Estamos indo de volta pra casa

Em uma semana, estaremos no Brasil. A ideia de rever o meu avô de 98 anos, de conhecer o novo namorado da minha sobrinha, de experimentar mamão papaia de novo e de entender as pessoas conversando dentro do metrô deixa meu coração quentinho. Vou dormir nos lençóis cheirosos da mamãe, vou ter horas de papo e risadas com a minha tia Jane, vou comer pastel na feira e vou ver todos os meus amigos do Projeto 242, minha igreja querida. Vou poder ler (e entender) as contracapas dos livros nas estantes da Livraria Cultura e vou achar o gosto da garapa doce demais. Vou voltar ao Sesc Belenzinho com a Carol e com a Talita, mas dessa vez vamos chamar a Aline também. E a Dalila. E a Fê Pinilha, se ela puder. Isso sem mencionar o abraço quebra-costela que vou dar na minha irmã! Vou me certificar de que seja inesquecível.

Mas hoje de manhã eu chorei. Chorei porque senti essa onda gigantesca de emoções me acertar bem no meio do peito. Agora que vejo minha vida aqui na Polônia finalmente entrando nos eixos; agora que consigo entender o que está escrito nas plaquinhas de preços dos supermercados; agora que entendi por que o Álef tem que ir à pré-escola vestido de cor laranja num dia e levar um bicho de pelúcia no outro; agora que me acostumei a comer pepino em conserva e as pessoas do meu trabalho se transformaram nessa grande e unida família que somos, vou-me embora. Por um mês apenas, eu sei, porém não há como diminuir a mão-de-obra emocional que existe em você recolher todo um cenário de vida já estabelecido para substituir por outro. Desgasta. Mesmo porque cada pedacinho que a Polônia ocupa na gente e a gente nela foi conquistado não sem uma boa medida de dor.

Que bom que pude chorar entre amigos hoje de manhã. Eles me acolheram, me consolaram e me fizeram olhar essa viagem por um ângulo que eu não tinha visto ainda: nós – David, Álef e eu –  precisamos desse tempo no Brasil. Não só  por uma questão de saudade, mas de identidade. Reencontrar os nossos, tocá-los, senti-los e olhar em seus olhos permitirá que nós nos reconheçamos novamente, como acontece na história do pequeno cisne que acreditou ser um patinho feio até se ver no meio de outros cisnes. As pessoas que nos esperam no Brasil nos contam uma história – a nossa história –  e voltar para elas será relembrar as razões que explicam como nos tornamos quem somos, nos contextualizar dentro de uma narrativa mais ampla e nos reafirmar como filhos de uma terra. 

 


Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o pra sempre sempre acaba

Mas nada vai conseguir mudar
O que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem

Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz

Estamos indo de volta pra casa

 


Luciana Mendes Kim sou eu. No momento, vivo como uma desbravadora de sonhos.  Tenho mergulhado cada vez mais no Sentido da Vida para conhecê-lo e me maravilhar com ele. Sou mãe de um menino fofinho e casada com um artista visual incrível. Um dia, com as minhas grandes amigas Talita e Carol, criei este blog charmoso e indagador das motivações da nossa alma.