Gratidão em tudo e por tudo

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De polyvore.com

Quarta-feira passada, dia 5, levei meu filho para um dos passeios que mais gosto de fazer em São Paulo: visitar o zoológico. Como se não bastasse esse destino, o dia amanheceu lindo, a temperatura estava amena e ainda conseguimos levar mais uma tia e duas primas de última hora. Mas as alegrias não pararam aí. Minha irmã – que é também minha melhor amiga –, mesmo gripada, fez o grande sacrifício de aparecer por lá também. Não tinha como o nosso programa ficar mais perfeito. Quer dizer, tinha sim, porque ficou: a hora de comer não foi um picnic, mas um banquete. Frutas fresquinhas, sucos e probióticos, pão de queijo, barquinhas recheadas com palmito temperado e sanduíches com molho de mel e mostarda eram algumas das iguarias que compunham nosso almoço ali naquela mesa, à sombra gostosa das árvores, bem ao lado do espaço das zebras (um dos animais preferidos do meu filho). Resumindo: foi um dia completamente feliz.

Depois que esse dia terminou, me sentir grata foi a coisa mais fácil do mundo. Deus tinha sido escancaradamente gracioso comigo, me presenteando com muito mais do que eu havia imaginado. E é esse mesmo sentimento de gratidão que nos toma quando um feriado prolongado se aproxima (ou melhor ainda, quando as férias se aproximam), quando estamos no aeroporto, prestes a embarcar em uma viagem legal, quando o cartão de crédito vira, quando tomamos uma bebida gelada no sol de rachar, quando saímos com nossos melhores amigos, quando nossos pais superam alguma doença ou crise. Nesses momentos, perceber nosso coração feliz e agradecer é (ou deveria ser) uma atitude muito natural e simples.

O desafio, porém, tem sido perceber a graça de Deus e seus presentes quando os dias não são assim tão propícios. Quando o relógio desperta cedo, numa segunda-feira chuvosa, e você abre os olhos e a primeira coisa que se lembra é que não preparou as primeiras aulas do dia, ou que tem uma reunião com clientes cansativos bem no fim do expediente. Ou quando você vive de freelas e o seu ganho é como o maná que Deus enviava para os israelitas, só dá para aquele dia. Ou ainda quando você acorda e se lembra de alguém que não está mais com você, seja por morte ou relacionamento rompido. Aí, o agradecimento se torna como uma comida mal mastigada que você tenta engolir: fica entalado na garganta.

Por mais custoso que seja dar graças com sinceridade em momentos difíceis, não é assim tão árduo perceber o potencial pedagógico que existe nessas situações. Como explicita Vanessa Belmonte neste ótimo post, as possibilidades de aprendizagem são incontáveis:

 Ficamos parados no trânsito, perdemos coisas, brigamos com quem amamos. Reagimos de modo mais forte, sentimos raiva, impaciência, frustração. Nesses momentos, os medos são revelados, a tentativa de controle, a ansiedade e a culpa. E mais oportunidades de formação e santificação nos são dadas. Arrependimento, perdão, entrega, confissão, submissão, negação de si mesmo.
(negritos meus)

Os dias difíceis ou só entediantes são perfeitos para nos indicar duas coisas pelo menos:

  1. Que precisamos amadurecer

Se nossa vida fosse composta apenas de dias Disney, em que só sorrimos e acenamos para selfies infinitas, com certeza seríamos uns mimados-barulhentos-superficiais. A não ser que todos os habitantes da Terra estivessem na Disney com a gente, não teríamos o mínimo de empatia pela dor do outro. E se todos estivessem na Disney com a gente, banalizaríamos a Disney e não saberíamos o que é estar feliz, porque não teríamos a que contrastar a felicidade (como já ensinava a minha querida professora de Análise do Discurso, Norma Discini, o sentido de algo se constrói pelo seu oposto).

  1. Quem tem sido o responsável por nossa felicidade

Os dias difíceis apontam para as nossas grandes paixões na vida ou, em termos menos confortáveis, para quem são os nossos ídolos ou deuses. São momentos ótimos para nos perguntarmos: o que ou quem tem sido responsável por minha felicidade? No meu caso, aparência física, idade, férias e determinadas pessoas são a resposta para essa pergunta. São eles os meus deuses no momento e são eles que tenho tentado destronar. Afinal, um dia vou envelhecer, as férias vão acabar e as pessoas irão me decepcionar ou morrer. Assim, meus deuses estão, inevitavelmente, fadados ao fracasso. E quando isso acontecer (e já acontece), quero ver nisso uma oportunidade para encontrar o Imutável no meio disso tudo. Ainda nesta vida, quero me relacionar com Aquele que me oferece novidades todos os dias, sem fim. Diariamente, Ele prepara uma surpresa para mim. E não é uma surpresa que posso prever, porque senão não seria surpresa, rs. É sempre algo que eu nunca teria imaginado.

A grande verdade de tudo é que Deus está nos dias bons do zoológico e nos dias ruins das segundas-feiras chuvosas. Ele quer ser encontrado por nós. Se estivermos com o coração realmente aberto, nós o veremos em tudo. Ele falará, se mostrará e nos presenteará com o que precisarmos. E a gratidão é justamente essa porta que abrimos para Ele. Quando o reconhecemos em tudo, Ele se aproxima ainda mais e aí o reconhecemos ainda mais e, assim, forma-se um ciclo infinito e lindo.

A Terra repleta de Céu,
E cada arbusto comum incendiado com Deus,
Mas só aquele que vê tira os sapatos;
Os outros se sentam ao redor e colhem amoras
.

Elizabeth Barrett Browning

 

(aproveitando o assunto, quero agradecer ao meu filho Álef, de 2 anos, que ficou quietinho aqui em volta de mim, brincando, enquanto eu escrevia este post. Obrigada, filho! :) )


Luciana Mendes Kim sou eu. Mas, depois de um certo tempo, pode me chamar de Lu. Amo algumas pessoas bem conhecidas (a Clarice Lispector e o Wim Wenders, por exemplo ) e outras tantas do meu convívio. Amo ler ficção, ver filme parado, dançar música eletrônica, tomar chá com amigos queridos e ir ao Sesc com marido e filho. Um dia, conheci a Carol e a Talita e, juntas, criamos o Santa Paciência

Fazendo as pazes com a idade

Brazil_TerryGilliam
Cena do filme ‘Brazil’, de 1985 – uma distopia imaginada por Terry Gilliam

 

Com a proximidade dos meus 35 anos, também vêm chegando mais e mais pensamentos sobre o processo de envelhecimento. Mesmo que eu quisesse ignorar a realidade desse fenômeno, os sinais do meu corpo não me deixariam: já vejo alguns reflexos brancos nos meus cabelos e a minha pele mais marcada. Minha disposição para dançar, por exemplo, coisa que adoro, não é mais a mesma. Só de pensar no tempo que eu ficaria esperando na fila para entrar em alguma balada já me faz dar um suspiro profundo de cansaço. Abomino aglomerações e prezo mais do que nunca o silêncio. Resultado: me contento em dançar em casa mesmo, dentro das condições mais convenientes para mim (pois é, essa é a prova cabal de que estou, de fato, envelhecendo).

Mas o que poderia ser motivo para desespero está sendo trabalhado em minha mente para que se torne um aliado. Assim como quase todo ser humano desta geração, eu também não passei ilesa às influências do manual Disney-Hollywood para a vida: você só existe para o mundo se for jovem. Ou melhor, você pode até não ser jovem, mas sem dúvida alguma você precisa parecer jovem, mesmo que o preço para isso seja a sua identidade e você tenha que se transformar na Maga Patalógica (afinal, ela mesma é uma personagem Disney! Olha que ótima referência!).

Certa vez uma amiga me disse que nunca colocaria Botox ou nada que disfarçasse seu tempo de vida, porque aquelas eram as marcas de que ela tinha vivido. Achei isso tão sábio e… tão óbvio por ser um processo natural, não? De fato, viver deixa marcas, preenche os espaços vazios da nossa bagagem e escreve na pele da gente como hieróglifos de antigos egípcios nas paredes. É o corpo contando a nossa história: tombos levados na infância, artigos lidos com curiosidade de criança sobre rituais de tribos africanas, brincadeiras de professora com uma lousa caindo aos pedaços, a caixa d’água transformada em piscina (!) para duas amiguinhas em dia quente, o quase-afogamento numa piscina de verdade em Cuiabá; a paixão pelo inglês, a descoberta da literatura com Homero e Dostoiévski; os encontros dos adolescentes da igreja, os acampamentos, as experiências com Deus; o primeiro emprego no shopping, a viagem para Londres, os amigos que se foram e os amigos que chegaram; a faculdade de Letras, o mestrado, o casamento que não deu certo, a terapia que deu; a igreja maravilhosa que se tornou segunda família, o segundo casamento, o primeiro filho, o trabalho que finalmente faz sentido. Quanta riqueza!

Quando olho para o Álef, meu filho de 1 ano e 5 meses, penso no quanto a mochilinha de vida dele ainda é vazia. Se por um lado isso é promissor, claro que é, por outro, me causa um pouco de dó. Ele ainda não conhece tanta coisa bonita, profunda e gostosa como eu conheço… mal sabe ele o quanto a vida é incrível com suas dores e delícias. Vive na ignorância pura de uma existência ainda bebê.  Não consegue sentir o prazer de tomar grandes decisões por si mesmo, nem preparar uma comidinha saborosa na hora que quer. Não consegue ler Georges Bernanos, nem flutuar na suavidade da voz norueguesa do Kings of Convenience ou dançar ao som de Beirut (sou eu que proporciono esse prazer para ele, segurando-o no meu colo enquanto danço). Sua capacidade de apreender o mundo ainda é tão limitada! Que bom que nem sempre será assim para ele.

Por que então eu iria querer aparentar ter vivido pouco como o Álef ou como um adolescente? No que isso adiciona? Pelo contrário, subtrai! Recuso-me a ser uma pele repuxada para permanecer parecida com alguém que ainda não provou da vida. Não. O meu rosto é o distintivo da soma de todas as minhas experiências e quero me orgulhar dele, me sentir grata por tudo o que ele representa, por tudo o que de mim ele mostra para os outros. Que venham as rugas, os sulcos, as manchas, os cabelos brancos que um dia eu espero não tingir. Claro que me cuido e quero continuar me cuidando, mas se cuidar é bem diferente de se auto-enganar. Afinal de contas, assumir a vida é não temê-la, é entregar-se a ela toda até que, de tanto ter sido vida – em sua máxima capacidade – ela se esvaia de nós.


Luciana Mendes Kim trabalha na educação, é amante da literatura, sonha um dia escrever livros e aprender a tocar acordeão. É também uma das idealizadoras do Santa Paciência.