Mulheres Inspiradoras: Eunice Souza Gabbi Weave – Set/2018

Foi uma importante ativista pelo combate da hanseníase no Brasil.

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Eunice Souza Gabbi Weave nasceu em 19 de setembro de 1902, na pequena cidade de São Manuel, no interior de São Paulo. Sua família era uma família de fazendeiros de café. Seu pai, Henrique Gabbi, era carpinteiro e natural da Itália, já sua mãe, Leopoldina Gabbi, era natural da cidade de Piracicaba e de origem suíça.

Aos 3 anos de idade, Eunice e sua família, mudaram-se para Uruguaiana, no estado do Rio Grande do Sul, e lá ela completou seus estudos primários. Mas foi em São Paulo que Eunice formou-se em Educação Sanitária.

Além de sua mãe ser portadora da hanseníase outro importante acontecimento contribuiu para que Eunice posteriormente se engajasse por completo nesta causa:

Durante seus estudos, quando foi passar férias em casa, ocorreu um fato que mudou sua vida para sempre. Eunice presenciou um bando de esfarrapados, mendigos e doentes, que pegavam agasalhos e alimentos deixados à porta da fazenda. As crianças da Casa Grande foram levadas para dentro, às pressas; as cortinas e as portas fechadas. Então, uma mulher abandonou o grupo e se aproximou. Nela havia um ar aristocrático e restos de nobreza. O rosto estava escondido por um chapéu de palha, e ela falou com voz serena:

– Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei. Casei-me com aquele homem. Nessa vida de cigano é melhor ser um só.

Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos e cobiçada donzela que todos encantava, mas havia desaparecido. A moça tinha contraído lepra nos tempos do colégio. Nunca mais Eunice esqueceria os ‘olhos de Rosa’ e, a partir deste episódio, começava seu trabalho em benefício dos leprosos.1

Em 1927, Eunice reencontrou-se com Charles Anderson Weaver, ele havia sido seu professor de latim e, na época, era o diretor do colégio onde ela havia estudado. Neste reencontro Eunice ficou fascinada por sua cultura, inteligência, bondade e brilhantismo de ideias.2 Posteriormente casaram-se e foram morar em Juiz de Fora.

Depois de 1 ano de casados, seu esposo foi convidado pela Universidade de Nova Iorque a dirigir a Universidade Flutuante da América do Norte – que era um transatlântico, que faria uma viagem ao redor do mundo, para melhor formação de seus alunos.3

Eunice aproveitou sua estadia na universidade móvel para estudar Jornalismo, Sociologia, Serviço Social e Filosofia Oriental. Ao todo, ela visitou 42 países, e por todo lugar que passava buscava informações sobre o problema da hanseníase. Ela também aproveitou para estagiar em diversos lugares ao redor do mundo que acolhiam e tratavam pessoas diagnosticadas com hanseníase.

Já de volta ao Brasil, em 1934, seu esposo foi nomeado pastor da Igreja Metodista de São João, em Juiz de Fora e Eunice começou a fazer campanhas de assistência as pessoas com hanseníase. Até que, em 1935, Eunice tornou-se presidente da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros, fundada em 1932 por Alice Tibiriçá. 4

Em Minas Gerais, nessa época, o problema da lepra era terrível: o trem passava de madrugada com o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel. Eunice levava à estação roupas, cobertores e refeições .5

O próximo, e inevitável passo, foi o da conscientização da população para a prevenção da doença. Mais tarde, estes locais vieram a se tornar lugares que contribuíam para a inclusão de crianças, filhas e filhos de portadores da hanseníase, na sociedade. Fazendo-as participar e usufruir da vida em sociedade.

Em 1935, Eunice convenceu o então presidente da república, Getúlio Vargas, a contribuir oficialmente com a causa. Ele prometeu dar o dobro de dinheiro que ela conseguisse arrecadar junto a sociedade civil. Infelizmente, [a] classe política se esquivava do assunto, pois acreditavam que a assistência aos leprosos não daria frutos políticos.6 Ao todo, Eunice percorreu 146 cidades no Brasil divulgando e arrecadando fundos para a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa Contra a Lepra.

Seu trabalho foi amplo e diversificado pela causa. Participou diretamente da construção de educandários7 e suas implantações, bem como na elaboração de campanhas para conscientização da população da doença e representando o país em congressos internacionais para falar sobre o combate à doença no Brasil. Além de contribuir com os países Paraguai, Cuba, México, Guatemala, Costa Rica e Venezuela em ações de combate a doença.

Eunice não teve filhos biológicos, mas amou e cuidou dos filhos de seu esposo Charles, com o mesmo coração e temor. Além de dedicar seu amor e cuidado à cada pessoa excluída e marginalizada pela hanseníase em sua época.

Depois de muito tempo atuando contra a hanseníase e com a idade mais avançada, Eunice recebeu uma carta de um portador da doença que perguntava a ela o seguinte:

– Por que a senhora escolheu, na vida, este caminho tão duro, de cuidar dessa raça de gente inválida que todo mundo tem pavor?8

Mas [d]ona Eunice não respondeu. Sorriu. Sorriu recordando as outras cartas de engenheiros, aviadores, advogados, professores, todos filhos de leprosos e por ela encaminhados na vidam, durante esses trinta anos, narrando suas vitórias, as suas conquistas, os seus trabalhos, que deram às suas vidas as alegrias sadias dos que são construídos com AMOR.9

Eunice faleceu, aos 67 anos, em 9 de dezembro de 1969 em pleno exercício de seu chamado. Ela estava no Rio Grande do Sul, quando faleceu. Seu corpo foi transladado para o Rio de Janeiro, velado em uma igreja metodista e enterrado ao lado de seu esposo no Cemitério dos Ingleses.

ALGUNS RECONHECIMENTOS

  • O governo do Paraguai lhe concedeu a condecoração de Ordem ao Mérito
  • A Sociedade Internacional de Leprologia lhe conferiu o título de Full Member – que garantia a ela os mesmos direitos dos membros regulares e médicos leprogistas
  • O governo de Cuba a condecorou com a Ordem ao Mérito Carlos Finley
  • Em 1950 foi a primeira mulher no Brasil a receber a Ordem Nacional do Mérito
  • Em 1956 recebeu a Ordem do Mérito da Aeronáutica
  • Em 1960 recebeu o título de Cidadã Carioca – ao completar 25 anos na direção da Federação
  • Em 1965 foi honrada com o título de Cidadã Honorária de Juiz de Fora
  • É cidadã bemérita do Rio de Janeiro, Bahia e do Pará
  • Recebeu o diploma da Inconfidência pelo estado de Minas Gerais
  • Em 1967 foi para a ONU como delegada brasileira no 12º Congresso Mundial
  • Em 1973 foi emitido um selo pelos Correios com a imagem de Eunice Weaver, em uma campanha contra o mal de hanseníase

Ao conhecer a história de Eunice, inevitavelmente, me lembrei de tantas e tantas histórias narradas nos Evangelhos, sobre o contato direto de Jesus com os leprosos de sua época, fazendo exatamente o contrário da sociedade, que excluía, condenando-os à uma vida miserável e solitária.

Jesus tocou e curou essas pessoas. Mostrando que o ordinário, que a vida comum também importa. Curando essas pessoas, Ele permitiu que elas pudessem partilhar o pão novamente em comunhão com a comunidade.

Um leproso aproximou-se dele e suplicou-lhe de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me!” Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: “Quero. Seja purificado!” Imediatamente a lepra o deixou, e ele foi purificado.
[ Marcos 1:40–42 – NVI ]

Conhecer a trajetória e o trabalho de Eunice, me lembrou que, mesmo imperfeitos e pecadores, somos convocados a levar vida, pão e comunhão àqueles que estão a margem. Que Deus nos ajude a não reter o que Ele nos dá em abundância para que seja compartilhado e, assim, multiplicado.

“Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, ele se assentará em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.

“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’ “O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’. ‘

[ Mateus 25:3140 – NVI ]

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VOCÊ SABIA QUE, DESDE 2016, EXISTE A CAMPANHA JANEIRO ROXO, NO BRASIL?

Pois é, a hanseníase coloca o Brasil em segundo lugar em número de casos, atrás apenas da Índia!10

Infelizmente, ainda precisamos combater seriamente a doença no Brasil, e ao contrário que muitos pensam, a doença não é hereditária e possui cura. Quanto mais cedo o paciente é diagnosticado e inicia o tratamento, menores são as agressões aos nervos e é possível evitar complicações. Além de não transmitir a doença a seus familiares, amigos, colegas de trabalho ou escola.

 

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NOTAS:

1Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

2Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 319

3Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

4Alice Tibiriçá fundou em São Paulo a Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra, tendo Eunice como sua vice-presidente. Em 1935, Eunice assumiu a presidência dessa entidade, que exerceu durante 30 anos. Dicionário Mulheres do Brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, p 301

5Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

6Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 320

7Educandários eram os espaços de acolhimento e educação, oferecidos pela fundação, para as crianças filhas dos portadores da doença

8 / 9 Trecho de Eunice Weaver: Uma vida para o bem, escrito por Vera Brant. Disponível em: <http://verabrant.com.br/1/cronicas/EUNICE%20WEAVER-artigo.htm>. Acessado em 21/08/2018

10Dado coletado em Sociedade Brasileira de Hansenologia. Disponível em: <http://www.sbhansenologia.org.br/campanha/janeiro-roxo>. Acessado em 21/08/2018

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

3 comentários sobre “Mulheres Inspiradoras: Eunice Souza Gabbi Weave – Set/2018

  1. São tantas as mazelas do ser humano!!Que o exemplo desta mulher, e de outras mais, nos inspire para socorrer pessoas necessitadas perto de nós, como teve Eunice Sousa G.Weave.

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada, Carmem! Estas mulheres têm tanto a nos ensinar, né? Na verdade quando me deparo com histórias de vidas como delas, assim como de tantas outras que não estão no projeto, mas integram a imensa e numerosa nuvem de testemunha ao longo da História, fico encantada como Deus vai costurando nossas vidas e ações em prol do Reino. Obrigada por sempre nos acompanhar ;-)

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