Quando alguém destrói algo em nós, de quem é a culpa?

É sempre um desafio a gente olhar para dentro de si para se conhecer – exercício fundamental para compreender de onde vêm nossas manias chatas, os traumas arrepiantes, as carências e os vícios grudentos  para, então, a partir do que encontramos em nós, tentarmos nos lapidar e nos tornar seres mais “convivíveis”. Nesse mergulho, encontramos de tudo, entulho nosso e (muito) entulho jogado por outros, nas vivências mais diversas do processo penoso que é o de crescer e amadurecer. Uma dessas vivências, geradora de um grande dano na parte que corresponde à minha criatividade, tem voltado à minha mente com frequência nos últimos tempos.

Era um colégio de elite esse que eu estudei como bolsista praticamente a minha vida inteira. Nele existiam dois grandes ateliês de arte. Um deles, destinado às aulas de artes plásticas, tinha mesas grandes e altas, com vãos largos embaixo, onde se acomodavam perfeitamente as nossas folhas de papel A3. Prateleiras cheias de materiais diferentes –  coloridos, espessos, lisos, rugosos, translúcidos, opacos -, grandes potes com pincéis de espessuras variadas, blocos de argila, papéis em rolo, em dobraduras, em pilhas, de todos os formatos e tipos. Estiletes, réguas, espátulas, palitos e todas as ferramentas possíveis repousavam ali, nesse lindo ateliê. O outro ateliê servia às nossas aulas de artes aplicadas e ali lidávamos com serras, lixas, vernizes, telas, madeiras e outros materiais mais robustos para produzirmos utilidades. Tudo isso compunha uma estrutura incrível e invejável.

Mas foram nesses espaços equipados e incríveis que eu vivi algumas das crises mais agudas de nervosismo da minha formação escolar.  Porque foi ali que eu tremia de medo da professora, que logo me dava uma nota vermelha pelo meu traço inábil. Não havia nada que me fizesse crescer naquele espaço; pelo contrário, a cada ano eu me sentia menor e menor. Técnica de vitral? Eu rasgava o papel. Escultura em argila? A cabeça do padre que eu esculpi insistia em despencar do corpo. Pontilismo? Os meus pontos distavam tanto um do outro, que quando um gritava o outro não conseguia ouvir. E, assim, de nota baixa em nota baixa e após muitos comentários negativos da minha professora quanto ao meu trabalho, fui me convencendo de que eu era um monstro do lago Ness das artes visuais – um desastre sem esperança.

Como vocês podem imaginar, minha formação como profissional passou longe das tesouras e das tintas. Tornei-me educadora.  Trabalho hoje numa escola, em que o foco não é a perfeição ou a técnica , mas as habilidades de um estudante. Ele não entende a relação do passado com o presente? Vamos ajudá-lo a entender, contando sobre a origem da família dele… O raciocínio está lento? Fazemos uma feira de trocas para despertá-lo… A criatividade anda meio travada? Fala com a Luciana, porque ela é especialista em falta de criatividade. Hahaha! Bom, piadinha infame à parte, foi nessa escola que tive um grande confronto: eu e a criatividade, cara a cara, depois de todos esses anos. Porque se a criatividade é uma habilidade – e, de fato, é e é uma das mais cruciais para a vida – como eu a estimularia nos meus estudantes, sendo que eu mesma tenho medo dela e a evito a todo custo?? E, assim, tive que destrancar aquele quarto escuro dentro de mim e tatear pelos cantos até encontrar a criatividade ali, mirradinha e desnutrida. Tive que olhar para ela e convencê-la de que tinha potencial para renascer de mim e em mim. Que difícil! E como alguém que tenta escrever com a mão não-dominante, eu, a de traço inábil, me arrisquei em algumas atividades criativas. Até um grupo de escrita criativa eu estou orientando! (pois é, não foi só nas artes visuais que fui lesada)

Guardo uma mágoa profunda dessa professora de artes, confesso. Ela tinha nas mãos o material mais precioso que um artista pode querer – nós, estudantes novinhos e maleáveis, de mente aberta e fresquinha – e ela escolheu alguns (eu inclusive) para deixar esturricando no forno castrador de imaginações. Mas aí volto à ideia do olhar para dentro, que escrevi no primeiro parágrafo. Ao localizarmos episódios como esse no nosso passado, o que fazemos em seguida? Nos entregamos? Nos tornamos eternas vítimas? Vamos reclamar e reclamar? Um primo meu uma vez me ensinou algo que ele aprendeu depois de muita terapia: a partir do momento em que identificamos os “vilões” de nossos traumas, eles automaticamente deixam de ser os vilões e nós as vítimas, porque o que fazemos a partir dessa descoberta passa a ser escolha nossa, responsabilidade nossa. Os vilões nada mais têm a ver com isso.

Ainda tenho uma relação delicada com a criatividade. Nós nos entendemos só com extremo esforço e bem de vez em quando. Mas é dela que mais preciso agora, justamente para encontrar caminhos que me afastem da autopiedade e do vitimismo por carregar na cabeça um mundinho limitado. Li num livro sobre uma das características do Espírito Santo, que era o de ser infinitamente criativo. Respiro aliviada por saber que eu mesma (e mais ninguém por mim), agraciada pelo Espírito Santo, posso perfeitamente encontrar o caminho da cura.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Um texto confessional

liberdade

Comecei e recomecei esse texto tantas vezes, que não consigo pensar numa introdução decente, então vou deixá-lo apenas fluir.

Ele é confessional porque trata de um assunto que, embora resolvido dentro do meu coração há tempos, precisava ser expulso do resto de mim, de dentro do meu corpo todo, como se fosse o último suspiro pra minha tão desejada liberdade de espírito.

Tenho rascunhado esse expurgo na minha cabeça ao longo de quase nove anos, o mesmo tempo que tenho de casada, que é uma data que marca, em mim, um recomeço, um novo eu, o início da minha desconstrução e ressignificação do ser.

Na verdade, ainda não o havia escrito de vez, tampouco publicado, porque ele também fala de pessoas a quem amo e prezo, e que podem se sentir expostas. Não é minha intenção expor nenhuma delas, nem pro mal nem pro bem, nem pra julgamento algum. Nem ofender, nem desrespeitar. De antemão já me desculpo se isso acontecer, mas é realmente importante que isso tudo me deixe em paz também em matéria, não só no meu cérebro ou no meu coração. Aliás, é bem disso que se trata tudo: desculpas. Desculpar-me. Tirar de mim culpas que cresci recebendo e acolhendo, mas que nem eram minhas, na realidade. Já adianto: eu vou falar sobre abuso. Abusos. Os que sofri. Tenho batalhado pra que mulheres possam se recuperar de abusos sofridos e que não permitam mais nenhum, principalmente de parceiros, mas, existem vários tipos de abuso e eles não vêm só de parceiros, mas também de pais, mães, irmãos, amigos, chefes, sogras, homens e mulheres, vem de todo lado. Sofri todos esses. Deles que estou me libertando e é dessas pessoas que vou falar no texto e que não é minha intenção expor, porque amo e respeito e permanecem na minha vida, mas, que muito tempo já se passou, o perdão já aconteceu, eu já amadureci, a vida já seguiu e não sinto mais que preciso me preocupar em proteger ou defender certas coisas.

Agora eu tomei a decisão de enterrar tudo isso de vez por um motivo muito simples: estou pra parir (literalmente, estou com 40 semanas e 1 dia de gestação) um menino, o Dominic, que está chegando num momento de vida de renovo e esperança. Esses últimos dias são bastante reflexivos e fiquei pensando: “eu sei que o Dom vai ter sua própria impressão de mim, como ser humano e mãe dele, mas, que ideia eu gostaria de passar pra ele?”. E eu cheguei à conclusão que eu quero passar a ideia de uma pessoa curada. Esse termo, curada, veio pra mim em diversas formas: livre, autêntica, sem amarras, perdoada, restaurada… Mas, resumi tudo nele: curada. A publicação desse texto será a minha alta desses quase nove anos internada pra me recuperar e transformar. E preciso dizer que, embora eu estivesse com bastante receio da possível exposição que citei acima, estou me sentindo feliz e aliviada em compartilhar.

Aproveito pra dizer que, sendo um assunto resolvido, o texto não se trata de algo explicativo, e sim expositivo. Minha intenção é curtir minha alta e também ser útil pra qualquer outra pessoa que se identificar com o conteúdo, mas, não é um assunto aberto a diálogo, justamente porque tudo que precisava ser dito e ouvido já foi dito e ouvido e como eu disse, é confessional e é também liberativo, então, quando eu der o ok pra postar, eu não quero nunca mais tratar de nada disso, porque não há mais nada a lidar, agora é só seguir em frente, em paz. Se você sentir vontade de deixar um comentário, faça isso, mas compreenda que não haverá resposta. Se você sentir vontade de falar comigo a respeito do que ler, você é livre pra falar e eu sou livre pra ficar em silêncio.

Quando a gente pensa em abuso, o mais comum é associar a algum tipo de violência física, principalmente sexual. Não foi o meu caso. Os abusos que sofri foram psicológicos. E veja que interessante, eu tenho certeza absoluta que muitas pessoas não chamariam minhas experiências de abuso! Elas dirão que sou exagerada, revoltada, ingrata, que estou aumentando, que estou fazendo tempestade em copo d’água, que sou má, que não perdoei de verdade, que sou injusta… A famosa culpabilização da vítima, sabe?

E por que tenho essa certeza? Porque muitas pessoas pra quem contei algumas coisas ao longo desses anos me fizeram exatamente essas afirmações. E aí, em vez de encontrar acolhimento e apoio, eu recebia mais uma pá de culpa em cima da cabeça. Graças a Deus eu sou persistente e não parei meu processo de ressignificação até sentir que estava tudo acabado. Não é fácil, não vai ser fácil nunca, mas, a sensação de alívio é sensacional e não permito que ninguém tire ela de mim, mesmo que o preço a pagar seja altíssimo.

O interessante do abuso é que ele vem camuflado de muitas formas e começa muito cedo, geralmente dentro de casa e principalmente (mas, não somente) contra meninas. O abuso é sempre um tipo de desrespeito. Então, a verdade é que todos nós, em algum momento da vida, abusamos de alguém. Horrível, né? É.

Minha primeira lembrança de desrespeito é a de ser tolida. Eu sou uma pessoa naturalmente questionadora e subversiva e fui, literalmente, domesticada. Primeiro, pelos meus pais. Depois, isso foi se afirmando com amigos e amigas, chefes, pastores, até mesmo minha sogra.

Tive uma criação extremamente possessiva e controladora e isso feriu gravemente minha autoconfiança. Mas, como as pessoas chamavam isso? Excesso de amor, proteção e cuidado, então, meus pais estavam absolvidos e mais uma vez eu me sentia culpada, porque, além de achar aquilo tudo horroroso, ainda estava sendo ingrata por não saber receber amor. Nunca me senti rejeitada, é um fato, mas eu não tinha liberdade de existir. De coisas “simples”, como não ter trinco na porta do quarto (minha mãe tirou, pra que ela e meu pai pudessem entrar e sair quando quisessem) a mais complexas, como ser seguida pelos meus pais e observada enquanto tomava um açaí com uma amiga da faculdade (isso mesmo, faculdade, eu já tinha dezenove anos de idade nessa ocasião específica) achando, inocentemente, que finalmente meus pais confiaram em mim pra passar algumas horas sem a supervisão deles. Você pode dizer que essa atitude é natural, mas não é. Não podemos romantizar o abuso. Excesso de controle e possessividade não são provas de amor, são abusos.

Outra forma comum de abuso é ser, persuasivamente, silenciada. Quando eu tinha seis anos, entrei no pré escolar. Um certo dia, meus pais foram me buscar na escola e calmamente me explicaram, no carro, que naquela escolinha também estudava a minha irmã mais nova. Mas, que aquilo era um segredo de família. Eu podia até conversar com ela, mas ninguém podia saber que ela era minha irmãzinha. Eu tinha seis anos de idade e fui convencida de que era normal meu pai ter uma filha que não era filha da minha mãe, que a gente podia estudar juntas, que tudo estava bem, que nossa família era maravilhosa, mas que eu tinha que tomar o cuidado de não contar pra ninguém que ela era minha irmã. Ficou bagunçado isso, né? Imagine na minha cabeça de criança. Depois, ao longo dos anos eu vi meu pai dar socos, puxões de cabelo, empurrões e tapas na minha mãe, mas, no fim da noite ela mandava a gente ir falar “te amo e dorme com Deus”, porque tudo estava bem e não tinha nada a dizer ou resolver ou explicar. Claro, sempre lembrando de não contar pra ninguém. Na verdade, nem era preciso dizer pra não contar pra ninguém. Sabe aqueles “assuntos ocultos”? A coisa tá lá, mas se você não mencionar a coisa, a coisa não existe. Porque, se depois daquelas cenas eu via minha mãe colocar a comida no prato e servir meu pai no jantar e no fim da noite minha mãe mandava ir falar “te amo e dorme com Deus”, como se nada tivesse acontecido, é porque nada aconteceu, não é? É.

Tudo era bizarro demais, mas eu estava tão envolvida no abuso (sem entender, obviamente, que era um abuso), silenciada desde tão pequena, que parecia óbvio não contar pra ninguém. Até que uma vez eu contei. Não adiantou nada, porque não acreditaram que aquilo era possível. Simples assim. Não acreditaram, então não aconteceu. Não acreditaram porque fora de casa, na igreja, o porta retrato era de família unida e feliz, com pais superprotetores e filhos limpinhos e grudados nos pais. Com dezessete anos eu vi meu pai quase bater na minha mãe de novo e foi a primeira e última vez que falei com ela sobre o assunto. Eu disse: se eu vir ele encostar em você, eu vou chamar a polícia. Lembro até hoje a cara que ela fez, de espanto e indignação. Como resposta eu ouvi que ela estava decepcionada comigo, que nunca imaginou que uma filha pudesse fazer isso com o próprio pai, que eu era uma ingrata por sequer pensar naquilo e que meu pai era um marido ótimo pra ela, um pai maravilhoso pros filhos e que fazia tudo por nós. Eu senti revolta, amargura, espanto, tristeza, confusão, tudo ao mesmo tempo. Eu lembrava, mesmo, de tantas coisas boas que ele fazia, mas, então, aquelas coisas boas davam liberdade pras coisas ruins, que hoje eu chamo de abuso? E se estava tudo tão bem, por que passava pela minha cabeça que se aquilo era um casamento maravilhoso, eu desejava morrer solteira? Bagunça. Culpa. Tava tudo errado, mas eu era uma ingrata. Culpada. Meu Deus, como eu pude? Eu ia mesmo chamar a polícia contra meu pai? Má.

Entrei na dança de culpar a vítima, porque minha mãe mentia e escondia coisas, como o valor do troco ou o fato de que tinha de novo, fumado escondida. Então se ela falava pro meu pai que gastou R$9,90 quando, na verdade, tinha gasto R$10, era normal ele ficar bravo, não era? E quando ela jurava por Deus que não tinha fumado escondido, mesmo cheirando a cigarro e com o maço de cigarro achado na bolsa e ele ficava com raiva e tinha um acesso de fúria, ele estava na razão dele, não estava? Eu aprendi na igreja que eu tinha que perdoar, então por que mexer naquilo? Era só perdoar e esperar o próximo dia chegar. Tava tudo bem. Te amo e dorme com Deus.

Tudo isso pode parecer muito simples e sem grande significado, principalmente porque é verdade que nunca passei fome, sempre tive casa, ganhei muitos presentes e comi muito chocolate. Mas, a verdade é que cresci com autoestima baixa, acreditando que homens tinham poder sobre mim, que tudo bem esconder coisas de um marido, que tudo bem um marido me bater ao descobrir algo que escondi, que era normal as pessoas me tratarem mal e que eu não devia falar dos meus incômodos com ninguém porque na verdade era tudo coisa da minha cabeça e eu seria ingrata e injusta com os envolvidos, caso falasse. Aprendi que a igreja pode fechar os olhos pra coisas feias só pra não manchar a imagem de boazinha. Eu cresci acreditando que era errada, culpada e egoísta por ser diferente da maioria das pessoas, por não gostar do que todo mundo gostava e por ser indignada. Não tinha segurança em mim mesmo, acreditava que qualquer pessoa tinha mais valor que eu. Acreditei que era chata, porque pensava muito diferente da maioria e que pensar diferente era errado, o certo era seguir o rebanho. Aprendi que devia dizer sim pra todo mundo, porque isso era ser legal e boa. Acreditava que devia ser capacho, porque Jesus mandou dar a outra face e que as pessoas podiam fazer o que quisessem comigo, mesmo que me magoassem, porque Jesus mandou perdoar setenta vezes sete e tudo bem as pessoas errarem comigo um milhão de vezes sem se preocupar em tentar acertar, porque isso não importava, o que importava é que eu devia perdoar. Aprendi que era normal um namorado sentir ciúmes e mandar em mim, porque isso era prova de amor e cuidado. Aprendi a não falar sobre abuso, porque poderia expor as pessoas e quebrar a boa imagem delas. Aprendi que uma pessoa poderia me deixar profundamente triste com alguma atitude, mas, que se ela chorasse na frente dos outros, coitada, ela tava arrependida e eu era muito má por achar aquilo uma grande falsidade.

E aí, o resultado foi:
* Que eu emprestava sapato pra amiga e ela devolvia pisado em cocô, mas se eu reclamava era chamada de chata e me sentia culpada: abuso.
* Minha irmã jogava lixo onde eu tinha acabado de fazer faxina e eu ajoelhava pra limpar de novo, quieta, ouvindo ela dizer que meu lugar ela ali, no chão, e eu acreditava porque era minha irmã mais velha dizendo: abuso.
* Minha chefe me humilhava na frente de todos os outros funcionários e ao invés de responder eu ia pro banheiro chorar, porque devia respeito aos superiores: abuso.
* Minha sogra telefona comigo recém operada, dizendo que não era pra eu pedir pro meu marido fazer nada por mim naquela situação, porque ela não queria que o filho dela tivesse trabalho comigo: abuso.
* Minha amiga se auto convida pra uma festa de colegas meus, com a desculpa de que eu sou tímida e preciso da ajuda dela, mas, quando ela é convidada pra uma festa ela não me chama dando a mesma desculpa de que é porque eu sou tímida: abuso.
* Sou coagida pelo meu pai quando começo a namorar, com ele dizendo que se eu aparecer em casa grávida ele sai da igreja por minha causa: abuso.
* Escuto da esposa de um pastor que quando o marido quer a esposa tem mesmo que “dar”, não importa se está com vontade ou não, é melhor “dar” pra evitar problema: abuso.
* Escuto da minha sogra, durante o namoro, que ela quer combinar um dia pra ir em casa me ver fazendo uma faxina, pra ver se eu vou limpar direito a casa do filho dela: abuso.
* Sou criticada por ter um pensamento analítico, crítico e muitas vezes ácido, quando o esperado é que eu seja fofinha e sou cobrada a ser fofinha: abuso.
* Ser chamada de chata por dar a minha opinião contrária a alguma coisa que a maioria é a favor: abuso.
* Meu pai me diz que vai ser difícil pra uma criança ser meu filho, porque eu sou brava, chata e ruim: abuso.
* Eu sou acusada de ser egoísta e arrogante por não seguir padrões de comportamento: abuso.
* Minha mãe diz que não importa que eu não goste de chupetas, na casa dela meu filho vai chupar chupeta de qualquer jeito, porque ela gosta e vai dar: abuso.
* Eu escuto de outras mulheres que minha sogra tem razão em me tratar do jeito que bem entender, afinal ela deu à luz o amor da minha vida: abuso.
* Recebi trilhões de vezes, goela abaixo, à força, comentários inconvenientes e ofensivos e intromissões não solicitadas: abuso.
* Escuto julgamentos e recebo dedos apontados na cara e olhares tortos por (agora) ser decidida, bem resolvida, autêntica e livre: abuso.
* Eu escuto de várias pessoas que ninguém vai gostar de mim porque eu tenho um “jeitinho diferente”, de questionar, brigar e “ser do contra”, quando eu deveria ser mais dócil: abuso.
* Se eu sou gorda tô errada, se eu sou magra tô errada, se eu concordo eu tô errada, se eu discordo eu tô errada, se eu abro a boca eu tô errada, se eu tô certa eu tô errada: abuso.

E eu poderia escrever mais dez páginas sobre tantos tipos de abusos que sofri, por crescer aprendendo com meus familiares, com a igreja e com a sociedade em geral que eu devo desculpas pra tudo e pra todos, que eu não tenho direito sobre meu corpo, que eu devo aceitar ser silenciada, que se alguém me fez mal a culpa é minha, que eu devo esconder assuntos indigestos… Que eu estou errada por ser quem sou. Que eu deveria ser diferente, porque muitos não gostam de como sou.

Mas a questão é que hoje eu tenho trinta anos, tô pra parir, sou graduada e pós graduada, casada, adulta… Ou seja, não importa mais o que fizeram comigo ou por mim, agora o negócio é comigo. Agora eu sou responsável pela minha vida, por fazer minhas próprias escolhas e tomar minhas próprias decisões. A fase de menina se foi, e por mais machucada que eu possa ter sido, agora é minha responsabilidade me curar. Não tem mais a ver com meus pais, com amigos abusivos, com chefes pilantras, com sogra controladora, com imposições da sociedade, com gente amarga e infeliz que se aproveita dos outros pra se auto afirmar e se sentir melhor. Agora eu decido o que permito ou não, como vivo minhas experiências, o peso que dou pro que já vivi. Agora eu quem defino o meu caminho. Não tenho raiva de nenhuma dessas pessoas, nem mágoa, rancor, ou sei lá mais o que poderia sentir de desgostoso.

Nesses anos eu passei por um processo de restauração. Muita terapia, muita oração, muita conversa com gente mais madura e que me respeitou a ponto de me ajudar a encontrar minha liberdade, minha autenticidade, minha propriedade. E a sensação de não dever nada pra ninguém é incrível. A sensação de não ter mágoa de ninguém é mais incrível ainda. Deus é muito louco e o perdão é algo sensacional. Cada abuso que sofri, de todo tipo, doeu muito. Ouvir coisas que ouvi marcaram minha alma. Passar por coisas que passei arrebentaram comigo de várias formas. Mas, quando eu me disponibilizei pra ser curada, Deus agiu. Quando fui atrás de me amar e me respeitar e dei minha cara à tapa pra crescer e amadurecer, meus olhos se abriram. Quando me despojei da necessidade de aceitação e parei de acreditar em qualquer pessoa e coisa, percebi que a opinião dos outros sobre mim não importa, mesmo que esses outros sejam aqueles que me deram vida, ou meus irmãos, ou amigos com quem cresci ou os familiares do meu marido. 30 anos, quase parindo, tenho mais paciência não.

E então eu me senti livre. Livre pra ser chamada de chata sem sentir dor, livre pra não aceitar quando tentarem despejar lixo emocional em mim, livre pra quando tentarem me desrespeitar saber qual é o meu valor. Autoestima é uma delícia. Como eu disse, não é fácil e nunca vai ser. Muita gente não entende a liberdade do outro. Muita gente não percebe que está desrespeitando o outro e muita gente percebe, mas não está nem ligando pra isso.

O que eu quero é viver leve. Decido não acumular mais abusos e desrespeito. Essa decisão vai fazer com que eu não seja convidada pra festas e eventos sociais? Beleza. Vai fazer com que pessoas se afastem de mim por eu não fazer todas as suas vontades? Maravilha. Vai fazer com que me achem chata? Sou. Vai fazer meu círculo de amigos ser minúsculo? Perfeito. Vai fazer apontarem o dedo, julgarem e criticarem? Tá tudo bem. O preço é alto, mas eu assumo bancar, porque ser livre dessas amarras existenciais é saboroso demais. Sabe a frase da Frida, “onde não puderes amar, não te demores”? Eu ouso adaptar pra “onde eu não sou respeitada, não me demoro”. E tudo bem mesmo, porque ninguém é obrigado a gostar de mim. Não forcemos a barra, não torturemos uns aos outros. O mundo é tão grande, tem tanta coisa pra se fazer nessa vida que acaba tão rápido. Não sejamos otários.

Não seja um babaca com o outro só porque ele deve ser tolerante com você. Não erre com o outro só porque ele deve te perdoar. Não espere por mais amor, tenha mais bom senso. Não espere mais do outro, faça mais, você.

Não seja um abusador, ou uma abusadora.
Se você sofreu algum tipo de abuso, siga em frente, se cure disso, se trate, resolva, supere, banque o custo, se livre dessa amarra. Peça ajuda, vá pra terapia, tome um passe, sei lá, mas não permita mais. Não aceite mais, não se cale, não tenha medo. Deixa chamar de louca, de exagerada, de ingrata, do raio que for, mas viva leve. Respire leve. Tenha alta da internação.

Assunto encerrado.


Talita Guedes Bittioli é uma alma encarnada lutando pra cumprir sua missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A dor de quem gosta sozinho

 

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Ilustração de Crisalys

 

Quando eu tinha 16 anos, uma menina que eu conhecia havia muito tempo, mas que não era uma grande amiga minha, me abordou para dizer que gostava muito de mim e que queria se aproximar, mas que eu não dava muita abertura. Isso me chocou. Primeiro, porque eu também gostava muito dela e, segundo, porque eu nunca tinha percebido que ela havia tentado se aproximar. Fiquei um pouco sem graça e me desculpei, sem saber como justificar a minha falta de sensibilidade.

Na faculdade, outro caso parecido: uma querida da minha sala descobriu que morávamos no mesmo bairro e, por algum motivo que eu desconhecia, ela fazia questão de me esperar para irmos embora juntas. Ela também sempre achava um jeito de se aproximar durante as aulas e a determinação dela fez com que uma amizade muito preciosa nascesse entre nós. Somos grandes amigas até hoje.

Coleciono no currículo pessoas que admirei de longe e de quem quis me aproximar ou de quem me aproximei por um tempo, mas que partiram da minha vida em seguida. Lembro-me especialmente de uma pessoa que frequentava a igreja onde frequento, uma jornalista toda estilosa, cheia de personalidade e que cantava lindamente. Por muito tempo, eu a observei, pensando no quanto eu seria acrescida se me tornasse amiga dela. Um dia, criei coragem e me aproximei. Resultado: trabalhamos juntas por um tempo e eu pude aprender muito com ela.

A vida nos proporciona a oportunidade de colecionarmos casos assim. Pessoas de quem gostamos muito e com quem adoraríamos conviver, mas que são difíceis de acessar, ou porque estão longe geograficamente ou porque romperam conosco ou porque nem fazem ideia de que existimos. É a dor de quem gosta sozinho.

Hoje falei com Deus sobre essa dor. Num mundo ideal, onde a maldade não existisse, poderíamos todos nos aproximar uns dos outros sem medo, sem malícia, sem risco de rejeição e sem reservas. Exerceríamos a liberdade pura. Deus, então, me contou de novo que é uma realidade exatamente assim que Ele está preparando para nós; porém, por enquanto, neste nosso mundo quebrado, a dor de gostar sozinho pode acontecer a qualquer instante, não tem jeito. A diferença está na esperança de que um dia vamos dar um abraço gostoso em todos esses nossos queridos. E melhor do que isso ainda: eles irão nos abraçar de volta.

 

Mas era amar o nosso amor querer que alguém fosse feliz
somente
porque o amávamos.

Clarice Lispector

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Melancólica, sim, mas ganhando um novo olhar sobre a vida

Desde que me conheço por gente, sou guiada pela melancolia – a tendência de enxergar a metade vazia do copo, o lado pessimista das coisas e por aí vai. Nunca estou completamente satisfeita com as circunstâncias. Se por um lado a melancolia tem seu lado bom, pois abre portas para uma reflexão detida sobre questões existenciais, por outro, faz de mim uma pessoa difícil de agradar… e de conviver. Me identifico muito mais com a personagem Tristeza – linda e fofa e de óculos (eu também uso óculos) –,  do filme Divertidamente, do que com Alegria (sempre tão positiva sobre tudo o tempo todo, que chega a cansar a gente, rs). A boa notícia, porém, é que esse descontentamento que sempre matizou todos os aspectos da minha vida tem sido cada vez mais raro e devo isso ao processo de transformação espiritual, pelo qual venho passando há pouquíssimo tempo.

Tudo começou em janeiro deste ano, há um mísero mês somente, quando vi que minha única saída para não estragar meus relacionamentos, minhas escolhas e minha vida de modo geral seria abandonar alguns vícios, que por tempo mais do que suficiente vinham me acompanhando. Eu já havia feito quase tudo: já tinha sido paciente comigo mesma, aguardando aquela mudança lenta do tempo, do amadurecimento; já havia respeitado o meu ritmo; perdoado as muitas recaídas; mudado de casa, de cidade… e nada me curava de vez. Até que eu fiquei conhecendo os escritos de Catherine Marshall, uma escritora cristã que primeiro ficou famosa porque se casou com um pastor americano conhecido, lá atrás, nos anos 40, depois porque seus livros começaram a vender bastante. Numa conversa com a minha mãe, ela me contou que tinha uns livros da Catherine Marshall guardados numa caixa e eu fui correndo lá pescá-los, esbaforida de ansiedade, como alguém que escava exatamente o quadrado onde está escondido o tesouro. Encontrei ali dois livros dela e nem esperei chegar em casa para começar a leitura deles. Um é sobre a oração (por isso que meus posts andam tão “monotópicos” ultimamente, rs) e outro sobre o Espírito Santo. No livro sobre a oração, ela discorre sobre algumas orações que às vezes desejamos fazer, mas que não sabemos como, porque encontramos dificuldade em identificar a nossa real necessidade. Assim, ela vai delineando cada tipo de oração possível e a gente, à medida que avança na leitura, vai identificando qual espécie de oração expressa melhor para Deus aquilo de que tanto necessitamos (sim, Ele sabe tudo de que precisamos, mas a oração é uma prática que exercita nossa confiança em Deus, nossa intimidade com Ele e nosso conhecimento Dele).

Depois que terminei o livro sobre a oração da Catherine Marshall (o outro ainda estou lendo), parti para os escritos de outra mulher, a francesa Jeanne Guyon. Essa aí é uma das pérolas mais raras e incríveis de todas as galáxias juntas de todos os tempos de toda a história de tudo o que existe! Pois é, parece exagero, mas não é. Cristã vivida no século 17, Madame Guyon, como ficou conhecida, desenvolveu um relacionamento com Deus tão, mas tão profundo, que você chega a ficar com brilho nos olhos de pensar que, mesmo habitando um corpo limitado, é possível chegar tão perto assim de Deus e viver feliz da vida com Ele, mesmo passando por um monte de sofrimentos (como foi o caso dela). Li a autobiografia dela e agora estou lendo um guia de oração que ela escreveu, chamado Experiencing the Depths of Jesus Christ (Experimentando as profundezas de Jesus Cristo através da oração). Nesse livro, ela vai mostrando, passo a passo, como podemos encontrar Deus no centro de nosso ser, onde Ele habita.

O que tem me deixado tão maravilhada nessas duas autoras não se deve apenas ao fato de serem mulheres incríveis e espiritualmente fortes, mas principalmente ao fato de apontarem para a Fonte de toda a sua força, alegria e brilhantismo. Os textos delas – sempre apoiados nas Escrituras – deixam a gente com água na boca para chegar rasgando o coração na presença de Deus. Dá muita vontade de viver aquilo tudo e aí você acaba colocando em prática as orientações delas para essa experiência e vê que é tudo verdade! O nível de espiritualidade e intimidade com Deus da Madame Guyon, por exemplo, pode deixar a gente – meras iniciantes no assunto – um pouco desanimadas a princípio, mas resolvi que qualquer passo que eu der em direção a Jesus é lucro, mesmo que sejam passos de bebê. Assim, Madame Guyon se tornou para mim uma referência de onde é possível chegar nesta vida em termos de amizade e paixão por Jesus. Lindo demais!

Mesmo que eu ainda tenha a tendência de ver tudo cinza (afinal, essa sou eu), a experiência da oração tem me levado a conhecer melhor quem é Deus e isso tem sido, definitivamente, revigorante. Um exemplo disso aconteceu ontem mesmo, de madrugada, quando despertei do sono e fiquei rolando de um lado para o outro da cama, pensando em alguns gastos que terei logo mais, sem saber se teremos ou não recursos para isso. Claro que o pensamento vencedor foi: “Não vamos ter dinheiro! Não vamos ter dinheiro!”. Resultado: desatei a chorar. Mais tarde, quando fui falar com Deus sobre isso em oração, Ele me tranquilizou, respondendo que era na calma e na confiança que estariam a minha força e a minha salvação (Isaías 30.15, Bíblia). O fardo foi, então, retirado das minhas costas. Sorri.


Por isso, nunca ficamos desanimados. Mesmo que o nosso corpo vá se degastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia.
(2 Coríntios 4.16 )

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Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

No limbo eu sofri, mas dele tirei muitas lições

Ontem eu estava mexendo em um pendrive antigo, o primeiro pendrive que tive, aliás, quando encontrei entre as músicas gravadas lá dentro uma da Alanis Morissette, chamada Limbo No More. Ao colocá-la para tocar, me senti viajando no tempo, de volta ao ano de 2008, época em que essa música foi lançada e que, coincidentemente, minha vida se tornou um caos, para em seguida ser levada ao limbo, à suspensão total de tudo como até então eu conhecia.

Eu havia acabado de sair de um casamento, tinha perdido amigos, mudara de casa, tinha deixado a igreja da qual fiz parte desde criança e, um mês depois disso tudo, ainda perdi o emprego. Não restou quase nada a que me apegar. Senti o fundo úmido do poço contra o meu rosto. Eu não via nada à frente. Tudo ficou escuro e frio.

Minha casa, meu papel
Meus amigos, meu homem
Minha devoção a Deus
Tudo amorfo
Indefinido

Nada mais está claro
Nada mais se encaixa
Nada mais parece verdade
E eu nunca me entreguei por completo

Nada tem durado 
Nada mais é afirmativo
Nenhum lugar é lar 
E eu estou pronta para não mais ser limbo

Meu gosto, meus pares
Minha identidade, minha afiliação
Tudo amorfo
Indefinido*

(…)

Uma vez ouvi que a crise guarda em si um grande potencial para que algo novo surja, como uma semente. Lembro de minha psicoterapeuta dizendo algo parecido: Lu, a angústia é boa e saudável quando aponta para uma saída. E se naquele ano tudo tinha vindo abaixo, se nada do que havia sido um dia existia mais, então aquele era um momento crucial na minha vida. Porque era a partir daquele nada que tudo haveria de ser reconstruído. E de uma forma dolorosa e estranhamente prazerosa ao mesmo tempo, todas as escolhas se puseram à minha frente de novo, aguardando por mim. Eu estava pronta para me refazer.

E foi aos poucos e sentindo a mão de Deus pegar a minha e me erguer do chão, que fui fazendo novas escolhas. A primeira delas foi me inscrever no programa de mestrado em literatura. Depois, procurei novos amigos, a partir daqueles que haviam restado. Voltei a dar aulas de inglês e, um ano após a minha separação, encontrei uma nova comunidade de fé, à qual pertenço até hoje. Antes de encontrar essa igreja, porém, eu havia frequentado uma outra, formada de jovens universitários. Cheguei a ir a um acampamento com eles e me lembro de uma reunião que fizemos ali, em que eles oraram pela família que um dia formariam. Nem tive coragem de me unir a eles nessa oração. Sentada mais longe, falei para Deus muito rapidinho: Se eu pudesse… um dia… formar uma família…. eu ficaria muito… feliz. Depois de um ano dessa oração, conheci o David – o descendente de coreano, artista e talentoso, cujo trabalho todo mundo admirava -, que veio a se tornar meu querido marido e pai do nosso coreaninho loiro, o Álef.

Faz quase 9 anos que a Alanis Morissette lançou o seu álbum com a música Limbo No More nele. E faz esse mesmo tempo que a minha vida foi varrida pelo terremoto metafórico mais tenebroso que já experimentei. Ainda assim, chegou o dia em que eu pude dizer como ela: estou pronta para não mais ser limbo. Mas foi no limbo que eu aprendi. Foi no limbo que me humanizei, que estourei a bolha em que eu vivia e que, longe de me rebelar contra Deus, me vi mais dependente Dele e de suas segundas e terceiras chances. O limbo me ensinou a fazer escolhas responsáveis e mais do que isso ainda: foi no limbo que enxerguei o valor e os efeitos edificadores do arrependimento e da humildade. Finalmente, foi no limbo que eu aprendi a ter esperança.

Eu sento com quadros preenchidos e
Meus livros e meus cachorros aos meus pés
Meu amigos ao meu lado
Meu passado amontoado numa pilha

Joguei fora a maior parte das minhas coisas
E só mantive o que eu preciso 
Para aperfeiçoar algo consistente e notavelmente eu

Tatuagem na minha pele
Meus professores no coração
Minha casa é um lar
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Um senso de mim mesma
Meu propósito é claro
Minhas raízes no solo
Algo do qual finalmente sinto fazer parte

Algo alinhado
Com o qual finalmente me comprometer
Algum lugar ao qual eu pertenço
Porque estou pronta para não mais ser limbo

Minha sabedoria na prática
Um alicerce firme
Uma promessa a mim mesma
Porque estou pronta para não mais ser limbo*

 

*Tradução livre de Limbo No More, Alanis Morissette. Letra original aqui.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A identidade que vale mais do que o RG

identidade

– Quem sou eu? Sussurrei para mim dias atrás.
Como num lampejo divino, depois de certo tempo meditando na vida, na minha própria vida, em resposta veio quem eu não era.

Confesso: eu estava tentando adequar a mim algumas características alheias. E ter esse insight me fez pensar como Deus é paciente, misericordioso e extremamente didático comigo. Sempre… Não tenho dúvidas, que esse insight, só pode ter vindo Dele. Em amor (e por amor) Ele me explicou, pela enésima vez, coisas que eu havia, novamente, esquecido durante o caminhar.

– – – – – – – – – – – –

Em São Paulo (capital), ao nos apresentar à uma pessoa que não conhecemos, costumamos falar o nosso primeiro nome e a seguir, conforme a conversa se desenrola, falamos qual é a nossa profissão, onde trabalhamos e o que fazemos para “ganhar a vida”, no sentido financeiro, é claro.

Já em cidades bem menores, seus habitantes costumam identificar-se pela família a qual pertencem. Logo, se você for de uma família abastada e conhecida, com toda a certeza, será visto com “bons olhos”. Agora, se você “só” for a filha do João e da Maria que moram na Rua X que cruza a Rua Y, será, como dizem, “só mais uma na fila do pão”.

“Minha colega de trabalho e amiga Agnes Heller, com quem compartilho, em grande medida, os apuros da vida, uma vez se queixou de que, sendo mulher, húngara, judia, norte-americana e filósofa, estava sobrecarregada de identidades demais para uma só pessoa. Ora, seria fácil para ela ampliar a lista – mas os arcabouços de referência por ela citados já são suficientemente numerosos para demonstrar a impressionante complexidade da tarefa”

Zygmunt Bauman no livro Identidade

Apesar de haver grandes diferenças nas formas de identificação, ora focamos somente em nossos aspectos profissionais e/ou acadêmicos, ora é a nossa descendência que se encarrega de nos definir ao mundo.

Em meio a tais contrastes, todas essas formas de identificação, e por que não dizer de nos enxergar no mundo, na verdade, podem significar a mesma coisa, ou tomamos a responsabilidade por nos identificar ou escolhemos fragmentos de nós para definir quem somos.

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No final de 2014, decidi fazer a mudança mais radical e, aparentemente, mais “sem noção” de toda a minha vida. Finalmente eu havia percebido que, durante muito tempo, eu me definia apenas pelo fazer; criar e executar. Um prato cheio para me contentar em ter minha identidade primária firmada, e totalmente enraizada, na profissão que eu exercia.

Hoje, ao estar em contato com estrangeiros que estão em solo brasileiro, não por escolha, mas por refúgio – pois, foram obrigados a deixar seus lares devido a uma guerra, e com isso, talvez nunca mais retornem a seus lares de origem – começo também a observar, como tantas outras identidades, são transitórias; passageiras. E outras tantas podem ser acrescentadas a contragosto.

E em meio a renúncias optativas e identidades atribuídas, penso o quão mais simples nossa identidade, de fato, é. Esse é o convite de Jesus: “o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mateus 11.30).

“Sempre que os estereótipos ofuscam nossa percepção espiritual, corremos o risco de resistir ao que o Espírito Santo está tentando dizer-nos. Se permitimos que o mundo determine nossa identidade, estaremos nos perdendo no mundo, não nos achando em Cristo”

Karj Torjesen Malcolm no livro A Identidade
Feminina Segundo Jesus

 

“A velha vida de vocês está morta. A nova vida é a vida real – ainda que invisível aos espectadores – com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também. Enquanto isso, estejam contentes com a obscuridade, como Cristo”

Colossenses 3.2-4 – A Mensagem

A minha verdadeira identidade só pode ser achada em Cristo, e através de Cristo. O meu verdadeiro eu está escondido Nele. Portanto, estar Nele é me perceber “nova criatura”, repleta de novas possibilidades: “eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5.17), e é fascinante!

Já não busco mais assumir a responsabilidade para me auto definir: “Pouco importa o que vocês pensem ou digam a meu respeito. Eu não me avalio. Nesse caso, os rótulos são irrelevantes. (…) O Senhor é quem faz este julgamento” (1 Coríntios 4.3–4 – A Mensagem). Pois, sou convidada apenas a ser, e a ser uma com Ele. Nessa comunhão, por vezes, vivo como alguém em constante amnésia buscando a autonomia que tanto me adoece e me leva para longe de Deus, porém, meu consolo é que num futuro breve serei plenamente eu e totalmente restaurada Nele.

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Pra manter ou mudar

Móveis Coloniais de Acaju

Tudo que eu queria dizer
Alguém disse antes de mim
Tudo que eu queria enxergar
Já foi visto por alguém

Nada do que eu sei me diz quem eu sou
Nada do que eu sou de fato sou eu

Tudo que eu queria fazer
Alguém fez antes de mim
Tudo que eu queria inventar
Foi criado por alguém

Nada do que eu sou me diz o que sei
Nada do que eu sei de fato é meu

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Sempre que eu tento acabar
Já desisto antes do fim
Sempre que eu tento entender
Nada explica muito bem

Sempre a explicação me diz o que sei?
Sempre que eu sei, alguém me ensinou?

Algo explodiu no infinito
Fez de migalhas
Um céu pontilhado em negrito
Um ponto meu mundo girou
Pra criar num minuto
Todas as coisas que são
Pra manter ou mudar

Agora reinvento
E refaço a roda, fogo, vento
E retomo o dia, sono, beijo
E repenso o que já li
Redescubro um livro, som, silêncio,
Foguete, beija-flor no céu,
Carrossel, da boca um dente
Estrela cadente

Tudo que irá existir
Tem uma porção de mim
Tudo que parece ser eu
É um bocado de alguém

Tudo que eu sei me diz do que sou
Tudo que eu sou também será seu

 

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

E a romantização continua…

Um dos meus temas preferidos na escrita e na vida é o amor. Assim, estou sempre ligada no que é postado sobre o tema. Há duas semanas, voltou a rodar por aí um artigo do filósofo Alain de Botton, ranqueado como o texto mais lido do NY Times em 2016.  Para quem não o leu, um resumo: o filósofo acredita que essa história de encontrarmos alguém que nos faça total, substancial e paradisiacamente feliz em um casamento é lenda (assunto do nosso último post aqui do blog, aliás). Para ele, a felicidade completa em uma união seria irrealizável pelas seguintes razões:

  1. Devido à profunda intimidade que um casamento pressupõe, com o tempo, acabamos descobrindo as esquisitices mais bombásticas do nosso parceiro (e ele, descobrindo as nossas);
  2. O que nos move na escolha de um parceiro é um padrão de desajuste que vivenciamos em episódios da nossa infância, logo, tendemos para uma escolha “errada”, mesmo que puramente guiados pelos sentimentos (isso eu entendi mais ou menos, rs);
  3. Temos horror à solidão e por isso fugimos dela;
  4. Queremos engarrafar um sentimento gostoso e eternizá-lo por meio do casamento.

Segundo Botton, tudo isso nos direciona para um casamento frustrante. Mas ele não encerra o texto nesse tom pessimista:

A boa notícia é que não importa se nós achamos que nos casamos com a pessoa errada. Não precisamos abandoná-la, mas sim abandonar a ideia romântica, sobre a qual o Ocidente tem sustentado a compreensão do que é o casamento pelos últimos 250 anos: que um ser perfeito existe e pode suprir todas as nossas necessidades e satisfazer cada carência nossa.

A partir desse ponto, Alain de Botton propõe que a gente substitua essas expectativas tão sonhadoras do romantismo por algo mais pé no chão, que leve em conta que nenhum ser humano pode nos salvar de nós mesmos. Para ele, a pessoa que mais combina com a gente é aquela que lida com as diferenças do casal com gentileza e sabe negociá-las. E conclui: compatibilidade é uma conquista do amor, não seu pré-requisito.

Assim que terminei de ler esse texto, pensei: ainda bem que esse texto existe!

De fato, alguém tão influente como ele ter escrito um texto tão sincero provocou em mim uma esperança pelas pessoas que estão nesse dilema e por aquelas que ainda virão a se relacionar. Se eu tivesse lido um texto assim e realmente acreditado nele 15 ou 20 anos atrás, talvez eu tivesse sido poupada e poupado outras pessoas de muita dor. Conforme contei no post da semana passada, eu fui, pela maior parte da minha vida, uma viciada em romantizações. E meu caso parecia perdido.

Mas se engana quem pensa que a romantização não serve para nada. Ela tem uma função bastante importante, que é a de atrair duas pessoas uma à outra. Porque se fosse verdade apenas o que Alain de Botton defende, então poderíamos nos relacionar com a primeira pessoa parada no ponto de ônibus, que tudo bem, iria dar certo de qualquer jeito, concordam? E por que não é assim?

A história de Jacó, encontrada na Bíblia, é um ótimo exemplo da influência da paixão muito antes do movimento romântico que deu o tom nos séculos 18 e 19 (e 20, 21…). Naqueles tempos remotos, as pessoas que viriam a formar o povo judeu se casavam com outros da mesma família, para que a linhagem não se misturasse e se perdesse. O pai de Jacó, observando esse procedimento, o mandou viajar até a casa do tio para lá encontrar uma noiva e Jacó foi. Ao chegar lá, ele viu a sua prima mais nova, Raquel, e se apaixonou por ela (Gênesis 29.18). Quando ele encontrou o tio, o tio lhe ofereceu trabalho e perguntou o que Jacó queria como pagamento. Jacó respondeu: Eu te servirei sete anos por Raquel, tua filha mais nova (29.18) – e o tio aceitou a proposta. Jacó serviu, então, por Raquel, durante sete anos, que lhe pareceram alguns dias, de tal modo ele a amava (29.20).

Jacó trabalhou por sete anos, sonhando em se casar com Raquel. A questão é que Raquel tinha uma irmã mais velha, Lia, que também era solteira. E, segundo o costume deles, era a mais velha que deveria se casar primeiro, depois a mais nova. Então, quando os sete anos de trabalho de Jacó terminaram, o tio dele trapaceou e fez com que ele passasse a noite com Lia no lugar de Raquel. E, assim, seu casamento com Lia foi consumado. Jacó ficou muito bravo e pediu explicações ao tio, que mencionou o costume de que era a filha mais velha que devia se casar primeiro. Como a poligamia era aceita naqueles tempos, o tio de Jacó prometeu que daria também Raquel a ele em casamento, o que ele de fato fez na semana seguinte, mas Jacó teve que trabalhar mais sete anos para “pagar” por sua amada. Jacó uniu-se também a Raquel e amou Raquel mais do que a Lia (29.30).

Essa história nos mostra claramente que existe, sim, uma diferença clara entre uma pessoa com quem nos relacionamos movidos por paixão e uma pessoa com quem só nos relacionamos. A paixão nos impulsiona a nos unir a alguém, a querer nos aprofundar no conhecimento e na intimidade com esse alguém, a construir alguma coisa ao lado desse alguém. É o imã, o tempo gostoso de construção de um vínculo, uma fase que define se vamos ou não continuar a caminhada juntos. É o frio na barriga, a espera ansiosa, os sorrisos gratuitos, a cabeça nas nuvens.

Mas e quando essas sensações todas passam, seria a hora de encerrar e partir para outra?

É exatamente nesse ponto que considero a reflexão de Alain de Botton de grande utilidade pública. Porque é justamente nessa metamorfose da pura paixão para algo que não é mais pura paixão que muitos desistem, por acharem que o amor acabou. E é nesse momento que cabe a nós nos perguntar: o que será que existe do outro lado da margem da paixão? O que nos espera depois da crise, da dúvida e da decisão de permanecermos juntos?

Demorei quase dois anos para responder essa pergunta e transpor esse rio. Lembro-me das longas sessões de terapia, em que eu repetia insistentemente à psicóloga que eu não via a hora de passar para o “nível 2” da minha relação com o meu marido. E lembro-me das palavras dela, me dizendo como eu experimentaria uma conexão profunda com ele ao chegar lá. Não seria um sentimento desesperado e ansioso como a paixão. Seria algo diferente. Seria um amor doce e consistente, como uma fruta madura.

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se não a tivera merecida;

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora,
Para tão longo amor, tão curta a vida.

(Soneto 29. Luís de Camões, poeta português, 1524-1580)

 

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Encontro de Jacó com Raquel (1518-1519), do pintor renascentista italiano Rafael.

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Breve relato de uma romântica curável

Sou uma romântica nata. Dos meus 13 anos em diante, eu assistia a todas aquelas comédias românticas hollywoodianas, em que adultos agiam como adolescentes, e às séries de TV em que adolescentes agiam como adultos (alguém aí se lembra de Dawson’s Creek?). Em todos eles, o casal mais carismático da trama sempre acabava junto. Nos meus devaneios também, e o casal era sempre formado por mim, obviamente, e algum garoto inatingível, por quem eu nutria uma paixão platônica. Naqueles minutos eternos que se seguiam antes do sono, eu conseguia montar um enredo com começo, meio e fim, envolvendo algum encontro fortuito com o crush impossível e ele, de alguma forma “inesperada”, abria o coração para mim e confessava como seus dias eram miseráveis sem a minha presença neles.

Mas o que talvez viesse a ser algo natural da adolescência – e até saudável, se deixado lá – me acompanhou para a vida adulta, a ponto de eu chegar a fazer terapia para me livrar dessa segunda vida. Sem sucesso. A idealização era a minha sombra e, por conhecer a fundo as minhas fragilidades, acabou se tornando a minha maior inimiga. Não havia relacionamento em que eu entrasse, que a romantização não entrasse comigo para colocar tudo a perder. Eu exigia que o real fosse igual ao imaginário e aí então tudo se desfazia. Eu queria estar feliz o tempo todo, apaixonada o tempo todo, sem conflitos o tempo todo. O que eu obtinha disso? Insatisfação o tempo todo, ingratidão o tempo todo, frustração o tempo todo.

Demorou muitos anos, mas muitos anos mesmo, para eu entender o funcionamento da minha mente e onde, nela, teria espaço para o universo paralelo e perfeito, sem que ele prejudicasse as minhas escolhas de carne e osso. Mesmo compreendendo e admitindo a existência desse mundo imaginário, ainda assim minha tendência de ir até lá buscar nomes, rostos e situações perfeitas nos momentos de dor era quase irresistível. Assim, por não abraçar por completo as minhas escolhas reais, com todos os bônus – e ônus – que elas traziam consigo, deixei muitas vezes de falar nelas, escrever sobre elas, postar fotos delas… curti-las mesmo, sabe?, por receio de soar hipócrita para os que me conheciam. Quantas vezes invejei os retratos de casais juntinhos postados nas redes sociais! Não porque eu mesma não fosse feliz, mas porque eu não era perfeitamente feliz.

Este ano completo 5 anos de casada e ainda tendo a me entregar a idealizações distantes. Mas cheguei a um ponto de exaustão por essa vida dupla habitando dentro de uma Luciana só. É desgastante, ingrato. Por tempo demais, fiquei guardando o meu melhor amor, o meu melhor sorriso, o meu bom humor, o meu respeito. E tudo para quem? Para alguém que nunca esteve realmente aqui, um ser etéreo, uma imagem, um habitante de um planeta romântico paralelo, para onde eu viajava todas as vezes que as minhas escolhas ficavam reais demais. Cansei e entreguei os pontos… fiz uma oração definitiva, falei tudo para Deus e terminei a oração assim: Pronto, tá aqui. Tudo o que construí na minha mente está neste pacote, que deixo aos seus pés agora. Faça o que quiser com ele, mas por favor, nunca mais me deixe pegá-lo de volta (essa foi uma das orações mais difíceis que já fiz na vida).

E é aqui deste lado do mundo, mais precisamente ao meu lado, que está o homem que comprou a minha briga, que apostou em mim, mesmo depois de conhecer a minha história: meu marido David. Faz 5 anos que ele me escolhe diariamente. Ele é real e me traz junto para viver a realidade com ele. E o mais incrível de tudo é que ele é capaz de reproduzir uma beleza e uma leveza muito parecidas com as que criei nos meus devaneios românticos de menina, sem ele nem ter estado lá! E é no alto dessa beleza e dessa leveza que ele me coloca e me coroa como a rainha do mundo que estamos criando juntos. Eu escrevendo e ele ilustrando.

Semana passada postei uma foto de nós três juntos: ele, nosso filho de 2 anos e eu. E ao contrário do que uma foto linda numa rede social sugere (“olha como sou feliz demais!!”), postei nossa foto juntos porque sonhei com esse dia. Sonhei com o dia em que eu estaria inteira no meu casamento, inteira ao lado do meu marido, nutrindo e lutando pelas minhas escolhas e pelas escolhas que fizemos juntos. Minha foto com eles é minha oferta de gratidão e alegria por estar, finalmente, pisando em terra firme de novo e, mais inédito do que isso ainda, amando a realidade em que me encontro.

 

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Nós.

Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A arma da alma

Imagine você, ao ler num jornal sobre o assassinato de uma criança em São Paulo, se ver tão chocado, mas tão chocado, que decide ir conhecer a quadrilha que fez isso para levar até eles uma mensagem diferente, de amor, para que eles se arrependam e mudem de atitude? Louco, não? Pois um norte-americano, chamado David Wilkerson, fez exatamente isso. Abalado com a notícia de um crime odioso cometido por gangues em Nova Iorque, ele se mudou para lá com seu carro velho e sem um tostão no bolso. Ali, começou um trabalho com essas gangues e, ao apresentar Jesus a elas, mudou o cenário de violência de muitas daquelas ruas. A arma mais potente usada por Wilkerson? O hábito da oração.

Quando ouvi essa história, sentada num banco da suntuosa Catedral Metodista de São Paulo, senti que eu estava passando pela vida sem provar de uma parte deliciosa e espetacular dela, que só a oração poderia proporcionar, uma vez que só a oração consegue construir a ponte entre aquilo que a gente vê e aquilo que a gente não vê. Percebi que eu estava vivendo apenas para aquilo que vejo e isso era pouco pra mim.

Ontem recebi nos meus e-mails uma reflexão escrita pelo monge holandês Henri Nouwen, que sugere uma mudança ousada, envolvendo a troca de nossos pensamentos constantes por oração constante. Olha só a proposta dele:


Nossa mente está sempre ativa. Nós analisamos, refletimos, sonhamos acordados ou simplesmente sonhamos. Não há nenhum momento, de dia ou de noite, em que não estejamos pensando. Dizemos que o nosso pensar é “incessante”. Às vezes o nosso desejo é parar de pensar um pouco; isso nos pouparia de muitas preocupações, sentimentos de culpa e medos. Nossa habilidade de pensar é um dos nossos maiores dons, mas também é a fonte de nossas maiores dores. Será que temos que nos tornar vítimas de nossos pensamentos incessantes? Não. Nós podemos converter nosso pensar constante em um orar constante, fazendo com que nosso monólogo interior se torne um contínuo diálogo com nosso Deus, que é a fonte de todo amor.
Vamos romper com nosso isolamento e perceber que Alguém, que mora no centro de nosso ser, quer ouvir com amor a tudo o que ocupa e preocupa a nossa mente
.

Essa proposta soa tão simples que nem parece real. Mas quando o assunto é Deus, por meio de Jesus, é tudo assim direto e reto mesmo. Se a nossa mente fosse só uma fábrica de ideias (boas), ela seria perfeita. O problema é que a nossa mente também julga as pessoas, distorce a verdade e interpreta erroneamente os fatos. Aí se estabelece o inferno. Como escreveu C.S. Lewis:

Durma. Afaste-se por algumas horas de todos os tormentos que forjou para si mesmo.

Imagino Henri Nouwen revisitando a citação de Lewis:

Ore. Afaste-se para sempre de todos os tormentos que forjou para si mesmo.

Libertador.

A partir do dia em que ouvi sobre a história de Wilkerson com aquelas gangues em Nova Iorque, comecei a orar mais vezes, por mais tempo, e até um livro que fala só sobre a oração eu comecei a ler. Descobri que a oração pode ser de vários tipos, tomar várias formas e alcançar todas – literalmente todas – as dimensões da nossa existência. Estou adorando me aventurar nos caminhos transformadores que a oração tem aberto à minha frente: sinto mais alegria no coração, relaxo mais, não tenho brigado com meu marido por picuinha (aliás, as picuinhas são completamente exterminadas da vida de quem se conecta à Fonte de todo amor por meio da oração), meus vícios se tornaram menos atrativos e ando mais satisfeita com o modo que Deus me criou, tanto por fora como por dentro. A oração é um estilo de vida, um hábito saudável e feliz ao mesmo tempo (como uma dieta com direito a doces), um hidratante para almas ressecadas.

 

É isto que precisamos redescobrir nesta era de perplexidades:

como recorrer ao Pai.

Catherine Marshall

 

 

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Retrato em aquarela, por meu marido David Kim

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Minha ressaca de Ano Novo

 

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Ilustração de Brian Rea

Ontem, 1 de janeiro, acordei com sintomas de ressaca. “Só você, né querida?” – ouço alguém pensar. Mas me refiro a uma ressaca mais existencial. Explico: depois de tantas comemorações de virada de ano, de desejos de paz, alegria e saúde, depois de termos orado e nos abraçado e comido e quase não termos dormido para que as olheiras do dia seguinte nos juntassem aos demais membros participantes desse rito de passagem que é o réveillon, eu acordei igual. Acordei e encontrei muito mais de mim em mim do que eu desejava. No espelho, a troca de olhares cúmplices me revelou: “ainda é você, né?”. Para o que prometia ser um ano novo, foi uma bela decepção. Encontrei tudo o que eu sempre fui e até as coisas chatas em mim, das quais eu quero tanto me livrar, ainda estavam ali. E com certo pesar, pensei: “Enquanto todo mundo recomeça – ano novo, vida nova -, eu permaneço no mesmo lugar”. Desejei que, da noite de sábado para ontem, uma fada tivesse jogado pó de pirlipimpim nas minhas questões e elas tivessem sido mandadas da Via Láctea para a galáxia mais distante possível. Mas não foi bem assim. A virada não me mudou em nada.

Mas Deus cuida de tudo e cuida de mim. Ainda ontem, Ele me mandou alguns recados e um deles foi Davi quem o escreveu: Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste*. Deus me fez de uma forma linda e não reconhecer e ser grata por isso é viver uma mentira, que só me deforma e me deprime. Ainda melhor do que isso, Deus também me lembrou de algo que com frequência me esqueço: na hora de me criar, Ele se inspirou em Si próprio e aí me fez**. Eu não poderia querer molde mais incrível! E isso significa não apenas que eu tenho qualidades valiosas (o que é verdade), mas que o meu valor está no fato de eu existir como sou, porque sou semelhante ao próprio Deus.

Quanto às minhas questões, sim elas existem mesmo e vão existir enquanto eu viver limitada pelo meu corpo, mas isso não quer dizer que elas não possam ser tratadas por Deus. Desta vez, tomo emprestada a oração de Catherine Marshall*** e a torno minha também:

Senhor Jesus, como te agradeço pelo fato de que a liberdade para a qual me chamas não busca modificar-me, forçando-me a fazer aquilo que não quero, mas me transforma interiormente, dando-me novos desejos.      

E finalmente, pelo último recado de Deus no dia da minha ressaca, compreendo que a ação do Espírito sobre as minhas questões não é uma fórmula mágica, mas um processo. E que mais do que o resultado, o que importa é de onde parti e para quem vou chegar:

O caminho muda e muda o caminhante
É um caminho incerto, não o caminho errado
Eu, caminhante, quero o trajeto terminado
Mas no caminho, mais importa o durante
Deixei pegadas lá no vale da morte
Um solo infértil aos meus muitos defeitos
Minha vida alargou-se em caminhos estreitos
E eu vi Você
A Partida
E o Norte****

Consolada, encontro a paz de espírito necessária para refletir sobre o ano de 2017:

 Quais são as características em mim que mais magoam as pessoas que amo e que podem ser trabalhadas?

 Quais são as características em mim que prejudicam a mim mesma e que podem ser trabalhadas?

Como posso transformar o meu trabalho em missão, de forma que ele ganhe ainda mais sentido?

Em que degrau da minha escada de prioridades vou colocar a comunidade de fé onde sirvo? E emendando: sirvo à minha comunidade de fé ou só ela tem me servido?

Quais são os frutos bons em mim que quero manter ou aperfeiçoar?

Não mais espero que um gênio da lâmpada, de uma hora para outra, transforme meus desejos em realidade, meus defeitos em perfeição, mas sigo em frente com um frio gostoso na barriga, de quem se entrega para ser argila nas mãos do Artesão do universo. E Ele não precisa ter pressa, porque é para Ele mesmo que estou sendo transformada.


 

*  Salmo 139.14
** Gênesis 1.26 e 27
*** Do livro O Consolador, de Catherine Marshall
**** 
 Trecho de A Partida e o Norte, música linda de Estêvão Queiroga

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.