Era uma vez uma culpa…

Há algum tempo já que Deus tem se deixado conhecer por mim. Explico: venho configurando em minha vida uma rotina, que inclui duas disciplinas espirituais bem básicas: a oração e a leitura bíblica. Diariamente, antes de ir para a escola onde trabalho, me sento em frente à janela do meu quarto, que me oferta a vista das montanhas da Mantiqueira, e tenho o meu momento com Deus. Antes eu escolhia um livro aleatório da Bíblia para ler (o último que li foi Apocalipse, que me deu uma perspectiva incrível da enormidade de Deus), mas há quase 2 semanas adotei o lecionário – leituras bíblicas diárias associadas ao calendário cristão. Leio os três textos que eles indicam e, da associação entre eles, aprendo mais sobre quem é Deus. Daí leio um trecho de um outro livro cristão (desde o começo do ano tenho lido livros cristãos que falam só sobre a oração) e encerro o momento com uma oração. Em troca, Deus tem se voltado a mim de forma desproporcional ao que tenho oferecido. São respostas, carinho, cuidado, amigos e confirmações de dúvidas que apontam para muito além da existência de Deus: apontam para o Deus que se inclina para mim a ponto de me ouvir e se importar com os meus problemas. Desde que me firmei nessas práticas de forma regular, tenho desenvolvido um outro olhar sobre o mundo e sobre quem sou nele – mundo – e Nele – Deus.

Era sábado e nós estávamos na estrada, a caminho de São Paulo. David e eu começamos uma conversa sobre o nosso aniversário de casamento, que se aproxima, até que o rumo  do papo nos levou para o passado. Falamos de lugares, pessoas e situações que não nos fizeram bem e como, naquela época, nossa visão do quanto esses contextos nos afastavam de Deus era míope. Lembro-me que, no mesmo instante, desviei o meu olhar para fora da janela do carro e pensei: quem era a Luciana daquela época? Acho que era outra pessoa, não eu. Porém esta Luciana aqui mal sabia que, naquele mesmo sábado, voltaria a se encontrar com aquela do passado.

E foi chegando na casa dos meus pais e mexendo no Facebook, que me deparei com determinadas fotos, que atiraram a “verdade” na minha cara: Luciana, você se lembra do mal que fez contra essas pessoas? Faz muito tempo, é verdade, mas elas não se esqueceram ainda. Tudo me veio à lembrança e eu me senti derrotada. Era isso: aquela Luciana e eu estávamos cara a cara. E mais: éramos a mesma e uma só, o que significava que tudo poderia acontecer de novo. Tudo.

Não consegui retomar de pronto a vida cheia de sentido que eu vinha experimentando. No dia seguinte, domingo, fui à minha igreja e ouvi o sermão de um pastor de outro lugar. Ele falou coisas lindas e incríveis, que só me deixaram com saudades de Deus, mas eu não me sentia digna mais. Só que a mensagem que esse pastor trouxe me levou ao centro de uma das principais questões da fé cristã: se Jesus escolheu morrer para tirar a minha culpa, por que eu ainda me sinto culpada?? Se ainda carrego esse peso, é porque talvez o fato de Jesus ter sido torturado, massacrado, pisado e pendurado numa cruz como um pedaço de carne no açougue não deve valer muita coisa.   

De repente, caí em mim. O que eu estava fazendo, ao me sentir derrotada por erros já reconhecidos do passado, era desvalorizar a entrega de Cristo. Ele morreu não para eu me sentir derrotada, mas perdoada. Não devo nada, porque minha dívida foi paga não com cartão de crédito, mas com sangue, por amor a mim. Tudo o que eu precisava fazer era voltar ao aconchego das minhas orações e da minha leitura bíblica, como vinha sendo. A leveza de Deus me encontraria de novo.

De fato, a Luciana dos erros passados e aquela da estrada para São Paulo são a mesma. Não me tornei melhor, nem mais santa, nem superior àquela. Sou apenas uma transparência e, à medida que vou me aproximando do Justo pela leitura bíblica e oração, os reflexos Dele vão atravessando a minha existência e reverberando para além. Tenho mais Dele hoje do que eu tinha naquela época e essa é a única diferença, que faz toda a diferença.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

O poder da vulnerabilidade

Ilustração de Kathrin Honesta

A vulnerabilidade expõe nossa total incapacidade, fraqueza e por que não dizer nudez da alma. Escancara nossas limitações e defeitos. Por vezes, ela se aproveita disso para nos estimular a ir contra quem verdadeiramente somos. Para construir uma identidade baseada em um modelo de vida e ideais que não nos pertencem. Não são nossos.

Mas convenhamos, realmente não é nada confortável revelar nossos medos, vontades e desejos mais profundos – entregando tudo isso de bandeja aos outros. É preciso muita coragem para demonstrar nosso verdadeiro eu e tornar-se passível de críticas, apontamentos, e quem sabe até daquela exclusão social básica.

Resolvi usar para o título deste post, o mesmo título desse vídeo de Brené Brown que está no TED1. Ele foi indicado pelo Nathan em nosso último Grupo de Convivência Maricota (ok, o nome Maricota pode não passar muita credibilidade, mas nós somos um grupo legal e maduro, acreditem! rs) de nossa comunidade de fé Projeto 242. E fiquei extremamente grata por esse tema vir a mim, de novo! Como um tiro certeiro, nesse momento de vida, tanto as reflexões do vídeo como as discussões que afloraram do nosso grupo sobre esse tema, mexeram comigo e ainda estão reverberando aqui: dentro de mim.

Analisando meus últimos anos, em especial esses últimos 3 anos, percebo como Cristo tem me convidado, com um amor abundante, a sair de minha zona de conforto – que nem sempre é tão confortável assim – e tem me ensinado a assumir e acolher minha pequenez, minha finitude, minha v-u-l-n-e-r-a-b-i-l-i-d-a-d-e. Pois é… Essa palavrinha já me incomodou tanto! E erroneamente eu acreditei que ser vulnerável era sinônimo de ser boba. Que o certo mesmo era não demonstrar fraqueza nenhuma e sempre, seja qual for a circunstância, manter a pose e ser forte. Sempre! Mas que força é essa que te deixa em frangalhos internamente ou que anestesia teus sentimentos em prol de uma reputação que definitivamente você não pode controlar?! Que força é essa que só traz e produz inquietação, insegurança e instabilidade?

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco, é que sou forte.
2 Coríntios 12.10

Porém, uma palavrinha que tem sido peça-chave para todo esse processo de ressignificação que tenho enfrentado é o acolhimento. Estou aprendendo a acolher quem sou e como sou. A me aceitar, a compreender minhas falhas sim, e a buscar mudanças para o que carece ser mudado, mas sobretudo tenho compreendido minha importância no mundo. Sou única e por mais defeitos que eu tenha fui desejada e sou uma filha amada.

Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti.
Santo Agostinho – Confissões

Que Deus me ajude a continuar trilhando o estreito caminho da pequenez, das limitações e das fraquezas pois só assim saberei que minha força, minha verdadeira força, não provém de mim, ela passa por mim e transborda mas provém dEle que é a minha fonte de energia e de verdadeiro poder.

 

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1TED são aqueles vídeos curtinhos (de 15 a 20 minutos) e temáticos, de acordo com cada encontro. A plataforma é um mundo de opções, têm muita coisa legal e muitos deles são extremamente inspiradores! Vale a pena dar uma sapeada: www.ted.com

2Grupo de Convivência são grupos pequenos de estudo da Bíblia e convivência dos membros da igreja Projeto 242: www.facebook.com/projeto242

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liturgia do ordinário

Encontrando o Sagrado na rotina comum da vida diária e entendendo o tempo.

Foto de Wil Stewart

A nossa rotina, as coisas que fazemos e como as fazemos, a forma como gastamos o nosso tempo, as demandas que nos ocupam, o jeito que vivemos cada dia ordinário de 24 horas… importam grandemente e são o substrato onde Deus nos encontra, nos transforma, nos ensina a amá-lo e a amar os outros.

A divisão entre secular e sagrado é tão natural em nossa mente que normalmente separamos Deus das coisas ordinárias da vida, associando-o com situações mais ‘santas’ como um momento de oração, uma reunião da igreja, o culto, etc.

Afinal, o que há de sagrado em acordar e escovar os dentes, arrumar a casa, responder uma lista infinita de emails e mensagens de WhatsApp, ficar parada no trânsito, comer, lavar a louça, tomar banho, lavar roupa, trabalhar, encontrar com as pessoas, participar de reuniões, conversar ao telefone, consertar coisas que estragam, perder e (às vezes) encontrar coisas perdidas, dormir? (E mais um monte de outras coisas muito ordinárias que acontecem entre essas atividades em um dia comum).

Talvez, inconscientemente, nós acreditamos que a santificação acontece naqueles momentos especiais de adoração e revelação, geralmente durante um momento de louvor. Como se o processo de transformação que Deus está operando em nós fosse desconectado das atividades ordinárias da vida comum.

O curioso é que são essas atividades ordinárias que ocupam a maior parte do nosso tempo. Tempo. Nosso tempo. Corremos para lá e para cá, executando um monte de atividades, de acordo com nossas agendas. Agimos como se controlássemos o ‘nosso’ tempo e o que acontece dentro dele. E deixamos apenas algumas horas para Deus nesse ‘nosso’ tempo cada vez mais escasso, onde lemos a Bíblia, meditamos, oramos ou fazemos algum estudo bíblico.

Esse ‘nosso’ tempo é guiado por diferentes calendários, de acordo com o que é prioridade no momento: o calendário escolar, depois o calendário acadêmico, depois o calendário do trabalho… eles é que nos dizem quando é hora de trabalhar e de descansar, quando é hora de celebrar e de fazer uma prova. E todas as demais atividades são espremidas no tempo que sobra.

Mas, e se o tempo não fosse apenas algo que nos limita? E se o tempo (e cada coisa ordinária que fazemos dentro dele) fosse sagrado? E se houvesse um tempo marcado por um calendário que desse forma à nossa vida? Um tempo não arbitrário, não definido pelo mercado de trabalho. Um calendário que contasse uma história, que tivesse uma liturgia própria que trouxesse sentido a cada atividade ordinária, que nos moldasse e nos ensinasse a viver cada dia debaixo do sol?

Descobrir o calendário litúrgico foi como descobrir o tempo real. — Tish Harrison Warren

Sim, existe um outro tipo de calendário conhecido como Calendário Litúrgico ou Calendário Cristão, também chamado de Ano Litúrgico ou Cristão. Um calendário elaborado em tempos antigos e utilizado ao longo da história da igreja. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa.

A cada semana nós participamos do trabalho criativo de Deus e descansamos. A cada ano nós recontamos a história de Jesus. Advento, Natal, Epifania: a história do povo de Deus esperando pelo Messias, o nascimento de Jesus, sua revelação como Rei. Quaresma, Páscoa, Pentecostes: a história da tentação de Jesus, a vida em um mundo caído, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão, a vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja. Nós vivemos esta história a cada ano, semana a semana, vivendo o que confessamos nos credos no modo como nomeamos os nossos dias. — Tish Harrison Warren

O Calendário Cristão é organizado diante da narrativa da revelação de Deus através de Jesus, de sua ação no mundo e em nossas vidas. O ritmo ensinado nesse calendário nos ajuda a abraçar as tensões de nossa realidade e a enxergá-las sob a perspectiva desta grande narrativa. A trabalhar já por um novo reino e a esperar porque ele ainda não está completo. Nós aprendemos a celebrar e a chorar. A nos apropriar da vida de Jesus que nos é oferecida a cada dia. A trabalhar e a multiplicar os talentos que nos foram dados. A amar cada um que encontramos da forma mais prática que esse amor pode assumir. E a descansar, porque Ele já completou o seu trabalho e tem cuidado de nós.

Aprendemos que o tempo não pertence a nós. Que nosso valor não está na quantidade de tarefas realizadas, na eficiência no controle do tempo.

Eu preciso da igreja para me lembrar da realidade: o tempo não é uma mercadoria que eu controlo, administro ou consumo. A prática do tempo litúrgico me ensina, dia a dia, que o tempo não é meu. Ele não gira ao redor de mim. O tempo gira ao redor de Deus — o que ele fez, o que está fazendo e o que vai fazer. — Tish Harrison Warren

É como se estivéssemos em treinamento. Aprendendo a viver em uma outra realidade, a seguir um outro ritmo, a responder a um outro tempo. E cada dia de 24 horas nos oferece um tempo sagrado, no qual surgem as oportunidades para esse aprendizado, para essa transformação, através das atividades mais ordinárias.

Quando eu acordo, por exemplo, me lembro de quem sou: amada, escolhida, aceita. E antes de mergulhar nas redes sociais com os olhos semiabertos, ou afundar na lista de atividades como um zumbi, eu faço uma oração, converso com meu Senhor que me concede mais um dia de vida.

Somos marcados desde o primeiro momento em que acordamos por uma identidade que nos é dada pela graça: uma identidade mais profunda e mais real do que qualquer outra identidade que podemos usar ao longo do nosso dia.— Tish Harrison Warren

Então escovamos os dentes, cuidamos do corpo, nos alimentamos. Um ritmo que demonstra nossa finitude, a necessidade de alimento diário, de cuidado diário. Reflete o próprio ritmo da fé: de dependência, de cuidado, de obediência diários, momento a momento. Nossos corações e nossos amores são moldados pelo que fazemos diariamente.

Arrumamos a cama, lavamos a louça, cuidamos da casa, da roupa. Trabalhamos, respondemos emails, encontramos pessoas, participamos de reuniões. Através das tarefas mais cotidianas a transformação de Deus espalha suas raízes e cresce. Exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, organizamos, criamos, cuidamos, somos cuidados.

Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.

Foto de Poppy Barach

Preparamos refeições, comemos sozinhos, comemos com os amigos e com a família, rimos e conversamos, abraçamos, dormimos e descansamos. Experimentamos prazeres ordinários, de alegria, encanto, satisfação e divertimento. Ação de graças, reconhecimento da bondade, adoração, entrega.

Esses são apenas alguns exemplos de situações ordinárias que vivemos todos os dias. Deus nos chama para vivermos uma vida de alegria e contentamento no meio de circunstâncias bem concretas como essas, situações que experimentamos diariamente. Situações que são cheias de encanto, de aprendizado, de revelação, de confronto, de crescimento, de beleza, de vida.

Em um mundo sempre ocupado e com pressa, desenvolvemos hábitos de falta de atenção e perdemos a manifestação de sentido nas pequenas coisas. Caminhamos como mortos vivos e não como pessoas cheias de vida. A vida que nos é oferecida na história contada pelo tempo é tão exuberante que nos transforma, nos cura, nos faz inteiros e completamente vivos.

Eu preciso aprender a encontrar a alegria e a rejeitar o desespero no momento em que eu estou vivendo agora. Em meio às pequenas pressões e ansiedades, preciso aprender a confiar em Deus, a olhar para a cruz e a me apropriar do que Ele já fez por mim. A depender dele, a esperar com fé e a agir não baseada em minha própria força ou entendimento.

O calendário cristão traz luz para minha rotina diária ao me lembrar que eu faço parte de um povo que vive em uma história diferente. Que junto com esse povo, com a igreja, eu estou inserida nessa história e ela também se torna a minha, a nossa, história. Deus está redimindo todas as coisas, incluindo cada um de nós. Nossas vidas — e nossos dias — são parte dessa redenção. Nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido.

Então, o meu dia de hoje se torna transparente e eu vejo vislumbres de algo maior por trás dos inúmeros pequenos cuidados diários. E eu posso ter uma atitude diferente de simplesmente me entregar a uma rotina sem vida, ao cumprimento automático de atividades sem sentido, ao tédio, à pressa.

O que Ele fez e está fazendo têm reflexos na forma como eu vivo o meu dia. Nada do que vivo ou faço, minhas escolhas e sonhos, foge do Senhorio dele em minha vida. Além disso, o que experimento no culto aos domingos — a adoração, a leitura da Palavra, a oração, a confissão de pecados, o perdão, o pão e o vinho, a oferta, a comunhão, o abraço do meu irmão, a bênção… — molda a minha experiência diária em cada um dos outros seis dias.

Deus está nos formando em um novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos do hoje. — Tish Harrison Warren

Ele está nos formando quando vivemos o tempo sagrado que nos é dado, por graça, e fazemos o que precisa ser feito nas rotinas mais ordinárias do nosso dia. Cada dia, por mais comum, é carregado de sentido e parte da vida abundante que Deus tem para nós. Como vivemos cada dia ordinário é como estamos vivendo nossa vida inteira.

Precisamos ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia. Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura. Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

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Essa reflexão foi baseada no livro de Tish Harrison Warren: Liturgy of the ordinary, sacred practices in everyday life, de onde tirei as citações apresentadas ao longo do texto (em tradução livre). Aprendi tanto que estou pensando em escrever uma reflexão para alguns capítulos dele.

Também estão alinhadas com as discussões que fazemos no L’Abri, em especial, o sacramento do momento presente.

Além disso, tenho usado o Calendário Cristão há alguns anos e o Lecionário mais recentemente. Minha sensação também é a de que descobri o tempo real e meus dias têm sido mais ricos com a ajuda desses recursos, com o entendimento dessa narrativa.

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Texto publicado originalmente em Lecionáriohttps://lecionario.com/a-liturgia-do-ordinário

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

Um desabafo e um apelo às feministas cristãs

Esta semana chegaram em minha timeline dois ou três artigos falando sobre o crescente número de evangélicas que têm aderido ao feminismo. Se por um lado essa notícia é de animar, uma vez que esse tabu finalmente tem sido quebrado no meio cristão (demorou, não?), por outro, existe um discurso rançoso e insistente nas entrelinhas de algumas entrevistas que tratam desse assunto, que é o seguinte: a Bíblia é ultrapassada e não pode ser levada a sério. Tudo ali deve ser relativizado. Agora me respondam vocês, companheiras na causa e na fé: por que precisamos colocar em xeque o caráter sagrado das Escrituras para validar o nosso discurso? Por quê???? (perdoem-me pelo excesso de interrogações, mas preciso deixar bem expresso aqui o grau da minha indignação).

A não ser que eu seja muito ignorante mesmo, essa necessidade de estabelecer uma dicotomia entre a Bíblia como verdade e o feminismo, a fim de justificar a aderência das cristãs ao movimento, não entra na minha cabeça de forma alguma. Eis algumas considerações e textos retirados da Bíblia, que explicam o tamanho do meu espanto:

  • Pelo que eu entendo do feminismo, trata-se, essencialmente, de um movimento que luta por respeito e direitos iguais entre os gêneros. Sei que existe uma vertente mais radical, que preconiza a superioridade do gênero feminino sobre o masculino, mas imagino (e me corrijam se eu estiver errada), que não é isso que o feminismo como um movimento mais abrangente defende, uma vez que o que o move é o ideal de justiça. E olha só o que diz a Bíblia: Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus (Gálatas 3.28, negrito meu).
  • Só o texto bíblico acima já daria conta de justificar a causa feminista mais abrangente. Mas aí virão algumas dizer sobre o versículo famoso de Paulo sobre o casamento, que propõe a submissão da mulher em relação ao marido (Efésios 5.22). Vou repetir o que muitos já disseram: continue lendo que você verá que o marido, em troca, deve amar tanto a mulher, que deve estar disposto a dar a própria vida por ela (são vááários versículos sucessivos que reforçam isso, a partir do 5.25). É como minha amiga Fernanda Pinilha falou: relação de submissão é diferente de relação de opressão. Uma relação movida por um amor puro como o descrito nesse texto do apóstolo Paulo certamente cria um ambiente propício para ambos encontrarem seu espaço. Submissão, neste texto, definitivamente significa respeito (só ver o resumo de tudo no verso 33) e respeito é a cola básica de qualquer união.
  • Podíamos passar parágrafos e mais parágrafos citando exemplos do protagonismo de certas mulheres em diversas narrativas bíblicas (as próprias reportagens sobre o feminismo entre as evangélicas já citam alguns exemplos, como as mulheres que divulgaram a ressurreição de Jesus), mas é fato que o machismo é presente na maioria das histórias que compõem as Escrituras, principalmente o Antigo Testamento. Mas companheiras queridas, vamos ser bastante lógicas neste momento: estamos falando de sociedades ancestrais, cujas organização familiar e mentalidade não podem, de maneira alguma, ser analisadas tendo como referência, base, teoria ou o que quer que seja a mentalidade da cultura ocidental atual. Isso seria como querer tratar uma doença típica daquela época, como a hanseníase (vulgo lepra), com uma medicação desenvolvida nos dias de hoje – ou seja, impossível! Simplesmente a igualdade entre os gêneros não existia como possibilidade de problematização para as pessoas daquela época. Cada sociedade tratava a mulher da forma como entendia ser o certo e ninguém questionava isso, fazer o quê? Isso não quer dizer que a Bíblia endosse esse comportamento específico. Ela apenas o retrata, com as virtudes e as mazelas típicas da história de qualquer povo.
  • Agora que já passamos pela questão da Bíblia e vimos que – ufa! – ela não está dissociada da causa feminista abrangente, vamos à questão que, aí sim, é de um machismo evidente: a participação das mulheres na igreja. Aí o nosso olhar não está mais sobre o que Deus acha disso, mas como as pessoas dentro de uma igreja lidam com isso. Como não sou homem, não sei explicar tamanha resistência em abrir espaço para as mulheres ocuparem (a não ser no ministério infantil, claro): seria medo de elas falarem besteira? De se destacarem? Ou então falarem demais? Sensualizarem enquanto lideram? Não serem suficientemente inteligentes? Algumas amigas e eu já especulamos um pouco o assunto e chegamos a pensar que todo esse medo denota uma insegurança do homem frente a uma mulher, em termos de sexualidade mesmo. Bom, como eu falei, são só especulações e não afirmações. Apenas os homens podem analisar suas motivações para barrarem tanto a contribuição feminina em postos de destaque na igreja. Só espero que eles não continuem recorrendo à Bíblia para justificar um preconceito ou uma dificuldade que está dentro deles próprios e não em outro lugar.

Mulheres cristãs feministas, que bom que vocês existem! E que papel importante estão desempenhando dentro de uma realidade que deveria ser, por essência, igualitária, justa e graciosa! Não deixem a causa. Nem a fé. Porque a causa sem a fé pode gerar extremismos e distorções e a fé sem a causa deixa tudo como está dentro das igrejas: um monte de mentes femininas brilhantes e cheias do Espírito sendo desperdiçadas por preconceito injustificável.

Que a fé no Autor das Escrituras nos leve à oração e à união para que continuemos a influenciar nosso contexto.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

 

 

Tudo é sério na vida

Ilustração de Brunna Mancuso

Estou aprendendo a viver uma espiritualidade integral – tentando não mais separar o espiritual do ordinário. Racionalmente eu sei que essa separação entre o sagrado e o profano não existe e para algumas áreas da vida fica fácil identificar essa dicotomia e viver integralmente essa verdade. Mas para outras áreas da minha vida já não posso dizer o mesmo… Vira e mexe me pego caindo na cilada em fatiar a minha vida de um jeito que acabo diminuindo esse Deus que é tão gigante – achando que Ele não se importa, ou pior, que Ele não pode resolver um “problema” que aos meus olhos parece impossível de ser resolvido.

Não sei quando começamos a achar que Deus não ouve ou não se importa com as coisas simples, triviais e corriqueiras de nossas vidas. Ou a achar que determinadas funções são mais espirituais do que outras. Se tudo procede dEle, foi criado e permitido por Ele, como algo poderia ser considerado menos importante por Ele mesmo?

No livro Aventuras na Oração de Catherine Marshall (a Luciana já falou sobre esse livro neste post), Catherine discorre sobre vários tipos de oração e traz de forma leve o poder e a simplicidade da oração.

Recentemente uma amiga relatou-me o seguinte incidente. Sua filha, Elizabeth, arranjara um emprego para o verão, a fim de conseguir o dinheiro necessário para custear suas despesas na faculdade. Sua tarefa era preparar embalagens de carne para o balcão frigorífico de um supermercado. Certo dia, pouco antes de sair para o trabalho, Elizabeth deu pela falta de uma de suas lentes de contato. E embora sua mãe a auxiliasse na busca, não encontrou a lente em parte alguma.

Após a moça haver saído para o serviço, usando os óculos, a mãe assentou-se para tomar uma xícara de café, ponderando a respeito do problema. Havia milhares de cantinhos onde aquela fina escama de plástico poderia ter caído. Então ela pensou: “Será que devo orar a respeito disso? Ou será que o problema é trivial demais?” Esta amiga, Tib Sherrill, tinha enorme aversão a orações que tratam o Criador do universo como se ele fora um garoto de recados ou como um Papai Noel celestial.

Mas Tib sabia que Elizabeth precisaria gastar a quarta parte do salário para adquirir outra lente, e a moça contava com esse dinheiro para despesas na faculdade. Isso significaria também mais uma semana de desconforto no salão refrigerado onde ela trabalhava e mais dedos queimados no arame quente da máquina de embalar.

Acudiu-lhe à mente, então, a parábola que Jesus narrara acerca da mulher que procurara uma moeda de prata perdida — um objeto valioso. (Lc 15.8-10)

“Esta história revela”, pensou consigo mesma, “que Jesus se importa com tais coisas, não porque sejam importantes em si mesmas, mas por que o são para nós.

“Está bem, Senhor”, concluiu ela, “nós precisamos do teu auxílio nesta questão. Podes mostrar-me onde está a lente?”

Sem qualquer razão plausível, ela se levantou e encaminhou-se para o banheiro. Abaixou-se e correu os dedos cuidadosamente pela superfície peluda do tapete. Nada!

Ergueu-se de novo e olhou para a pia.

“Bem”, pensou, “pode ter caído aqui e descido pelo cano.”

Levantou o ralo cromado para olhar dentro do cano. E ali, bem na ponta do pino central do ralo achava-se a lente desaparecida, agarrada no metal como uma gotícula de água. A primeira vez que alguém abrisse a torneira, ela seria levada embora.

“Transcorrera menos de um minuto desde que eu fizera aquela oração na cozinha”, contou-me ela. “E eu poderia ter procurado em todos os lugares, mas nunca me ocorreria retirar aquela peça.”
Capítulo Um – Orar é Pedir

É verdade, nós não sabemos orar e é Deus que também nos capacita para conseguir tal proeza. Obrigada Espírito Santo por me ajudar a pedir aquilo que eu mais necessito, mas obrigada também a me ensinar a pedir pelos meus sonhos mais inusitados ou pelas minhas queixas, aparentemente, banais. Obrigada por me ensinar a agradecer pela geleia de frutas vermelhas, pelo chá de hibisco e pelo netflix. Pois, como já disse Tomás de Kempis em Imitação de Cristo “Tudo é sério na vida”, e como é bom saber que o Senhor é senhor de TODA a minha vida – não apenas de uma ou outra área qualquer. Você me sustém de maneira sobrenatural.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O que queremos é ter a nossa dor validada

A redoma de vidro_Sylvia Plath
Ilustração de Sylvia Plath

Carregamos dores dentro de nós o tempo todo. Se pudessem ser medidas com régua, variariam de tamanho, sim, mas nem por isso deixariam de ser dores. Ontem, por exemplo, meu filho tinha acabado de chegar ao espaço de brincar do Sesc, quando avisaram que a área seria fechada para limpeza. Ele, totalmente imerso dentro de um cubo de madeira gigante, nem sonhava que a brincadeira teria de ser interrompida. E lá fui eu, fazer o serviço sujo: Filho, precisamos ir embora agora, eles vão limpar aqui. Como resposta, recebi um conjunto vazio. Álef, sai do cubo, por favor. Precisamos ir…  Cri cri cri … Não tive outra alternativa, senão entrar no tal cubo e pegá-lo. Ele chorou e ficou tentando se soltar do meu colo, todo protestante: quero ficar! Quero ficar! Até que eu respondi: querido, eu entendo como é chato ter que ir embora. Sei que quer ficar. Mas não podemos. Na mesma hora, ele parou de resistir e aceitou.

Essa mudança brusca na reação do meu filho me fez pensar sobre um ato muito simples, mas que, quando genuíno, tem efeito curativo: a validação da dor do outro. Ao amadurecermos, vamos chegando à difícil conclusão e ao fim da ilusão de que outros seres humanos têm o poder de curar nossas feridas internas. Não, eles não são Deus, não são perfeitos, são limitados e até carregam em si grande potencial para intensificar ainda mais nosso sofrimento. Entretanto, nada impede que essas mesmas pessoas tragam na bagagem de sua vida o antídoto da empatia. Ah, essa palavrinha… tão em voga em tudo agora. Mas faça o teste de memória: quantas vezes, na sua adolescência, tudo o que você queria era apenas ser ouvida por sua melhor amiga, mas ela, na tentativa de fazer você se sentir melhor, insistia em martelar na sua cabeça, que aquele garoto que te deu um fora não te merecia? E as notas vermelhas na escola, então? Um dos temas de sermão favoritos dos pais.

Claro que, com isso, não estou propondo o fim da orientação, do conselho ou da correção. Mas será que nossos conselhos ou opiniões são tão imprescindíveis assim, que precisam mesmo vir antes de tudo? De repente, um toque no ombro primeiro, uma palavra solidária, uma tentativa sincera de se colocar no lugar do outro e compreender sua frustração podem abrir um mundo de possibilidades para a cura entrar. Eu mesma, quando estou triste, não gosto que tentem me animar. Porque é artificial. Não quero fórmulas mágicas, nem sorrisos forçados, menos ainda a cobrança de que tenho que me sentir feliz o tempo todo. Às vezes, tudo de que preciso é alguém que se sente ao meu lado e, em silêncio, tome um chá de hortelã comigo.

Deleito-me ao ler sobre a estratégia que o próprio Deus (referido neste texto como Senhor dos Exércitos, ou seja, intrinsicamente guerreiro), diz que usaria para ajudar um líder de Judá a conduzir os judeus de volta à sua terra:


Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.
(Zacarias 4.6)

Deus é mesmo um gentleman. E, certamente nós mesmos, que nos inspiramos em tão grande amor e procuramos o outro com interesse genuíno, sem a ansiedade de empurrar soluções goela abaixo, encontraremos um terreno aberto, fértil e sedento aguardando por nós.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Quando alguém destrói algo em nós, de quem é a culpa?

É sempre um desafio a gente olhar para dentro de si para se conhecer – exercício fundamental para compreender de onde vêm nossas manias chatas, os traumas arrepiantes, as carências e os vícios grudentos  para, então, a partir do que encontramos em nós, tentarmos nos lapidar e nos tornar seres mais “convivíveis”. Nesse mergulho, encontramos de tudo, entulho nosso e (muito) entulho jogado por outros, nas vivências mais diversas do processo penoso que é o de crescer e amadurecer. Uma dessas vivências, geradora de um grande dano na parte que corresponde à minha criatividade, tem voltado à minha mente com frequência nos últimos tempos.

Era um colégio de elite esse que eu estudei como bolsista praticamente a minha vida inteira. Nele existiam dois grandes ateliês de arte. Um deles, destinado às aulas de artes plásticas, tinha mesas grandes e altas, com vãos largos embaixo, onde se acomodavam perfeitamente as nossas folhas de papel A3. Prateleiras cheias de materiais diferentes –  coloridos, espessos, lisos, rugosos, translúcidos, opacos -, grandes potes com pincéis de espessuras variadas, blocos de argila, papéis em rolo, em dobraduras, em pilhas, de todos os formatos e tipos. Estiletes, réguas, espátulas, palitos e todas as ferramentas possíveis repousavam ali, nesse lindo ateliê. O outro ateliê servia às nossas aulas de artes aplicadas e ali lidávamos com serras, lixas, vernizes, telas, madeiras e outros materiais mais robustos para produzirmos utilidades. Tudo isso compunha uma estrutura incrível e invejável.

Mas foram nesses espaços equipados e incríveis que eu vivi algumas das crises mais agudas de nervosismo da minha formação escolar.  Porque foi ali que eu tremia de medo da professora, que logo me dava uma nota vermelha pelo meu traço inábil. Não havia nada que me fizesse crescer naquele espaço; pelo contrário, a cada ano eu me sentia menor e menor. Técnica de vitral? Eu rasgava o papel. Escultura em argila? A cabeça do padre que eu esculpi insistia em despencar do corpo. Pontilismo? Os meus pontos distavam tanto um do outro, que quando um gritava o outro não conseguia ouvir. E, assim, de nota baixa em nota baixa e após muitos comentários negativos da minha professora quanto ao meu trabalho, fui me convencendo de que eu era um monstro do lago Ness das artes visuais – um desastre sem esperança.

Como vocês podem imaginar, minha formação como profissional passou longe das tesouras e das tintas. Tornei-me educadora.  Trabalho hoje numa escola, em que o foco não é a perfeição ou a técnica , mas as habilidades de um estudante. Ele não entende a relação do passado com o presente? Vamos ajudá-lo a entender, contando sobre a origem da família dele… O raciocínio está lento? Fazemos uma feira de trocas para despertá-lo… A criatividade anda meio travada? Fala com a Luciana, porque ela é especialista em falta de criatividade. Hahaha! Bom, piadinha infame à parte, foi nessa escola que tive um grande confronto: eu e a criatividade, cara a cara, depois de todos esses anos. Porque se a criatividade é uma habilidade – e, de fato, é e é uma das mais cruciais para a vida – como eu a estimularia nos meus estudantes, sendo que eu mesma tenho medo dela e a evito a todo custo?? E, assim, tive que destrancar aquele quarto escuro dentro de mim e tatear pelos cantos até encontrar a criatividade ali, mirradinha e desnutrida. Tive que olhar para ela e convencê-la de que tinha potencial para renascer de mim e em mim. Que difícil! E como alguém que tenta escrever com a mão não-dominante, eu, a de traço inábil, me arrisquei em algumas atividades criativas. Até um grupo de escrita criativa eu estou orientando! (pois é, não foi só nas artes visuais que fui lesada)

Guardo uma mágoa profunda dessa professora de artes, confesso. Ela tinha nas mãos o material mais precioso que um artista pode querer – nós, estudantes novinhos e maleáveis, de mente aberta e fresquinha – e ela escolheu alguns (eu inclusive) para deixar esturricando no forno castrador de imaginações. Mas aí volto à ideia do olhar para dentro, que escrevi no primeiro parágrafo. Ao localizarmos episódios como esse no nosso passado, o que fazemos em seguida? Nos entregamos? Nos tornamos eternas vítimas? Vamos reclamar e reclamar? Um primo meu uma vez me ensinou algo que ele aprendeu depois de muita terapia: a partir do momento em que identificamos os “vilões” de nossos traumas, eles automaticamente deixam de ser os vilões e nós as vítimas, porque o que fazemos a partir dessa descoberta passa a ser escolha nossa, responsabilidade nossa. Os vilões nada mais têm a ver com isso.

Ainda tenho uma relação delicada com a criatividade. Nós nos entendemos só com extremo esforço e bem de vez em quando. Mas é dela que mais preciso agora, justamente para encontrar caminhos que me afastem da autopiedade e do vitimismo por carregar na cabeça um mundinho limitado. Li num livro sobre uma das características do Espírito Santo, que era o de ser infinitamente criativo. Respiro aliviada por saber que eu mesma (e mais ninguém por mim), agraciada pelo Espírito Santo, posso perfeitamente encontrar o caminho da cura.

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

A falta que a leveza faz

Era um desses videos da época em que a internet estava deixando de ser discada para ser aquela outra mais “moderna”, que não usava linha telefônica direta. E era um vídeo bonito, sensível, que começava com uma voz ao fundo dizendo: wear sunscreen (use protetor solar). A partir daí, a voz, aliada a uma seleção de imagens impecável, compartilhava uma série de segredos para uma vida longa, jovem e… leve.

Assisti a esse vídeo tantas vezes, que quase posso dizer de cor todas as falas. E me lembrei especialmente de quando ele diz para não nos preocuparmos demais com a vida, porque os problemas que de fato são reais não passam quase nunca pela nossa cabeça, a não ser numa tarde ociosa de terça-feira… e é bem nessa parte que paro e respiro fundo.

Para uma melancólica incorrigível como eu, ouvir alguém dizendo que o que recheia a nossa cabeça, na maior parte do tempo, são caramelos coloridos é o mesmo que um viciado em jogo ouvir que ganhar na Mega-Sena é fácil. Desanima. Eu não apenas penso, mas sou torturada por minhas questões existenciais quase 24 horas por dia. E que questões seriam essas?– ouço a voz do hedonista do vídeo me indagando. Tudo, praticamente – respondo. Preocupa-me se estou sendo uma mãe presente para o Álef, se deveríamos mesmo nos dar ao luxo de tomar o sorvete granfino uma vez por mês, se meus estudantes estão explorando seus potenciais ao máximo, se chegarei no horário aos compromissos, se um dia serei uma cristã exemplar, se sou maluca, se deveria me exercitar mais e por aí a lista vai embora. É uma inquietação incessante em torno do atual estado das coisas. Cansativo, não?

Nessa semana, porém, aconteceu um imprevisto: recebi uma pincelada de leveza na alma. Olhei para os meus livros de ficção – a maioria tão convidativos, atraindo a gente para uma viagem a mundos paralelos -, para uma taça de vinho – mimo recebido dos meus pais apenas pelo mérito de existirmos -, para o meu próprio filho, elaborando suas primeiras frases e tropeçando na língua ao dizer coçalão no lugar de coração e jacaleca em vez de jacaré, e acho que finalmente compreendi. Compreendi que Deus é o Soberano das galáxias imensuráveis e também dos micromundos dos protozoários. Que Deus criou um mundo complexo, sim, mas também colorido e engraçado (olha o ornitorrinco!). Compreendi que, assim como as grandes questões, a leveza também faz parte da minha realidade, e que ela pode entrar aqui dentro e me oferecer um revigorante copo de trégua, do qual sou tão sedenta.

E, para dar as boas vindas à leveza, coloco MGMT no player e saio dançando pela casa.

 

Folon
Por Jean Michel Folon

 


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência.

Relato de um parto desplanejado

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Quando o David me mostrou essa foto que ele tirou nos primeiros minutos de vida do Dominic, eu escutei a voz de Deus falando comigo, de novo, sobre controle. Eu sonhei, literalmente, com um parto natural humanizado, com velas aromáticas e som ambiente com a playlist escolhida cuidadosamente pra ocasião, aliviando as contrações na banheira, me movimentando livremente, parindo junto com o Dom minhas dores, meus medos e fazendo print da placenta depois, pra enquadrar e colocar na parede.

Fiz atividade física específica pensando nisso, preparei minha mente, fiz o pré natal numa Casa de Parto acolhedora, li sobre um milhão de coisas relacionadas ao tema, fiz cursos pra gestante, me empoderei.

Tive mais ou menos 15 dias de pródomos (que é tipo um pré parto, digamos assim, o que anuncia que a primeira, de três fases do trabalho de parto está por chegar). Com 40 semanas exatas perdi o tampão e com 40 semanas e 1 dia, tive uma consulta com a parteira e nesse dia já estávamos com tudo pronto no carro, a mochila do Dom, a nossa, o bebê conforto pra volta pra casa de carro, tudo preparado, porque as contrações estavam evoluindo, eu imaginava. Estava tão cansada e pesada, que queria e pedia que elas progredissem logo. Quase como se estar com tudo já no carro fosse atrair o parto ou algo assim.

A parteira mediu a altura uterina e ficou preocupada, porque era um bebezão ali dentro e a Casa Ângela só faz partos de bebês até 4kg, por questões de segurança e saúde da mãe e do bebê. Chamou outra parteira pra medir também e conferir. As duas visivelmente chateadas me disseram a mesma coisa: ele era um bebezão. Pediram um ultrassom e disseram que sentiam muito, mas, o resultado dele diria se eu poderia parir ali ou não.

Acho que eu nunca vou esquecer a cara de tristeza e choro que o David fez quando ouviu isso. A gente estava há 40 semanas se preparando, 8 semanas indo periodicamente a consultas com as parteiras, 6 semanas fazendo cursos sobre o fim da gestação, trabalho de parto, parto natural, puerpério e cuidados com o bebê, e de repente estava tudo escapando das nossas mãos. Claro, a gente sabia que tudo aquilo era só um plano, tanto que tínhamos 3, o A, o B e o C. Estávamos relativamente satisfeitos com os 3, mas queríamos muito o primeiro. Não fazíamos ideia de que iríamos direto pro terceiro. Na Casa Ângela é feito um plano de parto, que fala sobre nossas pretensões pra esse momento e, somos orientados a incluir mais algumas possibilidades, caso a ideia principal não seja mais viável.

Procurei manter a calma, principalmente pra não afetar o Dominic, mas, eu sentia que meu desejo primeiro tinha se perdido. Dali mesmo fomos pro Hospital fazer o ultrassom, apreensivos, frustrados e tristes. A conduta do Hospital do meu plano de saúde pra uma gestação à partir de 40 semanas de um bebê grande era cesariana, eu já sabia disso. Tinha certeza que poderia entrar e não sair sem o Dom nos braços. Fiquei chateada de novo e pensei: o Hospital não pode me amarrar e prender lá, certo? Mas, aí eu me dei conta de que eu poderia conhecer o Dominic naquele dia mesmo! Tínhamos que fazer e aguardar o ultrassom e só depois disso resolver o que concluir, mas, essa ideia de que nosso encontro estava muito, muito perto me deixou tão feliz que eu falei pro David: tudo bem, se for cesariana, tudo bem, se o médico orientar a tirar hoje, tudo bem. Fiquei inesperadamente feliz e curiosa.

Fizemos o ultrassom e, claro, não tem balança dentro daquela máquina e era só uma estimativa, muito próxima da realidade, mas, só uma estimativa que mostrou Dominic com 4,270kg. Por isso tanto cansaço, por isso uma sinusite de dois meses sem curar mesmo com antibióticos, por isso minhas pernas não fechavam mais, por isso a dor terrível nas costas, por isso abaixar era impossível, por isso o David secava minhas pernas e pés todo dia após o banho, por isso eu não conseguia mais dormir. Era um bebezão. Um bebezão que eu viria a qualquer hora!

Como não estava nem na fase latente ainda (a primeira fase do trabalho de parto, com as contrações regulares e intensas), precisaria agendar uma cesariana. Era véspera de Sexta Feira Santa, já tinha passado o horário de agendamento, eu só conseguiria resolver isso na Segunda, dia 17. O lindo dia 17. Eu deveria chegar às 10h no Hospital, passar no pronto socorro e avisar que queria marcar a cirurgia. Simples assim. Mas, dolorido assim, também. Tudo bem, meu sonho tinha ido pro ralo, mas, agendar a cirurgia? Marcar hora, dia? Engoli a seco. A gravidez inteira eu disse pro Dominic que ele nasceria no dia que quisesse e agendar uma cesariana me parecia ser um desrespeito. Obviamente, essa é a minha opinião, a minha história. Eu não sou ativista do parto normal, eu não sou ativista da cesariana, eu só queria seguir com meu desejo e agir conforme meus princípios e com o que acredito. De qualquer forma, apesar da frustração, relaxei, porque a verdade dura é que eu não tenho controle de nada, simples assim. Era isso que Deus estava me ensinando, enfaticamente. Considero absolutamente importante planejar, estruturar, prever, avaliar riscos, mas, sabendo e aceitando que as coisas podem não acontecer como o esperado e ok, não é o fim do mundo e a gente pode não saber lidar com isso, mas, tem que lidar mesmo assim.

Já que não tinha o que fazer além de esperar o feriado prolongado passar, na Sexta fomos ao cinema assistir Velozes e Furiosos 8, mantendo a tradição de quase 10 anos que temos em casa e que confesso: eu estava triste, porque a data prevista de parto era justamente na pré estreia e eu perderia. Mas, Dominic foi gentil com a gente e então levamos ele pra conhecer seu xará! E sim, o nome dele é Dominic, inspirado no Dominic Toretto. E sim, eu realmente gosto dessa franquia!

Nesse meio tempo eu perdi, gradativamente, o que mais tarde eu soube que era líquido amniótico, mas, que enquanto perdia, achava só que era um corrimento mais intenso, ou escape leve de urina. Nem me importei…

A Segunda chegou e, na saída de casa o David lembrou que era rodízio do carro! Comecei a chorar, porque a essa altura eu já estava de saco cheio. Eu passei toda a gestação sem ansiedade, mas, estava começando a ficar tensa e desejando que tudo acabasse, ou, melhor dizendo, começasse logo. Era como se, já que meu plano A não deu certo, vamos logo com isso, plano C! Muito cansaço, falta de ar, tosse da sinusite, dor da contratura muscular que tive de tanto tossir, dificuldade pra andar, peso e blá-blá-blá. O David achou um caminho alternativo e fomos.

Durante a consulta, soube que me deram informação errada e que os dias para agendar cesariana eram terça e quinta, não de segunda à sexta. Fiquei brava, muito brava. Estava realmente me esforçando pra lidar com a frustração e a coisa toda só se prolongando. Eu conversava com o Dom, dizia pra ele que estava tudo bem, eu só estava cansada. E dá-lhe aprender que eu não controlo nada, não importa o quanto eu tente ou queira. E já ia dizendo isso pra ele, também. Total exercício de impermanência, de fluidez, de desprendimento, de suspensão, de desapego, de deixar-ser.

A médica do pronto socorro explicou que o médico que agendava as cesarianas ia pedir dois exames e que sem eles ele não agendava as cirurgias: um cardiotoco, que analisa os batimentos cardíacos do bebê, e um perfil de vitalidade fetal, que é um ultrassom bem detalhado que vê umas coisas importantes aí. Ela fez os pedidos e disse pra eu já adiantar e fazê-los na Segunda mesmo. Outra notícia importuna? Isso foi às 10h e o perfil de vitalidade fetal só era feito após às 16h. Manda mais, Deus, que tá pouco.

Fiz o cardiotoco, que estava lindinho, e voltamos pra casa. Já tinha largado mão e falei pra Deus que beleza, eu ia suspender, ia fazer o que devia ter feito antes: aceitar, esperar, desencanar, confiar. Almocei deliciosamente, já que fui pro hospital de manhã em jejum pensando “vai que”… E pra cirurgia deveria estar em jejum de 8h.

Pontualmente às 16h estávamos na porta da sala de exame do perfil de vitalidade fetal. Ali começou. Uma médica muito atenciosa explicou detalhadamente o exame. A previsão de peso, de tamanho, como ele estava… Avisamos que nossa intenção era o parto natural, mas que na Casa Ângela não seria mais possível. Avisamos que eu não tive dilatação, nem contrações regulares, nada além dos pródomos. Ela terminou o exame e disse que a médica do pronto socorro explicaria melhor, mas, pra eu subir até o consultório com a ideia de que ficaria, pelo menos, internada. O Dominic estava bem, mas era um gorducho e talvez o tamanho dele estaria dificultando o encaixe perfeito na pelve pro início das contrações regulares. Só seria possível ter certeza disso se de fato o trabalho de parto ativo (a segunda fase do trabalho de parto, lembra?) iniciasse, e aí se estendesse muito e aí um sofrimento fetal acontecesse. Ela também falou sobre o líquido amniótico, que eu estava perdendo consideravelmente e não era lá uma coisa muito bacana. Ela avisou que não era impossível um parto normal, mas, que poderia ser mais difícil e demorado.

Só que, na verdade, não importava mais nada disso, porque eu não confio em parto normal hospitalar. Eu confio em parto normal e natural em Casa de Parto, ou domiciliar assistido por uma equipe especializada. Só. Não podendo ter isso, vamos pra cirurgia, sim, porque eu acredito que médico que não seja de equipe especializada em parto normal não tá preparado pra isso, mas faz uma cesariana como ninguém.

Voltamos pro consultório da obstetra plantonista do pronto socorro, ela leu os exames, falou a mesma coisa que a médica do exame havia dito, com um adendo: “pai, você vai descer com os documentos dela pra fazer a internação e mãe, você espera aqui ele voltar, aí a enfermeira vai te chamar pra se vestir pra cirurgia”. 

Aí meu coração acelerou, aí eu fui tomada por uma porção de sensações e sentimentos que nem sei dizer. O Dominic estava chegando! Eu estava aliviada. Não teria meu parto natural, mas, o dia e a hora em que ele quis nascer foram respeitados, minha angústia de agendar a cesariana tinha passado. Eu estava segura da decisão, o David também, estávamos em órbita.

Foi o tempo do David voltar pro andar do centro cirúrgico, avisarmos nossos pais, irmãos e alguns amigos, e fui tomar a anestesia enquanto o David se paramentava. A sala estava em temperatura ambiente, rádio ligado na estação Alpha FM, luz baixa e um anestesista cuidadoso que finalmente conseguiu colocar o acesso, depois de 5 tentativas frustradas das enfermeiras. Tomei a anestesia e o David entrou, sentou ao meu lado. Começou a me dar falta de ar, já que a sinusite ainda estava atacada e eu precisei ficar completamente deitada. Tampou tudo. Por causa da anestesia, eu não sentia o ar entrando pela boca e indo pro pulmão. O anestesista ficava dizendo “relaxa, respira, seus batimentos estão perfeitos, sua pressão tá ótima, confia em mim, tá tudo bem, olha lá o aparelho marcando, tá tudo bem…”.

A obstetra entrou (uma diferente da consulta), se apresentou, me disse o que iria fazer, explicou como estavam as coisas, eu não prestei atenção porque achei que fosse morrer sem ar hahaha

Eu pedi pro David segurar minha mão, porque se fosse morrer, pelo menos ele tava ali do lado rs 

A cirurgia começou e o David ficou com um olho lá outro cá. A médica ia me falando o que estava fazendo, eu continuei sem conseguir prestar atenção. De repente vi uma movimentação diferente, o olhar do David mudar, mas não ouvi nada e estava esperando um chorinho ou um resmungo, qualquer coisa do tipo, mas, nada…

Perguntei o que estava acontecendo e alguém disse “nasceu”. Mas Jesus, cadê o menino, cadê qualquer reação dele?! Aí o David começou a dizer que estava tudo bem, que ele estava ótimo, que estavam limpando ele pra trazer pra vermos. Perguntei por que ele não chorou e alguém disse (não lembro quem): porque ele é calminho! 

Esquecemos de todo nosso plano de parto (tinha um pra cesariana, também)! Esqueci de falar pra esperar o cordão parar de pulsar pra cortar (mas a médica esperou mesmo assim, ufa), o David esqueceu de dizer que queria cortar, esquecemos de pedir pra não pingar nitrato de prata nos olhos dele e quando lembramos já era tarde demais, o que causou uma queimadura (leve, mas mesmo assim, que ódio) na pálpebra dele, esquecemos de pedir pra dar a vitamina K e a vacina contra hepatite no colo… Tudo saiu fora do esperado. A única coisa que lembrei foi de pedir pra amamentar ele ainda ali, mas a médica disse que não era ideal, por causa da anestesia. Eu concordei, embora chateada.

Finalmente (na verdade foi tudo muito rápido, mas eu estava sem ar, sem ouvir nenhuma reação do Dominic, pareceu um ano inteiro ali) trouxeram ele até nós e eu achei ele lindo, cheiroso, fiquei emocionada e encantada com cada pedaço dele que eu consegui enxergar. Não me apaixonei à primeira vista, nem amei louca e instantaneamente, mas eu já esperava por isso e tava super tranquila, porque não acredito nesse tipo de coisa, eu acredito que amor é construção diária e aquele era só o primeiro minuto da nossa relação que vai ser trabalhada dia a dia. Mas, isso é assunto pra outro post…

O que eu senti mesmo foi uma gratidão sem explicação! É absurda a ideia de que aquele menino tinha sido feito por nós, gerado dentro de mim. Eu olhava pra ele, pro David, e pensava “Deus, Deus, você realmente me ama, obrigada obrigada obrigada”. Foi quando a enfermeira perguntou se queríamos fotos e tiramos duas. Não curtimos a super exposição e o show do nascimento e da maternidade/paternidade, então isso nos pareceu suficiente. Além do que, não foi em cinco minutos que eu elaborei bem a frustração de que a foto do nascimento do Dominic não ia ser dentro da banheira da Casa Ângela rsrs.

Pedi pra ver a placenta, esse órgão incrível que simplesmente é criado com o objetivo de nutrir o bebê, e fiquei muito feliz da enfermeira pegá-la pra eu ver, embora ela tenha se espatifado no chão segundos depois!

Ficamos uns minutos juntos, nós três, e o David segurou ele com tanto jeito que pareceu ter nascido praquele momento. E eu que tava achando que ia morrer sem ar, pensei que se fosse a hora, podia morrer sim, de boa, porque ver aqueles dois juntos daquele jeito já tinha valido meus trinta anos vividos até ali.

A médica começou a me fechar e foi explicando tudo que ia fazendo. Eu não prestei atenção em nada, mas achei educado e importante. Quando a enfermeira pediu pro David sair também, porque iam me arrumar pra ir pra sala de recuperação, eu odiei, queria que ele ficasse o tempo todo comigo, porque se tem alguém nesse mundo que me faz sentir segura e amparada é ele. Por Lei, ele poderia ficar, mas, o Hospital não é nada preparado pra isso e eu desejo imensamente que se prepare, porque isso faria muita diferença. O Dominic foi pro berço aquecido, a enfermeira saiu e eu fiquei alguns minutos sozinha na sala de cirurgia, entortando o pescoço pra ver ele atrás de mim, ainda sem conseguir entender bem o que eu estava sentindo ou pensando.

Fomos os dois juntinhos pra sala de recuperação, onde ficamos por umas seis horas, até ir pro quarto.

Mas, foi no minuto dessa foto que nossa jornada começou. Foi no minuto dessa foto que tivemos nosso primeiro encontro familiar! Nesse minuto eu ouvi Deus falando que desde que Ele se tornou meu Senhor, os planos são feitos por Ele. Não é fácil, eu ainda preferia ter tido um parto natural humanizado e não é que eu esteja pulando de alegrias por ter feito a cesariana. O que acontece é que estou aprendendo a desapegar, a ser grata por aquilo que me é dado.

Talvez você que lê isso não acredita em Deus e ache toda essa história uma grande bobagem, mas, eu acredito e aqui me lembro de uma passagem bíblica em que Ele diz “eu bem sei os planos que estou projetando para vocês; planos de paz, e não de mal, para dar a vocês um futuro e uma esperança”.

O Dominic é nossa fonte de Esperança. Veio direto do Alto, transbordando tudo, transformando tudo. Ele chegou nesse mundo de malucos de uma forma diferente da que eu queria, mas, no dia que quis e do jeito que Deus permitiu, saudável, tranquilo, querido e respeitado. Me transformando em mãe, me dando um novo papel e nova responsabilidade. Já me ensinando sobre resignação, entrega, confiança, aceitação, gratidão.

Hoje ele completa 1 mês de vida e já tem cumprido essa promessa de Jeremias 29:11 que citei acima. Apesar de todo o furacão, as mudanças, o medo, a insegurança, apesar da maternidade e paternidade serem coisas avassaladoras, estamos vertendo amor e alegria. Louvo a Deus pela vida do Dom, o nosso dom.


Eu sou a Talita, nada mais que uma alma encarnada lutando pra cumprir minha missão na Terra e poder um dia voltar pros braços do Pai. Junto com a Carol e a Lu, reflito sobre a vida aqui no Santa Paciência.