Por que voltei a tingir meus cabelos brancos

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Sete meses sem tingir os cabelos

 

Esta semana vou voltar a tingir o meu cabelo. Depois de sete meses deixando os fios brancos nascerem e aparecerem, desisti de continuar a ver minha cabeça embranquecer aos poucos. Quando comuniquei minha decisão para o meu marido, ele perguntou: e o que você vai dizer para as leitoras e os leitores da série ‘Fio de Prata’ do blog? Respondi que eu diria a verdade:

  1. Vou tingir os cabelos, porque a transição de um cabelo com cor para um cabelo branco tem implicações dolorosas de encarar

Isso é fato. Ocupo-me mais pensando na minha vida avançando no tempo quando vejo o branco dos meus fios do que quando eles estão disfarçados na tintura. Penso, me comparo com pessoas mais novas do que eu, lembro-me da morte. Não acho que temos que nos sentir lindas, jovens, cheirosas e felizes o tempo todo – mas me sentir sempre rumo ao envelhecimento também não tem me feito bem.

  1. Vou tingir os cabelos, porque necessito da aprovação de outras pessoas

Não posso negar que um dos fatores, que me deram força para não tingir o cabelo branco nesse tempo, é que deixá-los ao natural tem se tornado uma tendência cada vez mais forte entre as mulheres. Olha só o que eu disse: tendência. Eita palavrinha tentadora! Quando um comportamento vira tendência, nos sentimos mais confortáveis para adotá-lo, não? Afinal, ele denota mais aceitação entre um maior número de pessoas agora do que antes. Assim, ao olhar para dentro de mim e perceber que ainda busco aceitação e aprovação, perguntei a mim mesma: por que eu deveria continuar a agir como se não precisasse dessas coisas? Afinal, a mensagem que eu buscava passar para os outros ao deixar de tingir os meus fios brancos é que eu não precisava agradar ninguém mais, além de mim mesma. O triste é que nem a mim mesma eu estava agradando.

  1. Vou tingir os cabelos, porque minha atitude está envelhecendo

Muita gente com cabelos brancos por aí é super bem resolvida, jovem, moderna, linda. Nunca me esqueço da inveja que senti de uma mulher no cinema, com seus 45 anos mais ou menos, cheia de presença e cabelos brancos assumidíssimos. E uma asiática então, em quem fiquei reparando uma vez num café coreano? Ela tinha cabelos bem longos, lisos e cinzentos. Parecia um ser élfico vindo direto dos livros do Tolkien. Exótica e deslumbrante.

Para mim, porém, os cabelos brancos têm exercido um efeito contrário: em vez de me empoderarem (detesto esta palavra, mas não achei outra melhor), me atrofiaram. Vi que comecei a me esconder das pessoas, a evitar lugares em que temos que nos arrumar muito, a evitar aparecer para conhecidos que não encontro há muito tempo. Minha autoconfiança foi sendo minada e eu, que já moro no meio do mato, fui me isolando cada vez mais, com vergonha de assumir que minha juventude está indo embora. Fui desenvolvendo uma “atitude envelhecida”, que vai muito além de um simples punhado de cabelos brancos na cabeça, é verdade, mas que acabou sendo desencadeada por eles.

….

Ao mesmo tempo que pondero sobre tudo isso, preciso admitir quão profundo fui nas reflexões que fiz durante esses meses, em que deixei meus cabelos brancos aparecerem. Uma das conclusões a que cheguei é quão falho, superficial e ridículo é o estereótipo de beleza que nos move. Pior ainda é me ver tão presa a ele. Aí, então, vejo Deus, escolhendo aqueles que escapam totalmente aos estereótipos de beleza das épocas e os honrando lindamente (sendo Davi o mais famoso exemplo, resumido no livro bíblico de 1 Samuel, capítulo 16, verso 7) e me encanto.

Se quero me libertar dos estereótipos um dia? Quero muito! Contanto que isso não signifique autotortura. Não quero forçar uma situação, um estado de espírito, um desprendimento, só porque pareço cool assim. É hipocrisia. Tenho estado aberta para Deus trabalhar em mim a aceitação da passagem dos anos e da juventude, mas que Ele faça isso à maneira Dele, à medida em que vai me mostrando o Ser fascinante que é. Que nesse caminho para o envelhecimento, Deus me dê a mão Dele e, gentil como só Ele sabe ser, vá me conduzindo com Seu carinho e tranquilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Casa nova e alma nova

Acabo de me mudar de casa. Esta é a primeira das três mudanças previstas para nós em 2018 (um dia explico melhor essa história). Numa conversa que tive com a Carol Selles sobre isso, ela desabafou: detesto me mudar. Tive que concordar com ela, também detesto, mas talvez a gente não goste de se mudar porque acumulamos coisas demais, que depois nos dão um trabalhão para serem empacotadas e transportadas para o novo lugar. Se tudo o que temos coubesse numa modesta malinha, nosso desânimo para mudanças talvez não fosse tão grande.

No nosso caso, o meu desânimo não vem apenas da ideia de transferir um monte de coisas de um endereço para outro. Tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo e que não serve mais não vai simplesmente para o lixo e pronto. Separamos entre aquilo que iremos doar e aquilo que iremos vender daquilo que iremos descartar. No descarte, separamos entre o que é reciclável e o que não é. Também tem os eletrônicos: aparelhos velhos de celular, baterias que não funcionam mais, carregadores antigos. Tudo isso precisa encontrar um destino certo, que, definitivamente, não é uma lata de lixo comum. E os remédios vencidos então? Seguem todos para uma sacola específica, que será encaminhada para uma drogaria em São Paulo, que os recolhe e os descarta da forma correta. Sem falar das lâmpadas queimadas… também precisam encontrar seu destino certo, porque as fluorescentes, por exemplo, possuem mercúrio dentro, ultra tóxico e, portanto, não podem ser jogadas em qualquer lugar. Assim, mudar de casa se torna algo bem mais complexo do que “só” empacotar tudo e partir. É um ato de responsabilidade como administradores daquilo que acumulamos com o passar do tempo (aliás, aqui neste site, você encontra para onde encaminhar tudo quanto é coisa).

Da mesma maneira que mudar de casa, mudar por dentro, como pessoas, também pode nos dar uma preguiça enorme. Às vezes, é o excesso de opiniões formadas sobre as coisas que nos impede de mudar. Outras vezes, são os ressentimentos, as preocupações com o futuro e, definitivamente, os preconceitos. O orgulho, então! Esse não deixa a gente nem cogitar qualquer transformação.

Esse acúmulo de sentimentos pesados vai nos inchando, a ponto de não conseguirmos nos mover em nenhuma direção. Ficamos inflados de nós mesmos e nos acomodamos, esperando que o mundo gire em torno de nós.

Paulo, apóstolo de Jesus, nos orienta a não nos acomodarmos com essa forma de ver as coisas, mas sugere que renovemos a nossa mentalidade, a fim de experimentarmos o ponto de vista de Deus. Como resultado, esse novo olhar vai transformando a nossa vida (essas referências você pode encontrar na Bíblia, no livro de Romanos, capítulo 12, verso 2). Ou seja, para que novos ares possam entrar nos pulmões da nossa alma, precisamos deixar de acumular os sentimentos prejudiciais ao nosso crescimento, abrindo mão deles e adquirindo uma perspectiva que supere o que é finito, transitório e superficial.

Paul Tournier, médico e psicólogo suíço que se dedicou ao cuidado integral de seus pacientes, escreveu em seu livro Culpa e Graça:

Na verdade, ninguém pode se despojar do espírito de julgamento por meio de um esforço voluntário. Enquanto eu fico obcecado pelo erro descoberto em um amigo, que me chocou e que eu reprovo, posso repetir infinitas vezes: “eu não quero julgá-lo” – mas o julgo mesmo assim. Ao passo que o espírito de julgamento desaparece sozinho no momento em que tomo consciência dos meus próprios erros e falo deles com franqueza ao meu amigo, enquanto ele me fala das faltas que reprova em si mesmo. (p. 101)

O julgamento citado por Tournier é apenas um dos itens, que podem fazer parte da nossa pesada bagagem emocional e que nos impedem de mudar por dentro. Existem muitos outros, que nos sobrecarregam e nos deixam cansadas e indispostas. Pense na inveja, por exemplo. Minha amiga Dalila Parente disse uma vez, num encontro de mulheres, que a comparação que a inveja provoca não funciona de nenhum dos lados: se me sinto superior à pessoa com quem me comparo, isso é ruim e, se me sinto inferior, isso também é ruim. A conclusão a que chegamos aquele dia foi que a via mais saudável de todas é resistir a qualquer tentação de nos compararmos com outras pessoas. Desafiador, não?

Mas para onde encaminhar os sentimentos ruins, mas inevitáveis muitas vezes, que nutrimos e que nos impedem de mudar?

Assim como o lixo que acumulamos em nossa casa com o tempo, que pede um encaminhamento adequado na hora da mudança, os sentimentos negativos que emperram nosso crescimento pedem o destino da confissão. Apresentá-los a Deus sem reservas, em uma oração, pode ser o primeiro passo para que eles percam a força de ação em nós. Jesus, por sua vez, não irá julgá-los como juram alguns, mas perdoá-los, ou seja, levá-los para bem longe Dele e de você. É alívio instantâneo.

Em um segundo momento, entra em cena o processo. Assim como a borboleta, que passa pela metamorfose, nós também passamos a viver uma transformação em etapas. Ficamos conscientes dos sentimentos nocivos e, quando eles se apresentam, a gente às vezes consegue detectá-los a tempo de não nos deixar ser dominadas, outras vezes não. Quando não conseguimos, basta nos jogarmos nos braços de Deus de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias.

Para cada um de nós, um insucesso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.
(Paul Tournier em Culpa e Graça, p. 141)

Só olhando para dentro de nós com sinceridade é que descobrimos o que temos acumulado, que tem nos impedido de mudar. Nesse ato de humildade, uma transformação interior não representará mais um ideal inalcançável para nós ou uma expectativa secreta dos que se relacionam com a gente, mas se tornará um processo possível, genuíno e rico de aprendizados.

 

ENSEE
Arte de Ensee

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Feliz Ano Novo!

Pelo título desta postagem, você pode achar que estou bêbada ou maluca. Bom, maluca sempre fui mesmo, mas não é o caso agora. Na verdade, hoje é o primeiro dia do Ano Cristão ou Ano Litúrgico.

Como? – ouço alguém pensando. Explico:

O Ano Cristão ou Ano Litúrgico é uma outra maneira de contar o tempo. Ele não é dividido em meses, mas em períodos. E todos esses períodos são marcados em torno da história da vida de Jesus: primeiro o Advento (ou “chegada”, “visita”, que começa a ser contado quatro domingos antes do dia do Natal, ou seja, hoje), depois o Tempo do Natal (nascimento), então o Tempo Comum 1 (várias semanas), o Tempo Quaresmal (40 dias que precedem à morte de Cristo), o Tempo Pascal (morte e ressurreição de Jesus) e o Tempo Comum 2 (outras várias semanas).

Assim, a nossa referência de tempo não precisa estar submetida a compromissos, prazos, datas comerciais, mas pode passar a girar em torno da Pessoa de Cristo, sua passagem pela terra e a esperança de sua volta para nos levar com Ele. E essa perspectiva muda tudo: o modo como enxergamos nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossos hábitos de consumo e nosso tempo livre, como poeticamente discorreu Vanessa Belmonte em um post que veiculamos ontem aqui no blog.

 

Um dos modelos de como é contado o Ano Litúrgico. Imagem retirada do link: metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricaocolunas.asp?Numero=3092

 

As Escrituras nos falam de um Deus que não se deixa afetar pelo tempo, um Deus que jamais fica velho ou ultrapassado. Ele mesmo habita a eternidade e é Senhor do infinito, mas vem visitar e redimir as criaturas que vivem na dimensão do tempo. Em Cristo Jesus, o Deus Eterno vem habitar conosco, seres que precisam contar as horas, os dias os meses e as estações. (Gladir Cabral e João Leonel, em O menino e o reino, p. 11).

 

Mas como vivenciar esse tempo diferente, contracultural?

Essa é uma pergunta que venho me fazendo desde que conheci o Ano Litúrgico, que foi apenas em junho deste ano. Na tradição cristã de onde vim, o Ano Litúrgico não era mencionado, tanto que eu nunca soube da existência dele até este post da Vanessa Belmonte. Assim, como não pertenço a uma igreja onde ele é rigorosamente praticado, me perco um pouco.

Para guiar nossas reflexões e devocionais dentro do Ano Litúrgico existe o Lecionário – sugestões de leitura bíblica que têm a ver com o período em que estamos do Ano Litúrgico. No meu caso, que passei a seguir o Lecionário sem a orientação de um grupo, foi difícil manter a qualidade das minhas devocionais, porque as referências bíblicas indicadas para leitura diária eram muitas. Acabei desanimando e voltando para o esquema de leitura bíblica que eu fazia antes.

Entretanto, o Advento chegou e eu voltei a sentir falta de uma reflexão mais dirigida sobre esse tempo tão crucial para nós, cristãos. Hoje de manhã, primeiro domingo dos quatro que pertencem ao Advento e, por isso, o primeiro dia do Ano Litúrgico, cheguei a pensar com Deus e com os meus botões: hoje começa o Advento e eu não sei como transformá-lo em um período diferente na minha vida. Queria chegar no Natal devidamente preparada para absorver todo o seu potencial transformador e o seu valor.

Deus me respondeu 40 minutos depois de ter tido esse pensamento: Carol, minha já tão citada amigona e co-autora deste blog, mandou para mim e para a Talita (também amigona e autora do blog) um Whatsapp com o link de um livro devocional especialmente escrito para essa época do Ano Litúrgico! O download é gratuito e eu quase engasguei com um pedaço de panqueca no café da manhã quando vi que era exatamente o que eu buscava!

O menino e o reino – meditações diárias para o Natal, já com um trecho citado aí em cima no post, é talentosamente escrito por dois autores brasileiros, Gladir Cabral e João Leonel, e contém devocionais profundas, sensíveis e cheias de referências a escritores e cantores, o que mostra como nossos irmãos brasileiros são antenados, além de profundamente espirituais. Lindo de ler!

 

Aos poucos, a história de Jesus e seu significado estão sendo mais e mais incorporados em minha realidade diária.  O importante é não desistirmos dessa renovação da mente, dessa transformação, dessa busca por mais sentido e propósito no que somos e no que fazemos.

Agora peço licença, porque o meu almoço de comemoração do Ano Novo já está pronto!

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Esperar é uma dor ou um presente?

 

PieroFornassetti
Ilustração de Piero Fornasetti

Faz algum tempo que os meus dias têm sido marcados pelo longo caminho da espera. Desde o ano passado, David e eu temos buscado uma direção específica de Deus, que irá implicar numa mudança radical em nossa vida, em termos de tudo, desde localização geográfica até trabalho, amigos e igreja. Entretanto, enquanto essa direção não se confirma, os acontecimentos para nós estão meio que congelados, enquanto que, para o restante das pessoas, eles seguem o seu curso normal. Falar de planos para o ano que vem, por exemplo. Não podemos. Não sabemos quais serão nossas entradas, se estaremos em apartamento ou casa, se no calor ou no frio, se com ou sem escola para o nosso filho de três anos, se perto ou longe da nossa família e da nossa igreja. O máximo que conseguimos fazer é contar com possiblidades e traçar apenas um esboço, que pode mudar a qualquer momento.

Confesso que esperar tem sido um processo desafiador para mim. Como é para qualquer pessoa que espera, imagino. E esperamos o tempo todo, não é mesmo? Pelo pão na fila da padaria, pela chuva passar, pela mensagem da melhor amiga, pelo fim de semana, pelo ônibus. Grande parte do nosso tempo é preenchido com a espera. Para quem é cristão, a espera faz parte do nosso estar-no-mundo:

Os cristãos são pessoas que esperam. Vivemos num tempo liminar, entre o agora e o ainda não. Cristo já veio e virá de novo. E nós habitamos nesse meio tempo. Nós aguardamos.
(Tish Harrison Warren no livro Liturgy of the Ordinary, p. 104, traduzido livremente)

Esperar nos obriga a encarar verdades que geralmente tentamos evitar. Uma delas é de que o tempo não está submisso à nossa vontade nem ao nosso controle. Vivemos na ilusão de que conseguimos domar o tempo, de que ele está a nosso serviço e de que conseguimos fazer caber dentro dele o máximo de compromissos e situações que conseguimos criar. Com essa rotina frenética, poucos se preparam para o mergulho na amplidão vazia do tempo, contido na espera.

Outra verdade que enxergamos melhor quando esperamos é que tememos o futuro. Nossa limitação humana nos condiciona a conhecer apenas as coisas como são agora. Nossas escolhas – materializadas no futuro do minuto seguinte ou do ano seguinte – são um salto no escuro, uma aposta, um desejo gritante de que tudo dê certo, porém sem garantias.

Esperar é ansiar, é ter saudades de um tempo que não chega, é ver nossas capacidades restringidas a uma realidade que nos ultrapassa em poder.

Esperar é uma dor.

 

Lendo sobre a espera, porém, fui convidada a refletir sobre um elemento determinante para a qualidade da espera que enfrentamos: a paciência. Ela é o termômetro indicador do grau de sofrimento que permitiremos experimentar enquanto esperamos. Ela também nos leva a entender que a espera não precisa – e nem deve – ser passiva:

[Esperar com paciência] é uma espera ativa, na qual vivenciamos o momento presente ao seu máximo, a fim de encontrar no presente sinais Daquele por quem estamos esperando.
(Henri Nouwen, tradução livre)

Enquanto esperamos, podemos cuidar do nosso corpo, cuidar daqueles que nos cercam, concluir com comprometimento as responsabilidades assumidas no passado e que ainda estão em aberto, preparar nosso espírito e nossa mente para as possíveis mudanças que nos aguardam, orar, buscar conselhos, ler livros que nos edificam, e o que mais aparecer pelo caminho enquanto aguardamos. Lembro-me sempre do que a minha mãe dizia quando eu era criança e ficava esperando ansiosa por algo: filha, o melhor da festa é esperar por ela. Eu mudaria essa frase para: esperar pela festa é se preparar pra ela. Conforme Tish H. Warren escreve em seu livro Liturgy of the Ordinary, esperar pacientemente é acreditar que o tempo de Deus é perfeito e que, de maneira misteriosa, há muito mais acontecendo enquanto esperamos do que apenas a espera em si (p. 110).

Assim, quando a esperança é o que guia a nossa espera, a espera está pronta para ser transformada em um caminho pelo qual fortalecemos a nossa fé, a nossa confiança em Deus e a nossa visão de mundo. Trilhando pela espera paciente, podemos adentrar numa realidade que supera o que é imediato e transitório.

Esperar com paciência é um presente.  

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Os meus cabelos brancos e a vulnerabilidade

Encontrei uma amiga numa conferência no último sábado e, depois de contar para ela algumas questões particulares que ando tendo com a escrita e a publicação dos meus textos aqui no blog, ela me perguntou: mas e os cabelos brancos você tingiu? (como estávamos num lugar escuro, não dava para enxergar direito o meu cabelo).

Pois é, faz tempo que não venho aqui falar dos meus cabelos brancos. Mas já adianto que eles continuam aqui e estão cada vez mais brancos. Confesso, porém, que tenho me sentido mais e mais tentada a tingi-los. Não só porque eles estão aparecendo muito, mas também porque sempre amei brincar com o meu cabelo, encontrando para ele cortes e cores diferentes. Por enquanto, porém, sigo firme no propósito de assumi-lo como ele está.

 

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Como ele está

Mas o que os meus cabelos brancos têm me feito pensar é sobre vulnerabilidade, assunto de grande interesse da pesquisadora norte-americana Brené Brown (a Carol já escreveu um post ótimo sobre o assunto, citando a Brené Brown, inclusive). Basicamente, a teoria dela considera a vulnerabilidade como uma força disponível aos seres humanos, para construir entre eles uma conexão verdadeira. Ou seja, quanto mais suas vulnerabilidades (aqui você pode substituir o termo por fraquezas) se tornam acessíveis, mais as pessoas irão se identificar com você e mais irão querer se aproximar de você, porque se sentirão acolhidas, uma vez que elas têm as mesmas vulnerabilidades ou vulnerabilidades semelhantes às suas. Como consequência, essa ligação entre as pessoas se torna um canal de cura.

Confesso que gosto muito dessa ideia, mesmo porque sinto falta de conexões verdadeiras com as pessoas. Me farto de fórmulas prontas, de máscaras, de pessoas lindas e cheirosas, que não têm defeito algum ou que estão sempre na fase “pós-defeito”, ou seja, aquilo que elas tinham de vulnerável já foi superado sempre quando você conversa com elas.

Ao mesmo tempo, fico me perguntando se entregar o ouro assim, a qualquer pessoa, de fato me fará livre. Meu medo se justifica justamente por minha vulnerabilidade mais superficial e visível: o branco dos meus cabelos. Outro dia eu estava comemorando o aniversário do meu filho com algumas pessoas e ouvi uma delas se referindo a uma outra, que nem estava lá, como “coitada”, justamente porque a pessoa estava começando a ter cabelos brancos. Fiquei espantada com o comentário e me indaguei se elas ignoravam por completo a minha presença ali – eu com os meus cabelos brancos – ou se falaram aquilo para que eu me tocasse e quem sabe resolvesse tingir os meus cabelos, me tornando, assim, menos coitada.

De uma forma ou de outra, concluí que as pessoas não estão assim tão prontas para acolher as vulnerabilidades umas das outras.  Ao assumir a vulnerabilidade da minha finitude por meio dos meus cabelos, eu automaticamente assinei a declaração de que sou uma perdedora para essas pessoas. Estou admitindo, para quem assim acredita, que me entreguei ao tempo, que estou me deixando envelhecer e ser ultrapassada por pessoas mais novas do que eu. Os cabelos brancos se tornam, portanto, uma bandeira pregada no alto da minha cabeça, anunciando para quem quiser a vulnerabilidade de todos nós, a fraqueza que ninguém quer assumir, o tabu dos tabus: eu estou mais perto da morte do que muitos outros.

Só por esse meu simples caso dos cabelos brancos, já dá para perceber a intolerância das pessoas frente às vulnerabilidades umas das outras. Mas e quando a vulnerabilidade de alguém não é tão simples assim? Como acolhê-la? É aí que eu acho que a teoria da Brené Brown pode ser insuficiente. Se não estivermos cercados de pessoas realmente interessadas em nosso bem, que se preocupem com o destino de nossas almas, que nos amem profundamente, abrir nossos quartos escuros pode ser o nosso fim, infelizmente. Expor para quem quiser ouvir que, muitas vezes, somos manipuladoras, que agimos de forma discriminatória com pessoas com determinadas características, que somos emocionalmente infiéis aos nossos cônjuges ou que somos viciadas em mentiras, aí o papo é outro. O público geral irá receber essas vulnerabilidades de braços abertos, sim, mas não para as acolher, mas para julgá-las, condená-las ou passá-las adiante em forma de gordas fofocas.

Até o momento, não tenho me importado de ser rotulada como coitada por ostentar uma cabeleira reluzente, mas não sei até quando. Também já fui mais fundo, deixando que quartos escuros em mim fossem escancarados ao público, o que me custou parte da minha saúde – por esses caminhos de superexposição não trilho mais. Onde encontrar, portanto, um refúgio para a nossa alma, onde ela descanse verdadeiramente, sem os sustos e a canseira de manter as aparências? Falo a partir da minha experiência: o meu descanso tem vindo do Senhor. Conto para Ele quais são as minhas vulnerabilidades mais recônditas e como não dou conta delas e, então, leio: Ele [o Senhor] te cobre com as suas penas e debaixo das suas asas encontras refúgio (Salmo 91.4). Ele me perdoa e me oferece a força Dele. Sigo em frente, pronta para encarar – e entregar a Ele – a próxima vulnerabilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

E se no seu aniversário você pudesse querer qualquer coisa?

O que você quer do mundo? 

Essa era a pergunta que nós, crianças dos anos 80 moradoras do Jardim Cuiabá, ansiávamos por responder em uma das minhas brincadeiras preferidas de infância, chamada “Que mês?”. Dois participantes escolhiam secretamente um mês do ano para os demais acertarem e, quando alguém acertava, a dupla anunciava o vencedor dirigindo a ele a pergunta: o que você quer do mundo? Ah… que pergunta mais maravilhosa! Ela era a porta de entrada para os topos mais altos da nossa imaginação. Respondê-la significava que você podia tudo e qualquer coisa: um unicórnio, um carrinho de rolimã voador, uma passagem para visitar a zona abissal… tudo era fantasiosamente aceitável naqueles momentos.

Trinta anos depois, mais precisamente na semana passada, ouvi do meu marido uma pergunta que me remeteu como um raio à minha brincadeira de infância: o que você quer de aniversário? Instantaneamente, meus olhos brilharam de deslumbramento ao pensar nas possibilidades de resposta a uma pergunta tão ampla como o infinito. Como assim o que eu quero de aniversário?? Até dei risada na hora, porque quero tanta coisa que não ouso querer nada. Claro que uma pergunta mais precisa da parte dele seria: o que você quer de presente de aniversário, que seja de ordem material, que te agrade e que não seja muito caro?? Essa teria sido fácil de responder, mas eu estava tão envolvida na magia daquele voo, que decidi voar mais um pouquinho e pensar no que eu realmente quereria de aniversário – ou do mundo, num exercício de nostalgia -, se tudo me fosse possível.

1. Eu iria querer que as escolhas não fossem excludentes

Se escolho uma carreira específica, automaticamente, estou deixando de escolher todas as outras. Quando escolho uma pessoa com quem me casar, inevitavelmente, estou dizendo não a todas as outras. Se opto por morar em uma cidade, deixo de morar nas outras milhões que existem.

Por mais óbvias que sejam essas constatações, é isso que me pego desejando muitas vezes: que eu tenha mais do que é possível, razoável ou justo ter. Isso só denota o quanto preciso caminhar em termos de satisfação, gratidão e centramento em Deus. E quando forçamos para que certas escolhas coexistam, o que não é raro, passamos por cima dos sentimentos de outros, burlamos uma ordem necessária e anterior a nós ou nos desgastamos, na ilusão de que certos limites podem ser transpostos.

2. Eu iria querer voltar no tempo e mudar alguns caminhos

Esse  é um desejo que pode denotar crescimento da minha parte, pois inclui grandes erros que eu, se pudesse, teria evitado cometer. Entretanto, penso no quão ilusória é essa especulação, uma vez que qualquer caminho por onde formos não está isento de erros. Além disso, foram os erros dos caminhos efetivos que nos tornaram mais humanos, mais empáticos, mais conscientes de nosso enorme potencial de fazer mal aos outros. Logo, houve espaço para a humildade, o arrependimento, o preenchimento com Deus e seu perdão. Essas experiências nos treinaram para reconhecer e evitar novos erros…. ou os mesmos.

3.  Eu iria querer me separar do meu corpo de vez em quando

Essa soa bem bizarra em um primeiro momento, eu sei. Mas já imaginou se as suas ideias sobre Deus e sobre os outros pudessem extrapolar os limites da sua mente? Você conheceria as motivações das pessoas para agirem como agem, saberia explicar por que Jesus ainda não voltou e já exterminou de vez as tragédias do mundo e ainda se livraria do medo de morrer, porque concluiria que a morte nada mais é do que isso mesmo, o descolamento de você do seu corpo como você o conhece hoje. Acredito que exceder os limites do meu corpo me faria mais humilde, porque depois de uma volta pela imensidão do que existe, eu admitiria o meu tamanho real.

4. Eu iria querer eliminar o politicamente correto

Se tem uma praga que eu gostaria que desaparecesse da terra, certamente é essa. Nada me indigna mais do que um hipócrita que não se reconhece como tal. Todos somos, em maior ou menor grau, e negar isso é cortar qualquer possibilidade de contato com o resto da raça humana. É o ápice da arrogância e da superficialidade no conhecimento das próprias motivações.

Abaixo, o filósofo esloveno Slavoj Žižek explica com perfeição alguns dos perigos dessa peste.

 

5. Eu iria querer superar minhas inseguranças de uma vez por todas

Tenho certeza de que não estou sozinha nessa. Todos queremos superar nossas inseguranças, se ainda não conseguimos. Mas o que me frustra mais é ficar à procura de livros, fórmulas e pessoas que me mostrem o caminho para isso, quando na verdade a resposta esteve bem na minha frente por décadas: a obsessão por mim mesma, como se tudo girasse em torno de mim. Exemplo simples: uma resposta de uma mensagem via WhatsApp que demora para chegar. Pensamentos que costumam cruzar a  minha mente quando isso acontece: ah, mas a pessoa deve estar chateada comigo para demorar tanto assim para me responder/ Ah, mas ela não liga pra mim/ Ah, mas que desconsideração comigo, blábláblá… Então quer dizer que a pessoa do outro lado do WhatsApp tem sempre uma intenção a meu respeito, seja ela positiva ou negativa? A verdade, porém, na maioria das vezes, é que o espaço que ocupo no tempo do outro é ocupado também por outras centenas de coisas e pessoas, logo, não existe descaso algum, como tampouco existe favoritismo.

Me livrar dessa necessidade de me ver em tudo me impulsiona alguns passos rumo ao voo que eu queria tanto fazer fora do corpo no item 3. Consigo ver o papel dos outros nessa história toda que é a vida, me abro para interesses mais amplos, para um enredo mais entrelaçado, com mais nuances e menos monotonia. Passo a ocupar o lugar que foi demarcado para mim somente e não o lugar do mundo inteiro. Assim, me livro também da cobrança de ser perfeita (porque o mundo vai continuar girando se eu falhar), me livro da pressão de saber tudo e estar presente em tudo (o Facebook nem vai sentir falta dos meus comentários) e me livro da corrida rumo ao merecimento (tudo é Graça).

É por isso que Deus nos chama para uma história maior: a de viver para ele, em vez de vivermos para nós mesmos. Quando nós afastamos o foco de nós mesmos – nossos medos, nossa aparência, nosso sucesso, nossas dúvidas – e fixamos o nosso olhar em Cristo somente, encontramos a liberdade para a qual fomos criados. Nós finalmente aprendemos a ser livres do eu*.

 

Depois dessas viagens todas, retorno ao meu ponto de partida: eu, sentada à mesa da cozinha, com a mão apoiando o queixo, na típica posição de quem sonha acordada. Retomo a conversa com o meu marido:

 – O que eu quero de aniversário? Quero um par de botas pretas.  

 

– – – –

*  Trecho do post de Sharon Hodde Miller, num artigo publicado no site The Gospel Coalition; tradução minha e grifos meus.

** Este post foi atualizado em 25/10, com a inserção do link do filósofo Slavoj Žižek.


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Fazer o bem requer o que sou e o que tenho

Há pouco mais de um mês, alguns amigos queridos, meu marido e eu nos reunimos para preparar um jantar juntos, sob a temática Índia. Passamos horas conversando, aprendendo, nos alimentando fisica e emocionalmente. Para fechar a noite, um filme indiano, claro. Escolhemos Lion, já bastante divulgado por aí. Enquanto eu o assistia, pensava no quanto aquele sofá estava macio (eu estava bem cansada, depois de horas lavando folha por folha de um maço de espinafre infinito, ingrediente principal do palak paneer) e o quanto era boa a sensação de barriga cheia. Entretanto, quando o filme se aproximava do fim, uma informação na última tomada ruiu com toda a harmonia da qual eu desfrutava com tanta satisfação: 80 mil crianças indianas desaparecem anualmente. Subitamente, senti um indescritível mal-estar.

Demorei para dormir naquela noite: como estariam aquelas crianças todas? Teriam tido a mesma sorte do protagonista do filme e sido adotadas? Sofriam maus-tratos? Abuso? Fome? Chorei e orei muito por elas. Comecei a pedir a Deus que me mostrasse como ajudá-las… todas era impossível, mas uma pelo menos. Talvez a adoção? Meu marido e eu sempre fomos muito inclinados à adoção, só não fizemos isso ainda por estarmos em um momento financeiramente frágil da nossa vida. Mas e então? O que fazer para resgatar aquelas crianças? Passei a orar por elas todos os dias e pedir a Deus que me desse ideias.

Minha experiência com a consciência do sofrimento não é inédita, obviamente, menos ainda exclusiva. Cada um de nós conhece uma história, um grupo, um povo que sempre parece sofrer mais do que a gente. Sentimos nosso coração pesado por eles, impelido a fazer algo. Ao mesmo tempo, a sensação de incapacidade nos atinge como se alguém nos acordasse de um sonho com um tapa no nosso rosto: como eu, sozinho, posso mudar uma realidade que me supera em complexidade e idade? Anne M. Lindbergh, em seu livro Presente do Mar, compartilha do mesmo dilema: “Não consigo ajudar todas as pessoas que tocam meu coração. Não posso casar com todas elas, ou adotá-las como filhos, nem cuidar delas como faria com meus pais na velhice ou na doença”. “Quando o peso que carregamos é insuportável”, ela continua, “desencadeia-se um processo de fuga”. Então recorremos às distrações, para que a sensação de conforto volte o mais rápido possível. Afinal, não podemos resolver todos os problemas do mundo.

Sarah Sciarini, neste post publicado pela Relevant Magazine, percebe que uma realidade mais próxima, em torno de nós, também clama por atenção e ação:

Como cristãos, nós não fomos feitos para nos conformarmos em falta de esperança, tampouco fomos feitos para fechar os olhos diante da dor e do sofrimento de outros. Em vez disso, nós podemos empacotar a nossa esperança e carregá-la conosco para onde há pequenas rachaduras e lugares quebrados.

E Anne M. Lindbergh, ainda em Presente do Mar, complementa:

Seremos capazes de resolver os problemas do mundo se nem conseguimos resolver os nossos?

Assim, olhar ao redor de nós promete revelar-nos oportunidades diversas para agirmos em favor do bem-estar de quem sofre. Cozinhar uma refeição saborosa para um parente idoso; levar os filhos do vizinho à escola enquanto ele sai para uma consulta médica; ensinar alguém alguma atividade que irá melhorar as chances dessa pessoa de encontrar um bom emprego… e por aí se estendem as possibilidades.

Deus, que ama profundamente o pobre, a viúva e o órfão, promete recompensar-nos pelo bem que fizermos a eles:

Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição de seus inimigos. O Senhor o assiste no leito de enfermidade; na doença, tu lhes afofas a cama (Salmo 41. 1-3).

Fiquei imaginando Deus afofando a minha cama quando eu estivesse doente. Definitivamente, é uma imagem carregada de ternura, a ponto de deixar nossos olhos molhados.

Deus tem respondido à oração que fiz no dia em que assisti Lion e soube sobre as 80 mil crianças indianas desaparecidas. Não, não montarei uma ONG que vai procurar essas crianças e encaminhá-las de volta às suas famílias (aliás, a popularidade do próprio filme tem sido um meio de fazer isso acontecer), mas Ele tem plantado um novo sonho no meu coração, que envolve crianças e que envolve o cuidado com elas até seu nível mais profundo: o espiritual. Venho acalentando esse sonho e já dado pequenos passos em direção à sua realização. Hoje mesmo, terminei de assistir à inspiradora série de documentários Daughters of Destiny (obrigada, Fê Pinilha, pela dica preciosa!), do Netflix, que conta como uma escola na Índia (olha a Índia de novo) tem mudado a realidade de crianças da casta dos dalits, conhecidos como “os intocáveis”, que nascem e morrem sendo considerados menos do que humanos. A escola se torna a nova casa dessas crianças e, desde os quatro anos, elas são educadas e acompanhadas, até se formarem na faculdade e arrumarem um emprego – tudo custeado por essa escola, a Shanti Bhavan. É um trabalho árduo, mas transformador. Por meio desse documentário e de outras pistas que tenho caçado por onde passo, venho orando, pensando e me colocando nas mãos de Deus para que eu também contribua com o que sou e com o que tenho.

Deus fala por meio das menores vozes – mesmo por meio daquelas que não tenham as maiores plataformas ou o círculo de influência mais amplo. Todos nós temos a habilidade de nos levantar em favor daquilo que é certo e amar as pessoas que estão machucadas. Seria ingênuo para qualquer um de nós acreditar que podemos resolver os problemas do mundo. Seria um desperdício de esperança deixar que esses mesmos problemas nos paralisassem e nos impedissem de realizar qualquer bem. (Sarah Sciarini)

Quando começamos pelo nosso próprio centro, descobrimos algo essencial, que se estende até a periferia do círculo. Encontramos novamente um pouco de alegria no agora, um pouco de paz no aqui, um pouco de amor em mim e em você, que podem criar o reino do Céu aqui na terra. (Anne M. Lindbergh)

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Tudo começa na raiz

Eu: Vou parar de tingir o cabelo e assumir os meus cabelos brancos. Quero liberdade.
Minha mãe:  E eu quero a liberdade de continuar tingindo os meus.

A resposta brilhante da minha mãe era o desabafo de alguém que teve sua aparência controlada durante anos por terceiros, que baseavam seus argumentos em costumes religiosos. Curiosamente, a minha sentença também tinha a ver com o controle de terceiros, que apenas substituíram o argumento – a questão deixou de ser a aceitação de Deus para ser a aceitação dos outros, cuja mensagem implícita era: cabelo branco é sinal de velhice e mulher velha não é desejável. E, no momento dessa conversa com a minha mãe, eu já estava cansada de me submeter a essa ideia. Para mim, o preço (literal e figurado) de tingir o meu cabelo estava ficando alto demais. O cheiro das químicas, que pareciam derreter o meu couro cabeludo, os tufos de fios que se iam pelo ralo ao final do enxague e que depois ficavam visivelmente ausentes na minha cabeça… e eu, que sempre amei o meu cabelo e o modo como ele combina comigo, comecei a vê-lo minguado, em nome de uma juventude esticada.

Porém não foi a partir dessa conversa que, de fato, parei de tingir o meu cabelo. Na verdade, esse dia foi o marco do início de um processo de muitas etapas. Eu primeiro teria que compreender profundamente de que liberdade eu estava falando. Do que eu me veria livre? Apenas da tinta que esconde os meus brancos? Que outros benefícios eu colheria de uma atitude que, a princípio, parece tão banal, mas que poderia refletir diretamente no modo como as pessoas me tratam e me veem? Descobri, então, algumas liberdades que essa decisão pode trazer consigo:

1. Liberdade da necessidade de aprovação

A primeira verdade sobre a qual eu precisaria ponderar é que, ao parar de tingir o cabelo, eu estaria à mercê da reprovação (ou, no mais brando dos casos, da curiosidade) de outros – de quaisquer outros, desde a balconista da padaria até pessoas que importam para mim, como o meu pai, por exemplo. Aliás, muito da minha necessidade de aprovação vem da relação que eu tive com ele na infância e na adolescência, em que sempre tentei provar que eu era digna de seu amor. Assumir os brancos seria provocar nessas pessoas todas uma quebra de harmonia no que estavam acostumadas a ver. Se quisessem andar mais milhas comigo, teriam que cavar motivos além dos meus cabelos reluzentes ou, então, mudar sua própria relação com o branco e vê-lo com a mesma tranquilidade que eu começaria a vê-lo.

2. Liberdade para assumir quem eu sou

O que eu precisaria também para, de fato, assumir meus cabelos brancos era descobrir minha identidade. Tenho 35 anos, ou seja, sou alguém não tão velha, mas também não tão jovem. Teoricamente, tenho o tanto de futuro pela frente quanto tenho de passado, talvez um pouco mais. Assim, os meus cabelos brancos denotam que já passei pela angústia de romper um casamento e assumir as consequências, de quase perder um irmão por tentativa de suicídio, de ver todas as minhas economias indo pelo ralo ao investir em um negócio que faliu, de ter que recomeçar a vida profissional do zero diversas vezes.

Ao mesmo tempo, os meus fios brancos contam também que me casei de novo há alguns anos, que tenho um filho lindo de quase três anos, que possuo duas graduações e um mestrado e que tenho um avô de quase 100 anos.

É uma história bonita demais para ficar escondida debaixo de tantas camadas de tinta.

3. Liberdade para trocar a ordem das prioridades

Eu e os meus 35 anos (36 em outubro, aliás) também estamos revendo nossas prioridades. As palavras de Anne M. Lindbergh, em seu emocionante livro Presente do Mar, parecem compreender perfeitamente o que atualmente busco: certos ambientes, certas regras de conduta e certos estilos de vida contribuem mais para uma harmonia interna e externa que outros. Harmonia interna e externa … é isso! Ser por fora o que tenho me tornado por dentro. E por dentro ando mais serena, menos ansiosa, mais reflexiva, com certa sede por sabedoria. Lembro-me da imagem (estereotipada, sim, mas ainda terna) dos cabelos brancos associados à experiência, à sabedoria, à preocupação com questões mais existenciais e menos superficiais. Quero esses mergulhos.

Sexta-feira passada vi em um restaurante uma menina com seus 20 e poucos anos toda produzida, com roupas que correspondiam exatamente às tendências e ela, caminhando toda consciente de si e de como chamava atenção dos outros (inclusive a minha). Parecia um retrato de mim mesma quando jovem. Eu era tão consciente do trabalho que era me compor antes de sair, que todo o investimento tinha que valer a pena: eu precisava ser notada. Ao olhar para aquela moça tão arrumada, senti um alívio por possuir um novo poder: a tranquilidade de não precisar chamar a atenção o tempo todo (só de vez em quando, rs).

4. Liberdade para deixar o ego de lado

Neste ano, li livros de duas mulheres, cujo testemunho de fé me impactaram muito. Uma delas é a Madame Guyon, francesa mística do século 17, a outra é Basilea Schlink, alemã fundadora da Irmandade de Maria, que viveu no século 20. As histórias de conversão dessas duas são lindas, tocantes e transformadoras de perspectiva, mas uma das coisas que ambas trouxeram e que, num primeiro momento, mais me chocou do que me tocou foi a luta delas contra sua autoestima. É isso mesmo: c o n t r a  a sua autoestima. Fiquei horrorizada! Ainda mais eu, que nunca precisei ir contra a minha autoestima, porque sempre achei que não tivesse muita mesmo, rs. Mas eu estava errada. Descobri, por meio delas, que o meu amor próprio não só existe, como também se sobrepõe a tudo que me cerca. Eu me analisei direitinho e vi que o ego estava lá, todo cheio de mim mesma, flutuando por aí…. bastava olhar para o tamanho do meu egoísmo e do meu orgulho para comprovar as suspeitas. Entendi tudo. E vou contar mais uma coisa para vocês: essas duas mulheres me convidaram a aprofundar o relacionamento com um homem incrível, lindo, perfeito, capaz de satisfazer cada uma das minhas mil carências e por quem eu acabei me apaixonando perdidamente, Jesus. Pois é. Jesus pode deixar você bem satisfeita mesmo. Ele não se atrasa pra te encontrar, porque está sempre perto de você na oração; ele te respeita, te aceita como é e até te dá uma identidade, caso você esteja na dúvida –  a de filha amada de Deus; ele não te troca por outra, porque deu a própria vida por amor a você. Assim, amar a mim mesma acima de tudo é achar que mereço algo, quando tudo já me foi dado de graça, por amor puro e incondicional. É Graça e eu só dou graças, me aceitando como sou, inclusive com cabelos brancos.

Depois de todas essas constatações e questionamentos, finalmente decidi parar de tingir o cabelo. E como essa decisão tem me proporcionado temas dos mais variados para ponderar, achei que poderia ser rico compartilhar esse processo todo com vocês aqui no blog. Daí nasceu a ideia de lançar a série Fio de Prata.

O termo faz referência ao texto bíblico de Eclesiastes 12.6, em que a vida é referida como tal – um fio de prata, frágil –, além da associação mais óbvia que fiz com o processo dos fios da minha cabeça se tornando prateados. Aliás, essa é mais uma contribuição oferecida pelos novos cabelos brancos que terei: a lembrança constante da fragilidade da vida, logo, vivenciar todas as suas fases, inclusive a do amadurecimento e envelhecimento, é uma dádiva.

Não sei por quanto tempo vou postar aqui fotos e textos sobre o que esse novo momento da minha vida trará. Mas não temos pressa mesmo, afinal, cabelos demoram para crescer. Meu desejo é que você se sinta inspirada em nossos encontros por aqui. Comente, discorde, reflita e se abra para uma jornada que certamente convidará você também a se olhar no espelho com mais sinceridade e aceitação.

DSC05700editado
Estou há um mês apenas sem usar tintura, ou seja, os brancos aparecem ainda de leve. Mas aguardem… eles chegarão :)

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

A vida dentro da caverna

Esses dias meu filho brincava ao meu lado, sobre a minha cama, onde às vezes trabalho com o meu notebook. Como típica criança que ele é, uma de suas brincadeiras preferidas é se esconder debaixo das cobertas e a outra brincadeira é mexer nos objetos que deixamos em cima da mesa de cabeceira. Depois de se esconder nos cobertores algumas vezes, como era de se esperar, ele começou a mexer nos objetos, escondê-los, até que encontrou uma lanterna. Ficou frustrado e choroso, quando a acendeu e percebeu que ela não iluminava o quarto.

– Filho, a luz da lanterna não ilumina, porque a janela está aberta e o quarto já está iluminado. Precisamos encontrar um lugar escuro, – expliquei.

Foi aí que me ocorreu: mostrei para ele como seria legal fazer uma caverna com os cobertores, porque assim ficaria bem escuro e ele poderia usar a lanterna para iluminar lá dentro. Ideia acatada com sucesso: entusiasmado, ele escondia os objetos na “caverna” e os encontrava com a ajuda da luz da lanterna.

Essa brincadeira me levou a pensar no momento em que vivo. Tenho passado por um processo de questionamentos e medo e, como Elias (1 Reis 19.9), quero ficar escondida nas minhas versões da caverna: minha casa no meio do mato, meus dias de férias, meus pensamentos, minha solidão.

Ao mesmo tempo que permanecer dentro da caverna indica que reconheço e acolho a minha angústia, também significa que talvez eu não esteja fazendo muito para superá-la, que estou entregue. É ter dó de mim mesma e me considerar incapaz de enfrentar a situação. É ter uma desculpa para não me envolver com as pessoas e revelar a elas minhas vulnerabilidades, a fim de que nos identifiquemos e comunguemos das dores da vida.

Mas Deus sempre sabe lidar com os que se escondem em cavernas. Elias foi visitado duas vezes por Ele até resolver sair (1 Reis 19. 9-19). Temendo perder sua vida, Davi também se escondeu em cavernas, tempos antes de se tornar rei. Um dos salmos em que ele desabafa é o 142 e foi justamente esse que o lecionário que sigo indicou como estudo para esta semana. Davi não teve vergonha de assumir seu sofrimento e isso o tornou eternamente empático com todos os que necessitam de consolo:

 

Gritando a Iahweh, eu imploro!
Gritando a Iahweh, eu suplico!
Derramo à sua frente o meu lamento,
À sua frente exponho a minha angústia
,

(Salmo 142.1-3, Bíblia de Jerusalém)

E foi na caverna de cobertas, feita pelo meu filho, que Deus falou comigo. Quando eu disse ao pequeno que a luz da lanterna só brilharia onde estivesse escuro, compreendi a própria verdade daquilo que eu estava falando: Deus brilharia na escuridão em que eu me escondia e lá Ele seria visto e encontrado. Ainda mais: Ele seria não só a luz, mas o caminho que me guiaria para fora. Também ouvi Deus falar para mim que, quando saísse da caverna, eu veria as minhas maiores dificuldades transformadas por um novo jeito de olhar. E, para me comunicar isso, Ele usou uma música dos britânicos do Mumford & Sons, chamada, aliás, A Caverna (The Cave). A letra inteira é tocante e o vídeo – anexado ao final deste texto pra vocês – é um primor também, porém vou transcrever só a parte que mais falou comigo:

So come out of your cave walking on your hands
Então saia da sua caverna andando sobre suas mãos
And see the world hanging upside down
E veja o mundo de ponta cabeça
You can understand dependence
Você consegue entender a dependência
When you know the maker’s land
Quando conhece a terra do criador

Cada dia dou um passo para fora da caverna. Cada dia renovo a minha fé e a minha esperança. Às vezes desperto na escuridão e no silêncio da madrugada e me coloco a orar. A impressão que tenho é de que a intensidade das orações feitas nesses momentos é maior, não sei. Parece que tenho mais fé, rs. Nomeio os meus medos, um a um. Oro por outras pessoas. Quando termino, sinto que dei vários passos em direção à saída. Sinto-me mais feliz, mais leve e encontro forças para viver o dia seguinte.

Talvez o fim da caverna coincida com o fim da minha vida, quem pode saber? A questão é continuar, avançar, fitando o Farol, que nunca se apaga.

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Quando elas escrevem, eles não leem

Quando meu marido sugeriu o tema para este post, minha primeira reação foi perguntar a mim mesma: como eu não pensei nisso antes?? A ideia dele veio de duas novelas (romances curtos) lidas na última semana, ambas escritas por mulheres sob pseudônimos masculinos: A festa de Babette, de Karen Blixen, que publicava suas obras como Isak Dinesen, e O moinho à beira do Floss, de George Eliot, que era, na verdade, a inteligentíssima Mary Ann Ewans (essa mulher escreveu, sob seu pseudônimo masculino, uma das obras mais importantes da língua inglesa, Middlemarch: um estudo da vida provinciana). A partir disso, imaginamos que seria uma boa eu puxar o assunto dessa história de uma escritora ter que se disfarçar de homem para ter algum crédito na praça.

Pesquisei um pouco a respeito e entendi que isso foi algo relativamente comum no século 19 e início do 20, por dois motivos associados: 1) os assuntos sobre os quais essas autoras queriam escrever rompiam com o estereótipo da escrita considerada “de mulheres”, que não era levada a sério. Exemplos do que as autoras com pseudônimos masculinos queriam escrever: contos de suspense, ficção científica, ficção com temáticas políticas e sociais, críticas de literatura e arte; 2) quando usavam um nome de homem, essas autoras conseguiam ser mais lidas… especialmente, por homens. As irmãs Brontë e o “escritor” George Sand (na verdade, Amantine Lucile Aurore Dupin), que se vestia de homem e fumava em público – nunca a uma mulher isso seria permitido em sua época –, são os exemplos mais clássicos.

Mas quem pensa que essa prática ficou restrita ao passado, esquece-se do caso atual mais famoso de uma escritora que teve que se disfarçar para alcançar sucesso: J.K. Rowling. A criadora de Harry Potter se chama Joanne Rowling (o K da abreviação é inventado) e o motivo que a levou a abreviar o seu nome é o mesmo do das escritoras e seus pseudônimos dos séculos passados: pouca gente daria crédito para uma história de fantasia escrita por uma mulher. A não ser, claro, se ela escrevesse contos de fadas (os quais, aliás, foram escritos majoritariamente por homens, com exceção da autora de A Bela e a Fera e de Madame d’Aulnoy, baronesa escritora de contos desse gênero, que cunhou o termo). Harper Lee, autora do tocante O sol é para todos, também escondeu seu nome, Nelle, para que o gênero soasse ambíguo.

Achei toda essa história muito interessante e fiquei pensando se os homens, de forma geral, leem obras escritas por mulheres. Já prevendo o resultado (quanta pretensão), resolvi lançar a pergunta no meu Facebook:


Pesquisa para os homens: 

Vocês leem livros escritos por mulheres?
– Se sim, de quais autoras?
– Se não, por que não? (caso se sintam confortáveis para responder esta, rs)

O resultado foi muito diferente do que eu julgava. Dos 274 amigos homens que tenho em meu perfil, apenas doze responderam (todos afirmativamente), três deles citando autoras que eu nem sequer imaginava que existiam! Hannah Arendt foi a mais mencionada, mas nomes como Flannery O’Connor, Simone de Beauvoir e Virginia Woolf também apareceram. Um desses amigos lê mangás escritos por mulheres, quatro leem escritoras brasileiras, um não liga para o gênero quando escolhe o que vai ler, enquanto ainda outro amigo lê desde autoras indianas até chilenas.

Levando em consideração que, dos 274 amigos homens do total, muitos não leem meus posts, outros não leem livros, outros tantos não leem livros escritos por mulheres e não quiseram se expor, mais outros muitos não entendem português e mais um tanto lê meus posts, lê livros escritos por mulheres, entende português, mas não quis responder a minha pesquisa, até que doze respostas formam um resultado razoavelmente animador. Sem contar as curtidas (alguns curtiram, mas não comentaram). Assim, se os meus amigos de Facebook representassem uma amostra do tipo de público leitor que encontramos por aí no mundo, nossas queridas autoras poderiam todas sair do armário de sua identidade tranquilamente. Uma pena que a realidade abrangente não é assim.

Por último, considerei as autoras cristãs. Uma vez que o forte do nicho cristão é a não-ficção, de novo pensei que mulheres cristãs só escrevessem para mulheres cristãs. Sempre que vou a uma livraria especializada, encontro mulheres escrevendo para mulheres e o Max Lucado escrevendo para mulheres, rs. Na minha cabeça, apenas a Madame Guyon – no século 17! – e meia dúzia de pré-reformadoras e teólogas haviam conseguido a façanha de ter seus livros consolidados entre mulheres e homens. Ledo engano meu. Numa das respostas à pesquisa no Facebook, um homem (se vocês insistirem, eu conto que foi o pastor da minha igreja, rs) citou uma lista enorme de cristãs autoras que ele lê e leu na vida dele. Pesquisei uma por uma, achei algumas incríveis (confiram Mary Eberstadt, por favor!) e respirei aliviada por saber que as mulheres cristãs também querem falar sobre sociedade, ética, política, economia, e não apenas sobre ser uma esposa que edifica o lar (claro que isso é fundamental, mas vamos virar um pouco o disco??).

Ler sobre essas mulheres despertou em mim um orgulho gostoso, não do tipo competitivo – está vendo?? Mulher também sabe escrever coisa que presta! – aff!, mas de satisfação mesmo, de alegria por descobrir tantas mulheres abrindo novas sendas para a humanidade trilhar, mesmo que isso custe a algumas parte de sua identidade. O amor à verdade que escrevem clama mais alto que as condições impostas. Enfrentam. Seguem. Vencem.

Encerro o meu texto com ela, a autora que transcreve não a alma feminina ou a masculina, mas a humana:


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector

 

 

GeorgeSand2
Amantine Lucile Aurore Dupin, escritora francesa, famosa por escrever sob o pseudônimo George Sand e aparecer em público vestida de homem.

 

P.S. Este assunto me deixou tão pilhada, que me pergunto agora qual é a porcentagem de homens que lerá esta postagem. :)


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.