RE-PENSE: Reparar suas roupas, mas também suas relações é um ato de amor

Com a celebração do Dia Mundial do Meio Ambiente que tal pensar em suas ações, mas também em suas relações?

Hoje, dia 05 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A campanha deste ano é focada na drástica poluição plástica (já falamos um pouquinho sobre esse tópico neste post aqui).

Este ano, com o tema #AcabeComAPoluiçãoPlástica, a data soma esforços à campanha #MaresLimpos da ONU Meio Ambiente para combater o lixo marinho e mobilizar todos os setores da sociedade global no enfrentamento deste problema — que se não for solucionado, poderá resultar em mais plástico do que peixes nos oceanos até 2050.1

Derivado do petróleo, o plástico nunca se degrada por completo na natureza. O material apenas se quebra em pedaços cada vez menores, em um processo de decomposição que pode levar centenas de anos. Mesmo os plásticos chamados biodegradáveis não “desaparecem”; apenas se quebram mais rapidamente.2

A poluição plástica é bem mais ampla do que a sacola plástica que você recusa no supermercado

O plástico está presente em nosso dia a dia muito mais do que imaginamos – ultrapassa a sacola plástica do supermercado que por ano, são consumidas até 5 trilhões de sacolas plásticas em todo o planeta.3 Pois, ele está no canudinho que você usa para beber o suco na padaria. Na bucha para lavar louças da sua pia. No colchão da sua cama. No seu travesseiro. No sapato que você usa. Na roupa que você veste. Enfim, a lista é extensa, infelizmente.

Sei que muitas das invenções com tal material supriram necessidades diversas e algumas foram extremamente importantes. Porém, o problema foi não pensar na sustentabilidade do processo. O impacto que a médio e longo prazo tais invenções causariam no planeta, seja pelo consumo desenfreado ou pelo descarte inapropriado.

Por isso, repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar é tão importante!

Por ter trabalhado com moda esportiva por muitos anos, sempre me deparei com fibras têxteis derivadas do petróleo. Neste segmento, ao longo dos anos, as empresas de tecelagem e malharia foram criando fibras que pudessem suprir as necessidades do esportista, garantindo sua sobrevivência em climas hostis. Com isto, foi possível desbravar lugares incríveis sem morrer de frio, mas lamentavelmente as fibras criadas duram muito mais do que uma vida, elas resistem por diversas gerações.

Uma marca, do segmento esportivo, que eu admiro muito é a Patagonia (existe há mais de 40 anos e foi criada pelo escalador Yvon Chouinard). Pois vejo que ela tenta buscar soluções mais duradouras para seus produtos – seja na conservação ou no descarte deles.

Imagem retirada da matéria feita pela marca Patagonia: http://www.patagonia.com/blog/2015/11/repair-is-a-radical-act/

Há um tempo, eles criaram um site chamado Worn Wear, que estimula as pessoas a comprarem roupas usadas da própria marca. E para o brechó online funcionar, eles recebem as roupas do desapego em suas lojas físicas e em troca dão créditos que podem ser utilizados em suas próprias lojas.

A marca também ensina as pessoas a repararem suas roupas, disponibilizando guias de conserto e conservação em seu site. Além, de promover eventos de reparo com um ateliê móvel pelas cidades.

Esses dias eu precisei reparar uma calça minha e me veio a memória que, há 3 anos (no mínimo), eu não comprei nenhuma roupa nova. Basicamente meu guarda-roupa foi constituído pela doação de peças por uma irmã que tenho (e que possuía muita roupa) ou de peças que tenho há muitos anos e que ainda se encontram em perfeito estado para uso.

Esses dias, eu também percebi que, assim como roupas precisam de reparação, muitos de nossos relacionamentos também precisam. Replicamos nosso comportamento de consumo e descarte em nossas relações. E, por vezes, somos descartados ou descartamos pessoas.

Esses dias eu precisei ceder meus ouvidos para realmente ouvir. Olhar para dentro de mim e revisitar situações incômodas. Exercer a empatia e liberar vida e perdão. Percebi que reparar relacionamentos leva muito mais tempo do que uma agulha e linha podem costurar, e que apesar da dor (passada e momentânea) possibilita restauração de vidas e possibilidades de novos recomeços.

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NOTAS:
1Trecho retirado da matéria das Nações Unidas no Brasil, link aqui

2Trecho retirado da matéria da Época Negócios, link aqui

3Informação retirada da matéria das Nações Unidas no Brasil (mesmo link acima)

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Anne Morrow Lindbergh – Jun/2018

Foi a primeira mulher a tirar o brevê de piloto planador de primeira classe nos Estados Unidos.

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Anne Morrow Lindbergh nasceu em 22 de junho de 1906 (já falamos dela neste post aqui), em Englewood, Nova Jersey, Estados Unidos. Seu pai, Dwight Morrow, foi um empresário, diplomata e político nos Estados Unidos. Sua mãe, Elizabeth Cutter Morrow, foi uma poeta e professora ativa na educação para mulheres.

Por ser um lar que promovia a leitura, escrita e atividades públicas entre os filhos (Anne era a segunda filha de um total de 4 filhos), tal influência contribuiu, e muito, para que Anne pudesse desenvolver sua aptidão à escrita.

Ela graduou-se em língua inglesa no Smith College. Conheceu seu marido, Charles Lindbergh, na cidade do México e casaram-se em uma cerimônia privada em 1929. No ano seguinte, 1930, Anne se tornou a primeira mulher a obter o brevê de piloto planador de primeira classe, nos Estados Unidos. E assim, o casal iniciou a aventura de traçar novas rotas e explorar continentes juntos.

Ao total, Anne e Charles tiveram seis filhos – sendo que o primogênito, com apenas 20 meses, foi sequestrado e morto meses depois do sequestro. Posterior ao ocorrido, mudaram-se para Inglaterra e ao longo dos 45 anos de casamento, a família Lindbergh viveu em diversos lugares: Nova Jersey, Nova York, Inglaterra, França, Maine, Michigan, Connecticut, Suíça e Havaí.

Anne recebeu diversas premiações ao longo de sua vida em reconhecimento de sua contribuição para com a literatura e a aviação:

  • 1933: recebeu a cruz de honra da U.S. Flag Association por ter participado do levantamento de rotas aéreas transatlânticas
  • 1934: foi premiada com a Hubbard Medal pela National Geographic Society por ter completado 40.000 milhas (64.000km) de voos exploratórios com seu marido, levando-os aos 5 continentes
  • 1935: seu primeiro livro, North to Orient, ganhou o National Book Awards
  • 1938: seu segundo livro, Listen! The Wind, ganhou o National Book Awards
  • 1938: recebeu o Christopher Award por War Within and Without e partes de seus Diários Publicados

  • 1939: recebeu o Honoris Causa de Amherst College
  • 1939: recebeu o Honoris Causa de University of Rochester
  • 1976: recebeu o Honoris Causa de Middlebury College
  • 1979: entrou no National Aviation Hall of Fame
  • 1985: recebeu o Honoris Causa de Gustavus Adolphus College
  • 1993: em reconhecimento de suas conquistas e contribuições para o campo aeroespacial, recebeu de Women in Aerospace o Aerospace Explorer Award
  • 1996: entrou no National Women’s Hall of Fame
  • 1999: entrou no Aviation Hall of Fame of New Jersey
  • 1999: entrou no International Women in Aviation Pioneer Hall of Fame

Depois da morte de Charles, em 1974 na ilha Maui, no Havaí, Anne voltou para Connecticut. E em 1999 foi morar perto da filha Reeve, em Vermont, onde veio a falecer em 07 de fevereiro de 2001, aos 94 anos.

A trajetória de Anne na aviação, desbravando rotas, conhecendo novos lugares, se expondo ao novo – continuamente, não poderia ser celebrada em melhor mês. Estou com malas semi-prontas, com passagem marcada, parto daqui 1 mês e alguns dias.

Estarei indo para a Inglaterra, país que eu sempre sonhei visitar, mas que por decisões diversas eu não havia conseguido planar. Tal viagem veio como um presente: privilégio de celebrar o casório de amigos e que, graciosamente, se estendeu a diversas outras oportunidades de vivência para mim.

Agora que a viagem se aproxima, e que distrações foram dissipadas, começo a sentir aquele frio na barriga que vem em decorrência de toda, e qualquer, mudança.

O medo destrói a “vida de altos voos”. Mas como exorciza-lo? O medo só pode ser exorcizado pelo seu oposto – o amor. Não há lugar para o medo, para a dúvida, para a hesitação num coração cheio de amor.1

No amor não há medo; ao contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor.2

Enquanto estou desenvolvendo este texto, pego o livro Presente do Mar, o folheio e releio alguns de seus capítulos. Me lembro da sensação que ele provocou em mim, quando o li pela primeira vez. Fico feliz por celebrar a vida de Anne no mês que eu também celebro a mudança que o Eterno tem me permitido viver…

Não importa em que página se abra Presente do Mar, as palavras da autora oferecem uma oportunidade de respirar, de viver com mais calma. O livro torna possível desacelerar e descansar no presente, sejam quais forem as circunstâncias. Lê-lo – um trecho ou todo o livro – é existir por um momento num tempo diferente e mais sereno.

Até mesmo a cadência e a fluidez da linguagem me parecem fazer referência aos movimentos suaves, inevitáveis do mar. Não sei se minha mãe usou esse estilo intencionalmente ou se foi o resultado natural de estar vivendo à beira da praia, dia após dia, enquanto escrevia o livro. Seja qual for a razão, após algumas poucas páginas eu sempre começo a relaxar de acordo com aquele movimento e a me sentir como algo que pertence à maré – apenas mais um pedaço dos destroços de um naufrágio, flutuando nos maravilhosos ritmos oceânicos do Universo. Isso, em si, é profundamente reconfortante.

No entanto, este livro proporciona mais do que paz, mais do que o vaivém ondulante apaziguador de uma vida tranquila e de palavras suaves. Nas entrelinhas de tudo isso há uma força imensa de sustentação. Sempre me surpreendo toda vez que me deparo com essa força a todo vapor em Presente do Mar.3

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NOTAS:
1Trecho retirado de Presente do Mar, escrito por Anne Morrow Lindbergh, p 90

21 João 4.18 – Nova Versão Internacional

3Trecho retirado de Presente do Mar, escrito na Introdução por Reeve Lindbergh (filha de Anne), em 2005, para a comemoração do 50o aniversário da publicação do livro, p 08-09

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Noêmia Falcão Campêlo – Mai/2018

Foi a primeira missionária entre os indígenas brasileiros.

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Noêmia Stella Falcão Campêlo nasceu em uma família cristã, em 10 de maio de 1906, em Recife, Pernambuco. Desde pequena, recebeu estímulo para os estudos, mas infelizmente não os concluiu, por recomendação médica, devido à sua fragilidade física.

Aos 15 anos fez sua pública profissão de fé e batismo. Aos 19 conheceu Zacarias Campêlo que foi pregar em sua igreja quando ainda era seminarista. Ambos foram marcados por uma saúde frágil, porém compartilharam de um coração devoto a Deus e um genuíno desejo em anunciar o Evangelho a povos não alcançados, mais especificamente, aos índios crâos.

A palavra kraô é composta de icrá (filho) e hô (folha), ou seja, filho das folhas ou das selvas. Crêem que foram feitos das folhas pelo deus Put (Sol). Daí a razão por que adoram o Sol, e não há força humana que os afaste da prática desse culto. 1

Os pais de Noêmia, a princípio, não ficaram muito confortáveis com essa ideia que foi anunciada quando eles noivaram:

– Minha filha – dizia-lhe o pai. Aqui também se pode pregar o evangelho. Aconselha o teu noivo a não ir para tão longe.

– Meu querido pai, se Zacharias não mais quisesse ir aos índios, eu perderia todo o interesse em unir a minha vida à sua.

– Mas, não sabes, Noêmia, que és a alegria de nossa velhice? Que há de ser de nós sem ti!

– Ah, papai, isto é o que me dói na alma, deixa-los assim. Mas a chamada de Deus é tão forte, que eu seria a criatura mais infeliz, se a ela não desse ouvidos.

– Pois que Deus te abençoe, minha filha, em tua resolução.

E grossas lágrimas corriam pelas faces do amoroso pai, as quais eram logo enxutas por Noêmia que, encostando o seu rosto ao dele, e com os braços ao redor do seu pescoço, chorava também e dizia-lhe:

– O mesmo Deus que me protege, há de protege-los também, queridos pais.2

1926 foi o ano que toda a jornada do casal começou:

  • Eles foram nomeados missionários pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira.
  • Casaram-se dia 8 de maio.
  • Dias depois do casamento Zacarias foi consagrado ao ministério pastoral.
  • Partiram para o campo missionário quase no final do mesmo mês, dia 21 de maio.

A forte convicção do casal em sua vocação missionária é inspiradora. Não houve saúde, distância ou, qualquer outra coisa, que os impediram de seguir aquilo que Deus havia colocado em seus corações. Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13) vem ao meu coração quando penso em sua história. E Deus seguiu fortalecendo Noêmia…

Ao que conta Rute Salviano Almeida, em seu livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro3 o início de seu trabalho no campo não foi nada fácil! Afinal, o casal também estava aprendendo e se adaptando com toda a diferença e experiência transcultural.

Quem deu nome ao vilareijo, Craonópolis, foi Zacarias: “[o] missionário afirmou que os índios a pronunciavam como duas palavras, crâo e nópolis, e, quando se encontravam com os sertanejos diziam: Nossa aldêi tem nome boa, qui nosso indireitor botou. Por modéstia eles só davam a última parte. – É nópolis, chama nossa aldêi. Tem mais, mas num posso dizer, purque é nosso nome”.4

Quando as forças de Noêmia acabavam-se, sua saúde piorava5… E foi o que aconteceu durante suas gestações. Por estar enfraquecida, Noêmia foi para Carolina (MA), porque lá dispunha da ajuda da família de Zacarias. Em fevereiro de 1927, nasceu seu 1o filho, Saulo. Posterior a seu nascimento ela retornou à aldeia, dando continuidade a seu relacionamento com os índios crâos, principalmente com as mulheres.

Prestes a dar à luz a sua segunda filha, Noêmia partiu novamente para Carolina. Lá, no dia 1o de abril de 1928, nasceu Esmeralda, mas em decorrência de uma infecção puerperal, Noêmia infelizmente veio a falecer, aos 22 anos de idade.

Noêmia, durante doze dias, pertencera ao Clube dos Ex-Mortos ou dos redivivos. Teve síncope prolongada, e os presentes a tiveram por morta. Quando voltou à vida, contou que estivera no céu e que vira a Jesus. Uma coisa ficou provada: ela nunca mais chorou nem se queixou da ausência dos seus queridos, como ocorria antes. Pedia que se lhe mostrassem os filhos. Pediu à cunhada que ficasse com o menino, mandasse a menina à avó e deixasse livre o viuvinho. Tudo isso num espírito de bom humor, e de quem está de posse de algo mais importante. Dizia mesmo que suas lágrimas já se tinham esgotado. Sentia o gozo do céu, pelo que não mais se entristeceria. Foi o mais belo testemunho que já presenciei em toda a minha vida. Falar do invisível com segurança de quem já o provou. De quem já está na posse do futuro.6

Escreveu Zacarias Campêlo, esposo de Noêmia, em seu livro Minha vida e minha obra

Uma palavra que me veio à mente, ao pesquisar a vida de Noêmia, foi a palavra legado.

Mesmo que ela tenha falecido prematuramente, ficando tão pouco no campo missionário, com certeza deixou frutos que ainda colhemos e colheremos na Eternidade. Seja para com o povo que ela tanto amou, e dedicou seus últimos anos de vida, os índios crâos. Ou nós, cristãos brasileiros, que tivemos o caminho aberto à um campo fértil para a proclamação das boas-novas.

Mas, certamente, sua família pode se inspirar e beber diretamente da fonte, florescendo e frutificando através das gerações. Esmeralda Campêlo Vilela (sua filha) tornou-se pastora, fundou uma editora, uma comunidade evangélica e uma organização sem fins lucrativos. E para a minha surpresa, enquanto eu pesquisava, descobri que Guilherme de Carvalho, pastor, escritor, diretor do projeto Cristãos na Ciência e obreiro do L’Abri Brasil (ministério que eu tanto admiro e que ele toca junto com a Alessandra, sua esposa) é neto de Esmeralda, sendo bisneto de Noêmia. Pois é… acho que não poderia vir à minha mente palavra melhor. O legado de Noêmia continua reverberando através dos anos e de sua descendência. E que venham mais anos, mais histórias e mais inspirações! :)

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NOTAS:
1Trecho de O índio é assim, escrito por Zacarias Campêlo, p 17

2Trecho de A heroína de Craonópolis, escrito por Stela Câmara, p 48

3O livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino, de Rute Salviano Almeida é o livro precioso em que eu descobri Noêmia (todas as citações utilizadas aqui foram retiradas dele). Eu também descobri Henriqueta Rosa Fernandes Braga – que foi a nossa Mulher Inspiradora do Mês de Março. E para o semestre que vem, teremos mais mulheres garimpadas do livro! Obrigada, Rute, pelo incrível trabalho em dar voz a tantas mulheres caminhando por nossa história <3

4 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 395

5 Trecho de Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, escrito por Rute Salviano Almeida, p 396

6Trecho de Minha vida e minha obra, escrito por Zacarias Campêlo, p 165

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você se vê, transita e desfruta a cidade

Com a pressa que estressa e as demandas exageradas de trabalho será que estamos aproveitando o que a cidade tem nos ofertado?

Somos mais de 12 milhões de pessoas na cidade de São Paulo e, juntos, respiramos o mesmo gás carbônico que sai do escapamento de carros engarrafados e de velhos ônibus que nos levam, todos os dias, para nossos trabalhos, faculdades e lares.

Somos muitas e muitos, de fato! Moramos em lugares bem afastados do centro e nos deslocamos por quilômetros, diariamente. Somos da Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e de todos os seus desdobramentos.

Apressados, nos deslocamos por quilômetros e não prestamos atenção aos detalhes.

Como paulistanos caricatos (ou adeptos desta cultura que aqui se refugiam) gostamos de supervalorizar a falta do nosso tempo. E assim, desenvolvemos ansiedades diversas, pois estamos sempre com a sensação que temos “um mundo” de opções ao nosso dispor, mas não conseguimos aproveita-las, justamente pela falta de tempo que tanto supervalorizamos.

Para agravar (sim, é possível!), desenvolvemos um olhar distante e crítico para com a cidade que nos acolhe. Adotamos a postura que toda melhoria é de responsabilidade alheia e assumimos postos de meros consumidores, como se a cidade não fosse a soma entre eu e você = nós.

Por isso, não é difícil encontrar pessoas que, ao se estafarem por excesso de trabalho ou se sentirem lesadas pela falta que a “cidade grande” não saciou dentro delas, acreditam que o outro extremo seja a solução de seus problemas: – Viver uma vida bucólica, no campo, longe de buzinas frenéticas, asfalto demasiado e cartão de ponto não seria, então, a solução de todos os meus problemas existenciais?

Confesso que eu já fui uma dessas pessoas. Já quis fugir para as montanhas, acordar com o sol batendo através de uma linda e enorme janela de vidro, na qual eu poderia contemplar o nascer e o por do sol. E nesse lar aconchegante, com cheiro de mato, flores e aromas eu desenvolveria trabalhos manuais e artísticos sem pressa, leria um livro sem interrupções e viveria, então, uma vida alegre, feliz e completa, para sempre, não é mesmo?! Parece que não…

Pensar assim é replicar um olhar dicotômico, como se metrópoles fossem más e cidades no campo fossem boas. Em minha caminhada compreendi que quem corrompe, qualquer ambiente, somos nós; seres humanos. Exercemos um poder destruidor, mas acreditem, também podemos, felizmente, sonhar, gerar, desenvolver, construir e desfrutar de lugares e relacionamentos.

Tenho aprendido que, onde quer que eu esteja, minha missão é de promover vida: preparando a terra, semeando, regando ou colhendo. Talvez, em minha jornada pessoal, eu só consiga desenvolver uma ou outra etapa deste enorme processo, pois a História é bem maior do que minha existência individual. É o Eterno que continua se movendo livremente e apontando os rumos de um todo que tenho oportunidade de fazer parte.

Sim, é possível preparar a terra, semear, regar e colher mesmo em uma metrópole cercada por concreto. Envolta por injustiças, populações minorizadas e vulneráveis esquecidos. Aliás, será que não seria exatamente este o nosso chamado urbano: sermos jardineiras e jardineiros em plena cidade grande? Projetando e construindo jardins, em meio ao asfalto de fuligem e gerando vida verde e pulsante em meio ao cinza?

O Eterno me presenteou com árvores frutíferas próximas de onde eu moro – em pleno centro de São Paulo! Me sinto vivendo uma metáfora e, em demonstração de gratidão, recolho algumas mangas que caíram no asfalto depois de um vento muito forte. Levo para casa o máximo de mangas que minhas ecobags podem aguentar e ombros suportar e faço um delicioso chutneySe hoje posso colher é porque alguém investiu tempo plantando antes de mim.

Me sinto extremamente grata por ser parte de um todo bem maior que eu mesma. Desfruto do que cozinhei, como se fosse a comida mais saborosa que eu já experimentei em toda a minha vida! Realmente ela tinha um gosto especial… E como eu havia colhido frutas por demais, de um inusitado jardim, tenho a oportunidade de presentear algumas amigas com o chutney que fiz.1

CHUTNEY DE MANGA2

Ingredientes:

  • 2 mangas palmer
  • 1 maçã fuji
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • ½ pimentão vermelho
  • 1 ½ colher (sopa) de gengibre fresco ralado
  • ¼ de xícara (chá) uvas-passas brancas
  • ¼ de xícara (chá) de açúcar
  • 1 colher (chá) de sal
  • 1 canela em rama
  • ¼ de xícara (chá) de vinagre de vinho branco
  • ¼ de xícara (chá) de água

Modo de preparo:

  • Faça o pré-preparo: descasque e corte em cubos de 1 cm as mangas e a maçã; descasque e pique fino a cebola e o dente de alho; corte o pimentão, sem as sementes, em cubinhos; descasque e rale o gengibre fresco (se preferir, pique bem fininho).
  • Transfira todos os ingredientes para um panela, junte as uvas-passas, o açúcar, o sal, a canela, o vinagre e a água e misture. Leve para cozinhar em fogo médio.
  • Quando ferver, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar por 40 minutos, mexendo de vez em quando. Se começar a grudar no fundo da panela, regue com um pouco mais de água e misture – o chutney ainda deve ficar com um pouco de caldo, pois irá endurecer quando esfriar.
  • Passados os 40 minutos, desligue o fogo. Transfira o chutney para potes de vidro esterilizados, com fechamento hermético, e deixe esfriar em temperatura ambiente. Depois de frios, tampe e conserve na geladeira por até 3 semanas.

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NOTAS:
1O episódio (a colheita das mangas) aconteceu em março deste ano (2018), mas somente agora (maio), consegui elaborar em texto o que eu ansiava :)

2Receita retirada do blog Panelinha — link aqui

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Mulheres Inspiradoras: Corrie Ten Boom – Abr/2018

Foi a primeira mulher licenciada ao ofício da relojoaria na Holanda e ficou conhecida por abrigar em seu lar diversos refugiados judeus além de membros da resistência nazista.

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Nascida em 15 de abril de 1892, na Holanda, Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom, mais conhecida como Corrie Ten Boom, cresceu em um lar cristão.

Seus pais, Casper Ten Boom e Cornelia Johanna Arnolda Ten Boom-Luitingh, tiveram 4 filhos. Seu irmão Willem foi um teólogo, sua irmã caçula, Nollie, casou-se, enquanto Corrie e sua irmã mais velha, Elisabeth mais conhecida como Betsie, viveram juntas a missão de abrigar refugiados em seu lar, juntamente com seu pai, durante o Holocausto.

Corrie aprendeu o mesmo ofício de seu pai, o da relojoaria, estudando-o no período de 1920 a 1922 e ao formar-se, tornou-se a primeira mulher relojoeira licenciada em toda a Holanda.

Porém, sua grande e arriscada contribuição foi através do O Refúgio Secreto, nome dado ao seu lar, pelo acolhimento que exerceu à pessoas refugiadas durante o Holocausto. O lar dos Ten Boom foi um local que recebeu diversas pessoas e teve seu “pontapé oficial” em 1942, com a chegada de uma mulher muito bem vestida, portando apenas uma pasta à mão e pedindo asilo, pois ela tinha ouvido falar que eles já haviam abrigado alguns conhecidos judeus.

A família abrigou, socorreu e arriscou a própria vida por diversas pessoas até fevereiro de 1944, quando um informante holandês delatou toda a família as autoridades nazistas que levaram presos. Casper Ten Boom não resistiu e morreu 10 dias depois de sua prisão. Enquanto ela e sua irmã, Betsie, foram encaminhadas para o campo de concentração feminino em Ravensbrück, na Alemanha. Lá é Betsie que veio a falecer e, antes de ir a óbito, disse à Corrie a seguinte frase: “não há abismo tão profundo que o amor de Deus não seja ainda mais profundo”.

Corrie foi solta um dia após o Natal de 1944. Posteriormente, ela soube que sua soltura se deu por um erro burocrático porque uma semana depois de sua libertação todas as meninas de sua idade haviam sido assassinadas.

Com o fim da guerra, ela retornou à Holanda, posteriormente à Alemanha e depois viveu muitos anos ensinado e palestrando itinerante pelo mundo.

Em 1967 Corrie foi honrada pelo Estado de Israel com o Prêmio Justos entre as Nações1. Em 1971 ela escreveu seu mais famoso livro O Refúgio Secreto onde ela narra toda a saga de sua família – em 1975 o livro foi adaptado para o cinema. E também foi homenageada pela rainha da Holanda, em reconhecimento de seu trabalho, ganhando um museu na cidade de Haarleem.

Em 1977 ela mudou-se para Califórnia, nos Estados Unidos da América. E sua saúde, dia a dia, foi se deteriorando até que perdeu por completo sua comunicação e veio a falecer no dia de seu 91° aniversário, em 15 de abril de 1983.

Com Corrie eu aprendi a ter coragem. Coragem para fazer o que é certo, independente das circunstâncias, mesmo que custe a própria vida. Com ela, eu também aprendi que não existe nenhuma situação que não venha a ser de Ação de Graças à Deus. Em todo o momento Ele é bom! Mesmo nas circunstâncias mais adversas e difíceis que enfrentamos. Um exemplo é o que Catherine Marshall narra em seu livro Uma Fé Mais Profunda2, quando descreve uma situação que a própria Corrie contou a ela quando esteve hospedada em sua casa (e também está relatada em seu livro O Refúgio Secreto):

[Ela] continua a ser uma das hóspedes mais agradáveis que já honraram a nossa casa e regala-nos amiúde com anedotas da sua vida na prisão. Uma das minhas favoritas é a história das pulgas…

Em certo período da sua detenção, Corrie e Betsie foram transferidas de celas apinhadas (onde haviam vivido meses a fio separadas uma da outra) para as Barracas n° 28. Em menos de uma hora descobriram que os seus malcheirosos colchões de palha fervilhavam de pulgas.

– Como poderemos viver num lugar como este? – gemeu Corrie mansamente.

Sem responder, Betsie pôs-se incontinente a rezar.

– Mostre-nos, Senhor, mostre-nos como. – E, logo, em tom excitado: – Corrie, Ele nos deu a resposta! Eu a li na Bíblia hoje cedo. Aqui… leia de novo essa parte.

O trecho pertencia a I Tessalonicenses e dizia: “Regozijai-vos sempre, orai sem cessar, em tudo dai graças, porque está é a vontade de Deus em Cristo Jesus…”

– É isso mesmo, Corrie! Devemos agradecer a Ele por todas as coisas que digam respeito às novas barracas.

– Tais como?… – Corrie estava tentando olhar com olhos novos para o recinto escuro e fedido.

– Tais como estarmos aqui.

– Oh, sim.

– E termos conseguido até agora conservar a Bíblia.

– Sim… oh, sim. Obrigada, Senhor, por isso.

– E as pulgas.

– Betsie, não vejo maneira de poder agradecer a Deus pelas pulgas.

– Mas as pulgas fazem parte deste lugar, onde Deus nos colocou. “Em tudo dai graças”, diz a Bíblia. E não apenas nas circunstâncias agradáveis.

E as duas mulheres deram graças a Deus pelas pulgas.

A medida que os dias passavam, as prisioneiras das Barracas n° 28 acabaram descobrindo que havia nelas uma espantosa falta de supervisão ou interferência. Corrie e Betsie aproveitavam a liberdade sem precedentes para conversar com outras prisioneiras, ler-lhes a Bíblia e acudir-lhes de muitíssimas maneiras.

Depois, um dia, ficaram sabendo pela boca de uma supervisora a razão de tanta liberdade. Algumas mulheres a haviam chamado através da porta gradeada para vir decidir uma disputa surgida entre elas. A supervisora recusou-se e o mesmo fizeram os guardas.

– Este lugar está infestado de pulgas, – disse a supervisora. – Eu não passaria pela porta por nada neste mundo.

A mente de Corrie voltou, num relance, à primeira hora que haviam passada das barracas e à sua lamentável ação de graças pelas pulgas. Quando ela ergueu a cabeça, Betsie, com os olhos brilhantes, tentava reprimir o riso.

– Agora sabemos por que se espera que O louvemos até pelas pulgas. Até as pulgas tiveram de ser o Seu instrumento para o nosso bem.

Trecho do livro Uma Fé Mais Profunda, páginas 31 e 32, de Catherine Marshall

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NOTAS:
1Prêmio Justos entre as Nações é um prêmio instituído pelo Memorial do Holocausto como reconhecimento a todos os não judeus que durante a II Guerra Mundial salvaram vidas de judeus perseguidos pelo regime nazista.

2Uma Fé Mais Profunda, de 1974 (título original Something More).

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Mulheres Inspiradoras: Henriqueta Rosa Fernandes Braga – Mar/2018

Formada em piano, composição e regência pelo Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, Henriqueta obteve os títulos de professora, maestrina e doutora em música, tendo sido a primeira pessoa a receber um diploma universitário de Música conferido no Brasil. 1

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Nascida em 12 de março de 1909, na cidade do Rio de Janeiro, Henriqueta Rosa de Fernandes Braga é uma daquelas mulheres que eu gostaria de ter conhecido pessoalmente. Como será que suas ideias floresciam? Como conseguia dar conta de tanta criatividade que pulsava dentro de si? Obviamente a música foi a maneira como Deus concedeu a ela vasão para essa criatividade contagiante, mas fico pensando que além de seu legado musical sua vida deve ter sido repleta de nuances e, usando de licença poética, fico imaginando como sua vida deve ter sido usada por Deus de maneira ímpar nas sutilezas da existência, nas conversas de corredor, nas orações partilhadas ou na mesa compartilhada.

Sua família era extremamente ativa na Igreja Evangélica Fluminense – igreja que foi fundada pelo médico missionário Robert Reid Kalley e sua esposa musicista missionária Sarah Poulton Kalley sendo a primeira congregação protestante no Brasil a cultuar os cultos em português.

A música no lar exerceu uma grande influência em sua vida. Era muito comum sentar, com os seus irmãos, ao redor do piano para ouvir a mãe tocar as Sonatas de Mozart, ou mesmo escutar as gravações (inclusive de música sacra) que constituíam, desde cedo, a organizada e escolhida discoteca da família. Seus pais, cultos e estudiosos, acompanhavam sempre, com desvelo, os seus estudos, capacitando-os para uma melhor técnica de aprendizagem e desenvolvimento. À noite, em seu lar, podia-se ver, curvados sobre os livros, pai, mãe e filhos, num admirável exemplo de diligência intelectual. Talvez, mais importante que tudo, fosse o culto doméstico que coroava o dia de trabalho e no qual eram apresentados ao Pai Celeste os agradecimentos pelos benefícios recebidos, e expostas as dificuldades, implorando a sua constante direção para a vida de cada um. E, em paz e tranquilidade, despedia-se a família para o repouso noturno. 2Henriqueta ficou conhecida por seu pioneirismo. Foi precursora na participação musical de programas de rádios evangélicos, na gravação de hinos sacros, na pesquisa da música sacra no Brasil, dentre tantas outras atividades.

Aposentou-se em 1979, mas continuou ativa fazendo palestras e pesquisas sobre música. Faleceu em 21 de junho de 1983, aos 74 anos e deixou 4 obras por acabar: Corais de J. S. Bach, Cancioneiro folclórico infantil brasileiro, História da música e Manual para Salmos e Hinos.

Hoje, comemoramos o Dia Internacional da Mulher e poder escrever sobre mulheres tão inspiradoras me traz renovo, ânimo mas sobretudo alegria. Como houveram mulheres fantásticas! Muitas sequer foram mencionadas nos livros de história.

Porém, reconhecer que há mulheres contemporâneas a mim e a você igualmente inspiradoras é tão fantástico quanto! Que dedicam a vida ao outro – escolhendo a melhor parte. Que se inclinam a Deus com reverência e certas que serão ouvidas e atendidas, não por serem quem são, mas por crerem em um Deus misericordioso e amoroso. Mulheres que levantam de madrugada para trabalhar e que atravessam a cidade para cuidar de um lar que não é o seu, mas o tratam como assim o fossem. Mulheres que são amigas, confidentes leais e que cedem seu ombro para que choremos nossas dores. Mulheres que são mães de primeira viagem e que aprendem as dores e as alegrias que a maternidade traz. Mulheres que são excelentes profissionais e ofertam o melhor de si em prol de um mundo melhor. Mulheres que transitam em nossas vidas com fluidez e leveza e que nos ensinam a enxergar o melhor de nós e a extrair o melhor do outro.

Mulheres mães. Mulheres filhas. Mulheres esposas. Mulheres irmãs. Mulheres amigas. Mulheres sobrinhas. Mulheres cunhadas. Mulheres tias. Mulheres primas. Mulheres… A todas vocês o nosso:

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

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NOTAS:
1Trecho retirado do livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – Escravidão, Império, Religião e Papel Feminino de Rute Salviano Almeida, página 435

2Trecho retirado do site Hinologia e que se encontra neste link: http://www.hinologia.org/henriqueta-rosa-fernandes-braga/

 

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Mulheres Inspiradoras: Rosa Parks – Fev/2018

Nascida em 04 de fevereiro de 1913 no estado do Alabama, na cidade de Tuskgee. Rosa Louise McCauley, mais conhecida como Rosa Parks entrou para a história por se recusar a ceder seu lugar à um homem branco em um ônibus público. Foi presa e com sua atitude marcou o início da luta antissegregacionista nos Estados Unidos.

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Segundo o calendário da ONU, desde 2007, há um dia especial para a reflexão e fomento da justiça social. Todo dia 20 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial da Justiça Social.

A adoção desta data em um calendário, ao meu ver, é de suma importância pois traz visibilidade a uma questão que está longe de ser erradicada. Sei da complexidade que esse termo traz, é amplo demais e envolve diversas esferas de uma sociedade. Mas quando penso nesse tema sob a ótica cristã – uma vez que não consigo desassociar Cristo como exemplo perfeito a ser seguido por mim em tudo o que faço e penso – na verdade me sinto é encorajada a lutar e buscar soluções para uma questão complexa como esta.

Mas me entenda, eu não estou falando que creio em uma redenção utópica através dos meus braços e serviços, pois sei que Cristo é o único que pode intervir efetivamente em toda a história, incluindo a minha e a sua, mas a Bíblia toda está recheada de versículos e histórias de pessoas comuns que clamaram, mas trabalharam para que o Reino de Deus pudesse começar a ser experimentado no hoje, no aqui e agora, mesmo que em doses aparentemente “homeopáticas”.

E é exatamente assim que eu vejo a vida de Rosa Parks. Uma mulher comum, que tinha a costura como profissão, mas resolveu não se calar enquanto sofria na pele o preconceito escancarado de brancos versus negros em seu país.

Ao anoitecer do dia 1 de dezembro de 1955, Parks entrou em um ônibus na avenida Cleveland, no centro da cidade de Montgomery. Ela pagou a passagem e se sentou na primeira fileira de assentos reservados para negros no veículo.

O motorista, James F. Blake, seguiu viagem em sua rota tradicional. O ônibus ia enchendo até que na terceira parada, em frente ao teatro Empire, vários passageiros entraram. Blake notou que umas duas ou três pessoas brancas estavam em pé. Para resolver o problema ele mudou o sinal de “colored” (“pessoa de cor”, termo usado nos Estados Unidos para se referir a afro-americanos) para atrás da fileira onde Parks estava. Ele exigiu que os passageiros negros sentados levantassem para que os brancos pudessem sentar. Enquanto os outros três negros levantaram, Rosa se recusou.

Anos depois, em uma entrevista, ela recordou: “meu corpo foi tomado por uma determinação, como uma colcha numa noite de frio”.  Parks se moveu, mas para o assento da janela. Blake, o motorista, perguntou para ela: “Por que você não se levanta?” Ela respondeu que “Eu não deveria ter que me levantar”. O homem chamou então a polícia e mandou prender Rosa Parks.

Quando o policial chegou ela perguntou “Por que vocês mexem com a gente assim?” Ele respondeu: “Eu não sei, mas lei é lei e você está presa”.  Parks foi acusada de violar o capítulo 6, seção 11 da lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar dela tecnicamente não ter sentado em um assento reservado para brancos. Edgar Nixon, presidente da sede local do NAACP, e seu amigo Clifford Durr pagaram a fiança de Parks e ela deixou a cadeia no dia seguinte.1

Posterior a prisão de Parks alguns ativistas dos direitos civis convocaram e organizaram o boicote aos ônibus de Montgomery e a luta pelos direitos iguais foi ganhando mais força. Martin Luther King, Jr. mantinha contato com Rosa e estiveram juntos em diversas iniciativas e marchas pela igualdade.

A decisão que ela tomou, em se posicionar a favor da justiça social, custou muito caro a Rosa. Sua vida não foi nada fácil depois disso! Enfrentou dificuldades para conseguir emprego após o ocorrido e precisou se mudar algumas vezes, pois também sofria diversas ameaças de morte por parte de grupos extremistas que defendiam a supremacia branca.

Em 1992 publicou sua autobiografia, Rosa Parks: My Story (infelizmente sem publicação no Brasil)E em 2002 é despejada porque possuía dívidas que não podia honrar. Porém, obtém ajuda de uma igreja batista que, através de uma comoção nacional, contribuiu para que o banco concedesse a ela viver gratuitamente em sua casa.

Rosa Parks faleceu em casa, em Detroit, no dia 24 de outubro de 2005, de causas naturais aos 92 anos. Seu caixão foi velado com honras da Guarda Nacional do estado de Michigan. E autoridades e lideranças dos movimentos civis compareceram ao seu funeral.

Ser cristão é militar todos os dias contra a maldade, disse o deputado estadual e pastor Carlos Bezerra Jr no workshop Política e Direito – no final do ano passado em uma igreja no centro de São Paulo, do qual eu pude participar.

É isso! Somos militantes da causa de Deus que já foi vencida, mas ainda está em curso. E é concedida à nós – no agora – nossa co-participação com Ele na História e consequentemente em nossa própria história. Por isso, ser cristã(o) e militar todos os dias contra a maldade é privilégio para pessoas tão comuns como eu e você.

Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela
Jeremias 29.7

 

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NOTAS:
1Trecho retirado do Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Parks

 

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A Série Mulheres Inspiradoras tem como objetivo celebrar a história de mulheres cristãs que imprimiram sua marca no mundo através da arte, música, literatura, justiça social, teologia, ciências e/ou outras esferas que compreendem o nosso bem viver. Para nos inspirar e impulsionar a deixarmos também o nosso legado no mundo, devolvendo ao Criador o que Ele nos confiou.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Por que voltei a tingir meus cabelos brancos

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Sete meses sem tingir os cabelos

 

Esta semana vou voltar a tingir o meu cabelo. Depois de sete meses deixando os fios brancos nascerem e aparecerem, desisti de continuar a ver minha cabeça embranquecer aos poucos. Quando comuniquei minha decisão para o meu marido, ele perguntou: e o que você vai dizer para as leitoras e os leitores da série ‘Fio de Prata’ do blog? Respondi que eu diria a verdade:

  1. Vou tingir os cabelos, porque a transição de um cabelo com cor para um cabelo branco tem implicações dolorosas de encarar

Isso é fato. Ocupo-me mais pensando na minha vida avançando no tempo quando vejo o branco dos meus fios do que quando eles estão disfarçados na tintura. Penso, me comparo com pessoas mais novas do que eu, lembro-me da morte. Não acho que temos que nos sentir lindas, jovens, cheirosas e felizes o tempo todo – mas me sentir sempre rumo ao envelhecimento também não tem me feito bem.

  1. Vou tingir os cabelos, porque necessito da aprovação de outras pessoas

Não posso negar que um dos fatores, que me deram força para não tingir o cabelo branco nesse tempo, é que deixá-los ao natural tem se tornado uma tendência cada vez mais forte entre as mulheres. Olha só o que eu disse: tendência. Eita palavrinha tentadora! Quando um comportamento vira tendência, nos sentimos mais confortáveis para adotá-lo, não? Afinal, ele denota mais aceitação entre um maior número de pessoas agora do que antes. Assim, ao olhar para dentro de mim e perceber que ainda busco aceitação e aprovação, perguntei a mim mesma: por que eu deveria continuar a agir como se não precisasse dessas coisas? Afinal, a mensagem que eu buscava passar para os outros ao deixar de tingir os meus fios brancos é que eu não precisava agradar ninguém mais, além de mim mesma. O triste é que nem a mim mesma eu estava agradando.

  1. Vou tingir os cabelos, porque minha atitude está envelhecendo

Muita gente com cabelos brancos por aí é super bem resolvida, jovem, moderna, linda. Nunca me esqueço da inveja que senti de uma mulher no cinema, com seus 45 anos mais ou menos, cheia de presença e cabelos brancos assumidíssimos. E uma asiática então, em quem fiquei reparando uma vez num café coreano? Ela tinha cabelos bem longos, lisos e cinzentos. Parecia um ser élfico vindo direto dos livros do Tolkien. Exótica e deslumbrante.

Para mim, porém, os cabelos brancos têm exercido um efeito contrário: em vez de me empoderarem (detesto esta palavra, mas não achei outra melhor), me atrofiaram. Vi que comecei a me esconder das pessoas, a evitar lugares em que temos que nos arrumar muito, a evitar aparecer para conhecidos que não encontro há muito tempo. Minha autoconfiança foi sendo minada e eu, que já moro no meio do mato, fui me isolando cada vez mais, com vergonha de assumir que minha juventude está indo embora. Fui desenvolvendo uma “atitude envelhecida”, que vai muito além de um simples punhado de cabelos brancos na cabeça, é verdade, mas que acabou sendo desencadeada por eles.

….

Ao mesmo tempo que pondero sobre tudo isso, preciso admitir quão profundo fui nas reflexões que fiz durante esses meses, em que deixei meus cabelos brancos aparecerem. Uma das conclusões a que cheguei é quão falho, superficial e ridículo é o estereótipo de beleza que nos move. Pior ainda é me ver tão presa a ele. Aí, então, vejo Deus, escolhendo aqueles que escapam totalmente aos estereótipos de beleza das épocas e os honrando lindamente (sendo Davi o mais famoso exemplo, resumido no livro bíblico de 1 Samuel, capítulo 16, verso 7) e me encanto.

Se quero me libertar dos estereótipos um dia? Quero muito! Contanto que isso não signifique autotortura. Não quero forçar uma situação, um estado de espírito, um desprendimento, só porque pareço cool assim. É hipocrisia. Tenho estado aberta para Deus trabalhar em mim a aceitação da passagem dos anos e da juventude, mas que Ele faça isso à maneira Dele, à medida em que vai me mostrando o Ser fascinante que é. Que nesse caminho para o envelhecimento, Deus me dê a mão Dele e, gentil como só Ele sabe ser, vá me conduzindo com Seu carinho e tranquilidade.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

RE-PENSE: A maneira como você descarta seu lixo também faz parte de uma espiritualidade saudável

Como podemos repensar nossos hábitos diários (de consumo e de descarte), transformando-os mais sustentáveis?

Dentre as metas que idealizei para 2018 (e para a vida!) eu decidi reduzir ainda mais meu lixo.

Me considero uma pessoa com certa consciência ecológica e, na medida do po$$ível, opto por produtos biodegradáveis e feitos de maneira sustentável. Mas, a partir desse ano quero repensar ainda mais meu consumo e principalmente como farei meu descarte. Quero tentar ir além da separação do que eu julgo ser “reciclável” para tentar reaproveitar esses itens ou descarta-los de um jeito que cause menos impacto para o nosso meio ambiente.

– Em 1950, 2 milhões de toneladas de plástico foram produzidas no mundo.

– Em 2017, 400 milhões de toneladas foram produzidas, uma taxa de crescimento composto de 8%.

– 40% disso é embalagem.

– Desde a década de 1950 produziram 8,3 bilhões de toneladas de plástico.

– Apenas 9% de plásticos são reciclados globalmente.

– Todo segundo, 20 mil garrafas de bebidas de plástico são vendidas em todo o mundo. São 7 milhões no momento em que você terminou de ler este artigo.

– Um estudo estima que até 2050 haverá mais plástico do que peixe nos oceanos do mundo.1

Lendo mais sobre o tema, descobri que alguns itens básicos que eu julgava serem possíveis de reciclar são, na verdade, um grande pepino na mão das cooperativas recicladoras. E mesmo que sejam destinados a elas, esses produtos são levados posteriormente para um aterro comum, ficando por lá durante várias e várias gerações, pois têm um alto custo devido sua complexidade para reciclar.

Um desses itens que eu julgava ser facilmente reciclável – #sqn – é a clássica esponja de lavar louça. Confesso que fiquei chocada quando eu descobri e esse foi um dos gatilhos que me deu coragem para aderir um estilo de vida mais intencional: tentar viver mais próximo do conceito Sem Desperdício2, a partir desse ano.

Mesmo sendo feitas de plástico, a reciclagem das esponjas de cozinha é extremamente rara porque os plásticos usados na sua produção contém especificidades que dificultam muito a reciclagem. Além disso, ao ser usada na limpeza, ela se torna um “porta-bactérias”, o que também impossibilita o processo. Esse é um ponto importante: por conterem muitas bactérias, a vida útil dessas esponjas é reduzida e se você comprou, é recomendável não utilizá-la por mais de 7 dias.3

Ok, mas e a louça como vai ficar???

Lendo por aí, vi que muita gente adere a bucha vegetal para também lavar a louça, além de usa-la para tomar banho. Por que eu nunca tinha pensado nisso antes?! Eu a uso há tantos e tantos anos para tomar banho!!! Sério, eu realmente fiquei muito chateada por saber que um item tão corriqueiro e tão popular em nossas casas sequer é mencionado como um item dificílimo de ser reciclável, levando a gente a consumi-lo sem culpa e sem pensar melhor no descarte posterior. :-(

Então, aproveitando meu estilo de vida mais intencional esse ano, quero também produzir, eu mesma, alguns produtos de limpeza da casa, além de cosméticos para meu uso. Então, anota aí uma receita de detergente para você ter uma pia mais natural esse ano. É muito fácil! Leva apenas alguns minutinhos e poucos ingredientes para ficar pronto.

DETERGENTE NATURAL4

Ingredientes:

  • 200g de sabão de coco (verifique no rótulo a composição do sabão, deve conter somente sabão de coco, ou similar)
  • 50ml de álcool
  • 3 colheres de sopa de bicarbonato de sódio
  • 3L de água
  • 10ml de óleo essencial (por ex: de limão ou usar as raspas da casca do próprio limão)

      

Modo de Preparo:
Ferva a água. Pique o sabão de coco. Adicione o sabão à água fervendo e mexa até que eles se dissolvam. Precisa dissolver bem! Adicione o álcool, o bicarbonato e o óleo (ou raspas do limão). Mexa durante 5 minutos e deixe descansar por 1 hora, aproximadamente. Coloque em um recipiente limpo e ele está prontíssimo para o uso!

     

*Depois de esfriar, o sabão pode se solidificar um pouco. Por isso é importante dissolver bem. Mas caso isso aconteça, misture antes de usar e o que sobrar na embalagem pode ser reutilizado.

Atenção!
Fique esperta(o) ao comprar seu sabão de coco. Crie o hábito de sempre ler os rótulos das composições dos produtos e escolha aquela que declare coco, óleo de coco, podendo também ser/ter óleo de babaçu em sua composição. Pois muitas marcas acrescentam sebo animal juntamente com uma essência de coco na composição e sequer mencionam de forma explícita que utilizam tal ingrediente enganando a nós consumidores.

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NOTAS:

1Dados retirados do blog do Selo EU RECICLO: http://blog.eureciclo.com.br/2017/09/sustentabilidade-no-nepal/

2Sem Desperdício é um conceito que se popularizou há anos atrás e em inglês é conhecido como Zero Waste. Ele propõe o mínimo de desperdício possível em tudo que compreende nossas vidas: alimentação, vestuário, higienização, etc.

3Frase retirada do blog do Selo EU RECICLO: http://blog.eureciclo.com.br/2017/08/quartasemescandalo-esponjas-de-cozinha/#more-507

4Receita retirada do blog da marca FLAVIA ARANHA: http://flaviaaranha.com/new-blog/2016/8/12/faa-sozinha-detergente-natural

 

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.

 


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Casa nova e alma nova

Acabo de me mudar de casa. Esta é a primeira das três mudanças previstas para nós em 2018 (um dia explico melhor essa história). Numa conversa que tive com a Carol Selles sobre isso, ela desabafou: detesto me mudar. Tive que concordar com ela, também detesto, mas talvez a gente não goste de se mudar porque acumulamos coisas demais, que depois nos dão um trabalhão para serem empacotadas e transportadas para o novo lugar. Se tudo o que temos coubesse numa modesta malinha, nosso desânimo para mudanças talvez não fosse tão grande.

No nosso caso, o meu desânimo não vem apenas da ideia de transferir um monte de coisas de um endereço para outro. Tudo aquilo que acumulamos ao longo do tempo e que não serve mais não vai simplesmente para o lixo e pronto. Separamos entre aquilo que iremos doar e aquilo que iremos vender daquilo que iremos descartar. No descarte, separamos entre o que é reciclável e o que não é. Também tem os eletrônicos: aparelhos velhos de celular, baterias que não funcionam mais, carregadores antigos. Tudo isso precisa encontrar um destino certo, que, definitivamente, não é uma lata de lixo comum. E os remédios vencidos então? Seguem todos para uma sacola específica, que será encaminhada para uma drogaria em São Paulo, que os recolhe e os descarta da forma correta. Sem falar das lâmpadas queimadas… também precisam encontrar seu destino certo, porque as fluorescentes, por exemplo, possuem mercúrio dentro, ultra tóxico e, portanto, não podem ser jogadas em qualquer lugar. Assim, mudar de casa se torna algo bem mais complexo do que “só” empacotar tudo e partir. É um ato de responsabilidade como administradores daquilo que acumulamos com o passar do tempo (aliás, aqui neste site, você encontra para onde encaminhar tudo quanto é coisa).

Da mesma maneira que mudar de casa, mudar por dentro, como pessoas, também pode nos dar uma preguiça enorme. Às vezes, é o excesso de opiniões formadas sobre as coisas que nos impede de mudar. Outras vezes, são os ressentimentos, as preocupações com o futuro e, definitivamente, os preconceitos. O orgulho, então! Esse não deixa a gente nem cogitar qualquer transformação.

Esse acúmulo de sentimentos pesados vai nos inchando, a ponto de não conseguirmos nos mover em nenhuma direção. Ficamos inflados de nós mesmos e nos acomodamos, esperando que o mundo gire em torno de nós.

Paulo, apóstolo de Jesus, nos orienta a não nos acomodarmos com essa forma de ver as coisas, mas sugere que renovemos a nossa mentalidade, a fim de experimentarmos o ponto de vista de Deus. Como resultado, esse novo olhar vai transformando a nossa vida (essas referências você pode encontrar na Bíblia, no livro de Romanos, capítulo 12, verso 2). Ou seja, para que novos ares possam entrar nos pulmões da nossa alma, precisamos deixar de acumular os sentimentos prejudiciais ao nosso crescimento, abrindo mão deles e adquirindo uma perspectiva que supere o que é finito, transitório e superficial.

Paul Tournier, médico e psicólogo suíço que se dedicou ao cuidado integral de seus pacientes, escreveu em seu livro Culpa e Graça:

Na verdade, ninguém pode se despojar do espírito de julgamento por meio de um esforço voluntário. Enquanto eu fico obcecado pelo erro descoberto em um amigo, que me chocou e que eu reprovo, posso repetir infinitas vezes: “eu não quero julgá-lo” – mas o julgo mesmo assim. Ao passo que o espírito de julgamento desaparece sozinho no momento em que tomo consciência dos meus próprios erros e falo deles com franqueza ao meu amigo, enquanto ele me fala das faltas que reprova em si mesmo. (p. 101)

O julgamento citado por Tournier é apenas um dos itens, que podem fazer parte da nossa pesada bagagem emocional e que nos impedem de mudar por dentro. Existem muitos outros, que nos sobrecarregam e nos deixam cansadas e indispostas. Pense na inveja, por exemplo. Minha amiga Dalila Parente disse uma vez, num encontro de mulheres, que a comparação que a inveja provoca não funciona de nenhum dos lados: se me sinto superior à pessoa com quem me comparo, isso é ruim e, se me sinto inferior, isso também é ruim. A conclusão a que chegamos aquele dia foi que a via mais saudável de todas é resistir a qualquer tentação de nos compararmos com outras pessoas. Desafiador, não?

Mas para onde encaminhar os sentimentos ruins, mas inevitáveis muitas vezes, que nutrimos e que nos impedem de mudar?

Assim como o lixo que acumulamos em nossa casa com o tempo, que pede um encaminhamento adequado na hora da mudança, os sentimentos negativos que emperram nosso crescimento pedem o destino da confissão. Apresentá-los a Deus sem reservas, em uma oração, pode ser o primeiro passo para que eles percam a força de ação em nós. Jesus, por sua vez, não irá julgá-los como juram alguns, mas perdoá-los, ou seja, levá-los para bem longe Dele e de você. É alívio instantâneo.

Em um segundo momento, entra em cena o processo. Assim como a borboleta, que passa pela metamorfose, nós também passamos a viver uma transformação em etapas. Ficamos conscientes dos sentimentos nocivos e, quando eles se apresentam, a gente às vezes consegue detectá-los a tempo de não nos deixar ser dominadas, outras vezes não. Quando não conseguimos, basta nos jogarmos nos braços de Deus de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias.

Para cada um de nós, um insucesso pode se tornar a oportunidade de uma reviravolta sobre si mesmo e de um encontro pessoal com Deus.
(Paul Tournier em Culpa e Graça, p. 141)

Só olhando para dentro de nós com sinceridade é que descobrimos o que temos acumulado, que tem nos impedido de mudar. Nesse ato de humildade, uma transformação interior não representará mais um ideal inalcançável para nós ou uma expectativa secreta dos que se relacionam com a gente, mas se tornará um processo possível, genuíno e rico de aprendizados.

 

ENSEE
Arte de Ensee

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo também ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.