RE-PENSE: Reparar suas roupas, mas também suas relações é um ato de amor

Com a celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente que tal pensar em suas ações, mas também em suas relações?

Hoje, dia 05 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A campanha deste ano é focada na drástica poluição plástica (já falamos um pouquinho sobre esse tópico neste post aqui).

Este ano, com o tema #AcabeComAPoluiçãoPlástica, a data soma esforços à campanha #MaresLimpos da ONU Meio Ambiente para combater o lixo marinho e mobilizar todos os setores da sociedade global no enfrentamento deste problema — que se não for solucionado, poderá resultar em mais plástico do que peixes nos oceanos até 2050.1

Derivado do petróleo, o plástico nunca se degrada por completo na natureza. O material apenas se quebra em pedaços cada vez menores, em um processo de decomposição que pode levar centenas de anos. Mesmo os plásticos chamados biodegradáveis não “desaparecem”; apenas se quebram mais rapidamente.2

A poluição plástica é bem mais ampla do que a sacola plástica que você recusa no supermercado

O plástico está presente em nosso dia a dia muito mais do que imaginamos – ultrapassa a sacola plástica do supermercado que por ano, são consumidas até 5 trilhões de sacolas plásticas em todo o planeta.3 Pois, ele está no canudinho que você usa para beber o suco na padaria. Na bucha para lavar louças da sua pia. No colchão da sua cama. No seu travesseiro. No sapato que você usa. Na roupa que você veste. Enfim, a lista é extensa, infelizmente.

Sei que muitas das invenções com tal material supriram necessidades diversas e algumas foram extremamente importantes. Porém, o problema foi não pensar na sustentabilidade do processo. O impacto que a médio e longo prazo tais invenções causariam no planeta, seja pelo consumo desenfreado ou pelo descarte inapropriado.

Por isso, repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar é tão importante!

Por ter trabalhado com moda esportiva por muitos anos, sempre me deparei com fibras têxteis derivadas do petróleo. Neste segmento, ao longo dos anos, as empresas de tecelagem e malharia foram criando fibras que pudessem suprir as necessidades do esportista, garantindo sua sobrevivência em climas hostis. Com isto, foi possível desbravar lugares incríveis sem morrer de frio, mas lamentavelmente as fibras criadas duram muito mais do que uma vida, elas resistem por diversas gerações.

Uma marca, do segmento esportivo, que eu admiro muito é a Patagonia (existe há mais de 40 anos e foi criada pelo escalador Yvon Chouinard). Pois vejo que ela tenta buscar soluções mais duradouras para seus produtos – seja na conservação ou no descarte deles.

Imagem retirada da matéria feita pela marca Patagonia: http://www.patagonia.com/blog/2015/11/repair-is-a-radical-act/

Há um tempo, eles criaram um site chamado Worn Wear, que estimula as pessoas a comprarem roupas usadas da própria marca. E para o brechó online funcionar, eles recebem as roupas do desapego em suas lojas físicas e em troca dão créditos que podem ser utilizados em suas próprias lojas.

A marca também ensina as pessoas a repararem suas roupas, disponibilizando guias de conserto e conservação em seu site. Além, de promover eventos de reparo com um ateliê móvel pelas cidades.

Esses dias eu precisei reparar uma calça minha e me veio a memória que, há 3 anos (no mínimo), eu não comprei nenhuma roupa nova. Basicamente meu guarda-roupa foi constituído pela doação de peças por uma irmã que tenho (e que possuía muita roupa) ou de peças que tenho há muitos anos e que ainda se encontram em perfeito estado para uso.

Esses dias, eu também percebi que, assim como roupas precisam de reparação, muitos de nossos relacionamentos também precisam. Replicamos nosso comportamento de consumo e descarte em nossas relações. E, por vezes, somos descartados ou descartamos pessoas.

Esses dias eu precisei ceder meus ouvidos para realmente ouvir. Olhar para dentro de mim e revisitar situações incômodas. Exercer a empatia e liberar vida e perdão. Percebi que reparar relacionamentos leva muito mais tempo do que uma agulha e linha podem costurar, e que apesar da dor (passada e momentânea) possibilita restauração de vidas e possibilidades de novos recomeços.

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NOTAS:
1Trecho retirado da matéria das Nações Unidas no Brasil, link aqui

2Trecho retirado da matéria da Época Negócios, link aqui

3Informação retirada da matéria das Nações Unidas no Brasil (mesmo link acima)

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você se vê, transita e desfruta a cidade

Com a pressa que estressa e as demandas exageradas de trabalho será que estamos aproveitando o que a cidade tem nos ofertado?

Somos mais de 12 milhões de pessoas na cidade de São Paulo e, juntos, respiramos o mesmo gás carbônico que sai do escapamento de carros engarrafados e de velhos ônibus que nos levam, todos os dias, para nossos trabalhos, faculdades e lares.

Somos muitas e muitos, de fato! Moramos em lugares bem afastados do centro e nos deslocamos por quilômetros, diariamente. Somos da Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e de todos os seus desdobramentos.

Apressados, nos deslocamos por quilômetros e não prestamos atenção aos detalhes.

Como paulistanos caricatos (ou adeptos desta cultura que aqui se refugiam) gostamos de supervalorizar a falta do nosso tempo. E assim, desenvolvemos ansiedades diversas, pois estamos sempre com a sensação que temos “um mundo” de opções ao nosso dispor, mas não conseguimos aproveita-las, justamente pela falta de tempo que tanto supervalorizamos.

Para agravar (sim, é possível!), desenvolvemos um olhar distante e crítico para com a cidade que nos acolhe. Adotamos a postura que toda melhoria é de responsabilidade alheia e assumimos postos de meros consumidores, como se a cidade não fosse a soma entre eu e você = nós.

Por isso, não é difícil encontrar pessoas que, ao se estafarem por excesso de trabalho ou se sentirem lesadas pela falta que a “cidade grande” não saciou dentro delas, acreditam que o outro extremo seja a solução de seus problemas: – Viver uma vida bucólica, no campo, longe de buzinas frenéticas, asfalto demasiado e cartão de ponto não seria, então, a solução de todos os meus problemas existenciais?

Confesso que eu já fui uma dessas pessoas. Já quis fugir para as montanhas, acordar com o sol batendo através de uma linda e enorme janela de vidro, na qual eu poderia contemplar o nascer e o por do sol. E nesse lar aconchegante, com cheiro de mato, flores e aromas eu desenvolveria trabalhos manuais e artísticos sem pressa, leria um livro sem interrupções e viveria, então, uma vida alegre, feliz e completa, para sempre, não é mesmo?! Parece que não…

Pensar assim é replicar um olhar dicotômico, como se metrópoles fossem más e cidades no campo fossem boas. Em minha caminhada compreendi que quem corrompe, qualquer ambiente, somos nós; seres humanos. Exercemos um poder destruidor, mas acreditem, também podemos, felizmente, sonhar, gerar, desenvolver, construir e desfrutar de lugares e relacionamentos.

Tenho aprendido que, onde quer que eu esteja, minha missão é de promover vida: preparando a terra, semeando, regando ou colhendo. Talvez, em minha jornada pessoal, eu só consiga desenvolver uma ou outra etapa deste enorme processo, pois a História é bem maior do que minha existência individual. É o Eterno que continua se movendo livremente e apontando os rumos de um todo que tenho oportunidade de fazer parte.

Sim, é possível preparar a terra, semear, regar e colher mesmo em uma metrópole cercada por concreto. Envolta por injustiças, populações minorizadas e vulneráveis esquecidos. Aliás, será que não seria exatamente este o nosso chamado urbano: sermos jardineiras e jardineiros em plena cidade grande? Projetando e construindo jardins, em meio ao asfalto de fuligem e gerando vida verde e pulsante em meio ao cinza?

O Eterno me presenteou com árvores frutíferas próximas de onde eu moro – em pleno centro de São Paulo! Me sinto vivendo uma metáfora e, em demonstração de gratidão, recolho algumas mangas que caíram no asfalto depois de um vento muito forte. Levo para casa o máximo de mangas que minhas ecobags podem aguentar e ombros suportar e faço um delicioso chutneySe hoje posso colher é porque alguém investiu tempo plantando antes de mim.

Me sinto extremamente grata por ser parte de um todo bem maior que eu mesma. Desfruto do que cozinhei, como se fosse a comida mais saborosa que eu já experimentei em toda a minha vida! Realmente ela tinha um gosto especial… E como eu havia colhido frutas por demais, de um inusitado jardim, tenho a oportunidade de presentear algumas amigas com o chutney que fiz.1

CHUTNEY DE MANGA2

Ingredientes:

  • 2 mangas palmer
  • 1 maçã fuji
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • ½ pimentão vermelho
  • 1 ½ colher (sopa) de gengibre fresco ralado
  • ¼ de xícara (chá) uvas-passas brancas
  • ¼ de xícara (chá) de açúcar
  • 1 colher (chá) de sal
  • 1 canela em rama
  • ¼ de xícara (chá) de vinagre de vinho branco
  • ¼ de xícara (chá) de água

Modo de preparo:

  • Faça o pré-preparo: descasque e corte em cubos de 1 cm as mangas e a maçã; descasque e pique fino a cebola e o dente de alho; corte o pimentão, sem as sementes, em cubinhos; descasque e rale o gengibre fresco (se preferir, pique bem fininho).
  • Transfira todos os ingredientes para um panela, junte as uvas-passas, o açúcar, o sal, a canela, o vinagre e a água e misture. Leve para cozinhar em fogo médio.
  • Quando ferver, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar por 40 minutos, mexendo de vez em quando. Se começar a grudar no fundo da panela, regue com um pouco mais de água e misture – o chutney ainda deve ficar com um pouco de caldo, pois irá endurecer quando esfriar.
  • Passados os 40 minutos, desligue o fogo. Transfira o chutney para potes de vidro esterilizados, com fechamento hermético, e deixe esfriar em temperatura ambiente. Depois de frios, tampe e conserve na geladeira por até 3 semanas.

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NOTAS:
1O episódio (a colheita das mangas) aconteceu em março deste ano (2018), mas somente agora (maio), consegui elaborar em texto o que eu ansiava :)

2Receita retirada do blog Panelinha — link aqui

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você descarta seu lixo também faz parte de uma espiritualidade saudável

Como podemos repensar nossos hábitos diários (de consumo e de descarte), transformando-os mais sustentáveis?

Dentre as metas que idealizei para 2018 (e para a vida!) eu decidi reduzir ainda mais meu lixo.

Me considero uma pessoa com certa consciência ecológica e, na medida do po$$ível, opto por produtos biodegradáveis e feitos de maneira sustentável. Mas, a partir desse ano quero repensar ainda mais meu consumo e principalmente como farei meu descarte. Quero tentar ir além da separação do que eu julgo ser “reciclável” para tentar reaproveitar esses itens ou descarta-los de um jeito que cause menos impacto para o nosso meio ambiente.

– Em 1950, 2 milhões de toneladas de plástico foram produzidas no mundo.

– Em 2017, 400 milhões de toneladas foram produzidas, uma taxa de crescimento composto de 8%.

– 40% disso é embalagem.

– Desde a década de 1950 produziram 8,3 bilhões de toneladas de plástico.

– Apenas 9% de plásticos são reciclados globalmente.

– Todo segundo, 20 mil garrafas de bebidas de plástico são vendidas em todo o mundo. São 7 milhões no momento em que você terminou de ler este artigo.

– Um estudo estima que até 2050 haverá mais plástico do que peixe nos oceanos do mundo.1

Lendo mais sobre o tema, descobri que alguns itens básicos que eu julgava serem possíveis de reciclar são, na verdade, um grande pepino na mão das cooperativas recicladoras. E mesmo que sejam destinados a elas, esses produtos são levados posteriormente para um aterro comum, ficando por lá durante várias e várias gerações, pois têm um alto custo devido sua complexidade para reciclar.

Um desses itens que eu julgava ser facilmente reciclável – #sqn – é a clássica esponja de lavar louça. Confesso que fiquei chocada quando eu descobri e esse foi um dos gatilhos que me deu coragem para aderir um estilo de vida mais intencional: tentar viver mais próximo do conceito Sem Desperdício2, a partir desse ano.

Mesmo sendo feitas de plástico, a reciclagem das esponjas de cozinha é extremamente rara porque os plásticos usados na sua produção contém especificidades que dificultam muito a reciclagem. Além disso, ao ser usada na limpeza, ela se torna um “porta-bactérias”, o que também impossibilita o processo. Esse é um ponto importante: por conterem muitas bactérias, a vida útil dessas esponjas é reduzida e se você comprou, é recomendável não utilizá-la por mais de 7 dias.3

Ok, mas e a louça como vai ficar???

Lendo por aí, vi que muita gente adere a bucha vegetal para também lavar a louça, além de usa-la para tomar banho. Por que eu nunca tinha pensado nisso antes?! Eu a uso há tantos e tantos anos para tomar banho!!! Sério, eu realmente fiquei muito chateada por saber que um item tão corriqueiro e tão popular em nossas casas sequer é mencionado como um item dificílimo de ser reciclável, levando a gente a consumi-lo sem culpa e sem pensar melhor no descarte posterior. :-(

Então, aproveitando meu estilo de vida mais intencional esse ano, quero também produzir, eu mesma, alguns produtos de limpeza da casa, além de cosméticos para meu uso. Então, anota aí uma receita de detergente para você ter uma pia mais natural esse ano. É muito fácil! Leva apenas alguns minutinhos e poucos ingredientes para ficar pronto.

DETERGENTE NATURAL4

Ingredientes:

  • 200g de sabão de coco (verifique no rótulo a composição do sabão, deve conter somente sabão de coco, ou similar)
  • 50ml de álcool
  • 3 colheres de sopa de bicarbonato de sódio
  • 3L de água
  • 10ml de óleo essencial (por ex: de limão ou usar as raspas da casca do próprio limão)

      

Modo de Preparo:
Ferva a água. Pique o sabão de coco. Adicione o sabão à água fervendo e mexa até que eles se dissolvam. Precisa dissolver bem! Adicione o álcool, o bicarbonato e o óleo (ou raspas do limão). Mexa durante 5 minutos e deixe descansar por 1 hora, aproximadamente. Coloque em um recipiente limpo e ele está prontíssimo para o uso!

     

*Depois de esfriar, o sabão pode se solidificar um pouco. Por isso é importante dissolver bem. Mas caso isso aconteça, misture antes de usar e o que sobrar na embalagem pode ser reutilizado.

Atenção!
Fique esperta(o) ao comprar seu sabão de coco. Crie o hábito de sempre ler os rótulos das composições dos produtos e escolha aquela que declare coco, óleo de coco, podendo também ser/ter óleo de babaçu em sua composição. Pois muitas marcas acrescentam sebo animal juntamente com uma essência de coco na composição e sequer mencionam de forma explícita que utilizam tal ingrediente enganando a nós consumidores.

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NOTAS:

1Dados retirados do blog do Selo EU RECICLO: http://blog.eureciclo.com.br/2017/09/sustentabilidade-no-nepal/

2Sem Desperdício é um conceito que se popularizou há anos atrás e em inglês é conhecido como Zero Waste. Ele propõe o mínimo de desperdício possível em tudo que compreende nossas vidas: alimentação, vestuário, higienização, etc.

3Frase retirada do blog do Selo EU RECICLO: http://blog.eureciclo.com.br/2017/08/quartasemescandalo-esponjas-de-cozinha/#more-507

4Receita retirada do blog da marca FLAVIA ARANHA: http://flaviaaranha.com/new-blog/2016/8/12/faa-sozinha-detergente-natural

 

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Casa nova e alma nova

Acabo de me mudar de casa. Esta é a primeira das três mudanças previstas para nós em 2018 (um dia explico melhor essa história). Numa conversa que tive com a Carol Selles sobre isso, ela desabafou: detesto me mudar. Tive que concordar com ela, também detesto, mas talvez a gente não goste de se mudar porque acumulamos coisas demais, que depois nos dão um trabalhão para serem empacotadas e transportadas para o novo lugar. Se tudo o que temos coubesse numa modesta malinha, nosso desânimo para mudanças talvez não fosse tão grande.

No nosso caso, o meu desânimo não vem apenas da ideia de transferir um monte de coisas de um endereço para outro. Tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo e que não serve mais não vai simplesmente para o lixo e pronto. Separamos entre aquilo que iremos doar e aquilo que iremos vender daquilo que iremos descartar. No descarte, separamos entre o que é reciclável e o que não é. Também tem os eletrônicos: aparelhos velhos de celular, baterias que não funcionam mais, carregadores antigos. Tudo isso precisa encontrar um destino certo, que, definitivamente, não é uma lata de lixo comum. E os remédios vencidos então? Seguem todos para uma sacola específica, que será encaminhada para uma drogaria em São Paulo, que os recolhe e os descarta da forma correta. Sem falar das lâmpadas queimadas… também precisam encontrar seu destino certo, porque as fluorescentes, por exemplo, possuem mercúrio dentro, ultra tóxico e, portanto, não podem ser jogadas em qualquer lugar. Assim, mudar de casa se torna algo bem mais complexo do que “só” empacotar tudo e partir. É um ato de responsabilidade como administradores daquilo que acumulamos com o passar do tempo (aliás, aqui neste site, você encontra para onde encaminhar tudo quanto é coisa).

Da mesma maneira que mudar de casa, mudar por dentro, como pessoas, também pode nos dar uma preguiça enorme. Às vezes, é o excesso de opiniões formadas sobre as coisas que nos impede de mudar. Outras vezes, são os ressentimentos, as preocupações com o futuro e, definitivamente, os preconceitos. O orgulho, então! Esse não deixa a gente nem cogitar qualquer transformação.

Esse acúmulo de sentimentos pesados vai nos inchando, a ponto de não conseguirmos nos mover em nenhuma direção. Ficamos inflados de nós mesmos e nos acomodamos, esperando que o mundo gire em torno de nós.

Paulo, apóstolo de Jesus, nos orienta a não nos acomodarmos com essa forma de ver as coisas, mas sugere que renovemos a nossa mentalidade, a fim de experimentarmos o ponto de vista de Deus. Como resultado, esse novo olhar vai transformando a nossa vida (essas referências você pode encontrar na Bíblia, no livro de Romanos, capítulo 12, verso 2). Ou seja, para que novos ares possam entrar nos pulmões da nossa alma, precisamos deixar de acumular os sentimentos prejudiciais ao nosso crescimento, abrindo mão deles e adquirindo uma perspectiva que supere o que é finito, transitório e superficial.

Paul Tournier, médico e psicólogo suíço que se dedicou ao cuidado integral de seus pacientes, escreveu em seu livro Culpa e Graça:

Na verdade, ninguém pode se despojar do espírito de julgamento por meio de um esforço voluntário. Enquanto eu fico obcecado pelo erro descoberto em um amigo, que me chocou e que eu reprovo, posso repetir infinitas vezes: “eu não quero julgá-lo” – mas o julgo mesmo assim. Ao passo que o espírito de julgamento desaparece sozinho no momento em que tomo consciência dos meus próprios erros e falo deles com franqueza ao meu amigo, enquanto ele me fala das faltas que reprova em si mesmo. (p. 101)

O julgamento citado por Tournier é apenas um dos itens, que podem fazer parte da nossa pesada bagagem emocional e que nos impedem de mudar por dentro. Existem muitos outros, que nos sobrecarregam e nos deixam cansadas e indispostas. Pense na inveja, por exemplo. Minha amiga Dalila Parente disse uma vez, num encontro de mulheres, que a comparação que a inveja provoca não funciona de nenhum dos lados: se me sinto superior à pessoa com quem me comparo, isso é ruim e, se me sinto inferior, isso também é ruim. A conclusão a que chegamos aquele dia foi que a via mais saudável de todas é resistir a qualquer tentação de nos compararmos com outras pessoas. Desafiador, não?

Mas para onde encaminhar os sentimentos ruins, mas inevitáveis muitas vezes, que nutrimos e que nos impedem de mudar?

Assim como o lixo que acumulamos em nossa casa com o tempo, que pede um encaminhamento adequado na hora da mudança, os sentimentos negativos que emperram nosso crescimento pedem o destino da confissão. Apresentá-los a Deus sem reservas, em uma oração, pode ser o primeiro passo para que eles percam a força de ação em nós. Jesus, por sua vez, não irá julgá-los como juram alguns, mas perdoá-los, ou seja, levá-los para bem longe Dele e de você. É alívio instantâneo.

Em um segundo momento, entra em cena o processo. Assim como a borboleta, que passa pela metamorfose, nós também passamos a viver uma transformação em etapas. Ficamos conscientes dos sentimentos nocivos e, quando eles se apresentam, a gente às vezes consegue detectá-los a tempo de não nos deixar ser dominadas, outras vezes não. Quando não conseguimos, basta nos jogarmos nos braços de Deus de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias.

Para cada um de nós, um insucesso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.
(Paul Tournier em Culpa e Graça, p. 141)

Só olhando para dentro de nós com sinceridade é que descobrimos o que temos acumulado, que tem nos impedido de mudar. Nesse ato de humildade, uma transformação interior não representará mais um ideal inalcançável para nós ou uma expectativa secreta dos que se relacionam com a gente, mas se tornará um processo possível, genuíno e rico de aprendizados.

 

ENSEE
Arte de Ensee

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O peso do silêncio

Lembro-me exatamente do dia em que conheci o Duccio. Ele havia convidado o David para comemorar o aniversário dele num boteco na Rua Augusta, em São Paulo. Como o David e eu estávamos em lugares diferentes, resolvemos ir separados para o aniversário. Eu cheguei bem antes do David e, como nova namorada dele, ainda não havia sido apresentada a ninguém, nem ao próprio Duccio, o aniversariante. Assim, resolvi encostar num canto e ficar ali quieta e parada que nem uma planta, só observando as pessoas. Fiquei ouvindo as risadas altas, alguns nomes aleatórios, até que percebi que o mais empolgado ali, que falava mais alto e sem interrupção, era o Duccio. Achei até engraçado, porque em um determinado momento, eu o ouvi comentando sobre o David para outra pessoa. Fiquei me perguntando se ele desconfiava que eu seria a nova namorada dele. De qualquer forma, achei o Duccio tão animado e tão cheio de histórias que não terminavam, que admirei sua alegria expansiva por estar comemorando anos (o que para mim representaria um certo esforço).

Como fui saber depois pelo David, que foi sócio e amigo do Duccio por bastante tempo, e pelas vezes que nos encontramos em festas, Duccio, como todo italiano típico, era sempre assim: tinha assunto para tudo no mundo. E era amigo de todo mundo. E todo mundo gostava dele.

Até que, no dia 19 de novembro deste ano, Duccio se silenciou. Ao visitar uma cachoeira em São Sebastião, ele escorregou numa pedra, caiu de uma altura de cinco metros e seu corpo só foi encontrado no dia seguinte, no fundo da água.

A morte do italiano querido e falante foi, obviamente, um choque para mim e para o David. Foi inevitável, porém, pensar naqueles que mais estariam sofrendo naquele momento: seus pais. Eles chegaram da Itália no dia seguinte ao que os bombeiros haviam encontrado o corpo e foram recebidos pela multidão de amigos do filho – herança preciosa deixada por ele. Foram cuidados e tratados com todo carinho possível. Até as despesas com a viagem deles e com o funeral foram cobertas por esses amigos. Passaram todos aqueles dias tratando dos trâmites para levar o corpo do Duccio de volta para a Itália.

Mas e depois?  – pensei. E depois que esses dias corridos passarem e esses pais retomarem a rotina da vida, como será para eles encararem o silêncio do Duccio? 

Ao pensar nisso, eu mesma me silenciei por alguns instantes. O silêncio do Duccio era mais atordoante do que suas falações ininterruptas.

Essa vivência breve do silêncio fez com que eu refletisse sobre os meus silêncios; aqueles que eu faço e aqueles que recebo de outras pessoas, ainda vivas, mas ausentes. Pensei sobre como precisamos de pouco para não sermos enlouquecidos pelo silêncio da ausência: ouvir a voz numa gravação, receber uma mensagem, mesmo que curta, ou qualquer ato consciente da parte ausente em um mínimo de contato. Porque pior do que a ausência é o silêncio absoluto – ele aponta para o esquecimento.

Meu avô, se ler este post, talvez não concordará totalmente comigo. Quando minha avó vivia seus últimos meses, deitada inconsciente numa cama, meu avô costumava me dizer que só de mirar a imagem dela ali, silenciosa, mas viva, já era suficiente para ele recuperar as forças e continuar. Ainda assim, acredito que minha avó falava sim, não com palavras, mas por meio dos leves apertos nos dedos que ela nos dava de vez em quando e por sua respiração ofegante… com esses pequenos sinais, ela nos contava sobre sua luta para continuar vivendo.

Sempre prezei os momentos de silêncio. Mas o que deveriam ser eles, senão apenas pausas na interação? Sim, eles são necessários de tempos em tempos, como um pit stop no meio da correria, mas são postos de recarga apenas e não de parada definitiva. O silêncio, quando longo, pesa e entristece.

(De repente, me alegro ao pensar no Natal: o silêncio de Deus rompido em choro de criança recém-nascida. Quanta esperança em um ruído, aparentemente, tão banal! É Deus nos comunicando que chegou para viver perto de nós, de um jeito pessoal e definitivo).

O silêncio do Duccio nos incomoda bastante, a mim e ao David. Mas é incrível como temos aprendido com ele! É incrível ver como seu silêncio nos convida a reagir, a refletir, a reconsiderar atitudes e a tomar decisões. Ao Duccio fica a nossa gratidão por tamanha eloquência, que reverbera dentro de nós até mesmo no silêncio de sua partida.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Feliz Ano Novo!

Pelo título desta postagem, você pode achar que estou bêbada ou maluca. Bom, maluca sempre fui mesmo, mas não é o caso agora. Na verdade, hoje é o primeiro dia do Ano Cristão ou Ano Litúrgico.

Como? – ouço alguém pensando. Explico:

O Ano Cristão ou Ano Litúrgico é uma outra maneira de contar o tempo. Ele não é dividido em meses, mas em períodos. E todos esses períodos são marcados em torno da história da vida de Jesus: primeiro o Advento (ou “chegada”, “visita”, que começa a ser contado quatro domingos antes do dia do Natal, ou seja, hoje), depois o Tempo do Natal (nascimento), então o Tempo Comum 1 (várias semanas), o Tempo Quaresmal (40 dias que precedem à morte de Cristo), o Tempo Pascal (morte e ressurreição de Jesus) e o Tempo Comum 2 (outras várias semanas).

Assim, a nossa referência de tempo não precisa estar submetida a compromissos, prazos, datas comerciais, mas pode passar a girar em torno da Pessoa de Cristo, sua passagem pela terra e a esperança de sua volta para nos levar com Ele. E essa perspectiva muda tudo: o modo como enxergamos nosso trabalho, nossos relacionamentos, nossos hábitos de consumo e nosso tempo livre, como poeticamente discorreu Vanessa Belmonte em um post que veiculamos ontem aqui no blog.

 

Um dos modelos de como é contado o Ano Litúrgico. Imagem retirada do link: metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricaocolunas.asp?Numero=3092

 

As Escrituras nos falam de um Deus que não se deixa afetar pelo tempo, um Deus que jamais fica velho ou ultrapassado. Ele mesmo habita a eternidade e é Senhor do infinito, mas vem visitar e redimir as criaturas que vivem na dimensão do tempo. Em Cristo Jesus, o Deus Eterno vem habitar conosco, seres que precisam contar as horas, os dias os meses e as estações. (Gladir Cabral e João Leonel, em O menino e o reino, p. 11).

 

Mas como vivenciar esse tempo diferente, contracultural?

Essa é uma pergunta que venho me fazendo desde que conheci o Ano Litúrgico, que foi apenas em junho deste ano. Na tradição cristã de onde vim, o Ano Litúrgico não era mencionado, tanto que eu nunca soube da existência dele até este post da Vanessa Belmonte. Assim, como não pertenço a uma igreja onde ele é rigorosamente praticado, me perco um pouco.

Para guiar nossas reflexões e devocionais dentro do Ano Litúrgico existe o Lecionário – sugestões de leitura bíblica que têm a ver com o período em que estamos do Ano Litúrgico. No meu caso, que passei a seguir o Lecionário sem a orientação de um grupo, foi difícil manter a qualidade das minhas devocionais, porque as referências bíblicas indicadas para leitura diária eram muitas. Acabei desanimando e voltando para o esquema de leitura bíblica que eu fazia antes.

Entretanto, o Advento chegou e eu voltei a sentir falta de uma reflexão mais dirigida sobre esse tempo tão crucial para nós, cristãos. Hoje de manhã, primeiro domingo dos quatro que pertencem ao Advento e, por isso, o primeiro dia do Ano Litúrgico, cheguei a pensar com Deus e com os meus botões: hoje começa o Advento e eu não sei como transformá-lo em um período diferente na minha vida. Queria chegar no Natal devidamente preparada para absorver todo o seu potencial transformador e o seu valor.

Deus me respondeu 40 minutos depois de ter tido esse pensamento: Carol, minha já tão citada amigona e co-autora deste blog, mandou para mim e para a Talita (também amigona e autora do blog) um Whatsapp com o link de um livro devocional especialmente escrito para essa época do Ano Litúrgico! O download é gratuito e eu quase engasguei com um pedaço de panqueca no café da manhã quando vi que era exatamente o que eu buscava!

O menino e o reino – meditações diárias para o Natal, já com um trecho citado aí em cima no post, é talentosamente escrito por dois autores brasileiros, Gladir Cabral e João Leonel, e contém devocionais profundas, sensíveis e cheias de referências a escritores e cantores, o que mostra como nossos irmãos brasileiros são antenados, além de profundamente espirituais. Lindo de ler!

 

Aos poucos, a história de Jesus e seu significado estão sendo mais e mais incorporados em minha realidade diária.  O importante é não desistirmos dessa renovação da mente, dessa transformação, dessa busca por mais sentido e propósito no que somos e no que fazemos.

Agora peço licença, porque o meu almoço de comemoração do Ano Novo já está pronto!

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Os Ritmos da Vida

Nossos ritmos mudam, não são constantes. Nós também temos estações.

Foto de Anthony Tran

As estações marcam os diferentes ritmos de quem está vivo. Sim, somente alguém vivo pode ter a liberdade necessária para responder de forma diferente aos diferentes momentos da vida.

Uma planta passa um bom tempo lançando suas raízes sob o solo até romper a terra e crescer. Ela experimenta cada estação, recebendo dela o que precisa, a chuva, a seca, o sol, os pássaros… Ela oferece em cada estação o que é capaz de produzir em cada momento, em ritmos diferentes, as folhas, os frutos, as flores, a sombra, os galhos… E vê, na estação seguinte, a renovação e a continuação da vida, as folhas caem, os frutos amadurecem, as flores murcham, novos galhos nascem…

É o longo e lento ciclo da vida. Ao longo de uma vida inteira, nossos ritmos variam de acordo com a nossa energia e disposição, maturidade e experiência, necessidade e prioridade. Nossos ritmos mudam, não são constantes. Nós também temos estações.

Estações da Alma

As estações não são apenas as realidades que ocorrem fora de nós e ao nosso redor, nos céus e nas árvores. As estações também são internas e pessoais, estão entrelaçadas no tecido da vida humana. Nós somos projetados para transição, para mudar e para variar. Nossas almas têm estações. (1)

Mas quando vivemos em um mundo que não muda exteriormente (aqui é sempre verão), não precisamos esperar para plantar e colher (basta ir ao supermercado, inclusive aos feriados) e onde o ritmo é marcado pelo trabalho constante (pressa e ansiedade), é automático aprender a ignorar as estações internas e a (se forçar a) viver uma vida imutável, com o mesmo ritmo.

Vivemos um ritmo de trabalho cada vez mais intenso durante a semana. Não dormimos o suficiente e não temos tempo para fazer outras coisas, além do trabalho. Coisas como aprender a amar, aprender a cuidar de alguém mais vulnerável, conhecer melhor a si mesmo e descobrir como viver melhor. Lembrar de alguém e ligar para conversar um pouco, ler a Bíblia para alguém, experimentar abrir mão de algo muito importante por causa de outra pessoa. Orar, aprender a ser vulnerável e a confiar, viajar, visitar alguém, descansar o coração, esperar por algo importante com paciência, perdoar. Fazer um bolo para alguém, se divertir muito, fazer companhia para alguém que está em um momento difícil. Fazer um bolo para você, se perdoar, ler um livro com uma boa xícara de chá ou café, sem pressa…

Nos tornamos máquinas de produção ao invés de pessoas vivas, cujas estações nos moldam, nos formam. Somos zumbis. Pessoas que já não estão mais vivas e, por isso, são incapazes de viver o presente e de responder ao que cada estação nos traz para ser vivido em liberdade.

Ignoramos o processo lento (e doloroso) de transformação pessoal, de crescimento, de santificação. Desrespeitamos os ritmos necessários para esse processo acontecer. E estamos colhendo os resultados… imaturidade, esterilidade, falta de sentido, exaustão.

Não fomos feitos para nos movermos sempre no mesmo ritmo, fazer as mesmas atividades e sentir os mesmos sentimentos durante todo o ano. Os seres humanos, assim como o mundo natural, devem passar por períodos de dormência e nova vida, atividade e contemplação, celebração e tristeza, flores e colheitas, abertura e fechamento, austeridade e abundância. (1)

As estações servem como um livro de aula para a alma, instruindo-nos quando devemos andar mais rápido e quando diminuir a velocidade, quando agir e quando descansar, quando se concentrar no mundo lá fora e quando hibernar e descer fundo. Se ignorarmos as lições das estações, podemos ceder à pressão para correr o tempo todo. Podemos nos encontrar inquietos e exaustos sem ter ideia do porquê. (1)

Portanto, precisamos com urgência ter olhos para ver as estações da vida. Parar de enxergar o que acontece com monotonia e simplesmente se deixar levar pela pressão de continuar correndo. E ao enxergar, é necessário escolher, intencionalmente, viver os diferentes ritmos de cada estação. Viver com sentido. Viver como alguém vivo que têm consciência do que está acontecendo e liberdade para responder de maneira adequada.

As mudanças estão lá fora e aqui dentro de nós, mas precisamos prestar atenção às sutilezas. As estações são exercícios de atenção. Um vento que sopra mais frio, a luz mais alaranjada ao final do dia. Uma estação de espera e reflexão, outra de criatividade e produtividade. É preciso ter olhos para ver a mudança dentro de nós e respeitá-la. Admirá-la. Mudar o ritmo sugerido por ela. Deixar que ela nos molde e ensine o que precisamos aprender neste momento. Ver qual é o ritmo necessário para o momento presente.

É preciso, então, fazer a escolha de aceitar as mudanças e viver as estações. No nível micro, nos ritmos do dia e da semana. É sábado e tenho um milhão de coisas para fazer, mas posso escolher diminuir o ritmo e descansar (dormir um pouco mais, ler, assistir um filme, estar com quem eu amo). É uma semana com excesso de trabalho, então posso escolher cuidar dos detalhes que trarão equilíbrio (dormir e comer melhor, não sair atropelando as pessoas, levar a ansiedade em oração, ter momentos de solitude e silêncio).

Diante de um ritmo sempre intenso de trabalho, é necessário escolher parar ao final do dia. E se a casa também tem um ritmo intenso, é necessário encontrar alternativas para diminuir a correria em família. Ter boas conversas ao redor da mesa, colocar os filhos para dormir cedo, ter um momento de oração.

E, também, aprender a viver as estações no nível macro, nos ritmos das estações da vida, nos períodos maiores, nos meses e anos. Os ritmos nos moldam e se tornam hábitos invisíveis que forjam quem estamos nos tornando. É necessário ter olhos para enxergar as estações que estamos vivendo e exercer nossa liberdade na forma como escolhemos experimentá-las, respeitando os diferentes ritmos que elas nos trazem. Sendo moldados pelas diferentes estações, crescemos e nos fortalecemos de maneira saudável e natural.

Calendário da Alma

Já conversamos aqui sobre a importância de seguirmos um calendário diferente do que nos é imposto pelo mercado de trabalho e de consumo. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa maior e onde aprendemos que o tempo não pertence a nós.

As estações do Calendário Cristão também têm ritmos diferentes. Ritmos que nos ensinam a esperar em expectativa, a ficar só e a estar junto, a renunciar e a receber, a se arrepender e a celebrar. Os ritmos das estações do Calendário Cristão nutrem as estações da nossa alma, como o solo, o sol e a chuva e trazem o suficiente necessário para nos fazer crescer e fortalecer.

No próximo domingo (03/12/2017), entraremos na estação do Advento, onde começa o Ano Novo do Calendário Cristão. A estação do Advento é formada pelas quatro semanas que antecedem o Natal. É uma época de espera e antecipação, cujos ritmos nos levam a viver a expectativa das promessas descritas nas profecias sobre a vinda de Jesus e os acontecimentos marcantes de seu nascimento. Tempo de aprender sobre as implicações para a nossa vida atual do fato de que temos um Deus que assume o nosso lugar e providencia os meios para nossa salvação. Também nos prepara para viver enquanto esperamos a segunda vinda de Jesus.

Então, é uma estação para diminuir o ritmo e receber as dádivas do descanso, contentamento, quietude e espera. A vida cristã é uma vida de espera, baseada em promessas graciosamente dadas pelo nosso Deus. Uma espera que exercita e fortalece a nossa fé, diante do que ainda não vemos, diante de nossa realidade.

A espera que experimentamos em nossas circunstâncias mais adversas pode ser acolhida pela espera do Advento. Vivida em esperança. Enxergada por outra perspectiva. Iluminada pelas promessas de Deus.

Ao vivermos o ritmo da estação do Advento, permitimos que novos hábitos sejam formados em nós, emoções reorientadas, compreensão fortalecida. Em especial, quando estamos imersos em um ritmo desesperado de atividades de final de ano (fim de semestre, cobranças, pressões, dead lines, etc…). Pressa, correria, além de hábitos de consumo e ideias distorcidas sobre o significado do Natal.

Sem dúvida, os varejistas desempenham um papel em nossa angústia. Eles nos condicionaram, de forma brilhante, a associar datas no calendário com produtos e atividades particulares. (1)

Pensando nisso, que tal organizar o seu final de ano de modo diferente? Você consegue identificar os ritmos que estão te pressionando neste final de ano? Como você está vivendo as suas semanas e os seus dias à medida que enxerga que o ano está acabando? Que sentimentos aparecem? Que hábitos invisíveis estão sendo repetidos todo final de ano em sua vida e estão te formando? Como isso influencia a estação que você está vivendo agora?

A estação do Advento nos prepara para o Natal e marca o início de um novo ano em nossa vida. É a estação que nos capacita a reduzir o ritmo e a esperar. Marca a contagem do tempo. Nos prepara para vivermos o novo ano que já aparece gigante diante de nós em um relacionamento com Deus. Nos capacita a desenvolver hábitos de obediência e santidade.

Deus nos criou para desenvolvermos hábitos lentos de obediência e santidade. E, através deles, aprendermos a viver pela fé, ao invés de nossas percepções e emoções. A espera nos ensina a confiar mais na verdade do que Deus diz do que nos impulsos do que vemos ou de como nos sentimos. (2)

O efeito da transformação lenta e incremental através do exercício do hábito, ao invés do impulso, desenvolve ao longo do tempo afeições mais profundas, mais ricas, mais complexas. Integra nossas crenças em nosso ser inteiro. (2)

Assim, eu te convido a deixar o conformismo e o comodismo, e a enxergar as estações que o próprio Deus tem preparado para você viver. Aceitar que você está vivo, e isto significa que está crescendo, sempre aprendendo algo, sempre sendo transformado, sempre sendo confrontado com suas ilusões e desafiado a ter fé. Para que dê frutos sim, e flores, e sombra, e alimento… e para que atinja a maturidade e a manifeste em todas as áreas da sua vida, em seus relacionamentos e trabalho.

Precisamos aceitar que estamos vivos à medida que permanecemos na Videira verdadeira e respondemos com ela às estações apropriadas (João 15). Viver a estação presente em um relacionamento com Deus, usando os recursos que Ele nos deixou para enxergarmos o nosso tempo a partir da narrativa dele, didaticamente organizada no Calendário Cristão.

As várias estações da sua alma são sua garantia de que não só sua jornada com Deus é real, mas sua história ainda não acabou. Deus mesmo acompanha você através das estações em mudança, garante que você não fique preso, e obtém a última palavra sobre tudo o que lhe diz respeito, porque Ele se preocupa com você. As estações são uma expressão de sua intencionalidade para nos manter avançando, progredindo e crescendo. (3)

Portanto, aproveite as riquezas da estação do Advento para escolher intencionalmente viver a estação e se deixar moldar por um ritmo diferente. Pelo ritmo da narrativa de Deus para sua vida. E a receber dele tudo o que precisa para se fortalecer, neste momento em que está.

No início, pode ser incômodo e você pode até sentir falta de estar com pressa e correndo, sentir falta do ruído e do barulho. Afinal, estamos sendo moldados a viver assim, correndo. Como toda mudança de hábitos, exige persistência e continuidade. Então, faça esse esforço de se submeter a um ritmo mais saudável de vida, onde o tempo é vivido com consciência e sentido. Onde sua fé não está separada do restante da sua vida, mas sustenta o relacionamento com um Deus que é Senhor de toda a sua vida.

Foto de Warren Wong

Como já dissemos antes, é preciso ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia.

Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura.

Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

Me conte a sua experiência nos comentários ou por e-mail (vabelmonte@gmail.com). 😊

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Referências citadas ao longo do texto:

(1) Adam McHugh, em Seasons of the Soul.
(2) Jon Bloom, em Be Patient with Your Slow Growth.
(3) Elizabeth Enlow, em God in Every Season.

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Texto publicado originalmente em LecionárioOs Ritmos da Vida

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Não quero falar por falar

E isso não significa guardar o que sinto em meus silêncios

Choi Mi Kyung: Ensee — http://www.ens2e.com

Quando a multidão de palavras tentar saltar da minha boca, quero abraçar a minha língua, fechar os olhos e enxergar os desejos que as empurram para fora do meu peito. Quero respirar fundo e salvá-las dos meus desentendimentos.

É que quando as deixamos controlar nossos disparates, machucamos. E não apenas aos outros, mas a nós mesmos, principalmente. São alguns segundos de meias palavras sem controle que podem trincar ou quebrar as vidraças dos relacionamentos.

No entanto, não são as palavras que devemos condenar, mas a nossa falta de bom senso, de autocontrole e de sabedoria.

É difícil não responder “à altura” quando nos desafiam violentamente, ignorando nossas necessidades e, pior ainda, nossos pedidos.

Por isso, é importante saber escolher, além dos melhores momentos, cada vírgula que iremos usar para expor o que sentimos e o que pensamos. Melhor ainda é externalizar, também, olhando nos olhos, transmitindo calor e verdade, além de respeito.

Quantas vezes deixamos a dor, a raiva e a ira controlar o que dissemos e, o mais importante, a forma como dissemos? Às vezes, as motivações não eram reais ou bem fundamentadas e depois nossas desculpas são seguidas por um “falei por falar”.

Não fiquemos escrevendo, por aí, nas redes sociais, mas falemos — ao vivo, presencialmente — ao ponto de escutarem até as nossas pausas (e isso serve também para as declarações de amor).

Será que somos capaz de entregar pessoalmente aquele textão?

Não destilemos ódio, insatisfações e frustrações à toa. Saibamos olhar para dentro, antes de colocar para fora, inclusive, o que ainda estamos construindo em nós.

 

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Texto publicado originalmente em Karol Coelhohttps://medium.com/@karolcoelho/não-quero-falar-por-falar-38103f72bb62

 


Karol Coelho ama as nuvens, adora descobrir músicas de dois acordes para tocar no seu violão velho, escreve poesias e tem um livro chamado “Estado Atmosférico”. É jornalista formada principalmente pelas histórias do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, lugar que cresceu. É integrante da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, parte da diretoria executiva da Escola de Notícias e trabalha na comunicação do Atados. Não perde a oportunidade de tirar sonecas!

Esperar é uma dor ou um presente?

 

PieroFornassetti
Ilustração de Piero Fornasetti

Faz algum tempo que os meus dias têm sido marcados pelo longo caminho da espera. Desde o ano passado, David e eu temos buscado uma direção específica de Deus, que irá implicar numa mudança radical em nossa vida, em termos de tudo, desde localização geográfica até trabalho, amigos e igreja. Entretanto, enquanto essa direção não se confirma, os acontecimentos para nós estão meio que congelados, enquanto que, para o restante das pessoas, eles seguem o seu curso normal. Falar de planos para o ano que vem, por exemplo. Não podemos. Não sabemos quais serão nossas entradas, se estaremos em apartamento ou casa, se no calor ou no frio, se com ou sem escola para o nosso filho de três anos, se perto ou longe da nossa família e da nossa igreja. O máximo que conseguimos fazer é contar com possiblidades e traçar apenas um esboço, que pode mudar a qualquer momento.

Confesso que esperar tem sido um processo desafiador para mim. Como é para qualquer pessoa que espera, imagino. E esperamos o tempo todo, não é mesmo? Pelo pão na fila da padaria, pela chuva passar, pela mensagem da melhor amiga, pelo fim de semana, pelo ônibus. Grande parte do nosso tempo é preenchido com a espera. Para quem é cristão, a espera faz parte do nosso estar-no-mundo:

Os cristãos são pessoas que esperam. Vivemos num tempo liminar, entre o agora e o ainda não. Cristo já veio e virá de novo. E nós habitamos nesse meio tempo. Nós aguardamos.
(Tish Harrison Warren no livro Liturgy of the Ordinary, p. 104, traduzido livremente)

Esperar nos obriga a encarar verdades que geralmente tentamos evitar. Uma delas é de que o tempo não está submisso à nossa vontade nem ao nosso controle. Vivemos na ilusão de que conseguimos domar o tempo, de que ele está a nosso serviço e de que conseguimos fazer caber dentro dele o máximo de compromissos e situações que conseguimos criar. Com essa rotina frenética, poucos se preparam para o mergulho na amplidão vazia do tempo, contido na espera.

Outra verdade que enxergamos melhor quando esperamos é que tememos o futuro. Nossa limitação humana nos condiciona a conhecer apenas as coisas como são agora. Nossas escolhas – materializadas no futuro do minuto seguinte ou do ano seguinte – são um salto no escuro, uma aposta, um desejo gritante de que tudo dê certo, porém sem garantias.

Esperar é ansiar, é ter saudades de um tempo que não chega, é ver nossas capacidades restringidas a uma realidade que nos ultrapassa em poder.

Esperar é uma dor.

 

Lendo sobre a espera, porém, fui convidada a refletir sobre um elemento determinante para a qualidade da espera que enfrentamos: a paciência. Ela é o termômetro indicador do grau de sofrimento que permitiremos experimentar enquanto esperamos. Ela também nos leva a entender que a espera não precisa – e nem deve – ser passiva:

[Esperar com paciência] é uma espera ativa, na qual vivenciamos o momento presente ao seu máximo, a fim de encontrar no presente sinais Daquele por quem estamos esperando.
(Henri Nouwen, tradução livre)

Enquanto esperamos, podemos cuidar do nosso corpo, cuidar daqueles que nos cercam, concluir com comprometimento as responsabilidades assumidas no passado e que ainda estão em aberto, preparar nosso espírito e nossa mente para as possíveis mudanças que nos aguardam, orar, buscar conselhos, ler livros que nos edificam, e o que mais aparecer pelo caminho enquanto aguardamos. Lembro-me sempre do que a minha mãe dizia quando eu era criança e ficava esperando ansiosa por algo: filha, o melhor da festa é esperar por ela. Eu mudaria essa frase para: esperar pela festa é se preparar pra ela. Conforme Tish H. Warren escreve em seu livro Liturgy of the Ordinary, esperar pacientemente é acreditar que o tempo de Deus é perfeito e que, de maneira misteriosa, há muito mais acontecendo enquanto esperamos do que apenas a espera em si (p. 110).

Assim, quando a esperança é o que guia a nossa espera, a espera está pronta para ser transformada em um caminho pelo qual fortalecemos a nossa fé, a nossa confiança em Deus e a nossa visão de mundo. Trilhando pela espera paciente, podemos adentrar numa realidade que supera o que é imediato e transitório.

Esperar com paciência é um presente.  

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Fin.itude

“Somos constantemente lembrados da nossa finitude. A nossa miopia ou a dor de cabeça que às vezes nos assola são pequenos sinais disso“. Foi a frase que escutei de um grande amigo após o enterro da minha avó Martha, no dia 02 de novembro de 2017, em pleno feriado, Dia de Finados.

Pois é… Acho que eu acrescentaria também, outras dores e sintomas triviais como a cólica, a rinite incurável ou a sinusite crônica a esse comentário para trazê-lo ainda mais para o chão da vida.

Alguns dias atrás eu me assustei com a quantidade de cabelo branco que brotou em minha cabeça. Instantaneamente me bateu uma tristeza, infelizmente, não pude conte-la. Sim, estou ficando velha, pensei.

Mas por que a gente, geralmente, varre para debaixo do tapete assuntos inerentes a nossa existência, como a velhice ou a morte, por exemplo? Se falássemos mais sobre eles, talvez viveríamos uma vida mais consciente, mais intencional.

Vó Martha, foto por Jak Selles

Com a despedida da minha avó e dias depois um até breve à mãe de uma grande amiga, constatei que eu negligencio e muitas vezes levo uma vida inerte a tais assuntos. É tanta demanda que eu mesma crio para mim que vou esquecendo do futuro que me reserva.

Diariamente, cada célula do meu corpo está morrendo e se regenerando de forma mais lenta. Percebo que a minha imunidade baixa mais rapidamente trazendo a gripe se eu não durmo o mínimo necessário ou me alimento bem. Ou o meu joelho esquerdo teima em doer no frio, e mais intensamente por subir diversas vezes a escada, me lembrando que eu preciso ficar mais atenta a minha saúde e aos sinais do meu corpo.

Confesso que, às vezes, mesmo não querendo, isso tudo me entristece. A velhice me lembra que estou partindo, morrendo, que sou finita. Mas, durante o velório e enterro da minha avó, pude refletir como a velhice e a morte também podem nos ensinar a viver melhor. Contraditório? Hum, talvez não. Como disse um outro amigo ao saber um pouco da história da minha avó: “Sua avó, com 96 anos e 13 filhos viveu uma vida plena”.

É isso… Vida plena. A velhice e a morte também podem ser belas mesmo que momentaneamente dolorosas. E a vida, velhice e morte dela (minha avó) me ensinou isso. Eu quero então viver uma vida plena, cheia de rugas e com a cabeça repleta de cabelo branco sim, mas uma vida completamente vivida até o meu último suspiro de vida.

“Almond Blossom” de Vincent van Gogh (1890)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.