Um desabafo e um apelo às feministas cristãs

Esta semana chegaram em minha timeline dois ou três artigos falando sobre o crescente número de evangélicas que têm aderido ao feminismo. Se por um lado essa notícia é de animar, uma vez que esse tabu finalmente tem sido quebrado no meio cristão (demorou, não?), por outro, existe um discurso rançoso e insistente nas entrelinhas de algumas entrevistas que tratam desse assunto, que é o seguinte: a Bíblia é ultrapassada e não pode ser levada a sério. Tudo ali deve ser relativizado. Agora me respondam vocês, companheiras na causa e na fé: por que precisamos colocar em xeque o caráter sagrado das Escrituras para validar o nosso discurso? Por quê???? (perdoem-me pelo excesso de interrogações, mas preciso deixar bem expresso aqui o grau da minha indignação).

A não ser que eu seja muito ignorante mesmo, essa necessidade de estabelecer uma dicotomia entre a Bíblia como verdade e o feminismo, a fim de justificar a aderência das cristãs ao movimento, não entra na minha cabeça de forma alguma. Eis algumas considerações e textos retirados da Bíblia, que explicam o tamanho do meu espanto:

  • Pelo que eu entendo do feminismo, trata-se, essencialmente, de um movimento que luta por respeito e direitos iguais entre os gêneros. Sei que existe uma vertente mais radical, que preconiza a superioridade do gênero feminino sobre o masculino, mas imagino (e me corrijam se eu estiver errada), que não é isso que o feminismo como um movimento mais abrangente defende, uma vez que o que o move é o ideal de justiça. E olha só o que diz a Bíblia: Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gálatas 3.28, negrito meu).
  • Só o texto bíblico acima já daria conta de justificar a causa feminista mais abrangente. Mas aí virão algumas dizer sobre o versículo famoso de Paulo sobre o casamento, que propõe a submissão da mulher em relação ao marido (Efésios 5.22). Vou repetir o que muitos já disseram: continue lendo que você verá que o marido, em troca, deve amar tanto a mulher, que deve estar disposto a dar a própria vida por ela (são vááários versículos sucessivos que reforçam isso, a partir do 5.25). É como minha amiga Fernanda Pinilha falou: relação de submissão é diferente de relação de opressão. Uma relação movida por um amor puro como o descrito nesse texto do apóstolo Paulo certamente cria um ambiente propício para ambos encontrarem seu espaço. Submissão, neste texto, definitivamente significa respeito (só ver o resumo de tudo no verso 33) e respeito é a cola básica de qualquer união.
  • Podíamos passar parágrafos e mais parágrafos citando exemplos do protagonismo de certas mulheres em diversas narrativas bíblicas (as próprias reportagens sobre o feminismo entre as evangélicas já citam alguns exemplos, como as mulheres que divulgaram a ressurreição de Jesus), mas é fato que o machismo é presente na maioria das histórias que compõem as Escrituras, principalmente o Antigo Testamento. Mas companheiras queridas, vamos ser bastante lógicas neste momento: estamos falando de sociedades ancestrais, cujas organização familiar e mentalidade não podem, de maneira alguma, ser analisadas tendo como referência, base, teoria ou o que quer que seja a mentalidade da cultura ocidental atual. Isso seria como querer tratar uma doença típica daquela época, como a hanseníase (vulgo lepra), com uma medicação desenvolvida nos dias de hoje – ou seja, impossível! Simplesmente a igualdade entre os gêneros não existia como possibilidade de problematização para as pessoas daquela época. Cada sociedade tratava a mulher da forma como entendia ser o certo e ninguém questionava isso, fazer o quê? Isso não quer dizer que a Bíblia endosse esse comportamento específico. Ela apenas o retrata, com as virtudes e as mazelas típicas da história de qualquer povo.
  • Agora que já passamos pela questão da Bíblia e vimos que – ufa! – ela não está dissociada da causa feminista abrangente, vamos à questão que, aí sim, é de um machismo evidente: a participação das mulheres na igreja. Aí o nosso olhar não está mais sobre o que Deus acha disso, mas como as pessoas dentro de uma igreja lidam com isso. Como não sou homem, não sei explicar tamanha resistência em abrir espaço para as mulheres ocuparem (a não ser no ministério infantil, claro): seria medo de elas falarem besteira? De se destacarem? Ou então falarem demais? Sensualizarem enquanto lideram? Não serem suficientemente inteligentes? Algumas amigas e eu já especulamos um pouco o assunto e chegamos a pensar que todo esse medo denota uma insegurança do homem frente a uma mulher, em termos de sexualidade mesmo. Bom, como eu falei, são só especulações e não afirmações. Apenas os homens podem analisar suas motivações para barrarem tanto a contribuição feminina em postos de destaque na igreja. Só espero que eles não continuem recorrendo à Bíblia para justificar um preconceito ou uma dificuldade que está dentro deles próprios e não em outro lugar.

Mulheres cristãs feministas, que bom que vocês existem! E que papel importante estão desempenhando dentro de uma realidade que deveria ser, por essência, igualitária, justa e graciosa! Não deixem a causa. Nem a fé. Porque a causa sem a fé pode gerar extremismos e distorções e a fé sem a causa deixa tudo como está dentro das igrejas: um monte de mentes femininas brilhantes e cheias do Espírito sendo desperdiçadas por preconceito injustificável.

Que a fé no Autor das Escrituras nos leve à oração e à união para que continuemos a influenciar nosso contexto.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

 

Feliz Luta Internacional da Mulher

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Imagem daqui.

Hoje é dia Internacional da mulher e, entre tantas mensagens nas redes sociais, notícias e falatórios, lojas oferecendo rosas às mulheres nas ruas, empresas fingindo que valorizam suas funcionárias e presenteando com “coisas de mulherzinha”, me pergunto se as pessoas realmente sabem o motivo dessa data ter sido instituída e a importância que essa luta (sim, luta, não é comemoração) tem pra toda a sociedade. Se você não sabe o motivo do dia 08 de Março ser estipulado como Dia Internacional da Mulher, vá atrás de saber. Não, eu não vou dar o caminho das pedras, vá ao Google, vá pesquisar. Se você que está lendo isso é uma mulher, digo isso porque faz parte do empoderamento feminino ir atrás daquilo que se quer, tornar-se protagonista das próprias decisões e escolhas, estudar, pesquisar, ir além. Se você que está lendo isso é um homem, faz parte da sua humanidade entender porque é que o dia 08 de Março é um dia de luta e não de entregar flores ou bombons às mulheres.

Pensar no Dia Internacional da Mulher, é, pra mim, angustiante, porque ser-mulher é uma das coisas mais difíceis que existem.

Eu não quero, no dia de hoje, receber flores, mensagens fofas ou declarações de quanto as mulheres são lindas ou poderosas porque “fazem tudo que o homem faz, de salto alto”. Não quero brindes comerciais que só servem pra fomentar a produção capitalista massificante ou enobrecer empregadores que no resto do ano não fazem porcaria nenhuma por suas funcionárias e/ou clientes mulheres. Não quero um jantar chique num restaurante, não quero que seja o dia de “folga dos afazeres domésticos”, o dia que os papais “ajudam” as mamães olhando as crianças pra elas irem tomar um café com as amigas. Não quero ser ressaltada e elogiada por minha fragilidade (hein?), minha capacidade de cuidar de marido e filho (oi?), minha competência de fazer jornada dupla – trabalho e casa (hahaha).

O que eu quero é que meu direito de ir e vir, garantido por Lei, seja respeitado. Eu, como muitas mulheres, sinto medo de ir ao mercadinho perto de casa a pé, porque no meio do caminho tem uma praça que está sempre cheia de homens desocupados que me tratam como objeto e ficam fazendo caras e bocas que me dão vontade de vomitar e de esfaquear cada um deles, fazendo-os sentir muita dor. Eles dizem coisas que tenho vergonha de reproduzir em voz alta. Eles torcem os pescoços pra ver minhas pernas, minha bunda e meus peitos e eu queria que os pescoços torcessem de vez e quebrassem ali mesmo, no meio da praça.

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Re-significando a natureza selvagem da mulher. Foto daqui.

O que eu quero é meu direito de existir sozinha. Alguns anos atrás eu saí do meu antigo consultório, às 22h30m, sozinha, depois de trabalhar muito o dia todo. Era semi final da Libertadores e o Corinthians estava num momento histórico. Meu marido foi assistir ao jogo com amigos e eu preferi ir pra casa, mas, antes resolvi passar no mercado e comprar o jantar. No estacionamento, quando terminei de colocar a última sacola no porta malas, um homem e uma mulher (sim, existem mulheres ladras e más) me abordaram, avisando que aquilo era um assalto e me fizeram ir dirigindo até a agência bancária mais próxima. Limparam minha conta, apontaram uma arma pra mim, riram de mim, me humilharam, me xingaram, depois me fizeram dirigir até um beco, vazio e desconhecido por mim, saíram do carro levando a chave e me ameaçaram ao dizer que eu não devia procurar ajuda pra sair dali. Sabem o que eu ouvi da minha mãe, da minha sogra, de muitas amigas? “Nossa Talita, mas por que é que você foi ao mercado essa hora da noite sozinha?!” Também ouvi: você devia ter ido assistir ao jogo com seu marido, se estivesse ao lado dele, nada teria acontecido com você. E também ouvi: a culpa é do seu marido, se ele não tivesse deixado (isso mesmo, deixado, como se ele mandasse em mim) você ir ao mercado sozinha, isso não teria te acontecido; você devia ter ido com ele, outro dia, não nesse (sim, porque o marido deixar de assistir o futebol pra ir ao mercado não pode, entendeu?). Eu tinha sofrido um sequestro relâmpago, mas a culpa não era da violência, a culpa não era dos assaltantes, a culpa era minha por ser mulher e ter ido ao mercado sozinha.

O que eu quero é poder realizar as minhas atividades diárias e até passar por imprevistos na rua, sem medo de ser estuprada. Meu carro está com problemas no reservatório de água. Como eu trabalho demais e uso o carro pra trabalhar, ainda não tive tempo de deixá-lo no conserto. Ontem à noite (pois é, eu não aprendo sociedade, eu continuo indo trabalhar a noite, sozinha) estava indo pro trabalho e já tinha vazado, ao longo do dia, toda a água. Não tinha posto de gasolina no caminho (e mesmo que tivesse, eu não pararia, porque uma mulher sozinha não pode ir em paz ao posto de gasolina, os frentistas acham que podem ficar mexendo com a gente no ambiente deles, “masculino”) e então, fui com o carro fervendo até um dos Shoppings onde atendo, e, só lá, no estacionamento, peguei a garrafa de água que já deixei no carro e enchi o reservatório. E ainda tive que me preocupar em estacionar numa vaga próximo à porta de entrada, onde tem guarda e mais movimento. Sim, isso tudo porque sou mulher. Não é o máximo? E aí, no dia 08 de Março vêm me entregar flores? Ah vá.

O que eu quero é que ao invés de brindes como creme hidratante, batom, perfume, rosas, cartinhas coloridas, as mulheres ganhem no dia 08 de Março, de seus empregadores e outras empresas, DVD’s de filmes de grandes cineastas mulheres, como a Sofia Coppola, ou livros de grandes autoras, como a Clarice Lispector ou a Doris Lessing. Por que sempre tem que ser presentinho fofinho que incentiva a beleza física da mulher, e não sua inteligência, sua intelectualidade, seu brilho interno? Por que sempre os produtos de beleza são mais valorizados ou vêm em primeiro lugar, antes de algo que valorize a sabedoria feminina? E aqui eu indico a leitura desse texto, bacanérrimo, que a Ana Lucie – querida leitora do Santa Paciência – me enviou hoje, sobre a Jenny Beavan, ganhadora do Oscar 2016 de Melhor Figurino por Mad Max: Fury Road (história de uma outra super mulher!). Jenny já foi indicada ao Oscar DEZ vezes na categoria Melhor Figurino, já levou a estatueta em duas premiações (por Mad Max, já citado, e por A Room With a View), e recebeu olhares julgadores e tortuosos pura e simplesmente por ter escolhido ir vestida confortavelmente à entrega do prêmio, muito diferente das mulheres exageradamente arrumadas no tapete vermelho mais famoso do mundo. Sério, eu quero muito mais Jennys no mundo!

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Jenny Beavan, winner for Best Costume Design for “Mad Max: Fury Road”, poses during the 88th Academy Awards in Hollywood, California February 28, 2016. REUTERS/Mike Blake – RTS8H6D

O que eu quero é que os produtores de cerveja parem de usar a mulher como objeto sexual pra atrair mais consumidores homens e se lembrem que as mulheres também são suas clientes, também bebem cerveja.

O que eu quero é que parem de usar mulheres quase nuas como ring girls em eventos de lutas, como o UFC, só pra atrair Ibope pros canais televisivos e pro “show” em si. E quero que mais mulheres lutadoras tenham espaço no esporte de lutas e artes marciais. Quero que homens pensem quinze vezes antes de dizer que alguém mais fraco ou menos habilidoso “luta igual uma menininha”. Quero que entendam que mulher também gosta de esportes, inclusive de MMA, porque esporte é esporte e ponto, não existe esporte de homem ou esporte de mulher.

O que eu quero é que as mulheres tenham direito à educação, direito à voz. Eu já escutei uma moça dizendo que se ela tivesse oportunidade de colocar só um dos filhos em escola particular, seria o menino, porque ele se tornaria o líder da família quando adulto, o provedor, então precisaria ter melhor educação. A filha não, tudo bem estudar na escola pública, mesmo. Não te dá vontade de chorar de tristeza? A mim, dá.

O que eu quero é que meninas em idade escolar não se sintam mal por não serem as populares, as preferidas pelos garotos por alcançarem um padrão ridículo de beleza. Quero que meninas parem de sentir que precisam ser as preferidas dos garotos pra se perceberem como seres humanos importantes. Quero que meninas tenham a oportunidade de crescerem seguras, aceitas, queridas, antes de tudo, por si mesmas.

O que eu quero é que deixe de existir esse acúmulo terrível de notícias sobre feminicídio, sobre homens e mulheres que matam suas parceiras por ciúme e possessividade, que espancam suas esposas porque se sentem poderosos e superiores, que violentam física e emocionalmente meninas, tirando delas a liberdade de crescer em uma vida em paz.

O que eu quero é valorização no trabalho. Não é mais destaque, não é mais firula, é reconhecimento daquilo que as mulheres já fazem o tempo todo. Quero que as mulheres não sejam mais assediadas sexual ou moralmente por seus chefes (homens ou mulheres). Quero que tenham salários baseados em suas competências, não no que tem (ou não tem) no meio das pernas. Quero que mulheres não sejam fantoches de homens.

O que eu quero é respeito, entendeu? Quero que as mulheres sejam tratadas com dignidade. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres com educação e gentileza, com presteza, com afeto. Homens e mulheres devem tratar homens e mulheres como seres humanos que são, co-existentes no mundo. De forma justa. Quero mais mulheres empoderadas, quero menos homens babacas.

Quero mais mulheres como a descrita em Provérbios 31. Essa mulher hardcore, como eu disse aqui uns dias atrás.

Se você pegar a Bíblia e ler decentemente o que está escrito em Provérbios capítulo 31, do versículo 10 até o 31, vai entender que a mulher que Salomão (um homem, sim, um homem, um rei, descrevendo características de uma mulher “de valor”; baixa a guarda e presta atenção) descreveu como virtuosa não é uma cafona, bobalhona, amélia, domesticada (no sentido ínfimo de cada palavra). Ele já começa dizendo que a bendita é difícil de achar. Ou seja, se é difícil de achar, também é difícil ser, certo? Certo. Depois ele fala que essa mulher vale mais que diamantes. Que ela é confiável, tem temperamento equilibrado, é inteligente, não é do tipo que é passada pra trás, é esperta. É analítica, de mente organizada, planeja, não tem medo de trabalhar pesado e sente alegria e prazer no trabalho. Não tem pressa de dar o dia por encerrado e compreende o valor do que faz, compreende o valor que tem. Ela se cuida, se preocupa com si mesmo e também não demora em ajudar quem precisa dela, sendo que sempre tem o que oferecer, porque é prevenida e habilidosa. Faz as coisas com zelo, é criativa, intuitiva e sabe bem o que faz e o que diz. É atenta, sabe dar orientações eficazes e conselhos sábios. Torna quem está ao seu redor produtivo e sempre encara o dia de amanhã com um sorriso. É humilde e vive no temor do Eterno, seu Deus.

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Aaah, Aslan! (Cena do filme As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian)

Percebe que essa descrição bíblica combina com o conceito de uma mulher forte e de atitude? Pois é, combina. Percebe que é o conceito de mulher que não é obrigada a casar e ser mãe pra ser feliz, que trabalha e garante seu sustento, que vai atrás do que quer, que não fica à sombra dos homens? Percebe que é uma mulher que brilha? Isso é o que eu quero pra mim e pra você, querida mulher, hoje e todos os dias.

Feliz Luta Internacional da Mulher.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Não nos deem os parabéns

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‘Mirror’, por Tigran Tsitoghdzyan, óleo sobre tela

 

Não gosto de receber ‘parabéns’ pelo dia das mulheres, nem flores, menos ainda um poema breguinha. E explico por quê:  minha indisposição para sorrisinhos e congratulações não se devem à data em si, que é, na verdade, um marco na história feminina e deve sim continuar no calendário como um memorial de que, um dia, mulheres se recusaram a ser exploradas no trabalho e lutaram por seus direitos como… seres humanos que são. Entretanto, com o passar do tempo, a força dessa data começou a ser diluída e, no lugar, passamos a receber gracejos e elogios por nossa fragilidade (!!), quase como uma declaração do tipo: “sinto por você ter nascido mais fraca, mas veja pelo lado bom, você é bonita!”. Aff!

Quando leio Provérbios 31.10 em diante, respiro aliviada: Salomão entendeu do que somos feitas e, acima de tudo, fez uso da palavra que resume todas as coisas, que atinge o cerne da questão feminina e que responde a pergunta sobre o que eu quero receber no dia das mulheres e em todos os outros dias do ano e da vida: DIGNIDADE (verso 25).

Pronto! Se fosse dignidade o que regesse nossas relações todos os dias do ano, a mulher não serviria de objeto sexual, não veria seu direito à educação negada em países regidos pelo Talibã, não teria medo de ser estuprada na rua quando seu carro quebrasse no meio da noite (pois é, isso aconteceu ontem mesmo), não seria alvo de piadas, nem de agressão física, nem de preconceitos de diversas naturezas.

A passagem da mulher virtuosa de Provérbios não é apenas uma homenagem (aí sim, genuína e linda e recebo-a no dia de hoje com o coração aberto e feliz) para as mulheres, mas sim uma lição para a humanidade sobre dignidade, respeito e justiça. Se fossem esses os princípios que regessem as nossas relações de fato, os poemas, os ‘parabéns’ ou qualquer outro gesto atencioso não teria esse gosto de coisa forçada, artificial, hipócrita, do tipo você-finge-que-me-respeita-e-eu-finjo-que-acredito. Se aprendêssemos com Provérbios 31, este momento seria mais um dia de celebração natural do amor e da graça de Deus, espelhados através de todos nós sobre todos nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Nasci Menina, me pari mulher

O Santa Paciência chegou à minha vida em um momento de re-significações. E aí eu me propus a escrever um texto sobre feminilidade, mas, entendi que, então, eu preciso escrever sobre a mulher que eu quero ser. Como eu vou escrever sobre feminilidade, se eu não entendo bem a minha feminilidade? E esse texto será, na verdade, um parto daquilo que vem sendo gerado há exatos 29 anos na Terra, já que hoje completo minha vigésima nona volta ao redor do sol e entro no meu ano trinta, mais os 9 meses no ventre da dona Nena.

Fiquei pensando nessa mulher que quero ser e aí, me auto boicotei usando uma ferramenta conhecida: racionalizei. Eu racionalizo tudo, tenho resposta pra tudo e dessa vez a resposta foi: Talita, sua tola, você é existencialista, é ser-de-infinitas-possibilidades, nunca deverá se fechar num tipo só, você é o que quiser ser, não fique pensando nisso. Pois bem, de fato eu existo no mundo de formas diversas, mas, eu sinto a necessidade de me apropriar de mim mesmo, ser autêntica, e isso inclui pensar na minha feminilidade.

“Então chegou o dia em que o risco necessário de permanecer apertada em um botão era mais doloroso que o risco necessário para florir”.
(Anaïs Nin)

Sempre tive interesse no tema, provavelmente pelo fato de ter ouvido incontáveis vezes, desde pequena, que eu deveria ser mais feminina. Aliás, creio que escutei demais que eu deveria muitas coisas. Talvez, por isso, cresci me cobrando a perfeição e sendo tão intolerante às minhas falhas humanas e tendo contratura muscular durante a meditação no yoga. Meu Deus, quem é que tem contratura muscular em plena meditação?! Eu tenho. Eu tinha. Eu tive, não quero ter mais.

Nunca tive o perfil de mocinha. Eu gostava de brinquedos, brincadeiras, roupas e várias outras coisas consideradas de menina, mas, eu também gostava disso tudo quando era considerado de menino e eu era, já na infância, segundo meus pais, afiada nas respostas, teimosa, brava, arisca. Não combinava com a delicadeza que era esperada por parte das garotas. Contrariava, impunha minha opinião e não baixava a cabeça pros meninos. Incomum. Meio estranha. Dizem por aí que é porque sou de Peixes, mas eu não entendo muito bem de signos.

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Crédito na imagem

Sei que a cada dia que passa me descubro, me revelo e me desvelo, na tentativa de encontrar meu caminho próprio. Sim, o meu caminho, onde só se encaixam os meus pés, o meu corpo e o meu ritmo. Onde sou apropriada de mim. E ser menininha parece que nunca me foi próprio, embora traga isso em meu nome, nome próprio. Não é engraçado, aquilo que chamamos de próprio não foi escolhido por nós? Nosso nome.  Meu nome é Talita (sem h, pelo amor de Jesus Cristo nosso Senhor amém), uma palavra aramaica, cuja tradução em português é nada menos que menina. Sou-Menina. Nasci Menina. E embora cor de rosa, ballet e frufrus não combinem comigo, tem uma história sobre meu nome próprio que eu adoro, está registrada na Bíblia, em Marcos, capítulo 5. Tá, a história não é sobre meu nome, vai, mas nessa história Jesus falou meu nome num contexto que eu interpreto como fazendo parte de quem eu sou e do que eu tenho entendido como sendo próprio de mim.

Jesus estava passando por vários lugares, curando pessoas, fazendo milagres e mostrando sinais. Então, à beira mar, um cara chamado Jairo, que era um dos líderes da igreja dali da região, implorou que Jesus fosse ver sua filha, que estava morrendo. Jesus foi. No meio do caminho, algumas pessoas cruzaram com eles, vindas da casa do Jairo e falaram pra ele parar de incomodar Jesus, porque a filha dele já tinha morrido. Pessoas agradabilíssimas deviam ser. Jesus virou pro Jairo e disse: não liga pra eles, simplesmente confie em mim (olha, eu já perdi as contas de quantas vezes Jesus me disse isso também). Quando chegaram à casa do Jairo, um bando de gente inconveniente e intrometida ficou no meio do caminho. Jesus deu um fora neles (Ele devia ter umas tiradas sensacionais) e falou pra pararem com o falatório, porque a menina estava apenas dormindo. Aí Ele entrou no quarto da menina, segurou a mão dela e disse: “Talita cumi!”, que traduzindo do aramaico significa: menina, levante!

E é aqui que tudo começa a fazer sentido pra mim e que eu entendo como sendo a história da minha construção, da minha feminilidade e da minha forma de existir-no-mundo. Talvez você se familiarize, talvez ache uma completa bobagem ou talvez se identifique. Seja como for, a questão é gerar a reflexão de que nós, mulheres, não temos um padrão exato em que devemos nos encaixar e plastificar (Já assistiram ao filme Mulheres Perfeitas? E o filme Garota Exemplar? Assistam!). Somos um movimento, uma construção.

 “Seu lugar está entre as flores silvestres
Seu lugar está em um barco em alto mar
Seu lugar está com seu amor em seus braços
Seu lugar está em algum lugar onde você se sinta livre”.
(Tom Petty)

E a sociedade, o machismo, a mídia, as igrejas, as religiões, as novelas, os livros, Hollywood, a Disney, o feminismo, nossos pais e mães, nossos companheiros e companheiras, a líder do nosso grupo pequeno ou do ministério de mulheres, nossos professores, nossos terapeutas, nossos filhos, nossos amigos e amigas, não são os designers, arquitetos, engenheiros, mestres de obra e pedreiros do nosso próprio projeto de existência.

Temos um Criador. E quem trabalha junto dEle somos nós, nessa tarefa árdua e sublime de construção do eu. Conexão direta, pá-pum. Essa galera toda pode e vai atuar como colaboradores terceirizados, mas a responsabilidade de ser e existir autenticamente é nossa, doa o quanto doer e custe o quanto custar. E dói. E custa.

Sim, eu sei de tudo isso desde sempre, mas, nesse contexto sexista em que vivo, fui patinho feio em muitas turmas ao me afirmar uma feminina fora do padrão imposto. Principalmente no meio cristão, porque, veja bem, a chamada mulher virtuosa te parece combinar com o conceito de uma mulher independente, forte e de atitude? Eu aprendi que não. Não a mulher virtuosa da Bíblia, mas o conceito torto que fizeram do que aparece na Bíblia. A mulher virtuosa da Bíblia é hardcore, depois falo dela aqui, também!

Muitas vezes precisamos nos desconstruir e reconstruir a partir daquilo que é verdadeiramente nosso, e não dos nossos pais (o que é feito na nossa criação, nosso desenvolvimento), da sociedade e desses outros agentes que já falei aí em cima. E eu acredito que pra mulher esse trabalho pode ser mais puxado, porque a cobrança em cima de nós é devastadora.

“Deus pôs em seu íntimo uma feminilidade que é poderosa e terna, impetuosa e fascinante. Não há dúvida de que ela tem sido mal compreendida. Certamente, tem sido agredida. Mas está ali, seu verdadeiro coração, e vale a pena recuperá-lo”.
(Stasi Eldredge no livro Em Busca da Alma Feminina)

Já ouvi absurdos de vários tipos (cito aqui só as coisas mais básicas, ok?), como pessoas dizendo que eu ficaria mais bonita se usasse maquiagem, que salto alto valorizaria minhas pernas, que se eu emagrecesse uns 5 quilinhos ia ficar melhor apresentável, que eu deveria ser mais meiga porque boas moças não são enérgicas, que eu tenho muita atitude e isso assusta, que eu tenho um jeitinho determinado que intimidaria os rapazes, que não posso ser muito independente porque homem gosta de cuidar, que não posso ser forte porque homem gosta de proteger, que não posso ser muito segura porque homem se sente inferiorizado, que meu cabelo enrolado e volumoso chama muita atenção e eu deveria alisá-lo. E talvez eu chame tudo isso de absurdos porque se trata justamente do que eu não quero ser como mulher. Eu não quero ser bonita segundo o padrão das revistas de moda, eu não quero ser maternal com os homens, eu não quero ser dependente do meu marido, eu não quero ser o sexo frágil. Também não quero ser caracterizada como masculina por não ser melindrosa, não ser fofa, não ser delicada, por ter firmeza e atitude. O sexismo me dá preguiça, eu só quero ser eu.

E percebo que pra construir minha identidade, não adianta ficar tentando encontrar uma mulher referência. Minha autenticidade está no construir e re-significar, está na minha relação com o Deus que acredito, está na história da filha do Jairo. Isso é o que eu tenho escutado do meu Criador a respeito do modo como minha feminilidade se mostrará própria. A forma como aos poucos me desconstruirei, me livrarei da domesticação a qual fui submetida e poderei me identificar com a mulher saudável que a Clarissa cita no livro Mulheres que Correm com os Lobos, que eu vivo indicando aqui no Santa Paciência:

“Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas pra ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez”.

E quando eu leio isso, eu percebo o quão feminina eu sou, justamente por estar fora do padrão imposto que dita o que é a feminilidade. E lembro da história da filha de Jairo, quando Jesus diz meu nome e ordena: levante! Meu, essa é a mulher que eu quero ser! Que levanta! Que se movimenta como um lobo saudável. E eu fico ainda mais feliz com meu nome, porque mesmo eu não sendo mais uma menina em idade, Deus me olha como uma menina, assim como um pai sempre vê sua filha como uma garotinha, e Ele me diz: levanta! Ele me move pra cima, pra frente, me tira do tédio e me mostra a natureza selvagem dentro de mim que vem dEle, Ele alimenta minha fé.

Lembro de uma frase da Katniss Everdeen no livro Jogos Vorazes (sim, esse livro de novo!):

“(…) Além disso, não é da minha natureza cair sem lutar, mesmo quando as coisas parecem insuperáveis”.

Jesus pega minha mão e diz: Talita, levanta!

Mesmo assim, sei que não serei completa até minha passagem da Terra. E isso é ótimo! Eu quero ser ser-em-movimento o tempo todo. Aprender, mudar, re-significar.

 “Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer”.
(Ana Jacomo)

TalitaBirthdaySP


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulherões da literatura

C.E.Chambers
Ilustração de C.E. Chambers, 1900

 

Tenho pensado bastante sobre a relevância das mulheres no campo das artes e do pensamento. O motivo das minhas reflexões é o paradigma (para não dizer preconceito) de que elas não se interessariam por assuntos muito profundos. Infelizmente, uma grande parte delas, de fato, não toma a iniciativa de procurar seu espaço ao sol entre os produtores e difusores de conhecimento e cultura, o que só acaba reforçando a fofoquinha de que somos meras manequins de vitrine. A boa notícia, porém, é que não precisamos abdicar de nossas características femininas mais intrínsecas (ai, se uma feminista queer me ouve!!) para produzir coisa boa. Se você não acredita no meu argumento, sugiro que leia com atenção a seleção que fiz de cinco mulherões que arrasaram na literatura, enriquecendo o mundo com suas ideias e críticas e escrevendo com o que todas nós temos em comum: muita beleza.

  1. Doris Lessing

Filha de britânicos, Doris Lessing nasceu no Irã e cresceu no Zimbábue. Seu livro mais famoso,  O carnê dourado, se tornou leitura obrigatória e referência para as feministas. Eu li outro clássico dela, O sonho mais doce, e o que me chamou a atenção foram as suas personagens femininas, sempre progressistas, social e politicamente engajadas e de personalidade forte. Nas histórias das mulheres criadas por Lessing, não há espaço para perfumaria.

  1. Flannery O’Connor

Uma das mais importantes contistas norte-americanas do século 20, Flannery O’Connor imprimiu em seus contos muitos dos seus valores cristãos. Temáticas como culpa e redenção são retratadas de forma profundamente reflexiva e autêntica. Também abordou temas sociais, como o racismo. Sua escrita é bem descritiva e, por isso mesmo, perfeita para ser degustada sem pressa, numa construção detalhada de cada uma das ricas imagens. Duas características fundamentalmente femininas que você certamente encontrará impressas na obra de O’Connor: sensibilidade e sagacidade. Alguma identificação?

Dica de conto: Tudo o que sobe deve convergir (tem o conto com esse nome e tem uma coletânea de contos que leva esse nome também. Indico tudo.)

  1. Ingrid Jonker

Ingrid Jonker foi uma poetisa sul-africana e é justamente a poesia que a torna tão feminina. Seus poemas lhe renderam pouco reconhecimento em vida e muitos amantes, dos quais dois eram importantes escritores de seu país. Foi quando Nelson Mandela leu seu poema A criança (morta a tiros por soldados em Nyanga) no dia de sua posse, em 1994, é que Jonker finalmente recebeu o reconhecimento merecido. O que mais me toca nela é a sua capacidade de transformar a crítica social e racial em versos sublimes e perturbadores. O filme Borboletas Negras conta uma parte de sua história.

  1. Virginia Woolf

Não poderia deixar de citar aqui a mais melancólica de nossas autoras, a inglesa Virginia Woolf. O que marca em suas obras é o fluxo de consciência – técnica literária de transcrição dos pensamentos de um personagem em toda sua complexidade e não-linearidade. Para quem gosta de dar mergulhos profundos na existência e não tem medo das angústias que inevitavelmente vai encontrar por lá, os contos e romances de Virginia Woolf são ideais. Sua obra mais conhecida e minha recomendação para você começar a gostar da escritora é Mrs. Dalloway.

  1. Clarice Lispector

Sou suspeitíssima para falar da Clarice. Se combinarmos aqui entre nós de deixarmos todas as máscaras de lado, prometo que não terei vergonha de dizer que ela foi tudo o que eu queria ser na vida: linda, inteligente, talentosa, mãe de dois (até hoje só tive coragem de me tornar mãe de um), enigmática e por aí vai. Como comentei uma vez com um amigo, sua escrita não é um dom, é um milagre. E, ao contrário do que muita gente afirma, sua linguagem não é assim tão difícil. A questão – e é aqui que entra a sua característica mais feminina – é que Clarice verbaliza o que se passa na alma e não no intelecto. Logo, alcançar o íntimo de suas obras exige boa dose de entrega. Você tem que se abandonar (e desistir de ficar interpretando tudo ao pé da letra) e deixar-se ser preenchida por toda a beleza e profundidade de seus textos. Como fã incurável de Clarice, eu garanto: a viagem vale muito a pena!

Dicas de contos para começar: Tentação e Felicidade Clandestina.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

#meuamigosecreto

 

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Original e muito propícia a iniciativa que mulheres tiveram nas redes sociais hoje, 25, Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. Usando a hashtag #meuamigosecreto para não identificar de quem falavam, essas mulheres denunciaram pessoas conhecidas delas, que praticam algum tipo de machismo – desde piadinhas ‘inofensivas’ até abusos – contra a mulher e que passam despercebidas. As declarações que li foram corajosas, tocantes. Impossível não se revoltar contra (e imaginar quem seriam) aqueles “amigos” secretos todos.

De modo geral, sou bastante desconfiada dessas campanhas em redes sociais, que costumam ser ineficientes quando o objeto contra ou a favor do qual elas se manifestam estão muito além da foto do perfil. Mas desta vez, a campanha foi ambiciosa na medida certa: alcançar os próprios contatos e, esperançosamente, atingir aquele cara, ele mesmo, o alvo da denúncia. Fiquei pensando o que eu escreveria se fosse denunciar o #meuamigosecreto. Descobri, com muito desconforto, que ele não leria o meu desabafo, porque há muitos anos me bloqueou de seu Facebook.

O exercício de pensar nessa pessoa e em tudo o que eu diria a respeito dela fez com que eu me deparasse com uma realidade: a ferida ainda sangra. E sangra tanto, que eu nem conseguiria usar palavras na minha denúncia para distinguir uma violação de outra; tudo que vem à minha mente são imagens, como um cinema mudo. E o mais triste é pensar que ele agiu dessa forma acreditando estar certo e – que absurdo! – bíblico.

Por anos pedi a Deus que me curasse da lembrança dos abusos que sofri. Por anos acreditei que havia sido curada – pelo menos, em parte (junto com o pedido da cura, eu sempre orei a Deus que esfregasse no nariz dessa pessoa todas as agressões emocionais que ele cometeu contra mim). Deus ainda não me atendeu completamente, mas acredito que seja por um propósito, por empatia, por outras mulheres, por sororidade. Não quero estar alheia às minhas irmãs. Não quero estar no patamar “deste-mal-eu-não-sofro”, ou ficar prescrevendo soluções rápidas, como se misoginia fosse fantasia de cabeça desocupada. Não! Quero ser curada sim, mas quero levar todas as mulheres comigo. E é por isso que oro. Oro por mim, por você, pela nossa ferida que sangra e que não sabemos até quando irá sangrar.

(a foto que ilustra este post foi clicada pelo artista Janssem Cardoso)


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Filmes & a temática feminina

Aproveitando que o final de semana está aí, que tal escolher um desses filmes (ou todos eles! por que não?!) para assistir?

Tenho certeza que será mais do que um entretenimento; será uma ótima reflexão.

Girl Rising

Richard Robbins, 2013 

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=81x6mYNxqzU

Não tem como assistir esse filme e não ser impactada… Em alguns momentos você se indignará, ficará pensativa, em estupefação, porém em outros (talvez na maior parte do filme), sentirá um enorme constrangimento, e daqueles que só é sentido quando comparamos nossas condições, estruturas e oportunidades com essas e tantas outras meninas ao redor do mundo que não possuem sequer 1/3 do que chamamos aqui no Ocidente, ou como nossa classe média abastada define, por direitos básicos.

O filme conta a história de 9 meninas de países diversos. Tais histórias foram recontadas por escritores, mas para trazer a essência de suas experiências, de forma bela, porém real. E entre uma história e outra o documentário traz dados interessantíssimos como, por exemplo:

“Aqui está um fato perturbador. A causa número um de morte para garotas entre 15 e 19? Não é Aids. Não é fome. Não é guerra. É parto. Quando as meninas se casam jovens, a educação termina. E os ciclos anteriores continuam. Ciclos de pobreza, ciclos de violência, ciclos de ignorância (Colocar todas as crianças na escola evitaria 700 mil casos de HIV por ano). Mas uma garota que vai estudar inicia outro ciclo (Meninas que estudam 8 anos são 4 vezes menos propensas a se casar jovem). Porque ela se manterá mais saudável. Ela vai se casar mais tarde. Ela terá filhos mais saudáveis (Um filho nascido de uma mãe alfabetizada tem 50% mais chance de passar dos 5 anos). E acima de tudo, ela terá filhos estudados (Mães estudadas são duas vezes mais propensas a mandar seus filhos para à escola). E não são só as mães. Os pais também devem investir. Assim, suas filhas podem sonhar.”

E eu se fosse você, começaria por ele ;-)


Miss Representation

Jennifer Siebel Newsom, 2011

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://vimeo.com/72015293

Esse documentário aborda a falta de representatividade das mulheres na grande mídia. Seja a representatividade atrás das telas, como ‘cabeças pensantes’, criadoras e geradoras de conteúdo, seja reproduzindo e representando o papel da mulher sob uma ótica distorcida, comercializada e machista.

“Mulheres detêm apenas 3% de cargos de poder em telecomunicações, entretenimento, publicações e propaganda. Isso significa que 97% de tudo o que você ‘sabe’ sobre si mesma, sobre seu país e o mundo vêm de uma perspectiva masculina. E não significa que isto esteja errado. Significa simplesmente que em uma democracia, que nós dizemos ser igualitária e com a participação de todos mais da metade da população não está participando” – Carol Jenkins (Presidente Women’s Media Center)


Pray The Devil Back To Hell

Gini Reticker, 2008

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trailer: https://www.youtube.com/watch?v=bi3nvH_Po5E

O cenário deste documentário é a Libéria, país que viveu uma sangrenta guerra civil durante o regime de Charles Taylor, que em 2003 foi forçado a exilar-se na Nigéria.

E como parte dessa revolução e fim da guerra, várias mulheres se unem, deixando de lado diferenças religiosas, para protestarem pacificamente pela paz. A Libéria é abençoada por ter essas mulheres que ajudaram a definir o destino de seu país sem derramar uma gota de sangue, mas que com lágrimas, orações e súplicas trouxeram um futuro melhor à sua nação.


Persépolis

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, 2008

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você consegue assisti-lo na íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jUXo4zw0vXA

Persépolis é uma animação francesa, baseada na história em quadrinhos homônimo e autobiográfico da Marjane Satrapi.

A animação começa antes da Revolução Iraniana, quando Marjane tinha 8 anos, mostrando como ela era igual a qualquer outra menina de sua idade, mas conforme o tempo vai passando, a nova República Islâmica toma o poder do Irã, seu país de origem, e começa a controlar como as pessoas (as mulheres em especial) deveriam se vestir e se portar, obrigando-a a expatriar-se.

O filme é bem rico também, porque ao narrar toda a história da personagem, traz as angústias, os medos, as frustrações e traumas que todo o conflito e a ruptura acabaram causando em sua vida.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Jesus – machista ou feminista?

Reza a lenda feminista contemporânea que o cristianismo é, entre outros defeitos, machista. Claro que, depois que alguém afirmou e uma segunda pessoa reafirmou, virou um clichê e, a partir daí, ninguém mais quis ter o cérebro de questionar a informação. Virou história de papagaio pós-modernoso: você vai lá, repete o que ouve de terceiros e fica de boa, só aguardando pelos likes. Afinal de contas, dá uma preguiça ir atrás e questionar. Por que questionar, se a verdade do outro já chegou até mim mastigadinha, pronta para eu me apropriar dela? E assim, enquanto copio e colo o clichê, cometo o erro que tanto condeno nos outros: o preconceito – julgar algo e tachá-lo sem conhecer sobre o que se trata.

Compreendo que as evidências, das quais as feministas contemporâneas se valem para chamar o cristianismo de machista, sejam o padrão patriarcal de família retratado na Bíblia, principalmente no Antigo Testamento (que funcionava muito bem para a organização da sociedade na época), e talvez algumas afirmações de Paulo, as quais, se retiradas de seu contexto e de uma interpretação mais cuidadosa, de fato, dão margem para pensarmos em modelos machistas – mas acredite: não são (podemos discuti-los em uma outra postagem).

Fora esses dois casos, porém, não vejo a menor base para a afirmação de que o cristianismo seja uma fé antimulher. Jesus – figura central do cristianismo, reverenciado pelos cristãos como sendo o próprio Deus encarnado – além de ter tido amigas, que apoiavam financeiramente o seu ministério, também conversou com mulheres rejeitadas pela sociedade com respeito, sem dar em cima delas. Uma dessas mulheres, aliás, havia sido condenada à morte a pedradas, porque foi pega traindo o marido, enquanto o amante fugia de fininho. Jesus foi até a muvuca de gente que a cercava para apedrejá-la e impediu sua execução. Em outro momento, Jesus começou a conversar com uma mulher que não era da sua etnia – e isso era contrário às regras machistas de seu contexto social e religioso –, mas ele não se importou e, como nos contou a Talita em outro post, ele foi até essa mulher compartilhar de algo bom que ele tinha: um sentido para a vida. Isso sem mencionar que foi a três mulheres que o anjo apareceu para contar que Jesus tinha ressuscitado e foi para uma delas que Jesus apareceu primeiro depois de ressuscitar, e não para os discípulos. E por aí vai…

E aí, Jesus era machista ou feminista?

Nada melhor do que a Bíblia para responder essa pergunta:

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus (Gálatas 3.28).

Não, Jesus não era machista. E nem feminista. Nele, a igualdade de gênero é total, definitiva e extrema: todos somos um. Não existe discriminação no amor que ele nutre pelo ser humano. E a nós, mulheres e homens alcançadxs por um amor tão desprendido e sem letras miúdas, só nos resta espalhar o mesmo amor – sem distinção.


Luciana Mendes Kim é graduada em Letras, mestre em Literatura Brasileira e uma das idealizadoras do Santa Paciência.