Aprendendo a viver com saudades

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Hoje faz sete meses que nos mudamos do Brasil. E cada dia que passa sinto mais saudade.

No início,  eu sentia falta do pastel com caldo de cana e das festas infantis lotadas de brigadeiro. Depois, foi a vez dos lugares… a feira, a praia, a igreja, o bairro da Mooca. Aí então, foi a vez do contato virtual com os amigos e com a família, que se tornou insuficiente, e logo a saudade deles se instalou também.

Agora, sinto saudades de tudo e qualquer coisa relacionada ao Brasil. Ontem, por exemplo, passávamos de carro sobre um viaduto aqui da cidade e eu comentei com o meu marido: “E a Radial Leste, hein? Que saudade dela!”. Como resposta, recebi um olhar indignado.

E por que não volta para o Brasil? – ouço uma de vocês pensando.

Porque tenho aprendido cada vez mais que a saudade não se mata, mas se doma.

Quanto mais vamos amadurecendo, mais vamos tendo de lidar com a saudade. Afinal, nem sempre teremos como voltar para os braços daquilo de que sentimos falta. Às vezes é de um tempo que já ficou para trás, às vezes é de uma pessoa que não vive mais e, outras vezes, é de uma pessoa que vive, mas que hoje percorre caminhos distantes dos nossos.

Penso que o ponto crucial dessa história é exatamente este, quando encaramos a saudade de frente, olhos nos olhos, e, com um suspiro de rendição, desviamos o olhar.  É aí que sabemos: a saudade vai sempre fazer parte de quem somos.

Lidar com essa realidade – a presença constante da saudade – é como ter uma visita em casa que não sabe a hora de ir embora. Você quer achar um jeito de ela perceber que já ficou demais, mas você não sabe como fazer isso e, assim, ela vai ficando, ficando, até a gente perceber que ela não tem intenção nenhuma de ir embora. Nunca.

David e eu não temos planos de retornar definitivamente ao Brasil. Pelo menos, não a curto prazo. Logo, temos diante de nós uma escolha a ser feita: acolher a saudade e incorporá-la à rotina, ou então deixar que ela nos distraia da vida que aqui estabelecemos e nos leve para o mundo paralelo de um retorno idealizado.

Gosto da empatia que encontro em artistas, quando o assunto é saudade. Aliás, vou postar no final uma música de uma dupla britânica que eu adoro e cuja letra descreve com perfeição o sentimento de falta de uma pessoa a quem amamos. Entretanto, me sinto no dever de ir além: a saudade é dor, mas não é dor.

A saudade constante também é sinal de que nossa perseverança em favor das decisões já tomadas está sendo treinada. Ela também nos torna mais gratos por momentos e pessoas. A saudade, além disso, nos molda e nos ensina a atribuir valor ao que antes nos parecia banal. A partir dela, vamos percebendo que somos mais dependentes das pessoas do que julgávamos ser e que não podemos ter tudo e todos ao mesmo tempo, tampouco estar em tudo e com todos ao mesmo tempo. Logo, ela nos ensina sobre limitação e nos devolve a humildade, há tanto perdida no excesso de ego.

A essa contraditória e intrusa hóspede, uma definição poética e precisa da minha brilhante Clarice Lispector:

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

 

 

 

*A imagem no topo da página é de Aaron Burden


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

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