O outro nome da força

Shira Sela_Healing
Healing –Ilustração da artista Shira Sela

 

Sempre pensei na vulnerabilidade como sinônimo de insegurança, fraqueza, instabilidade. Uma pessoa vulnerável é aquela coitada, desprotegida, fraca, sempre olhada com desdém por quem está perto e provocando risadinhas e comentários maldosos naqueles que identificam suas vulnerabilidades. Já conheceu alguém assim? Eu já conheci várias pessoas assim, mas quero falar de uma específica. Li a sua história e ela está mudando totalmente a minha ideia de que a vulnerabilidade deve ser repelida a qualquer custo.

O nome da pessoa não é revelado, mas é uma mulher que descobriu onde Jesus ia jantar, entrou na casa da pessoa que o convidou, encontrou Jesus lá e ficou chorando aos pés dele. Ela chorou tanto, mas tanto, que os pés de Jesus ficaram molhados com as lágrimas dela. E sabe como ela fez para secá-los? Usou os cabelos. Depois, passou nos pés dele um perfume caro que ela guardava num frasco mais caro ainda e depois beijou os pés de Jesus. Essa história está na Bíblia, num livro chamado Lucas, no capítulo sete e o verso em que a história começa é o 36.

Agora me digam: querem uma cena de vulnerabilidade mais explícita do que essa?? Com essa atitude, a mulher da história está passando para nós algumas mensagens bem interessantes:

– De que ela é autêntica. Ela não fingiu ser o que não era para agradar os que estavam em volta, nem mesmo Jesus. O anfitrião que o convidou para jantar chegou até a pensar: “Se Jesus soubesse quem essa mulher é, ele nem deixaria que ela o tocasse” (verso 39). Claro que Jesus sabia quem ela era, porque não era bobo, porque era bem informado e porque era Deus.

– De que ela é real. O anfitrião a chamou de pecadora no pensamento dele (verso 39). Mas me respondam: quem não é pecador?? Nós passamos horas criando um perfil para convencer os outros de que somos lindos, cheirosos, inteligentes, bem-sucedidos, de que temos um amor à nossa disposição e que somos felizes o tempo todo, sem interrupção. Mas aí entra na sala a pessoa vulnerável e nos incomoda. Ela tem questões psicológicas, ainda não conseguiu se formar, não tem dinheiro para um happy hour todos os dias, tem um filho de um cara que não quis nada com ela e não consegue parar de fumar. Essa pessoa é tão real, que é quase um espelho de nós mesmos.

– De que ela é humana. A mulher não teve medo, nem vergonha de chorar. Se era por tristeza, arrependimento ou o que fosse, ela estava ali, mostrando que não podia mais guardar o que se passava dentro dela.

– De que ela é livre. A pessoa vulnerável não precisa mentir, nem se amoldar a um rótulo que se queira colocar nela. A mulher não tinha nada a esconder, as pessoas a conheciam como “pecadora”, mas ela não estava preocupada com isso. Ela queria alcançar a Graça e nada do que dissessem sobre ela poderia impedi-la de chegar até o seu objetivo.

– De que ela está aberta para a cura. Isso a gente descobre quando Jesus se dirige a ela e diz que todos os pecados dela estavam perdoados, de que a fé que ela tinha a salvara e que ela podia ir em paz (versos 48 e 50). É revigorante quando percebemos que não estamos sozinhos com os nossos vícios e as nossas angústias e, mais ainda, que não seremos julgados, mas curados. Um dia desses pratiquei a vulnerabilidade para sentir que gosto tinha. Uma amiga me perguntou pelo Whatsapp se estava tudo bem comigo e eu respondi que não, e contei para ela, da forma mais direta e transparente possível, o que se passava. Tivemos uma conversa ótima e, no final, eu saí consolada e leve. Foi libertador.

Sim, eu estava errada. Paradoxalmente, a vulnerabilidade tem muito mais a ver com força do que julgavam os meus dicionários internos. Quero me habituar a buscá-la, a tocar minhas próprias feridas, a aceitar que sou esta e não outra, que aqueles com quem convivo – e principalmente, as crianças a quem ensino – são eles e não outros. Quero que a vulnerabilidade me una a outros tão humanos quanto eu, que ela revele a mim quem eu sou de fato e que me aproxime de Jesus com o mesmo desprendimento que teve a mulher da história. Então serei livre de mim mesma, de minha própria hipocrisia, dos meus julgamentos, da minha autossuficiência, do meu orgulho, que são, no fim das contas, os meus mais profundos pecados e a minha verdadeira fraqueza.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

 

Nó na garganta

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Perdão (grafite e digital), por David Kim

 

As devocionais que faço em casa funcionam assim: escolho um livro da Bíblia e começo a leitura, um trecho por dia. Leio aquele trecho quantas vezes forem necessárias para eu entender bem o contexto. Dentro do trecho escolhido, seleciono um versículo ou mais, uma expressão ou até mesmo uma palavra-chave e, a partir disso, construo – por escrito – uma pequena reflexão, que mais tem a ver com o que entendo do texto e com a maneira que posso aplicar aquela ideia à minha vida, do que com conhecimento teológico (isso explica a quantidade de especulações que recheiam as minhas devocionais). Por fim, escrevo uma oração, que expressa como me sinto e o que desejo a partir do que aprendi sobre a vontade de Deus. Na verdade, essa dinâmica devocional não fui eu que inventei, mas adaptei de um livro – que recomendo, aliás – chamado Mentores segundo o coração de Deus, do Wayne Cordeiro.  E, quando percebo que uma devocional se desenvolve de maneira mais interessante, venho aqui postá-la.

De forma geral, esses momentos a sós com Deus me dão forças e me oferecem esperança (mesmo quando a mensagem é mais confrontadora do que consoladora). Desta vez, porém, aconteceu algo raro, com o qual não estou sabendo exatamente como lidar: a devocional estabeleceu um conflito em mim, me perturbou e me colocou em uma posição esquisita, bem longe do ideal. Respiro fundo e tomo coragem para compartilhá-la com vocês:

Se, porém, Cristo está em vós, o corpo está morto, pelo pecado, mas o Espírito é vida, pela justiça. E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante o seu Espírito que habita em vós. (Romanos 8.10 e 11)

Interessante o movimento que acontece a partir do momento em que estamos em Cristo: a princípio, nos encontramos mortos pelo pecado e pelos desejos da carne, mas não permanecemos assim. Por meio de Cristo, somos levados de volta à vida e podemos usufruir dela aqui mesmo, neste corpo mortal em que habitamos.

Incrível ler sobre o que o Espírito de Deus faz e, mais ainda, saber que essa realidade não depende do que sinto ou do que acredito para que exista. É verdade e ponto. O problema que se estabelece, então, é como tornar essa realidade atuante em mim. Porque o que eu mais vivencio na minha lida espiritual é justamente a carne querendo comandar. Pior e mais embaraçoso que isso ainda!: sinto-me triste quando não é ela que dá a palavra final nas minhas decisões e atitudes (e a carne só não dá as cartas por pura e linda misericórdia de Deus, que sabe quão trágico seria se assim fosse).  Repito: sei que a ação do Espírito não depende do que sinto e sim, que ela é um fato, por si mesmo existente e atuante, porém, me sinto frustrada por não a desejar com a mesma intensidade com que desejo as outras coisas que desejo. Por que, então, meu Deus, sinto falta do erro, do pecado, da ação da carne?? Por que não me satisfaço integralmente com a misericórdia divina, que me poupa diariamente de cair? Por que quero a morte do pecado no lugar da vida no Espírito? “Livra-me, Deus, de mim mesma, ainda que eu não queira que me livres” – suplico em minha oração. E, assim, com mais perguntas do que respostas, encerro a minha devocional.

Ainda longe de resolver meus conflitos e meu nó na garganta, encontro certo alívio na letra de uma música do Mumford & Sons: I was still/ I was under your spell/ When I was told by Jesus all was well/ So all must be well (eu estava imóvel/ eu estava sob o seu feitiço/ quando me foi dito por Jesus que tudo estava bem/ então tudo deve estar bem).


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O silêncio de Maria

‘The Virgin Mary Consoles Eve’, por Grace Remington

 

Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. (Lucas 2.19)

 

Muito curiosa essa reação de Maria quanto ao que os pastores vieram contar para ela e para José. Os pastores tinham acabado de ser visitados por um anjo lindo, enorme, que os envolveu de luz, e, de quebra, ainda assistiram a uma miríade de seres do Céu dando glória a Deus. Ou seja, não era à toa que eles estivessem empolgadíssimos e extremamente ansiosos para conhecer Jesus. Quando chegaram ali onde Cristo havia nascido e contaram a experiência deles, todos os outros ficaram impressionados (verso 18), menos Maria. Ela só ouvia, sem emitir grandes reações. Isso, porém, não quer dizer que Maria não havia sido impactada com o relato dos pastores. Como mãe que sou, ouso arriscar o palpite de que, no mínimo, ela se sentiu orgulhosa de seu rebento. Mas mais do que isso ainda:  ela sabia que era privilegiada por ter sido escolhida a dedo por Deus para concebê-lo na sua forma humana.

Coloco-me no lugar de Maria e fico me imaginando lá, toda consciente daquele acontecimento milagroso, olhando para o “meu” bebê-Deus. A consciência de quem aquela criança é, de fato, provocaria em mim uma série de reações: maravilhamento, sim, em um primeiro momento, mas também uma reverência incrível e, acima de tudo, um sentimento de cumplicidade, como se o bebê fosse bebê só por fora, mas por dentro, divino como era, ele pudesse ler os meus pensamentos e, assim, ele e eu compactuássemos com o seu plano de salvar a humanidade, o que era ainda pouco compreensível para os judeus, incluindo aqueles pastores festejantes. Adorá-lo em silêncio e em meditação seria, portanto, a maneira mais natural de consumar a minha fé em seu plano perfeito.

Hoje, 2015 anos após o nascimento de Cristo, me inspiro em Maria e, em silêncio, reflito cuidadosamente sobre o significado e a profundidade desse fato e, como resultado, vou sentindo a minha fé se renovar.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Amor 80% cacau

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Mas Deus demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos ainda pecadores. (Romanos 5.8)

Clarice Lispector, no conto Os desastres de Sofia (meu preferido, aliás), compreendeu exatamente (mesmo sem querer) o que Paulo quer dizer nesse versículo quando escreveu: Seria fácil demais querer o limpo; inalcançável pelo amor era o feio, amar o impuro era a nossa mais profunda nostalgia. Pois é. Fácil é sermos amadas quando estamos cheirosas, charmosas, bem-sucedidas, bem resolvidas, talentosas, bonitas, intelectuais, espirituais ou espirituosas. Mas e quando cansamos de sustentar esses rótulos todos e queremos ser só a gente? De repente chorar ou rir de alguma piada do Chaves ou ainda curtir as músicas românticas dos anos 80 (quem não se emocionava com Slave to Love?), sem receber uma risadinha mal-intencionada de alguém sentado na outra ponta do sofá?

Bom, exemplos pouco criativos à parte, só Deus teria coragem de amar o que é feio. E ele amou. E aquilo que era feio era o nosso interior, cheio de soberba e inveja. É nisto que consiste a perfeição do amor de Deus: chegou antes de termos tido a chance de maquiarmos nossa identidade e aparecido com um sorriso falso na selfie da nossa alma. E o que é o melhor de tudo é que Ele tem por mim e por você um amor sem medida, sem letras miúdas, sem condicionais. É puro, absoluto e incompreensível, por isso duvidamos tanto dele.

Estamos acostumadas a sofrer, a mendigar amor e, o que é ainda mais triste, a mendigar um amor de péssima qualidade: condicional, oscilante, falho, com data para terminar… ou seja, um amor humano. É como gostar de chocolate 80% cacau e se contentar com chocolate hidrogenado. Um horror! Com isso, entretanto, não sugiro que deixemos de amar ou esperar amor de outras pessoas, óbvio, mas sim que não nos limitemos a esse amor, apostando que ele trará sentido à nossa existência, nos preencherá e nos oferecerá esperança para aqui e além. Não dá para atribuirmos ao homem um tipo de amor que é divino somente. Fatalmente, sentiremos sede de novo.

O que nos resta, então? Proponho: nadar no amor profundo de Deus e senti-lo todo em torno e dentro de nós, inundando-nos e envolvendo-nos em um invólucro, desde a ponta dos dedos dos pés e das mãos até o âmago da alma. Não existirá nesta terra nada mais revigorante, eu garanto.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Quer saber a verdade?

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Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça.

Esse versículo, de Romanos 1.18, traz uma palavra-chave, polêmica para a nossa cultura ocidental: a verdade. O texto afirma também que os homens eliminaram a verdade para favorecer a injustiça. Mas qual é a relação direta existente entre verdade e injustiça? Proponho uma reflexão sobre essa pergunta, considerando a ótica líquida da nossa cultura, para quem a verdade é customizada (eu a construo como eu quiser) e intransferível (cada um tem a sua).

O homem hipermoderno suprimiu a ideia de uma verdade única, total, para, em lugar dela, adotar incontáveis verdades – uma para cada pessoa da terra (ou seja, são 7 bilhões de verdades no globo). Mas se tudo é verdade, o que não é verdade? Nada. Não existe a não-verdade, ou melhor, a mentira. E se cada um constrói a verdade como quer, por que a chamamos verdade e não de … jenga*, por exemplo? Podíamos riscar a palavra e todo o significado de verdade – logo, a autenticidade, o fato, a exatidão, a precisão – do nosso repertório de conhecimento das dinâmicas do mundo e das linguagens que as representam.

Quando o homem suprime a verdade única e a multiplica (ou a divide?) pelo número de habitantes da terra, ele a reduz ao tamanho e à abrangência da minha limitada percepção do mundo. Assim, cometer injustiças fica muito fácil: percebo e me conecto com o outro a partir do que eu acredito ser o certo, e o que é certo para mim é definido pelas minhas experiências, que, por sua vez, acontecem dentro de uma moldura social, econômica, etária, familiar, geográfica, educacional, cultural, relacional muito, mas muito específica e particular. Ou melhor, única. O outro, por sua vez, se conecta comigo a partir dos mesmos critérios, específicos do contexto dele. Impossível alguma injustiça não escapar da interação entre essas complexidades todas. Se formos ampliar essa percepção pelo número de conexões entre as pessoas, quantos atos de preconceito, intolerância, guerras, torturas, mortes, doenças e outros sofrimentos não são cometidos a cada momento?? Gosto de imaginar como seria a existência se a verdade fosse tomada como única – como ela é, de fato: a humanidade convergindo, inteira, para um único Ponto, de onde emana a justiça extrema, sem medidas, nem limites.

 

*jenga – jogo de blocos de madeira, com os quais se constrói uma torre. O objetivo desse jogo é ir removendo, aos poucos, os blocos da base da torre e colocá-los no topo sem que a torre caia.

 


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Parem o mundo que eu quero descompressurizar

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Criar, educar e amar um filho (não necessariamente nessa  ordem) têm sido uma tarefa tão desafiadora para mim, que me  deixa, por vezes, exausta. Não disponho mais das mesmas horas  de sono, nem do mesmo tempo livre – que, quando existe, é  dedicado a uma brincadeira ou um passeio mais longo com o bebê  –, nem do mesmo pique para frequentar festas ou eventos cheios  de gente. Minha vida nunca foi tão corrida e dependente da minha  atuação como agora.

Mas existe algo que tem o poder de me desgastar ainda mais do que os cuidados inerentes à maternidade: a realidade do mundo. Pessoas impondo sua visão sobre as outras, sob o argumento de que discordar é intolerar ou discriminar, polêmicas estéreis infindas sobre partidos políticos, teologias, o chef de cozinha que falou mal do brigadeiro, o cantor que pediu mais respeito em seus shows. Greves, guerrilhas, tragédias, desemprego, deseducação, carências, melindres, preconceitos sufocados pela ditadura do politicamente correto (e os politicamente corretos jurando que estão vencendo o preconceito, como se ele fosse um problema fácil assim, de superfície, quando o buraco é bem mais embaixo, onde poucos têm acesso).

Obviamente que, globalizados como estamos, esses e outros problemas não são exclusividade do Brasil, mas reverberam em maior ou menor grau por todos os continentes. A questão não é brasileira, mas humana. E é aí que me bate um cansaço, uma preocupação, uma tensão nos ombros: o que será de nós??

O convite de Jesus, então, aparece como um alívio, uma esguichada de água em dia quente, uma coca gelada com limão para acompanhar a feijoada: “Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus 11.28). Sério mesmo, Jesus? Sério que posso chegar até você e ter todo o peso do mundo retirado dos meus ombros: pressão, prazos, polêmicas, mimimis e todo o resto??

E, assim, numa oração, sou descompressurizada.

O convite de Jesus ao descanso é autenticamente democrático. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, pode aceitá-lo e usufruir de seus efeitos. É revigorante e, de quebra, nos torna bem preparados e ativos para retornar ao cenário do caos.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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Paz nas decisões

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Tomar decisões é sempre um parto. Passamos dias pesando prós e contras e, mesmo assim, o medo do desconhecido que acompanha a decisão não deixa a gente dormir ou comer direito. Ou o contrário: dormimos e comemos demais, por pura ansiedade sobre o que será. Então, finalmente, nos decidimos. Mas ainda assim, seguimos adiante com um pé atrás, sem ter muita certeza, procurando com rabo de olho algum flash lá trás que sinalize para nós que ainda podemos mudar de decisão, caso nos arrependamos.

E todo esse processo penoso não é privilégio de pessoas inseguras. Quando a decisão é séria, todo mundo pasta para tomá-la. Principalmente, se ela envolve alguma questão moral suculenta, daquelas que atingem em cheio o nosso ponto mais fraco.

Por muito tempo, tive dificuldade para entender o que Paulo queria dizer exatamente com o termo ‘árbitro’, quando escreveu: Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração (Colossenses 3.15, primeira parte). Porém um dia, enquanto assistia ao filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, captei finalmente o sentido desse versículo, numa cena sensacional. Quando Joel (Jim Carrey) chama Clementine (Kate Winslet) para sair, sendo ele quase casado com outra pessoa, ela recusa e responde: eu sou só uma garota cheia de problemas, procurando minha paz de espírito. Não me torne responsável por sua paz de espírito também.  Pronto! O elemento-chave estava aí: paz. Devo sempre buscar por ela, em todas as minhas decisões. Na verdade, em termos simples, nem preciso me dar ao trabalho de escolher, porque é a paz que fará a escolha por mim. Ela aponta o caminho e eu sigo por ele. Claro que outros elementos vão tentar trabalhar contra esse fluxo, mas aí é ligar o modo automático em Deus e seguir em frente, sem muitas conjecturas – ouso propor. Afinal de contas, desde quando os fantasmas não fazem parte do pacote da existência pós-queda? A graça de tudo isso, porém, está justamente em dependermos da Graça.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

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