Se você não impressionar, não merece ocupar espaço na vida dos outros

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Olhem essa foto aí em cima, tirada ontem pela Angélica, uma amigona minha, da janela do quarto onde ela se hospedava. Como você descreveria essa vista? Eu a descreveria como impressionante. Só. Mesmo porque impressionante já descreve tudo o que essa foto retrata: um cenário de beleza e harmonia tão fora do comum, que de tanta admiração que provoca, se confunde com uma espécie de reverência.

Eu estava bem ao lado da Angélica quando ela tirou essa foto. Então para mim, a experiência foi ainda mais intensa, uma vez que toda essa beleza se apresentava ali ao vivo diante dos meus olhos. Dentro de mim, a reverência era tão grande, que fechar as cortinas e sair da janela seria o mesmo que pecar.

Sermos impressionados é o que nos arranca da mesmice da realidade. É uma delícia quando somos pegos de surpresa por algum aspecto que excede em beleza, alegria, força, inteligência, eficácia, generosidade ou amor no outro ou no nosso entorno. Acho que é por isso que coleciono caleidoscópios. Quando o dia está chato demais, é só eu escolher um, rodar as pedrinhas coloridas lá dentro e pronto – o breve efeito das pedras nos jogos de reflexo já me mantém impressionada por alguns instantes.

Mas infelizmente, como costuma acontecer com toda a realidade temporal, aquilo que é bom sempre apresenta uma versão corrompida. Impressionar ou sentir-se impressionado pode se tornar um fim em si mesmo, logo, um vício. Porque pensem só: não é uma delícia se sentir arrebatado o tempo todo? Sem dúvida. Mas o perigo vai além quando impressionar e sentir-se impressionado começa, então, a ser a moeda de troca das nossas relações: quanto mais eu te impressiono, mais espaço na sua vida você me dará para ocupar. E, assim, a nossa fome e sede por existirmos, por sermos validados e, ainda mais urgente do que isso, por sermos amados nos tornam cobaias de qualquer proposta que prometa a nossa própria superação, numa versão pirateada do Übermensch proposto por Nietszche.

Mas qual é o problema de querermos impressionar? O que há de errado em querermos nos superar, melhorar, competir pra ganhar?

Dentro da minha perspectiva limitada das coisas, respondo que os problemas são dois: a transitoriedade das regras do jogo e o cansaço causado pelo próprio jogo.

Por mais que sejamos espertos, jovens, inteligentes, bonitos, ricos ou cheirosos, nosso recorde será sempre quebrado por alguém depois de nós. Mais cedo ou mais tarde, alguém mais esperto, jovem, inteligente, bonito, rico ou cheiroso vai te ultrapassar nessa corrida por validação. Não há como escapar disso, porque não há nada debaixo do sol que escape à morte – sua e de todas as coisas. Todas as realidades desta vida – as abstratas e as concretas – estão fadadas à corrosão do tempo e, consequentemente, ao desaparecimento. Portanto, manter as pessoas impressionadas é lutar contra o curso natural da vida. E travar essa luta diariamente pode ser extenuante.

Lembro-me de uma professora genial da faculdade, Professora Dina, que com mais de 60 anos de idade, chegava todos os dias à sala de aula impecavelmente maquiada, com unhas postiças bem longas, vestindo roupas elegantes e ostentando sempre um penteado bonito. Quando a elogiávamos por seu autocuidado, ela respondia com uma exclamação: é preciso se proteger da vida!

Admiro a perseverança que ela tinha para “se proteger da vida” e arrisco a dizer até que todo o seu esforço e investimento de tempo e dinheiro para manter-se assim tão elegante surtiam efeito – Professora Dina, de fato, impressionava, mesmo porque ela era, além de tudo, uma pensadora brilhante. Enquanto ela tivesse meios de se proteger da vida – fosse pela aparência ou pela inteligência -, seu espaço na vida das pessoas estava garantido.

Mas nem todo mundo é a Professora Dina (really?) e nem todo mundo impressiona. Pode ser que sejamos mais um na fila do pão, como diz minha amiga Talita. Aliás, talvez seja realmente na fila do pão que esteja a maioria de nós. Quando esse é o caso, quais são as nossas chances reais de impressionar e merecer?

É por isso que não acredito em amor que precisa ser merecido (me desculpem por vir direto para o amor, mas é nele que culminam todas as outras carências – validação, reconhecimento…). Porque se é por merecimento, se é pelo quanto conseguimos impressionar os outros, então a definição de amor nega o próprio amor e se torna o resultado de mais uma manipulação humana, portanto, elitizado – disponível apenas para alguns poucos felizardos.

Retorno à janela da paisagem lá em cima e reabro as cortinas. Reparo novamente naquele cenário. Sim, Alguém está tentando me impressionar. Alguém está querendo chamar a minha atenção para fora desse esquema sufocante das relações horizontais. E Ele me convida a olhar com atenção. A enxergar os detalhes e ser realmente surpreendida. Não, Ele não me pede para que eu o impressione de volta. Não há nada que possa impressioná-lo. Tudo já foi feito, Ele fez tudo. Apenas o que Ele quer é que eu olhe através daquela janela e contemple o que Ele fez. E com meu coração derramando de um deleite constrangido, sussurro:

Obrigada porque seu amor não depende do que eu faço. Para Você me amar, basta que eu exista. Não há merecimento, como não há desmerecimento. Você me impressiona, porque Você pode me impressionar, porque Você é Todo-Impressionante por si mesmo – o que vejo por esta janela é a prova disso. Assim, o que me resta fazer é deixar-me ser impressionada por Você todos os dias, sem fim. Peço apenas que sensibilize o meu olhar para isso, para que eu não perca nenhuma das demonstrações exuberantes do Teu amor por mim.


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alm

2 comentários sobre “Se você não impressionar, não merece ocupar espaço na vida dos outros

  1. Querida LUCIANA,

    Obrigado por mais esta contribuição para o universo das belas letras e da ideias relevantes.
    A foto publicada remete ao inverso do cenário que observamos nas janelas do apartamento em que nos hospedamos, em Wroclaw: parece ser o mesmo horizonte, só que agora, iluminado e colorido pela primavera !…
    Abraços,
    Papai.

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