RE-PENSE: A maneira como você se vê, transita e desfruta a cidade

Com a pressa que estressa e as demandas exageradas de trabalho será que estamos aproveitando o que a cidade tem nos ofertado?

Somos mais de 12 milhões de pessoas na cidade de São Paulo e, juntos, respiramos o mesmo gás carbônico que sai do escapamento de carros engarrafados e de velhos ônibus que nos levam, todos os dias, para nossos trabalhos, faculdades e lares.

Somos muitas e muitos, de fato! Moramos em lugares bem afastados do centro e nos deslocamos por quilômetros, diariamente. Somos da Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e de todos os seus desdobramentos.

Apressados, nos deslocamos por quilômetros e não prestamos atenção aos detalhes.

Como paulistanos caricatos (ou adeptos desta cultura que aqui se refugiam) gostamos de supervalorizar a falta do nosso tempo. E assim, desenvolvemos ansiedades diversas, pois estamos sempre com a sensação que temos “um mundo” de opções ao nosso dispor, mas não conseguimos aproveita-las, justamente pela falta de tempo que tanto supervalorizamos.

Para agravar (sim, é possível!), desenvolvemos um olhar distante e crítico para com a cidade que nos acolhe. Adotamos a postura que toda melhoria é de responsabilidade alheia e assumimos postos de meros consumidores, como se a cidade não fosse a soma entre eu e você = nós.

Por isso, não é difícil encontrar pessoas que, ao se estafarem por excesso de trabalho ou se sentirem lesadas pela falta que a “cidade grande” não saciou dentro delas, acreditam que o outro extremo seja a solução de seus problemas: – Viver uma vida bucólica, no campo, longe de buzinas frenéticas, asfalto demasiado e cartão de ponto não seria, então, a solução de todos os meus problemas existenciais?

Confesso que eu já fui uma dessas pessoas. Já quis fugir para as montanhas, acordar com o sol batendo através de uma linda e enorme janela de vidro, na qual eu poderia contemplar o nascer e o por do sol. E nesse lar aconchegante, com cheiro de mato, flores e aromas eu desenvolveria trabalhos manuais e artísticos sem pressa, leria um livro sem interrupções e viveria, então, uma vida alegre, feliz e completa, para sempre, não é mesmo?! Parece que não…

Pensar assim é replicar um olhar dicotômico, como se metrópoles fossem más e cidades no campo fossem boas. Em minha caminhada compreendi que quem corrompe, qualquer ambiente, somos nós; seres humanos. Exercemos um poder destruidor, mas acreditem, também podemos, felizmente, sonhar, gerar, desenvolver, construir e desfrutar de lugares e relacionamentos.

Tenho aprendido que, onde quer que eu esteja, minha missão é de promover vida: preparando a terra, semeando, regando ou colhendo. Talvez, em minha jornada pessoal, eu só consiga desenvolver uma ou outra etapa deste enorme processo, pois a História é bem maior do que minha existência individual. É o Eterno que continua se movendo livremente e apontando os rumos de um todo que tenho oportunidade de fazer parte.

Sim, é possível preparar a terra, semear, regar e colher mesmo em uma metrópole cercada por concreto. Envolta por injustiças, populações minorizadas e vulneráveis esquecidos. Aliás, será que não seria exatamente este o nosso chamado urbano: sermos jardineiras e jardineiros em plena cidade grande? Projetando e construindo jardins, em meio ao asfalto de fuligem e gerando vida verde e pulsante em meio ao cinza?

O Eterno me presenteou com árvores frutíferas próximas de onde eu moro – em pleno centro de São Paulo! Me sinto vivendo uma metáfora e, em demonstração de gratidão, recolho algumas mangas que caíram no asfalto depois de um vento muito forte. Levo para casa o máximo de mangas que minhas ecobags podem aguentar e ombros suportar e faço um delicioso chutneySe hoje posso colher é porque alguém investiu tempo plantando antes de mim.

Me sinto extremamente grata por ser parte de um todo bem maior que eu mesma. Desfruto do que cozinhei, como se fosse a comida mais saborosa que eu já experimentei em toda a minha vida! Realmente ela tinha um gosto especial… E como eu havia colhido frutas por demais, de um inusitado jardim, tenho a oportunidade de presentear algumas amigas com o chutney que fiz.1

CHUTNEY DE MANGA2

Ingredientes:

  • 2 mangas palmer
  • 1 maçã fuji
  • 1 cebola
  • 1 dente de alho
  • ½ pimentão vermelho
  • 1 ½ colher (sopa) de gengibre fresco ralado
  • ¼ de xícara (chá) uvas-passas brancas
  • ¼ de xícara (chá) de açúcar
  • 1 colher (chá) de sal
  • 1 canela em rama
  • ¼ de xícara (chá) de vinagre de vinho branco
  • ¼ de xícara (chá) de água

Modo de preparo:

  • Faça o pré-preparo: descasque e corte em cubos de 1 cm as mangas e a maçã; descasque e pique fino a cebola e o dente de alho; corte o pimentão, sem as sementes, em cubinhos; descasque e rale o gengibre fresco (se preferir, pique bem fininho).
  • Transfira todos os ingredientes para um panela, junte as uvas-passas, o açúcar, o sal, a canela, o vinagre e a água e misture. Leve para cozinhar em fogo médio.
  • Quando ferver, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar por 40 minutos, mexendo de vez em quando. Se começar a grudar no fundo da panela, regue com um pouco mais de água e misture – o chutney ainda deve ficar com um pouco de caldo, pois irá endurecer quando esfriar.
  • Passados os 40 minutos, desligue o fogo. Transfira o chutney para potes de vidro esterilizados, com fechamento hermético, e deixe esfriar em temperatura ambiente. Depois de frios, tampe e conserve na geladeira por até 3 semanas.

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NOTAS:
1O episódio (a colheita das mangas) aconteceu em março deste ano (2018), mas somente agora (maio), consegui elaborar em texto o que eu ansiava :)

2Receita retirada do blog Panelinha — link aqui

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RE-PENSE é uma série que, através da reflexão dos nossos hábitos cotidianos, busca fomentar uma mudança equilibrada de maus hábitos para uma vida mais harmônica. Menos consumo, menos desperdício e menos individualidade para uma vida mais criativa, mais humanizada e mais sustentável.


Sou Carolina Selles apaixonada por cores, histórias e sabores. Sou designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

A liturgia do ordinário

Encontrando o Sagrado na rotina comum da vida diária e entendendo o tempo.

Foto de Wil Stewart

A nossa rotina, as coisas que fazemos e como as fazemos, a forma como gastamos o nosso tempo, as demandas que nos ocupam, o jeito que vivemos cada dia ordinário de 24 horas… importam grandemente e são o substrato onde Deus nos encontra, nos transforma, nos ensina a amá-lo e a amar os outros.

A divisão entre secular e sagrado é tão natural em nossa mente que normalmente separamos Deus das coisas ordinárias da vida, associando-o com situações mais ‘santas’ como um momento de oração, uma reunião da igreja, o culto, etc.

Afinal, o que há de sagrado em acordar e escovar os dentes, arrumar a casa, responder uma lista infinita de emails e mensagens de WhatsApp, ficar parada no trânsito, comer, lavar a louça, tomar banho, lavar roupa, trabalhar, encontrar com as pessoas, participar de reuniões, conversar ao telefone, consertar coisas que estragam, perder e (às vezes) encontrar coisas perdidas, dormir? (E mais um monte de outras coisas muito ordinárias que acontecem entre essas atividades em um dia comum).

Talvez, inconscientemente, nós acreditamos que a santificação acontece naqueles momentos especiais de adoração e revelação, geralmente durante um momento de louvor. Como se o processo de transformação que Deus está operando em nós fosse desconectado das atividades ordinárias da vida comum.

O curioso é que são essas atividades ordinárias que ocupam a maior parte do nosso tempo. Tempo. Nosso tempo. Corremos para lá e para cá, executando um monte de atividades, de acordo com nossas agendas. Agimos como se controlássemos o ‘nosso’ tempo e o que acontece dentro dele. E deixamos apenas algumas horas para Deus nesse ‘nosso’ tempo cada vez mais escasso, onde lemos a Bíblia, meditamos, oramos ou fazemos algum estudo bíblico.

Esse ‘nosso’ tempo é guiado por diferentes calendários, de acordo com o que é prioridade no momento: o calendário escolar, depois o calendário acadêmico, depois o calendário do trabalho… eles é que nos dizem quando é hora de trabalhar e de descansar, quando é hora de celebrar e de fazer uma prova. E todas as demais atividades são espremidas no tempo que sobra.

Mas, e se o tempo não fosse apenas algo que nos limita? E se o tempo (e cada coisa ordinária que fazemos dentro dele) fosse sagrado? E se houvesse um tempo marcado por um calendário que desse forma à nossa vida? Um tempo não arbitrário, não definido pelo mercado de trabalho. Um calendário que contasse uma história, que tivesse uma liturgia própria que trouxesse sentido a cada atividade ordinária, que nos moldasse e nos ensinasse a viver cada dia debaixo do sol?

Descobrir o calendário litúrgico foi como descobrir o tempo real. — Tish Harrison Warren

Sim, existe um outro tipo de calendário conhecido como Calendário Litúrgico ou Calendário Cristão, também chamado de Ano Litúrgico ou Cristão. Um calendário elaborado em tempos antigos e utilizado ao longo da história da igreja. Um calendário que nos ensina os ritmos da vida através de uma narrativa.

A cada semana nós participamos do trabalho criativo de Deus e descansamos. A cada ano nós recontamos a história de Jesus. Advento, Natal, Epifania: a história do povo de Deus esperando pelo Messias, o nascimento de Jesus, sua revelação como Rei. Quaresma, Páscoa, Pentecostes: a história da tentação de Jesus, a vida em um mundo caído, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão, a vinda do Espírito Santo e o nascimento da igreja. Nós vivemos esta história a cada ano, semana a semana, vivendo o que confessamos nos credos no modo como nomeamos os nossos dias. — Tish Harrison Warren

O Calendário Cristão é organizado diante da narrativa da revelação de Deus através de Jesus, de sua ação no mundo e em nossas vidas. O ritmo ensinado nesse calendário nos ajuda a abraçar as tensões de nossa realidade e a enxergá-las sob a perspectiva desta grande narrativa. A trabalhar já por um novo reino e a esperar porque ele ainda não está completo. Nós aprendemos a celebrar e a chorar. A nos apropriar da vida de Jesus que nos é oferecida a cada dia. A trabalhar e a multiplicar os talentos que nos foram dados. A amar cada um que encontramos da forma mais prática que esse amor pode assumir. E a descansar, porque Ele já completou o seu trabalho e tem cuidado de nós.

Aprendemos que o tempo não pertence a nós. Que nosso valor não está na quantidade de tarefas realizadas, na eficiência no controle do tempo.

Eu preciso da igreja para me lembrar da realidade: o tempo não é uma mercadoria que eu controlo, administro ou consumo. A prática do tempo litúrgico me ensina, dia a dia, que o tempo não é meu. Ele não gira ao redor de mim. O tempo gira ao redor de Deus — o que ele fez, o que está fazendo e o que vai fazer. — Tish Harrison Warren

É como se estivéssemos em treinamento. Aprendendo a viver em uma outra realidade, a seguir um outro ritmo, a responder a um outro tempo. E cada dia de 24 horas nos oferece um tempo sagrado, no qual surgem as oportunidades para esse aprendizado, para essa transformação, através das atividades mais ordinárias.

Quando eu acordo, por exemplo, me lembro de quem sou: amada, escolhida, aceita. E antes de mergulhar nas redes sociais com os olhos semiabertos, ou afundar na lista de atividades como um zumbi, eu faço uma oração, converso com meu Senhor que me concede mais um dia de vida.

Somos marcados desde o primeiro momento em que acordamos por uma identidade que nos é dada pela graça: uma identidade mais profunda e mais real do que qualquer outra identidade que podemos usar ao longo do nosso dia.— Tish Harrison Warren

Então escovamos os dentes, cuidamos do corpo, nos alimentamos. Um ritmo que demonstra nossa finitude, a necessidade de alimento diário, de cuidado diário. Reflete o próprio ritmo da fé: de dependência, de cuidado, de obediência diários, momento a momento. Nossos corações e nossos amores são moldados pelo que fazemos diariamente.

Arrumamos a cama, lavamos a louça, cuidamos da casa, da roupa. Trabalhamos, respondemos emails, encontramos pessoas, participamos de reuniões. Através das tarefas mais cotidianas a transformação de Deus espalha suas raízes e cresce. Exercemos paciência, tolerância, dividimos o fardo, aprendemos responsabilidade, organizamos, criamos, cuidamos, somos cuidados.

Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.

Foto de Poppy Barach

Preparamos refeições, comemos sozinhos, comemos com os amigos e com a família, rimos e conversamos, abraçamos, dormimos e descansamos. Experimentamos prazeres ordinários, de alegria, encanto, satisfação e divertimento. Ação de graças, reconhecimento da bondade, adoração, entrega.

Esses são apenas alguns exemplos de situações ordinárias que vivemos todos os dias. Deus nos chama para vivermos uma vida de alegria e contentamento no meio de circunstâncias bem concretas como essas, situações que experimentamos diariamente. Situações que são cheias de encanto, de aprendizado, de revelação, de confronto, de crescimento, de beleza, de vida.

Em um mundo sempre ocupado e com pressa, desenvolvemos hábitos de falta de atenção e perdemos a manifestação de sentido nas pequenas coisas. Caminhamos como mortos vivos e não como pessoas cheias de vida. A vida que nos é oferecida na história contada pelo tempo é tão exuberante que nos transforma, nos cura, nos faz inteiros e completamente vivos.

Eu preciso aprender a encontrar a alegria e a rejeitar o desespero no momento em que eu estou vivendo agora. Em meio às pequenas pressões e ansiedades, preciso aprender a confiar em Deus, a olhar para a cruz e a me apropriar do que Ele já fez por mim. A depender dele, a esperar com fé e a agir não baseada em minha própria força ou entendimento.

O calendário cristão traz luz para minha rotina diária ao me lembrar que eu faço parte de um povo que vive em uma história diferente. Que junto com esse povo, com a igreja, eu estou inserida nessa história e ela também se torna a minha, a nossa, história. Deus está redimindo todas as coisas, incluindo cada um de nós. Nossas vidas — e nossos dias — são parte dessa redenção. Nada é em vão, nada sem sentido, nada é perdido.

Então, o meu dia de hoje se torna transparente e eu vejo vislumbres de algo maior por trás dos inúmeros pequenos cuidados diários. E eu posso ter uma atitude diferente de simplesmente me entregar a uma rotina sem vida, ao cumprimento automático de atividades sem sentido, ao tédio, à pressa.

O que Ele fez e está fazendo têm reflexos na forma como eu vivo o meu dia. Nada do que vivo ou faço, minhas escolhas e sonhos, foge do Senhorio dele em minha vida. Além disso, o que experimento no culto aos domingos — a adoração, a leitura da Palavra, a oração, a confissão de pecados, o perdão, o pão e o vinho, a oferta, a comunhão, o abraço do meu irmão, a bênção… — molda a minha experiência diária em cada um dos outros seis dias.

Deus está nos formando em um novo povo, em novas pessoas. E o lugar dessa formação está nos pequenos momentos do hoje. — Tish Harrison Warren

Ele está nos formando quando vivemos o tempo sagrado que nos é dado, por graça, e fazemos o que precisa ser feito nas rotinas mais ordinárias do nosso dia. Cada dia, por mais comum, é carregado de sentido e parte da vida abundante que Deus tem para nós. Como vivemos cada dia ordinário é como estamos vivendo nossa vida inteira.

Precisamos ter olhos para enxergar isso. Lutar contra o tédio e a automatização das coisas. Ver a riqueza de cada novo dia. Buscar conscientemente e intencionalmente o sentido e o encanto. Sentir os ritmos e deixar as rotinas nos moldarem em uma nova criatura. Engajada no presente e sintonizada em um tempo eterno que nos é dado como presente, como dádiva, em um dia ordinário de 24 horas de cada vez.

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Essa reflexão foi baseada no livro de Tish Harrison Warren: Liturgy of the ordinary, sacred practices in everyday life, de onde tirei as citações apresentadas ao longo do texto (em tradução livre). Aprendi tanto que estou pensando em escrever uma reflexão para alguns capítulos dele.

Também estão alinhadas com as discussões que fazemos no L’Abri, em especial, o sacramento do momento presente.

Além disso, tenho usado o Calendário Cristão há alguns anos e o Lecionário mais recentemente. Minha sensação também é a de que descobri o tempo real e meus dias têm sido mais ricos com a ajuda desses recursos, com o entendimento dessa narrativa.

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Texto publicado originalmente em LecionárioA liturgia do ordinário

 


Vanessa Belmonte vive na terra do pão de queijo, é mestre em educação e professora universitária.

O outro nome da força

Shira Sela_Healing
Healing –Ilustração da artista Shira Sela

 

Sempre pensei na vulnerabilidade como sinônimo de insegurança, fraqueza, instabilidade. Uma pessoa vulnerável é aquela coitada, desprotegida, fraca, sempre olhada com desdém por quem está perto e provocando risadinhas e comentários maldosos naqueles que identificam suas vulnerabilidades. Já conheceu alguém assim? Eu já conheci várias pessoas assim, mas quero falar de uma específica. Li a sua história e ela está mudando totalmente a minha ideia de que a vulnerabilidade deve ser repelida a qualquer custo.

O nome da pessoa não é revelado, mas é uma mulher que descobriu onde Jesus ia jantar, entrou na casa da pessoa que o convidou, encontrou Jesus lá e ficou chorando aos pés dele. Ela chorou tanto, mas tanto, que os pés de Jesus ficaram molhados com as lágrimas dela. E sabe como ela fez para secá-los? Usou os cabelos. Depois, passou nos pés dele um perfume caro que ela guardava num frasco mais caro ainda e depois beijou os pés de Jesus. Essa história está na Bíblia, num livro chamado Lucas, no capítulo sete e o verso em que a história começa é o 36.

Agora me digam: querem uma cena de vulnerabilidade mais explícita do que essa?? Com essa atitude, a mulher da história está passando para nós algumas mensagens bem interessantes:

– De que ela é autêntica. Ela não fingiu ser o que não era para agradar os que estavam em volta, nem mesmo Jesus. O anfitrião que o convidou para jantar chegou até a pensar: “Se Jesus soubesse quem essa mulher é, ele nem deixaria que ela o tocasse” (verso 39). Claro que Jesus sabia quem ela era, porque não era bobo, porque era bem informado e porque era Deus.

– De que ela é real. O anfitrião a chamou de pecadora no pensamento dele (verso 39). Mas me respondam: quem não é pecador?? Nós passamos horas criando um perfil para convencer os outros de que somos lindos, cheirosos, inteligentes, bem-sucedidos, de que temos um amor à nossa disposição e que somos felizes o tempo todo, sem interrupção. Mas aí entra na sala a pessoa vulnerável e nos incomoda. Ela tem questões psicológicas, ainda não conseguiu se formar, não tem dinheiro para um happy hour todos os dias, tem um filho de um cara que não quis nada com ela e não consegue parar de fumar. Essa pessoa é tão real, que é quase um espelho de nós mesmos.

– De que ela é humana. A mulher não teve medo, nem vergonha de chorar. Se era por tristeza, arrependimento ou o que fosse, ela estava ali, mostrando que não podia mais guardar o que se passava dentro dela.

– De que ela é livre. A pessoa vulnerável não precisa mentir, nem se amoldar a um rótulo que se queira colocar nela. A mulher não tinha nada a esconder, as pessoas a conheciam como “pecadora”, mas ela não estava preocupada com isso. Ela queria alcançar a Graça e nada do que dissessem sobre ela poderia impedi-la de chegar até o seu objetivo.

– De que ela está aberta para a cura. Isso a gente descobre quando Jesus se dirige a ela e diz que todos os pecados dela estavam perdoados, de que a fé que ela tinha a salvara e que ela podia ir em paz (versos 48 e 50). É revigorante quando percebemos que não estamos sozinhos com os nossos vícios e as nossas angústias e, mais ainda, que não seremos julgados, mas curados. Um dia desses pratiquei a vulnerabilidade para sentir que gosto tinha. Uma amiga me perguntou pelo Whatsapp se estava tudo bem comigo e eu respondi que não, e contei para ela, da forma mais direta e transparente possível, o que se passava. Tivemos uma conversa ótima e, no final, eu saí consolada e leve. Foi libertador.

Sim, eu estava errada. Paradoxalmente, a vulnerabilidade tem muito mais a ver com força do que julgavam os meus dicionários internos. Quero me habituar a buscá-la, a tocar minhas próprias feridas, a aceitar que sou esta e não outra, que aqueles com quem convivo – e principalmente, as crianças a quem ensino – são eles e não outros. Quero que a vulnerabilidade me una a outros tão humanos quanto eu, que ela revele a mim quem eu sou de fato e que me aproxime de Jesus com o mesmo desprendimento que teve a mulher da história. Então serei livre de mim mesma, de minha própria hipocrisia, dos meus julgamentos, da minha autossuficiência, do meu orgulho, que são, no fim das contas, os meus mais profundos pecados e a minha verdadeira fraqueza.


Luciana Mendes Kim trabalha como educadora, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

 

A Dança da Vida

The Essence of Ballet - La Bayadére - Edition 7 @ 2014 - ingridbugge.com
The Essence of Ballet – La Bayadére – Edition 7 @ 2014 – ingridbugge.com

– Vamos dançar? – a Vida me convidou.
E, assim, começou minha grande aventura,
marcada para esse tempo e espaço.

O tempo, passando foi.
E deixei o ritmo acelerado desse tal tempo ditar o rumo.
– Acho que algo está fora de compasso, fora do prumo – senti.

– É… Acho que entendi.
   É que, durante a dança, esqueci que tenho par e
   sozinha continuei a dançar.

– Vida, onde te deixei? – cansei de sozinha dançar.
– Você cansou porque esqueceu que Eu sou o seu par!
    Me permite te (re)conduzir? – sussurrou a Vida para mim.

E eu, cansada de sozinha dançar,
me entreguei novamente à dança,
mas, agora com a Vida feito par.

 


Carolina Selles é apaixonada por cores, histórias e sabores, é designer, graduada em Arte & Tecnologia e uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O silêncio de Maria

‘The Virgin Mary Consoles Eve’, por Grace Remington

 

Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração. (Lucas 2.19)

 

Muito curiosa essa reação de Maria quanto ao que os pastores vieram contar para ela e para José. Os pastores tinham acabado de ser visitados por um anjo lindo, enorme, que os envolveu de luz, e, de quebra, ainda assistiram a uma miríade de seres do Céu dando glória a Deus. Ou seja, não era à toa que eles estivessem empolgadíssimos e extremamente ansiosos para conhecer Jesus. Quando chegaram ali onde Cristo havia nascido e contaram a experiência deles, todos os outros ficaram impressionados (verso 18), menos Maria. Ela só ouvia, sem emitir grandes reações. Isso, porém, não quer dizer que Maria não havia sido impactada com o relato dos pastores. Como mãe que sou, ouso arriscar o palpite de que, no mínimo, ela se sentiu orgulhosa de seu rebento. Mas mais do que isso ainda:  ela sabia que era privilegiada por ter sido escolhida a dedo por Deus para concebê-lo na sua forma humana.

Coloco-me no lugar de Maria e fico me imaginando lá, toda consciente daquele acontecimento milagroso, olhando para o “meu” bebê-Deus. A consciência de quem aquela criança é, de fato, provocaria em mim uma série de reações: maravilhamento, sim, em um primeiro momento, mas também uma reverência incrível e, acima de tudo, um sentimento de cumplicidade, como se o bebê fosse bebê só por fora, mas por dentro, divino como era, ele pudesse ler os meus pensamentos e, assim, ele e eu compactuássemos com o seu plano de salvar a humanidade, o que era ainda pouco compreensível para os judeus, incluindo aqueles pastores festejantes. Adorá-lo em silêncio e em meditação seria, portanto, a maneira mais natural de consumar a minha fé em seu plano perfeito.

Hoje, 2015 anos após o nascimento de Cristo, me inspiro em Maria e, em silêncio, reflito cuidadosamente sobre o significado e a profundidade desse fato e, como resultado, vou sentindo a minha fé se renovar.


Luciana Mendes Kim trabalha com educação, é amante de literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

O resgate da Mulher Selvagem

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Eu tenho uma alma livre, mas fui domesticada.

Quando criança, meu apelido era “oncinha”. Se ainda não deu pra entender, explico: eu era arisca. Não gostava de gente me pegando, abraçando, beijando, mordendo, fazendo cuti cuti. Tinha vontade própria e já era indignada.

Contudo, devido ao sexismo, ao machismo e à religião, eu fui, ao longo dos anos, domesticada. Aprendi a ser mocinha. Mas a Mulher Selvagem, o Self instintivo inato, que existe em todas nós, mulheres, nunca deixou de viver dentro de mim, mesmo ainda criança e adolescente, e tem se manifestado muito mais na vida adulta.

Ouvi falar do livro ‘Mulheres Que Correm Com Os Lobos’ pela primeira vez por minha psicoterapeuta, numa das densas sessões em que eu falava sobre me sentir sufocada, calada, exausta e fora do lugar. Ela me sugeriu ler algumas histórias e eu me encantei pelo arquétipo da Mulher Selvagem, porque a reconheci dentro de mim. Como a autora diz no livro: ela (a Mulher Selvagem) deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pelo grosseiro e pegadas lamacentas. Esses sinais enchem as mulheres de vontade de encontra-la, libertá-la e amá-la¹. Eu amo minha Mulher Selvagem! E quero correr com os lobos!

Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo: robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular. Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora de a função criadora da psique fertilizar a aridez².

Essa Mulher Selvagem é incrível. É livre, é plena. É como um lobo. Mas, a atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente³. Somos domesticados. Lobos domesticados se tornaram os nossos conhecidos e “melhores amigos do homem”, os cães. E nós, mulheres? Fomos caladas, infantilizadas e tratadas como propriedade, mantidas como jardins sem cultivo4.

A postagem de hoje é um convite ao resgate de sua Mulher Selvagem! Para te aguçar, deixo aqui a resenha do livro feita por nossa convidada especial, Rose Selles, que é mãe da Carolina Selles, uma das colaboradoras do Santa Paciência.

Corra com os lobos, com a gente!

¹ citação extraída da página 26.

² citação extraída da página 25.

³ citação extraída da página 16.

4 citação extraída da página 17.

Imagem retirada daqui, criada pela artista Pamela Hill.

Resenha escrita por Rose Selles.

Fazer esta resenha para descrever este livro, além de ser um imenso prazer, por ser, sem dúvida, uma abordagem fascinante sobre nós mulheres e o nosso contexto na história, é também uma grande responsabilidade, por se tratar de uma obra reconhecida pelo seu contexto e, ao mesmo tempo, indicada tanto nos cursos de psicologia, como em muitos consultórios terapêuticos.

Espero poder contribuir, de maneira que você sinta vontade de conhecê-lo ou, se já o conhece, compartilhar o seu ponto de vista.

Para tanto, acredito ser interessante apresentar primeiro a sua autora – Clarisse Pinkola Estés – ela é PhD em psicanálise junguiana, escritora, contadora de histórias e poetisa. Dentre suas obras, esta ficou na lista de best-sellers nos EUA por mais de um ano. Estés apresenta a interpretação de mitos, lendas e histórias antigas com foco na identificação do arquétipo da mulher selvagem ou a essência da alma feminina que se perdeu ao longo do desenvolvimento das civilizações, tornando-a domesticada. Ela considera que os instintos femininos foram devastados e os seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Mas, segundo a autora, esta energia, considerada vital para nós mulheres, pode ser restaurada como ruínas de um mundo subterrâneo, até o ponto em que possa ressurgir, das grossas camadas de condicionamento cultural, a corajosa loba que vive em cada mulher. Esta analogia que faz da mulher com os lobos ocorre por perceber, com observações e estudos, semelhanças no comportamento das lobas, principalmente com seus filhotes, companheiro e sua matilha.

Para a autora, a Mulher Selvagem revela-se, portanto, como a Alma Feminina – intuitiva, com percepção aguçada, corajosa, determinada, que consegue adaptar-se em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo em constante mutação, preocupando-se com o que julga ser de sua responsabilidade.

Ao direcionar o olhar a esse aspecto, Estés apresenta por intermédio de alguns mitos, contos de fadas, lendas e histórias que foram escolhidas por 20 anos de pesquisa, a possibilidade da mulher se ligar novamente aos atributos considerados saudáveis e instintivos do arquétipo da Mulher Selvagem. Alguns exemplos disso são a história da Menina dos Fósforos, em que ela alerta para os perigos de uma vida desperdiçada em devaneios, já na do Barba Azul, mostra como sarar feridas que parecem não ter cura e, em La Loba, ensina a função transformadora da psique. Para a autora, não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, pois ela compreenderá intuitivamente as palavras e o que significa ser mulher selvagem.

É todo esse contexto que torna essa obra enriquecedora, pois procura revelar a psicologia feminina em seu estado mais puro em busca do conhecimento da alma.

Mulheres que correm com os lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da mulher selvagem.
Clarissa Pinkola Estés.
Tradução – Waldéa Barcellos.
14 ed., Rio de Janeiro. Rocco. 2014.
576 páginas.

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Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.

Eu & Ele

Talvez, ao chegar em casa, eu te convide para uma conversa, um diálogo, um bate-papo sobre a vida, escolhas, decisões, esperanças, esperas… E sobre como algumas coisas que acontecem e todos dizem ser permissão tua, são tão dificeis de compreender, aceitar, entender…

Talvez, eu faça um café ou chá e te convide pra sentarmos à mesa, numa tentativa maluca de dar um tom informal a nossa conversa, e, assim quem sabe, você responda a alguns dos meus dilemas, me dê respostas à perguntas há muito esquecidas ou mesmo deixadas de lado por parecer não haver saída.

Talvez, eu lhe escreva uma carta contando como tem sido dificil a angústia da espera, como meu coração oscila entre momentos de paz e esperança, de apreensão e medo.
Talvez, eu ponha uma música que me faça pensar em você e te diga então, o quanto me sinto cansada e envergonhada por estar sempre me desculpando pelas mesmas coisas.

Eu não vou me perder dessa vez! Na correria da cidade, as luzes acendem e quase me esqueço que estou com você. Nossa conversa não se estende, e eu adormeço com a ideia de continuar numa próxima vez…
Você é paciente e sempre me espera. Sempre me entende e eu continuo o monólogo sem te dar chance do retorno.

E num rompante de coragem, resolvo mudar o rumo do papo: me conte de você! Me fale como foi ser tão obediente, como pode continuar sendo tão tolerante? Me fale da sua vida, o que passa pela sua cabeça? Por que me ama tanto? Quero que fique até sentir seu perfume em todos os cantos da casa, até que eu tenha gestos parecidos com os seus. Converse mais comigo, até que eu pegue o seu jeito de falar, caminhar, amar…

Quero aquele algo íntimo que faz de gente tão diferente parecer igual, e de tão igual, não se sabe onde começa um e termina o outro. E só assim poderei dizer que estou em ti e você em mim.

E então, talvez assim, eu entenda que não se trata de mim, nem das minhas dores, anseios, esperas… Mas sim, de você.

“Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada”.
(Lucas 10.42)

 


Alesandra Freitas é mineira, estuda Teologia, é formada em Pedagogia, trabalha com Educação e ama aprender com os pequenos.

A lua que inspira o amor, que inspira a arte: adoração em forma de poema

Lua

Quando a gente fala sobre adoração, logo vem à mente “músicas”.

Eu nunca tive a musicalidade muito afinada. Eu não canto, não sei e não gosto. Também não toco nenhum instrumento. Participei da fanfarra na escola, quando tinha uns nove ou dez anos, tocando caixa de guerra, nem sei dizer o porquê. Fiz aulas de violão por dois anos por vontade dos meus pais e detestava. Tenho vontade de aprender piano, mas… Eu sei que não vai acontecer rs. Me sinto desajeitada, desconfortável e nem um pouco apropriada de mim mesma. Não me sinto livre pra adorar. Resolvi, então, simplesmente não insistir nisso.

Mas sempre via a adoração ser associada às músicas e pensava: que desperdício!

Também via o tempo todo definições sobre a mulher, tachando-a como mais emotiva, afável, meiga e delicada e que ao adorar, uma mulher chora, se expressa veementemente, se fragiliza. Por essa definição, eu não seria mulher…

Particularmente, o meu maior momento de conexão com Deus e o qual eu me sinto realmente o adorando em espírito e em verdade¹, é quando olho para a lua. Em quaisquer de suas formas. Me sinto, verdadeiramente, re-ligada. Todas as vezes que vejo a lua e sou abalada por sua beleza, sinto o amor inexplicável de Deus e o adoro.

Porém, não é só nesse momento. Toda a natureza me faz refletir sobre a grandeza de Deus². E a natureza me faz refletir sobre a arte. E a arte também me re-liga e me leva a adorar, através da minha apreciação das obras de diversos artistas.

Mas eu queria criar um pedacinho de arte própria e adorar meu Deus com ela, de forma mais original e pessoal. Uma experiência diferente da que eu estava habituada. Adoração não é um momento, é um modo de vida. E aí, paralisei, porque estava tentando criar um momento específico para uma adoração específica. Não sei, mas isso não me caiu bem.

Eu esqueci e deixei correr de forma fluida e natural, espontânea como acredito que a adoração acontece. E, sem esperar, sem programar, escrevi meu primeiro poema para Deus:

“Essência da minha existência.
Minha inspiração e expiração.
Minha busca, meu caminho, minha saudade.
Meu grito por liberdade.
O raio de sol que me aquece.
A lua que me ilumina.
O sopro que me refresca.
O abraço que me conforta.
A voz que me consola.
O som que me alegra.
O impulso que me pulsa vida.
Acalento. Sussurro Suave. Paz. Plenitude. Serenidade”.

¹João 4:23 e 24.
²Salmos 19:1.
A foto foi tirada por mim, na rua de casa, num lindo entardecer.


Talita Guedes Bittioli é um ser-de-infinitas-possibilidades que cuida de almas pra se sustentar, escreve pra se libertar e segue tentando percorrer um bom caminho. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.