Mulheres Inspiradoras: Archimínia de Meirelles Barreto – Jul/2018

A filha de padre Archiminia Barreto (1845-1930): convertida ao evangelho de Cristo, defendeu sua fé e escreveu contra a idolatria [1]

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Por todos os títulos a memória desta distinta irmã merece ser perpetuada entre nós. A sua rara fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo desde a sua conversão, já há muitos anos, diante dos constantes esforços do clero romano para induzi-la a voltar à fé abjurada, como também os seus relevantes serviços prestados à Causa, com sua pena burilada, jamais devem ser esquecidos pelos batistas brasileiros. [2]

Introdução
Archimínia de Meirelles Barreto nasceu em 12 de julho de 1845, em Inhambupe, Bahia. Era filha do padre Fernandes Pinto Meirelles Barreto e D. Leopoldina Theodolina de Castro. Ela recebeu esmerada educação de seu pai. Dominava o latim e falava bem o francês. Com trinta anos obteve nomeação para o exercício do magistério público. Foi a primeira professora pública na Bahia de 1875, ainda sob o Império.

Digno de destaque é o fato de que sua filiação nunca foi ocultada, seu pai padre teve seis filhos, por ele legitimados.

Archimínia casou-se com Joaquim Euthychio de Oliveira e teve duas filhas. Ela professou a fé em Cristo em 05 de fevereiro de 1893, juntamente com sua irmã Jacquelina, na Primeira Igreja Batista da Bahia e, no mesmo dia foram batizadas pelo missionário Zacarias Clay Taylor. [3]

Archimínia: mulher destemida e apologista intrépida
Após sua conversão, e por causa dela, foi abandonada pelo marido e por outros parentes. Foi morar, então, com sua irmã viúva Jacquelina, juntamente com suas duas filhas: Eunice e Evangelina.

Sofreu perseguição por se tornar protestante, sendo transferida diversas vezes sob a acusação de que “tinha parte com o diabo”. Os pais de seus alunos, ao saberem de sua fé, os retiravam da escola e um inspetor aconselhou-a a abdicar de sua fé. Mas, ela respondeu tão energicamente, repreendendo-o por invadir a seara de sua consciência, que ele se tornou seu melhor defensor.

Archimínia afirmou que: “Quem quer que se dê ao trabalho de estudar o que tem sido a religião de Jesus Cristo desde os seus primeiros tempos verá que toda a sua pureza vai desaparecendo à proporção que a Roma dos papas vai lhe adicionando inovações”. [4]

Bastante preocupada com essa impureza no cristianismo de sua época, Archimínia dedicou-se a escrever artigos nos quais refutava a idolatria, afirmando que: “O vosso culto sublime e santificador, a adoração da vossa boa e terna Mãe de Deus, é tanto idolatria como o era a adoração das deusas do paganismo: e os protestantes tão perversos e ímpios como o foram os cristãos, que nunca se prostraram diante de suas imagens tão prezadas. [5]

A escritora escrevia em periódicos e jornais seculares e, em todas as suas crônicas, não dava tréguas aos padres que tentavam de todos os meios impedir que os jornais da cidade publicassem seus escritos. [6]

Sua contribuição à literatura evangélica não se limitou, porém aos artigos polêmicos, pois escreveu também folhetos de edificação e evangelização. Ela também foi responsável pela Seção Feminina do Jornal Batista por mais de uma década, onde escreveu artigos endereçados às mulheres, destacando sua missão como mãe, esposa, filha e mestra.

Archimínia foi atuante também em sua igreja, sendo professora da Escola Dominical, evangelista, e tendo sido escolhida por algum tempo como diretora dos cultos da Igreja de Villa Nova, na ausência do pastor. Archiminia também pregava e “foi ela, pela sua pregação, que levou a Cristo o jovem Francisco José da Silva, a quem Taylor denominava ‘o apóstolo do Estado do Espírito Santo’”. [7]

Archimínia e seu livro “Mitologia Dupla”
Foi aconselhado à Archimínia pelo pastor Zacharias Taylor, pioneiro dos batistas na Bahia, que escrevesse uma obra sobre a idolatria. Como estrangeiro, o pastor tomava bastante cuidado para não ofender os brasileiros falando sobre o assunto. Com temor, ela aceitou o desafio, movida pela vontade de apresentar aos seus contemporâneos a mensagem do evangelho, tal como se encontrava na Bíblia:

Eu, porém, que suportei diretamente, por muitos anos, esta cegueira espiritual, desejei ardentemente iluminar a minha pátria, tão digna de melhor sorte, a fim de elevarmos o nosso espírito para o infinito, desprendendo-nos de objetos materiais. Bem sabia eu que uma idéia desconhecida é sempre mal recebida; mas, que importa? A verdade, cedo ou tarde, triunfará!

No desejo de fazer triunfar a verdade evangélica, a senhora baiana dedicou-se a escrever seu livro, com humildade e modéstia, afirmando uma nulidade literária, que não conduzia com sua capacidade bem demonstrada no texto que entregou ao público brasileiro.

Como filha de padre, Archimínia bem conhecia o catolicismo e na introdução de seu livro informou que: “filhos de católicos romanos, temos a desdita de receber em criança, sem prévio exame, esse presente de gregos à guisa de religião, e inconscientemente levamos esse cavalo de Tróia para o capitólio da nossa alma!”. [8]

Por esse trecho de seu livro percebe-se a intelectualidade de Archimínia. Ela comparou o presente dos gregos, o cavalo de Tróia, onde se abrigavam soldados inimigos, com as inovações abrigadas pela religiosidade brasileira, cheia de lendas, de cerimônias e de festas iguais às da antiga mitologia. Por isso intitulou sua obra de “Mitologia Dupla” e nela demonstrou as semelhanças da idolatria da religiosidade brasileira com a mitologia pagã.

Como exemplo do conteúdo do livro, segue-se uma comparação feita pela autora das divindades antigas e modernas:

TEXTO DA ÉPOCA:

[9] [10]

De comparação em comparação segue o livro de Archimínia, dividido em cinco partes: na primeira, ela comparou as divindades de Roma antiga e moderna; na segunda, discorreu sobre as invocações e cerimônias; na terceira, escreveu sobre as festas; na quarta tratou das superstições e na última parte apresentou Maria versus Maozim. [11]

Na conclusão de seu livro, a autora afirmou que:

De Jerusalém saiu o evangelho, e de Roma, a idolatria. Jesus é um rei eterno, e o Papa um homem negociante de almas. Sirvamos ao nosso Rei, a despeito dos mercadores de Roma. A Ele, o Deus de toda a Glória, Pai, Filho, e Espírito Santo, sejam todas as glórias para todo o sempre. Amém. [12]

Herança de Archimínia: intrepidez e ousadia
Archimínia foi a apologista da época, corajosa, intrépida e que não temia as perseguições. Com destemor escreveu seus artigos nos jornais, enfrentou as hostilidades de parentes e amigos e criou, sozinha, suas filhas. O seu objetivo com o estudo e apresentação do sincretismo, mistura de santos com deuses pagãos, era de que essa idolatria fosse enxergada e abolida da crença brasileira.

Muitos anos depois, alguns seguidores do candomblé baiano, herdeiros da religiosidade africana, perceberam e rejeitaram seu próprio sincretismo, que era a mistura dos santos com seus orixás.

Em uma reportagem da Revista Veja, de 01 de março de 2000, com o título de: “Abaixo os santos: expoentes do candomblé baiano não querem mais saber de sincretismo com os católicos”, o autor do artigo fez também uma comparação, parecida com a pioneira apologista batista, como pode ser verificado a seguir:

Na realidade, a mitologia não é somente dupla como escreveu Archimínia, mas é tripla ou até mais multifacetada, conforme as misturas que vão se incorporando, pouco a pouco, ao cristianismo brasileiro, que de tão descaracterizado nem devia mais receber essa denominação.

Ebenezer Cavalcanti, o escritor do esboço biográfico de Archimínia, reconhecendo seu valor, destacou que: “Sua obra completa deve ser reunida e publicada. Bem que seu nome merece ser perpetuado por algum setor pertinente da obra feminina batista no Brasil. Foi pioneira e heroína”. [13]

Após longa enfermidade, Archimínia morreu, aos oitenta e sete anos, em 20 de janeiro de 1930.  A Primeira Igreja Batista da Bahia registrou em ata alguns trabalhos de sua vida cristã, onde foi destacada como um modelo de mulher a ser seguido pela comunidade.

O Jornal Batista, em seu editorial de 20 de março de 1930, lamentou o seu falecimento e elogiou seu trabalho de “escriptora fecunda que, pelo seu zelo, energia e competência, escreveu em jornais e pamphletos”. Nesse necrológio, o redator não encontrando adjetivo apropriado para as qualificações de Archiminia, declarou que: “a veneranda irmã D. Archyminia Barreto, professora aposentada do estado tinha um caracter másculo e cristão”. [14]

Esse comentário refletiu bem a mentalidade de que a firmeza de caráter e a fidelidade em defender doutrinas só podiam ser privilégios da personalidade masculina. Mas, sabemos que todas nós, verdadeiras cristãs, somos capazes de defender a nossa fé e não nos deixarmos influenciar pela filosofia pós-moderna que tem causado tantos danos aos valores morais e espirituais.

Portanto, minhas queridas, inspiradas por Archimínia, preguemos o evangelho e, com ousadia confrontemos a filosofia da sociedade atual que prega o relativismo, a ausência de paradigmas e a permissividade. Amemos mais as pessoas, mais do que as respeitamos, pois, se ficarmos só no respeito ao que creem, não lhes apresentaremos Cristo, como verdadeiro caminho, verdade e vida.

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NOTAS:

[1] Resumo biográfico extraído das seguintes fontes:
BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 7; 9-11; 13-15;
CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 1/2/8.
CRABTREE, A. R. História dos Baptistas do Brasil até o anno de 1906. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Baptista, 1937, p. 159.
SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de doutorado apresentado ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1998, p. 338-343.

[2] W. E. Entzminger na apresentação da 2ª edição do livro Mitologia dupla, em 01 de outubro de 1925.

[3] Curiosidade: na ata da igreja constam seus nomes antecedidos por S.S. D.D. (senhoras donas).

[4] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, ou religião católica e sua máscara, p. 13.

[5] BARRETO, Archiminia. “Cobrir os céos com os dedos ou a immaculada conceição de Maria”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1905, p. 3.

[6] MESQUITA, Antonio Neves de. História dos Batistas do Brasil. Vol. IIde 1907 até 1935. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1940, p. 68.

[7] PEREIRA, José dos Reis. História dos Batistas no Brasil: 1882-1982, p. 70.

[8] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 13-14.

[9] Caduceu: bastão com duas serpentes enroladas.

[10] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 29-30.

[11] Maozim: ídolo que Antíoco Epifânio, perseguidor dos judeus, quis que fosse cultuado nos anos de 164 a 174 a. C. Maozim era um novo deus introduzido no templo que desviava a adoração devida somente ao verdadeiro Deus de Israel. Archiminia alertava que a veneração à Maria desviava as almas da verdadeira rocha viva: Jesus, o Filho do Deus vivo.

[12] BARRETO, Archiminia. Mitologia dupla, p. 253. Obs: grifo da autora.

[13] CAVALCANTI, Ebenézer. Archiminia Barreto. O Jornal Batista. 02 de novembro de 1969, p. 8.

[14] “Professora Archyminia Barreto”. O Jornal Baptista. Rio de Janeiro, 20 de março de 1930, p. 3, citado por SILVA, Elizete da. “Cidadãos de Outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia”, p. 342.

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Rute Salviano Almeida, pernambucana que sempre viveu em São Paulo. Apaixonada pelo ensino, foi professora por quase 20 anos na Faculdade Teológica Batista de Campinas. É licenciada em Estudos Sociais, bacharel e Mestre em Teologia e pós graduada em História do Cristianismo. Escreve sobre a participação feminina na Igreja. Seus livros são : Uma voz feminina na Reforma, Uma voz feminina calada pela Inquisição, Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro e Vozes femininas no início do cristianismo. Todos publicados pela Editora Hagnos.

Os Ritmos da Vida

Nossos ritmos mudam, não são constantes. Nós também temos estações.

Foto de Anthony Tran

As estações marcam os diferentes ritmos de quem está vivo. Sim, somente alguém vivo pode ter a liberdade necessária para responder de forma diferente aos diferentes momentos da vida.

Uma planta passa um bom tempo lançando suas raízes sob o solo até romper a terra e crescer. Ela experimenta cada estação, recebendo dela o que precisa, a chuva, a seca, o sol, os pássaros… Ela oferece em cada estação o que é capaz de produzir em cada momento, em ritmos diferentes, as folhas, os frutos, as flores, a sombra, os galhos… E vê, na estação seguinte, a renovação e a continuação da vida, as folhas caem, os frutos amadurecem, as flores murcham, novos galhos nascem…

É o longo e lento ciclo da vida. Ao longo de uma vida inteira, nossos ritmos variam de acordo com a nossa energia e disposição, maturidade e experiência, necessidade e prioridade. Nossos ritmos mudam, não são constantes. Nós também temos estações.

Estações da Alma

As estações não são apenas as realidades que ocorrem fora de nós e ao nosso redor, nos céus e nas árvores. As estações também são internas e pessoais, estão entrelaçadas no tecido da vida humana. Nós somos projetados para transição, para mudar e para variar. Nossas almas têm estações. (1)

Mas quando vivemos em um mundo que não muda exteriormente (aqui é sempre verão), não precisamos esperar para plantar e colher (basta ir ao supermercado, inclusive aos feriados) e onde o ritmo é marcado pelo trabalho constante (pressa e ansiedade), é automático aprender a ignorar as estações internas e a (se forçar a) viver uma vida imutável, com o mesmo ritmo.

Vivemos um ritmo de trabalho cada vez mais intenso durante a semana. Não dormimos o suficiente e não temos tempo para fazer outras coisas, além do trabalho. Coisas como aprender a amar, aprender a cuidar de alguém mais vulnerável, conhecer melhor a si mesmo e descobrir como viver melhor. Lembrar de alguém e ligar para conversar um pouco, ler a Bíblia para alguém, experimentar abrir mão de algo muito importante por causa de outra pessoa. Orar, aprender a ser vulnerável e a confiar, viajar, visitar alguém, descansar o coração, esperar por algo importante com paciência, perdoar. Fazer um bolo para alguém, se divertir muito, fazer companhia para alguém que está em um momento difícil. Fazer um bolo para você, se perdoar, ler um livro com uma boa xícara de chá ou café, sem pressa…

Nos tornamos máquinas de produção ao invés de pessoas vivas, cujas estações nos moldam, nos formam. Somos zumbis. Pessoas que já não estão mais vivas e, por isso, são incapazes de viver o presente e de responder ao que cada estação nos traz para ser vivido em liberdade.

Ignoramos o processo lento (e doloroso) de transformação pessoal, de crescimento, de santificação. Desrespeitamos os ritmos necessários para esse processo acontecer. E estamos colhendo os resultados… imaturidade, esterilidade, falta de sentido, exaustão.

Não fomos feitos para nos movermos sempre no mesmo ritmo, fazer as mesmas atividades e sentir os mesmos sentimentos durante todo o ano. Os seres humanos, assim como o mundo natural, devem passar por períodos de dormência e nova vida, atividade e contemplação, celebração e tristeza, flores e colheitas, abertura e fechamento, austeridade e abundância. (1)

As estações servem como um livro de aula para a alma, instruindo-nos quando devemos andar mais rápido e quando diminuir a velocidade, quando agir e quando descansar, quando se concentrar no mundo lá fora e quando hibernar e descer fundo. Se ignorarmos as lições das estações, podemos ceder à pressão para correr o tempo todo. Podemos nos encontrar inquietos e exaustos sem ter ideia do porquê. (1)

Portanto, precisamos com urgência ter olhos para ver as estações da vida. Parar de enxergar o que acontece com monotonia e simplesmente se deixar levar pela pressão de continuar correndo. E ao enxergar, é necessário escolher, intencionalmente, viver os diferentes ritmos de cada estação. Viver com sentido. Viver como alguém vivo que têm consciência do que está acontecendo e liberdade para responder de maneira adequada.

As mudanças estão lá fora e aqui dentro de nós, mas precisamos prestar atenção às sutilezas. As estações são exercícios de atenção. Um vento que sopra mais frio, a luz mais alaranjada ao final do dia. Uma estação de espera e reflexão, outra de criatividade e produtividade. É preciso ter olhos para ver a mudança dentro de nós e respeitá-la. Admirá-la. Mudar o ritmo sugerido por ela. Deixar que ela nos molde e ensine o que precisamos aprender neste momento. Ver qual é o ritmo necessário para o momento presente.

É preciso, então, fazer a escolha de aceitar as mudanças e viver as estações. No nível micro, nos ritmos do dia e da semana. É sábado e tenho um milhão de coisas para fazer, mas posso escolher diminuir o ritmo e descansar (dormir um pouco mais, ler, assistir um filme, estar com quem eu amo). É uma semana com excesso de trabalho, então posso escolher cuidar dos detalhes que trarão equilíbrio (dormir e comer melhor, não sair atropelando as pessoas, levar a ansiedade em oração, ter momentos de solitude e silêncio).

Diante de um ritmo sempre intenso de trabalho, é necessário escolher parar ao final do dia. E se a casa também tem um ritmo intenso, é necessário encontrar alternativas para diminuir a correria em família. Ter boas conversas ao redor da mesa, colocar os filhos para dormir cedo, ter um momento de oração.

E, também, aprender a viver as estações no nível macro, nos ritmos das estações da vida, nos períodos maiores, nos meses e anos. Os ritmos nos moldam e se tornam hábitos invisíveis que forjam quem estamos nos tornando. É necessário ter olhos para enxergar as estações que estamos vivendo e exercer nossa liberdade na forma como escolhemos experimentá-las, respeitando os diferentes ritmos que elas nos trazem. Sendo moldados pelas diferentes estações, crescemos e nos fortalecemos de maneira saudável e natural.

Calendário da Alma

Já conversamos aqui sobre a importância de seguirmos um calendário diferente do que nos é imposto pelo mercado de trabalho e de consumo. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa maior e onde aprendemos que o tempo não pertence a nós.

As estações do Calendário Cristão também têm ritmos diferentes. Ritmos que nos ensinam a esperar em expectativa, a ficar só e a estar junto, a renunciar e a receber, a se arrepender e a celebrar. Os ritmos das estações do Calendário Cristão nutrem as estações da nossa alma, como o solo, o sol e a chuva e trazem o suficiente necessário para nos fazer crescer e fortalecer.

No próximo domingo (03/12/2017), entraremos na estação do Advento, onde começa o Ano Novo do Calendário Cristão. A estação do Advento é formada pelas quatro semanas que antecedem o Natal. É uma época de espera e antecipação, cujos ritmos nos levam a viver a expectativa das promessas descritas nas profecias sobre a vinda de Jesus e os acontecimentos marcantes de seu nascimento. Tempo de aprender sobre as implicações para a nossa vida atual do fato de que temos um Deus que assume o nosso lugar e providencia os meios para nossa salvação. Também nos prepara para viver enquanto esperamos a segunda vinda de Jesus.

Então, é uma estação para diminuir o ritmo e receber as dádivas do descanso, contentamento, quietude e espera. A vida cristã é uma vida de espera, baseada em promessas graciosamente dadas pelo nosso Deus. Uma espera que exercita e fortalece a nossa fé, diante do que ainda não vemos, diante de nossa realidade.

A espera que experimentamos em nossas circunstâncias mais adversas pode ser acolhida pela espera do Advento. Vivida em esperança. Enxergada por outra perspectiva. Iluminada pelas promessas de Deus.

Ao vivermos o ritmo da estação do Advento, permitimos que novos hábitos sejam formados em nós, emoções reorientadas, compreensão fortalecida. Em especial, quando estamos imersos em um ritmo desesperado de atividades de final de ano (fim de semestre, cobranças, pressões, dead lines, etc…). Pressa, correria, além de hábitos de consumo e ideias distorcidas sobre o significado do Natal.

Sem dúvida, os varejistas desempenham um papel em nossa angústia. Eles nos condicionaram, de forma brilhante, a associar datas no calendário com produtos e atividades particulares. (1)

Pensando nisso, que tal organizar o seu final de ano de modo diferente? Você consegue identificar os ritmos que estão te pressionando neste final de ano? Como você está vivendo as suas semanas e os seus dias à medida que enxerga que o ano está acabando? Que sentimentos aparecem? Que hábitos invisíveis estão sendo repetidos todo final de ano em sua vida e estão te formando? Como isso influencia a estação que você está vivendo agora?

A estação do Advento nos prepara para o Natal e marca o início de um novo ano em nossa vida. É a estação que nos capacita a reduzir o ritmo e a esperar. Marca a contagem do tempo. Nos prepara para vivermos o novo ano que já aparece gigante diante de nós em um relacionamento com Deus. Nos capacita a desenvolver hábitos de obediência e santidade.

Deus nos criou para desenvolvermos hábitos lentos de obediência e santidade. E, através deles, aprendermos a viver pela fé, ao invés de nossas percepções e emoções. A espera nos ensina a confiar mais na verdade do que Deus diz do que nos impulsos do que vemos ou de como nos sentimos. (2)

O efeito da transformação lenta e incremental através do exercício do hábito, ao invés do impulso, desenvolve ao longo do tempo afeições mais profundas, mais ricas, mais complexas. Integra nossas crenças em nosso ser inteiro. (2)

Assim, eu te convido a deixar o conformismo e o comodismo, e a enxergar as estações que o próprio Deus tem preparado para você viver. Aceitar que você está vivo, e isto significa que está crescendo, sempre aprendendo algo, sempre sendo transformado, sempre sendo confrontado com suas ilusões e desafiado a ter fé. Para que dê frutos sim, e flores, e sombra, e alimento… e para que atinja a maturidade e a manifeste em todas as áreas da sua vida, em seus relacionamentos e trabalho.

Precisamos aceitar que estamos vivos à medida que permanecemos na Videira verdadeira e respondemos com ela às estações apropriadas (João 15). Viver a estação presente em um relacionamento com Deus, usando os recursos que Ele nos deixou para enxergarmos o nosso tempo a partir da narrativa dele, didaticamente organizada no Calendário Cristão.

As várias estações da sua alma são sua garantia de que não só sua jornada com Deus é real, mas sua história ainda não acabou. Deus mesmo acompanha você através das estações em mudança, garante que você não fique preso, e obtém a última palavra sobre tudo o que lhe diz respeito, porque Ele se preocupa com você. As estações são uma expressão de sua intencionalidade para nos manter avançando, progredindo e crescendo. (3)

Portanto, aproveite as riquezas da estação do Advento para escolher intencionalmente viver a estação e se deixar moldar por um ritmo diferente. Pelo ritmo da narrativa de Deus para sua vida. E a receber dele tudo o que precisa para se fortalecer, neste momento em que está.

No início, pode ser incômodo e você pode até sentir falta de estar com pressa e correndo, sentir falta do ruído e do barulho. Afinal, estamos sendo moldados a viver assim, correndo. Como toda mudança de hábitos, exige persistência e continuidade. Então, faça esse esforço de se submeter a um ritmo mais saudável de vida, onde o tempo é vivido com consciência e sentido. Onde sua fé não está separada do restante da sua vida, mas sustenta o relacionamento com um Deus que é Senhor de toda a sua vida.

Foto de Warren Wong

Como já dissemos antes, é preciso ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia.

Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura.

Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

Me conte a sua experiência nos comentários ou por e-mail (vabelmonte@gmail.com). 😊

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Referências citadas ao longo do texto:

(1) Adam McHugh, em Seasons of the Soul.
(2) Jon Bloom, em Be Patient with Your Slow Growth.
(3) Elizabeth Enlow, em God in Every Season.

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Texto publicado originalmente em LecionárioOs Ritmos da Vida

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Não quero falar por falar

E isso não significa guardar o que sinto em meus silêncios

Choi Mi Kyung: Ensee — http://www.ens2e.com

Quando a multidão de palavras tentar saltar da minha boca, quero abraçar a minha língua, fechar os olhos e enxergar os desejos que as empurram para fora do meu peito. Quero respirar fundo e salvá-las dos meus desentendimentos.

É que quando as deixamos controlar nossos disparates, machucamos. E não apenas aos outros, mas a nós mesmos, principalmente. São alguns segundos de meias palavras sem controle que podem trincar ou quebrar as vidraças dos relacionamentos.

No entanto, não são as palavras que devemos condenar, mas a nossa falta de bom senso, de autocontrole e de sabedoria.

É difícil não responder “à altura” quando nos desafiam violentamente, ignorando nossas necessidades e, pior ainda, nossos pedidos.

Por isso, é importante saber escolher, além dos melhores momentos, cada vírgula que iremos usar para expor o que sentimos e o que pensamos. Melhor ainda é externalizar, também, olhando nos olhos, transmitindo calor e verdade, além de respeito.

Quantas vezes deixamos a dor, a raiva e a ira controlar o que dissemos e, o mais importante, a forma como dissemos? Às vezes, as motivações não eram reais ou bem fundamentadas e depois nossas desculpas são seguidas por um “falei por falar”.

Não fiquemos escrevendo, por aí, nas redes sociais, mas falemos — ao vivo, presencialmente — ao ponto de escutarem até as nossas pausas (e isso serve também para as declarações de amor).

Será que somos capaz de entregar pessoalmente aquele textão?

Não destilemos ódio, insatisfações e frustrações à toa. Saibamos olhar para dentro, antes de colocar para fora, inclusive, o que ainda estamos construindo em nós.

 

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Texto publicado originalmente em Karol Coelhohttps://medium.com/@karolcoelho/não-quero-falar-por-falar-38103f72bb62

 


Karol Coelho ama as nuvens, adora descobrir músicas de dois acordes para tocar no seu violão velho, escreve poesias e tem um livro chamado “Estado Atmosférico”. É jornalista formada principalmente pelas histórias do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, lugar que cresceu. É integrante da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, parte da diretoria executiva da Escola de Notícias e trabalha na comunicação do Atados. Não perde a oportunidade de tirar sonecas!

A liturgia do ordinário

Encontrando o Sagrado na rotina comum da vida diária e entendendo o tempo.

Foto de Wil Stewart

A nossa rotina, as coisas que fazemos e como as fazemos, a forma como gastamos o nosso tempo, as demandas que nos ocupam, o jeito que vivemos cada dia ordinário de 24 horas… importam grandemente e são o substrato onde Deus nos encontra, nos transforma, nos ensina a amá-lo e a amar os outros.

A divisão entre secular e sagrado é tão natural em nossa mente que normalmente separamos Deus das coisas ordinárias da vida, associando-o com situações mais ‘santas’ como um momento de oração, uma reunião da igreja, o culto, etc.

Afinal, o que há de sagrado em acordar e escovar os dentes, arrumar a casa, responder uma lista infinita de emails e mensagens de WhatsApp, ficar parada no trânsito, comer, lavar a louça, tomar banho, lavar roupa, trabalhar, encontrar com as pessoas, participar de reuniões, conversar ao telefone, consertar coisas que estragam, perder e (às vezes) encontrar coisas perdidas, dormir? (E mais um monte de outras coisas muito ordinárias que acontecem entre essas atividades em um dia comum).

Talvez, inconscientemente, nós acreditamos que a santificação acontece naqueles momentos especiais de adoração e revelação, geralmente durante um momento de louvor. Como se o processo de transformação que Deus está operando em nós fosse desconectado das atividades ordinárias da vida comum.

O curioso é que são essas atividades ordinárias que ocupam a maior parte do nosso tempo. Tempo. Nosso tempo. Corremos para lá e para cá, executando um monte de atividades, de acordo com nossas agendas. Agimos como se controlássemos o ‘nosso’ tempo e o que acontece dentro dele. E deixamos apenas algumas horas para Deus nesse ‘nosso’ tempo cada vez mais escasso, onde lemos a Bíblia, meditamos, oramos ou fazemos algum estudo bíblico.

Esse ‘nosso’ tempo é guiado por diferentes calendários, de acordo com o que é prioridade no momento: o calendário escolar, depois o calendário acadêmico, depois o calendário do trabalho… eles é que nos dizem quando é hora de trabalhar e de descansar, quando é hora de celebrar e de fazer uma prova. E todas as demais atividades são espremidas no tempo que sobra.

Mas, e se o tempo não fosse apenas algo que nos limita? E se o tempo (e cada coisa ordinária que fazemos dentro dele) fosse sagrado? E se houvesse um tempo marcado por um calendário que desse forma à nossa vida? Um tempo não arbitrário, não definido pelo mercado de trabalho. Um calendário que contasse uma história, que tivesse uma liturgia própria que trouxesse sentido a cada atividade ordinária, que nos moldasse e nos ensinasse a viver cada dia debaixo do sol?

Descobrir o calendário litúrgico foi como descobrir o tempo real. — Tish Harrison Warren

Sim, existe um outro tipo de calendário conhecido como Calendário Litúrgico ou Calendário Cristão, também chamado de Ano Litúrgico ou Cristão. Um calendário elaborado em tempos antigos e utilizado ao longo da história da igreja. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa.

A cada semana nós participamos do trabalho criativo de Deus e descansamos. A cada ano nós recontamos a história de Jesus. Advento, Natal, Epifania: a história do povo de Deus esperando pelo Messias, o nascimento de Jesus, sua revelação como Rei. Quaresma, Páscoa, Pentecostes: a história da tentação de Jesus, a vida em um mundo caído, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão, a vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja. Nós vivemos esta história a cada ano, semana a semana, vivendo o que confessamos nos credos no modo como nomeamos os nossos dias. — Tish Harrison Warren

O Calendário Cristão é organizado diante da narrativa da revelação de Deus através de Jesus, de sua ação no mundo e em nossas vidas. O ritmo ensinado nesse calendário nos ajuda a abraçar as tensões de nossa realidade e a enxergá-las sob a perspectiva desta grande narrativa. A trabalhar já por um novo reino e a esperar porque ele ainda não está completo. Nós aprendemos a celebrar e a chorar. A nos apropriar da vida de Jesus que nos é oferecida a cada dia. A trabalhar e a multiplicar os talentos que nos foram dados. A amar cada um que encontramos da forma mais prática que esse amor pode assumir. E a descansar, porque Ele já completou o seu trabalho e tem cuidado de nós.

Aprendemos que o tempo não pertence a nós. Que nosso valor não está na quantidade de tarefas realizadas, na eficiência no controle do tempo.

Eu preciso da igreja para me lembrar da realidade: o tempo não é uma mercadoria que eu controlo, administro ou consumo. A prática do tempo litúrgico me ensina, dia a dia, que o tempo não é meu. Ele não gira ao redor de mim. O tempo gira ao redor de Deus — o que ele fez, o que está fazendo e o que vai fazer. — Tish Harrison Warren

É como se estivéssemos em treinamento. Aprendendo a viver em uma outra realidade, a seguir um outro ritmo, a responder a um outro tempo. E cada dia de 24 horas nos oferece um tempo sagrado, no qual surgem as oportunidades para esse aprendizado, para essa transformação, através das atividades mais ordinárias.

Quando eu acordo, por exemplo, me lembro de quem sou: amada, escolhida, aceita. E antes de mergulhar nas redes sociais com os olhos semiabertos, ou afundar na lista de atividades como um zumbi, eu faço uma oração, converso com meu Senhor que me concede mais um dia de vida.

Somos marcados desde o primeiro momento em que acordamos por uma identidade que nos é dada pela graça: uma identidade mais profunda e mais real do que qualquer outra identidade que podemos usar ao longo do nosso dia.— Tish Harrison Warren

Então escovamos os dentes, cuidamos do corpo, nos alimentamos. Um ritmo que demonstra nossa finitude, a necessidade de alimento diário, de cuidado diário. Reflete o próprio ritmo da fé: de dependência, de cuidado, de obediência diários, momento a momento. Nossos corações e nossos amores são moldados pelo que fazemos diariamente.

Arrumamos a cama, lavamos a louça, cuidamos da casa, da roupa. Trabalhamos, respondemos emails, encontramos pessoas, participamos de reuniões. Através das tarefas mais cotidianas a transformação de Deus espalha suas raízes e cresce. Exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, organizamos, criamos, cuidamos, somos cuidados.

Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.

Foto de Poppy Barach

Preparamos refeições, comemos sozinhos, comemos com os amigos e com a família, rimos e conversamos, abraçamos, dormimos e descansamos. Experimentamos prazeres ordinários, de alegria, encanto, satisfação e divertimento. Ação de graças, reconhecimento da bondade, adoração, entrega.

Esses são apenas alguns exemplos de situações ordinárias que vivemos todos os dias. Deus nos chama para vivermos uma vida de alegria e contentamento no meio de circunstâncias bem concretas como essas, situações que experimentamos diariamente. Situações que são cheias de encanto, de aprendizado, de revelação, de confronto, de crescimento, de beleza, de vida.

Em um mundo sempre ocupado e com pressa, desenvolvemos hábitos de falta de atenção e perdemos a manifestação de sentido nas pequenas coisas. Caminhamos como mortos vivos e não como pessoas cheias de vida. A vida que nos é oferecida na história contada pelo tempo é tão exuberante que nos transforma, nos cura, nos faz inteiros e completamente vivos.

Eu preciso aprender a encontrar a alegria e a rejeitar o desespero no momento em que eu estou vivendo agora. Em meio às pequenas pressões e ansiedades, preciso aprender a confiar em Deus, a olhar para a cruz e a me apropriar do que Ele já fez por mim. A depender dele, a esperar com fé e a agir não baseada em minha própria força ou entendimento.

O calendário cristão traz luz para minha rotina diária ao me lembrar que eu faço parte de um povo que vive em uma história diferente. Que junto com esse povo, com a igreja, eu estou inserida nessa história e ela também se torna a minha, a nossa, história. Deus está redimindo todas as coisas, incluindo cada um de nós. Nossas vidas — e nossos dias — são parte dessa redenção. Nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido.

Então, o meu dia de hoje se torna transparente e eu vejo vislumbres de algo maior por trás dos inúmeros pequenos cuidados diários. E eu posso ter uma atitude diferente de simplesmente me entregar a uma rotina sem vida, ao cumprimento automático de atividades sem sentido, ao tédio, à pressa.

O que Ele fez e está fazendo têm reflexos na forma como eu vivo o meu dia. Nada do que vivo ou faço, minhas escolhas e sonhos, foge do Senhorio dele em minha vida. Além disso, o que experimento no culto aos domingos — a adoração, a leitura da Palavra, a oração, a confissão de pecados, o perdão, o pão e o vinho, a oferta, a comunhão, o abraço do meu irmão, a bênção… — molda a minha experiência diária em cada um dos outros seis dias.

Deus está nos formando em um novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos do hoje. — Tish Harrison Warren

Ele está nos formando quando vivemos o tempo sagrado que nos é dado, por graça, e fazemos o que precisa ser feito nas rotinas mais ordinárias do nosso dia. Cada dia, por mais comum, é carregado de sentido e parte da vida abundante que Deus tem para nós. Como vivemos cada dia ordinário é como estamos vivendo nossa vida inteira.

Precisamos ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia. Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura. Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

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Essa reflexão foi baseada no livro de Tish Harrison Warren: Liturgy of the ordinary, sacred practices in everyday life, de onde tirei as citações apresentadas ao longo do texto (em tradução livre). Aprendi tanto que estou pensando em escrever uma reflexão para alguns capítulos dele.

Também estão alinhadas com as discussões que fazemos no L’Abri, em especial, o sacramento do momento presente.

Além disso, tenho usado o Calendário Cristão há alguns anos e o Lecionário mais recentemente. Minha sensação também é a de que descobri o tempo real e meus dias têm sido mais ricos com a ajuda desses recursos, com o entendimento dessa narrativa.

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Texto publicado originalmente em LecionárioA liturgia do ordinário

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.