#meuamigosecreto

 

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Original e muito propícia a iniciativa que mulheres tiveram nas redes sociais hoje, 25, Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. Usando a hashtag #meuamigosecreto para não identificar de quem falavam, essas mulheres denunciaram pessoas conhecidas delas, que praticam algum tipo de machismo – desde piadinhas ‘inofensivas’ até abusos – contra a mulher e que passam despercebidas. As declarações que li foram corajosas, tocantes. Impossível não se revoltar contra (e imaginar quem seriam) aqueles “amigos” secretos todos.

De modo geral, sou bastante desconfiada dessas campanhas em redes sociais, que costumam ser ineficientes quando o objeto contra ou a favor do qual elas se manifestam estão muito além da foto do perfil. Mas desta vez, a campanha foi ambiciosa na medida certa: alcançar os próprios contatos e, esperançosamente, atingir aquele cara, ele mesmo, o alvo da denúncia. Fiquei pensando o que eu escreveria se fosse denunciar o #meuamigosecreto. Descobri, com muito desconforto, que ele não leria o meu desabafo, porque há muitos anos me bloqueou de seu Facebook.

O exercício de pensar nessa pessoa e em tudo o que eu diria a respeito dela fez com que eu me deparasse com uma realidade: a ferida ainda sangra. E sangra tanto, que eu nem conseguiria usar palavras na minha denúncia para distinguir uma violação de outra; tudo que vem à minha mente são imagens, como um cinema mudo. E o mais triste é pensar que ele agiu dessa forma acreditando estar certo e – que absurdo! – bíblico.

Por anos pedi a Deus que me curasse da lembrança dos abusos que sofri. Por anos acreditei que havia sido curada – pelo menos, em parte (junto com o pedido da cura, eu sempre orei a Deus que esfregasse no nariz dessa pessoa todas as agressões emocionais que ele cometeu contra mim). Deus ainda não me atendeu completamente, mas acredito que seja por um propósito, por empatia, por outras mulheres, por sororidade. Não quero estar alheia às minhas irmãs. Não quero estar no patamar “deste-mal-eu-não-sofro”, ou ficar prescrevendo soluções rápidas, como se misoginia fosse fantasia de cabeça desocupada. Não! Quero ser curada sim, mas quero levar todas as mulheres comigo. E é por isso que oro. Oro por mim, por você, pela nossa ferida que sangra e que não sabemos até quando irá sangrar.

(a foto que ilustra este post foi clicada pelo artista Janssem Cardoso)


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Sobre a coisificação da mulher e o filho que quero ter

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Sabem, um dia eu quero ter um filho. Um menino. Que será um garoto, um rapaz e um homem.

E eu farei o meu possível pra ele ser um cara do bem, de caráter adequado e, entre outras coisas, que respeite as mulheres.

Que ele não torça o pescoço pra olhá-las. Que não diga palavras ou frases obscenas quando elas passarem. Que não as encare com olhar psicopata como se estivesse tirando suas roupas em pensamento. Que não as assuste com gracinhas indiscretas (nem discretas, aliás, se é que tem isso). Que não as olhe como se fossem vitrines, só porque lhe chamaram atenção. Que não seja grosseiro, não buzine, não assobie, não as trate como coisas.
Estou cansada de ser desrespeitada na rua, por homens tão otários.

Minha raiva e os elogios do meu professor de muay thai me estimulam a socar suas caras e dar uma joelhada em suas genitálias. Meu medo bambeia minhas pernas e me estimula a andar mais rápido e sair logo de perto. Meu nojo me causa engulho. Meus pensamentos se concentram em apenas pedir proteção a meu Deus.

Falando em Deus, que também é Jesus, fico pensando no quanto esse Jesus é julgado de retrógrado e até machista, mas que, na realidade, tratou as mulheres de um jeito que esses homens babacas deviam aprender a tratar. Como quando uma vez, numa viagem, no meio do caminho, ele encontrou uma mulher samaritana¹ – com quem ele, como judeu, não poderia conversar – tirando água de um poço. As mulheres já eram subjugadas nessa época e tratadas de forma inferior. Jesus poderia ter sido grosseiro com ela, como tantos homens são, mas não foi. Ele estava com sede e pediu “por favor” por um pouco de água. Ele conversou com ela, escutou o que ela tinha a dizer, foi educado, gentil, prestativo, não deu em cima dela. E ainda falou de algo bom que ele tinha e poderia compartilhar com ela, se ela quisesse: uma vida que fazia sentido.

O mundo está abarrotado de homens idiotas.
Tive a benção de não me casar com um e tenho fé de que não serei mãe de algum.

E a você, mulher, que se sente valorizada quando um desgraçado mexe com você na rua: meus lamentos.

¹Referência bibliográfica: João 4:7-41 – Bíblia.

(Imagem: daqui).


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.