Esperar é uma dor ou um presente?

 

PieroFornassetti
Ilustração de Piero Fornasetti

Faz algum tempo que os meus dias têm sido marcados pelo longo caminho da espera. Desde o ano passado, David e eu temos buscado uma direção específica de Deus, que irá implicar numa mudança radical em nossa vida, em termos de tudo, desde localização geográfica até trabalho, amigos e igreja. Entretanto, enquanto essa direção não se confirma, os acontecimentos para nós estão meio que congelados, enquanto que, para o restante das pessoas, eles seguem o seu curso normal. Falar de planos para o ano que vem, por exemplo. Não podemos. Não sabemos quais serão nossas entradas, se estaremos em apartamento ou casa, se no calor ou no frio, se com ou sem escola para o nosso filho de três anos, se perto ou longe da nossa família e da nossa igreja. O máximo que conseguimos fazer é contar com possiblidades e traçar apenas um esboço, que pode mudar a qualquer momento.

Confesso que esperar tem sido um processo desafiador para mim. Como é para qualquer pessoa que espera, imagino. E esperamos o tempo todo, não é mesmo? Pelo pão na fila da padaria, pela chuva passar, pela mensagem da melhor amiga, pelo fim de semana, pelo ônibus. Grande parte do nosso tempo é preenchido com a espera. Para quem é cristão, a espera faz parte do nosso estar-no-mundo:

Os cristãos são pessoas que esperam. Vivemos num tempo liminar, entre o agora e o ainda não. Cristo já veio e virá de novo. E nós habitamos nesse meio tempo. Nós aguardamos.
(Tish Harrison Warren no livro Liturgy of the Ordinary, p. 104, traduzido livremente)

Esperar nos obriga a encarar verdades que geralmente tentamos evitar. Uma delas é de que o tempo não está submisso à nossa vontade nem ao nosso controle. Vivemos na ilusão de que conseguimos domar o tempo, de que ele está a nosso serviço e de que conseguimos fazer caber dentro dele o máximo de compromissos e situações que conseguimos criar. Com essa rotina frenética, poucos se preparam para o mergulho na amplidão vazia do tempo, contido na espera.

Outra verdade que enxergamos melhor quando esperamos é que tememos o futuro. Nossa limitação humana nos condiciona a conhecer apenas as coisas como são agora. Nossas escolhas – materializadas no futuro do minuto seguinte ou do ano seguinte – são um salto no escuro, uma aposta, um desejo gritante de que tudo dê certo, porém sem garantias.

Esperar é ansiar, é ter saudades de um tempo que não chega, é ver nossas capacidades restringidas a uma realidade que nos ultrapassa em poder.

Esperar é uma dor.

 

Lendo sobre a espera, porém, fui convidada a refletir sobre um elemento determinante para a qualidade da espera que enfrentamos: a paciência. Ela é o termômetro indicador do grau de sofrimento que permitiremos experimentar enquanto esperamos. Ela também nos leva a entender que a espera não precisa – e nem deve – ser passiva:

[Esperar com paciência] é uma espera ativa, na qual vivenciamos o momento presente ao seu máximo, a fim de encontrar no presente sinais Daquele por quem estamos esperando.
(Henri Nouwen, tradução livre)

Enquanto esperamos, podemos cuidar do nosso corpo, cuidar daqueles que nos cercam, concluir com comprometimento as responsabilidades assumidas no passado e que ainda estão em aberto, preparar nosso espírito e nossa mente para as possíveis mudanças que nos aguardam, orar, buscar conselhos, ler livros que nos edificam, e o que mais aparecer pelo caminho enquanto aguardamos. Lembro-me sempre do que a minha mãe dizia quando eu era criança e ficava esperando ansiosa por algo: filha, o melhor da festa é esperar por ela. Eu mudaria essa frase para: esperar pela festa é se preparar pra ela. Conforme Tish H. Warren escreve em seu livro Liturgy of the Ordinary, esperar pacientemente é acreditar que o tempo de Deus é perfeito e que, de maneira misteriosa, há muito mais acontecendo enquanto esperamos do que apenas a espera em si (p. 110).

Assim, quando a esperança é o que guia a nossa espera, a espera está pronta para ser transformada em um caminho pelo qual fortalecemos a nossa fé, a nossa confiança em Deus e a nossa visão de mundo. Trilhando pela espera paciente, podemos adentrar numa realidade que supera o que é imediato e transitório.

Esperar com paciência é um presente.  

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

Fin.itude

“Somos constantemente lembrados da nossa finitude. A nossa miopia ou a dor de cabeça que às vezes nos assola são pequenos sinais disso“. Foi a frase que escutei de um grande amigo após o enterro da minha avó Martha, no dia 02 de novembro de 2017, em pleno feriado, Dia de Finados.

Pois é… Acho que eu acrescentaria também, outras dores e sintomas triviais como a cólica, a rinite incurável ou a sinusite crônica a esse comentário para trazê-lo ainda mais para o chão da vida.

Alguns dias atrás eu me assustei com a quantidade de cabelo branco que brotou em minha cabeça. Instantaneamente me bateu uma tristeza, infelizmente, não pude conte-la. Sim, estou ficando velha, pensei.

Mas por que a gente, geralmente, varre para debaixo do tapete assuntos inerentes a nossa existência, como a velhice ou a morte, por exemplo? Se falássemos mais sobre eles, talvez viveríamos uma vida mais consciente, mais intencional.

Com a despedida da minha avó e dias depois um até breve à mãe de uma grande amiga, constatei que eu negligencio e muitas vezes levo uma vida inerte a tais assuntos. É tanta demanda que eu mesma crio para mim que vou esquecendo do futuro que me reserva.

Diariamente, cada célula do meu corpo está morrendo e se regenerando de forma mais lenta. Percebo que a minha imunidade baixa mais rapidamente trazendo a gripe se eu não durmo o mínimo necessário ou me alimento bem. Ou o meu joelho esquerdo teima em doer no frio, e mais intensamente por subir diversas vezes a escada, me lembrando que eu preciso ficar mais atenta a minha saúde e aos sinais do meu corpo.

Confesso que, às vezes, mesmo não querendo, isso tudo me entristece. A velhice me lembra que estou partindo, morrendo, que sou finita. Mas, durante o velório e enterro da minha avó, pude refletir como a velhice e a morte também podem nos ensinar a viver melhor. Contraditório? Hum, talvez não. Como disse um outro amigo ao saber um pouco da história da minha avó: “Sua avó, com 96 anos e 13 filhos viveu uma vida plena”.

É isso… Vida plena. A velhice e a morte também podem ser belas mesmo que momentaneamente dolorosas. E a vida, velhice e morte dela (minha avó) me ensinou isso. Eu quero então viver uma vida plena, cheia de rugas e com a cabeça repleta de cabelo branco sim, mas uma vida completamente vivida até o meu último suspiro de vida.

“Almond Blossom” de Vincent van Gogh (1890)

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

E se no seu aniversário você pudesse querer qualquer coisa?

O que você quer do mundo? 

Essa era a pergunta que nós, crianças dos anos 80 moradoras do Jardim Cuiabá, ansiávamos por responder em uma das minhas brincadeiras preferidas de infância, chamada “Que mês?”. Dois participantes escolhiam secretamente um mês do ano para os demais acertarem e, quando alguém acertava, a dupla anunciava o vencedor dirigindo a ele a pergunta: o que você quer do mundo? Ah… que pergunta mais maravilhosa! Ela era a porta de entrada para os topos mais altos da nossa imaginação. Respondê-la significava que você podia tudo e qualquer coisa: um unicórnio, um carrinho de rolimã voador, uma passagem para visitar a zona abissal… tudo era fantasiosamente aceitável naqueles momentos.

Trinta anos depois, mais precisamente na semana passada, ouvi do meu marido uma pergunta que me remeteu como um raio à minha brincadeira de infância: o que você quer de aniversário? Instantaneamente, meus olhos brilharam de deslumbramento ao pensar nas possibilidades de resposta a uma pergunta tão ampla como o infinito. Como assim o que eu quero de aniversário?? Até dei risada na hora, porque quero tanta coisa que não ouso querer nada. Claro que uma pergunta mais precisa da parte dele seria: o que você quer de presente de aniversário, que seja de ordem material, que te agrade e que não seja muito caro?? Essa teria sido fácil de responder, mas eu estava tão envolvida na magia daquele voo, que decidi voar mais um pouquinho e pensar no que eu realmente quereria de aniversário – ou do mundo, num exercício de nostalgia -, se tudo me fosse possível.

1. Eu iria querer que as escolhas não fossem excludentes

Se escolho uma carreira específica, automaticamente, estou deixando de escolher todas as outras. Quando escolho uma pessoa com quem me casar, inevitavelmente, estou dizendo não a todas as outras. Se opto por morar em uma cidade, deixo de morar nas outras milhões que existem.

Por mais óbvias que sejam essas constatações, é isso que me pego desejando muitas vezes: que eu tenha mais do que é possível, razoável ou justo ter. Isso só denota o quanto preciso caminhar em termos de satisfação, gratidão e centramento em Deus. E quando forçamos para que certas escolhas coexistam, o que não é raro, passamos por cima dos sentimentos de outros, burlamos uma ordem necessária e anterior a nós ou nos desgastamos, na ilusão de que certos limites podem ser transpostos.

2. Eu iria querer voltar no tempo e mudar alguns caminhos

Esse  é um desejo que pode denotar crescimento da minha parte, pois inclui grandes erros que eu, se pudesse, teria evitado cometer. Entretanto, penso no quão ilusória é essa especulação, uma vez que qualquer caminho por onde formos não está isento de erros. Além disso, foram os erros dos caminhos efetivos que nos tornaram mais humanos, mais empáticos, mais conscientes de nosso enorme potencial de fazer mal aos outros. Logo, houve espaço para a humildade, o arrependimento, o preenchimento com Deus e seu perdão. Essas experiências nos treinaram para reconhecer e evitar novos erros…. ou os mesmos.

3.  Eu iria querer me separar do meu corpo de vez em quando

Essa soa bem bizarra em um primeiro momento, eu sei. Mas já imaginou se as suas ideias sobre Deus e sobre os outros pudessem extrapolar os limites da sua mente? Você conheceria as motivações das pessoas para agirem como agem, saberia explicar por que Jesus ainda não voltou e já exterminou de vez as tragédias do mundo e ainda se livraria do medo de morrer, porque concluiria que a morte nada mais é do que isso mesmo, o descolamento de você do seu corpo como você o conhece hoje. Acredito que exceder os limites do meu corpo me faria mais humilde, porque depois de uma volta pela imensidão do que existe, eu admitiria o meu tamanho real.

4. Eu iria querer eliminar o politicamente correto

Se tem uma praga que eu gostaria que desaparecesse da terra, certamente é essa. Nada me indigna mais do que um hipócrita que não se reconhece como tal. Todos somos, em maior ou menor grau, e negar isso é cortar qualquer possibilidade de contato com o resto da raça humana. É o ápice da arrogância e da superficialidade no conhecimento das próprias motivações.

Abaixo, o filósofo esloveno Slavoj Žižek explica com perfeição alguns dos perigos dessa peste.

 

5. Eu iria querer superar minhas inseguranças de uma vez por todas

Tenho certeza de que não estou sozinha nessa. Todos queremos superar nossas inseguranças, se ainda não conseguimos. Mas o que me frustra mais é ficar à procura de livros, fórmulas e pessoas que me mostrem o caminho para isso, quando na verdade a resposta esteve bem na minha frente por décadas: a obsessão por mim mesma, como se tudo girasse em torno de mim. Exemplo simples: uma resposta de uma mensagem via WhatsApp que demora para chegar. Pensamentos que costumam cruzar a  minha mente quando isso acontece: ah, mas a pessoa deve estar chateada comigo para demorar tanto assim para me responder/ Ah, mas ela não liga pra mim/ Ah, mas que desconsideração comigo, blábláblá… Então quer dizer que a pessoa do outro lado do WhatsApp tem sempre uma intenção a meu respeito, seja ela positiva ou negativa? A verdade, porém, na maioria das vezes, é que o espaço que ocupo no tempo do outro é ocupado também por outras centenas de coisas e pessoas, logo, não existe descaso algum, como tampouco existe favoritismo.

Me livrar dessa necessidade de me ver em tudo me impulsiona alguns passos rumo ao voo que eu queria tanto fazer fora do corpo no item 3. Consigo ver o papel dos outros nessa história toda que é a vida, me abro para interesses mais amplos, para um enredo mais entrelaçado, com mais nuances e menos monotonia. Passo a ocupar o lugar que foi demarcado para mim somente e não o lugar do mundo inteiro. Assim, me livro também da cobrança de ser perfeita (porque o mundo vai continuar girando se eu falhar), me livro da pressão de saber tudo e estar presente em tudo (o Facebook nem vai sentir falta dos meus comentários) e me livro da corrida rumo ao merecimento (tudo é Graça).

É por isso que Deus nos chama para uma história maior: a de viver para ele, em vez de vivermos para nós mesmos. Quando nós afastamos o foco de nós mesmos – nossos medos, nossa aparência, nosso sucesso, nossas dúvidas – e fixamos o nosso olhar em Cristo somente, encontramos a liberdade para a qual fomos criados. Nós finalmente aprendemos a ser livres do eu*.

 

Depois dessas viagens todas, retorno ao meu ponto de partida: eu, sentada à mesa da cozinha, com a mão apoiando o queixo, na típica posição de quem sonha acordada. Retomo a conversa com o meu marido:

 – O que eu quero de aniversário? Quero um par de botas pretas.  

 

– – – –

*  Trecho do post de Sharon Hodde Miller, num artigo publicado no site The Gospel Coalition; tradução minha e grifos meus.

** Este post foi atualizado em 25/10, com a inserção do link do filósofo Slavoj Žižek.


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Fazer o bem requer o que sou e o que tenho

Há pouco mais de um mês, alguns amigos queridos, meu marido e eu nos reunimos para preparar um jantar juntos, sob a temática Índia. Passamos horas conversando, aprendendo, nos alimentando fisica e emocionalmente. Para fechar a noite, um filme indiano, claro. Escolhemos Lion, já bastante divulgado por aí. Enquanto eu o assistia, pensava no quanto aquele sofá estava macio (eu estava bem cansada, depois de horas lavando folha por folha de um maço de espinafre infinito, ingrediente principal do palak paneer) e o quanto era boa a sensação de barriga cheia. Entretanto, quando o filme se aproximava do fim, uma informação na última tomada ruiu com toda a harmonia da qual eu desfrutava com tanta satisfação: 80 mil crianças indianas desaparecem anualmente. Subitamente, senti um indescritível mal-estar.

Demorei para dormir naquela noite: como estariam aquelas crianças todas? Teriam tido a mesma sorte do protagonista do filme e sido adotadas? Sofriam maus-tratos? Abuso? Fome? Chorei e orei muito por elas. Comecei a pedir a Deus que me mostrasse como ajudá-las… todas era impossível, mas uma pelo menos. Talvez a adoção? Meu marido e eu sempre fomos muito inclinados à adoção, só não fizemos isso ainda por estarmos em um momento financeiramente frágil da nossa vida. Mas e então? O que fazer para resgatar aquelas crianças? Passei a orar por elas todos os dias e pedir a Deus que me desse ideias.

Minha experiência com a consciência do sofrimento não é inédita, obviamente, menos ainda exclusiva. Cada um de nós conhece uma história, um grupo, um povo que sempre parece sofrer mais do que a gente. Sentimos nosso coração pesado por eles, impelido a fazer algo. Ao mesmo tempo, a sensação de incapacidade nos atinge como se alguém nos acordasse de um sonho com um tapa no nosso rosto: como eu, sozinho, posso mudar uma realidade que me supera em complexidade e idade? Anne M. Lindbergh, em seu livro Presente do Mar, compartilha do mesmo dilema: “Não consigo ajudar todas as pessoas que tocam meu coração. Não posso casar com todas elas, ou adotá-las como filhos, nem cuidar delas como faria com meus pais na velhice ou na doença”. “Quando o peso que carregamos é insuportável”, ela continua, “desencadeia-se um processo de fuga”. Então recorremos às distrações, para que a sensação de conforto volte o mais rápido possível. Afinal, não podemos resolver todos os problemas do mundo.

Sarah Sciarini, neste post publicado pela Relevant Magazine, percebe que uma realidade mais próxima, em torno de nós, também clama por atenção e ação:

Como cristãos, nós não fomos feitos para nos conformarmos em falta de esperança, tampouco fomos feitos para fechar os olhos diante da dor e do sofrimento de outros. Em vez disso, nós podemos empacotar a nossa esperança e carregá-la conosco para onde há pequenas rachaduras e lugares quebrados.

E Anne M. Lindbergh, ainda em Presente do Mar, complementa:

Seremos capazes de resolver os problemas do mundo se nem conseguimos resolver os nossos?

Assim, olhar ao redor de nós promete revelar-nos oportunidades diversas para agirmos em favor do bem-estar de quem sofre. Cozinhar uma refeição saborosa para um parente idoso; levar os filhos do vizinho à escola enquanto ele sai para uma consulta médica; ensinar alguém alguma atividade que irá melhorar as chances dessa pessoa de encontrar um bom emprego… e por aí se estendem as possibilidades.

Deus, que ama profundamente o pobre, a viúva e o órfão, promete recompensar-nos pelo bem que fizermos a eles:

Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição de seus inimigos. O Senhor o assiste no leito de enfermidade; na doença, tu lhes afofas a cama (Salmo 41. 1-3).

Fiquei imaginando Deus afofando a minha cama quando eu estivesse doente. Definitivamente, é uma imagem carregada de ternura, a ponto de deixar nossos olhos molhados.

Deus tem respondido à oração que fiz no dia em que assisti Lion e soube sobre as 80 mil crianças indianas desaparecidas. Não, não montarei uma ONG que vai procurar essas crianças e encaminhá-las de volta às suas famílias (aliás, a popularidade do próprio filme tem sido um meio de fazer isso acontecer), mas Ele tem plantado um novo sonho no meu coração, que envolve crianças e que envolve o cuidado com elas até seu nível mais profundo: o espiritual. Venho acalentando esse sonho e já dado pequenos passos em direção à sua realização. Hoje mesmo, terminei de assistir à inspiradora série de documentários Daughters of Destiny (obrigada, Fê Pinilha, pela dica preciosa!), do Netflix, que conta como uma escola na Índia (olha a Índia de novo) tem mudado a realidade de crianças da casta dos dalits, conhecidos como “os intocáveis”, que nascem e morrem sendo considerados menos do que humanos. A escola se torna a nova casa dessas crianças e, desde os quatro anos, elas são educadas e acompanhadas, até se formarem na faculdade e arrumarem um emprego – tudo custeado por essa escola, a Shanti Bhavan. É um trabalho árduo, mas transformador. Por meio desse documentário e de outras pistas que tenho caçado por onde passo, venho orando, pensando e me colocando nas mãos de Deus para que eu também contribua com o que sou e com o que tenho.

Deus fala por meio das menores vozes – mesmo por meio daquelas que não tenham as maiores plataformas ou o círculo de influência mais amplo. Todos nós temos a habilidade de nos levantar em favor daquilo que é certo e amar as pessoas que estão machucadas. Seria ingênuo para qualquer um de nós acreditar que podemos resolver os problemas do mundo. Seria um desperdício de esperança deixar que esses mesmos problemas nos paralisassem e nos impedissem de realizar qualquer bem. (Sarah Sciarini)

Quando começamos pelo nosso próprio centro, descobrimos algo essencial, que se estende até a periferia do círculo. Encontramos novamente um pouco de alegria no agora, um pouco de paz no aqui, um pouco de amor em mim e em você, que podem criar o reino do Céu aqui na terra. (Anne M. Lindbergh)

 

 

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Quando o nosso luto é por quem ainda está vivo

Estou há um tempo tentando começar este texto, mas apaguei esta primeira linha umas sete vezes já. Porque quero mexer num assunto delicado: o luto por pessoas que ainda vivem. Na minha caminhada, perdi poucas pessoas próximas por morte, mas quantas perdi porque se mudaram, porque romperam comigo, porque se afastaram, porque não sei. Meia-dúzia, talvez. Ou mais. Por elas, sofri longos lutos. Lembro-me de uma amizade rompida em 2002, pela qual lamentei por quatro anos, pelo menos. Foi alguém que conheceu minhas oscilações, minhas arrogâncias e ignorâncias e escolheu partir. Um golpe compreensível, porque eu era mesmo uma chata, mas demasiadamente duro, sem volta nem explicações. Em 2008, mais duas perdas: além do meu primeiro casamento que chegava ao fim, perdi junto uma das minhas melhores amigas, irmã por escolha e afeto extremo. E em setembro deste ano completará um ano de mais uma dessas perdas, sobre a qual pouco consigo falar.

Fico pensando: por quê? Por que rompemos com aqueles a quem queremos bem? Será que o perdão proposto por Jesus, de perdoarmos setenta vezes sete, não está sendo colocado em prática?  Ou então somos nós, que não sabemos ocupar o espaço que nos cabe, sem invadir o espaço do outro, e aí o outro se vê sufocado e decide se libertar? Ou talvez não sejamos tão importantes para essas pessoas como elas são para nós? Ou ainda: e se elas se foram só porque queriam ir mesmo e ponto?

Pode ser, pode ser e pode ser. Como pode ser ainda uma outra coisa, que desconhecemos. A verdade é que eu não me acostumo com as perdas.  Não consigo achar normal perder amigos que amo, mesmo que “a vida seja assim, fazer o quê? Melhor se acostumar”. Sonho com eles, faço menção de mandar mensagem, ameaço comprar presentinhos… aí caio em mim: Lu, você já tentou se reaproximar. Tem certeza que quer continuar insistindo?  – e, num suspiro, tento pensar em outra coisa. Peço diariamente a Deus que me ajude a deixar essas pessoas irem de dentro de mim. Algumas estão mais liberadas, outras menos. Oro por uns, penso em outros e mexo no Facebook de outros ainda, rs. Com frequência, me pego na expectativa de que eles voltem. Imagino a gente num sebo da Augusta procurando livros do Érico Veríssimo, ou ouvindo Porcelain do Moby em homenagem aos velhos tempos… outras vezes, concluo que encerrar a questão me ajudaria a seguir com a vida.

Lembro-me de um texto que a Vanessa Belmonte traduziu para o blog dela e que repostamos aqui, sobre as relações serem como as marés:

Quando você ama alguém, você não ama o tempo inteiro exatamente do mesmo jeito. Isso é impossível. E seria até uma mentira fingir que sim. E, ainda assim, isso é o que a maioria de nós cobra dos relacionamentos. Nós temos tão pouca fé no fluxo e refluxo da vida, do amor, dos relacionamentos. Nos jogamos no fluxo da maré e resistimos em terror ao seu refluxo. Temos medo de que possa não voltar. Nós insistimos em sua permanência, duração, continuidade; quando a única continuidade possível, na vida assim como no amor, está no crescimento, na fluidez — na liberdade, no senso de que os dançarinos são livres, se tocando suavemente quando se encontram, mas parceiros em um mesmo compasso.

A verdadeira segurança não está em ter ou possuir, em exigir ou criar expectativas, nem mesmo em ter esperanças. A segurança nos relacionamentos não está em olhar para o passado, para o que foi um dia, em nostalgia, nem em olhar para o futuro, para o que possa ser um dia, mas em viver o momento presente e em aceitar o que é agora. Precisamos aceitar a segurança da vida de altos voos, do fluxo e refluxo, da intermitência.

 

Quanta beleza e verdade nessas imagens!

Encerro este texto com lágrimas escorrendo pelo rosto. Lágrimas que materializam a profunda saudade e, ao mesmo tempo, simbolizam o fim de um ciclo de inúmeras voltas. Aqui dentro de mim, libero esses meus queridos do passado para que dancem, para que voem e para que vivam.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Quando elas escrevem, eles não leem

Quando meu marido sugeriu o tema para este post, minha primeira reação foi perguntar a mim mesma: como eu não pensei nisso antes?? A ideia dele veio de duas novelas (romances curtos) lidas na última semana, ambas escritas por mulheres sob pseudônimos masculinos: A festa de Babette, de Karen Blixen, que publicava suas obras como Isak Dinesen, e O moinho à beira do Floss, de George Eliot, que era, na verdade, a inteligentíssima Mary Ann Ewans (essa mulher escreveu, sob seu pseudônimo masculino, uma das obras mais importantes da língua inglesa, Middlemarch: um estudo da vida provinciana). A partir disso, imaginamos que seria uma boa eu puxar o assunto dessa história de uma escritora ter que se disfarçar de homem para ter algum crédito na praça.

Pesquisei um pouco a respeito e entendi que isso foi algo relativamente comum no século 19 e início do 20, por dois motivos associados: 1) os assuntos sobre os quais essas autoras queriam escrever rompiam com o estereótipo da escrita considerada “de mulheres”, que não era levada a sério. Exemplos do que as autoras com pseudônimos masculinos queriam escrever: contos de suspense, ficção científica, ficção com temáticas políticas e sociais, críticas de literatura e arte; 2) quando usavam um nome de homem, essas autoras conseguiam ser mais lidas… especialmente, por homens. As irmãs Brontë e o “escritor” George Sand (na verdade, Amantine Lucile Aurore Dupin), que se vestia de homem e fumava em público – nunca a uma mulher isso seria permitido em sua época –, são os exemplos mais clássicos.

Mas quem pensa que essa prática ficou restrita ao passado, esquece-se do caso atual mais famoso de uma escritora que teve que se disfarçar para alcançar sucesso: J.K. Rowling. A criadora de Harry Potter se chama Joanne Rowling (o K da abreviação é inventado) e o motivo que a levou a abreviar o seu nome é o mesmo do das escritoras e seus pseudônimos dos séculos passados: pouca gente daria crédito para uma história de fantasia escrita por uma mulher. A não ser, claro, se ela escrevesse contos de fadas (os quais, aliás, foram escritos majoritariamente por homens, com exceção da autora de A Bela e a Fera e de Madame d’Aulnoy, baronesa escritora de contos desse gênero, que cunhou o termo). Harper Lee, autora do tocante O sol é para todos, também escondeu seu nome, Nelle, para que o gênero soasse ambíguo.

Achei toda essa história muito interessante e fiquei pensando se os homens, de forma geral, leem obras escritas por mulheres. Já prevendo o resultado (quanta pretensão), resolvi lançar a pergunta no meu Facebook:


Pesquisa para os homens: 

Vocês leem livros escritos por mulheres?
– Se sim, de quais autoras?
– Se não, por que não? (caso se sintam confortáveis para responder esta, rs)

O resultado foi muito diferente do que eu julgava. Dos 274 amigos homens que tenho em meu perfil, apenas doze responderam (todos afirmativamente), três deles citando autoras que eu nem sequer imaginava que existiam! Hannah Arendt foi a mais mencionada, mas nomes como Flannery O’Connor, Simone de Beauvoir e Virginia Woolf também apareceram. Um desses amigos lê mangás escritos por mulheres, quatro leem escritoras brasileiras, um não liga para o gênero quando escolhe o que vai ler, enquanto ainda outro amigo lê desde autoras indianas até chilenas.

Levando em consideração que, dos 274 amigos homens do total, muitos não leem meus posts, outros não leem livros, outros tantos não leem livros escritos por mulheres e não quiseram se expor, mais outros muitos não entendem português e mais um tanto lê meus posts, lê livros escritos por mulheres, entende português, mas não quis responder a minha pesquisa, até que doze respostas formam um resultado razoavelmente animador. Sem contar as curtidas (alguns curtiram, mas não comentaram). Assim, se os meus amigos de Facebook representassem uma amostra do tipo de público leitor que encontramos por aí no mundo, nossas queridas autoras poderiam todas sair do armário de sua identidade tranquilamente. Uma pena que a realidade abrangente não é assim.

Por último, considerei as autoras cristãs. Uma vez que o forte do nicho cristão é a não-ficção, de novo pensei que mulheres cristãs só escrevessem para mulheres cristãs. Sempre que vou a uma livraria especializada, encontro mulheres escrevendo para mulheres e o Max Lucado escrevendo para mulheres, rs. Na minha cabeça, apenas a Madame Guyon – no século 17! – e meia dúzia de pré-reformadoras e teólogas haviam conseguido a façanha de ter seus livros consolidados entre mulheres e homens. Ledo engano meu. Numa das respostas à pesquisa no Facebook, um homem (se vocês insistirem, eu conto que foi o pastor da minha igreja, rs) citou uma lista enorme de cristãs autoras que ele lê e leu na vida dele. Pesquisei uma por uma, achei algumas incríveis (confiram Mary Eberstadt, por favor!) e respirei aliviada por saber que as mulheres cristãs também querem falar sobre sociedade, ética, política, economia, e não apenas sobre ser uma esposa que edifica o lar (claro que isso é fundamental, mas vamos virar um pouco o disco??).

Ler sobre essas mulheres despertou em mim um orgulho gostoso, não do tipo competitivo – está vendo?? Mulher também sabe escrever coisa que presta! – aff!, mas de satisfação mesmo, de alegria por descobrir tantas mulheres abrindo novas sendas para a humanidade trilhar, mesmo que isso custe a algumas parte de sua identidade. O amor à verdade que escrevem clama mais alto que as condições impostas. Enfrentam. Seguem. Vencem.

Encerro o meu texto com ela, a autora que transcreve não a alma feminina ou a masculina, mas a humana:


Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Clarice Lispector

 

 

GeorgeSand2
Amantine Lucile Aurore Dupin, escritora francesa, famosa por escrever sob o pseudônimo George Sand e aparecer em público vestida de homem.

 

P.S. Este assunto me deixou tão pilhada, que me pergunto agora qual é a porcentagem de homens que lerá esta postagem. :)


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

. . . . . .

1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O que queremos é ter a nossa dor validada

A redoma de vidro_Sylvia Plath
Ilustração de Sylvia Plath

Carregamos dores dentro de nós o tempo todo. Se pudessem ser medidas com régua, variariam de tamanho, sim, mas nem por isso deixariam de ser dores. Ontem, por exemplo, meu filho tinha acabado de chegar ao espaço de brincar do Sesc, quando avisaram que a área seria fechada para limpeza. Ele, totalmente imerso dentro de um cubo de madeira gigante, nem sonhava que a brincadeira teria de ser interrompida. E lá fui eu, fazer o serviço sujo: Filho, precisamos ir embora agora, eles vão limpar aqui. Como resposta, recebi um conjunto vazio. Álef, sai do cubo, por favor. Precisamos ir…  Cri cri cri … Não tive outra alternativa, senão entrar no tal cubo e pegá-lo. Ele chorou e ficou tentando se soltar do meu colo, todo protestante: quero ficar! Quero ficar! Até que eu respondi: querido, eu entendo como é chato ter que ir embora. Sei que quer ficar. Mas não podemos. Na mesma hora, ele parou de resistir e aceitou.

Essa mudança brusca na reação do meu filho me fez pensar sobre um ato muito simples, mas que, quando genuíno, tem efeito curativo: a validação da dor do outro. Ao amadurecermos, vamos chegando à difícil conclusão e ao fim da ilusão de que outros seres humanos têm o poder de curar nossas feridas internas. Não, eles não são Deus, não são perfeitos, são limitados e até carregam em si grande potencial para intensificar ainda mais nosso sofrimento. Entretanto, nada impede que essas mesmas pessoas tragam na bagagem de sua vida o antídoto da empatia. Ah, essa palavrinha… tão em voga em tudo agora. Mas faça o teste de memória: quantas vezes, na sua adolescência, tudo o que você queria era apenas ser ouvida por sua melhor amiga, mas ela, na tentativa de fazer você se sentir melhor, insistia em martelar na sua cabeça, que aquele garoto que te deu um fora não te merecia? E as notas vermelhas na escola, então? Um dos temas de sermão favoritos dos pais.

Claro que, com isso, não estou propondo o fim da orientação, do conselho ou da correção. Mas será que nossos conselhos ou opiniões são tão imprescindíveis assim, que precisam mesmo vir antes de tudo? De repente, um toque no ombro primeiro, uma palavra solidária, uma tentativa sincera de se colocar no lugar do outro e compreender sua frustração podem abrir um mundo de possibilidades para a cura entrar. Eu mesma, quando estou triste, não gosto que tentem me animar. Porque é artificial. Não quero fórmulas mágicas, nem sorrisos forçados, menos ainda a cobrança de que tenho que me sentir feliz o tempo todo. Às vezes, tudo de que preciso é alguém que se sente ao meu lado e, em silêncio, tome um chá de hortelã comigo.

Deleito-me ao ler sobre a estratégia que o próprio Deus (referido neste texto como Senhor dos Exércitos, ou seja, intrinsicamente guerreiro), diz que usaria para ajudar um líder de Judá a conduzir os judeus de volta à sua terra:


Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.
(Zacarias 4.6)

Deus é mesmo um gentleman. E, certamente nós mesmos, que nos inspiramos em tão grande amor e procuramos o outro com interesse genuíno, sem a ansiedade de empurrar soluções goela abaixo, encontraremos um terreno aberto, fértil e sedento aguardando por nós.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Relato de um parto desplanejado

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Quando o David me mostrou essa foto que ele tirou nos primeiros minutos de vida do Dominic, eu escutei a voz de Deus falando comigo, de novo, sobre controle. Eu sonhei, literalmente, com um parto natural humanizado, com velas aromáticas e som ambiente com a playlist escolhida cuidadosamente pra ocasião, aliviando as contrações na banheira, me movimentando livremente, parindo junto com o Dom minhas dores, meus medos e fazendo print da placenta depois, pra enquadrar e colocar na parede.

Fiz atividade física específica pensando nisso, preparei minha mente, fiz o pré natal numa Casa de Parto acolhedora, li sobre um milhão de coisas relacionadas ao tema, fiz cursos pra gestante, me empoderei.

Tive mais ou menos 15 dias de pródomos (que é tipo um pré parto, digamos assim, o que anuncia que a primeira, de três fases do trabalho de parto está por chegar). Com 40 semanas exatas perdi o tampão e com 40 semanas e 1 dia, tive uma consulta com a parteira e nesse dia já estávamos com tudo pronto no carro, a mochila do Dom, a nossa, o bebê conforto pra volta pra casa de carro, tudo preparado, porque as contrações estavam evoluindo, eu imaginava. Estava tão cansada e pesada, que queria e pedia que elas progredissem logo. Quase como se estar com tudo já no carro fosse atrair o parto ou algo assim.

A parteira mediu a altura uterina e ficou preocupada, porque era um bebezão ali dentro e a Casa Ângela só faz partos de bebês até 4kg, por questões de segurança e saúde da mãe e do bebê. Chamou outra parteira pra medir também e conferir. As duas visivelmente chateadas me disseram a mesma coisa: ele era um bebezão. Pediram um ultrassom e disseram que sentiam muito, mas, o resultado dele diria se eu poderia parir ali ou não.

Acho que eu nunca vou esquecer a cara de tristeza e choro que o David fez quando ouviu isso. A gente estava há 40 semanas se preparando, 8 semanas indo periodicamente a consultas com as parteiras, 6 semanas fazendo cursos sobre o fim da gestação, trabalho de parto, parto natural, puerpério e cuidados com o bebê, e de repente estava tudo escapando das nossas mãos. Claro, a gente sabia que tudo aquilo era só um plano, tanto que tínhamos 3, o A, o B e o C. Estávamos relativamente satisfeitos com os 3, mas queríamos muito o primeiro. Não fazíamos ideia de que iríamos direto pro terceiro. Na Casa Ângela é feito um plano de parto, que fala sobre nossas pretensões pra esse momento e, somos orientados a incluir mais algumas possibilidades, caso a ideia principal não seja mais viável.

Procurei manter a calma, principalmente pra não afetar o Dominic, mas, eu sentia que meu desejo primeiro tinha se perdido. Dali mesmo fomos pro Hospital fazer o ultrassom, apreensivos, frustrados e tristes. A conduta do Hospital do meu plano de saúde pra uma gestação à partir de 40 semanas de um bebê grande era cesariana, eu já sabia disso. Tinha certeza que poderia entrar e não sair sem o Dom nos braços. Fiquei chateada de novo e pensei: o Hospital não pode me amarrar e prender lá, certo? Mas, aí eu me dei conta de que eu poderia conhecer o Dominic naquele dia mesmo! Tínhamos que fazer e aguardar o ultrassom e só depois disso resolver o que concluir, mas, essa ideia de que nosso encontro estava muito, muito perto me deixou tão feliz que eu falei pro David: tudo bem, se for cesariana, tudo bem, se o médico orientar a tirar hoje, tudo bem. Fiquei inesperadamente feliz e curiosa.

Fizemos o ultrassom e, claro, não tem balança dentro daquela máquina e era só uma estimativa, muito próxima da realidade, mas, só uma estimativa que mostrou Dominic com 4,270kg. Por isso tanto cansaço, por isso uma sinusite de dois meses sem curar mesmo com antibióticos, por isso minhas pernas não fechavam mais, por isso a dor terrível nas costas, por isso abaixar era impossível, por isso o David secava minhas pernas e pés todo dia após o banho, por isso eu não conseguia mais dormir. Era um bebezão. Um bebezão que eu viria a qualquer hora!

Como não estava nem na fase latente ainda (a primeira fase do trabalho de parto, com as contrações regulares e intensas), precisaria agendar uma cesariana. Era véspera de Sexta Feira Santa, já tinha passado o horário de agendamento, eu só conseguiria resolver isso na Segunda, dia 17. O lindo dia 17. Eu deveria chegar às 10h no Hospital, passar no pronto socorro e avisar que queria marcar a cirurgia. Simples assim. Mas, dolorido assim, também. Tudo bem, meu sonho tinha ido pro ralo, mas, agendar a cirurgia? Marcar hora, dia? Engoli a seco. A gravidez inteira eu disse pro Dominic que ele nasceria no dia que quisesse e agendar uma cesariana me parecia ser um desrespeito. Obviamente, essa é a minha opinião, a minha história. Eu não sou ativista do parto normal, eu não sou ativista da cesariana, eu só queria seguir com meu desejo e agir conforme meus princípios e com o que acredito. De qualquer forma, apesar da frustração, relaxei, porque a verdade dura é que eu não tenho controle de nada, simples assim. Era isso que Deus estava me ensinando, enfaticamente. Considero absolutamente importante planejar, estruturar, prever, avaliar riscos, mas, sabendo e aceitando que as coisas podem não acontecer como o esperado e ok, não é o fim do mundo e a gente pode não saber lidar com isso, mas, tem que lidar mesmo assim.

Já que não tinha o que fazer além de esperar o feriado prolongado passar, na Sexta fomos ao cinema assistir Velozes e Furiosos 8, mantendo a tradição de quase 10 anos que temos em casa e que confesso: eu estava triste, porque a data prevista de parto era justamente na pré estreia e eu perderia. Mas, Dominic foi gentil com a gente e então levamos ele pra conhecer seu xará! E sim, o nome dele é Dominic, inspirado no Dominic Toretto. E sim, eu realmente gosto dessa franquia!

Nesse meio tempo eu perdi, gradativamente, o que mais tarde eu soube que era líquido amniótico, mas, que enquanto perdia, achava só que era um corrimento mais intenso, ou escape leve de urina. Nem me importei…

A Segunda chegou e, na saída de casa o David lembrou que era rodízio do carro! Comecei a chorar, porque a essa altura eu já estava de saco cheio. Eu passei toda a gestação sem ansiedade, mas, estava começando a ficar tensa e desejando que tudo acabasse, ou, melhor dizendo, começasse logo. Era como se, já que meu plano A não deu certo, vamos logo com isso, plano C! Muito cansaço, falta de ar, tosse da sinusite, dor da contratura muscular que tive de tanto tossir, dificuldade pra andar, peso e blá-blá-blá. O David achou um caminho alternativo e fomos.

Durante a consulta, soube que me deram informação errada e que os dias para agendar cesariana eram terça e quinta, não de segunda à sexta. Fiquei brava, muito brava. Estava realmente me esforçando pra lidar com a frustração e a coisa toda só se prolongando. Eu conversava com o Dom, dizia pra ele que estava tudo bem, eu só estava cansada. E dá-lhe aprender que eu não controlo nada, não importa o quanto eu tente ou queira. E já ia dizendo isso pra ele, também. Total exercício de impermanência, de fluidez, de desprendimento, de suspensão, de desapego, de deixar-ser.

A médica do pronto socorro explicou que o médico que agendava as cesarianas ia pedir dois exames e que sem eles ele não agendava as cirurgias: um cardiotoco, que analisa os batimentos cardíacos do bebê, e um perfil de vitalidade fetal, que é um ultrassom bem detalhado que vê umas coisas importantes aí. Ela fez os pedidos e disse pra eu já adiantar e fazê-los na Segunda mesmo. Outra notícia importuna? Isso foi às 10h e o perfil de vitalidade fetal só era feito após às 16h. Manda mais, Deus, que tá pouco.

Fiz o cardiotoco, que estava lindinho, e voltamos pra casa. Já tinha largado mão e falei pra Deus que beleza, eu ia suspender, ia fazer o que devia ter feito antes: aceitar, esperar, desencanar, confiar. Almocei deliciosamente, já que fui pro hospital de manhã em jejum pensando “vai que”… E pra cirurgia deveria estar em jejum de 8h.

Pontualmente às 16h estávamos na porta da sala de exame do perfil de vitalidade fetal. Ali começou. Uma médica muito atenciosa explicou detalhadamente o exame. A previsão de peso, de tamanho, como ele estava… Avisamos que nossa intenção era o parto natural, mas que na Casa Ângela não seria mais possível. Avisamos que eu não tive dilatação, nem contrações regulares, nada além dos pródomos. Ela terminou o exame e disse que a médica do pronto socorro explicaria melhor, mas, pra eu subir até o consultório com a ideia de que ficaria, pelo menos, internada. O Dominic estava bem, mas era um gorducho e talvez o tamanho dele estaria dificultando o encaixe perfeito na pelve pro início das contrações regulares. Só seria possível ter certeza disso se de fato o trabalho de parto ativo (a segunda fase do trabalho de parto, lembra?) iniciasse, e aí se estendesse muito e aí um sofrimento fetal acontecesse. Ela também falou sobre o líquido amniótico, que eu estava perdendo consideravelmente e não era lá uma coisa muito bacana. Ela avisou que não era impossível um parto normal, mas, que poderia ser mais difícil e demorado.

Só que, na verdade, não importava mais nada disso, porque eu não confio em parto normal hospitalar. Eu confio em parto normal e natural em Casa de Parto, ou domiciliar assistido por uma equipe especializada. Só. Não podendo ter isso, vamos pra cirurgia, sim, porque eu acredito que médico que não seja de equipe especializada em parto normal não tá preparado pra isso, mas faz uma cesariana como ninguém.

Voltamos pro consultório da obstetra plantonista do pronto socorro, ela leu os exames, falou a mesma coisa que a médica do exame havia dito, com um adendo: “pai, você vai descer com os documentos dela pra fazer a internação e mãe, você espera aqui ele voltar, aí a enfermeira vai te chamar pra se vestir pra cirurgia”. 

Aí meu coração acelerou, aí eu fui tomada por uma porção de sensações e sentimentos que nem sei dizer. O Dominic estava chegando! Eu estava aliviada. Não teria meu parto natural, mas, o dia e a hora em que ele quis nascer foram respeitados, minha angústia de agendar a cesariana tinha passado. Eu estava segura da decisão, o David também, estávamos em órbita.

Foi o tempo do David voltar pro andar do centro cirúrgico, avisarmos nossos pais, irmãos e alguns amigos, e fui tomar a anestesia enquanto o David se paramentava. A sala estava em temperatura ambiente, rádio ligado na estação Alpha FM, luz baixa e um anestesista cuidadoso que finalmente conseguiu colocar o acesso, depois de 5 tentativas frustradas das enfermeiras. Tomei a anestesia e o David entrou, sentou ao meu lado. Começou a me dar falta de ar, já que a sinusite ainda estava atacada e eu precisei ficar completamente deitada. Tampou tudo. Por causa da anestesia, eu não sentia o ar entrando pela boca e indo pro pulmão. O anestesista ficava dizendo “relaxa, respira, seus batimentos estão perfeitos, sua pressão tá ótima, confia em mim, tá tudo bem, olha lá o aparelho marcando, tá tudo bem…”.

A obstetra entrou (uma diferente da consulta), se apresentou, me disse o que iria fazer, explicou como estavam as coisas, eu não prestei atenção porque achei que fosse morrer sem ar hahaha

Eu pedi pro David segurar minha mão, porque se fosse morrer, pelo menos ele tava ali do lado rs 

A cirurgia começou e o David ficou com um olho lá outro cá. A médica ia me falando o que estava fazendo, eu continuei sem conseguir prestar atenção. De repente vi uma movimentação diferente, o olhar do David mudar, mas não ouvi nada e estava esperando um chorinho ou um resmungo, qualquer coisa do tipo, mas, nada…

Perguntei o que estava acontecendo e alguém disse “nasceu”. Mas Jesus, cadê o menino, cadê qualquer reação dele?! Aí o David começou a dizer que estava tudo bem, que ele estava ótimo, que estavam limpando ele pra trazer pra vermos. Perguntei por que ele não chorou e alguém disse (não lembro quem): porque ele é calminho! 

Esquecemos de todo nosso plano de parto (tinha um pra cesariana, também)! Esqueci de falar pra esperar o cordão parar de pulsar pra cortar (mas a médica esperou mesmo assim, ufa), o David esqueceu de dizer que queria cortar, esquecemos de pedir pra não pingar nitrato de prata nos olhos dele e quando lembramos já era tarde demais, o que causou uma queimadura (leve, mas mesmo assim, que ódio) na pálpebra dele, esquecemos de pedir pra dar a vitamina K e a vacina contra hepatite no colo… Tudo saiu fora do esperado. A única coisa que lembrei foi de pedir pra amamentar ele ainda ali, mas a médica disse que não era ideal, por causa da anestesia. Eu concordei, embora chateada.

Finalmente (na verdade foi tudo muito rápido, mas eu estava sem ar, sem ouvir nenhuma reação do Dominic, pareceu um ano inteiro ali) trouxeram ele até nós e eu achei ele lindo, cheiroso, fiquei emocionada e encantada com cada pedaço dele que eu consegui enxergar. Não me apaixonei à primeira vista, nem amei louca e instantaneamente, mas eu já esperava por isso e tava super tranquila, porque não acredito nesse tipo de coisa, eu acredito que amor é construção diária e aquele era só o primeiro minuto da nossa relação que vai ser trabalhada dia a dia. Mas, isso é assunto pra outro post…

O que eu senti mesmo foi uma gratidão sem explicação! É absurda a ideia de que aquele menino tinha sido feito por nós, gerado dentro de mim. Eu olhava pra ele, pro David, e pensava “Deus, Deus, você realmente me ama, obrigada obrigada obrigada”. Foi quando a enfermeira perguntou se queríamos fotos e tiramos duas. Não curtimos a super exposição e o show do nascimento e da maternidade/paternidade, então isso nos pareceu suficiente. Além do que, não foi em cinco minutos que eu elaborei bem a frustração de que a foto do nascimento do Dominic não ia ser dentro da banheira da Casa Ângela rsrs.

Pedi pra ver a placenta, esse órgão incrível que simplesmente é criado com o objetivo de nutrir o bebê, e fiquei muito feliz da enfermeira pegá-la pra eu ver, embora ela tenha se espatifado no chão segundos depois!

Ficamos uns minutos juntos, nós três, e o David segurou ele com tanto jeito que pareceu ter nascido praquele momento. E eu que tava achando que ia morrer sem ar, pensei que se fosse a hora, podia morrer sim, de boa, porque ver aqueles dois juntos daquele jeito já tinha valido meus trinta anos vividos até ali.

A médica começou a me fechar e foi explicando tudo que ia fazendo. Eu não prestei atenção em nada, mas achei educado e importante. Quando a enfermeira pediu pro David sair também, porque iam me arrumar pra ir pra sala de recuperação, eu odiei, queria que ele ficasse o tempo todo comigo, porque se tem alguém nesse mundo que me faz sentir segura e amparada é ele. Por Lei, ele poderia ficar, mas, o Hospital não é nada preparado pra isso e eu desejo imensamente que se prepare, porque isso faria muita diferença. O Dominic foi pro berço aquecido, a enfermeira saiu e eu fiquei alguns minutos sozinha na sala de cirurgia, entortando o pescoço pra ver ele atrás de mim, ainda sem conseguir entender bem o que eu estava sentindo ou pensando.

Fomos os dois juntinhos pra sala de recuperação, onde ficamos por umas seis horas, até ir pro quarto.

Mas, foi no minuto dessa foto que nossa jornada começou. Foi no minuto dessa foto que tivemos nosso primeiro encontro familiar! Nesse minuto eu ouvi Deus falando que desde que Ele se tornou meu Senhor, os planos são feitos por Ele. Não é fácil, eu ainda preferia ter tido um parto natural humanizado e não é que eu esteja pulando de alegrias por ter feito a cesariana. O que acontece é que estou aprendendo a desapegar, a ser grata por aquilo que me é dado.

Talvez você que lê isso não acredita em Deus e ache toda essa história uma grande bobagem, mas, eu acredito e aqui me lembro de uma passagem bíblica em que Ele diz “eu bem sei os planos que estou projetando para vocês; planos de paz, e não de mal, para dar a vocês um futuro e uma esperança”.

O Dominic é nossa fonte de Esperança. Veio direto do Alto, transbordando tudo, transformando tudo. Ele chegou nesse mundo de malucos de uma forma diferente da que eu queria, mas, no dia que quis e do jeito que Deus permitiu, saudável, tranquilo, querido e respeitado. Me transformando em mãe, me dando um novo papel e nova responsabilidade. Já me ensinando sobre resignação, entrega, confiança, aceitação, gratidão.

Hoje ele completa 1 mês de vida e já tem cumprido essa promessa de Jeremias 29:11 que citei acima. Apesar de todo o furacão, as mudanças, o medo, a insegurança, apesar da maternidade e paternidade serem coisas avassaladoras, estamos vertendo amor e alegria. Louvo a Deus pela vida do Dom, o nosso dom.


Eu sou a Talita, nada mais que uma alma encarnada lutando pra cumprir minha missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. Junto com a Carol e a Lu, reflito sobre a vida aqui no Santa Paciência.