Minha ressaca de Ano Novo

 

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Ilustração de Brian Rea

Ontem, 1 de janeiro, acordei com sintomas de ressaca. “Só você, né querida?” – ouço alguém pensar. Mas me refiro a uma ressaca mais existencial. Explico: depois de tantas comemorações de virada de ano, de desejos de paz, alegria e saúde, depois de termos orado e nos abraçado e comido e quase não termos dormido para que as olheiras do dia seguinte nos juntassem aos demais membros participantes desse rito de passagem que é o réveillon, eu acordei igual. Acordei e encontrei muito mais de mim em mim do que eu desejava. No espelho, a troca de olhares cúmplices me revelou: “ainda é você, né?”. Para o que prometia ser um ano novo, foi uma bela decepção. Encontrei tudo o que eu sempre fui e até as coisas chatas em mim, das quais eu quero tanto me livrar, ainda estavam ali. E com certo pesar, pensei: “Enquanto todo mundo recomeça – ano novo, vida nova -, eu permaneço no mesmo lugar”. Desejei que, da noite de sábado para ontem, uma fada tivesse jogado pó de pirlipimpim nas minhas questões e elas tivessem sido mandadas da Via Láctea para a galáxia mais distante possível. Mas não foi bem assim. A virada não me mudou em nada.

Mas Deus cuida de tudo e cuida de mim. Ainda ontem, Ele me mandou alguns recados e um deles foi Davi quem o escreveu: Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste*. Deus me fez de uma forma linda e não reconhecer e ser grata por isso é viver uma mentira, que só me deforma e me deprime. Ainda melhor do que isso, Deus também me lembrou de algo que com frequência me esqueço: na hora de me criar, Ele se inspirou em Si próprio e aí me fez**. Eu não poderia querer molde mais incrível! E isso significa não apenas que eu tenho qualidades valiosas (o que é verdade), mas que o meu valor está no fato de eu existir como sou, porque sou semelhante ao próprio Deus.

Quanto às minhas questões, sim elas existem mesmo e vão existir enquanto eu viver limitada pelo meu corpo, mas isso não quer dizer que elas não possam ser tratadas por Deus. Desta vez, tomo emprestada a oração de Catherine Marshall*** e a torno minha também:

Senhor Jesus, como te agradeço pelo fato de que a liberdade para a qual me chamas não busca modificar-me, forçando-me a fazer aquilo que não quero, mas me transforma interiormente, dando-me novos desejos.      

E finalmente, pelo último recado de Deus no dia da minha ressaca, compreendo que a ação do Espírito sobre as minhas questões não é uma fórmula mágica, mas um processo. E que mais do que o resultado, o que importa é de onde parti e para quem vou chegar:

O caminho muda e muda o caminhante
É um caminho incerto, não o caminho errado
Eu, caminhante, quero o trajeto terminado
Mas no caminho, mais importa o durante
Deixei pegadas lá no vale da morte
Um solo infértil aos meus muitos defeitos
Minha vida alargou-se em caminhos estreitos
E eu vi Você
A Partida
E o Norte****

Consolada, encontro a paz de espírito necessária para refletir sobre o ano de 2017:

 Quais são as características em mim que mais magoam as pessoas que amo e que podem ser trabalhadas?

 Quais são as características em mim que prejudicam a mim mesma e que podem ser trabalhadas?

Como posso transformar o meu trabalho em missão, de forma que ele ganhe ainda mais sentido?

Em que degrau da minha escada de prioridades vou colocar a comunidade de fé onde sirvo? E emendando: sirvo à minha comunidade de fé ou só ela tem me servido?

Quais são os frutos bons em mim que quero manter ou aperfeiçoar?

Não mais espero que um gênio da lâmpada, de uma hora para outra, transforme meus desejos em realidade, meus defeitos em perfeição, mas sigo em frente com um frio gostoso na barriga, de quem se entrega para ser argila nas mãos do Artesão do universo. E Ele não precisa ter pressa, porque é para Ele mesmo que estou sendo transformada.


 

*  Salmo 139.14
** Gênesis 1.26 e 27
*** Do livro O Consolador, de Catherine Marshall
**** 
 Trecho de A Partida e o Norte, música linda de Estêvão Queiroga

 


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.