Mulheres Inspiradoras: Henriqueta Rosa Fernandes Braga – Mar/2018

Formada em piano, composição e regência pelo Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, Henriqueta obteve os títulos de professora, maestrina e doutora em música, tendo sido a primeira pessoa a receber um diploma universitário de Música conferido no Brasil. 1

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Nascida em 12 de março de 1909, na cidade do Rio de Janeiro, Henriqueta Rosa de Fernandes Braga é uma daquelas mulheres que eu gostaria de ter conhecido pessoalmente. Como será que suas ideias floresciam? Como conseguia dar conta de tanta criatividade que pulsava dentro de si? Obviamente a música foi a maneira como Deus concedeu a ela vasão para essa criatividade contagiante, mas fico pensando que além de seu legado musical sua vida deve ter sido repleta de nuances e, usando de licença poética, fico imaginando como sua vida deve ter sido usada por Deus de maneira ímpar nas sutilezas da existência, nas conversas de corredor, nas orações partilhadas ou na mesa compartilhada.

Sua família era extremamente ativa na Igreja Evangélica Fluminense – igreja que foi fundada pelo médico missionário Robert Reid Kalley e sua esposa musicista missionária Sarah Poulton Kalley sendo a primeira congregação protestante no Brasil a cultuar os cultos em português.

A música no lar exerceu uma grande influência em sua vida. Era muito comum sentar, com os seus irmãos, ao redor do piano para ouvir a mãe tocar as Sonatas de Mozart, ou mesmo escutar as gravações (inclusive de música sacra) que constituíam, desde cedo, a organizada e escolhida discoteca da família. Seus pais, cultos e estudiosos, acompanhavam sempre, com desvelo, os seus estudos, capacitando-os para uma melhor técnica de aprendizagem e desenvolvimento. À noite, em seu lar, podia-se ver, curvados sobre os livros, pai, mãe e filhos, num admirável exemplo de diligência intelectual. Talvez, mais importante que tudo, fosse o culto doméstico que coroava o dia de trabalho e no qual eram apresentados ao Pai Celeste os agradecimentos pelos benefícios recebidos, e expostas as dificuldades, implorando a sua constante direção para a vida de cada um. E, em paz e tranquilidade, despedia-se a família para o repouso noturno. 2Henriqueta ficou conhecida por seu pioneirismo. Foi precursora na participação musical de programas de rádios evangélicos, na gravação de hinos sacros, na pesquisa da música sacra no Brasil, dentre tantas outras atividades.

Aposentou-se em 1979, mas continuou ativa fazendo palestras e pesquisas sobre música. Faleceu em 21 de junho de 1983, aos 74 anos e deixou 4 obras por acabar: Corais de J. S. Bach, Cancioneiro folclórico infantil brasileiro, História da música e Manual para Salmos e Hinos.

Hoje, comemoramos o Dia Internacional da Mulher e poder escrever sobre mulheres tão inspiradoras me traz renovo, ânimo mas sobretudo alegria. Como houveram mulheres fantásticas! Muitas sequer foram mencionadas nos livros de história.

Porém, reconhecer que há mulheres contemporâneas a mim e a você igualmente inspiradoras é tão fantástico quanto! Que dedicam a vida ao outro – escolhendo a melhor parte. Que se inclinam a Deus com reverência e certas que serão ouvidas e atendidas, não por serem quem são, mas por crerem em um Deus misericordioso e amoroso. Mulheres que levantam de madrugada para trabalhar e que atravessam a cidade para cuidar de um lar que não é o seu, mas o tratam como assim o fossem. Mulheres que são amigas, confidentes leais e que cedem seu ombro para que choremos nossas dores. Mulheres que são mães de primeira viagem e que aprendem as dores e as alegrias que a maternidade traz. Mulheres que são excelentes profissionais e ofertam o melhor de si em prol de um mundo melhor. Mulheres que transitam em nossas vidas com fluidez e leveza e que nos ensinam a enxergar o melhor de nós e a extrair o melhor do outro.

Mulheres mães. Mulheres filhas. Mulheres esposas. Mulheres irmãs. Mulheres amigas. Mulheres sobrinhas. Mulheres cunhadas. Mulheres tias. Mulheres primas. Mulheres… A todas vocês o nosso:

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

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NOTAS:
1Trecho retirado do livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino de Rute Salviano de Almeida, página 435
2Trecho retirado do site Hinologia e que se encontra neste link: http://www.hinologia.org/henriqueta-rosa-fernandes-braga/

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Rosa Parks – Fev/2018

Nascida em 04 de fevereiro de 1913 no estado do Alabama, na cidade de Tuskgee. Rosa Louise McCauley, mais conhecida como Rosa Parks entrou para a história por se recusar a ceder seu lugar à um homem branco em um ônibus público. Foi presa e com sua atitude marcou o início da luta antissegregacionista nos Estados Unidos.

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Segundo o calendário da ONU, desde 2007, há um dia especial para a reflexão e fomento da justiça social. Todo dia 20 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial da Justiça Social.

A adoção desta data em um calendário, ao meu ver, é de suma importância pois traz visibilidade a uma questão que está longe de ser erradicada. Sei da complexidade que esse termo traz, é amplo demais e envolve diversas esferas de uma sociedade. Mas quando penso nesse tema sob a ótica cristã – uma vez que não consigo desassociar Cristo como exemplo perfeito a ser seguido por mim em tudo o que faço e penso – na verdade me sinto é encorajada a lutar e buscar soluções para uma questão complexa como esta.

Mas me entenda, eu não estou falando que creio em uma redenção utópica através dos meus braços e serviços, pois sei que Cristo é o único que pode intervir efetivamente em toda a história, incluindo a minha e a sua, mas a Bíblia toda está recheada de versículos e histórias de pessoas comuns que clamaram, mas trabalharam para que o Reino de Deus pudesse começar a ser experimentado no hoje, no aqui e agora, mesmo que em doses aparentemente “homeopáticas”.

E é exatamente assim que eu vejo a vida de Rosa Parks. Uma mulher comum, que tinha a costura como profissão, mas resolveu não se calar enquanto sofria na pele o preconceito escancarado de brancos versus negros em seu país.

Ao anoitecer do dia 1 de dezembro de 1955, Parks entrou em um ônibus na avenida Cleveland, no centro da cidade de Montgomery. Ela pagou a passagem e se sentou na primeira fileira de assentos reservados para negros no veículo.

O motorista, James F. Blake, seguiu viagem em sua rota tradicional. O ônibus ia enchendo até que na terceira parada, em frente ao teatro Empire, vários passageiros entraram. Blake notou que umas duas ou três pessoas brancas estavam em pé. Para resolver o problema ele mudou o sinal de “colored” (“pessoa de cor”, termo usado nos Estados Unidos para se referir a afro-americanos) para atrás da fileira onde Parks estava. Ele exigiu que os passageiros negros sentados levantassem para que os brancos pudessem sentar. Enquanto os outros três negros levantaram, Rosa se recusou.

Anos depois, em uma entrevista, ela recordou: “meu corpo foi tomado por uma determinação, como uma colcha numa noite de frio”.  Parks se moveu, mas para o assento da janela. Blake, o motorista, perguntou para ela: “Por que você não se levanta?” Ela respondeu que “Eu não deveria ter que me levantar”. O homem chamou então a polícia e mandou prender Rosa Parks.

Quando o policial chegou ela perguntou “Por que vocês mexem com a gente assim?” Ele respondeu: “Eu não sei, mas lei é lei e você está presa”.  Parks foi acusada de violar o capítulo 6, seção 11 da lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar dela tecnicamente não ter sentado em um assento reservado para brancos. Edgar Nixon, presidente da sede local do NAACP, e seu amigo Clifford Durr pagaram a fiança de Parks e ela deixou a cadeia no dia seguinte.1

Posterior a prisão de Parks alguns ativistas dos direitos civis convocaram e organizaram o boicote aos ônibus de Montgomery e a luta pelos direitos iguais foi ganhando mais força. Martin Luther King, Jr. mantinha contato com Rosa e estiveram juntos em diversas iniciativas e marchas pela igualdade.

A decisão que ela tomou, em se posicionar a favor da justiça social, custou muito caro a Rosa. Sua vida não foi nada fácil depois disso! Enfrentou dificuldades para conseguir emprego após o ocorrido e precisou se mudar algumas vezes, pois também sofria diversas ameaças de morte por parte de grupos extremistas que defendiam a supremacia branca.

Em 1992 publicou sua autobiografia, Rosa Parks: My Story (infelizmente sem publicação no Brasil)E em 2002 é despejada porque possuía dívidas que não podia honrar. Porém, obtém ajuda de uma igreja batista que, através de uma comoção nacional, contribuiu para que o banco concedesse a ela viver gratuitamente em sua casa.

Rosa Parks faleceu em casa, em Detroit, no dia 24 de outubro de 2005, de causas naturais aos 92 anos. Seu caixão foi velado com honras da Guarda Nacional do estado de Michigan. E autoridades e lideranças dos movimentos civis compareceram ao seu funeral.

Ser cristão é militar todos os dias contra a maldade, disse o deputado estadual e pastor Carlos Bezerra Jr no workshop Política e Direito – no final do ano passado em uma igreja no centro de São Paulo, do qual eu pude participar.

É isso! Somos militantes da causa de Deus que já foi vencida, mas ainda está em curso. E é concedida à nós – no agora – nossa co-participação com Ele na História e consequentemente em nossa própria história. Por isso, ser cristã(o) e militar todos os dias contra a maldade é privilégio para pessoas tão comuns como eu e você.

Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela
Jeremias 29.7

 

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NOTAS:
1Trecho retirado do Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Parks

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você descarta seu lixo também faz parte de uma espiritualidade saudável

Como podemos repensar nossos hábitos diários (de consumo e de descarte), transformando-os mais sustentáveis?

Dentre as metas que idealizei para 2018 (e para a vida!) eu decidi reduzir ainda mais meu lixo.

Me considero uma pessoa com certa consciência ecológica e, na medida do po$$ível, opto por produtos biodegradáveis e feitos de maneira sustentável. Mas, a partir desse ano quero repensar ainda mais meu consumo e principalmente como farei meu descarte. Quero tentar ir além da separação do que eu julgo ser “reciclável” para tentar reaproveitar esses itens ou descarta-los de um jeito que cause menos impacto para o nosso meio ambiente.

– Em 1950, 2 milhões de toneladas de plástico foram produzidas no mundo.

– Em 2017, 400 milhões de toneladas foram produzidas, uma taxa de crescimento composto de 8%.

– 40% disso é embalagem.

– Desde a década de 1950 produziram 8,3 bilhões de toneladas de plástico.

– Apenas 9% de plásticos são reciclados globalmente.

– Todo segundo, 20 mil garrafas de bebidas de plástico são vendidas em todo o mundo. São 7 milhões no momento em que você terminou de ler este artigo.

– Um estudo estima que até 2050 haverá mais plástico do que peixe nos oceanos do mundo.1

Lendo mais sobre o tema, descobri que alguns itens básicos que eu julgava serem possíveis de reciclar são, na verdade, um grande pepino na mão das cooperativas recicladoras. E mesmo que sejam destinados a elas, esses produtos são levados posteriormente para um aterro comum, ficando por lá durante várias e várias gerações, pois têm um alto custo devido sua complexidade para reciclar.

Um desses itens que eu julgava ser facilmente reciclável – #sqn – é a clássica esponja de lavar louça. Confesso que fiquei chocada quando eu descobri e esse foi um dos gatilhos que me deu coragem para aderir um estilo de vida mais intencional: tentar viver mais próximo do conceito Sem Desperdício2, a partir desse ano.

Mesmo sendo feitas de plástico, a reciclagem das esponjas de cozinha é extremamente rara porque os plásticos usados na sua produção contém especificidades que dificultam muito a reciclagem. Além disso, ao ser usada na limpeza, ela se torna um “porta-bactérias”, o que também impossibilita o processo. Esse é um ponto importante: por conterem muitas bactérias, a vida útil dessas esponjas é reduzida e se você comprou, é recomendável não utilizá-la por mais de 7 dias.3

Ok, mas e a louça como vai ficar???

Lendo por aí, vi que muita gente adere a bucha vegetal para também lavar a louça, além de usa-la para tomar banho. Por que eu nunca tinha pensado nisso antes?! Eu a uso há tantos e tantos anos para tomar banho!!! Sério, eu realmente fiquei muito chateada por saber que um item tão corriqueiro e tão popular em nossas casas sequer é mencionado como um item dificílimo de ser reciclável, levando a gente a consumi-lo sem culpa e sem pensar melhor no descarte posterior. :-(

Então, aproveitando meu estilo de vida mais intencional esse ano, quero também produzir, eu mesma, alguns produtos de limpeza da casa, além de cosméticos para meu uso. Então, anota aí uma receita de detergente para você ter uma pia mais natural esse ano. É muito fácil! Leva apenas alguns minutinhos e poucos ingredientes para ficar pronto.

DETERGENTE NATURAL4

Ingredientes:

  • 200g de sabão de coco (verifique no rótulo a composição do sabão, deve conter somente sabão de coco, ou similar)
  • 50ml de álcool
  • 3 colheres de sopa de bicarbonato de sódio
  • 3L de água
  • 10ml de óleo essencial (por ex: de limão ou usar as raspas da casca do próprio limão)

      

Modo de Preparo:
Ferva a água. Pique o sabão de coco. Adicione o sabão à água fervendo e mexa até que eles se dissolvam. Precisa dissolver bem! Adicione o álcool, o bicarbonato e o óleo (ou raspas do limão). Mexa durante 5 minutos e deixe descansar por 1 hora, aproximadamente. Coloque em um recipiente limpo e ele está prontíssimo para o uso!

     

*Depois de esfriar, o sabão pode se solidificar um pouco. Por isso é importante dissolver bem. Mas caso isso aconteça, misture antes de usar e o que sobrar na embalagem pode ser reutilizado.

Atenção!
Fique esperta(o) ao comprar seu sabão de coco. Crie o hábito de sempre ler os rótulos das composições dos produtos e escolha aquela que declare coco, óleo de coco, podendo também ser/ter óleo de babaçu em sua composição. Pois muitas marcas acrescentam sebo animal juntamente com uma essência de coco na composição e sequer mencionam de forma explícita que utilizam tal ingrediente enganando a nós consumidores.

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Com menos consumo e menos desperdício para uma vida mais criativa e mais humanizada. Para que assim, estejamos o mais próximo possível, de um ideal ecológico saudável – confiado à nós, por Deus, desde o princípio da Criação.

Deus disse: “Façamos os seres humanos à nossa imagem,
de forma que reflitam a nossa natureza
Para que sejam responsáveis pelos peixes do mar,
pelos pássaros no ar, pelo gado
E, claro, por toda a terra,
por todo animal que se move na terra”.
E Deus criou os seres humanos;
criou-os à semelhança de Deus,
Refletindo a natureza de Deus.
Ele os criou macho e fêmea,
E, então, os abençoou:
“Cresçam! Reproduzam-se! Encham a terra! Assumam o comando!
Sejam responsáveis pelos peixes no mar e pelos pássaros no ar,
por todo ser vivo que se move sobre a terra”. 

Depois, Deus disse: “Dei a vocês
todo tipo de planta com semente sobre a terra
E todo tipo de árvore frutífera;
É para que se alimentem deles.
Para todos os animais e pássaros,
tudo que se move sobre a terra e respira,
Dou tudo que cresce na terra por alimento”.
E assim se fez. 

Deus olhou para todas as coisas que havia feito;
tudo era tão bom; tudo era ótimo!
Foi-se a tarde, foi-se a manhã –
Sexto dia.

[Gênesis 1.26–31 – Versão A Mensagem]

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NOTAS:

1Dados retirados do blog do Selo EU RECICLO: http://blog.eureciclo.com.br/2017/09/sustentabilidade-no-nepal/

2Sem Desperdício é um conceito que se popularizou há anos atrás e em inglês é conhecido como Zero Waste. Ele propõe o mínimo de desperdício possível em tudo que compreende nossas vidas: alimentação, vestuário, higienização, etc.

3Frase retirada do blog do Selo EU RECICLO: http://blog.eureciclo.com.br/2017/08/quartasemescandalo-esponjas-de-cozinha/#more-507

4Receita retirada do blog da marca FLAVIA ARANHA: http://flaviaaranha.com/new-blog/2016/8/12/faa-sozinha-detergente-natural

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Catherine Booth – Jan/2018

Catherine foi uma evangelista dedicada e juntamente com seu marido viveu “o Evangelho todo, para todo homem, para o homem todo”

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Histórias de outras mulheres inspiram a minha caminhada. É como se eu ganhasse novos horizontes e pudesse experimentar o que viveram sem eu realmente ter vivido suas vidas ou seus feitos.

Geralmente, quando conheço uma escritora, musicista, professora, ou qualquer mulher que desperte em mim o desejo de também criar novos rumos, conhecer mais, ou olhar sob novas perspectivas velhas circunstâncias, tenho uma enorme curiosidade por saber mais sobre essa mulher. Quais eram seus hábitos? O que gostava de fazer nas horas vagas? O que a levou a criar tal coisa? O que despertou nela tal inquietação? Onde ela nasceu? Qual era o contexto de sua época?

No ano de 2017, me deparei com mulheres incrivelmente inspiradoras. Fui orientada por elas, tive minha visão ampliada e meu coração se encheu de alegria por conhece-las melhor – mesmo que a maioria delas não esteja mais aqui, no lado de cá da Eternidade. Elas foram verdadeiras amigas, confidentes fiéis e me guiaram ao que minha alma ansiava, apontando para Aquele que é, irresistivelmente, criativo e não se cansa em nos ensinar diretamente, mas também através de pessoas comuns, como eu e você.

Por mera curiosidade fui atrás da data de nascimento dessas mulheres e me surpreendi, pois, a maioria das escritoras que eu estava lendo eram contemporâneas entre si. Instantaneamente tive a ideia: -E se eu fizesse um calendário de mulheres inspiradoras, em que cada uma ocuparia um mês do ano, segundo seu mês de nascimento?

O design, rapidamente veio à minha cabeça. Em seguida, listei algumas mulheres que eu havia sido apresentada ao longo do ano, porém, a busca pelas demais continuou, afinal, eu tinha que garimpar, ao todo, 12 mulheres para preencher o ano! Como critério para este 1o calendário, decidi que elas deveriam ser nascidas entre 1830 a 1930. Tentei compor os meses com a maior variedade de profissões ou histórias, além de nacionalidades e contextos. Dei o meu melhor, procurando, selecionando, escolhendo os melhores elementos estéticos que traduzissem um pouquinho de quem eram, ou o legado que deixaram. Tenho certeza que para cada uma delas eu estarei apresentando apenas um fragmento do que realmente foram. Mas eu espero, do fundo do meu coração, que assim como eu, e mesmo com a minha limitada apresentação, ainda assim, vocês se sintam inspiradas(os), como eu fui! :)

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Quem foi Catherine Mumford Booth?

A primeira mulher inspiradora do ano, chegou a mim, quando eu estava na Biblioteca de Teologia do Mackenzie, garimpando por mulheres e imersa naquele acervo todo. Aproveito inclusive para agradecer a meu pai, Eliezer, que sendo o bibliotecário de lá, me ajudou a pegar pilhas de livros para consulta e pacientemente descartar aqueles que eu não usaria, e principalmente não se importando com toda a bagunça que eu estava fazendo por lá rs.

Catherine nasceu na cidade de Ashbourne, em Derbyshire na Inglaterra, em 17 de janeiro de 18291. Ao que nos conta o livro: Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, Catherine desde pequena era uma leitora voraz da Bíblia. Por volta dos quatorze anos, devido a uma enfermidade na coluna, que a obrigava ficar recostada grande parte do seu tempo, experimentou sua real conversão. E unindo seu apetite voraz por conhecimento, nos anos seguintes, torna-se grande conhecedora de Teologia além da História da Igreja.

Aos 26 anos, casa-se com Willian Booth – em 16 de junho de 1855, em Londres. William, mesmo depois de casado continua a dedicar-se a campanhas evangelísticas pela igreja Metodista, e em 1858 é oficialmente consagrado como ministro metodista. Já Catherine, que também possuía grande apreço pelo evangelismo, certo dia, enquanto dirigia-se à igreja, em um domingo a noite, pensava como seria interessante fazer visitas domiciliares convidando as pessoas a conhecerem a Deus, e assim, nasce uma das características da organização, que seria a visitação de casa em casa.

A primeira oportunidade que Catherine teve de pregar publicamente, foi quando por motivo de doença, seu esposo não podia pregar, assim por nove semanas seguidas ela prega e dá seu testemunho publicamente, levando jornais da época a divulgarem tal feito, pois não era comum mulheres pregando publicamente.

Nunca se me permitiu ter mais um domingo de sossego enquanto tive bastante saúde para ficar de pé e falar. Tudo quanto fiz foi dar este primeiro passo. Não podia enxergar mais para adiante. Todavia o Senhor, como sempre o faz quando Seu povo é com Ele, honesto e obediente, abriu as janelas do céu e derramou uma benção tal que não havia lugar para contê-la.

relata Catherine sobre essa experiência2

Em 1864, o casal ministrava há um tempo reuniões independentes, pois William havia pedido demissão da denominação metodista durante a conferência anual metodista, celebrada em Liverpool, em 1861.

O foco do trabalho do casal, era levar a mensagem da salvação a mais e mais pessoas, nessa época, auge da Revolução Industrial, [c]onvenceu-se ele que os operários podiam ser mais eficazmente influenciados por homens e mulheres de sua própria classe, que compartilhavam de sua vida e falavam na linguagem de cada dia, antes que pela linguagem adotada pelos pastores no púlpito3 – descreve William. E é nesta mesma época, que Catherine começou também a celebrar cultos independentes de William, pois eles haviam decidido que poderiam ser mais eficazes na pregação da Palavra celebrando cultos distintos, assim poderiam alcançar cada vez mais e mais pessoas.

Em 1865, a Sra Booth foi convidada a dirigir uma breve missão em Rotherhithe, Londres. O que ela viu entre a gente pobre, e especialmente o trabalho feito pelo Movimento noturno para a restauração de mulheres decaídas, tornou-se em um apelo urgente ao seu coração. Julgou logo ser aqui a esfera pela qual orara e desejara desde a conferência de Liverpool que resultou em eles renunciarem seu lugar no Metodismo4.

E em julho de 1865, William é convidado a conduzir alguns serviços em uma tenda num antigo cemitério em Whitechapel e descreve essa experiência, anos depois, da seguinte forma:

Quando vi multidões de gente pobre, tantos deles tão evidentemente sem Deus e sem esperança, e vi que tão prontamente me ouviam, seguindo da reunião ao ar livre à tenda, e aceitando, em muitos casos, meu convite de se ajoelharem aos pés do Salvador ali mesmo, então meu coração inteiro se apegou a eles. Voltei a casa e disse a minha esposa: Oh, Catherine achei meu destino! Estas são as pessoas por cuja Salvação tenho almejado todos estes anos. Quando passava pelas portas do botequim esta noite me parecia ouvir uma voz que dizia: “Onde podes ir e achar tantos pagãos como estes aqui;”. Então ali mesmo ofereci minha alma, tu e as crianças a esta grande obra. Esta gente será nossa gente, e terão o nosso Deus como Deus deles”.5

E Catherine, se recorda deste momento:

Lembro-me (escreveu ela) da emoção que isto produziu na minha alma. O diabo me cochichou que “Isto significa mais uma partida”. A questão do nosso sustento constituiu uma dificuldade séria. Até então pudéramos fazer face as nossas despesas das coletas que recebíamos de assistências mais seletas. Porém era impossível esperar que pudéssemos fazer isto entre os pobres do Este, tínhamos até medo de pedir ofertas em tal localidade. 

Entretanto não respondi com desânimo. Depois duma pausa para meditação e oração, repliquei: “Bem, se pensas que deveremos ficar, fiquemos. Já confiamos em Deus para nosso sustento uma vez e podemos confiar dEle de novo”.6

Nesta noite, descrita por William como “Aquela noite”, depois de anos gestando, nasce o Exército de Salvação.

No ano de 1865 o Exército de Salvação surge na Inglaterra com William e Catherine Booth, em meio à Revolução Industrial, numa sociedade que passava por uma das maiores revoluções da sua história. Logo no início, sua luta era para que os pobres também pudessem frequentar as igrejas e assistir aos cultos como os outros de classes sociais mais favorecidas.

Desde seu início, os salvacionistas têm sido motivados pelo amor de DEUS e à Sua Criação Especial feita à Sua imagem e semelhança: o ser humano. Sua estrutura característica imitando o modelo militar, com hierarquia e uniformes, visa tornar a liderança mais ágil e facilitar a tomada de decisões.

Conscientes de que Deus ama as pessoas de forma singular e de que Ele quer atingir todas as áreas de suas vidas (o espiritual, o emocional, o social, o psicológico, o físico), os primeiros salvacionistas lançaram-se na luta para aliviar a humanidade sofredora, tendo essa visão holística do ser humano como um todo complexo e indivisível.

O slogan: “sopa, sabão, salvação” tornou-se um marco do Exército de Salvação e abalou as estruturas dos métodos das igrejas naquela época. Além disso, o Exército foi o primeiro a valorizar o trabalho feminino na igreja, deixando a mulher ocupar cargos que antes eram exercidos apenas por homens, contrariando, assim, as igrejas da época e dispensando parcerias importantes que se voltavam contra essa atitude.7

Porém, mesmo a organização valorizando e estimulando o trabalho feminino, passa-se um tempo até que mulheres de fato tivessem responsabilidades nos postos da missão, em lugares que poderiam exercer alguma autoridade sobre homens. Até que, em 1875, os fundadores resolvem fazer uma experiência nomeando uma evangelista mulher a frente do comando de Barking. E desde então, nenhuma hesitação séria sentiu-se em confiar as mulheres o comando dos postos, ou em manda-las fundar a obra em lugares onde o Exército ainda era desconhecido.8

Catherine e William tiveram 8 filhos e deixaram um grande legado, tanto para seus filhos, que puderam perpetuar os ensinamentos cristãos dando continuidade ao trabalho iniciado por seus pais, como também, para nós.

Catherine, falece aos 61 anos de idade, em 4 de outubro de 1890. Certamente ela foi uma grande inspiração em sua época, que era repleta de dificuldades assim como nos dias de hoje, mas também é fonte de inspiração em nossos dias. Ela escolheu ser uma mulher temente a Deus, compromissada a ouvi-Lo, obedecê-Lo e sobretudo a amá-Lo – e como consequência desse amor, serviu ao seu próximo da melhor maneira que pode. Que possamos também escutar o nosso chamado e segui-lo, mesmo em meio as dificuldades ou aparentes derrotas. E que possamos fazer o Eterno sorrir (Num 6.25 – A MSG) nessa História que, graças a Ele, somos coadjuvantes, porém, coadjuvantes totalmente ativas(os)! ;-)

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NOTAS:

1Como podem perceber, fiz uma concessão aqui rs, pois eu havia estipulado mulheres nascidas entre 1830 a 1930, mas achei Catherine tão significativa que quebrei a regra: acrescentei ela no calendário mesmo estando, por apenas 1 ano, fora do centenário estipulado.

2Frase de Catherine descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 20.

3Frase de William descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 24.

4Trecho retirado do livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 27.

5Frase de William descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 28.

6Frase de Catherine descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 28.

7Trecho retirado do site: http://www.exercitodesalvacao.org.br/quem-somos/nossa-historia

8Trecho retirado do livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 50.

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Fin.itude

“Somos constantemente lembrados da nossa finitude. A nossa miopia ou a dor de cabeça que às vezes nos assola são pequenos sinais disso“. Foi a frase que escutei de um grande amigo após o enterro da minha avó Martha, no dia 02 de novembro de 2017, em pleno feriado, Dia de Finados.

Pois é… Acho que eu acrescentaria também, outras dores e sintomas triviais como a cólica, a rinite incurável ou a sinusite crônica a esse comentário para trazê-lo ainda mais para o chão da vida.

Alguns dias atrás eu me assustei com a quantidade de cabelo branco que brotou em minha cabeça. Instantaneamente me bateu uma tristeza, infelizmente, não pude conte-la. Sim, estou ficando velha, pensei.

Mas por que a gente, geralmente, varre para debaixo do tapete assuntos inerentes a nossa existência, como a velhice ou a morte, por exemplo? Se falássemos mais sobre eles, talvez viveríamos uma vida mais consciente, mais intencional.

Vó Martha, foto por Jak Selles

Com a despedida da minha avó e dias depois um até breve à mãe de uma grande amiga, constatei que eu negligencio e muitas vezes levo uma vida inerte a tais assuntos. É tanta demanda que eu mesma crio para mim que vou esquecendo do futuro que me reserva.

Diariamente, cada célula do meu corpo está morrendo e se regenerando de forma mais lenta. Percebo que a minha imunidade baixa mais rapidamente trazendo a gripe se eu não durmo o mínimo necessário ou me alimento bem. Ou o meu joelho esquerdo teima em doer no frio, e mais intensamente por subir diversas vezes a escada, me lembrando que eu preciso ficar mais atenta a minha saúde e aos sinais do meu corpo.

Confesso que, às vezes, mesmo não querendo, isso tudo me entristece. A velhice me lembra que estou partindo, morrendo, que sou finita. Mas, durante o velório e enterro da minha avó, pude refletir como a velhice e a morte também podem nos ensinar a viver melhor. Contraditório? Hum, talvez não. Como disse um outro amigo ao saber um pouco da história da minha avó: “Sua avó, com 96 anos e 13 filhos viveu uma vida plena”.

É isso… Vida plena. A velhice e a morte também podem ser belas mesmo que momentaneamente dolorosas. E a vida, velhice e morte dela (minha avó) me ensinou isso. Eu quero então viver uma vida plena, cheia de rugas e com a cabeça repleta de cabelo branco sim, mas uma vida completamente vivida até o meu último suspiro de vida.

“Almond Blossom” de Vincent van Gogh (1890)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2

Hoje, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante, a história que vamos contar é daquela que veio a torna-se conhecida por ter se casado com o ícone da Reforma, Martinho Lutero.

Mas a vida de Katharina von Bora é recheada de inspiração, liberdade, coragem e garra. Certamente que seu casamento com Lutero a transformou – dando a ela a oportunidade de estar diariamente ao lado daquele que veio a contribuir também para a mudança na vida de tantas outras pessoas ao redor do mundo. Mas sua determinação e coragem são marcas inegáveis que, já eram traços antes mesmo de seu casamento com Lutero e que a impulsionaram a dar um passo tão ousado: o de abandonar o mosteiro em que vivia e sua posição de freira.

Boa leitura e inspire-se!

 

KATHARINA VON BORA

Katharina foi uma mulher corajosa, ousou mudar completamente sua vida, ao fugir de um mosteiro e se lançar à uma vida ‘comum’. Tornou-se conhecida por ser a esposa de Lutero, a quem amava como esposo, companheiro e alguém que contribuiu para seu futuro de liberdade em Cristo e por Ele. Soube desempenhar seu papel de mãe juntamente com seu dom da hospitalidade, acolhendo a tantos! Mas também foi uma ótima empreendedora e administradora

Katharina nasceu em janeiro de 1499, na Alemanha – quanto ao local exato, há diferentes opiniões entre os historiadores, mas um dos possíveis locais de seu nascimento é Zülsdorf, próximo a Lippendorf. Seus pais eram nobres empobrecidos e que após seu nascimento precisaram vender sua propriedade.

Sabe-se que sua mãe morreu quando Katharina ainda era bem nova e com apenas 5 anos de idade foi levada por seu pai para o convento beneditino em Brehna. E depois de alguns anos, como sua família não conseguia prover o pagamento anual necessário, transferem-na para o mosteiro das monjas “Sistersinianas Trono de Maria”, em Nimbschen. Não só pelo motivo financeiro – pois, diferente do mosteiro anterior a contribuição nesta era espontânea – mas outros fatores também influenciaram tal decisão: a recém-eleita madre superiora do mosteiro era uma parenta de sua mãe e sua tia Magdalena von Bora morava há muitos anos neste mosteiro.

Vários nobres empobrecidos nesta época colocavam suas filhas em mosteiros pois além do estudo que forneceriam a suas filhas, a um preço acessível, achavam também que suas filhas não conseguiriam se casar, devido sua baixa condição financeira. Então se deixasse-as no mosteiro, garantiria a elas uma vida de estudo e cuidado pelo resto de suas vidas.

Em 1514, Katharina torna-se noviça e em 1515 é ordenada freira, ainda no mosteiro de Nimbschen.

Em 1517, Katharina tinha 18 anos e, apesar de viver atrás dos muros do convento, privada dos acontecimentos do mundo, era uma jovem autossuficiente e com sede de liberdade. Assim como outras freiras deste convento, que no fundo, desejavam uma outra vida, uma vida que extrapolasse os muros do convento, Katharina ficou entusiasmada com os escritos de Lutero.8

Especula-se que as freiras de Nimbschen tenham tomado conhecimento dos escritos de Lutero através de parentas do prior9 do mosteiro dos agostinianos (ordem religiosa de Lutero e que ficava na cidade de Grimmma, próximo a Nimbschen), neste mosteiro os escritos de Lutero tinham livre acesso e tais parentas tinham irmãs no mosteiro em que Katharina se encontrava. Outra hipótese também é que o comerciante Leonardo Koppe, que era amigo de Lutero, semanalmente ia ao mosteiro de Nimbschen e através desse contato as freiras obtiveram acesso aos escritos de Lutero.

Depois de ler o texto Da liberdade cristã de Lutero, Katharina e as demais freiras experimentaram uma libertação: a vida acética que levavam no convento já não fazia mais sentido. Chegaram a escrever para suas famílias manifestando a vontade de sair do mosteiro. No entanto, sair do mosteiro era um passo totalmente incomum para a época, por isso foram reprimidas por suas famílias em sua decisão. Lutero sentiu-se responsável por elas, pois, afinal de contas, foram os seus escritos e a sua teologia que fizeram com que tomassem tal decisão. Lutero lembrou-se de seu amigo comerciante, Leonardo Koppe, para bolar um plano de fuga para as freiras. Então, na Páscoa de 1523, Koppe retirou doze freiras entre barris de sardinha.10

Ao total 12 freiras fugiriam do convento e foram acolhidas por Lutero. Este conseguiu que 3 das 12 freiras fossem acolhidas por famílias em Torgau e para as demais continuou procurando um lar e empenhando-se em achar um esposo para cada uma delas.

Katharina von Bora, a princípio, foi acolhida pela família Reichenbach e foi nesta casa que provavelmente aprendeu a administrar um lar, nessa época as responsabilidades de uma dona de casa extrapolavam o zelo pela casa em si, mas também se referia a administração das terras, agricultura, criação de animais, a comercialização dos produtos cultivados além da coordenação de todos os empregados da casa.

Posteriormente, Katharina foi viver com a família de Lucas e Bárbara Cranach. Lucas era um grande pintor renascentista que trabalhou durante muitos anos para a corte dos Eleitores da Saxônica e é bem conhecido por ter pintado retratos tanto de príncipes como de líderes da Reforma – a imagem de Katharina, que ilustra esse post, é de sua autoria assim como uma das imagens mais conhecidas de Lutero e Melanchthon também são de sua autoria. E é neste lar que Katharina vive até seu casamento com Lutero.

Antes de se casar com Lutero, Katharina viveu algumas desventuras e tentativas frustradas da própria parte de Lutero em arranjar um par para ela – uma vez que ele achava que jamais viria a se casar indo contra à sua própria opinião que pastores e líderes deveriam unir-se em matrimônio.

Mas em 1525, em 13 de junho, Lutero chama um pequeno círculo de amigos e celebra seu casamento com Katharina von Bora – ele com 42 anos e ela com 26 anos de idade. E deste pequeno círculo de amigos, seu grande amigo Filipe Melanchthon não esteve presente pois não concordava com esta decisão. E após 14 dias dessa celebração a cerimônia aberta do casamento dos dois foi realizada, com amigos e parentes presentes.

A casa de Lutero e Katharina era o prédio onde anos atrás os monges agostinianos viviam (Schwarzer Kloster) e que a princípio havia sido liberado para que eles morassem pela Universidade de Wittenberg mas um tempo depois foi doado definitivamente pelo príncipe.

Em seu lar, não vivia apenas a família Luther. Muitos hóspedes passavam por lá, além de estudantes, freiras foragidas, crianças órfãs. Não é à toa que, apesar do bom ordenado de Lutero, somado à excelente administração dos bens e ao trabalho dedicado de Katharina, a família sempre tinha que lutar para que o orçamento não fosse extrapolado.11

Katharina reformou o mosteiro e o administrou com uma rotina bastante atarefada, além de sempre receberem alunos e hóspedes em sua casa ainda tinham uma horta, um orquidário, confeccionavam material para pescaria, e posteriormente adquiririam uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira.

Tiveram 6 filhos (3 filhas e 3 filhos), porém só 4 deles vieram a completar a idade adulta: um tornou-se advogado, outro médico, outro teólogo e a única mulher casou-se com um rico prussiano. Mas além de seus próprios filhos, cuidaram e criaram sobrinhos tanto da parte de Lutero como de Katharina, além também de outras crianças que eram órfãs.

Entre 1527 e 1535 a peste tomou Wittenberg e grande parte da população saiu da cidade. Katharina e Lutero, no entanto ficaram e hospedaram e cuidaram de doentes em sua casa. Nessa época era comum que mulheres, mesmo as de origem nobre, tivessem conhecimentos da medicina caseira. O que aparentemente Katharina veio a aprender com sua tia Magdalene von Bora enquanto esteve com ela no mosteiro de Nimbschen.

Lutero sempre temia por sua vida, achando que fosse morrer a qualquer momento vítima das perseguições que sofria. Então em 1542, faz um testamento indicando Katharina como sua herdeira universal – o que não era possível por lei na época já que sempre deveria haver um homem responsável pela viúva, pelos filhos e pelos bens. Mas ele recusa-se a nomear um homem como tutor de Katharina alegando que ninguém melhor do que ela mesma para cuidar de tudo, uma vez que fazia isso durante muitos anos. Só que ele não registrou em cartório o testamento dificultando ainda mais sua vida após sua morte. Mas depois de grande empenho de amigos e do príncipe João, conseguiram reconhecer o testamento, porém tiveram que nomear um tutor pelo cuidado dos filhos e depois de algumas brigas conseguiu ter o direito do próprio cuidado de seus filhos.

Lutero falece dia 18 de fevereiro de 1546, na cidade onde nasceu, Eisleben, e foram os amigos mais íntimos de Lutero, Filipe Melanchthon e João Bugenhagen, que tiveram que dar essa difícil notícia a Katharina. Seu corpo foi enviado a Wittenberg e por onde passava os sinos soavam. Seu funeral foi realizado por Bugenhagen e Melanchthon fez a locução memorial em latim. Foi enterrado aos pés do púlpito da igreja de Wittenberg.

A morte de Lutero foi um baque para Katharina pois além de não estar presente quando ele se foi, sentiu a perda de seu esposo e companheiro, mas também de alguém que a influenciou e contribuiu para o real entendimento do Evangelho ajudando-a a tomar a decisão mais importante de sua vida: deixar de ser freira e viver uma vida comum para a honra e glória de Cristo.

Simpática e querida irmã!

Que a senhora sofre comigo e com meus filhos, eu acredito de coração. Pois quem não estaria aflita e desconsolada por um homem tão caro, como o meu querido senhor o foi? Pois ele serviu não somente a uma cidade ou um país, mas a todo o mundo. Por isso, verdadeiramente, estou tão aflita que não consigo descrever para ninguém a dor que sinto em meu coração. E eu nem sei como estou mantendo meu juízo e ânimo. Não consigo comer nem beber, muito menos dormir. E se eu tivesse tido um principado e um reinado, não teria sido tão cruel se os tivesse perdido, como agora que o bondoso Senhor Deus tirou de mim, e não somente de mim, mas de todo o mundo, esse querido e caro homem. Quando penso nisso, não consigo, de tanto sofrimento e choro (o que Deus certamente sabe) nem falar nem mandar escrever.

Mas o que diz respeito a seu filho, meu querido sobrinho, eu vou gostar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mesmo se tudo tiver que ser investido nele, pois como eu entendo, ele vai continuar os estudos com muita dedicação e não irá desperdiçar sua nobre juventude. Mas, quando ele avançar um pouco mais em seus estudos e necessitar de outros e mais livros, pois ele irá estudar Direito, você mesma querida irmã, pode imaginar que eu não terei condições de comprá-los. Ele necessitará de alguma ajuda a mais para que venha a ter todo o material necessário. Para isso seria necessário que, assim como a senhora escreve para mim, conseguir um dinheiro anual como bolsa de estudos para seu filho, meu sobrinho. Pois assim ele poderia continuar seus estudos e cumprir suas obrigações com mais facilidade. Mas, sobretudo, o que eu puder fazer por ele, eu mandarei notícias com meu irmão Hans von Bora, assim que ele vier para cá.

Assim, fiquem com Deus. Wittenberg, 2 de abril de 1546.
Katharina, a viúva do Dr. Martinus Luther

Com a morte de Lutero também veio a luta pela sobrevivência, e Katharina continuou morando em sua casa, a Schwarzer Kloster, e a princípio continuou com o pensionato para estudantes e outros hóspedes. Mas não foi nada fácil pois não era comum um pensionato dirigido por uma viúva e os estudantes preferiam hospedar-se em casa de professores, e com a ausência de Lutero, sua casa não era mais uma prioridade de estadia. E por falta de dinheiro teve que escrever cartas para conhecidos, pedindo ajuda. E aconteceu que ela foi acusada de não saber se conformar com sua nova situação, de ser orgulhosa, briguenta e ‘cheia de razão’12.

Passou pela guerra de Esmalcada e teve que fugir de Wittenberg em 1546. Retornou no mesmo ano, mas em seguida precisou fugir novamente. Obteve ajuda financeira do rei da Dinamarca, Cristiano II, e decidiu retornar para casa já que o príncipe da Saxônia havia vencido. Mais tarde teve que fugir novamente e tinha a esperança de buscar abrigo na Dinamarca mas conseguiu ir somente até Gifhorn – teve que retornar devido ao perigo nas estradas. Eles estavam tão empobrecidos que conta-se que Katharina teve que rasgar as vestes do falecido Lutero para costurar roupas para seus filhos menores, pois os mais velhos haviam saído de casa para estudar.

E em 1552, a peste retorna em Wittenberg e Katharina resolve fugir para Torgau, em setembro deste ano. No caminho os cavalos tiveram um contratempo e ela teve que pular da carroça. Se machucou muito e chegou doente ficando acamada em Torgau. Foi cuidada pela filha e por amigos, mas seu estado piorava e quando percebeu que seu fim estava próximo pediu pela Santa Ceia. Katharina faleceu em 20 de dezembro de 1552, aos 53 anos de idade. Foi sepultada na igreja de St. Marien e a alocução foi feita por Filipe Melanchthon. Seus filhos mandaram gravar em sua sepultura: Ano 1552, dia 20 de dezembro, bem-aventuradamente adormeceu aqui em Torgau a deixada viúva do Dr. Martin Luther.

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8Trecho citado no livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

9Prior era o superior de um convento em algumas ordens religiosas

10Trecho do livro Em memória delas: Mulheres na Reforma Protestante

11Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

12Trecho do livro Mulheres no Movimento da Reforma

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres que também fizeram Reforma – parte 1

Para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante, resolvemos trazer a história de algumas mulheres que, assim como tantos homens, também contribuíram para o desenrolar da Reforma. Foram mulheres ativas, politicamente relevantes, de posicionamento forte e crítico. Muitas agiram nos bastidores, outras conseguiram expor seus manifestos e insatisfações publicamente.

É claro que não temos a pretensão em revelar todos os nomes de mulheres envolvidas em tal movimento, pois certamente há uma grande nuvem de testemunhas que sequer tiveram suas histórias ou contribuições divulgadas. Mas nossa intenção aqui é trazer inspiração. Contribuir para que você, assim como eu, ao ler essas histórias – em que muitas não tiveram um final feliz – possa sentir-se tocada e inspirada a fazer mais por seu bairro, país, escola, casa, trabalho, família, igreja. E quem sabe, contribuir para uma reforma necessária onde você estiver…

Boa leitura e inspire-se!

 

ARGULA VON GRUMBACH

Argula foi a primeira mulher que pronunciou-se publicamente a favor de questões referentes à teologia luterana e entra na história como a primeira escritora protestante

Argula nasceu no ano de 1492 em Beratzhausen, perto da cidade de Ingolstadt, na Baviera, Alemanha. Era filha do barão Bernhard von Stauff e de Katharina von Toerring zu Seefeld – ambos de descedência nobre, porém empobrecidos.

Quando tinha dez anos recebeu de seu pai uma Bíblia1 para que a estudasse com dedicação, isso mostra que seus pais valorizavam a educação de crianças e cuidaram para que também suas filhas mulheres tivessem uma boa formação crítica e intelectual.

Tornou-se dama de honra, por volta de 1508, da duquesa Kunigunde, que era irmã do imperador Maximiliano e esposa do duque Alberto IV. Convivendo com as três filhas do casal recebeu uma formação que somente filhos e filhas de famílias nobres e com boas condições financeiras poderiam ter.

Conhece seu futuro marido, Friedrich von Grumbach, na casa do duque Alberto IV e casam-se por volta de 1516. Esse já era um período histórico com muitos rumores e inquietações e mesmo casada não deixou de ler a Bíblia e se informar sobre os acontecimentos que agitavam a Europa.

Seu esposo, que havia recebido o cargo de administrador da cidade de Dietfurt, não era alguém com quem Argula poderia discutir questões teológicas, pois para ele a igreja como estava bastava, com isso, manteve contato com teólogos da Reforma. Trocou correspondência com Jorge Espalatino, que, na época era secretário e conselheiro do príncipe-eleitor de Saxônia e conde da Turíngia, amigo de Lutero e do príncipe João Frederico. E provavelmente através do contato com Espalatino, obteve a lista das obras de Lutero publicadas em língua alemã. Simpatizou-se com a teologia de Lutero, pois, sua argumentação teológica baseava-se no texto bíblico e torna-se leitora assídua de suas obras.

Argula foi uma grande admiradora de Lutero e trocou vasta correspondência com ele. No ano de 1522 Lutero publica um livro de orações e o dedica “à nobre mulher Argula von Stauffen zu Grumbach”. E em 1524 ele escreve para Johannes Briessmann mencionando sua admiração por ela:

A nobre mulher Argula von Stauffen trava uma árdua luta neste Estado, com um grande Espírito e cheio de palavras e entendimentos sobre Cristo. Ela merece que nós oremos por ela, para que Cristo venha a triunfar através dela. Ela atacou a Universidade de Ingolstadt com escritos, porque eles obrigaram o jovem chamado Arsácio a uma vergonhosa retratação.

Esse episódio com a Universidade de Ingolstadt se deu porque um jovem professor-adjunto chamado Arsácio Seehofer havia iniciado seus estudos nesta universidade, porém transferiu-se por um ou dois semestres para Wittenberg estudando com Melanchthon. Precisou retornar à Ingolstadt, por obediência a seus pais, e se graduou como mestre em teologia. Mas por ter estudado com Melanchthon, Arsácio se convence da doutrina sobre a justificação por graça e fé e com isto suas preleções e alguns artigos que escreveu não condiziam com a teologia de Ingolstadt que era completamente contrária a teologia reformada.

Sofre perseguição, é interrogado, tem sua casa vasculhada, é preso e a universidade abre um processo por heresia no qual seria julgado pelo tribunal dos bispos. Seu pai intervém e Arsácio é julgado internamente pelo reitor da universidade. E em 7 de setembro de 1523 sob ameaça de tortura, com a Bíblia em mãos e chorando de vergonha jura retificando todas as heresias que havia afirmado e agradecendo a enorme benevolência da universidade em minimizar sua pena. Sua condenação foi viver o resto de sua vida no mosteiro de Ettal. Mas pouco tempo depois conseguiu sair do mosteiro e se torna pregador luterano na Igreja Territorial de Wüttemberg.

Argula não se conformou com tudo o que aconteceu com Arsácio e escreve diversos textos que para sua própria surpresa têm enorme repercussão. Sua intenção inicial não era de publicá-los, mas de iniciar um diálogo com a reitoria da Universidade de Ingolstadt o qual se nega em responde-la.

Ao todo, Argula escreveu oito cartas que viraram Cartas Panfletárias2 sobre o caso de Arsácio e defendendo a teologia da Reforma, o que por si só na época já era extremamente polêmico pois os escritos de Lutero estavam proibidos em toda a Baviera e por ser mulher, agravou ainda mais o conflito, uma vez que não cabia as mulheres opinar sobre questões teológicas ou religiosas. E depois da publicação de suas cartas panfletárias não publica mais nenhum texto, porém mantém uma vasta correspondência.

Em 1529, seu esposo falece e ao que parece ele permaneceu fiel a Igreja Católica até a sua morte. Cerca de três anos depois casou-se novamente com o conde Burian von Schick zu Passau, que pertencia a uma família nobre e também era protestante, mas dois anos mais tarde fica viúva de novo.

Seus últimos anos de vida foram muito sofridos por causa da pobreza e dos lutos de seus filhos e outros membros de sua família. Não se sabe exatamente a data de sua morte, mas ao que parece faleceu em 1554 com 62 anos de idade.

Geralmente me chamam de luterana, mas eu não o sou. Eu sou batizada no nome de Cristo, a quem eu confesso, e não confesso Lutero. Mas eu confesso que ele, Martinus, também se confessa um fiel cristão. Que Deus ajude, para que nunca mais neguemos isso, nem por vergonha, desonra, cárcere ou torturas.

Argula em carta ao seu primo Adam von Törring, em 1523

 

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1Aproximadamente 20 anos antes de Lutero traduzir a Bíblia para a língua alemã já havia outras traduções: as mais conhecidas eram a Mentelin Bibel, de 1466, de Estrasburgo, e a Koberger Bibel, de 1483, de Nuremberg.

2O termo original alemão é Flugschrift. Foi uma forma de comunicação de massa que surgiu no século 15 e era uma forma de tornar público informações atuais, numa espécie de “jornal do dia”. Propaganda política, controvérsias religiosas e outras polêmicas eram publicadas e assim espalhadas para influenciar a opinião pública. Tais cartas foram fundamentais para espalhar as ideias da Reforma.

 

MARGARIDA DE NAVARRA

Margarida foi rainha, poeta e contista e de um jeito criativo e perspicaz anunciava valores cristãos e delatava padrões imorais de clérigos e da corte através de seus contos

Margarida nasceu em 1492 em Angoulême na França. Filha de Carlos d’Angoulême e Luisa de Savóia. Seu pai Carlos teve a educação assistida por Leão XI, que era rei da França e seu primo, porque seu pai havia morrido quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Sua mãe Luísa, quando se casou, tinha cerca de 12 anos de idade. Tal casamento foi arranjado e Carlos só permaneceu fiel a este arranjo pois com 18 anos de diferença de sua noiva pode levar sua amante para viver em sua corte juntamente com Luísa.

Casou-se em 1509, aos 17 anos, com o duque Carlos IV d’Alençon. Não foi consultada sobre o assunto e tudo foi arranjado por sua mãe, pelo rei Luiz XII e pela rainha Ana. O noivo era descrito como uma pessoa simples, insignificante na aparência, sem capacidade ou cultura e sem qualquer gosto para a intelectualidade. Era invejoso, tímido e antissocial. Porém, sua ambição o fazia aspirar a cargos para os quais era incompetente. E mesmo não o amando, Margarida foi uma esposa fiel. E exatamente no dia que completava 33 anos ficou viúva.

Casa-se novamente, em 1527, com Henrique d’Albert, um jovem príncipe que foi aprisionado na batalha de Pávia mas que fugiu do seu cativeiro. Foram viver em Navarra, um reino estranho e empobrecido cuja língua Margarida não conseguia entender. O lugar foi melhorando cada vez mais, com a administração sábia de Henrique e a ajuda de Margarida que fundou hospitais, orfanatos e bibliotecas. Foi no castelo de Nérac que Margarida acolheu vários eruditos e reformadores. Ela fez de sua corte um lugar de sábios, poetas e pensadores que fugiram da estaca de um mosteiro sombrio para desfrutar a proteção de uma mulher encantadora, boa, alegre e cortês e de um livre pensador como o rei3.

Ela exaltou o Senhor como o único e suficiente Salvador e intercessor. Ela comparou, como Lutero fez, a lei que busca, tenta e pune com o evangelho que perdoa ao pecador por causa de Cristo e da obra que ele completou na cruz. Ela olha para frente ávida e esperançosa por um mundo redimido e regenerado pelo evangelho de Jesus Cristo. Ela insiste na justificação pela fé, na impossibilidade de salvação pelas obras, na predestinação, no sentido de dependência absoluta de Deus como único recurso. Obras são obras, mas ninguém é salvo pelas obras, salvação vem pela graça e “é o Dom do Deus Altíssimo”. Ela chama a Virgem a mais abençoada entre as mulheres porque ela tinha sido escolhida para ser a mãe do Salvador Soberano, mas recusou para ela um alto lugar, e nas suas devocionais ela introduziu uma invocação ao Nosso Senhor, em vez de “Salve Rainha”.

T.M. Lindsay citada no livro Uma voz feminina na Reforma de Rute Salviano

Teve professores que a ajudaram crescer intelectual e espiritualmente. E por meio de algumas damas de sua corte, soube o que os reformadores estavam pregando. Ela foi influenciada tanto por Lutero quanto por Calvino.

Talvez ninguém represente melhor os sentimentos que inspiraram o começo do movimento da Reforma na França como Margarida, porque, além de afetuosa, era cheia de coragem e entusiasmo. Ela ouvia avidamente a pregação de Lefèvre e Roussel e desejava aprender o caminho da salvação e cooperar na divulgação das ideias da Reforma4.

Em Nérac, seu capelão Roussel pregava na língua do povo e não havia elevação da hóstia ou adoração das espécies e não era permitido adorar a virgem Maria e os santos. O sacerdote oficial não era obrigado ao celibato e podia usar vestes comuns, pegar um pão comum, comê-lo e em seguida dá-lo à congregação e finalizavam cantavam um salmo.

Seu reino, no sul da França, sempre foi hostil ao poder de Roma e havia milhares de protestantes em refúgio, pobres e oprimidos. E quando esse refúgio não era mais seguro, tratava de enviar seus hóspedes a lugares mais seguros. Foi o que aconteceu com João Calvino, que esteve em sua corte, em Nérac, e depois foi enviado à Genebra. Este geralmente se correspondia com ela e sua filha Jeanne d’Albret.

Um de seus poemas mais famosos o Espelho da Alma Pecadora lançado em 1531 na França (e que possuiu tradução para o inglês em 1548 pela futura rainha Elisabeth) foi incluído ao Index de obras proibidas à leitura5. Tal poema foi considerado pela Faculdade de Teologia de Paris (Sorbonne) herético porque não mencionava santos, purgatório, oração a Virgem Maria e a Salve-Rainha era parafraseada em honra a Jesus Cristo. Mas seu irmão, rei da França, Francisco I ordena que deixem sua irmã em paz e assim o reitor altera a condenação informando que seu poema foi colocado na lista por ter sido publicado sem a aprovação da Faculdade de Teologia de Paris, como era requerido pela lei.

Entre 1544 a 1548, Margarida escreve o Heptameron mas sua publicação só acontece 10 anos após sua morte. O valor real do Heptameron está na descrição da vida e dos costumes das cidades naquele período. Pela obra consegue-se formar uma boa ideia da posição das classes, da riqueza e do conforto, da quantidade de tempo dedicada à ociosidade e aos prazeres e outras incongruências que a França apresentava na época6. Ela o escreveu inspirada no Decameron de Bocaccio7 que era moda em sua corte e que endossava e estimulava um estilo de vida devasso e completamente entregue aos prazeres humanos. E em seus contos, no Heptameron, Margarida denuncia comportamentos imorais e expõe valores cristãos de maneira criativa e conforme as pessoas estavam acostumadas a consumir em sua época: através de contos.

Sua vida foi marcada por grande influência na política, por sua intelectualidade e por acreditar em seus ideais e lutar por eles. Mas como esposa e mãe foi omissa permitindo que seu irmão, o rei Francisco I que era emocionalmente instável, ditasse as regras. Assim, sua filha Jeanne d’Albret é separada de sua mãe com apenas 2 anos de idade indo morar em um castelo longe dela e com 12 anos é dada em casamento à um aliado do rei e com o consentimento de Margarida, mas contra a vontade de sua filha e de seu esposo.

Apesar dessa mancha no comportamento como esposa, sobretudo como mãe, sua filha Jeanne d’Albret (1528 – 1572), assim como Margarida, tornou-se grande defensora na luta a favor da Reforma e contra os excessos que a Igreja Católica exercia.

Margarida morre em 21 de dezembro de 1549, aos 57 anos. É enterrada na Catedral de Lescar e em seu funeral teve a presença de pobres de todos os estados de Béarn.

 

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3Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

4Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

5Index era uma relação de obras consideradas heréticas e que eram proibidas aos fiéis da Igreja

6Trecho do livro Uma voz feminina na Reforma – A contribuição de Margarida de Navarra à Reforma religiosa de Rute Salviano

7Bocaccio foi um escritor italiano (1313 – 1375), considerado uma das maiores figuras do Renascentismo. Sua principal obra foi o Decameron, uma coleção de 100 contos que exaltam a beleza e o amor terrenos.

  

KATHARINA SCHÜTZ ZELL

Katharina foi escritora, diaconisa e a primeira pregadora protestante

Katharina nasceu no ano de 1497, em Estrasburgo. Filha de Elisabeth Gerster e Jakob Schütz, era de uma família bem situada e reconhecida em Estrasburgo. Sabe-se que recebeum uma boa formação e sabia ler e escrever muito bem em língua alemã. Interessava-se por literatura, pela Bíblia e artigos teológicos. Desde menina era engajada na igreja e quando as ideias da Reforma chegaram em Estrasburgo seu interesse foi grande.

Casou-se com o pastor Matthäus Zell em 3 de dezembro de 1523 e teve seu matrimônio celebrado por Martin Bucer, reformador também conhecido em Estrasburgo.

A prioridade do casal Zell era o desenvolvimento da igreja na teologia reformada, mas também na prática cotidiana. E o engajamento de Katharina foi de zelar pelos doentes, vulneráveis e fugitivos. Como Estrasburgo era uma cidade livre, em um conflito por questões teológicas na cidade de Kenzingen, cerca de 120 homens acompanharam o pastor local deposto e grande parte deles buscaram refúgio na casa de Matthäus e Katharina. E além de abriga-los, cuidando de sua acomodação e alimentação, Katharina também se preocupou com as mulheres desses refugiados, que agora precisavam organizar suas vidas sem a ajuda de seus maridos, e escreve a elas em forma de um tratado que demonstrava seu grande conhecimento teológico.

Katharina e Matthäus tiveram dois filhos, porém ambos faleceram ainda quando eram bebês. E apesar de ter sofrido muito com tais perdas, canalizou e buscou ocupar seu tempo exercendo atividades diaconais importantes além de buscar na escrita seu posicionamento teológico e intelectual.

Matthäus Zell falece em 1548 quando Katharina tinha 51 anos de idade. Martin Bucer é quem faz o pronunciamento no enterro de Matthäus e ao final Katharina pede a palavra e fala publicamente para toda a comunidade reunida. Tempos depois, publica um escrito de sua reflexão com alguns detalhes sobre os últimos momentos de vida de seu esposo.

Antes de falar, porém, peço que não me levem a mal nem que se aborreçam comigo, como se eu fosse querer me colocar agora no lugar do ministério do pregador e apóstolo; não, de forma alguma, porém somente como o amor agiu, sem preconceitos, nos pensamentos de Maria Madalena […] assim também agora eu.

Comentário de Katharina à comunidade sobre sua publicação posterior ao falecimento de seu esposo

Autora de 3 cartas panfletárias, de 6 livros e também de vários outros escritos, Katharina não só ficou conhecida escritora, mas também como pregadora. Pregando e celebrando também outros sepultamentos além de seu esposo, Matthäus – principalmente quando pastores se recusavam a fazê-lo.

E apesar de sua dor, lutos e incertezas seguiu sua luta pelo movimento da Reforma até o fim de seus dias, falecendo no dia 5 de setembro de 1562, aos 65 anos de idade. 

 

MARIE DENTIÈRE

Marie foi teóloga e uma ativa reformadora. Inspirava mulheres a estudarem e a interpretarem as Escrituras

Marie Dentière nasceu em 1495 em Tournai, na Bélgica. Passou boa parte de sua vida em um convento tornando-se abadessa no Convento Agostiniano da Abadia de Saint-Nicolas-des-près. Ainda no convento, por ter livre acesso a biblioteca, tem acesso aos escritos de Lutero e converte-se a reforma luterana em 1524.

Abandona o convento e foge para Estrasburgo. Marie acompanhava seu compatriota, Guilherme Farel, em diversas campanhas evangelizadoras e em 1528 casa-se com o ex-padre Simon Robert, que era famoso estudioso da língua grega e com quem teve duas filhas. Foram para Bex, e em seguida para Aigle onde Simon Robert foi pastor até o ano de sua morte, em 1532.

Marie casa-se novamente, com o pregador Antoniere Froment, e por volta de 1535 mudam-se para Genebra. Torna-se a primeira mulher teóloga da Reforma e ali sofre perseguição principalmente por parte das autoridades católicas – que impediam qualquer publicação escrita por uma mulher.

Mas Dentière sempre declarou seu desejo de encorajar as mulheres. Para ela a Bíblia era o único fundamento da verdade e encorajava, as pessoas, principalmente as mulheres a terem um espírito de ousadia e destemor.

Ao visitar o convento de Jussy, como parte de suas campanhas evangelísticas, declara aquela que seria uma de suas frases mais conhecidas: Passei muito tempo na escuridão da hipocrisia. Mas somente Deus foi capaz de fazer-me enxergar minha condição e conduzir-me à luz verdadeira.

Em 1536, publica “Guerra e Libertação de Genebra”, o que mostra sua sólida instrução teológica, intelectual e domínio da Bíblia.

Em uma das duas cartas abertas que escreveu à rainha Margarida de Navarra, esta intitulada “Em Defesa das Mulheres”, Marie Dentière faz um apelo à rainha: para que ela intercedesse junto a seu irmão, Francisco I que era o rei da França, para que se eliminasse a divisão entre homens e mulheres, pois elas também recebiam revelações que não podiam ficar escondidas. O que foi um escândalo para o seu tempo defender igual tratamento entre homens e mulheres na habilidade para ler e interpretar as escrituras.

Mesmo que não nos permitam pregar em assembleias ou lugares públicos, não nos proibiram de escrever ou de nos aconselhar mutuamente.

Trecho da carta pública de Marie Dentière para Margarida de Navarra

Em 1540, enquanto Froment era pastor em Massongy, o casal resolveu abrir um colégio interno para meninas em sua casa. Além de suas 3 filhas (duas filhas do 1º casamento de Marie e uma filha de seu casamento com Froment) outras meninas tiveram a oportunidade de uma educação completa além de aulas de grego e hebraico.

Marie Dentière faleceu em 1561, aos 66 anos. Em 2002 tem seu nome gravado no Monumento da Reforma, localizado em Genebra, em reconhecimento de sua vasta contribuição à história e ao movimento da Reforma.

 

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MULHERES QUE TAMBÉM FIZERAM REFORMA é uma série do Santa Paciência que busca celebrar o Dia da Reforma trazendo histórias de mulheres inspiradoras que através de suas vidas, escritos, lutas, intelectualidade e voz também contribuíram para o movimento que marca nossas vidas ainda hoje e define nossos princípios fundamentais de vida.
Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a Graça) e Soli Deo Gloria (glória somente a Deus).

+ Mulheres que também fizeram Reforma – parte 2: link aqui

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

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1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mentir é humano. Essencialmente humano.

“Ceci n’est pas une pipe” – René Magritte, 1929.

Você torce a história só um pouco e aquilo se torna… Pode ter um grande impacto em sua vida.

Kelley Williams-Bollar uma das entrevistadas no documentário (Dis)Honesty the truth about lies1

Mentir é humano. Essencialmente humano.

No início da narrativa bíblica, em Gênesis, a serpente mente para Eva e a engana – e ela já deveria estar bem atraída pela ideia de comer do tal fruto. Eva, por sua vez, convence Adão – que também já deveria estar bem apático em seu relacionamento para sequer questionar-se e prontamente comer do fruto. E ao serem visitados por Deus – como era de costume – escondem-se por medo. Percebem-se nus, estranhos. Um culpa o outro, mentem e ninguém assume sua própria responsabilidade.

Pronto! Desde então, nossos relacionamentos foram manchados e estão marcados pela acusação alheia, pela desconfiança, inveja, medo, cobiça e a lista segue, é extensa… E desde esse episódio fatídico, temos a tendência de enganar aos outros e a nós mesmos.

Nós meio que sabemos de forma anedótica que uma vez que você mente, é provável que minta de novo. E é provável que a segunda mentira seja maior que a primeira.

O que encontramos no cérebro, é que, no começo, se você mentir pouco, há uma resposta muito forte nas regiões ligadas às emoções, tais como a amídala e a ínsula. Na décima vez em que você mente, mesmo que minta a mesma quantidade, a resposta não e tão forte. Assim, embora a mentira aumente com o tempo, a resposta do seu cérebro diminui. Nós achamos que a resposta disto acontecer seja um princípio bem básico do cérebro. Que é o seguinte: o cérebro se adapta. Por exemplo, se você está ouvindo música num volume baixo e o aumenta um pouco, duas marcações, parece uma diferença grande. Mas se você está ouvindo o rádio num volume bem alto e aumenta duas marcações, você nem sente. O cérebro codifica tudo relativamente à linha de base adotada. O mesmo se dá com a desonestidade. Se somos pessoas bem honestas que não costumamos mentir, e agora contamos uma mentira, o cérebro está codificando como uma diferença grande em relação à nossa linha de base. Mas se somos desonestos e mentimos bastante, o cérebro não responde tanto. Depois de um tempo, o valor negativo da mentira, o sentimento negativo, quase não se manifesta mais. O que acaba fazendo com que você minta cada vez mais.

Tali Sharot: neurocientista cognitiva da Universidade de Londres no documentário (Dis)Honesty the truth about lies

Mentiras que são para o nosso próprio proveito. Por que mentimos tão prontamente? A mentira é uma maneira rápida e fácil de ganhar vantagem, proteção e promoção dos interesses pessoais. Mentimos para chamar a atenção das pessoas e nos promover na estima dos outros. Mentimos para proteger nossa reputação e mentimos para fugir do castigo. Muitas mentiras são servas dedicadas do ego.2

Mentimos, muitas vezes, porque somos autocentrados e não queremos que a nossa imagem seja colocada a prova ou que nossa reputação fique manchada. Mas nosso chamado é para não nos importarmos com nenhum julgamento além daquele que provém de Deus: Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Embora em nada minha consciência me acuse, nem por isso justifico a mim mesmo; o Senhor é quem me julga. Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação. [1 Coríntios 4.3–5 – NVI]

Mentiras que servem aos outros. Um desafio ainda maior no nosso compromisso com a verdade se encontra no costume cultural de mentir para proteger os outros. À primeira vista talvez pareça que é uma exceção válida tendo em vista o alvo justo da sinceridade.

É preciso admitir que às vezes é difícil ter tato para dizer a verdade. O que você diz quando vê um bebê recém-nascido, vermelho e enrugado no hospital? O que você responde quando alguém lhe pergunta acerca de um vestido, de um chapéu, ou de uma gravata nova?

Isso não quer dizer que devemos ser “brutais” ao falar a verdade. A Palavra de Deus ordena que falemos a verdade em amor (Efésios 4.15). A verdade deve andar junto com a misericórdia, com a gentileza, com a compreensão e com a graça. Não há virtude nenhuma em glorificar a Deus, dizendo a verdade e ao mesmo tempo destruindo a glória da graça de Deus com um espírito insensível.3

E costumamos mentir também, para não desagradar a outros, mas esquecemos que nosso compromisso primeiro é com Deus, que é a Verdade. Verdade que é também Amor e ambas andam juntas são inseparáveis.

Dar resposta apropriada é motivo de alegria; e como é bom um conselho na hora certa!
(Provérbios 15.23 – NVI)

 

Sonda-me, ó Deus,
e conhece o meu coração;
prova-me e conhece as minhas inquietações.

Vê se em minha conduta algo te ofende
e dirige-me pelo caminho eterno.

Salmo 139.23–24

 

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NOTAS:
1(Dis)Honesty the truth about lies é documentário feito por Dan Ariely, um norte-americano de origem israelense, que após sofrer um grave acidente na adolescência – que levou grande parte do seu corpo a ser queimado, percebeu como os profissionais da saúde, médicos e enfermeiros que deveriam ser os mais aptos a lidarem com sua recuperação, muitas vezes eram os que mais agiam irracionalmente, desconsiderando por completo o paciente. Com isso, resolveu tornar-se um pesquisar sobre “economia comportamental”, formando-se em Psicologia Cognitiva e estudando através de pesquisas comportamentais.

2O Controle da língua – o Espírito Santo pode refrear a sua língua livro escrito por Joseph W. Stowell

3O Controle da língua – o Espírito Santo pode refrear a sua língua livro escrito por Joseph W. Stowell

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.