O nosso jeito de amar

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Sempre achei que o amor acontecesse de um jeito só – duas pessoas trocando experiências profundas sobre a vida e expressando, por carinho ou palavras, o quanto apreciam uma a outra. Foi assim que sempre acreditei que se amava e foi assim que sempre alimentei minhas expectativas em relação ao amor.

O problema foi que essa definição de como se ama se mostrou limitada e fez com que eu só me sentisse amada por pessoas parecidas comigo, que gostavam de falar sobre seus sentimentos, enquanto outras, que talvez me amassem também, escaparam do meu radar. Meu pai é o melhor exemplo disso. Ele foi (e ainda é) aquele pai trabalhador, provedor, que saía de casa às 6 da manhã para trabalhar e voltava só às 9 da noite. Criou cinco filhos assim, garantindo a eles comida e educação de qualidade. Era o jeito dele de nos amar.

Nunca compreendi o jeito do meu pai de me amar. Sempre esperei que ele me amasse do jeito que eu amava as pessoas: passando tempo com elas, conversando sobre seus anseios e sonhos, olhando em seus olhos e tocando sua mão. Por anos a fio, fiquei matutando jeitos de conquistar o amor do meu pai. O que nunca havia passado pela minha cabeça ainda era que o amor dele por mim sempre esteve ali, na forma das roupas que eu vestia, da casa gostosa em que eu vivia, no lençol cheiroso sobre o qual eu dormia. Eu nunca havia traduzido corretamente os sinais do amor do meu pai por mim.

O mesmo pode acontecer num relacionamento amoroso. Muita gente já leu e comenta sobre o ótimo livro As cinco linguagens do amor, de Gary Chapman. Considero-o um tesouro quando o assunto é ampliar as possibilidades de comunicarmos o amor, mas mesmo dentro das categorias que ele identifica – tempo de qualidade, palavras de afirmação, presentes, toque físico e serviço – existem nuances.

Pense em duas pessoas que valorizam o tempo de qualidade, por exemplo. Pode ser que uma delas ache que a intimidade está em abrir o coração, enquanto a outra se empolgue quando fala do trabalho. Conheço um casal, em que ela gosta de conversar sobre questões profundas, enquanto ele aprecia o simples fato de estar ao lado dela, mesmo quando estão em silêncio. Ambos demonstram o amor um pelo outro através da dedicação de seu tempo, mas cada um usa esse tempo de jeito diferente. Continuar nutrindo expectativas quanto ao modo “certo” de sermos amados significa insistir em cutucar uma ferida que talvez nem precisasse existir.

Venho fazendo esse exercício de descobrir como as pessoas amam e como se sentem amadas há pouquíssimo tempo. Chegar à conclusão de que cada um tem seu jeito de demonstrar amor tem me proporcionado cura, como a história que contei sobre o jeito de amar do meu pai. Eu nunca soube ler o amor dele por mim e só agora, depois de 37 anos, é que venho sendo alfabetizada dentro da linguagem dele. Tem sido uma jornada fascinante e divertida, que talvez um dia me torne fluente na língua mais sublime do universo.


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

O meu corpo sou eu

Ele vem todo apaixonado, me fala o que quero ouvir de alguém

Me chama de canto e promete me amar aqui e além

Sem me avisar que promete o que não pode dar

Eu, que já vivi outros carnavais, desconfio

Mas como seria bom se fosse verdade

Curiosa e carente, eu entro no jogo

E me acho no controle da situação

Mas lentamente – de concessão em concessão,

Eu abro mão do não.

 

Então ele me ganha, me leva pra cama

Penetra o meu íntimo e é um com a minha alma

Depois se levanta, se veste e se vai

E eu me convenço de que estou satisfeita

De que não preciso dele

De que tive tudo o que quis

 

E os dias se passam e eu penso nele

Mando uma mensagem, ele não responde

Ele é casado, poliamor ou enrolado

Me dá um perdido, me deixa de lado

Mas quando está só, me procura de novo

E eu digo sim

Achando que é pão, quando me oferece migalha

 

Essa história de abuso e defraudação

É minha e sua

O meu corpo sou eu, eu sou o meu corpo

Não dá para fazer separação

 

O Amor que eu busco não é deste mundo

É incondicional e absoluto

Me fez para Ele e não negocia

Não dá desconto e não me compartilha

E eu, teimosa, insisto em fugir

Acho um escândalo um Amor altruísta assim

Porque na vida comi tanta migalha, que já não sei o que é um banquete.

 

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“I was there with you, my child”, do meu marido David Kim

Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Meu quarto escuro

Há algum tempo, meu marido tem lamentado a falta de amigos próximos. Como nos mudamos há pouco meses, ainda não deu tempo para ele – homem tímido que é –  construir vínculos novos e fortes. Mas como eu disse a ele, as amizades virão a seu tempo.

Entretanto, enquanto eu refletia nessas coisas com ele, percebi que, mesmo que comigo esteja acontecendo o oposto – tenho feito ótimas amigas aqui -, existe um ponto cego nessas relações, um lugar onde o olhar das minhas amigas, por mais sincero e atento que seja, não alcança. E é exatamente nesse ponto cego que me encontro hoje.

Penso que podem ser inúmeras as questões que nos levam para esse lugar de solidão: um complexo antigo, um segredo indigno, uma angústia sufocante, uma dúvida perseguidora. Fazemos uma lista mental de pessoas que talvez tenham o potencial de nos ajudar, mas vamos eliminando uma a uma, quando imaginamos as possíveis reações. Então, vamos nos encolhendo de vergonha e medo, até percebermos que estamos num quarto escuro, sem porta ou janela alguma.

Ao chegar nesse ponto da conversa com o meu marido, concluí: David, você tem buscado amigos e eu tenho muitas amigas, porém carregamos questões tão profundas, que só Deus é capaz de compreendê-las por inteiro. E é essa realidade que nos torna iguais neste momento da nossa vida.   

Minha dor oculta tem me compelido a buscar mais a Deus. E essa medida tem sido como cavar um túnel secreto o qual, esperançosamente, me levará para fora da prisão de mim mesma. Neste túnel, Deus tem sido o ar, a luz e a direção. Ele tem sido o meu único guia, o Todo-Suficiente. Não há intermediários, nem distrações. Somos eu e Ele, a poucos palmos de distância um do outro. E em temor e tremor, sigo cavando o meu túnel e insistindo, num sussurro: Deus, não me deixe desistir aqui dentro. Permita, por tua misericórdia, que eu alcance o outro lado.      

 

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Luciana Mendes Kim

Aprendendo a viver com saudades

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Hoje faz sete meses que nos mudamos do Brasil. E cada dia que passa sinto mais saudade.

No início,  eu sentia falta do pastel com caldo de cana e das festas infantis lotadas de brigadeiro. Depois, foi a vez dos lugares… a feira, a praia, a igreja, o bairro da Mooca. Aí então, foi a vez do contato virtual com os amigos e com a família, que se tornou insuficiente, e logo a saudade deles se instalou também.

Agora, sinto saudades de tudo e qualquer coisa relacionada ao Brasil. Ontem, por exemplo, passávamos de carro sobre um viaduto aqui da cidade e eu comentei com o meu marido: “E a Radial Leste, hein? Que saudade dela!”. Como resposta, recebi um olhar indignado.

E por que não volta para o Brasil? – ouço uma de vocês pensando.

Porque tenho aprendido cada vez mais que a saudade não se mata, mas se doma.

Quanto mais vamos amadurecendo, mais vamos tendo de lidar com a saudade. Afinal, nem sempre teremos como voltar para os braços daquilo de que sentimos falta. Às vezes é de um tempo que já ficou para trás, às vezes é de uma pessoa que não vive mais e, outras vezes, é de uma pessoa que vive, mas que hoje percorre caminhos distantes dos nossos.

Penso que o ponto crucial dessa história é exatamente este, quando encaramos a saudade de frente, olhos nos olhos, e, com um suspiro de rendição, desviamos o olhar.  É aí que sabemos: a saudade vai sempre fazer parte de quem somos.

Lidar com essa realidade – a presença constante da saudade – é como ter uma visita em casa que não sabe a hora de ir embora. Você quer achar um jeito de ela perceber que já ficou demais, mas você não sabe como fazer isso e, assim, ela vai ficando, ficando, até a gente perceber que ela não tem intenção nenhuma de ir embora. Nunca.

David e eu não temos planos de retornar definitivamente ao Brasil. Pelo menos, não a curto prazo. Logo, temos diante de nós uma escolha a ser feita: acolher a saudade e incorporá-la à rotina, ou então deixar que ela nos distraia da vida que aqui estabelecemos e nos leve para o mundo paralelo de um retorno idealizado.

Gosto da empatia que encontro em artistas, quando o assunto é saudade. Aliás, vou postar no final uma música de uma dupla britânica que eu adoro e cuja letra descreve com perfeição o sentimento de falta de uma pessoa a quem amamos. Entretanto, me sinto no dever de ir além: a saudade é dor, mas não é dor.

A saudade constante também é sinal de que nossa perseverança em favor das decisões já tomadas está sendo treinada. Ela também nos torna mais gratos por momentos e pessoas. A saudade, além disso, nos molda e nos ensina a atribuir valor ao que antes nos parecia banal. A partir dela, vamos percebendo que somos mais dependentes das pessoas do que julgávamos ser e que não podemos ter tudo e todos ao mesmo tempo, tampouco estar em tudo e com todos ao mesmo tempo. Logo, ela nos ensina sobre limitação e nos devolve a humildade, há tanto perdida no excesso de ego.

A essa contraditória e intrusa hóspede, uma definição poética e precisa da minha brilhante Clarice Lispector:

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

 

 

 

*A imagem no topo da página é de Aaron Burden


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Enxergando Deus em tudo

Quando uma amiga pede que eu a ajude em oração por algo, costumo dizer: vamos orar, sim. E depois, não se esqueça de prestar atenção nos sinais de resposta de Deus. 

Quando digo isso, não estou dizendo a ela que espere por sinais sobrenaturais, como uma luz ofuscante invadindo o quarto, ou um anjo se aproximando dela para entregar um bilhetinho da parte de Deus com a resposta. É olhar em volta mesmo e ver como Deus quer agir, responder, se revelar ou até nos ensinar, a partir daquilo que pedimos a Ele.

Essa forma de oração – uma conversa de mão dupla, em que Deus é também participante e não somente ouvinte (o que também não seria nada ruim, nessa era em que todo mundo quer falar e quase ninguém quer ouvir) – transforma radicalmente o nosso olhar para a realidade. Começamos a prestar mais atenção na nossa rotina e enxergar elementos “divinos” nela – no sentido de reconhecê-los como interferências de Deus.

Quando estamos interessadas em conhecer quem é Deus e Sua vontade para nós, começamos a perceber traços Dele em cada detalhe da nossa vida.

Conseguimos enxergá-lo nas janelas com venezianas

Quando visitei a Polônia pela primeira vez, onde moro hoje, o meu filho de quatro anos estava com muita, mas muita dificuldade de dormir. Motivo? Era verão e aqui, no verão, o sol só vai embora às 10 da noite. Ou seja, enquanto estava claro, ele achava que era dia e não fechava os olhos de jeito nenhum!

Mas por que você não fechou a janela??

Pois é, a solução teria sido simples, se as janelas aqui tivessem venezianas. Mas a maioria não tem.

Antes de nos mudarmos para a Polônia, oramos bastante, inclusive por um lugar para morar. Fizemos uma boa busca em sites especializados em aluguel de imóveis e qual não foi a minha surpresa quando, no primeiríssimo apartamento que visitei, me deparei com o quê?? V.E.N.E.Z.I.A.N.A.S  nas janelas! Até a porta de vidro para a sacada tinha veneziana. Em outras palavras: quando as venezianas estão fechadas, o apartamento fica mergulhado num breu absoluto.

Saquei na hora o que estava acontecendo: era Deus nos mandando um recado muito amoroso, mostrando que aquele era o lugar preparado por Ele para nós. E cá estamos.

Conseguimos enxergá-lo na mãe de um amigo da escola do nosso filho

Ainda sou um bebê quando o assunto é a língua polonesa. Sei dizer meu nome, minha idade e palavras soltas.

Agora tente imaginar a minha situação numa reunião de pais na escola do meu filho. Uma hora e meia fazendo esta cara:  emoji. Difícil!

Na última reunião que tivemos, o jeito que achei de entender foi gravar tudo e, dias depois, pedir para uma alma polonesa bondosa traduzir pra mim.

Há umas três semanas, uma mãe da escola entrou em contato comigo do nada, se apresentou e começou a explicar como o conselho de pais funcionava e mais um monte de detalhes de tudo que eu não havia entendido até aquele momento. Descobri por ela que tem um dia em que as crianças levam um bicho de pelúcia, outro dia em que vai ter uma festa que os pais precisam ir também e outro dia ainda em que é preciso pagar pelos materiais de arte.

E se ela não tivesse aparecido na minha vida e me explicado tudo isso? Saquei pela segunda vez: era Deus de novo.

Conseguimos enxergá-lo no carro 

Não viemos para a Polônia “em busca de uma vida melhor”. Aliás, o motivo pelo qual estamos aqui não nos proporciona a facilidade de adquirirmos um carro.

O problema é que já estamos vivendo um clima de inverno (ontem à noite nevou) e quem tem criança não deseja exatamente ficar com ela parada no frio, esperando o ônibus para a escola. Porém, como já contávamos com isso, investimos em roupas quentinhas para nós todos.

Mas o que não esperávamos de jeito nenhum aconteceu mesmo assim: uma família brasileira que também mora aqui e de quem somos amigos foi viajar para o Brasil por três meses e entregou a chave do carro deles na nossa mão, para o usarmos até fevereiro de 2019!

Desta vez, nem oração eu tinha feito. Deus não fica esperando a nossa oração para agir com amor. Ele vem e cuida de nós assim mesmo, sem nem termos pedido nada.

Deus não é o gênio da lâmpada e nem sempre dá o que pedimos da forma como pedimos. Mas uma coisa é certa: Ele SEMPRE nos responde. E essa resposta pode vir de diversas maneiras, por isso precisamos estar atentas aos sinais.

Existe ainda um passo além a ser dado, que requer atenção aos detalhes, àquelas mínimas coisas, nas quais a nossa limitação ainda nem permitiu que pensássemos. Basta reparar nelas, que você vai encontrar Deus também ali.

 

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Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?
Salmo 116.12

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Por que voltei a tingir meus cabelos brancos

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Sete meses sem tingir os cabelos

 

Esta semana vou voltar a tingir o meu cabelo. Depois de sete meses deixando os fios brancos nascerem e aparecerem, desisti de continuar a ver minha cabeça embranquecer aos poucos. Quando comuniquei minha decisão para o meu marido, ele perguntou: e o que você vai dizer para as leitoras e os leitores da série ‘Fio de Prata’ do blog? Respondi que eu diria a verdade:

  1. Vou tingir os cabelos, porque a transição de um cabelo com cor para um cabelo branco tem implicações dolorosas de encarar

Isso é fato. Ocupo-me mais pensando na minha vida avançando no tempo quando vejo o branco dos meus fios do que quando eles estão disfarçados na tintura. Penso, me comparo com pessoas mais novas do que eu, lembro-me da morte. Não acho que temos que nos sentir lindas, jovens, cheirosas e felizes o tempo todo – mas me sentir sempre rumo ao envelhecimento também não tem me feito bem.

  1. Vou tingir os cabelos, porque necessito da aprovação de outras pessoas

Não posso negar que um dos fatores, que me deram força para não tingir o cabelo branco nesse tempo, é que deixá-los ao natural tem se tornado uma tendência cada vez mais forte entre as mulheres. Olha só o que eu disse: tendência. Eita palavrinha tentadora! Quando um comportamento vira tendência, nos sentimos mais confortáveis para adotá-lo, não? Afinal, ele denota mais aceitação entre um maior número de pessoas agora do que antes. Assim, ao olhar para dentro de mim e perceber que ainda busco aceitação e aprovação, perguntei a mim mesma: por que eu deveria continuar a agir como se não precisasse dessas coisas? Afinal, a mensagem que eu buscava passar para os outros ao deixar de tingir os meus fios brancos é que eu não precisava agradar ninguém mais, além de mim mesma. O triste é que nem a mim mesma eu estava agradando.

  1. Vou tingir os cabelos, porque minha atitude está envelhecendo

Muita gente com cabelos brancos por aí é super bem resolvida, jovem, moderna, linda. Nunca me esqueço da inveja que senti de uma mulher no cinema, com seus 45 anos mais ou menos, cheia de presença e cabelos brancos assumidíssimos. E uma asiática então, em quem fiquei reparando uma vez num café coreano? Ela tinha cabelos bem longos, lisos e cinzentos. Parecia um ser élfico vindo direto dos livros do Tolkien. Exótica e deslumbrante.

Para mim, porém, os cabelos brancos têm exercido um efeito contrário: em vez de me empoderarem (detesto esta palavra, mas não achei outra melhor), me atrofiaram. Vi que comecei a me esconder das pessoas, a evitar lugares em que temos que nos arrumar muito, a evitar aparecer para conhecidos que não encontro há muito tempo. Minha autoconfiança foi sendo minada e eu, que já moro no meio do mato, fui me isolando cada vez mais, com vergonha de assumir que minha juventude está indo embora. Fui desenvolvendo uma “atitude envelhecida”, que vai muito além de um simples punhado de cabelos brancos na cabeça, é verdade, mas que acabou sendo desencadeada por eles.

….

Ao mesmo tempo que pondero sobre tudo isso, preciso admitir quão profundo fui nas reflexões que fiz durante esses meses, em que deixei meus cabelos brancos aparecerem. Uma das conclusões a que cheguei é quão falho, superficial e ridículo é o estereótipo de beleza que nos move. Pior ainda é me ver tão presa a ele. Aí, então, vejo Deus, escolhendo aqueles que escapam totalmente aos estereótipos de beleza das épocas e os honrando lindamente (sendo Davi o mais famoso exemplo, resumido no livro bíblico de 1 Samuel, capítulo 16, verso 7) e me encanto.

Se quero me libertar dos estereótipos um dia? Quero muito! Contanto que isso não signifique autotortura. Não quero forçar uma situação, um estado de espírito, um desprendimento, só porque pareço cool assim. É hipocrisia. Tenho estado aberta para Deus trabalhar em mim a aceitação da passagem dos anos e da juventude, mas que Ele faça isso à maneira Dele, à medida em que vai me mostrando o Ser fascinante que é. Que nesse caminho para o envelhecimento, Deus me dê a mão Dele e, gentil como só Ele sabe ser, vá me conduzindo com Seu carinho e tranquilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Casa nova e alma nova

Acabo de me mudar de casa. Esta é a primeira das três mudanças previstas para nós em 2018 (um dia explico melhor essa história). Numa conversa que tive com a Carol Selles sobre isso, ela desabafou: detesto me mudar. Tive que concordar com ela, também detesto, mas talvez a gente não goste de se mudar porque acumulamos coisas demais, que depois nos dão um trabalhão para serem empacotadas e transportadas para o novo lugar. Se tudo o que temos coubesse numa modesta malinha, nosso desânimo para mudanças talvez não fosse tão grande.

No nosso caso, o meu desânimo não vem apenas da ideia de transferir um monte de coisas de um endereço para outro. Tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo e que não serve mais não vai simplesmente para o lixo e pronto. Separamos entre aquilo que iremos doar e aquilo que iremos vender daquilo que iremos descartar. No descarte, separamos entre o que é reciclável e o que não é. Também tem os eletrônicos: aparelhos velhos de celular, baterias que não funcionam mais, carregadores antigos. Tudo isso precisa encontrar um destino certo, que, definitivamente, não é uma lata de lixo comum. E os remédios vencidos então? Seguem todos para uma sacola específica, que será encaminhada para uma drogaria em São Paulo, que os recolhe e os descarta da forma correta. Sem falar das lâmpadas queimadas… também precisam encontrar seu destino certo, porque as fluorescentes, por exemplo, possuem mercúrio dentro, ultra tóxico e, portanto, não podem ser jogadas em qualquer lugar. Assim, mudar de casa se torna algo bem mais complexo do que “só” empacotar tudo e partir. É um ato de responsabilidade como administradores daquilo que acumulamos com o passar do tempo (aliás, aqui neste site, você encontra para onde encaminhar tudo quanto é coisa).

Da mesma maneira que mudar de casa, mudar por dentro, como pessoas, também pode nos dar uma preguiça enorme. Às vezes, é o excesso de opiniões formadas sobre as coisas que nos impede de mudar. Outras vezes, são os ressentimentos, as preocupações com o futuro e, definitivamente, os preconceitos. O orgulho, então! Esse não deixa a gente nem cogitar qualquer transformação.

Esse acúmulo de sentimentos pesados vai nos inchando, a ponto de não conseguirmos nos mover em nenhuma direção. Ficamos inflados de nós mesmos e nos acomodamos, esperando que o mundo gire em torno de nós.

Paulo, apóstolo de Jesus, nos orienta a não nos acomodarmos com essa forma de ver as coisas, mas sugere que renovemos a nossa mentalidade, a fim de experimentarmos o ponto de vista de Deus. Como resultado, esse novo olhar vai transformando a nossa vida (essas referências você pode encontrar na Bíblia, no livro de Romanos, capítulo 12, verso 2). Ou seja, para que novos ares possam entrar nos pulmões da nossa alma, precisamos deixar de acumular os sentimentos prejudiciais ao nosso crescimento, abrindo mão deles e adquirindo uma perspectiva que supere o que é finito, transitório e superficial.

Paul Tournier, médico e psicólogo suíço que se dedicou ao cuidado integral de seus pacientes, escreveu em seu livro Culpa e Graça:

Na verdade, ninguém pode se despojar do espírito de julgamento por meio de um esforço voluntário. Enquanto eu fico obcecado pelo erro descoberto em um amigo, que me chocou e que eu reprovo, posso repetir infinitas vezes: “eu não quero julgá-lo” – mas o julgo mesmo assim. Ao passo que o espírito de julgamento desaparece sozinho no momento em que tomo consciência dos meus próprios erros e falo deles com franqueza ao meu amigo, enquanto ele me fala das faltas que reprova em si mesmo. (p. 101)

O julgamento citado por Tournier é apenas um dos itens, que podem fazer parte da nossa pesada bagagem emocional e que nos impedem de mudar por dentro. Existem muitos outros, que nos sobrecarregam e nos deixam cansadas e indispostas. Pense na inveja, por exemplo. Minha amiga Dalila Parente disse uma vez, num encontro de mulheres, que a comparação que a inveja provoca não funciona de nenhum dos lados: se me sinto superior à pessoa com quem me comparo, isso é ruim e, se me sinto inferior, isso também é ruim. A conclusão a que chegamos aquele dia foi que a via mais saudável de todas é resistir a qualquer tentação de nos compararmos com outras pessoas. Desafiador, não?

Mas para onde encaminhar os sentimentos ruins, mas inevitáveis muitas vezes, que nutrimos e que nos impedem de mudar?

Assim como o lixo que acumulamos em nossa casa com o tempo, que pede um encaminhamento adequado na hora da mudança, os sentimentos negativos que emperram nosso crescimento pedem o destino da confissão. Apresentá-los a Deus sem reservas, em uma oração, pode ser o primeiro passo para que eles percam a força de ação em nós. Jesus, por sua vez, não irá julgá-los como juram alguns, mas perdoá-los, ou seja, levá-los para bem longe Dele e de você. É alívio instantâneo.

Em um segundo momento, entra em cena o processo. Assim como a borboleta, que passa pela metamorfose, nós também passamos a viver uma transformação em etapas. Ficamos conscientes dos sentimentos nocivos e, quando eles se apresentam, a gente às vezes consegue detectá-los a tempo de não nos deixar ser dominadas, outras vezes não. Quando não conseguimos, basta nos jogarmos nos braços de Deus de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias.

Para cada um de nós, um insucesso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.
(Paul Tournier em Culpa e Graça, p. 141)

Só olhando para dentro de nós com sinceridade é que descobrimos o que temos acumulado, que tem nos impedido de mudar. Nesse ato de humildade, uma transformação interior não representará mais um ideal inalcançável para nós ou uma expectativa secreta dos que se relacionam com a gente, mas se tornará um processo possível, genuíno e rico de aprendizados.

 

ENSEE
Arte de Ensee

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O peso do silêncio

Lembro-me exatamente do dia em que conheci o Duccio. Ele havia convidado o David para comemorar o aniversário dele num boteco na Rua Augusta, em São Paulo. Como o David e eu estávamos em lugares diferentes, resolvemos ir separados para o aniversário. Eu cheguei bem antes do David e, como nova namorada dele, ainda não havia sido apresentada a ninguém, nem ao próprio Duccio, o aniversariante. Assim, resolvi encostar num canto e ficar ali quieta e parada que nem uma planta, só observando as pessoas. Fiquei ouvindo as risadas altas, alguns nomes aleatórios, até que percebi que o mais empolgado ali, que falava mais alto e sem interrupção, era o Duccio. Achei até engraçado, porque em um determinado momento, eu o ouvi comentando sobre o David para outra pessoa. Fiquei me perguntando se ele desconfiava que eu seria a nova namorada dele. De qualquer forma, achei o Duccio tão animado e tão cheio de histórias que não terminavam, que admirei sua alegria expansiva por estar comemorando anos (o que para mim representaria um certo esforço).

Como fui saber depois pelo David, que foi sócio e amigo do Duccio por bastante tempo, e pelas vezes que nos encontramos em festas, Duccio, como todo italiano típico, era sempre assim: tinha assunto para tudo no mundo. E era amigo de todo mundo. E todo mundo gostava dele.

Até que, no dia 19 de novembro deste ano, Duccio se silenciou. Ao visitar uma cachoeira em São Sebastião, ele escorregou numa pedra, caiu de uma altura de cinco metros e seu corpo só foi encontrado no dia seguinte, no fundo da água.

A morte do italiano querido e falante foi, obviamente, um choque para mim e para o David. Foi inevitável, porém, pensar naqueles que mais estariam sofrendo naquele momento: seus pais. Eles chegaram da Itália no dia seguinte ao que os bombeiros haviam encontrado o corpo e foram recebidos pela multidão de amigos do filho – herança preciosa deixada por ele. Foram cuidados e tratados com todo carinho possível. Até as despesas com a viagem deles e com o funeral foram cobertas por esses amigos. Passaram todos aqueles dias tratando dos trâmites para levar o corpo do Duccio de volta para a Itália.

Mas e depois?  – pensei. E depois que esses dias corridos passarem e esses pais retomarem a rotina da vida, como será para eles encararem o silêncio do Duccio? 

Ao pensar nisso, eu mesma me silenciei por alguns instantes. O silêncio do Duccio era mais atordoante do que suas falações ininterruptas.

Essa vivência breve do silêncio fez com que eu refletisse sobre os meus silêncios; aqueles que eu faço e aqueles que recebo de outras pessoas, ainda vivas, mas ausentes. Pensei sobre como precisamos de pouco para não sermos enlouquecidos pelo silêncio da ausência: ouvir a voz numa gravação, receber uma mensagem, mesmo que curta, ou qualquer ato consciente da parte ausente em um mínimo de contato. Porque pior do que a ausência é o silêncio absoluto – ele aponta para o esquecimento.

Meu avô, se ler este post, talvez não concordará totalmente comigo. Quando minha avó vivia seus últimos meses, deitada inconsciente numa cama, meu avô costumava me dizer que só de mirar a imagem dela ali, silenciosa, mas viva, já era suficiente para ele recuperar as forças e continuar. Ainda assim, acredito que minha avó falava sim, não com palavras, mas por meio dos leves apertos nos dedos que ela nos dava de vez em quando e por sua respiração ofegante… com esses pequenos sinais, ela nos contava sobre sua luta para continuar vivendo.

Sempre prezei os momentos de silêncio. Mas o que deveriam ser eles, senão apenas pausas na interação? Sim, eles são necessários de tempos em tempos, como um pit stop no meio da correria, mas são postos de recarga apenas e não de parada definitiva. O silêncio, quando longo, pesa e entristece.

(De repente, me alegro ao pensar no Natal: o silêncio de Deus rompido em choro de criança recém-nascida. Quanta esperança em um ruído, aparentemente, tão banal! É Deus nos comunicando que chegou para viver perto de nós, de um jeito pessoal e definitivo).

O silêncio do Duccio nos incomoda bastante, a mim e ao David. Mas é incrível como temos aprendido com ele! É incrível ver como seu silêncio nos convida a reagir, a refletir, a reconsiderar atitudes e a tomar decisões. Ao Duccio fica a nossa gratidão por tamanha eloquência, que reverbera dentro de nós até mesmo no silêncio de sua partida.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Feliz Ano Novo!

Pelo título desta postagem, você pode achar que estou bêbada ou maluca. Bom, maluca sempre fui mesmo, mas não é o caso agora. Na verdade, hoje é o primeiro dia do Ano Cristão ou Ano Litúrgico.

Como? – ouço alguém pensando. Explico:

O Ano Cristão ou Ano Litúrgico é uma outra maneira de contar o tempo. Ele não é dividido em meses, mas em períodos. E todos esses períodos são marcados em torno da história da vida de Jesus: primeiro o Advento (ou “chegada”, “visita”, que começa a ser contado quatro domingos antes do dia do Natal, ou seja, hoje), depois o Tempo do Natal (nascimento), então o Tempo Comum 1 (várias semanas), o Tempo Quaresmal (40 dias que precedem à morte de Cristo), o Tempo Pascal (morte e ressurreição de Jesus) e o Tempo Comum 2 (outras várias semanas).

Assim, a nossa referência de tempo não precisa estar submetida a compromissos, prazos, datas comerciais, mas pode passar a girar em torno da Pessoa de Cristo, sua passagem pela terra e a esperança de sua volta para nos levar com Ele. E essa perspectiva muda tudo: o modo como enxergamos nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossos hábitos de consumo e nosso tempo livre, como poeticamente discorreu Vanessa Belmonte em um post que veiculamos ontem aqui no blog.

 

Um dos modelos de como é contado o Ano Litúrgico. Imagem retirada do link: metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricaocolunas.asp?Numero=3092

 

As Escrituras nos falam de um Deus que não se deixa afetar pelo tempo, um Deus que jamais fica velho ou ultrapassado. Ele mesmo habita a eternidade e é Senhor do infinito, mas vem visitar e redimir as criaturas que vivem na dimensão do tempo. Em Cristo Jesus, o Deus Eterno vem habitar conosco, seres que precisam contar as horas, os dias os meses e as estações. (Gladir Cabral e João Leonel, em O menino e o reino, p. 11).

 

Mas como vivenciar esse tempo diferente, contracultural?

Essa é uma pergunta que venho me fazendo desde que conheci o Ano Litúrgico, que foi apenas em junho deste ano. Na tradição cristã de onde vim, o Ano Litúrgico não era mencionado, tanto que eu nunca soube da existência dele até este post da Vanessa Belmonte. Assim, como não pertenço a uma igreja onde ele é rigorosamente praticado, me perco um pouco.

Para guiar nossas reflexões e devocionais dentro do Ano Litúrgico existe o Lecionário – sugestões de leitura bíblica que têm a ver com o período em que estamos do Ano Litúrgico. No meu caso, que passei a seguir o Lecionário sem a orientação de um grupo, foi difícil manter a qualidade das minhas devocionais, porque as referências bíblicas indicadas para leitura diária eram muitas. Acabei desanimando e voltando para o esquema de leitura bíblica que eu fazia antes.

Entretanto, o Advento chegou e eu voltei a sentir falta de uma reflexão mais dirigida sobre esse tempo tão crucial para nós, cristãos. Hoje de manhã, primeiro domingo dos quatro que pertencem ao Advento e, por isso, o primeiro dia do Ano Litúrgico, cheguei a pensar com Deus e com os meus botões: hoje começa o Advento e eu não sei como transformá-lo em um período diferente na minha vida. Queria chegar no Natal devidamente preparada para absorver todo o seu potencial transformador e o seu valor.

Deus me respondeu 40 minutos depois de ter tido esse pensamento: Carol, minha já tão citada amigona e co-autora deste blog, mandou para mim e para a Talita (também amigona e autora do blog) um Whatsapp com o link de um livro devocional especialmente escrito para essa época do Ano Litúrgico! O download é gratuito e eu quase engasguei com um pedaço de panqueca no café da manhã quando vi que era exatamente o que eu buscava!

O menino e o reino – meditações diárias para o Natal, já com um trecho citado aí em cima no post, é talentosamente escrito por dois autores brasileiros, Gladir Cabral e João Leonel, e contém devocionais profundas, sensíveis e cheias de referências a escritores e cantores, o que mostra como nossos irmãos brasileiros são antenados, além de profundamente espirituais. Lindo de ler!

 

Aos poucos, a história de Jesus e seu significado estão sendo mais e mais incorporados em minha realidade diária.  O importante é não desistirmos dessa renovação da mente, dessa transformação, dessa busca por mais sentido e propósito no que somos e no que fazemos.

Agora peço licença, porque o meu almoço de comemoração do Ano Novo já está pronto!

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Esperar é uma dor ou um presente?

 

PieroFornassetti
Ilustração de Piero Fornasetti

Faz algum tempo que os meus dias têm sido marcados pelo longo caminho da espera. Desde o ano passado, David e eu temos buscado uma direção específica de Deus, que irá implicar numa mudança radical em nossa vida, em termos de tudo, desde localização geográfica até trabalho, amigos e igreja. Entretanto, enquanto essa direção não se confirma, os acontecimentos para nós estão meio que congelados, enquanto que, para o restante das pessoas, eles seguem o seu curso normal. Falar de planos para o ano que vem, por exemplo. Não podemos. Não sabemos quais serão nossas entradas, se estaremos em apartamento ou casa, se no calor ou no frio, se com ou sem escola para o nosso filho de três anos, se perto ou longe da nossa família e da nossa igreja. O máximo que conseguimos fazer é contar com possiblidades e traçar apenas um esboço, que pode mudar a qualquer momento.

Confesso que esperar tem sido um processo desafiador para mim. Como é para qualquer pessoa que espera, imagino. E esperamos o tempo todo, não é mesmo? Pelo pão na fila da padaria, pela chuva passar, pela mensagem da melhor amiga, pelo fim de semana, pelo ônibus. Grande parte do nosso tempo é preenchido com a espera. Para quem é cristão, a espera faz parte do nosso estar-no-mundo:

Os cristãos são pessoas que esperam. Vivemos num tempo liminar, entre o agora e o ainda não. Cristo já veio e virá de novo. E nós habitamos nesse meio tempo. Nós aguardamos.
(Tish Harrison Warren no livro Liturgy of the Ordinary, p. 104, traduzido livremente)

Esperar nos obriga a encarar verdades que geralmente tentamos evitar. Uma delas é de que o tempo não está submisso à nossa vontade nem ao nosso controle. Vivemos na ilusão de que conseguimos domar o tempo, de que ele está a nosso serviço e de que conseguimos fazer caber dentro dele o máximo de compromissos e situações que conseguimos criar. Com essa rotina frenética, poucos se preparam para o mergulho na amplidão vazia do tempo, contido na espera.

Outra verdade que enxergamos melhor quando esperamos é que tememos o futuro. Nossa limitação humana nos condiciona a conhecer apenas as coisas como são agora. Nossas escolhas – materializadas no futuro do minuto seguinte ou do ano seguinte – são um salto no escuro, uma aposta, um desejo gritante de que tudo dê certo, porém sem garantias.

Esperar é ansiar, é ter saudades de um tempo que não chega, é ver nossas capacidades restringidas a uma realidade que nos ultrapassa em poder.

Esperar é uma dor.

 

Lendo sobre a espera, porém, fui convidada a refletir sobre um elemento determinante para a qualidade da espera que enfrentamos: a paciência. Ela é o termômetro indicador do grau de sofrimento que permitiremos experimentar enquanto esperamos. Ela também nos leva a entender que a espera não precisa – e nem deve – ser passiva:

[Esperar com paciência] é uma espera ativa, na qual vivenciamos o momento presente ao seu máximo, a fim de encontrar no presente sinais Daquele por quem estamos esperando.
(Henri Nouwen, tradução livre)

Enquanto esperamos, podemos cuidar do nosso corpo, cuidar daqueles que nos cercam, concluir com comprometimento as responsabilidades assumidas no passado e que ainda estão em aberto, preparar nosso espírito e nossa mente para as possíveis mudanças que nos aguardam, orar, buscar conselhos, ler livros que nos edificam, e o que mais aparecer pelo caminho enquanto aguardamos. Lembro-me sempre do que a minha mãe dizia quando eu era criança e ficava esperando ansiosa por algo: filha, o melhor da festa é esperar por ela. Eu mudaria essa frase para: esperar pela festa é se preparar pra ela. Conforme Tish H. Warren escreve em seu livro Liturgy of the Ordinary, esperar pacientemente é acreditar que o tempo de Deus é perfeito e que, de maneira misteriosa, há muito mais acontecendo enquanto esperamos do que apenas a espera em si (p. 110).

Assim, quando a esperança é o que guia a nossa espera, a espera está pronta para ser transformada em um caminho pelo qual fortalecemos a nossa fé, a nossa confiança em Deus e a nossa visão de mundo. Trilhando pela espera paciente, podemos adentrar numa realidade que supera o que é imediato e transitório.

Esperar com paciência é um presente.  

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.