ou de outra, iremos sempre procurar num outro essa complementação.

Mas é aí que reside a crueza da realidade: esse outro a quem buscamos está inexoravelmente fadado à insuficiência – ou ele nos decepciona, ou nos adoece ou morre. Em mais tempo ou menos tempo, ele deixará de ser o agente da nossa felicidade e, então, voltaremos à estaca zero da nossa busca. Ou ainda, prevenidas como somos, já encomendaremos logo um substituto, para garantirmos que a bolha da nossa felicidade permaneça intocada.

Não sei quanto a vocês, mas eu vou confessar uma coisa: essa busca incessante me cansa. Chego a duvidar se é a felicidade mesmo que devo ter como alvo nesta vida. Talvez não seja, já considerou? E se for, como vivê-la, de modo que não seja dependente de um – tão frágil – amor romântico?

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui, aqui e aqui os três textos da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

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