Mulheres Inspiradoras: Rosa Parks – Fev/2018

Nascida em 04 de fevereiro de 1913 no estado do Alabama, na cidade de Tuskgee. Rosa Louise McCauley, mais conhecida como Rosa Parks entrou para a história por se recusar a ceder seu lugar à um homem branco em um ônibus público. Foi presa e com sua atitude marcou o início da luta antissegregacionista nos Estados Unidos.

Baixe o wallpaper do mêsDesktop1366px X 768px ou 1680px X 1050px
Tabletbaixar aqui  Celularbaixar aqui

Segundo o calendário da ONU, desde 2007, há um dia especial para a reflexão e fomento da justiça social. Todo dia 20 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial da Justiça Social.

A adoção desta data em um calendário, ao meu ver, é de suma importância pois traz visibilidade a uma questão que está longe de ser erradicada. Sei da complexidade que esse termo traz, é amplo demais e envolve diversas esferas de uma sociedade. Mas quando penso nesse tema sob a ótica cristã – uma vez que não consigo desassociar Cristo como exemplo perfeito a ser seguido por mim em tudo o que faço e penso – na verdade me sinto é encorajada a lutar e buscar soluções para uma questão complexa como esta.

Mas me entenda, eu não estou falando que creio em uma redenção utópica através dos meus braços e serviços, pois sei que Cristo é o único que pode intervir efetivamente em toda a história, incluindo a minha e a sua, mas a Bíblia toda está recheada de versículos e histórias de pessoas comuns que clamaram, mas trabalharam para que o Reino de Deus pudesse começar a ser experimentado no hoje, no aqui e agora, mesmo que em doses aparentemente “homeopáticas”.

E é exatamente assim que eu vejo a vida de Rosa Parks. Uma mulher comum, que tinha a costura como profissão, mas resolveu não se calar enquanto sofria na pele o preconceito escancarado de brancos versus negros em seu país.

Ao anoitecer do dia 1 de dezembro de 1955, Parks entrou em um ônibus na avenida Cleveland, no centro da cidade de Montgomery. Ela pagou a passagem e se sentou na primeira fileira de assentos reservados para negros no veículo.

O motorista, James F. Blake, seguiu viagem em sua rota tradicional. O ônibus ia enchendo até que na terceira parada, em frente ao teatro Empire, vários passageiros entraram. Blake notou que umas duas ou três pessoas brancas estavam em pé. Para resolver o problema ele mudou o sinal de “colored” (“pessoa de cor”, termo usado nos Estados Unidos para se referir a afro-americanos) para atrás da fileira onde Parks estava. Ele exigiu que os passageiros negros sentados levantassem para que os brancos pudessem sentar. Enquanto os outros três negros levantaram, Rosa se recusou.

Anos depois, em uma entrevista, ela recordou: “meu corpo foi tomado por uma determinação, como uma colcha numa noite de frio”.  Parks se moveu, mas para o assento da janela. Blake, o motorista, perguntou para ela: “Por que você não se levanta?” Ela respondeu que “Eu não deveria ter que me levantar”. O homem chamou então a polícia e mandou prender Rosa Parks.

Quando o policial chegou ela perguntou “Por que vocês mexem com a gente assim?” Ele respondeu: “Eu não sei, mas lei é lei e você está presa”.  Parks foi acusada de violar o capítulo 6, seção 11 da lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar dela tecnicamente não ter sentado em um assento reservado para brancos. Edgar Nixon, presidente da sede local do NAACP, e seu amigo Clifford Durr pagaram a fiança de Parks e ela deixou a cadeia no dia seguinte.1

Posterior a prisão de Parks alguns ativistas dos direitos civis convocaram e organizaram o boicote aos ônibus de Montgomery e a luta pelos direitos iguais foi ganhando mais força. Martin Luther King, Jr. mantinha contato com Rosa e estiveram juntos em diversas iniciativas e marchas pela igualdade.

A decisão que ela tomou, em se posicionar a favor da justiça social, custou muito caro a Rosa. Sua vida não foi nada fácil depois disso! Enfrentou dificuldades para conseguir emprego após o ocorrido e precisou se mudar algumas vezes, pois também sofria diversas ameaças de morte por parte de grupos extremistas que defendiam a supremacia branca.

Em 1992 publicou sua autobiografia, Rosa Parks: My Story (infelizmente sem publicação no Brasil)E em 2002 é despejada porque possuía dívidas que não podia honrar. Porém, obtém ajuda de uma igreja batista que, através de uma comoção nacional, contribuiu para que o banco concedesse a ela viver gratuitamente em sua casa.

Rosa Parks faleceu em casa, em Detroit, no dia 24 de outubro de 2005, de causas naturais aos 92 anos. Seu caixão foi velado com honras da Guarda Nacional do estado de Michigan. E autoridades e lideranças dos movimentos civis compareceram ao seu funeral.

Ser cristão é militar todos os dias contra a maldade, disse o deputado estadual e pastor Carlos Bezerra Jr no workshop Política e Direito – no final do ano passado em uma igreja no centro de São Paulo, do qual eu pude participar.

É isso! Somos militantes da causa de Deus que já foi vencida, mas ainda está em curso. E é concedida à nós – no agora – nossa co-participação com Ele na História e consequentemente em nossa própria história. Por isso, ser cristã(o) e militar todos os dias contra a maldade é privilégio para pessoas tão comuns como eu e você.

Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela
Jeremias 29.7

 

_____
NOTAS:
1Trecho retirado do Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Parks

 

__________
A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Catherine Booth – Jan/2018

Catherine foi uma evangelista dedicada e juntamente com seu marido viveu “o Evangelho todo, para todo homem, para o homem todo”

Baixe o wallpaper do mêsDesktop1366px X 768px ou 1680px X 1050px
Tabletbaixar aqui  Celularbaixar aqui

Histórias de outras mulheres inspiram a minha caminhada. É como se eu ganhasse novos horizontes e pudesse experimentar o que viveram sem eu realmente ter vivido suas vidas ou seus feitos.

Geralmente, quando conheço uma escritora, musicista, professora, ou qualquer mulher que desperte em mim o desejo de também criar novos rumos, conhecer mais, ou olhar sob novas perspectivas velhas circunstâncias, tenho uma enorme curiosidade por saber mais sobre essa mulher. Quais eram seus hábitos? O que gostava de fazer nas horas vagas? O que a levou a criar tal coisa? O que despertou nela tal inquietação? Onde ela nasceu? Qual era o contexto de sua época?

No ano de 2017, me deparei com mulheres incrivelmente inspiradoras. Fui orientada por elas, tive minha visão ampliada e meu coração se encheu de alegria por conhece-las melhor – mesmo que a maioria delas não esteja mais aqui, no lado de cá da Eternidade. Elas foram verdadeiras amigas, confidentes fiéis e me guiaram ao que minha alma ansiava, apontando para Aquele que é, irresistivelmente, criativo e não se cansa em nos ensinar diretamente, mas também através de pessoas comuns, como eu e você.

Por mera curiosidade fui atrás da data de nascimento dessas mulheres e me surpreendi, pois, a maioria das escritoras que eu estava lendo eram contemporâneas entre si. Instantaneamente tive a ideia: -E se eu fizesse um calendário de mulheres inspiradoras, em que cada uma ocuparia um mês do ano, segundo seu mês de nascimento?

O design, rapidamente veio à minha cabeça. Em seguida, listei algumas mulheres que eu havia sido apresentada ao longo do ano, porém, a busca pelas demais continuou, afinal, eu tinha que garimpar, ao todo, 12 mulheres para preencher o ano! Como critério para este 1o calendário, decidi que elas deveriam ser nascidas entre 1830 a 1930. Tentei compor os meses com a maior variedade de profissões ou histórias, além de nacionalidades e contextos. Dei o meu melhor, procurando, selecionando, escolhendo os melhores elementos estéticos que traduzissem um pouquinho de quem eram, ou o legado que deixaram. Tenho certeza que para cada uma delas eu estarei apresentando apenas um fragmento do que realmente foram. Mas eu espero, do fundo do meu coração, que assim como eu, e mesmo com a minha limitada apresentação, ainda assim, vocês se sintam inspiradas(os), como eu fui! :)

. . . . .

Quem foi Catherine Mumford Booth?

A primeira mulher inspiradora do ano, chegou a mim, quando eu estava na Biblioteca de Teologia do Mackenzie, garimpando por mulheres e imersa naquele acervo todo. Aproveito inclusive para agradecer a meu pai, Eliezer, que sendo o bibliotecário de lá, me ajudou a pegar pilhas de livros para consulta e pacientemente descartar aqueles que eu não usaria, e principalmente não se importando com toda a bagunça que eu estava fazendo por lá rs.

Catherine nasceu na cidade de Ashbourne, em Derbyshire na Inglaterra, em 17 de janeiro de 18291. Ao que nos conta o livro: Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, Catherine desde pequena era uma leitora voraz da Bíblia. Por volta dos quatorze anos, devido a uma enfermidade na coluna, que a obrigava ficar recostada grande parte do seu tempo, experimentou sua real conversão. E unindo seu apetite voraz por conhecimento, nos anos seguintes, torna-se grande conhecedora de Teologia além da História da Igreja.

Aos 26 anos, casa-se com Willian Booth – em 16 de junho de 1855, em Londres. William, mesmo depois de casado continua a dedicar-se a campanhas evangelísticas pela igreja Metodista, e em 1858 é oficialmente consagrado como ministro metodista. Já Catherine, que também possuía grande apreço pelo evangelismo, certo dia, enquanto dirigia-se à igreja, em um domingo a noite, pensava como seria interessante fazer visitas domiciliares convidando as pessoas a conhecerem a Deus, e assim, nasce uma das características da organização, que seria a visitação de casa em casa.

A primeira oportunidade que Catherine teve de pregar publicamente, foi quando por motivo de doença, seu esposo não podia pregar, assim por nove semanas seguidas ela prega e dá seu testemunho publicamente, levando jornais da época a divulgarem tal feito, pois não era comum mulheres pregando publicamente.

Nunca se me permitiu ter mais um domingo de sossego enquanto tive bastante saúde para ficar de pé e falar. Tudo quanto fiz foi dar este primeiro passo. Não podia enxergar mais para adiante. Todavia o Senhor, como sempre o faz quando Seu povo é com Ele, honesto e obediente, abriu as janelas do céu e derramou uma benção tal que não havia lugar para contê-la.

relata Catherine sobre essa experiência2

Em 1864, o casal ministrava há um tempo reuniões independentes, pois William havia pedido demissão da denominação metodista durante a conferência anual metodista, celebrada em Liverpool, em 1861.

O foco do trabalho do casal, era levar a mensagem da salvação a mais e mais pessoas, nessa época, auge da Revolução Industrial, [c]onvenceu-se ele que os operários podiam ser mais eficazmente influenciados por homens e mulheres de sua própria classe, que compartilhavam de sua vida e falavam na linguagem de cada dia, antes que pela linguagem adotada pelos pastores no púlpito3 – descreve William. E é nesta mesma época, que Catherine começou também a celebrar cultos independentes de William, pois eles haviam decidido que poderiam ser mais eficazes na pregação da Palavra celebrando cultos distintos, assim poderiam alcançar cada vez mais e mais pessoas.

Em 1865, a Sra Booth foi convidada a dirigir uma breve missão em Rotherhithe, Londres. O que ela viu entre a gente pobre, e especialmente o trabalho feito pelo Movimento noturno para a restauração de mulheres decaídas, tornou-se em um apelo urgente ao seu coração. Julgou logo ser aqui a esfera pela qual orara e desejara desde a conferência de Liverpool que resultou em eles renunciarem seu lugar no Metodismo4.

E em julho de 1865, William é convidado a conduzir alguns serviços em uma tenda num antigo cemitério em Whitechapel e descreve essa experiência, anos depois, da seguinte forma:

Quando vi multidões de gente pobre, tantos deles tão evidentemente sem Deus e sem esperança, e vi que tão prontamente me ouviam, seguindo da reunião ao ar livre à tenda, e aceitando, em muitos casos, meu convite de se ajoelharem aos pés do Salvador ali mesmo, então meu coração inteiro se apegou a eles. Voltei a casa e disse a minha esposa: Oh, Catherine achei meu destino! Estas são as pessoas por cuja Salvação tenho almejado todos estes anos. Quando passava pelas portas do botequim esta noite me parecia ouvir uma voz que dizia: “Onde podes ir e achar tantos pagãos como estes aqui;”. Então ali mesmo ofereci minha alma, tu e as crianças a esta grande obra. Esta gente será nossa gente, e terão o nosso Deus como Deus deles”.5

E Catherine, se recorda deste momento:

Lembro-me (escreveu ela) da emoção que isto produziu na minha alma. O diabo me cochichou que “Isto significa mais uma partida”. A questão do nosso sustento constituiu uma dificuldade séria. Até então pudéramos fazer face as nossas despesas das coletas que recebíamos de assistências mais seletas. Porém era impossível esperar que pudéssemos fazer isto entre os pobres do Este, tínhamos até medo de pedir ofertas em tal localidade. 

Entretanto não respondi com desânimo. Depois duma pausa para meditação e oração, repliquei: “Bem, se pensas que deveremos ficar, fiquemos. Já confiamos em Deus para nosso sustento uma vez e podemos confiar dEle de novo”.6

Nesta noite, descrita por William como “Aquela noite”, depois de anos gestando, nasce o Exército de Salvação.

No ano de 1865 o Exército de Salvação surge na Inglaterra com William e Catherine Booth, em meio à Revolução Industrial, numa sociedade que passava por uma das maiores revoluções da sua história. Logo no início, sua luta era para que os pobres também pudessem frequentar as igrejas e assistir aos cultos como os outros de classes sociais mais favorecidas.

Desde seu início, os salvacionistas têm sido motivados pelo amor de DEUS e à Sua Criação Especial feita à Sua imagem e semelhança: o ser humano. Sua estrutura característica imitando o modelo militar, com hierarquia e uniformes, visa tornar a liderança mais ágil e facilitar a tomada de decisões.

Conscientes de que Deus ama as pessoas de forma singular e de que Ele quer atingir todas as áreas de suas vidas (o espiritual, o emocional, o social, o psicológico, o físico), os primeiros salvacionistas lançaram-se na luta para aliviar a humanidade sofredora, tendo essa visão holística do ser humano como um todo complexo e indivisível.

O slogan: “sopa, sabão, salvação” tornou-se um marco do Exército de Salvação e abalou as estruturas dos métodos das igrejas naquela época. Além disso, o Exército foi o primeiro a valorizar o trabalho feminino na igreja, deixando a mulher ocupar cargos que antes eram exercidos apenas por homens, contrariando, assim, as igrejas da época e dispensando parcerias importantes que se voltavam contra essa atitude.7

Porém, mesmo a organização valorizando e estimulando o trabalho feminino, passa-se um tempo até que mulheres de fato tivessem responsabilidades nos postos da missão, em lugares que poderiam exercer alguma autoridade sobre homens. Até que, em 1875, os fundadores resolvem fazer uma experiência nomeando uma evangelista mulher a frente do comando de Barking. E desde então, nenhuma hesitação séria sentiu-se em confiar as mulheres o comando dos postos, ou em manda-las fundar a obra em lugares onde o Exército ainda era desconhecido.8

Catherine e William tiveram 8 filhos e deixaram um grande legado, tanto para seus filhos, que puderam perpetuar os ensinamentos cristãos dando continuidade ao trabalho iniciado por seus pais, como também, para nós.

Catherine, falece aos 61 anos de idade, em 4 de outubro de 1890. Certamente ela foi uma grande inspiração em sua época, que era repleta de dificuldades assim como nos dias de hoje, mas também é fonte de inspiração em nossos dias. Ela escolheu ser uma mulher temente a Deus, compromissada a ouvi-Lo, obedecê-Lo e sobretudo a amá-Lo – e como consequência desse amor, serviu ao seu próximo da melhor maneira que pode. Que possamos também escutar o nosso chamado e segui-lo, mesmo em meio as dificuldades ou aparentes derrotas. E que possamos fazer o Eterno sorrir (Num 6.25 – A MSG) nessa História que, graças a Ele, somos coadjuvantes, porém, coadjuvantes totalmente ativas(os)! ;-)

_____
NOTAS:

1Como podem perceber, fiz uma concessão aqui rs, pois eu havia estipulado mulheres nascidas entre 1830 a 1930, mas achei Catherine tão significativa que quebrei a regra: acrescentei ela no calendário mesmo estando, por apenas 1 ano, fora do centenário estipulado.

2Frase de Catherine descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 20.

3Frase de William descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 24.

4Trecho retirado do livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 27.

5Frase de William descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 28.

6Frase de Catherine descrita no livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 28.

7Trecho retirado do site: http://www.exercitodesalvacao.org.br/quem-somos/nossa-historia

8Trecho retirado do livro Esboço da História do Exército de Salvação e seu Fundador, encontrado na página 50.

 

__________
A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quando alguém destrói algo em nós, de quem é a culpa?

É sempre um desafio a gente olhar para dentro de si para se conhecer – exercício fundamental para compreender de onde vêm nossas manias chatas, os traumas arrepiantes, as carências e os vícios grudentos  para, então, a partir do que encontramos em nós, tentarmos nos lapidar e nos tornar seres mais “convivíveis”. Nesse mergulho, encontramos de tudo, entulho nosso e (muito) entulho jogado por outros, nas vivências mais diversas do processo penoso que é o de crescer e amadurecer. Uma dessas vivências, geradora de um grande dano na parte que corresponde à minha criatividade, tem voltado à minha mente com frequência nos últimos tempos.

Era um colégio de elite esse que eu estudei como bolsista praticamente a minha vida inteira. Nele existiam dois grandes ateliês de arte. Um deles, destinado às aulas de artes plásticas, tinha mesas grandes e altas, com vãos largos embaixo, onde se acomodavam perfeitamente as nossas folhas de papel A3. Prateleiras cheias de materiais diferentes –  coloridos, espessos, lisos, rugosos, translúcidos, opacos -, grandes potes com pincéis de espessuras variadas, blocos de argila, papéis em rolo, em dobraduras, em pilhas, de todos os formatos e tipos. Estiletes, réguas, espátulas, palitos e todas as ferramentas possíveis repousavam ali, nesse lindo ateliê. O outro ateliê servia às nossas aulas de artes aplicadas e ali lidávamos com serras, lixas, vernizes, telas, madeiras e outros materiais mais robustos para produzirmos utilidades. Tudo isso compunha uma estrutura incrível e invejável.

Mas foram nesses espaços equipados e incríveis que eu vivi algumas das crises mais agudas de nervosismo da minha formação escolar.  Porque foi ali que eu tremia de medo da professora, que logo me dava uma nota vermelha pelo meu traço inábil. Não havia nada que me fizesse crescer naquele espaço; pelo contrário, a cada ano eu me sentia menor e menor. Técnica de vitral? Eu rasgava o papel. Escultura em argila? A cabeça do padre que eu esculpi insistia em despencar do corpo. Pontilismo? Os meus pontos distavam tanto um do outro, que quando um gritava o outro não conseguia ouvir. E, assim, de nota baixa em nota baixa e após muitos comentários negativos da minha professora quanto ao meu trabalho, fui me convencendo de que eu era um monstro do lago Ness das artes visuais – um desastre sem esperança.

Como vocês podem imaginar, minha formação como profissional passou longe das tesouras e das tintas. Tornei-me educadora.  Trabalho hoje numa escola, em que o foco não é a perfeição ou a técnica , mas as habilidades de um estudante. Ele não entende a relação do passado com o presente? Vamos ajudá-lo a entender, contando sobre a origem da família dele… O raciocínio está lento? Fazemos uma feira de trocas para despertá-lo… A criatividade anda meio travada? Fala com a Luciana, porque ela é especialista em falta de criatividade. Hahaha! Bom, piadinha infame à parte, foi nessa escola que tive um grande confronto: eu e a criatividade, cara a cara, depois de todos esses anos. Porque se a criatividade é uma habilidade – e, de fato, é e é uma das mais cruciais para a vida – como eu a estimularia nos meus estudantes, sendo que eu mesma tenho medo dela e a evito a todo custo?? E, assim, tive que destrancar aquele quarto escuro dentro de mim e tatear pelos cantos até encontrar a criatividade ali, mirradinha e desnutrida. Tive que olhar para ela e convencê-la de que tinha potencial para renascer de mim e em mim. Que difícil! E como alguém que tenta escrever com a mão não-dominante, eu, a de traço inábil, me arrisquei em algumas atividades criativas. Até um grupo de escrita criativa eu estou orientando! (pois é, não foi só nas artes visuais que fui lesada)

Guardo uma mágoa profunda dessa professora de artes, confesso. Ela tinha nas mãos o material mais precioso que um artista pode querer – nós, estudantes novinhos e maleáveis, de mente aberta e fresquinha – e ela escolheu alguns (eu inclusive) para deixar esturricando no forno castrador de imaginações. Mas aí volto à ideia do olhar para dentro, que escrevi no primeiro parágrafo. Ao localizarmos episódios como esse no nosso passado, o que fazemos em seguida? Nos entregamos? Nos tornamos eternas vítimas? Vamos reclamar e reclamar? Um primo meu uma vez me ensinou algo que ele aprendeu depois de muita terapia: a partir do momento em que identificamos os “vilões” de nossos traumas, eles automaticamente deixam de ser os vilões e nós as vítimas, porque o que fazemos a partir dessa descoberta passa a ser escolha nossa, responsabilidade nossa. Os vilões nada mais têm a ver com isso.

Ainda tenho uma relação delicada com a criatividade. Nós nos entendemos só com extremo esforço e bem de vez em quando. Mas é dela que mais preciso agora, justamente para encontrar caminhos que me afastem da autopiedade e do vitimismo por carregar na cabeça um mundinho limitado. Li num livro sobre uma das características do Espírito Santo, que era o de ser infinitamente criativo. Respiro aliviada por saber que eu mesma (e mais ninguém por mim), agraciada pelo Espírito Santo, posso perfeitamente encontrar o caminho da cura.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.