Desconstruindo o mito #2: Meus problemas acabaram, encontrei O cara!

Quem nunca assistiu a um filme romântico na vida, que não tenha se emocionado? Difícil. Irresistivelmente alienantes, os filmes românticos retratam encontros e desencontros que já vivemos em algum momento da vida ou que seria a glória vivê-los. Bem que aquela história entre a francesa inteligente e o americano aventureiro de Antes do Amanhecer podia acontecer com você durante um mochilão pela Europa, não acha? E Simplesmente Amor, então? Tirando a história do Primeiro Ministro da Inglaterra, todas as outras ali são nossas… a gente chora, torce, sente com os personagens e respira aliviada no final, quando tudo acaba bem.

E é esta exatamente a questão: tudo acaba bem.

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Julie Delpy e Ethan Hawke em Antes do Amanhecer, 1995. Imagem tirada daqui

 

Quando assistimos a filmes, séries ou novelas, lemos livros, revistas, jornais de qualquer gênero que sejam, estamos sendo doutrinados por suas mensagens, mesmo que não percebamos isso. Aos poucos, o que recebemos vai construindo na nossa cabeça uma moldura, por onde enxergamos os relacionamentos, o amor, a vida. Com os filmes românticos não é diferente, quer ver?

O que acontece no final de um filme romântico, que acaba bem? O casal fica junto, claro. Depois de um monte de obstáculos e contratempos, o casal finalmente supera as dificuldades e se entende. E aí o que acontece? O filme termina. Se assistimos a filmes (ou séries) assim durante alguns anos – digamos… durante três anos (mas sabemos que já faz uma vida que assistimos coisas assim) –, isso já é tempo suficiente para começarmos a olhar em volta e a entender que os relacionamentos românticos são complexos mesmo. Quando finalmente parece termos nos acertado com alguém e tudo parece como no filme, a gente percebe que o filme não nos contou o que acontece depois que o casal fica junto. Mas isso não importa tanto, já que os filmes deixam implícito que a felicidade que o casal experimentou ao ficar junto continuou e continuou e continuou… sem fim.

De fato, essa sensação deliciosa de felicidade sem fim nos acompanha por um tempo mesmo. Mas daí um dia, você acorda se sentindo sozinha de novo. E aí, vê que anda gastando mais do que ganha para fazer os programas legais com o seu parceiro. E aí, você sente ciúme de uma antiga namorada dele. E aí, vocês brigam por causa dela e ele te dá um gelo no Whatsapp. Finalmente, quando tudo buga dentro da sua cabeça, você conclui: encontrar um cara legal não resolve o problema da felicidade, só o torna ainda mais desafiador. E isso o filme não tinha nos contado.

Sem uma referência anterior, sobre a qual basearmos nossas vivências, nos sentimos perdidas. É tentar, contando com nossos próprios recursos, ou desistir e partir para um novo cara. É muito fácil chegar nessa fase e achar que estamos com a pessoa errada. Falo isso por experiência própria. Problemas de relacionamento, para mim, representavam um grande sinal vermelho, como se eles fossem o prenúncio de uma tragédia que eu deveria evitar. Demorou muito tempo para eu aprender que pessoas imperfeitas se relacionam de forma imperfeita, invariavelmente.

Passei também pela fase da cobrança. Minha e dos outros. E aí, você está com alguém?  – era uma pergunta típica de amigas que não se viam havia algum tempo ou de parentes mais enxeridos. Responder não uma ou duas vezes era até aceitável… a terceira, já era demais para mim. Porém, me deixar envolver por essa mentalidade só me levava a um jogo ainda mais perverso: eu acabava me relacionando com “qualquer” pessoa, só para não ter que me encarar sozinha. Horrível, mas real. Felicidade, definitivamente, era um estado que eu queria alcançar, mas que residia sempre no outro. Era o outro que me faria feliz. Se não houvesse o outro, a felicidade se tornava, então, irrealizável.

A questão da felicidade residir no outro, entretanto, não é absurda. Os seres humanos são relacionáveis, ou seja, buscam completude fora de si mesmos. Se não temos um parceiro romântico, vamos buscar a realização nos amigos, nas celebridades que admiramos, nos nossos bichos de estimação, nas redes sociais, na comida (aliás, buscamos realização em mais de uma dessas fontes ao mesmo tempo). De uma forma ou de outra, iremos sempre procurar num outro essa complementação.

Mas é aí que reside a crueza da realidade: esse outro a quem buscamos está inexoravelmente fadado à insuficiência – ou ele nos decepciona, ou nos adoece ou morre. Em mais tempo ou menos tempo, ele deixará de ser o agente da nossa felicidade e, então, voltaremos à estaca zero da nossa busca. Ou ainda, prevenidas como somos, já encomendaremos logo um substituto, para garantirmos que a bolha da nossa felicidade permaneça intocada.

Não sei quanto a vocês, mas eu vou confessar uma coisa: essa busca incessante me cansa. Chego a duvidar se é a felicidade mesmo que devo ter como alvo nesta vida. Talvez não seja, já considerou? E se for, como vivê-la, de modo que não seja dependente de um – tão frágil – amor romântico?

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui, aqui e aqui os três textos da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.

Desconstruindo o mito #1: Tenho que ser fiel ao sentimento

 

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Foto por Will O

 

Era uma manhã de domingo e a Escola Dominical* tinha acabado de terminar. Minha amiga Priscila e eu, como de costume, começamos a brincar de pega-pega pelos intermináveis corredores da nossa igreja. Inconvenientes que éramos, passávamos entre as rodinhas de conversa das pessoas, esbarrávamos nas senhorinhas que, degrau por degrau, desciam lentamente as escadas, voávamos pelas rampas de acesso às salas. E foi no meio dessa correria doida, que ouvi alguém me chamar:

– Luciana! Luciana! Você pode vir aqui um pouquinho?  – era uma amiga nossa. – Então, sabe o meu primo? O… (ela falou o nome dele)? Ele gosta de você e me pediu para vir te falar isso.

Esbaforida ainda pela corrida, arregalei os olhos de espanto.

Naquele instante, alguma coisa mudou em mim. O corre-corre da brincadeira pelos corredores da igreja cessou imediatamente. E não cessou só por aquele dia. Cessou para sempre. Foi a primeira vez que tomei consciência de que meus atributos femininos chamavam a atenção de alguém. E aquilo se tornou para mim motivo suficiente para abandonar a minha vida de criança e assumir outra postura. Daquele dia em diante, me tornei uma adolescente. Eu tinha 12 anos.

Hoje, olhando para trás, percebo como foi simbólica a forma como me tornei adolescente. Sem ter consciência do que aquilo significava, fui totalmente obediente a uma emoção, que nem minha era a princípio. Por meio do anúncio sobre o sentimento do tal primo, uma carência gritou dentro de mim: eu precisava ser amada. E, para ser amada, abandonar quem eu havia sido até então não parecia ser um preço alto demais.

Não demorou muito para o tal primo começar a namorar alguém. Quem condenaria um coração de menino adolescente, não é mesmo? Hoje gosta, amanhã não gosta mais e a vida segue. Porém, de uma forma sutil como uma cobra se armando para o bote, a mensagem transmitida naquela situação para mim era que, se o sentimento era assim rotativo, logo, as pessoas com quem nos relacionamos também o eram.

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O exemplo do que aconteceu comigo é apenas um entre dezenas que poderíamos caçar para compreender as mensagens que são passadas para nós sem percebermos e que vão nos doutrinando, nos ensinando a como nos posicionar na vida. Aqui, a mensagem foi: seja fiel aos seus sentimentos. E essa não foi uma mensagem transmitida exclusivamente por esse rapaz, obviamente. Mais tarde e por outros meios – como pelo seriado Dawson’s Creek, por exemplo – fui aprendendo que era normal você trocar uma pessoa por outra, sempre que não estivesse mais a fim. Com exceção das pessoas que se casavam, que eu entendia ser um compromisso maior, indissolúvel, você era livre para trocar de relacionamento quantas vezes julgasse necessário.

 

E qual é o problema do discurso “seja fiel aos seus sentimentos”?

Vários:

Primeiro, porque a gente desenvolve um padrão de se relacionar com as pessoas que se baseia nos valores de consumo. Este namorado não serve mais? Troco por outro. Claro que a gente não admite um pensamento assim. A gente tenta, dá voltas, procura não magoar, mas se formos bem honestas, é assim que acabamos agindo com algumas pessoas com quem nos relacionamos. E isso vai frontalmente contra o segundo mais importante mandamento da Bíblia: amar ao próximo como a nós mesmos. Com isso, não digo que devemos nos casar com alguém que não queremos mais, mas considerações como: será que devo mesmo me envolver com essa pessoa? Sinto uma atração enorme por ela, mas não sei se posso confiar em meus sentimentos. Quem sabe se eu conviver com ela um pouco mais sem me envolver, eu consiga sondar melhor o que sinto? podem evitar dores desnecessárias.  

Essas considerações são do tempo da minha avó? São. Mas o que vale aqui é o princípio que elas passam: me importar com o outro e não só comigo mesma. Ah, mas o cara também está a fim. Ele sabe os riscos. Que bom que ele sabe os riscos. Mas isso não muda o fato de que tratar outra pessoa como um objeto não é legal, mesmo que a pessoa consinta. Claro que nem tudo a gente prevê. Tem sentimentos que realmente parecem ser pra valer. Entretanto, a gente logo sabe quando uma relação é descartável, servindo só para encobrir uma carência.

O segundo problema é que você acaba não amadurecendo. Você se acostuma a não se aprofundar em relação nenhuma e aí não consegue ir além com ninguém. Quando me casei, isso se mostrou um grande problema. Como eu não tinha experiência de um longo relacionamento, os problemas que apareceram me deixaram muito confusa, a ponto de eu duvidar da validade daquele vínculo. Demorou para eu perceber que pessoas imperfeitas constroem relacionamentos imperfeitos e tudo bem. É nesse ambiente de cumplicidade, que podemos aprender a tirar as nossas máscaras sem sermos menos amadas por isso.

O terceiro problema diz respeito a Deus, caso você acredite Nele, ou à humanidade inteira, caso você não acredite Nele.

Aquelas que creem em Deus sabem que Ele criou nós todos segundo a Sua imagem. Além disso, cometeu o ato de amor mais arrebatador da História: ofereceu a sua vida para se relacionar conosco. Ou seja, Jesus deixou-se ser assassinado para ter um relacionamento com você e também com a pessoa com quem você se relaciona, mesmo que essa pessoa rejeite essa oferta. Isso mostra que essa pessoa tem tanto valor quanto você, logo, você não tem o direito de tratá-la como uma qualquer, mesmo que ela aja como uma qualquer. Ela não é – fato. Deus atribuiu a nós um valor infinito, ao escolher se entregar para morrer em nosso lugar. Nosso valor está nesse ato e todos nós somos Dele. Por esse viés, você sair se relacionando por aí como se não houvesse amanhã, sem se importar quem são essas pessoas, é tratá-las por muito menos do que elas valem. E claro, ninguém na rua vai ficar jogando isso na sua cara. A treta é entre você e Deus mesmo.

Àquelas que não veem a questão como risco de pecado, porque não acreditam em pecado, um recado de Jean-Paul Sartre:

 

[…] o homem é responsável por aquilo que ele é. […] E, quando nós dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é responsável por sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens. […] Quando afirmamos que o homem escolhe a si mesmo, entendemos que cada um de nós escolhe todos os homens. De fato, não há um só de nossos atos que, criando o homem que queremos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem tal como estimamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor daquilo que nós escolhemos, pois não podemos nunca escolher o mal; aquilo que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem sê-lo para todos (trecho de O Existencialismo é um Humanismo).

 

O que Sartre quer dizer com isso? Que, segundo a visão existencialista ateísta, se eu assumo a postura de obedecer aos meus sentimentos românticos, eu estou então transmitindo a mensagem de que todos os seres humanos da face da terra devem obedecer aos seus sentimentos românticos também, porque se isso é bom para mim, é bom para todos os demais seres humanos. Agora, se pensarmos nessa realidade realmente acontecendo por aí, o que vem à sua mente? À minha, vem o caos: pessoas ainda mais perdidas, feridas e fechadas em si mesmas, sem o menor senso de valor próprio.

 

 Quer dizer que eu tenho que ficar suportando um relacionamento ruim?

Depende do que queremos dizer com relacionamento ruim. É um relacionamento imaturo (o sentimento acabou) ou tóxico (a pessoa é abusiva)? Porque o que estamos falando aqui é de relações fluidas, que são trocadas por puro sentimento, não por razões mais profundas, como abuso físico ou psicológico.

Se você se vê numa relação em que você mesma não enxerga valor nela, certamente é hora de se perguntar o que te fez entrar nessa relação em primeiro lugar. Aliás, tudo é uma questão de nos perguntarmos, de questionarmos, de investigarmos nossas motivações. Porque o discurso está aí – tenho que ser fiel ao sentimento – e não há como fugir dele, a não ser implodindo seu poder de ação em nós.

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Romântica como sou, de tempos em tempos, enfrento a aridez para onde esse discurso de ser fiel aos sentimentos me transporta. É uma luta que começa na forma de uma ansiedade muito grande, que precisa ser obedecida com urgência. Se obedeço, como já aconteceu no passado, os resultados são sempre – sempre – dolorosos. Existe culpa, arrependimento, ressentimento, desilusão.  Se não obedeço, ela passa, mesmo que demore meses ou anos (dureza!). Às vezes vem como ondas, oscilam em intensidade, por isso esperar é fundamental. Esperar. Não só esperar no sentido de aguardar, mas aguardar em esperança.

Gosto do filme Closer – Perto demais. O elenco é incrível e o enredo bastante realista, pois transmite um quadro exato do que acontece quando obedecemos aos nossos sentimentos – no filme, mais colocado como desejo. Depois de viver um monte de experiências amorosas (que, no filme, acontecem entre pessoas lindas aliás, rs), você termina da mesma maneira como começou: vazio.

 


Nota:

*Escola Dominical – para que não está familiarizado com o termo, é assim que chamamos a escola de estudo da Bíblia, que acontece na igreja evangélica para todas as idades, geralmente, nas manhãs de domingo – por isso o “dominical”.

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui e aqui os primeiros textos da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Desconstruindo o romantismo: a origem do amor romântico

 

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Ofélia (1851-2), pintura de John Everett Millais

 

Escrever este texto é como estar em trabalho de parto: leva tempo e dói. Faço uma busca de artigos que existem sobre o tema e o que leio neles é como o resultado de um exame que entregam nas nossas mãos: positivovocê é realmente uma romântica. Mais difícil do que aceitar o diagnóstico, porém, é a pergunta que não descola da mente: mas como isso foi acontecer? Onde foi que eu perdi as rédeas do meu próprio coração?

Para tentar responder essas perguntas, fui em busca das origens do discurso do amor romântico e como ele foi incutido na cultura ocidental, de modo a nos laçar pelas entranhas identitárias. Em um dos sites pesquisados, encontrei eco para a minha angústia:

O condicionamento cultural é muito forte. Chegamos à idade adulta sem saber se nossos desejos são nossos ou se aprendemos a desejá-los.
(Regina Navarro Lins, escritora e psicanalista, neste artigo)

 

O nascimento do amor romântico

Um homem é apaixonado por certa mulher, que também é apaixonada por ele. O problema é que essa mulher vive num contexto em que o casamento é arranjado e ela é obrigada a se casar com outra pessoa. Com a impossibilidade de concretizar sua paixão, que é o que move sua existência, o homem apaixonado se suicida.

Não, esse resumo tosco que fiz aí em cima não é o enredo da próxima novela da Globo. Na verdade, vem de uma obra literária pioneira – Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Goethe – no início de um movimento chamado Romantismo. Nesse movimento, que aconteceu a partir de meados do século 18 em diante, artistas visuais, escritores e músicos passaram a produzir obras saturadas de narrativas com teor romântico e erótico. Quem não se lembra de Quasímodo, o corcunda que se apaixona pela cigana Esmeralda, no livro Nossa Senhora de Paris, do francês Victor Hugo? Romantismo outra vez. Emma Bovary, burguesa que encontra nos casos extraconjugais o escape para sua frustração no casamento, também foi imaginada nessa mesma época, pelo francês Gustave Flaubert. Ao ser lançada, Madame Bovary virou febre na França.

Entretanto, engana-se quem acha que o amor romântico nasceu no Romantismo. Se assim fosse, como explicaríamos as redes de intrigas, em que os deuses do Olimpo se metiam, apenas para concretizar suas paixões com os mortais na rica mitologia grega?

Há quem diga também que até na Bíblia o amor romântico não existia, principalmente no casamento.  Esse argumento não encontra base, quando olhamos para a história de Jacó com Raquel (Gênesis 29) e de Elcana com Ana (1 Samuel 1), entre outras situações de romance.

Deus abençoou o matrimônio, entendido menos como um meio de procriação do que como uma associação afetuosa e estável do homem e da mulher.
(Comentário introdutório da Bíblia de Jerusalém ao livro Cântico dos Cânticos)

Dando uns bons saltos no tempo, alguns séculos antes do Romantismo, outros artistas fizeram do amor romântico o tema de suas obras. Luís Vaz de Camões, um dos principais poetas portugueses, nascido no século 16 (portanto, 200 anos antes do movimento oficialmente conhecido como romântico), foi o autor dos famosos versos:

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É um andar solitário entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É um cuidar que ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata, lealdade

Mas como causar pode em seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

E a gente achando que tinha sido o Renato Russo o autor dessa letra arrebatadora, né? Nada.

Shakespeare é outro, que viveu na mesma época de Camões, e escreveu nada menos do que as trágicas histórias de amor de Romeu e Julieta e de Desdêmona e seu ciumento marido Otelo.


Qual seria então o grande problema do Romantismo?

O grande problema do Romantismo não foi abordar o amor romântico que, como vimos brevemente, sempre existiu, mas sim difundi-lo como sendo o sentido último da existência. Foi a partir dos artistas românticos, exatamente na transição de uma visão teocêntrica da existência para uma visão antropocêntrica – o homem no centro –, que um novo deus foi coroado: o sentimento romântico. A paixão no relacionamento amoroso passou a ser a resposta para todas as angústias humanas.

O antropólogo norte-americano Ernest Becker (1924 – 1974), em sua obra A negação da morte, nos dá um quadro bem preciso do que estou dizendo:

Se ele [o homem] não mais tinha Deus, como ele faria? Uma das saídas que lhe ocorreram foi a “solução romântica”: ele depositou seu desejo por heroísmo cósmico sobre outra pessoa, na forma de objeto de amor. […] O parceiro romântico se torna um ideal divino, por meio de quem uma pessoa encontra completude. Todas as carências morais e espirituais agora passam a estar focadas em um indivíduo. A espiritualidade, que uma vez havia sido associada com outra dimensão das coisas, é agora trazida para a dimensão terrena e toma forma em um ser humano. A salvação não é mais associada a uma abstração, como Deus, mas é encontrada na “beatificação do outro” (tradução minha, feita a partir daqui).

Ainda seguindo o pensamento de Becker:

Quando procuramos o objeto humano “perfeito”, estamos procurando por alguém que nos permita expressar nossa vontade por completo, sem nenhuma frustração. Queremos um objeto que reflita a imagem ideal de nós mesmos. Mas nenhum objeto humano consegue fazer isso; humanos possuem suas próprias vontades e vacilações; eles podem ir contra nós de milhares de formas diferentes, e seus próprios desejos nos ofendem. […] Por mais que idealizemos e idolatremos alguém, ele inevitavelmente reflete a decadência e a imperfeição terrenas. E como ele é a nossa medida de valor, essa imperfeição recai sobre nós. Se seu parceiro é seu “tudo”, então qualquer limitação que vier dele se tornará uma grande ameaça para você (tradução minha, feita a partir daqui).

 

Que tapa na cara me deu esse Becker! Um tapa tão bem dado, que tem servido para me despertar do meu grande sonho romântico.

Ao ler esse texto dele, não pude evitar de pensar numa música que gosto bastante, cuja letra é um exemplo perfeito dessa visão divinizada do outro. Encerro o meu texto deixando com vocês essa música, para refletirem sobre ela e para se sentirem incomodadas mesmo. Afinal, é tocando o chão das nossas angústias, que nos sentiremos compelidas a encontrar a mola propulsora que nos trará de volta à superfície.

Semana que vem começaremos a demolição de tudo isso. Até!


Without You I’m Nothing
Placebo & David Bowie

Strange infatuation seems to grace the evening tide
Estranho fascínio que parece agraciar a maré noturna
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Such imagination seems to help the feeling slide
Tal imaginação parece ajudar o sentimento a deslizar
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Instant correlation sucks and breeds a pack of lies
Correlação instantânea é uma droga e gera uma pilha de mentiras
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado
Oversaturation curls the skin and tans the hide
Supersaturação enruga a pele e tinge o couro
I’ll take it by your side
Vou enfrentar isso ao seu lado

Tick tock
Tick tock
Tick tock
Tick tick
Tick
Tick
Tick tock

I’m unclean, a libertine
Eu sou sujo, um libertino
And every time you vent your spleen
E toda vez que você tem um acesso de raiva
I seem to lose the power of speech
Eu pareço perder o poder da palavra
You’re slipping slowly from my reach
Você está aos poucos deslizando do meu alcance
You grow me like an evergreen
Você me cultiva como uma planta perene
Y
ou’ve never seen the lonely me at all
Você nunca viu o meu lado solitário

I…
Eu…
Take the plan, spin it sideways
Pego o plano e o giro de lado

I…
Eu…
Fall
Caio

Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing
Sem você eu não sou nada
Without you I’m nothing at all
Sem você eu não sou absolutamente nada


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência. Confira aqui o primeiro texto da série.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Desconstruindo o romantismo: a proposta

 

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Foto de Rakicevic Nenad

 

Há alguns anos, descobri em mim uma romântica crônica (esse assunto, aliás, já se desdobrou em alguns textos no blog, que você pode ler aqui, aqui e aqui). Ao descobrir e me definir como uma romântica nível hard, percebi também que ser romântica era menos romântico e fofinho do que parecia. Não era apenas uma questão de ficar ouvindo músicas melosas dos anos 80 o dia inteiro ou assistir Mensagem pra você uma vez a cada seis meses, mas era uma característica que influenciava diretamente as minhas decisões e a minha rotina diária. Ao me entregar aos devaneios românticos, eu me atrasava para atender as solicitações do meu filho pequeno, deixava o leite ferver até derramar e não ouvia o que meu marido estava tentando me contar. Ou seja, eu não estava presente na minha vida real.

 

Como acontece um devaneio romântico?

Não é muito diferente da sensação de se estar apaixonado. Você passa o dia inteiro pensando em alguém que você acha que também pensa em você, mesmo que isso não seja verdade e que você nem tenha muito contato com a outra pessoa. Para um romântico, enquanto houver indícios – mesmo que forjados, mas que na cabeça dele são totalmente reais –, de que ele é correspondido, ele não desiste de pensar nessa pessoa. E você pode ter certeza: o romântico vai ver coisa onde não existe (e onde existe também). Partir para a concretização de seus devaneios é o maior desejo de um romântico, ao mesmo tempo que essa concretização pode representar o fim do principal alimento de seu vício: a idealização.

A partir do momento em que a paixão é vivenciada no plano da realidade, ela não dá conta de cobrir as frustrações e as decepções naturais de um relacionamento entre duas pessoas imperfeitas. Para fugir dessa constatação, que é muito dura para o romântico, ele tende a escapar por meio de novos devaneios. E, assim, o ciclo idealização-concretização-frustração recomeça. Nem sempre, porém, há a fase da concretização. Quando ela não acontece, o romântico pode passar anos a fio idealizando uma mesma pessoa.

Eu poderia contar aqui algumas histórias que já desencadearam pensamentos românticos em mim, entretanto, para uma viciada ou viciado em idealizações, a pessoa que idealizamos não é a questão mais séria. O que o romântico gosta mesmo é de estar apaixonado, da sensação de novidade e de fuga que a paixão proporciona, por isso, é comum alguns românticos experimentarem certa rotatividade nas pessoas as quais ele idealiza. Só que o romântico, quando imerso em uma “crise romântica”, não tem uma consciência clara disso. Ele acredita piamente em seus sentimentos pela pessoa da vez e, a partir daí, deixa-se envolver em um regime de escravidão emocional: passa a escutar sempre as mesmas músicas, com letras que estimulam o romance; fecha-se em seu mundo e não quer contato com outras pessoas que possam tirá-lo de seus pensamentos; entra nas redes sociais onde possa encontrar a pessoa por quem está encantado e seguir tudo o que ela faz e daí por diante.

 

 Mas e aí, o romantismo exagerado tem cura?

Essa pergunta tem me perseguido pelos últimos anos. Eu acredito firmemente que sim, senão eu não estaria buscando essa cura com tanto afinco por tanto tempo.

O primeiro passo para encontrá-la, segundo o que tenho vivido, é admitir que ser romântico tem um limite. Uma coisa é você expressar seus sentimentos a alguém que te interessa ou com quem você se relaciona com atenção, afeto e presentes. Outra coisa é você buscar isso desenfreadamente, não importa se você já tenha um compromisso com outra pessoa ou não. E isso se mostra naturalmente, porque com os anos, você percebe um padrão no seu próprio comportamento. Quando eu era solteira, por exemplo, o que geralmente me alertava para o romantismo doentio era o fato de eu não conseguir namorar alguém por muito tempo, porque o “amor” simplesmente acabava (geralmente, o namoro durava alguns meses só). Aí eu rompia aquele relacionamento e procurava por outro que me preenchesse com mais romance. Se eu já estivesse envolvida com alguém, o que me fazia me apaixonar por outra pessoa (pois é, você leu certo: duas pessoas ao mesmo tempo – uma real e a outra, ideal) era reconhecer características nela que eu admirava e desconfiar que a pessoa me admirava de volta. Pronto! Só isso já rendia muito pano para manga nas histórias tecidas em meus pensamentos.

O segundo passo que dei, visando a cura, foi a psicoterapia. Algumas psicoterapeutas me ajudaram mais, enquanto outras me ajudaram nada ou bem pouco. A primeira delas, que me diagnosticou como romântica exagerada, fez isso com um largo sorriso no rosto e me tratou como se eu fosse uma adolescente ingênua, que só precisava amadurecer (e olha que nem adolescente eu era mais!). De fato, amadurecer é uma palavra-chave no processo de cura, mas enquanto o amadurecimento não se completa, como a gente vive? Não se pode, de forma nenhuma, subestimar o potencial destrutivo de um romantismo doentio – mesmo que quem o esteja vivendo seja “apenas” uma adolescente. Já com outra psicoterapeuta, me senti muito amparada. Aos poucos, ela me levou a acreditar que eu era muito mais capaz de buscar a cura do que pensava ser.

Finalmente, recorri também a Deus. A princípio, minhas orações consistiam num eterno pedido de perdão. Humilhar-se diante de Deus e reconhecer-se incapaz de mudar uma situação contando apenas consigo mesma é uma ampla porta que se abre diante de nós. O que eu não sabia, porém, é que essa porta me levaria a inúmeras outras, que precisariam ser abertas uma por uma, em seu devido tempo.

 

Anos depois…

Hoje, além da leitura da Bíblia e da oração, a minha busca pelo Deus da cura tem sido ampliada em várias frentes, por meio das pregações que ouço, dos vídeos que assisto e dos textos que leio. Há algum tempo, adquiri um livro que tem me ajudado de uma forma inédita. O nome dele é Você é aquilo que ama, de James K. A. Smith, editora Vida Nova. Nem preciso dizer que eu o escolhi por causa do título, né? Comprei-o na sede por uma resposta para a minha grande questão na vida.

 

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Para a minha felicidade, esse livro tem sido um meio de Deus falar muito comigo. O autor aborda uma visão que eu sempre desconfiei de leve, mas a qual nunca tinha encarado a fundo: a cultura em que estamos inseridos é determinante na definição de nossas paixões. O que ele quer dizer com isso? Que o mundo que nos cerca – aproveitando-se de nosso vazio decorrente da Queda (claro que eles não se apoiam nessa explicação) – define para nós, sem percebermos, quais serão as nossas carências e os nossos desejos.

Para ilustrar sua teoria, o autor do livro usa o exemplo de um shopping center e estuda toda a mensagem implícita nele e como ela forma uma pessoa para uma mentalidade consumista, em que o ter é a chave para ser feliz. Ainda assim, o princípio que o livro traz pode ser aplicado a qualquer valor arraigado na gente e que represente mais um câncer na nossa vida do que uma coisa boa.

O que o livro propõe é uma forma radical de mudança, que consiste basicamente no seguinte: se a cultura – por meio de todo o imaginário social, traduzido em filmes, músicas, propagandas, novelas, jornais, internet e onde mais couber discurso – foi quem formou as suas paixões, desejos e carências, logo, é preciso EXPLODI-LA em você, para que no lugar você construa um discurso radicalmente diferente, que leve você a amar o que te proporciona vida e não o que te priva dela. Uma proposta maluca e incrível.

 

Desconstruindo o romantismo – a série

Como eu sempre tive uma queda pelo subversivo e pela contracultura, já me voluntariei na hora para colocar em prática a proposta do livro Você é aquilo que ama: desconstruir o discurso que me leva a acreditar na idealização romântica como um modo autêntico de ser no mundo. A ideia é encontrar todas as falhas desse discurso, a ponto de reduzi-lo a pó. Só assim estarei pronta para um processo de reconstrução, em que a minha identidade genuína seja (re)descoberta.

Foi a partir desse desafio que veio a ideia de fazer a série Desconstruindo o romantismo aqui no blog: listei alguns pontos que a cultura impregna na nossa mente desde a infância sobre relacionamentos românticos e, ao longo dos textos da série, vamos desconstruindo cada ponto desse discurso.

No final de todos esses textos, percorreremos o caminho contrário: a construção de um novo hábito, um novo jeito de ser no mundo, que substitua o velho e escravizante discurso incutido pela cultura, por meio de um discurso mais antigo e digno de muito mais confiança.

A proposta é ousada, eu sei, mas mesmo que toda a transformação não se complete dentro dos âmbitos limitados das postagens (e não irá se completar mesmo, porque estamos falando de todo um redirecionamento daquilo que nos move na vida), o mínimo que pode acontecer nessa iniciativa é descobrirmos que, dentro da porta da desconstrução e reconstrução, há ainda outras portas, para as quais Deus nos encaminhará no tempo certo, a fim de encontrarmos a cura que tanto temos buscado. Só por esse motivo, a série já terá cumprido o seu objetivo.

Os textos serão postados uma vez por semana.

Vamos juntas?

 

Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.

Filipenses 1.6

 


*Desconstruindo o romantismo é uma série que, por meio de reflexões sobre o discurso da cultura e a busca por uma formação fundamentada em valores do cristianismo, visa tratar a questão do romantismo doentio, que procura nos relacionamentos românticos o sentido da existência.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Por que voltei a tingir meus cabelos brancos

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Sete meses sem tingir os cabelos

 

Esta semana vou voltar a tingir o meu cabelo. Depois de sete meses deixando os fios brancos nascerem e aparecerem, desisti de continuar a ver minha cabeça embranquecer aos poucos. Quando comuniquei minha decisão para o meu marido, ele perguntou: e o que você vai dizer para as leitoras e os leitores da série ‘Fio de Prata’ do blog? Respondi que eu diria a verdade:

  1. Vou tingir os cabelos, porque a transição de um cabelo com cor para um cabelo branco tem implicações dolorosas de encarar

Isso é fato. Ocupo-me mais pensando na minha vida avançando no tempo quando vejo o branco dos meus fios do que quando eles estão disfarçados na tintura. Penso, me comparo com pessoas mais novas do que eu, lembro-me da morte. Não acho que temos que nos sentir lindas, jovens, cheirosas e felizes o tempo todo – mas me sentir sempre rumo ao envelhecimento também não tem me feito bem.

  1. Vou tingir os cabelos, porque necessito da aprovação de outras pessoas

Não posso negar que um dos fatores, que me deram força para não tingir o cabelo branco nesse tempo, é que deixá-los ao natural tem se tornado uma tendência cada vez mais forte entre as mulheres. Olha só o que eu disse: tendência. Eita palavrinha tentadora! Quando um comportamento vira tendência, nos sentimos mais confortáveis para adotá-lo, não? Afinal, ele denota mais aceitação entre um maior número de pessoas agora do que antes. Assim, ao olhar para dentro de mim e perceber que ainda busco aceitação e aprovação, perguntei a mim mesma: por que eu deveria continuar a agir como se não precisasse dessas coisas? Afinal, a mensagem que eu buscava passar para os outros ao deixar de tingir os meus fios brancos é que eu não precisava agradar ninguém mais, além de mim mesma. O triste é que nem a mim mesma eu estava agradando.

  1. Vou tingir os cabelos, porque minha atitude está envelhecendo

Muita gente com cabelos brancos por aí é super bem resolvida, jovem, moderna, linda. Nunca me esqueço da inveja que senti de uma mulher no cinema, com seus 45 anos mais ou menos, cheia de presença e cabelos brancos assumidíssimos. E uma asiática então, em quem fiquei reparando uma vez num café coreano? Ela tinha cabelos bem longos, lisos e cinzentos. Parecia um ser élfico vindo direto dos livros do Tolkien. Exótica e deslumbrante.

Para mim, porém, os cabelos brancos têm exercido um efeito contrário: em vez de me empoderarem (detesto esta palavra, mas não achei outra melhor), me atrofiaram. Vi que comecei a me esconder das pessoas, a evitar lugares em que temos que nos arrumar muito, a evitar aparecer para conhecidos que não encontro há muito tempo. Minha autoconfiança foi sendo minada e eu, que já moro no meio do mato, fui me isolando cada vez mais, com vergonha de assumir que minha juventude está indo embora. Fui desenvolvendo uma “atitude envelhecida”, que vai muito além de um simples punhado de cabelos brancos na cabeça, é verdade, mas que acabou sendo desencadeada por eles.

….

Ao mesmo tempo que pondero sobre tudo isso, preciso admitir quão profundo fui nas reflexões que fiz durante esses meses, em que deixei meus cabelos brancos aparecerem. Uma das conclusões a que cheguei é quão falho, superficial e ridículo é o estereótipo de beleza que nos move. Pior ainda é me ver tão presa a ele. Aí, então, vejo Deus, escolhendo aqueles que escapam totalmente aos estereótipos de beleza das épocas e os honrando lindamente (sendo Davi o mais famoso exemplo, resumido no livro bíblico de 1 Samuel, capítulo 16, verso 7) e me encanto.

Se quero me libertar dos estereótipos um dia? Quero muito! Contanto que isso não signifique autotortura. Não quero forçar uma situação, um estado de espírito, um desprendimento, só porque pareço cool assim. É hipocrisia. Tenho estado aberta para Deus trabalhar em mim a aceitação da passagem dos anos e da juventude, mas que Ele faça isso à maneira Dele, à medida em que vai me mostrando o Ser fascinante que é. Que nesse caminho para o envelhecimento, Deus me dê a mão Dele e, gentil como só Ele sabe ser, vá me conduzindo com Seu carinho e tranquilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Casa nova e alma nova

Acabo de me mudar de casa. Esta é a primeira das três mudanças previstas para nós em 2018 (um dia explico melhor essa história). Numa conversa que tive com a Carol Selles sobre isso, ela desabafou: detesto me mudar. Tive que concordar com ela, também detesto, mas talvez a gente não goste de se mudar porque acumulamos coisas demais, que depois nos dão um trabalhão para serem empacotadas e transportadas para o novo lugar. Se tudo o que temos coubesse numa modesta malinha, nosso desânimo para mudanças talvez não fosse tão grande.

No nosso caso, o meu desânimo não vem apenas da ideia de transferir um monte de coisas de um endereço para outro. Tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo e que não serve mais não vai simplesmente para o lixo e pronto. Separamos entre aquilo que iremos doar e aquilo que iremos vender daquilo que iremos descartar. No descarte, separamos entre o que é reciclável e o que não é. Também tem os eletrônicos: aparelhos velhos de celular, baterias que não funcionam mais, carregadores antigos. Tudo isso precisa encontrar um destino certo, que, definitivamente, não é uma lata de lixo comum. E os remédios vencidos então? Seguem todos para uma sacola específica, que será encaminhada para uma drogaria em São Paulo, que os recolhe e os descarta da forma correta. Sem falar das lâmpadas queimadas… também precisam encontrar seu destino certo, porque as fluorescentes, por exemplo, possuem mercúrio dentro, ultra tóxico e, portanto, não podem ser jogadas em qualquer lugar. Assim, mudar de casa se torna algo bem mais complexo do que “só” empacotar tudo e partir. É um ato de responsabilidade como administradores daquilo que acumulamos com o passar do tempo (aliás, aqui neste site, você encontra para onde encaminhar tudo quanto é coisa).

Da mesma maneira que mudar de casa, mudar por dentro, como pessoas, também pode nos dar uma preguiça enorme. Às vezes, é o excesso de opiniões formadas sobre as coisas que nos impede de mudar. Outras vezes, são os ressentimentos, as preocupações com o futuro e, definitivamente, os preconceitos. O orgulho, então! Esse não deixa a gente nem cogitar qualquer transformação.

Esse acúmulo de sentimentos pesados vai nos inchando, a ponto de não conseguirmos nos mover em nenhuma direção. Ficamos inflados de nós mesmos e nos acomodamos, esperando que o mundo gire em torno de nós.

Paulo, apóstolo de Jesus, nos orienta a não nos acomodarmos com essa forma de ver as coisas, mas sugere que renovemos a nossa mentalidade, a fim de experimentarmos o ponto de vista de Deus. Como resultado, esse novo olhar vai transformando a nossa vida (essas referências você pode encontrar na Bíblia, no livro de Romanos, capítulo 12, verso 2). Ou seja, para que novos ares possam entrar nos pulmões da nossa alma, precisamos deixar de acumular os sentimentos prejudiciais ao nosso crescimento, abrindo mão deles e adquirindo uma perspectiva que supere o que é finito, transitório e superficial.

Paul Tournier, médico e psicólogo suíço que se dedicou ao cuidado integral de seus pacientes, escreveu em seu livro Culpa e Graça:

Na verdade, ninguém pode se despojar do espírito de julgamento por meio de um esforço voluntário. Enquanto eu fico obcecado pelo erro descoberto em um amigo, que me chocou e que eu reprovo, posso repetir infinitas vezes: “eu não quero julgá-lo” – mas o julgo mesmo assim. Ao passo que o espírito de julgamento desaparece sozinho no momento em que tomo consciência dos meus próprios erros e falo deles com franqueza ao meu amigo, enquanto ele me fala das faltas que reprova em si mesmo. (p. 101)

O julgamento citado por Tournier é apenas um dos itens, que podem fazer parte da nossa pesada bagagem emocional e que nos impedem de mudar por dentro. Existem muitos outros, que nos sobrecarregam e nos deixam cansadas e indispostas. Pense na inveja, por exemplo. Minha amiga Dalila Parente disse uma vez, num encontro de mulheres, que a comparação que a inveja provoca não funciona de nenhum dos lados: se me sinto superior à pessoa com quem me comparo, isso é ruim e, se me sinto inferior, isso também é ruim. A conclusão a que chegamos aquele dia foi que a via mais saudável de todas é resistir a qualquer tentação de nos compararmos com outras pessoas. Desafiador, não?

Mas para onde encaminhar os sentimentos ruins, mas inevitáveis muitas vezes, que nutrimos e que nos impedem de mudar?

Assim como o lixo que acumulamos em nossa casa com o tempo, que pede um encaminhamento adequado na hora da mudança, os sentimentos negativos que emperram nosso crescimento pedem o destino da confissão. Apresentá-los a Deus sem reservas, em uma oração, pode ser o primeiro passo para que eles percam a força de ação em nós. Jesus, por sua vez, não irá julgá-los como juram alguns, mas perdoá-los, ou seja, levá-los para bem longe Dele e de você. É alívio instantâneo.

Em um segundo momento, entra em cena o processo. Assim como a borboleta, que passa pela metamorfose, nós também passamos a viver uma transformação em etapas. Ficamos conscientes dos sentimentos nocivos e, quando eles se apresentam, a gente às vezes consegue detectá-los a tempo de não nos deixar ser dominadas, outras vezes não. Quando não conseguimos, basta nos jogarmos nos braços de Deus de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias.

Para cada um de nós, um insucesso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.
(Paul Tournier em Culpa e Graça, p. 141)

Só olhando para dentro de nós com sinceridade é que descobrimos o que temos acumulado, que tem nos impedido de mudar. Nesse ato de humildade, uma transformação interior não representará mais um ideal inalcançável para nós ou uma expectativa secreta dos que se relacionam com a gente, mas se tornará um processo possível, genuíno e rico de aprendizados.

 

ENSEE
Arte de Ensee

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O peso do silêncio

Lembro-me exatamente do dia em que conheci o Duccio. Ele havia convidado o David para comemorar o aniversário dele num boteco na Rua Augusta, em São Paulo. Como o David e eu estávamos em lugares diferentes, resolvemos ir separados para o aniversário. Eu cheguei bem antes do David e, como nova namorada dele, ainda não havia sido apresentada a ninguém, nem ao próprio Duccio, o aniversariante. Assim, resolvi encostar num canto e ficar ali quieta e parada que nem uma planta, só observando as pessoas. Fiquei ouvindo as risadas altas, alguns nomes aleatórios, até que percebi que o mais empolgado ali, que falava mais alto e sem interrupção, era o Duccio. Achei até engraçado, porque em um determinado momento, eu o ouvi comentando sobre o David para outra pessoa. Fiquei me perguntando se ele desconfiava que eu seria a nova namorada dele. De qualquer forma, achei o Duccio tão animado e tão cheio de histórias que não terminavam, que admirei sua alegria expansiva por estar comemorando anos (o que para mim representaria um certo esforço).

Como fui saber depois pelo David, que foi sócio e amigo do Duccio por bastante tempo, e pelas vezes que nos encontramos em festas, Duccio, como todo italiano típico, era sempre assim: tinha assunto para tudo no mundo. E era amigo de todo mundo. E todo mundo gostava dele.

Até que, no dia 19 de novembro deste ano, Duccio se silenciou. Ao visitar uma cachoeira em São Sebastião, ele escorregou numa pedra, caiu de uma altura de cinco metros e seu corpo só foi encontrado no dia seguinte, no fundo da água.

A morte do italiano querido e falante foi, obviamente, um choque para mim e para o David. Foi inevitável, porém, pensar naqueles que mais estariam sofrendo naquele momento: seus pais. Eles chegaram da Itália no dia seguinte ao que os bombeiros haviam encontrado o corpo e foram recebidos pela multidão de amigos do filho – herança preciosa deixada por ele. Foram cuidados e tratados com todo carinho possível. Até as despesas com a viagem deles e com o funeral foram cobertas por esses amigos. Passaram todos aqueles dias tratando dos trâmites para levar o corpo do Duccio de volta para a Itália.

Mas e depois?  – pensei. E depois que esses dias corridos passarem e esses pais retomarem a rotina da vida, como será para eles encararem o silêncio do Duccio? 

Ao pensar nisso, eu mesma me silenciei por alguns instantes. O silêncio do Duccio era mais atordoante do que suas falações ininterruptas.

Essa vivência breve do silêncio fez com que eu refletisse sobre os meus silêncios; aqueles que eu faço e aqueles que recebo de outras pessoas, ainda vivas, mas ausentes. Pensei sobre como precisamos de pouco para não sermos enlouquecidos pelo silêncio da ausência: ouvir a voz numa gravação, receber uma mensagem, mesmo que curta, ou qualquer ato consciente da parte ausente em um mínimo de contato. Porque pior do que a ausência é o silêncio absoluto – ele aponta para o esquecimento.

Meu avô, se ler este post, talvez não concordará totalmente comigo. Quando minha avó vivia seus últimos meses, deitada inconsciente numa cama, meu avô costumava me dizer que só de mirar a imagem dela ali, silenciosa, mas viva, já era suficiente para ele recuperar as forças e continuar. Ainda assim, acredito que minha avó falava sim, não com palavras, mas por meio dos leves apertos nos dedos que ela nos dava de vez em quando e por sua respiração ofegante… com esses pequenos sinais, ela nos contava sobre sua luta para continuar vivendo.

Sempre prezei os momentos de silêncio. Mas o que deveriam ser eles, senão apenas pausas na interação? Sim, eles são necessários de tempos em tempos, como um pit stop no meio da correria, mas são postos de recarga apenas e não de parada definitiva. O silêncio, quando longo, pesa e entristece.

(De repente, me alegro ao pensar no Natal: o silêncio de Deus rompido em choro de criança recém-nascida. Quanta esperança em um ruído, aparentemente, tão banal! É Deus nos comunicando que chegou para viver perto de nós, de um jeito pessoal e definitivo).

O silêncio do Duccio nos incomoda bastante, a mim e ao David. Mas é incrível como temos aprendido com ele! É incrível ver como seu silêncio nos convida a reagir, a refletir, a reconsiderar atitudes e a tomar decisões. Ao Duccio fica a nossa gratidão por tamanha eloquência, que reverbera dentro de nós até mesmo no silêncio de sua partida.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Feliz Ano Novo!

Pelo título desta postagem, você pode achar que estou bêbada ou maluca. Bom, maluca sempre fui mesmo, mas não é o caso agora. Na verdade, hoje é o primeiro dia do Ano Cristão ou Ano Litúrgico.

Como? – ouço alguém pensando. Explico:

O Ano Cristão ou Ano Litúrgico é uma outra maneira de contar o tempo. Ele não é dividido em meses, mas em períodos. E todos esses períodos são marcados em torno da história da vida de Jesus: primeiro o Advento (ou “chegada”, “visita”, que começa a ser contado quatro domingos antes do dia do Natal, ou seja, hoje), depois o Tempo do Natal (nascimento), então o Tempo Comum 1 (várias semanas), o Tempo Quaresmal (40 dias que precedem à morte de Cristo), o Tempo Pascal (morte e ressurreição de Jesus) e o Tempo Comum 2 (outras várias semanas).

Assim, a nossa referência de tempo não precisa estar submetida a compromissos, prazos, datas comerciais, mas pode passar a girar em torno da Pessoa de Cristo, sua passagem pela terra e a esperança de sua volta para nos levar com Ele. E essa perspectiva muda tudo: o modo como enxergamos nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossos hábitos de consumo e nosso tempo livre, como poeticamente discorreu Vanessa Belmonte em um post que veiculamos ontem aqui no blog.

 

Um dos modelos de como é contado o Ano Litúrgico. Imagem retirada do link: metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricaocolunas.asp?Numero=3092

 

As Escrituras nos falam de um Deus que não se deixa afetar pelo tempo, um Deus que jamais fica velho ou ultrapassado. Ele mesmo habita a eternidade e é Senhor do infinito, mas vem visitar e redimir as criaturas que vivem na dimensão do tempo. Em Cristo Jesus, o Deus Eterno vem habitar conosco, seres que precisam contar as horas, os dias os meses e as estações. (Gladir Cabral e João Leonel, em O menino e o reino, p. 11).

 

Mas como vivenciar esse tempo diferente, contracultural?

Essa é uma pergunta que venho me fazendo desde que conheci o Ano Litúrgico, que foi apenas em junho deste ano. Na tradição cristã de onde vim, o Ano Litúrgico não era mencionado, tanto que eu nunca soube da existência dele até este post da Vanessa Belmonte. Assim, como não pertenço a uma igreja onde ele é rigorosamente praticado, me perco um pouco.

Para guiar nossas reflexões e devocionais dentro do Ano Litúrgico existe o Lecionário – sugestões de leitura bíblica que têm a ver com o período em que estamos do Ano Litúrgico. No meu caso, que passei a seguir o Lecionário sem a orientação de um grupo, foi difícil manter a qualidade das minhas devocionais, porque as referências bíblicas indicadas para leitura diária eram muitas. Acabei desanimando e voltando para o esquema de leitura bíblica que eu fazia antes.

Entretanto, o Advento chegou e eu voltei a sentir falta de uma reflexão mais dirigida sobre esse tempo tão crucial para nós, cristãos. Hoje de manhã, primeiro domingo dos quatro que pertencem ao Advento e, por isso, o primeiro dia do Ano Litúrgico, cheguei a pensar com Deus e com os meus botões: hoje começa o Advento e eu não sei como transformá-lo em um período diferente na minha vida. Queria chegar no Natal devidamente preparada para absorver todo o seu potencial transformador e o seu valor.

Deus me respondeu 40 minutos depois de ter tido esse pensamento: Carol, minha já tão citada amigona e co-autora deste blog, mandou para mim e para a Talita (também amigona e autora do blog) um Whatsapp com o link de um livro devocional especialmente escrito para essa época do Ano Litúrgico! O download é gratuito e eu quase engasguei com um pedaço de panqueca no café da manhã quando vi que era exatamente o que eu buscava!

O menino e o reino – meditações diárias para o Natal, já com um trecho citado aí em cima no post, é talentosamente escrito por dois autores brasileiros, Gladir Cabral e João Leonel, e contém devocionais profundas, sensíveis e cheias de referências a escritores e cantores, o que mostra como nossos irmãos brasileiros são antenados, além de profundamente espirituais. Lindo de ler!

 

Aos poucos, a história de Jesus e seu significado estão sendo mais e mais incorporados em minha realidade diária.  O importante é não desistirmos dessa renovação da mente, dessa transformação, dessa busca por mais sentido e propósito no que somos e no que fazemos.

Agora peço licença, porque o meu almoço de comemoração do Ano Novo já está pronto!

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Esperar é uma dor ou um presente?

 

PieroFornassetti
Ilustração de Piero Fornasetti

Faz algum tempo que os meus dias têm sido marcados pelo longo caminho da espera. Desde o ano passado, David e eu temos buscado uma direção específica de Deus, que irá implicar numa mudança radical em nossa vida, em termos de tudo, desde localização geográfica até trabalho, amigos e igreja. Entretanto, enquanto essa direção não se confirma, os acontecimentos para nós estão meio que congelados, enquanto que, para o restante das pessoas, eles seguem o seu curso normal. Falar de planos para o ano que vem, por exemplo. Não podemos. Não sabemos quais serão nossas entradas, se estaremos em apartamento ou casa, se no calor ou no frio, se com ou sem escola para o nosso filho de três anos, se perto ou longe da nossa família e da nossa igreja. O máximo que conseguimos fazer é contar com possiblidades e traçar apenas um esboço, que pode mudar a qualquer momento.

Confesso que esperar tem sido um processo desafiador para mim. Como é para qualquer pessoa que espera, imagino. E esperamos o tempo todo, não é mesmo? Pelo pão na fila da padaria, pela chuva passar, pela mensagem da melhor amiga, pelo fim de semana, pelo ônibus. Grande parte do nosso tempo é preenchido com a espera. Para quem é cristão, a espera faz parte do nosso estar-no-mundo:

Os cristãos são pessoas que esperam. Vivemos num tempo liminar, entre o agora e o ainda não. Cristo já veio e virá de novo. E nós habitamos nesse meio tempo. Nós aguardamos.
(Tish Harrison Warren no livro Liturgy of the Ordinary, p. 104, traduzido livremente)

Esperar nos obriga a encarar verdades que geralmente tentamos evitar. Uma delas é de que o tempo não está submisso à nossa vontade nem ao nosso controle. Vivemos na ilusão de que conseguimos domar o tempo, de que ele está a nosso serviço e de que conseguimos fazer caber dentro dele o máximo de compromissos e situações que conseguimos criar. Com essa rotina frenética, poucos se preparam para o mergulho na amplidão vazia do tempo, contido na espera.

Outra verdade que enxergamos melhor quando esperamos é que tememos o futuro. Nossa limitação humana nos condiciona a conhecer apenas as coisas como são agora. Nossas escolhas – materializadas no futuro do minuto seguinte ou do ano seguinte – são um salto no escuro, uma aposta, um desejo gritante de que tudo dê certo, porém sem garantias.

Esperar é ansiar, é ter saudades de um tempo que não chega, é ver nossas capacidades restringidas a uma realidade que nos ultrapassa em poder.

Esperar é uma dor.

 

Lendo sobre a espera, porém, fui convidada a refletir sobre um elemento determinante para a qualidade da espera que enfrentamos: a paciência. Ela é o termômetro indicador do grau de sofrimento que permitiremos experimentar enquanto esperamos. Ela também nos leva a entender que a espera não precisa – e nem deve – ser passiva:

[Esperar com paciência] é uma espera ativa, na qual vivenciamos o momento presente ao seu máximo, a fim de encontrar no presente sinais Daquele por quem estamos esperando.
(Henri Nouwen, tradução livre)

Enquanto esperamos, podemos cuidar do nosso corpo, cuidar daqueles que nos cercam, concluir com comprometimento as responsabilidades assumidas no passado e que ainda estão em aberto, preparar nosso espírito e nossa mente para as possíveis mudanças que nos aguardam, orar, buscar conselhos, ler livros que nos edificam, e o que mais aparecer pelo caminho enquanto aguardamos. Lembro-me sempre do que a minha mãe dizia quando eu era criança e ficava esperando ansiosa por algo: filha, o melhor da festa é esperar por ela. Eu mudaria essa frase para: esperar pela festa é se preparar pra ela. Conforme Tish H. Warren escreve em seu livro Liturgy of the Ordinary, esperar pacientemente é acreditar que o tempo de Deus é perfeito e que, de maneira misteriosa, há muito mais acontecendo enquanto esperamos do que apenas a espera em si (p. 110).

Assim, quando a esperança é o que guia a nossa espera, a espera está pronta para ser transformada em um caminho pelo qual fortalecemos a nossa fé, a nossa confiança em Deus e a nossa visão de mundo. Trilhando pela espera paciente, podemos adentrar numa realidade que supera o que é imediato e transitório.

Esperar com paciência é um presente.  

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Os meus cabelos brancos e a vulnerabilidade

Encontrei uma amiga numa conferência no último sábado e, depois de contar para ela algumas questões particulares que ando tendo com a escrita e a publicação dos meus textos aqui no blog, ela me perguntou: mas e os cabelos brancos você tingiu? (como estávamos num lugar escuro, não dava para enxergar direito o meu cabelo).

Pois é, faz tempo que não venho aqui falar dos meus cabelos brancos. Mas já adianto que eles continuam aqui e estão cada vez mais brancos. Confesso, porém, que tenho me sentido mais e mais tentada a tingi-los. Não só porque eles estão aparecendo muito, mas também porque sempre amei brincar com o meu cabelo, encontrando para ele cortes e cores diferentes. Por enquanto, porém, sigo firme no propósito de assumi-lo como ele está.

 

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Como ele está

Mas o que os meus cabelos brancos têm me feito pensar é sobre vulnerabilidade, assunto de grande interesse da pesquisadora norte-americana Brené Brown (a Carol já escreveu um post ótimo sobre o assunto, citando a Brené Brown, inclusive). Basicamente, a teoria dela considera a vulnerabilidade como uma força disponível aos seres humanos, para construir entre eles uma conexão verdadeira. Ou seja, quanto mais suas vulnerabilidades (aqui você pode substituir o termo por fraquezas) se tornam acessíveis, mais as pessoas irão se identificar com você e mais irão querer se aproximar de você, porque se sentirão acolhidas, uma vez que elas têm as mesmas vulnerabilidades ou vulnerabilidades semelhantes às suas. Como consequência, essa ligação entre as pessoas se torna um canal de cura.

Confesso que gosto muito dessa ideia, mesmo porque sinto falta de conexões verdadeiras com as pessoas. Me farto de fórmulas prontas, de máscaras, de pessoas lindas e cheirosas, que não têm defeito algum ou que estão sempre na fase “pós-defeito”, ou seja, aquilo que elas tinham de vulnerável já foi superado sempre quando você conversa com elas.

Ao mesmo tempo, fico me perguntando se entregar o ouro assim, a qualquer pessoa, de fato me fará livre. Meu medo se justifica justamente por minha vulnerabilidade mais superficial e visível: o branco dos meus cabelos. Outro dia eu estava comemorando o aniversário do meu filho com algumas pessoas e ouvi uma delas se referindo a uma outra, que nem estava lá, como “coitada”, justamente porque a pessoa estava começando a ter cabelos brancos. Fiquei espantada com o comentário e me indaguei se elas ignoravam por completo a minha presença ali – eu com os meus cabelos brancos – ou se falaram aquilo para que eu me tocasse e quem sabe resolvesse tingir os meus cabelos, me tornando, assim, menos coitada.

De uma forma ou de outra, concluí que as pessoas não estão assim tão prontas para acolher as vulnerabilidades umas das outras.  Ao assumir a vulnerabilidade da minha finitude por meio dos meus cabelos, eu automaticamente assinei a declaração de que sou uma perdedora para essas pessoas. Estou admitindo, para quem assim acredita, que me entreguei ao tempo, que estou me deixando envelhecer e ser ultrapassada por pessoas mais novas do que eu. Os cabelos brancos se tornam, portanto, uma bandeira pregada no alto da minha cabeça, anunciando para quem quiser a vulnerabilidade de todos nós, a fraqueza que ninguém quer assumir, o tabu dos tabus: eu estou mais perto da morte do que muitos outros.

Só por esse meu simples caso dos cabelos brancos, já dá para perceber a intolerância das pessoas frente às vulnerabilidades umas das outras. Mas e quando a vulnerabilidade de alguém não é tão simples assim? Como acolhê-la? É aí que eu acho que a teoria da Brené Brown pode ser insuficiente. Se não estivermos cercados de pessoas realmente interessadas em nosso bem, que se preocupem com o destino de nossas almas, que nos amem profundamente, abrir nossos quartos escuros pode ser o nosso fim, infelizmente. Expor para quem quiser ouvir que, muitas vezes, somos manipuladoras, que agimos de forma discriminatória com pessoas com determinadas características, que somos emocionalmente infiéis aos nossos cônjuges ou que somos viciadas em mentiras, aí o papo é outro. O público geral irá receber essas vulnerabilidades de braços abertos, sim, mas não para as acolher, mas para julgá-las, condená-las ou passá-las adiante em forma de gordas fofocas.

Até o momento, não tenho me importado de ser rotulada como coitada por ostentar uma cabeleira reluzente, mas não sei até quando. Também já fui mais fundo, deixando que quartos escuros em mim fossem escancarados ao público, o que me custou parte da minha saúde – por esses caminhos de superexposição não trilho mais. Onde encontrar, portanto, um refúgio para a nossa alma, onde ela descanse verdadeiramente, sem os sustos e a canseira de manter as aparências? Falo a partir da minha experiência: o meu descanso tem vindo do Senhor. Conto para Ele quais são as minhas vulnerabilidades mais recônditas e como não dou conta delas e, então, leio: Ele [o Senhor] te cobre com as suas penas e debaixo das suas asas encontras refúgio (Salmo 91.4). Ele me perdoa e me oferece a força Dele. Sigo em frente, pronta para encarar – e entregar a Ele – a próxima vulnerabilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência